LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

A Serpente de Bronze, de Humberto de Campos


Edição de base:

Biblioteca Virtual Brasileira

 

 

 

A

 

Arnaldo Quintella e

 

Jayme Poggi

 

SIMILIA SIMILIBUS CURANTUR

 

Tornaram logo os israelitas a murmurar, pelo que mandou o Senhor contra eles serpentes venenosas, cuja mordedura queimava como fogo. E morrendo muitos com dores atrocíssimas, veio o povo ter com Moisés, e disse: "Pecamos contra o Senhor e contra ti; roga-lhe que nos livre destas serpentes". Anuiu Moisés ao pedido, e o senhor lhe deu a seguinte ordem: - "Faze uma serpente de bronze, e arvora-a no alto de um poste; e todo o que, sendo mordido, olhar para ela, será salvo". Obedeceu Moisés, e todos aqueles que tinham sido feridos, e olharam para a serpente de bronze, ficaram curados."

 

D. Antônio de Macedo Costa, Resumo da História Bíblica p. 39, pag. 71.

 

 

 

ÍNDICE

 

I - O FILÓSOFO

 

II - A ROSA AZUL

 

III - A BILHA

 

IV - O TROCO

 

V - A EPILÉTICA

 

VI - OS SUBMARINOS

 

VII - NINHO DO CURIÓ

 

VIII - ”VITÓRIA-RÉGIA”

 

IX - A MULATA

 

X - AS PERDIZES

 

XI - A OBRA PRIMA

 

XII - MAMÂE

 

XIII - A INTENÇÃO

 

XIV - OS JASMINS

 

XV - EDUCAÇÃO ANTIGA

 

XVI - AS CRUZES

 

XVII - O PERFUME

 

XVIII - EXPERIÊNCIA

 

XIX - ILUSÃO

 

XX - FERRABRÁS

 

XXI - INDEFESA

 

XXII - A SANTA CASA

 

XXIII - O GATO E O PASSARINHO

 

XXIV - A NOIVA DO DONATO

 

XXV - O DATILÓGRAFO

 

XXVI - O MILAGRE

 

XXVII - A SURPRESA

 

XXVIII - AS FOLHAS

 

XXIX - AS JACOBITAS

 

XXX - A CHÁCARA

 

XXXI - MANIAS

 

XXXII - FEMINICE

 

XXXIII - CHAVES E FECHADURAS

 

XXXIV - O MONSTRO

 

XXXV - A "FESTA DOS OVOS"

 

XXXVI - APARÊNCIAS

 

XXXVII - A COBERTA

 

XXXVIII - A DERRADEIRA "MORADA"

 

XXXIX - A PUNIÇÃO

 

XL - O NABABO

 

XLI - A CONFISSÃO

 

XLII - POLÍTICA

 

XLIII - O AMIGO

 

XLIV - A LIÇÃO

 

XLV - OS GÊMEOS

 

XLVI - AS CAMISAS

 

XLVII - O SONÂMBULO

 

XLVIII - O AMBICIOSO

 

XLIX - O SOVINA

 

L - CERIMÔNIAS NUPCIAIS

 

LI - A PEDRA DOS NAMORADOS

 

LII - O PORCO

 

LIII - REVELAÇÃO

 

LIV - RESPOSTA DIFÍCIL

 

LV - O TROPEIRO

 

LVI - PARÁBOLAS

 

LVII - A ADÚLTERA

 

LVIII - OBEDIÊNCIA

 

LIX - AS LOÇÕES MIRACULOSAS

 

LX - A VINGANÇA

 

LXI - ALTRUÍSMO

 

LXII - MODAS...

 

LXIII - OS SUSPENSÓRIOS

 

LXIV - A BARONESA

 

LXV - A FOME NO AMAZONAS

 

LXVI - OS "REDDIS"

 

LXVII - FORTUNATO

 

LXVIII - O LIMO

 

LXIX - A VIRGEM

 

LXX - MELHORAMENTOS...

 

LXXI - A CAÇADA

 

LXXII - A MANICURA

 

LXXIII - MOCIDADE...

 

LXXIV - A PÉROLA

 

LXXV - OS MÉDICOS

 

LXXVI - O "BRAVO DOS BRAVOS"

 

LXXVII - O PÉ E O SAPATO

 

LXXVIII - O PATRÃO

 

LXXIX - AS "GAFFEUSES"

 

LXXX - OS HORRORES DA GUERRA

 

LXXXI - PAVORES DE ENFERMO

 

LXXXII - O ELEFANTE

 

LXXXIII - O RIO PURÚS

 

LXXXIV - REPRESÁLIA

 

LXXXV - O PRÊMIO

 

LXXXVI - A CIDADE INDISCRETA

 

LXXXVII - O LADRÃO

 

LXXXVIII - O PRESTÍGIO DO "ROUGE"

 

LXXXIX - A FESTA DA INTELIGÊNCIA

 

XC - CONSEQÜÊNCIAS DO PROTOCOLO

 

XCI - OS COLCHETES

 

XCII - O VESTIDO

 

XCIII - CONVENIENTES DO CIÚME

 

XCIV - MIOPIA

 

XCV - O SAPATEIRO

 

XCVI - ENTRE OS PAPUAS

 

XCVII - AS "MENINAS"

 

XCVIII - ELAS...

 

XCIX - BARBA DE BODE

 

C - O TRIUNFADOR

 

CI - A CORNUCÓPIA

 

CII - O MILAGRE DE S. BENEDITO

 

CIII - O LEILÃO

 

CIV - LÂMPADAS E VENTILADORES

 

CV - MILITARISMO

 

CVI - APÓLOGO SERTANEJO

 

CVII - AS GARRAFAS

 

CVIII - PELE CURTA

 

CIX - MALITIA SEXUS

 

CX - MME. LONDON BANK

 

CXI - EFEITOS DO TANINO

 

CXII - ZURTZ

 

CXIII - A CHUVA LUMINOSA

 

CXIV - PEDRAS PRECIOSAS

 

CXV - O BRAVO

 

CXVI - SÃO FILOMENO

 

CXVII - O JAVALI DE CALYDON

 

CXVIII - AUTOS E "TAXIS"

 

CXIX - "GIGOLÔ"

 

CXX - CEFALALGIA

 

 

 

 

 

I

 

O FILÓSOFO

 

1° de janeiro

 

Educado no Colégio Caraça, o coronel Venâncio Figueira, fazendeiro em Uberaba, havia se contaminado, pouco a pouco, de filosofia e de latim, de modo a preocupar-se, mais do que o necessário, com os graves problemas da vida. Manuseador quotidiano de certos autores profanos, ele se punha, às vezes, a pensar, no alpendre da sua casa de fazenda:

 

- Sim, senhor! Esses filósofos têm razão! Este mundo é tão desigual, tão cheio de injustiças, de irregularidades clamorosas, que qualquer mortal, encarregado de fazê-lo, o teria feito melhor!

 

E acentuava, melancólico:

 

- Este mundo está muito mal feito!...

 

À noite, porém, reunida a família na sala de jantar, o velho fazendeiro arreganhava os óculos no nariz, tomava a "Bíblia", chegava para mais perto o lampião de querosene, e punha-se a ler, pausado, o "Livro de Jó". E começava, de novo, a meditar, diante destas palavras do capitulo 38:

 

"4. Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? Faze-mo saber, se tens inteligência.

 

"25 - Quem abriu para a inundação um leito, e um caminho para os relâmpagos e trovões?

 

"41 - Quem prepara aos corvos o seu alimento, quando os seus filhotes implumes gritam a Deus, e andam vagueando por não terem de comer?"

 

Certo dia, dominado pelas idéias reacionárias bebidas em autores modernos, passeava o coronel pelo pátio da fazenda, quando, ao ver as andorinhas que voejavam por cima do gado, voltou novamente a raciocinar:

 

- É isso mesmo, não há duvida! O mundo é muito mal arranjado. Aqui está, por exemplo; este boi. Porque, tendo ele chifres, patas, orelhas, e sendo tão forte, há de viver sempre na terra, a arrastar-se pelo solo, quando aquela andorinha, que não tem nada disso, se locomove, rápida, ligeira, dominando os ares?

 

Nesse momento, porém, uma andorinha que lhe passava por cima, deixou escapar alguma cousa que lhe fazia sobrecarga, e que foi cair, certeira, na cabeça descoberta do coronel. Este levou a mão instintivamente à calva, e, olhando os dedos brancos daquela indignidade, caiu de joelhos, clamando, arrependido:

 

- Perdoai-me, Senhor, perdoai-me! O mundo está muito bem organizado! O que nele há, o que nele vive, o que nele existe, foi feito com perfeição, com acerto, com sabedoria!

 

E levantando-se, limpando a mão:

 

- Imagine-se que fosse um boi....

 

II

 

A ROSA AZUL

 

4 de janeiro

 

O comendador Luiz de Faria acabava de fechar os olhos à velha marquesa de São Justino, adoçando-lhe o momento da morte com a noticia alvissareira e mentirosa da completa regeneração do seu neto, o estudante Guilherme de Araújo, quando o encontrei à porta da casa funerária, à espera do seu automóvel. Abalado, ainda, pela emoção daquele instante, em que tivera de lançar mão de uma falsidade para perfumar o último sopro de uma vida de virtudes e sofrimentos, o antigo par do reino português aceitou um lugar no meu "taxi", e confessou-me, em viagem:

 

- A mentira, meu amigo, é, às vezes, uma necessidade. Aquela de que me socorri há meia hora, para suavizar a morte de uma santa, de uma senhora cuja maior esperança consistia no futuro de um neto que se desgarrara do lar, era tão necessária como a do prior da Cartuxa para alegrar a agonia daquele célebre monge do Bussaco.

 

Eu olhei, interrogativamente, o meu companheiro de viagem, e ele, percebendo a ignorância, indagou, com admiração:

 

- Não conhece, então, a lenda da rosa azul?

 

À minha afirmativa, que lhe pareceu estranha, o comendador apoiou as mãos robustas no castão de ouro da bengala, e contou:

 

- No Mosteiro da Cartuxa, no Bussaco, em Portugal, vivia, em séculos que já se foram, um piedoso e santo monge, cuja vida se consumia, inteira, entre a oração e as rosas. Jardineiro da alma e das flores, passava ele as manhãs de joelhos, no silencio da nave, aos pés de um Cristo crucificado, e as tardes, no pequeno jardim da ordem, curvado diante das roseiras, que ele próprio plantava e regava.

 

O comendador interrompeu um momento a narrativa, recostou-se na almofada, e continuou:

 

A sua paciência de jardineiro era absorvida, entretanto, por uma idéia, que era um sonho: encontrar a rosa azul das legendas do Oriente, de que tivera noticia, uma noite, ao ler os poemas latinos dos velhos monges medievais. Para isso, casava ele as sementes, os brotos, fundia os enxertos, combinando as terras, com que as cobria, e as águas, com que as regava, esperando, ansioso, o aparecimento, no topo da haste, do sonhado botão azul! Ao fim de setenta anos de experiências e sonhos, em que se lhe misturavam na imaginação as chagas vermelhas de Cristo e as manchas celestes da sua rosa encantada, surgiu, afinal, no coroamento de um galho de roseira, um botão azul, como o céu. Centenário e curvado, o velhinho não resistiu à emoção; adoeceu, e, conduzido à cela, ajoelhou-se diante do Crucificado, pedindo-lhe, entre soluços pungentes, que, como prêmio à santidade da sua vida, não lhe cerrasse os olhos sem que eles vissem, contentes, o desabrochar da sua rosa azul.

 

Uma nova pausa, e o meu companheiro tornou:

 

- Em volta do santo velhinho, no catre do mosteiro, todos choravam, compungidos. E foi, então, que, divulgada de boca em boca, foi a noticia ter a um convento das proximidades, onde jazia, orando e sonhando, uma linda infanta de Portugal. Moça e formosa, e, além de formosa e moça, - fidalga e portuguesa, compreendeu a pequenina freira, no jardim do seu sonho, o valor daquela ilusão, e correu à sua cela, consumindo toda uma noite a fazer, com os seus dedos de neve, uma viçosa flor de seda azul, que perfumou, ela própria, com essência de gerânio. E no dia seguinte, pela manhã, morria no seu catre, sorrindo entre lágrimas de alegria, por ter nas mãos tremulas, por um milagre do céu, a sua rosa azul!

 

O "taxi" parava no meio-fio da calçada, o comendador acrescentou, estendendo-me a mão agradecida:

 

- Feliz, meu amigo, aquele que morre, como esse monge e a marquesa, apertando nas mãos a rosa, mesmo mentirosa, de uma roseira de que cuidou toda a vida.

 

III

 

A BILHA

 

9 de janeiro

 

Sentado em um banco de madeira tosca, colocado por ele próprio diante da sua chácara do "Bom Retiro", a dois quilômetros de São Fidelis, olha o coronel Saturnino as grandes águas do Paraíba, que rola, sereno e inchado, no rumo de São João da Barra. A cinco metros do honrado fazendeiro, no leito do rio, emergem duas cabeças queridas: a do filho, o Alfredinho, um pirralho louro, forte, vivaz, de quatro anos, feitos em setembro, e a da sua segunda esposa, D. Florinda, cujos cabelos castanhos, soltos e molhados, lhe orlam, como um capuz de freira, o formoso rosto moreno. O fazendeiro olha, sorrindo, os dois banhistas que lhe enchem o coração, e dá ordens:

 

- Não vá para longe, Alfredo. Fique aí mesmo.

 

E para a esposa:

 

- Mergulhe, Lindinha. Está com medo?

 

A moça dá um mergulho ligeiro, e aparece mais distante, com os lindos olhos fechados, para que lhe escorra melhor sobre o colo forte, como pérolas dissolvidas, a água que lhe encharca os cabelos.

 

Diverte-se o coronel, assim, com os dois anjos que lhe constituem a família, quando, tomando uma bilha velha e inservível que se achava próxima, se põe de pé, e a atira, longe, um exercício dos músculos vigorosos, na corrente do rio. Apanhada pela correnteza, a vasilha de barro começa a descer, rápida, rodopiando, arrebatada pelas águas. De repente, porém, com a boca para cima, começa a encher-se, afundando-se pouco a pouco, até que desaparece, sem deixar vestígio, no tumulto um redemoinho fervente.

 

Alfredinho olha, atento, a viagem da vasilha, e, vendo-a desaparecer na voragem, franze o cenho infantil, perguntando, intrigado, ao velho:

 

- Papai, por que é que a bilha foi para o fundo?

 

- Porque entrou água; está claro! - explicou o coronel.

 

- Ela não estava com a boca para cima?

 

- Estava, sim.

 

- E como entrou água?

 

- Porque estava furada, - tornou o velho.

 

O pequeno meditou um instante, franziu a testazinha inteligente, e, olhando Dona Florinda, que se encaminhava com o rosto fora dágua, para o meio do rio, gritou, alto, alarmado, com a vozinha fina:

 

- Mamãe, venha mais p'ra beira!...

 

IV

 

O TROCO

 

12 de janeiro

 

O Joaquim P'reira acabava de chegar da "terra" com o seu chapelão de abas largas e seu sólido jaquetão de veludo, quando "sô" Manoel Guimarães, proprietário da Padaria "Flor de Braga", o convidou para caixeiro.

 

- O essencial - avisou, entretanto, "sô" Manoel, - é que sejas honesto. O outro rapaz que eu cá tinha, pu-lo eu ontem na rua por m'haver deitado fora dois mil réis que dele não eram. Toma tu juízo, que, cá, comigo, prosp'rarás.

 

O Joaquim prometeu não bulir, jamais, em dinheiro da casa, e, dois dias depois, era admitido, com todos os sacramentos da rosca e da farinha de trigo, como caixeiro da "Flor de Braga". E estava já há uma semana no emprego, quando "sô" Manoel o chamou:

 

- "Sô" P'reira?

 

- Cá 'stou! - acudiu o Joaquim.

 

- Vá à casa do Almeida, no principio da rua, e receba esta conta de vinte mil réis.

 

E recomendou, prudente:

 

- Cuidado com o dinheiro!

 

O Joaquim pegou na conta, foi à casa indicada, recebeu uma cédula de vinte mil réis, e vinha, reto, no rumo da padaria, quando se encontrou com um conterrâneo, o Zé Moreira, a quem não tinha visto desde a chegada. Trocados os primeiros abraços, o Moreira convidou:

 

- Vamos solenizar o encontro! Arre, lá! Vamos cá à cervejaria!

 

Aceito o convite, foram os dois, beberam duas garrafas, trocaram notícias e saudades, e ia o Joaquim despedir-se, quando o Zé reclamou:

 

- E quem paga isso?

 

- Tu; ora essa!

 

- Mas eu cá não tenho um vintém; e se não pagares tu, iremos os dois bater à cadeia, o que é pior!

 

Amedrontado e arrependido, o Joaquim arrancou do bolso a cédula de vinte, pagou os mil e seiscentos da cerveja, recebeu dezoito mil e quatrocentos de troco, e ia pensando no meio de justificar-se perante "sô" Manoel, quando teve uma idéia, que pôs em pratica. Entrou na padaria pela porta lateral e, chamando o "Leão", um canzarrão que tomava conta da casa, pôs-se a brincar com ele, aos pulos, até que, de repente, soltou um grito.

 

- Que é isso lá? - trovejou "sô" Manoel, acorrendo.

 

Com os olhos em lágrimas, o P'reira contou o desastre:

 

- Foi uma desgraça, patrão! Imagine o senhôre, que eu vinha cá com o dinheiro na mão, uma cédula de vinte mil réis, e o cachorro avançou-me neles, e engoliu-os!

 

"Sô" Manoel franziu a testa, calculou o prejuízo, e, de um salto, estava diante do "Leão", empunhando uma garrafa de óleo de rícino. Auxiliado pelo Joaquim, abriu a boca ao animal, e, depois de purgá-lo, recomendou ao rapaz:

 

- Agora, fica-te cá, junto do bicho, à espera do dinheiro. Logo que ele o deite, segura-o. Meia hora depois estava "sô" Manoel de volta, a saber noticias do purgante:

 

- Já deitou o dinheiro? indagou do empregado.

 

O Joaquim, que esperava, ansioso, por esse momento, abriu a mão, e mostrou, desafogado:

 

- Todo, todo, não senhôre; até agora só deitou 18$400!

 

E entregou o troco da cerveja.

 

V

 

A EPILÉTICA

 

16 de janeiro

 

- Estás, então, separado de tua esposa?

 

- É verdade; internei-a em uma casa de saúde.

 

E como se tratasse de uma palestra afetuosa, entre amigos que lia muito se não viam, o mais moço dos dois, o Sr. Nataniel de Miranda, caixeiro viajante de uma conceituada casa da praça, justificou a sua conduta:

 

- A situação em que dia me colocou era intolerável. Eu seria um perverso, um miserável, um desumano, se conservasse na minha companhia uma senhora sabidamente enferma, perseguida por moléstia tão delicada.

 

- Era, então, doente?

 

- Doentíssima! - confirmou o esposo inconsolável.

 

E como se visse nos olhos do amigo uma interrogação luminosa, um desejo de conhecer, fase por fase, os detalhes daquela tragédia de coração, tomou-o pelo braço e, fazendo-o sentar-se em uma das mesas do botequim, principiou, calmo, a descrever-lhe o caso, deixando esfriar, entre voltas de fumaça, as duas xícaras de café.

 

- Há muito tempo eu andava desconfiado da moléstia da Luisinha. Afastado sempre de casa por exigência mesmo do meu gênero de vida, ora em excursão pelo interior de Minas, ora por S. Paulo, era com estranheza, com mágoa íntima, que eu observava, de mês para mês, a mudança nos modos de minha mulher. A transformação do seu caráter, das suas maneiras, do modo, enfim, por que definhava, a olhos vistos, fazia-me triste, aflito, preocupado, na suspeita de que alguma coisa de grave, de anormal, se estava passando na sua saúde. Em uma dessas viagens, com a alma carregada de preocupações, confessei a um parente meu, fazendeiro em Uberaba, a desconfiança, que eu tinha, de que ela sofria de ataques, na minha ausência. Ele escutou-me, pensou um momento, e, chamando-me para o interior da casa, perguntou-me porque eu não tirava a limpo essa dúvida, empregando, no caso, a experiência da tigela de leite.

 

- Da tigela de leite? - interrompeu o amigo.

 

- Da tigela de leite, sim.

 

E continuando:

 

- Esse fazendeiro explicou-me, então como era a prova. Pega-se uma tigela de leite, e põe-se debaixo da cama, em um lugar que corresponda ao meio do colchão. Em seguida, toma-se de uma colher, ou de uma vara de uns dois palmos, e amarra-se no estrado de arame, de ponta para baixo, exatamente sobre a tigela, de modo que, com o peso natural de uma pessoa, não chegue até o leite, mas de maneira que, com um movimento mais forte, como nos ataques de epilepsia, a colher, ou coisa semelhante, molhe a ponta no liquido da tigela, registrando o fenômeno.

 

- E fizeste a experiência?

 

- Espera aí. Chegado ao Rio, procurei um momento em que a Luisinha se achava ausente, e fiz o que me haviam aconselhado. com a diferença, apenas, da colher, que, por ser a cama um pouco alta, foi substituída na ocasião, por um batedor de doce, que encontrei na dispensa da casa. Feito isso, declarei que ia a São Paulo, e parti. Dois dias depois, voltei.

 

- E então? - indagou o amigo, ansioso, com a curiosidade nos olhos.

 

- O batedor tinha batido tanto, tanto, que a tigela...

 

- Que é que tem? - interrompeu o outro.

 

E o desgraçado, enxugando os olhos:

 

- Estava cheia... de manteiga!...

 

VI

 

OS SUBMARINOS

 

18 de janeiro

 

À margem do Tietê, em lugar em que o rio se tornava mais claro e menos profundo, tomavam banho, uma tarde, sete ou oito crianças, de quatro a nove anos, entre as quais uma encantadora menina, a Lili, irmã do Armindinho, que era, no grupo, o mais insuportável e barulhento. Com a inocência peculiar à idade, apresentavam-se todos despidinhos, nadando, mergulhando, pulando, como um bando de golfinhos irrequietos.

 

O barulho que faziam, era, como facilmente se imagina, ensurdecedor. Entregues a si mesmos, rolavam-se na areia, atiravam-se terra, empurravam-se, nadando, ora de papo para cima, ora de papo para baixo, com as mãos em movimento dentro dágua, no "nado de cachorro", batendo com os pés, na imitação dos navios de roda, ou de barriga para o sol, agitando os braços ritmadamente, como escaleres em marcha pelo impulso regular de dois remos.

 

Estavam os pequeninos tritões no mais aceso do entusiasmo, quando o Armindinho propôs, gritando:

 

- Vamos brincar de submarino?

 

- Vamos! - concordaram os outros, aos pulos, com o busto fora dágua. - Vamos!

 

Unindo o gesto à palavra, o Armindinho atirou-se à frente dos companheiros, nadando, ágil, de peito para o ar, meio submerso, dando marcha ao corpo com o movimento das mãos debaixo dágua. Imitando o inovador, os outros pirralhos fizeram o mesmo, de papo para cima,, pernas estiradas, silenciosos, como uma verdadeira flotilha de submersíveis.

 

Momentos depois, de volta à margem, iam repetir a proeza, quando a Lili pediu, nuazinha, batendo as mãos:

 

- Eu também vou, mano, eu também vou! Sim?

 

O Armindinho encarou-a, com a superioridade de um oficial alemão, e protestou:

 

- Não; você não pode!

 

E virando-se para um dos companheirinhos, explicou, com a maior inocência do mundo:

 

- Ela não tem periscópio; não é?

 

VII

 

NINHO DO CURIÓ

 

20 de janeiro

 

Rosto em brasa, olhos vivos, cabelos alvoroçados, atravessava o Luizinho a praça do povoado, denunciando no desalinho das roupas, no fogo das faces, no susto das maneiras, a sua última travessura, quando, ao passar pela frente da igreja, foi detido suavemente, brandamente, pela bondade do padre Guilherme.

 

- Venha cá, ó Luizinho!

 

O garoto tremeu, desconcertado, e o vigário, homem de uns quarenta anos, insistiu:

 

- Venha cá!

 

Luizinho chegou-se, respeitoso, de olhos no chão e chapéu entre os dedos, e o sacerdote indagou:

 

- Então, por onde andou você, hoje?

 

- Eu?

 

- Sim, você.

 

O pequeno corou, envergonhado, e o padre, excelente pastor, pegou-lhe da mão, puxando-o para dentro da igreja.

 

- Venha cá; venha se confessar.

 

Um minuto depois estava o Luizinho, com os olhos muito espantados, ajoelhado no confessionário, a contar ao padre Guilherme o seu grande pecado do dia.

 

- Eu estive hoje na mata do outro lado do rio, tirando uns ninhos de curió... confessava o garoto.

 

- Ninho de curió? - estranhou o confessor, franzindo a testa. - Você não sabe, então, que é pecado tirar os ninhos das avezitas, roubando os pobres passarinhos ao conchego de seus pais?

 

Luizinho mantinha-se cabisbaixo, vermelho de arrependimento e de vergonha, e não respondeu. O vigário insistiu, porém:

 

- E onde foi que você achou esses ninhos de curió?

 

- Na ingazeira, junto do morro.

 

- E havia muitos?

 

- Havia, sim, senhor.

 

- Pois, não tire mais, não. É pecado, e pecado mortal!

 

Na manhã seguinte, após uma noite de apreensões aflitivas, ia o garoto procurar urnas vacas na outra margem do rio, quando viu, ao longe, o vulto de padre Guilherme, que se aproximava, cauteloso, da ingazeira de que lhe falara na véspera. Luizinho escondeu-se, de um salto, em uma das moitas das proximidades, e observou tudo. Padre Guilherme chegou, com o breviário nas mãos e nariz no ar, examinou, sondou, olhou para um lado, olhou para outro, e, como não visse ninguém, descansou o livro na raiz da árvore, endireitou os óculos e subiu. Momentos depois, assinalados pelo piar dos passaritos implumes e pelo vôo das aves aninhadas, o servo de Deus descia da ingazeira, sustentando nas mãos os bolsos da batina, repletos de curiós.

 

Luizinho viu tudo isso, da sua moita, e não disse nada. Padre Guilherme apanhou o seu breviário e foi-se embora para a aldeia. Ele tomou, também, o seu varapau, e lá se pelo mundo ganhar a vida, até que, anos depois, homem feito, voltou, de novo, à terra do seu nascimento.

 

Forte, moço, querido das moças, ia, uma tarde, o Luiz pela praça da matriz, quando o detiveram pelo braço:

 

- Olá, Luiz, como vai?

 

- Oh! o Sr. padre Guilherme! - sorriu o rapagão, feliz.

 

E travou-se a palestra

 

- Então, veio à terra para casar, não?

 

- É verdade, sim, senhor.

 

O padre deu-lhe parabéns, mas, não satisfeito, insistiu:

 

- E a noiva?... Afinal, quem é a noiva?

 

Luiz encarou, firme, o reverendo, e trovejou:

 

- A noiva? Eu sou tolo, então, para lhe dizer quem é?

 

E, dando-lhe as costas, indignado:

 

- Pensa, então, que isto é ninho de curió?...

 

E afastou-se, resmungando.

 

VIII

 

"VITÓRIA-RÉGIA"

 

22 de janeiro

 

A canoa, puxada a quatro remos, descia o pequeno afluente do Amazonas, desviando-se, ligeira, das grandes manchas de plantas aquáticas que a correnteza preguiçosamente arrastava, quando o velho índio Tibúrcio, sustando a remada, começou a contar-me a mais formosa lenda daquelas ribeiras.

 

- Antigamente, meu senhor, este rio era limpo de toda sorte de aguapé, e de corrente tão clara que se podia ver, de dia, as traíras, os piaus e os mandís, rabeando, no fundo, no grande leito da areia dourada. Nesse tempo, morava na cabeceira do rio, onde as águas são mais puras, um velho índio, o famoso Tauí, cuja filha, Jaciara, assim chamada por ser a senhora da lua, era, com os seus olhos mais negros do que o acapú, a mais formosa moça das redondezas.

 

O caboclo enfiou, de novo, o úmido remo no grande leito do rio, fê-lo roncar, soturno, nas profundezas dágua silenciosa, e levantando-o, gotejante, continuou a narrativa:

 

- Um dia, voltando da caça, adivinhou Tauí, de longe, a presença de um estranho na palhoça que lhe servia de casa. Arrastando-se, como uma cobra, sobre as folhas do chão, estava o pobre pai a poucos passos da porta de esteira, quando de lá pulou um homem, que desapareceu, de um salto, no seio da mataria.

 

Duas remadas ressoaram, de novo, profundas, no leito do rio, impelindo a canoa, e Tibúrcio reatou a história:

 

- Furioso com a traição da filha, o índio, feroz, atirou-se contra ela, esganou-a, e abriu-lhe, de lado a lado, com a ponta da flecha, a caixa do peito moreno. Feito isso, enfiou no seu corpo as grandes unhas de tamanduá, e arrancou-lhe, sangrento, o coração ainda palpitante, que atirou, da porta da palhoça, à clara correnteza do rio.

 

Impeliu, mais uma vez, a canoa ligeira, fazendo roncar no seio da água o seu pesado remo de massaranduba, e rematou:

 

- Desde esse tempo, meu senhor, começaram a aparecer no rio estas verdes plantas errantes, cuja flor, alva como a lua, dorme no fundo das águas, e rebenta, à noite, com grande estampido, espalhando por tudo, em redor, a doçura do seu perfume.

 

E apontando-me uma "vitória-régia" que descia, alva e enorme, nos braços cariciosos das águas, acrescentou, compungido:

 

- Olhe, lá vai uma. É o coração de Jaciara...

 

E impeliu a canoa, com força.

 

IX

 

A MULATA

 

26 de janeiro

 

Aumentados com a descoberta do Brasil os limites civilizáveis do mundo, compreendeu Jeová, do seu trono de nuvens, a necessidade de multiplicar o homem, para povoar, em nome da sua gloria, as novas regiões desbravadas. De que espécie devia ele encher, porém, a terra maravilhosa, que se mostrava tão promissora? A raça branca, que ele tanto amava e protegia, dominava, já, na Europa tumultuosa. A Ásia, berço da humanidade e dos grandes mistérios eternos, fervilhava de homens amarelos, que a enchiam toda, e que se haviam derramado, aventureiros, pelas ilhas circunvizinhas. À própria raça negra, que tanto se lamentava da sua condição e do seu destino, coubera a África inteira, de que se tornara senhora. Fazia-se mister, pois, criar um tipo novo, urna raça nova e bendita, que se apropriasse com autoridade e com orgulho, da nova terra exumada das ondas.

 

Resolvido isso, tomou o Senhor do seu camartelo, do seu buril, da sua verruma, do material, em suma, com que trabalhava na fabricação meticulosa dos seres vivos, e, misturando um pouco da pasta com que fizera o negro, com outra, absolutamente igual na dosagem, de que fabricara o branco, formou com as duas, uma pasta morena e macia, em que se pôs a modelar, cuidadoso, uma figura de mulher.

 

Concluída a obra, o estatuário quedou fascinado. Última flor do jardim humano em que pusera toda a sua experiência de escultor inexcedível, a nova Afrodita resumia, com os seus olhos negros, os seus cabelos crespos, as suas linhas voluptuosas e a sua pele acentuadamente castanha, todos os encantos e todas as graças da criação. Deslumbrado, encantado, embevecido, Jeová mirou-a, remirou-a, examinou-a, banhou-a com a luz dos seus olhos, e, de repente, com um sorriso, teve uma idéia. Foi ao laboratório, tomou nas mãos uma folha de cebola, um dente de alho, amassou-os, triturou-os, diluiu-os e, voltando à estatua, friccionou-lhe pausadamente os ombros, as espáduas e a parte superior e interna dos braços. Em seguida, ordenou-lhe, recuando:

 

- "Surge et ambula!"

 

A estatua moveu-se, preguiçosa, e com um andar lúbrico, remexido, sensual, desceu do solo em que fora polida.

 

Jeová sorriu, de novo, e, com orgulho paternal, apontou-lhe para debaixo do braço, dizendo-lhe, como dissera a Constantino, na legenda sagrada:

 

- "In hoc signo vinces!"

 

A mulata abriu os lábios num sorriso dengoso, e, como o Criador lhe indicasse, com um gesto, o caminho da terra, através das estrelas, rumou, enamorada de si própria, em direção ao Brasil. Vinte e quatro horas depois, porém, batia, de novo, à porta da oficina celeste.

 

- Você por aqui, ainda? - estranhou Jeová, espantado.

 

A mulata baixou os olhos, procurando justificar-se:

 

- Foi impossível chegar ao meu destino, meu Senhor; e eu, então, regressei, ali, das nuvens.

 

- Por que? - trovejou o Criador, indignado.

 

E ela, corando, envergonhada:

 

- As almas dos portugueses não me deixaram passar...

 

X

 

AS PERDIZES

 

30 de janeiro

 

Chegado do interior de Minas, onde nasceu, vive, e não sabe se morrerá, o capitão Venâncio Pimentel, coletor em Poço Fundo, ficou deslumbrado com o Rio de janeiro. Com uma dezena de contos no bolso, provenientes da arrecadação semestral da coletoria, tomou o simpático sertanejo a deliberação de conhecer a cidade, guiando-se por si mesmo, dispensando, em tudo, o auxilio de estranhos. Teatros, cinemas, restaurantes, subúrbios, estabelecimentos públicos, tudo isso recebeu, de passagem, a visita da sua curiosidade.

 

Nada, porém, lhe causou tanta admiração, como a quantidade de mulheres desacompanhadas que encontrava na rua, principalmente nas proximidades do ponto dos bondes da Jardim Botânico, depois das nove horas da noite. Adivinhando-lhe a procedência, e farejando-lhe o dinheiro, essas criaturas infelizes acercavam-se do forasteiro, olhando-o de esguelha, sorrindo-lhe com brejeirice, num desafio maneiroso e calculado. Ele fixava então, a leviana, que tomava o bonde, e acompanhava-a até a Lapa, até o Catete, ou até a Glória, de onde voltava ao ponto de partida, para experimentar, de novo, quatro, cinco, seis, oito vezes, as mesmas sensações da conquista.

 

Uma destas noites, ia eu tomar o carro, às onze horas, em companhia do Sr. deputado Antônio Carlos, quando este descobriu, no ponto de costume, o capitão Venâncio, a quem me apresentou, contando-me, ao mesmo tempo, a fraqueza do seu velho correligionário e concidadão.

 

- Que gosto acha o senhor nessa extravagancia, Sr. Pimentel? - perguntei eu, escandalizado, ao mineiro, acentuando as palavras com a tonalidade proposital da minha censura.

 

- Gosto? - atalhou o sertanejo. - Gosto, eu não acho nenhum. Eu acho é engraçado.

 

- Engraçado? - estranhei.

 

- Sim, senhor. Eu faço isso para me lembrar de Minas, das minhas caçadas no Poço Fundo. Cada mulherzinha dessas é mesmo que perdiz.

 

- Perdiz? - interveio o Dr. Antônio Carlos, admirado.

 

- Sim, senhor. Vossa Senhoria nunca andou caçando perdiz?

 

E explicou, ajudando a palavra com a mímica:

 

- A gente vai, às vezes, pelo mato, pisando aqui, pisando ali, cauteloso. com a espingarda calada, quando ouve, de repente, um barulho no chão, entre as folhas. Olha, e vê: é a perdiz que está no folhedo, imóvel, quieta, olhando p'ra gente. Sentindo-se descoberta, solta um vôo baixo, rasteiro, junto do solo. A gente não atira: vai andando, vai seguindo, vai acompanhando a bicha, até que ela, afinal, chega no ninho.

 

- E quando a perdiz chega no ninho, que é que faz? - indaguei, curioso.

 

E o capitão, rindo:

 

- Que é que faz? Deita-se!

 

E saltou para o estribo de um bonde, espantando uma revoada...

 

XI

 

A OBRA PRIMA

 

2 de fevereiro

 

O almirante Ribas acabava de referir às senhoras, à mesa de jantar, a origem da mulata nacional, tal como eu a contei, aqui, há poucos dias, quando o desembargador Pessegueiro, recompondo as guias do bigode grisalho e cuidado, atalhou, com orgulho:

 

- Há engano nessa tradição, Sr. almirante: há engano. A mulata não teve origem no céu, como se diz; a sua origem, para gloria nossa, é toda terrena.

 

E recostando-se na cadeira, apoiando-se na mesa com ambas as mãos, começou, pausado, a sua narrativa:

 

- O preto, o branco e o amarelo, que habitam a África, a Europa, a Ásia e a Oceania, foram, realmente, modelados por Jeová, que os reconheceu, de fato, como seus filhos. Atirando-os, aos milhares, ao mundo, ele os conhecia todos, regulando-lhes a vida e a morte. E tanto assim, que, quando aparecia, no céu, de volta da terra, um branco, um preto ou um indivíduo de raça asiática, ele tomava, paternal, pela mão, reconduzindo-o ao convívio dos bem-aventurados.

 

Feita uma pequena pausa, o desembargador continuou:

 

- Certo dia, porém, bateram à porta de ouro do céu. Solícito, como sempre, S. Pedro correu a abri-la, e recuou, deslumbrado: era a primeira mulata que, requebrada, cheirosa, encantadora, incomparável, penetrava, triunfante, no Paraíso!

 

As senhoras sorriram, admirando o entusiasmo do velho magistrado, e ele, sorrindo com elas, retomou o fio à narrativa:

 

- A presença daquela criatura estranha, rica de encantos, de graças, de seduções, agitou, de pronto, a morada celeste. Anjos e serafins rodeavam-na, fascinados, tontos, embriagados de beleza. Estrelas que viviam isoladas no azul, achegavam-se, cochichando, formando constelações. E uma grande música religiosa ressoou pelas alturas, celebrando, num enlevo, o maravilhoso acontecimento.

 

Nesse ponto, com os braços e os lábios abertos, o desembargador quedou-se, como num êxtase. Passado um minuto, continuou:

 

- Avisado da novidade, Jeová quis, ele próprio, ver o prodígio; e, descendo do seu trono de pedrarias, encaminhou-se, com o cortejo de arcanjos, no rumo da porta, de se achava a mulata, rodeada de santos e querubins. Chegando aí, ao vê-la, ele próprio recuou, tapando os olhos com as mãos; diante dele, a cabeça pendida para um lado, os lábios entreabertos num sorriso, e os olhos entrefechados num delíquio, a recém-chegada esperava-o, doce, linda, maravilhosa! Passado o primeiro momento de pasmo, o Supremo Arquiteto levantou o rosto venerável, e, com a barba soberba derramada pelo peito largo, bradou, deslumbrado:

 

"- Eu fiz a raça preta, que povoou a Líbia ardente, suportando, impassível, o fogo dos desertos. A raça amarela, cujas mulheres, pequeninas e tímidas, enchem a Ásia, é obra minha. A mulher branca, delicada, mimosa, de olhos azuis e cabelos de ouro, saiu das minhas oficinas. Que artífice terá, porém, imaginado e realizado esta jóia, esta obra-prima da natureza, esta flor incomparável da criação?"

 

Nesse momento, os bem-aventurados abriram alas, deixando ver uma figura curiosa: barba feita, bigode retorcido, correntão de ouro atravessado sobre o colete, que lhe dava maior vulto à obesidade, apareceu, sorridente, o Manél da Venda, exclamando, com orgulho:

 

- Eu, Senhor!

 

Ante essa confissão, Jeová não resistiu: encaminhou-se para o Manél, que o olhava desafiadoramente, e, sem se conter, bradou, com os olhos úmidos:

 

"- Mestre!..."

 

E apertou-lhe a mão, comovido.

 

XII

 

MAMÂE

 

5 de fevereiro

 

Chepélinho de palha de grandes abas e de grandes fitas atirado para a nuca e preso ao queixo, em baixo, por um elástico de seda que lhe flagiciava as carnezinhas tenras; calcinha pelo joelho, cinto de mulher e bengalinha à mão, vai o Antoniquinho, com os seus três anos de idade, pela rua Gonçalves Dias, arrebatado pela pressa elegante da sua mamãe.

 

Seguro pela mão esquerda, com a bengalinha na direita, debalde procura o pequenito deter-se diante das vitrinas, para ver os manequins, os macacos de veludo, os ursos de pelúcia, os cavalinhos de pau, as coisas galantes ou vistosas que lhe encantam os olhos. A boquita quase do tamanho do pipo de borracha de que prescindira no ano anterior, não se cansa de papaguear. As suas perguntas, que são as mais ingênuas e atrapalhantes, ficam, porém, sem resposta. D. Odette vai, apressada, sem saber mesmo o motivo, e não pode prestar atenção, ao mesmo tempo, à gentileza dos conhecidos, que a saúdam atenciosos, e à insaciável curiosidade do Antonico.

 

De repente, com a atenção despertada por um rico vestido de passeio, a moça estaca, sem abandonar a mão do pequeno, diante de um mostruário de modista. Desinteressado das modas, Antonico prefere olhar uma vitrina da casa de flores e aves, que fica ao lado, e em que se vê, perto de um casal de grandes galinhas pretas, alguns ovos de raça. Sem outra coisa a perguntar no momento, o pirralho ergue os olhos muito negros e muito vivos, indagando, em voz cantada e doce, como a de um anjo:

 

- Mamãe, galinha preta põe ovo branco?

 

D. Odete não lhe responde; toma-lhe da mãozinha tenra, miúda como um jasmim, e parte, de novo, apressada. Adiante, porém, com a rapidez da marcha, Antonico atrapalha-se com a sua bengala de dois palmos de cumprimento, enfia-a entre as perninhas nuas, tropeça, rodopia, e vai ao chão, esfregando os joelhinhos no asfalto. Vem-lhe uma vontade de chorar, mais do susto do que da queda. O beicito treme, abotoando num cravo. D. Odete prevê, porém, o berreiro, suspende-o do solo pela mão, e infunde-lhe coragem, ânimo, dignidade, sacudindo-lhe com o lenço o joelhinho escoriado:

 

- Não chore, meu filho, não chore!

 

E sem dar pelo que dizia:

 

- Seja "homem", como sua mãe!

 

XIII

 

A INTENÇÃO

 

8 de fevereiro

 

A pequenina igreja de Santa Engrácia estava quase despovoada de fieis, que se iam retirando, um a um, molhando os dedos na água benta, quando o Onofre penetrou no templo, desconfiado, chapéu na mão, camisa para fora da calça, à maneira da terra, procurando falar a padre Lourenço, que se achava, no momento, arrumando a paramenta eclesiástica na pequena cômoda da sacristia. Ao ver o caboclo, afamado em toda a vila pela sua desenvoltura, o sacristão, o Zézinho, correu ao seu encontro, levando na mão, pingando cera, o apagador de velas com que abafava, naquele instante, as últimas luzes do altar-mor.

 

- Que é que você quer, Onofre? - indagou o sacrista. - Quer falar com "seu" vigário?

 

- Chame ele! - respondeu o caboclo, soturno.

 

Cinco minutos depois, após as explicações preliminares, estava o desordeiro ajoelhado diante do confessionário, torcendo o chapéu nos dedos, com o cabelo a cair, em cachos revoltos, sobre a testa e sobre os olhos.

 

- Qual é o pecado de que se acusa, meu filho? - indagou o sacerdote, bondoso, procurando conduzir com jeito aquela ovelha bravia.

 

O caboclo baixou a cabeça, e confessou:

 

- Eu não matei, nem roubei ninguém, não, "seu vigaro". Meu pecado é um pecadinho de nada. É uma porcariazinha de pecado que nem presta p'ra dizê.

 

- Conte, filho; conte sempre! - animou o padre.

 

Onofre tomou fôlego, e principiou a narrar:

 

- O'ie, "seu" vigaro, foi assim. Eu tinha brigado com o Chico Julião, da Lagoa Funda, e jurei tomá um desforço, dando as tripa. dele p'r'os urubu cumê. Ontem, de tardinha, me armei, e fui fazê o serviço. Ele tava na porta da casa com a muié e os fio dando cumê p'r'os bicho meúdo. Eu me apiei e avancei p'ra ele disposto a matá; mas fiquei tão penalizado, "seu" vigaro, com a vista da famia, daquela fiarada que ia ficá sem pai, que, em vez de matá o infiliz, só meti a pontinha da faca no couro dele, um pedacinho de nada. O cabra deu um pulo p'ra riba, e lá ficou vivo, só com um arranhãozinho na costela, feito p'ra amedronta. "Seu" vigaro acha que isso é pecado?

 

Padre Lourenço tomou uma pitada, assoou-se, com estrondo, no lenço de Alcobaça, que lhe tirava todas as dúvidas, e obtemperou, convicto:

 

- É pecado, sim, meu filho; é pecado. tão grande como o de morte!

 

- Mas eu não matei, "seu" vigaro! protestou o caboclo.

 

- Não importa. Houve o pensamento, a idéia de matar. É o que vale, meu filho, é a intenção!

 

Onofre baixou a cabeça, humilde, e o padre continuou:

 

- Eu vou dar-lhe uma penitenciazinha. você não torne a cair noutra.

 

Assoou-se, de novo, e explicou:

 

- Você vai rezar quarenta e oito padre-nossos, setenta ave-marias, e setenta salve-rainhas. Antes de sair, porém você vai pôr, ali, no cofre das almas. uma prata de dez tostões.

 

E levantando-se:

 

- Vá! O caboclo ergueu-se, pôs o chapéu debaixo do braço, exumou do bolso da calça uma prata de dez tostões que lá dormia, encaminhou-se para o cofre, que ficava perto da porta, e, jeitoso, começou a fricionar, com a moeda, a entrada da caixa, sem deixar, entretanto, que ela escapulisse para dentro. Feito isso, ia meter de novo a prata na algibeira, quando padre Lourenço, que o observava, gritou-lhe, de longe:

 

- Psiu! Que é isso? Vai levando o dinheiro?

 

O caboclo voltou-se, da porta, e protestou, com um risinho canalha:

 

- Uê! A "tenção" não vale?

 

E ganhou a rua.

 

XIV

 

OS JASMINS

 

11 de fevereiro

 

- Que linda flor, almirante; e que perfume!

 

Foi assim que a linda viúva Dagmar Antunes recebeu, num arrulho gracioso, a florzinha alva, a mimosa estrelinha de neve, que o almirante Ribas destacara, gentil, da botoeira do seu "smoking" impecável.

 

- Dona Dagmar não conhece, porventura, a história desta flor? - perguntou, risonho, o velho marinheiro, tomando lugar ao lado da moça, no mesmo canapé.

 

E como a encantadora senhora lhe respondesse com o enigma de um sorriso, o almirante começou, falando-lhe quase ao ouvido:

 

- Para a primeira mulher, como a senhora sabe, a expulsão do Paraíso teve a importância de uma verdadeira calamidade. A maldição de Jeová tombava, principalmente, sobre ela, sobre o seu destino, sobre a sua felicidade na terra. Era ela que ia sofrer, dali em diante, as dores da multiplicação da espécie. Era sobre ela que iam recair as penas, os trabalhos, os cuidados da vida doméstica. Era sobre ela, em suma, que iam pesar as preocupações do vestuário, da mudança quotidiana da folha de parreira. E, por isso, era com o coração aos pedaços que ela ia deixar, para sempre, aquele abençoado domínio do Senhor.

 

Nesse ponto, fez pausa, olhou os dentes miudinhos da moça, que continuava a sorrir, e acrescentou, bordando a fabula:

 

- Expulsos do Éden, Adão e Eva baixaram a cabeça, e partiram, tristes, humildes, abatidos, para a horrível solidão do degredo. Assim, porém, que ultrapassaram os limites do grande jardim das delicias, nossa primeira mãe não pôde mais. Os lindos olhos umedeceram-se-lhe, como violetas tocadas de orvalho. E à medida que ela ia andando, iam as lágrimas caindo uma a uma, dos seus grandes olhos, assinalando, na areia, como pérolas do mesmo colar, as curvas do seu caminho. No dia seguinte, porém, ao amanhecer, o rosto da primeira mulher iluminou-se de uma divina felicidade: marcando os seus passos no Deserto, a areia aparecia semeada de florinhas em forma de estrela, alvas como a inocência e cheirosas como o pecado!

 

Virou-se mais para a moça, e explicou:

 

- Foi assim, das lágrimas da mulher, que nasceram os jasmins!

 

E olhando-lhe nos olhos, com a voz trêmula:

 

- E foi nas pétalas dos jasmins, D. Dagmar, que Deus talhou os seus dentes!

 

XV

 

EDUCAÇÃO ANTIGA

 

14 de fevereiro

 

As pessoas que desceram à cidade sexta-feira pela manhã, ouviram falar, com certeza, em uma vaia de que teria sido vítima, em plena Avenida, uma senhorita inconvenientemente vestida. Indignadas com a competência daquela atrevida, outras senhoras explodiram em exclamações admirativas, a que os homens, para agradar à maioria, deram seguimento, rompendo em assuada.

 

A mim, me custa a crer que isso tenha acontecido, por uma circunstância muito natural por não ser possível, mais, na cidade, uma "toilette" capaz de motivar surpresa. As que se exibem na Avenida impunemente, todos os dias, são de tal ordem, que, para causar escândalo, pasmo, admiração, seria preciso, não, apenas, tirar o vestido de cima da pele, mas tirar a pele de cima do corpo.

 

Comentava eu esse incidente, ontem, à noite, em uma roda de damas e cavalheiros, quando uma das senhoras menos jovens, Dona Ernestina Vale, procurou uma explicação para esse descalabro:

 

- O motivo dessa falta de pudor de certas moças de hoje, - começou, perspicaz - deve ser atribuído, sr. conselheiro, aos próprios pais, ou, antes, às mães.

 

E expôs o seu pensamento:

 

- O senhor vê, hoje, como as mães vestem as crianças. Não há dia em que não encontremos na rua meninas de quatro, seis, oito e, até dez anos, com vestidinhos muito acima dos joelhos, com os bracinhos nus, o colozinho à mostra, numa exibição completa das suas carnesinhas tenras. Aos doze anos, já mocinhas, a "toilette" dessas criaturinhas apresenta pequena diferença. E como não tiveram, em criança, a noção do pudor físico, entram assim na mocidade, sem tentar esconder as partes do corpo que nunca lhes disseram que deviam ser escondidas.

 

- A senhora acha, então, que elas fazem isso sem maldade? - obtemperou o Dr. Austregésilo, tomando nota na carteira.

 

- Perfeitamente, doutor! Elas fazem isso com a maior inocência do mundo. Os índios não se apresentam inteiramente nus aos olhos dos civilizados? E não o fazem ingenuamente, inocentemente, por terem sido criados assim? Criemos as meninas com decoro, vestindo-as com discrição, e teremos moças discretas, pudicas, decorosas, ciosas do seu corpo e dos seus encantos.

 

E, dizendo-me isso, acrescentou, severa, calçando as luvas, deixando-me ver, pelo vestido decotado e sem mangas, dois sinaizinhos negros, quase imperceptíveis, que se lhe aninhavam um pouco abaixo das axilas:

 

- Assim é que eu fui criada!

 

 

 

XVI

 

AS CRUZES

 

17 de fevereiro

 

As senhores grazinavam, como periquitos em roçado, em torno da mesa do chá, quando Mme. Gama Simpson se curvou, rindo com alarido, sobre a toalha de linho bordada de cegonhas vermelhas, numa escandalosa explosão de alegria. Segurando em uma das mãos a taça de porcelana e na outra, fechadinha como um botão de rosa, uma torradinha cor de ouro, a linda criatura ria despreocupadamente, agitando-se na cadeira, quando, com o movimento do corpo, lhe saltou do colo de neve e rosa, pela janela de seda do decote, a sua custosa cruz de brilhante, fugindo-lhe para o ombro, com o risco de perder-se.

 

- Cuidado com a cruz, madame! - avisou, atencioso, do outro lado da mesa, o conselheiro Atanásio, que observava, sem perder um movimento do solo, as ondulações do Calvário e os arredores da Jerusalém.

 

D. Lisete olhou o decote, apanhou a cruz fugitiva, e, aconchegando-a à carne rosada, queixou-se, risonha:

 

- Também, que idéia esta, de inventar cruzes para o colo da gente!

 

- Vossa Excelência não sabe, então, o que elas significam, na opinião de Tabarin?

 

As senhoras mostraram-se curiosas de conhecer a origem daquele costume, e o antigo palaciano começou, medindo as palavras:

 

- Na Idade Média, quando eram deficientes os meios de comunicação de cidade para cidade, de aldeia para aldeia, de um castelo para outro castelo, os monges, que dominavam nos países barbarizados da Europa tomaram a si a incumbência de marcar os caminhos, cujas direções eram assinaladas por meio de cruzes. Ao deparar, na mata ou na montanha, um destes símbolos da cristandade, o viajante já sabia que não errara o seu roteiro, e que a estrada era, mesmo, por ali...

 

- Mas... - interrompeu, impaciente, Mme. Souza Batista.

 

- Espere... - implorou o conselheiro.

 

E continuou:

 

- Mais tarde, com o advento das modas femininas, e com o aproveitamento, por parte das mulheres, de todas as conquistas do homem, entenderam elas de utilizar o mesmo símbolo, com a mesma significação.

 

- A cruz no colo das mulheres quer dizer, então, alguma coisa? - interrompeu, franzindo a testa, Mme. Werther.

 

- Evidentemente, minha senhora! - tornou o conselheiro.

 

E explicou:

 

- Elas estão dizendo, como nas montanhas antigas, que... o caminho é por ali!

 

Quando o conselheiro terminou a sua narrativa, Mme. Simpson procurou a sua cruz de brilhantes, e tomou um susto. Com os seus modos estabanados, a cruz havia, de novo, abandonado o decote, e fugido para trás...

 

XVII

 

O PERFUME

 

(Sobre uma frase de Dumas Filho)

 

20 de fevereiro

 

Saída do colégio em dezembro último, Angelita recebeu da sua mamãe a promessa de um vestido de passeio, um verdadeiro vestido de moça, escolhido por ela mesma, assim que regressassem da fazenda, em Barra Mansa, depois do Carnaval. Inocente ainda, foi batendo os dois lírios das mãos que a menina ouviu a noticia. E foi, para ela, para os seus dezesseis anos incompletos, um momento de alegria irreprimível, aquele em que, sentado na sua cama alva, pura como um berço, escolheu, manuseando uma dúzia de revistas de modas, o figurino que mais lhe encantava os olhos.

 

Feita a encomenda a uma das modistas do bairro, foi esta, dias depois, levar o vestido à última prova. Contente, feliz, pulando pela casa, era com uma jovialidade descomedida que Angelita recebia a costureira. E não foi sem um certo calor na face, e sem um certo tremor nos dedinbos afilados, que desabotoou a sua blusinha leve, patenteando os encantos do seu colo virgem, do seu corpo desabrochante, aos olhos daquela senhora estranha, habituada a ver, certamente, por aí, por exigência do seu próprio ofício, centenas de corpos pecadores.

 

- Tire o corpinho também, mademoiselle, - ordenou a modista.

 

A menina enrubesceu mais:

 

- O corpinho, também?

 

Minutos depois, trajando o seu lindo vestido novo, Angelita abria de par em par a porta da sua alcova, onde estivera encerrada, sozinha, com a costureira. Estava deslumbrante. Era um maravilhoso figurino de verão, bordado a seda, com um rosário de pequeninas flores à cintura, que lhe punha em destaque, no colo e nos braços, a imaculada frescura da pele. Curvando-se, risonha, numa grande mesura, foi a mocinha perguntando, logo, a D. Adelaide:

 

- Então, estou linda?

 

A ilustre senhora, que a esperava na sala de jantar, junto à mesa, abriu os braços, para receber a filha.

 

- Que tal? - tornou a moça.

 

D. Adelaide beijou-a nos cabelos castanhos e, com um sorriso de bondade, em que lhe ia toda a sua alma, externou o seu pensamento:

 

- Está muito bom, muito lindo, mas falta uma coisa.

 

A menina arregalou os grandes olhos escuros, imobilizando no rosto um sorriso de espanto.

 

- É aqui! - explicou a senhora, pondo-lhe a mão aberta sobre o colo de neve.

 

E abraçando a menina:

 

- As mulheres, minha filha, são uma essência delicada, de que o vestido é um vidro desarrolhado, por onde se evola, insensivelmente, o pudor da mulher...

 

E lançou, maternalmente, sobre o colo da filha, a macia misericórdia do seu claro lenço de seda.

 

XVIII

 

EXPERIÊNCIA

 

23 de fevereiro

 

Companheiros de mocidade, o comendador Otacílio Fagundes e o desembargador Portela haviam se separado, de repente, em uma das numerosas encruzilhadas da vida. Dedicados, um ao comércio, e outro a magistratura, havia cada um deles seguido o seu caminho, apertando a mão ao companheiro. E nunca mais tiveram noticia um do outro

 

E, no entanto, haviam os dois prosperado. Dirigindo-se para Santos, onde um tio, velho comerciante de café, lhe oferecia um lugar no escritório, progredira Fagundes rapidamente, até que se tornara, por morte do tio, o único proprietário da casa. Tomando o rumo da Corte, com a sua carta de bacharel, o amigo não havia sido menos feliz. Hábil, maneiroso, aproveitando as situações sem quebra de dignidade, não lhe foi difícil um cargo de juiz em pequena província do norte, onde regressara, afinal, ao sul, como desembargador aposentado.

 

Quarenta anos haviam decorrido, quase, sobre a separação dos dois infatigáveis campineiros, quando, um destes dias, indo receber um cheque no Banco do Brasil, o comendador Fagundes ouviu gritar, na pagadoria, ao portador de uma ordem de pagamento: - Francisco Ribeiro Portela!

 

Atendendo ao chamado, aproximou-se empertigado ainda, um ancião de sessenta anos, vestido com distinção, demonstrando nos modos, no porte, nas maneiras, saúde e prosperidade.

 

Ao anúncio daquele nome, o comendador Fagundes, que assinava o cheque em mesa próxima, voltou-se, rápido, com o peso das suas banhas e dos seus setenta anos, e encarou o outro. E encaminhando-se para ele, indagou:

 

- É o Francisco Portela, de Campinas?

 

- Sim, senhor.

 

- Eu sou o Otacílio Fagundes.

 

Um abraço enorme, que mais parecia um primeiro assalto de luta romana, selou esse encontro de duas saudades.

 

- Fagundes!

 

- Portela!

 

Três minutos depois estavam os dois velhotes a um canto, de pé, enxugando os olhos, trocando noticias da vida e da fortuna. O capitalista contou, primeiro, como ficara com de a casa do tio; como lhe corriam admiravelmente os negócios; como lhe havia sido, em suma, favorável, no mundo, a roda do Destino. E o magistrado contou-lhe, depois, como subira, como prosperara, como enriquecera, como havia chegado, enfim, ao mais alto posto da sua carreira, no Estado. De repente, porém, o comerciante indagou:

 

- E constituíste família?

 

- Eu? Não. Continuei solteiro. E tu?

 

- Eu casei-me.

 

- Casaste?

 

- É verdade.

 

- Há muito tempo?

 

- Não. Há dois anos. Casei com uma menina de vinte anos, minha afilhada, e já tenho um filhinho.

 

- Um filho? - indagou o desembargador, recuando.

 

E ao ouvido do comendador, indignado:

 

- E de quem tu desconfias?

 

XIX

 

ILUSÃO

 

25 de fevereiro

 

Abraçado a um poste de iluminação elétrica, tonto de cerveja e de fome, o velho boêmio levantou os olhos para as estrelas longínquas, naquela madrugada fria, sentindo a terra, em torno, estremecer e rodar. Com medo de cair, o notívago apertou mais o poste de encontro ao peito, fechou os olhos e começou a sonhar.

 

A principio era um monte de moedas de ouro, postas umas sobre as outras, que lhe dava quase pelos joelhos. De repente, o monte começou a subir, a crescer, a avolumar-se, atingindo a sua altura e galgando o espaço, rápido, como um caule dourado de crescimento vertiginoso. O boêmio acompanhava o desenvolvimento daquela árvore curiosa, quando, no escândalo daquela ascensão, lhe viu desaparecer a ponta nas nuvens, estabelecendo uma corda de ouro, fina e imensa, ligando a terra ao céu. Olhava-a ele admirado, quando ouviu uma voz, que lhe dizia:

 

- Sobe, Alfredo!

 

O notívago segurou-se à corda de ouro, feita de moedas acumuladas, e principiava a subi-la, quando esta, de repente, estalou, partindo-se, fazendo-o vir aos trambolhões pela altura, estatelar-se, com força, no chão.

 

Abrindo os olhos, o boêmio sentiu-se assentado no calçamento da rua, ao lado do poste. Espantado, passeou a vista em redor, e, detendo-a em certo ponto, viu, no asfalto, caída da algibeira de algum transeunte, uma pequena moeda de cem réis. Estendendo a mão, apanhou-a, revirou-a nos dedos, examinou-a, e, ao fim de tudo isso, pensou, num sorriso de consolo:

 

- Felizmente, sempre ficou, no chão, a ponta da corda!

 

E metendo o níquel no bolso, continuou, aos trancos, o seu caminho.

 

XX

 

FERRABRÁS

 

28 de fevereiro

 

O coronel Otaviano de Meireles, comandante de um batalhão da Guarda Nacional aquartelado em Niterói, era conhecido em toda a cidade pela sua valentia, e, em especial, pela sua intransigência em questões de honra. Casado com uma das senhoras mais formosas do bairro, era tal o pavor infundido pelo seu nome, que ninguém se atrevia, sequer, a levantar os olhos para a sua cara metade. Aquele que tal fizesse, era, na opinião de toda a gente, um homem liquidado.

 

Foi por esse tempo, e quando mais se acentuava, em toda a praia de Icaraí, a fama da coragem do coronel, que passou a residir na vizinha capital o jovem advogado Dr. Otacílio Fernandes, que não era coronel, nem major, nem capitão, nem tenente, mas fora, sempre, um dos mais famosos namoradores de Niterói. Proprietário do prédio em que o coronel residia, não foi necessário grande esforço da parte do moço para travar amizade com o inquilino; e esta foi tão rápida, e tão sincera, que, uma semana depois, era o Dr. Otacílio convidado para um almoço, no primeiro domingo, na residência do brioso militar.

 

Chegado o dia, lá estava, na praia de Icaraí, o jovem capitalista. Risonho, amável, dissimulando com um sorriso gentil a austeridade da sua fisionomia marcial, correu o dono da casa ao portão, para receber o convidado e fazê-lo subir até à sala, onde madame já o esperava, obsequiosa e linda, com o rosto a emergir, como uma grande rosa, das espumas de neve do seu elegantíssimo "peignoir" de linho e renda.

 

- O Dr. Otacílio Fernandes - apresentou o coronel.

 

E ao recém-chegado:

 

- Minha esposa...

 

Minutos depois, sentados à mesa redonda, em que havia apenas três talheres, a palestra corria jovial, feliz, entre petiscos saborosos e sorrisos significativos, quando o telefone tilintou. Era o procurador do coronel que reclamava a sua presença, urgente, na estação das barcas, para ultimação de um negócio inadiável.

 

- Diabo! - exclamou o bravo militar. Tenho de ir, não há remédio!

 

E virando-se para o capitalista, enquanto desamarrava o guardanapo:

 

- Esteja à vontade, doutor. É questão de meia hora. Fique por aí; eu não demoro!

 

E para a esposa:

 

- Orminda, faze as honras da casa; eu venho já!

 

Mal o coronel tomou o bonde, duas taças se chocavam no ar, por cima da mesa, festejando ruidosamente aquele encontro, há tanto desejado. E de tal forma foi a saudação, que, ao reentrar em casa, o coronel foi encontrar os dois no seu gabinete, num colóquio de excessiva intimidade. Apanhado em flagrante, o advogado pôs-se de pé, lívido. Apoiado na porta, que empurrara, o coronel encarou-o trovejando:

 

- Sim, senhor, Sr. Dr. Fernandes!

 

Pálido, trêmulo, o advogado lembrou-se da fama do coronel, e sentiu que chegara a última hora da sua vida.

 

- Sim, senhor! - tornou o militar.

 

E abrandando a voz:

 

- Você não tem medo de uma congestão?

 

XXI

 

INDEFESA

 

3 de março

 

O Dr. Edgard esperava há meia hora na sala de visita a formosa dona daquela casa, e evocava, saudoso, o tempo em que a conhecera.

 

Fora há seis anos, em uma festa náutica, em Botafogo. Passageiros da mesma lancha, ele acompanhava um páreo, detidamente, com o seu binóculo de marfim, quando alguém lho arrancou violentamente dos olhos, gritando-lhe com alvoroço:

 

- Ora, empreste-me! sim?

 

Ele voltou-se, e viu que o seu binóculo estava ao serviço de dois olhos tão verdes como as águas, e, preso deles, não conseguiu mais, nesse dia, acompanhar um número sequer daquela campanha esportiva, travada nas ondas.

 

Dentro de seis meses estavam noivos. E um dia, por um arrufo, por um breve ciúme sem causa, acabou-se o noivado, partindo ele para a Alemanha, a aperfeiçoar os estudos, ficando ela, jovem e linda, no Rio, onde se casara, afinal, com um advogado, quatro meses antes do seu regresso.

 

Ele sabia do casamento quando a encontrou, uma tarde, na Avenida:

 

- Então, de volta, doutor? - exclamou a maravilhosa criatura, estendendo-lhe a mão pequenina, numa grande alegria.

 

- É verdade. E venho encontrá-la mais formosa, mais risonha, e, com certeza, mais feliz!

 

- Sabe que me casei? - tornou a moça, despedindo-se - Apareça em nossa casa. Teremos imenso prazer em recebe-lo.

 

E apertando-lhe a mão, com um olhar, que era um relâmpago:

 

- Vá! Sim?

 

Recapitulava o jovem médico esses episódios, origens daquela visita, quando ressoaram passos na escada, e surgiu à porta da sala, deslumbrante de graça e de mocidade, a figura que mais o encantara na vida.

 

- Oh!... - exclamou, deslumbrado, pondo-se de pé.

 

Sentaram-se os dois, pálidos, entreolhando-se em silêncio. De repente, com uma audácia imprevista, ele aventurou, incontido.

 

- Estás deslumbrante, Ecilda! Estás tentadora... maravilhosa... irresistível!

 

E, de súbito, cerrando os dentes:

 

- Se tu não gritasses... eu me precipitaria sobre ti, cobrindo-te de beijos!

 

A moça, trêmula, os lábios entreabertos, olhou-o nos olhos, e, levando à garganta a mãozinha branca, sussurrou, apenas, a meia-voz, tranqüilizando-o:

 

- Estou... rouca!

 

E fechou os olhos...

 

XXII

 

A SANTA CASA

 

(Paródia a uma sátira de Emílio de Menezes)

 

5 de março

 

As nuvens começavam a tomar uma cor arroxeada, anunciando o fim do crepúsculo e o inicio de uma noite soturna, quando alguém bateu, medroso, à luminosa porta do Céu.

 

- Quem bate? - gritou, de dentro, São Pedro, arrastando as suas alpercatas de couro e tilintando, trêmulo, a sua enorme penca de chaves.

 

- Sou eu! - respondeu de fora o recém-chegado.

 

Aberta a portinhola do parlatório, informou o retardatário haver sido despachado da vida naquele dia, com destino à mansão dos justos, onde devia, portanto, ser admitido.

 

- Aqui? - observou o apostolo, espantado. - Aqui. não. Todas as pessoas que tinham de entrar hoje, já entraram. Não falta mais nenhuma.

 

E bondoso:

 

-- Não será engano seu, meu filho? Você não terá sido despachado para o Purgatório?

 

O peregrino admitiu a hipótese de uma confusão, e, saltando de nuvem em nuvem, como quem salta de rochedo em rochedo, foi ter à porta de fogo do Purgatório, onde bateu.

 

- Quem vem lá? - trovejou um anjo, escancarando, com um gancho, a rubra fornalha das penitências.

 

O desventurado deu o seu nome, e, momentos depois, reabria-se o forno.

 

- Há engano na direção, camarada! - informou o guardião, soprando, severo, a sua vermelha espada de chama. - O seu lugar não será no Inferno? Aqui, é que não é. Não consta nada sobre a sua pessoa!

 

E, fechando a fornalha, deixou-o na amplidão, tristonho, solitário, abandonado, tendo aberto, apenas, à sua frente, o caminho escuro do Inferno. Resolvido a cumprir o seu destino, tomou o infeliz esse rumo, até ir ter, corajoso, à porta da caverna formidável.

 

- Quem é? - rugiu, de dentro, uma voz que parecia um trovão.

 

Tremendo de pavor, o mísero deu o seu nome, e esperava, já, o instante de ser precipitado nas enormes caldeiras ferventes, quando o portão monstruoso se abriu, dando passagem aos chavelhos de ferro de Belzebu.

 

- Quem o mandou para cá? - indagou o bruto, acendendo os olhos.

 

- A mim? - gemeu o desventurado. - Ninguém. Fui ao Céu, disseram-me que não era lá. Fui ao Purgatório, e informaram-me a mesma coisa. Logo, é aqui, por força.

 

O Diabo meditou um instante, consultou umas chapas de ferro incandescente que estavam próximas, e protestou, firme:

 

- Aqui, também, não é!

 

- Não?

 

- Não; absolutamente! - tornou o Capeta. - O seu lugar deve ser mesmo no Céu. O Pedro está muito velho, já, e, com certeza, não viu bem. Volte lá! Volte lá!

 

Um momento depois, estava o desgraçado, de novo, à porta do Paraíso.

 

- Outra vez? - observou São Pedro, paciente.

 

- Outra vez, sim, - confirmou, grosso, a vítima. - O meu lugar não é no Purgatório, não é no Inferno; deve ser, forçosamente, aqui. Veja bem!

 

O apóstolo enforquilhou os óculos no nariz, abriu o livro em que estavam registrados os nomes das almas, folheou, folheou, folheou, e, de repente, voltando-se, indagou:

 

- Diga-me uma coisa: onde foi que você morreu?

 

- Eu? Na Santa Casa do Rio de janeiro! - respondeu a vítima.

 

E o chaveiro, escancarando a porta:

 

- É aqui mesmo, entre!

 

E mostrando o livro:

 

- A culpa não foi minha, filho! Você devia vir para cá, daqui a vinte anos!

 

E aborrecido:

 

- Esta Santa Casa tem me estragado a escrita!...

 

XXIII

 

O GATO E O PASSARINHO

 

8 de março

 

A encantadora Palmirinha Camargo havia concluído o seu curso de datilografia na Escola Remington, quando, uma tarde, participou, contente, a Dona Brasília:

 

- Sabe, mamãe, arranjei um emprego excelente. O ordenado é de trezentos mil réis!

 

A bondosa senhora deixou a costura, endireitou os óculos, e, chamando a filha para perto de si, ordenou:

 

- Senta aí. E onde é esse emprego?

 

A moça, risonha e inocente, explicou:

 

- É no escritório do Dr. Alexandre.

 

- E quem é esse Dr. Alexandre? É aquele que esteve, outro dia, no baile da Violeta?

 

Palmirinha confirmou, ingênua, e Dona Brasília, tomando-lhe as, mãos, retorquiu, sensata:

 

- Queres que te fale com franqueza, minha filha? Esse emprego não te convém.

 

A menina fixou com os seus grandes olhos claros e puros a doçura do rosto materno, e a boa senhora continuou:

 

- Tu és uma jovem inexperiente, um anjo que não conhece os espinhos do mundo. O Dr. Alexandre é um moço esperto, um homem habituado a lidar com as fraquezas alheias. Se se tratasse de um escritório grande, de uma casa em que trabalhassem outras moças ou outros advogados, eu não teria receio; mas, assim, com ele e tu, sozinhos, no escritório, o meu coração não poderia ficar descansado.

 

- Oh, mamãe! - estranhou a moça, corando. - A senhora não tem confiança em mim?

 

Dona Brasília compreendeu a ofensa que fizera àquele pedaço do seu coração, e, para não insistir, atalhou:

 

- Tenho, minha filha, tenho toda a confiança em ti.

 

E concordou, beijando-a nos olhos:

 

- Está bem, vai. Amanhã, podes ir para o teu novo emprego.

 

A moça pulou, contente, beijando sofregamente a testa, a cabeça, a face, a boca e os olhos maternos, e, à noite, ia recolher-se, quando D. Brasília chamou:

 

- Palmira?

 

- Senhora! - acudiu a, mocinha.

 

Bondosa e grave, a digna senhora pediu:

 

- Traze daí a gaiola do teu canário.

 

A moça foi à copa, e voltou com a gaiola, onde um canarito dormia, sossegado, muito encolhido, muito amarelo.

 

D. Brasília abriu a portinhola daquele carcerezinho de ouro, e, indo à cozinha, voltou com o gato na mão.

 

- Para que é isso, mamãe? - indagou a moça, espantada.

 

Para meter na gaiola, com o canário.

 

- Oh, mamãe! - gemeu a mocinha, horrorizada.

 

- Que mal faz? - indagou D. Brasília, sorrindo significativamente para a filha. Tu não tens confiança no teu canário?

 

Palmirinha compreendeu o alcance da lição, e atirou-se nos braços maternos, prometendo, entre soluços:

 

- Eu não irei, minha mãezinha; deixe estar, eu não irei!

 

E não foi. No dia seguinte, contrariando as esperanças do gato, o canário amanheceu feliz e simples, cantando na sua gaiola...

 

XXIV

 

A NOIVA DO DONATO

 

11 de março

 

- Foi um caso espantoso, único, inacreditável, Sr, conselheiro, esse de que fui testemunha, e que eu lhe conto, embora o senhor já o tenha lido no "D. Quixote".

 

E puxando o relógio, para ver se ainda havia tempo, o ilustre advogado santista começou, em estilo rápido, vivaz, nervoso, pictural, a referir-me a horrível história, sob o alpendre da Central, à hora, quase, do noturno de luxo:

 

- "Era no sitio do "Pau d'Alho", em Vila Bela, onde se haviam casado, naquele dia, o Donato e a Rosinha. Um despotismo de gente, como o senhor não imagina. A Vila, as cercanias, a redondeza toda, no "Pau d'Alho". Até veio gente de Ubatuba! Calcule!"

 

Uma olhadela ao relógio, e continuou, telegráfico:

 

"Violeiro: o Chico Messias. Dança-se "baile" no terreiro. Chico Messias tira da toeira uma coriza lacrimosa, de valsa sem motivo."

 

E acrescentou, num parênteses:

 

"O caiçara diverte-se sem sorrir. Diverte-se por obrigação. Sua alegria é uma hipótese triste, socavada de ancilóstomos."

 

E reatou, descritivo, unindo o gesto à palavra, dando voltas no meio do alpendre:

 

- "Damas e cavalheiros vão e vem, e tornam a ir, e tornam a vir, e dão-se as mãos, e balanceiam, e remoinham, e desnalgam-se, numa choréa que tem passos de lanceiros, atitudes de Pedowa e desengonços tupinambás."

 

Outra interrupção, para um surto histórico:

 

"D. Pedro Fernandes Sardinha, quando foi do seu caso com os Aimorés, devia ter assistido a paulovices muito semelhantes."

 

E tornando, com uma soberba vivacidade de descrição:

 

"Ela, a noiva, dentro do vestidinho clássico, de manzuk branco, o filó pendente da mão. Tem olhos baixos e constrangidos de protagonista. Ele, traz a fatiota de elasticotine, que tem reflexos envernizados e o suplemento da gravata escura, de tricô frouxo, escorrida pelo "adão".

 

E descreve a festa:

 

- "Ambos assistem sem apetite o apetite dos convidados. Há um mastigo odioso de bocados grandes, e o cair do bocado, goela abaixo, com um rumor de rã assustada em pântano adormecido. Comem! E comem!

 

Nova consulta ao relógio, e a descrição despenhou-se, para ganhar tempo:

 

"Hora da sobremesa. O Inocêncio, professor publico, vai falar! Recuo de cadeiras; engolir de últimos bocados; bigodes engordurados que se chupam. - Atenção, senhores! O Inocêncio vai falar."

 

Como se estivesse na festa, eu próprio me empertigo, e o ilustre viajante repete, assombroso:

 

"Vai falar o Inocêncio. E começa tan, tan, tan, e meus senhores, e o himeneu, e a família, e o tugúrio, e mais isto, e mais aquilo e... e.... e o Inocêncio perde o fio, e embrulha, enrola, engole, mastiga, encaroça, embatuca. Estende-se um vágado coletivo, pesado como um paralelepípedo. O Inocêncio, que empunha o copo, guina a boreste gorgolões de cerveja."

 

Noutro parênteses, o meu amigo sentencia, outra vez:

 

- "Há situações que obstruem a vida como caroços de jabuticaba!"

 

E engatando, de novo, com os olhos no trem, desabou, história abaixo:

 

- "Coitado do Inocêncio! Felizmente, o Dito Pintassilgo, que lhe estava ao lado, encontrou uma saída. Levanta-se, sorri, braceja, e, alto e sonoramente:

 

- "Viva a noiva!

 

"O viva desonerou aquele constrangimento, como um laxativo. Um alívio geral.

 

- "Viva!...

 

"E o Dito prosseguiu, vitorioso:

 

- "Viva os óio da noiva!

 

- "Vivôooo!

 

- "Viva os dente biturado da noiva!

 

- "Viva!

 

- "Viva o pescoço da noiva!

 

- "Viva!

 

- "Viva os peito da noiva!

 

- "Viiiiva!

 

Tomando fôlego, o narrador continuou, elétrico:

 

- "Os vivas desciam, conselheiro, assustadoramente, noiva abaixo. O noivo, o Donato, piscou, por três vezes, os olhos, apreensivo. De repente, remexe-se, mergulha a mão pela cinta, toma da garrucha trochada, coloca-a à sua frente, na mesa, e, com aquele sorriso seu, desdentado, e a vozinha gutural, oitava acima:

 

- "Oie, seus convidado: não é por nada: mas eu queria apreveni, que os "viva" que passá do imbigo da noiva pra baixo... eu sapeco!"

 

Último apito. Um pulo do meu amigo, um barulho de ferragens, um resfolegar fatigado de máquinas. E o trem desapareceu.

 

XXV

 

O DATILÓGRAFO

 

15 de março

 

Trajando o mesmo figurino, a mesma seda, as mesmas cores, as duas irmãs, tão distintas na sua mocidade, na sua graça e no seu espirito, entraram, na sessão das 2,15, no Cinema Avenida. Estavam as duas sentadas uma ao lado da outra, na mesma fila, quando na primeira parte da "fita" penetrou no salão um vulto masculino, que, tateando na meia escuridão desnorteadora de quem vem da claridade, se foi sentar junto à mais jovem das duas formosas espectadoras. No primeiro intervalo, desabrochadas no teto estucado as constelações de fogo das lâmpadas, a moça olhou, de soslaio, o seu vizinho, que a examinava, por sua vez, com dissimulada indiferença. Era um rapaz moço ainda, de rosto escanhoado e face morena, que vestia com apuro, patenteando na correção das maneiras, na superioridade do olhar, na displicência dos gestos, uma certa distinção.

 

Apagadas, de novo, as luzes, começavam as duas a olhar a continuação do "film", quando a vizinha do rapaz sentiu, de leve, no seu cotovelo, um contato estranho. Olhou, sem voltar a cabeça, e viu: era o rapaz que avançava pelo seu braço, levemente, suavemente, o pelotão dos cinco dedos, com um jeito de quem toca piano, ou de quem sonda cautelosamente o terreno. Percebendo a indiferença da vítima, os dedos iam avançando, marchando, caminhando, roçando ligeiramente com as pontas a epiderme sedosa da moça, e já estavam perto do ombro, a caminho do colo, quando a mais velha desconfiou de alguma coisa, e indagou da irmã:

 

- Quem é esse moço que esta aí a teu lado?

 

E ela, de modo a ser ouvida pelo vizinho:

 

- Não sei; mas parece que é... datilógrafo!

 

Quando a sala clareou e a "Remington" consertou o decote, o moço havia desaparecido.

 

XXVI

 

O MILAGRE

 

17 de março

 

Um escritor francês, cujo nome complicado me fugiu, como um pássaro, da gaiola da memória, escreveu seiscentas páginas de prosa cerrada sobre a psicologia do milagre. Acha ele que os milagres são possibilíssimos, esquecendo-se, entretanto, de citar um episódio famoso, que circula, entre nós, com diversas modalidades, nos anais da anedota nacional.

 

D. Eufrosina estava doente do fígado, e submetia-se, uma tarde, sem o assentimento do marido, ao exame que o Dr. Abdenago Fortuna lhe exigira, quando bateram repentinamente no portão da casa.

 

- Minha Nossa Senhora! é meu marido! E eu não queria que ele soubesse que eu me submeti a exame médico! Como há de ser, meu Deus?!...

 

E repetia:

 

- Como há de ser, minha Nossa Senhora?!!...

 

As mulheres possuem, felizmente, uma qualidade providencial que falta aos homens: removem com facilidade os obstáculos mais graves, mesmo os que nos parecem, à primeira vista, irremovíveis. E foi essa virtude que socorreu, nessa tarde, D. Eufrosina, a qual, criando ânimo, pediu, aflita, ao jovem esculápio:

 

- Fuja, doutor! Pelo amor de Deus, fuja! Esconda-se ali, depressa!

 

E apontou o alto do guarda-vestidos, para onde o médico subiu, trêmulo, afim de evitar um escândalo e uma tragédia.

 

Dois minutos depois o chefe da casa batia à porta da alcova, onde a mulher o metralhou, logo, com uma saraivada de beijos.

 

- Meu amor! -- exclamava a moça, abraçando-o.

 

- Meu amor! - plagiava o marido, correspondendo.

 

Sentados no leito, passaram os dois a conversar, íntimos, sinceros, carinhosos. E discutiam matéria econômica, isto é, as dificuldades financeiras do casal, quando, em certo momento, o marido aludiu a uma letra de vinte contos, que devia pagar naquele mês.

 

- Coitado! - soluçou a mulher. - Deixa estar, que tudo será arranjado!

 

E, levantando os olhos para o teto, com a fé no coração:

 

- Aquele que está lá em cima, lá no alto, há de nos ajudar! Tem confiança!

 

E assim aconteceu. Para pagamento da letra, o Dr. Abdenago, aquele "que estava lá em cima", entrou com dez!

 

XXVII

 

A SURPRESA

 

19 de março

 

Educada no tumulto das rodas elegantes. cujas festas mundanas freqüentava desde criança, Mlle. Altair havia se tornado, aos dezessete anos, uma das moças mais em evidência na sociedade do Rio de janeiro. O pai, médico ilustre, mais devotado à família da ciência do que, talvez, à ciência da família, descurava, em absoluto, as pequenas coisas do lar. E era de tal forma, nesse ponto, a sua despreocupação, o seu descaso ingênuo, mas prejudicial ao próprio conceito, que Mlle. Altair se tornou notável, em breve, na cidade, pelo exagero escandaloso dos seus vestidos.

 

As suas "toilettes" eram, realmente, clamorosas, e em inteiro desacordo com a inocência da sua idade. Trajando sempre as fazendas mais leves, a sua preocupação, sugerida por figurinos inadequados, consistia em deixar à mostra a perna, até o joelho, e o colo, até o estômago. Quanto ao resto do corpo, não havia quem não o adivinhasse na transparência indiscreta do crepe da China ou da seda lavável, que lhe modelavam sensualmente, num abraço voluptuoso, os seios túrgidos, a cintura flexível, as ancas ondulantes, patenteando, como num desafio à bestialidade humana, o conjunto harmonioso das formas.

 

Um dia, foram os círculos elegantes surpreendidos com uma notícia sensacional: o Dr. Edmundo Figueira, um dos espíritos mais equilibrados e vigorosos da nova geração de juristas brasileiros, havia pedido em casamento Mlle. Altair Sobreira, formosíssima e conhecidíssima filha do Dr. Peixoto Sobreira!

 

Realizado o casamento, em que a noiva se apresentou mais nua do que nunca, e despedidos os convidados, penetraram os noivos, felizes, na alcova nupcial. Envolta, de leve, na seda finíssima, ou, antes, na névoa imperceptível do vestido, a recém-casada fazia lembrar as estátuas de mármore, veladas convencionalmente para o momento da inauguração. Anfitrite, com os pés mergulhados na espuma e vestida, apenas, pela bruma fugitiva do Arquipélago, não seria, talvez, mais nua, e mais bela!

 

Entreolhavam-se, os dois, na alcova silenciosa, ninho de ouro e seda armado para um casal de pombos amorosos, quando o noivo se adiantou, e, sorrindo, anunciou a moça, tomando-lhe, carinhoso as mãos geladas e brancas:

 

- Sabes, meu amor, que eu te preparei uma novidade?

 

- Tu? Que é? - indagou a noiva, casando, de repente, a curiosidade à aflição.

 

O noivo suspendeu os travesseiros da cama, e, tirando dali uma camisa de noite, trabalhada em seda branca, e opaca, afogada até o pescoço e descendo até o tornozelo. pediu:

 

- É para que me faças uma surpresa, dando-me uma sensação inédita nesta noite de casamento.

 

E entregando-lhe a camisa:

 

- Eu nunca te vi... vestida!...

 

XXVIII

 

AS FOLHAS

 

21 de março

 

Lançados para longe da pátria pelos movimentos revolucionários que estalaram depois da guerra, o conde Ricardo e o príncipe Romualdo conversavam, displicentes, naquele começo de verão oriental, à sombra do grande platano do parque do hotel, trocando idéias e fazendo comentários discretos sobre a situação política dos países em que haviam reinado. Estirados nas suas cadeiras de viagem, mostravam, ambos, um profundo desinteresse pelas coisas vulgares do mundo. E era por isso que, de vez em quando, mergulhavam em silêncio profundo, quedando a acompanhar com os olhos, melancólicos e soturnos, as oscilações da fumaça clara que atiravam, preguiçosos, para o ar.

 

O dia estava morno, quieto, parado, anunciando para a noite uma nova tempestade do Deserto. E era nisso que pensavam os dois fidalgos ilustres, despojos elegantes de dois tronos desmoronados, quando o príncipe começou a seguir com os olhos, uma a uma, as folhas amarelas que se desprendiam da árvore, e que se vinham espalhar no chão, estendendo pelo solo um crespo tapete de topázio. De repente, lançando para o espaço uma nuvem de fumaça cheirosa, o príncipe observou, alisando a barba negra e cerrada:

 

- Como os homens se assemelham às árvores!...

 

O conde Ricardo fechou o livro que principiara a ler, e, erguendo para a fronde os seus olhos muito azuis e muito doces, esperou a explicação do companheiro.

 

E o príncipe continuou:

 

- Enquanto a árvore está verde, e tem seiva, nenhuma folha o abandona, senão arrancada à força. Venha, porém, o verão, e, com ele, a falta de seiva, a decadência da planta, e nenhuma quer ficar mais presa ao ramo!

 

Compreendendo o símbolo, o conde acentuou, sacudindo, triste, a cabeça leonina:

 

- São como os amigos...

 

E o príncipe confirmou:

 

- São como os amigos...

 

No silencio do dia, as folhas, uma a uma, continuavam a cair...

 

XXIX

 

AS JACOBITAS

 

25 de março

 

Chegada há pouco do Oriente, onde visitara, em companhia do esposo, alguns países exóticos, D Margaridinha descrevia aos seus vizinhos de mesa, no banquete oferecido ao casal pela Exma. viúva Santos Soutelo, algumas curiosidades que mais lhe haviam ferido a atenção.

 

- A coisa mais interessante que eu assisti, - dizia, sorridente, enxugando com o guardanapo de linho os seus polpudos lábios cor de cereja, - foi um costume dos jacobitas, seita religiosa cujo mosteiro visitamos no Malabar.

 

As damas vizinhas descansaram o talher para ouvir melhor, e D. Margaridinha, irrequieta e risonha, contou:

 

- Quando um jacobita se casa, o seu primeiro cuidado consiste em ir ao templo no mosteiro, e pedir ao seu Deus que lhe dê uma descendência numerosa e sadia, para maior esplendor da religião. Feito isso, toma diversos pedaços de papel, escreve em cada um deles um nome de homem ou de mulher, mete-os em um canudo de bambu que os sacerdotes lhe oferecem, e, colocado a certa distancia do ídolo, sopra o canudo, com toda força. Impelidos assim, os papeluchos partem rodopiando e quantos caiam sobre o altar, tantos serão os filhos que o casal deve ter!

 

- Esplêndido! - exclamaram as senhoras, rindo. - Esplêndido!

 

À observação, porém, de uma que lhe ficava mais próximo, a linda viajante objetou, jovial:

 

- Eu? Experimentei, sim!

 

E sem olhar para o marido, que a fixava, severo, continuou:

 

- Alfredo tem, como não é segredo, um desejo enorme de ter um filhinho. E é natural, coitado! Enquanto estamos no vigor da idade, os filhos não nos fazem falta, porque viajamos, passeamos, nos divertimos. Mas, depois, na velhice, é que se sente a tristeza, o abandono, a solidão... Pensando nisso, nós fomos, um dia, no Malabar, ao templo dos jacobitas.

 

- A senhora?

 

- Então? Era o último recurso, filha! Chegando lá, Alfredo escreveu uma porção de nomes, bem uns cinqüenta, em outros tantos pedaços de papel, meteu-os no bambu e soprou com toda a força.

 

- E quantos caíram no altar? - indagaram as senhoras, interessadas.

 

E madame:

 

- Nenhum, meninas, nenhum!

 

E explicou:

 

- Ele, na sua ansiedade, havia posto papel demais no bambu, e...

 

- E...

 

- Entupiu o canudo!...

 

E soltou uma das suas gargalhadas sonoras, altas, musicais, enquanto o marido, vermelho, se engasgava, a um canto, com a sobremesa, à semelhança dos canudos do Malabar...

 

XXX

 

A CHÁCARA

 

29 de março

 

Nestes tempos, em que, embora com dinheiro no cofre, no Banco ou no bolso, não se encontra, no Rio, uma casa, mesmo de segunda ordem, para alugar ou adquirir, é de meter inveja a felicidade do comendador Severiano Braga de Souza, com a sua chácara monumental, situada, como numa floresta, em pleno coração do bairro de Botafogo.

 

A propriedade do comendador Severiano constitui, realmente, um dos orgulhos do Rio de janeiro. O prédio, que pertenceu ao saudoso visconde de Coroatá, e, mais tarde, à baronesa de Itapirú, é, depois das reformas a que foi submetido, um verdadeiro palácio. O que, porém, valoriza, ainda mais, tudo aquilo, é o terreno beneficiado pela mão dos seus antigos proprietários, e conservado com um zelo religioso pelo opulentíssimo capitalista que atualmente o possui.

 

Informado da existência dessa preciosidade, eu próprio me fiz, um destes dias, convidado, e atirei-me a visitar o comendador. E foi, para mim, um deslumbramento aquele conjunto de maravilhas, em que se casam, numa suave harmonia que embala os sentidos, a inteligência da Arte e a graça inocente da Natureza.

 

- Quer, então, ver esta sua casa?... - observou, satisfeito, o antigo presidente do Banco Popular Carioca.

 

E, tomando-me pelo braço, levou-me a percorrer, um a um, os pontos encantadores da chácara.

 

- Isto aqui, - observou-me, apontando-me um enorme viveiro em que pipilavam toda a sorte de passarinhos nacionais ou exóticos, - isto aqui é o meu encanto, de todas as manhãs. Temos aqui o melro, o corrupião, o rouxinol, o periquito, a cambachirra, o curió, enfim, duzentas ou trezentas aves diferentes.

 

E, como se eu não soubesse, explicou-me, com ênfase:

 

- É o aviário!

 

Mais alguns passos, e, ao fundo de uma gruta iluminada, onde peixinhos de mil espécies rabeavam, como jóias vivas, em pequenos depósitos de água límpida, esclareceu-me, com a mesma erudição:

 

- É o aquário!

 

Examinados os recantos da caverna encantada, que me transportava, como num sonho, ao fundo maravilhoso do oceano, passamos adiante. Era uma espécie de clareira, de várzea chã, onde se estendia; cheirando e florindo, um tapete macio, úmido, multicor, de ervas aromáticas.

 

- É o herbário! - ensinou-me o comendador.

 

Nesse momento, porém, chamaram a minha atenção umas latadas enormes, artisticamente dispostas, formando caminhos ensombrados. Endireitei os óculos para examinar melhor, e vi: tratava-se de uma admirável plantação de parreiras abertas em frutos, em que os cachos, amarelos, uns, roxos outros, pendiam, sumarentos, brilhantes e numerosos, como bolhas de ouro ou de vinho suspensas miraculosamente das folhas.

 

- Magnífico! - exclamei, deslumbrado.

 

O comendador inflou a barriga, sorriu, desvanecido, e, estendendo o dedo no rumo do parreiral, explicou, com orgulho:

 

- É o "uvário"!

 

 

 

XXXI

 

MANIAS

 

1° de abril

 

Em um trabalho recente na "Edinburgh Review", o crítico inglês John Browing denuncia, a título de curiosidade, um certo número de manias de escritores nacionais, procurando, ao que parece, demonstrar a feição patológica de todos eles. Por esse trabalho de pesquisa, foi que eu vim a saber, com espanto, que Walter Scott dormia com o chapéu na cabeça, que Wordsworth almoçava arrepiando o pêlo de um gato, que Goldsmith só trabalhava assobiando, que James Macpherson gostava de estrangular passarinhos, e que Poppe, não obstante as aparências de saúde perfeita não conciliava o sono senão quando o criado fazia barulho no quarto contíguo, batendo desesperadamente numa bacia.

 

Para o crítico de Edimburgo, essas originalidades constituem anomalias, aberrações, moléstias mentais interessantíssimas, patenteadas, segundo diz na obra literária que as suas vítimas produziram. Eu me permito, entretanto, o direito de contestar semelhante tese, baseando-me no exemplo de um homem perfeitamente sadio, como é, no caso, o coronel Evaristo de Souza Portela.

 

O coronel Evaristo Portela, grande fazendeiro em Minas, era um dos homens mais virtuosos produzidos, até hoje, pelo município de Uberaba. Chefe de família exemplaríssimo, não havia passado, jamais, uma noite fora de casa. Viagem que ele fizesse, ou realizava-a em companhia da sua digna esposa, a veneranda D. Geralda, mãe dos seus únicos quatorze filhos, ou fazia-a tão curta que estava de volta, à noite, para dormir na fazenda.

 

A posse do Sr. Raul Soares no cargo do ministro da Marinha determinou, entretanto, uma profunda modificação na vida do conceituado fazendeiro. Compadre do ilustre político e correligionário que lhe levara à pia dois filhos, o coronel não podia, absolutamente, faltar à grave cerimônia do cais dos Mineiros; como cumprir, porém, esse dever de amizade, de cortesia, e de solidariedade política, se D. Geralda, sua companheira inseparável de dezesseis anos de sono no mesmo leito, não se podia abalar para uma viagem tão tentadora, mas, ao mesmo tempo, tão rica de incômodos e inconvenientes?

 

- O que não tem remédio, remediado está! - exclamou, afinal, uma tarde, o coronel, depois de profundas cogitações.

 

E mandando arrumar duas malas de mão, tomou o trem, no dia seguinte, com destino ao Rio de janeiro.

 

A primeira noite de capital foi para o honrado fazendeiro um suplício, um martírio, um tormento. Habituado à vida rigorosamente domestica, não lhe foi possível, em absoluto, conciliar o sono. E de tal modo lhe nasceu a saudade da casa dos filhos, e, principalmente, da esposa, que o criado do Grande Hotel, onde ele se hospedara, ainda o encontrou com os olhos da véspera quando lhe foi, de manhã, levar o café.

 

O dia, passou-o o coronel mais ou menos distraído, fazendo compras, visitando amigos, palestrando com os conhecidos. À noite, porém, voltou, com a saudade, a tortura da insônia. Debalde fechava os olhos, apertando as pálpebras: à simples lembrança de que se achava tão longe, tão distante de casa, fugia-lhe o sono, deixando-o a remexer-se, aflito, no leito largo, a amassar nervosamente os lençóis.

 

À meia noite, após duas horas de martírio na cama, o coronel não pôde mais: ergueu-se do leito, em pijama, pondo-se a andar, nervoso, de um lado para outro do quarto. E estava já, há meia hora, nesse exercício, quando teve, de repente, uma idéia: tocou a campainha, chamou o criado, e pediu:

 

- O senhor não tem, por aí, uma escova, dessas para cabelo?

 

- Tem, sim, senhor.

 

- Traga-a.

 

O criado trouxe a escova, o coronel agarrou-a pelo meio, do lado do pêlo, com a mão aberta, e, apagando a luz, atirou-se no leito.

 

E dormiu, sereno, até de manhã...

 

XXXII

 

FEMINICE

 

(Sobre uma frase de Emile Faguet)

 

4 de abril

 

D. Elisabeth Saldanha era apontada no Rio de janeiro como a senhora de vida mais acentuadamente elegante entre quantas, até hoje, possuiu a cidade. Honesta por educação e por temperamento, ninguém lhe apontou, jamais, um deslize, uma falha, uma simples leviandade de conduta. Em uma terra em que a maledicência enche as bochechas a cada canto da rua, ela fizera o milagre de conservar sempre limpo, sem a menor mancha do hálito da calunia, o espelho de cristal da sua reputação

 

Os seus hábitos mundanos não eram, entretanto, propícios à conservação desse conceito. Adorando o marido e sendo idolatrada por ele, havia uma vaidade que ela colocava acima de tudo na terra; e esta eram o teatro, os chás, os jantares, as conferências literárias, os concertos, e, sobretudo, a visita às amigas, num desperdício de tempo, de frases e de vestidos que lhe parecia verdadeiramente encantador.

 

Certo dia, porém, ao sair do Municipal, D. Elisabeth descuidou-se um pouco do "manteau" bordado de dragões de ouro e cegonhas de seda, e apanhou uma pneumonia. A ciência médica da cidade foi, toda ela, mobilizada em uma noite. E tal é o prestigio da medicina diante da morte, que, dois dias depois, o Dr. Alfredo Saldanha penetrava o portão do cemitério de São João Batista, segurando, sem tirar o lenço dos olhos, uma das alças do caixão funerário da sua querida Elisabeth.

 

Enquanto se dava isso aqui na terra, uma alma, imponderável como o ar e mais alva, talvez, que um floco de neve, batia, suave, à porta do Paraíso.

 

- Seu nome? - perguntou S. Pedro, abrindo a portinhola, encantado com tanta candura.

 

- Elisabeth Saldanha, meu santo.

 

O apostolo fitou-a com simpatia, e continuou no interrogatório:

 

- E que fizeste na tua vida, minha filha? A recém-chegada franziu a testa morena e perfeita, como se consultasse a si mesma.

 

- Não ouviste, filha? Que é que fizeste na tua vida?

 

Elisabeth ia, pela primeira vez, se atrapalhando, mas, recobrando a serenidade, indagou:

 

- Eu?

 

E, com um sorriso, que lhe abotoava a boca num beijo:

 

- Eu fiz... muitas visitas!

 

São Pedro sorriu, bondoso, e a grande chave rangeu, faiscando estrelas, na enorme fechadura dourada.

 

XXXIII

 

CHAVES E FECHADURAS

 

7 de abril

 

- Os senhores, conselheiro, os senhores, homens, - dizia-me, abanando-se pausadamente com o seu grande leque de plumas vermelhas, a linda viscondessa de Lima Freire, - os senhores serão, sempre, injustos com as mulheres, por que nem todos poderão compreendê-las.

 

- As mulheres são, então, o maior mistério do universo? - indaguei, com ironia.

 

A viscondessa sorriu da minha ingenuidade, e, sem dissimular a sua piedade pela minha ignorância, acentuou, bondosa:

 

- O conselheiro não me entendeu, ou não me quer entender. A mulher é um mistério, mas um mistério, apenas, para o homem que lhe não agrada. O símbolo da fechadura tão freqüentemente citado pelos psicólogos, constitui uma verdade indiscutível.

 

- O símbolo da fechadura?

 

- Sim; não o conhece?

 

E como lesse a curiosidade no meu olhar, contou-me, pausadamente, cerrando a meio os seus macios olhos de míope:

 

- Cada mulher é uma fechadura que só tem uma chave...

 

- Só? - interrompi.

 

- Espere aí! - pediu, impondo-me silêncio com o leque.

 

E continuou

 

- Cada mulher é uma fechadura, que só tem uma chave, a qual está nas mãos do homem que a tem de amar e que tem de ser amado por ela. Outros passarão sob os seus olhos, tentando abrir-lhe o coração. Abusando da sua inexperiência, um ou outro poderá, talvez, penetrar no sacrário da sua alma, usando de chave falsa. Um homem, apenas, tem a chave verdadeira, e é somente quando a mulher se encontra com ele que se dá, realmente, a felicidade no matrimônio. Compreendeu?

 

Eu ia confirmar com um monossílabo, mas a ilustre senhora não me deu tempo.

 

- Cada mulher - continuou - devia esperar, de olhos fechados, como a princesa adormecida no bosque, o portador da chave da sua fechadura. É da impaciência de algumas que nascem, geralmente, os escândalos, os divórcios, a dissolução ruidosa das famílias legalmente constituídas. Supondo-se esquecidas pelo seu porteiro, elas cedem à primeira chave falsa, ou à primeira gazua, e casam-se. Mais tarde, aparece o portador da chave. E Já se vai, com esse encontro, a felicidade de um lar!

 

- Isso era antigamente! - observou, intervindo, o capitão Peixoto Cunha, que nos observava de perto. - Hoje não há mais portas com uma chave só.

 

E acentuou, rindo:

 

- As portas, hoje, são de trinco!

 

Nesse momento, chegava, pausadamente, o visconde, enrolando em torno do dedo grosseiro uma fina corrente de prata, em cuja extremidade chocalhava, numa argola, uma penca de chaves.

 

Estas eram seis, e abriam, todas, com a mesma facilidade, as duas gavetas da secretária...

 

XXXIV

 

O MONSTRO

 

10 de abril

 

Não é de hoje que eu me bato, na imprensa, e, pessoalmente, perante os empresários cinematográficos, em favor da exibição, nos cinemas, de "films" verdadeiramente instrutivos. Os romances de amor, as "fitas" que acabam em casamentos e beijos, devem ser substituídas, de vez em quando, por verídicos pedaços da natureza, que nos dêem, na sua grandeza e na sua inocência, uma sensação da vida real.

 

Os "films" desse gênero devem ser, entretanto, claros, fáceis, explícitos, não só na imagem, na reprodução viva da paisagem e das coisas que a animam, como nos letreiros explicativos, que devem estar ao alcance de todas as inteligências. Um episódio ocorrido há poucos dias em casa de uma ilustre família brasileira, após a exibição, no Pathé, da "fita" "Santa Cruz", da Comissão Rondon, mostra, de modo irrecusável, a força dessa necessidade.

 

Mandada vir de Hamburgo para governante de uma casa de família notável, Dona Edda, rubicunda viúva alemã, empregava a sua paciência teutônica, dia e noite, em aprender o maior número de vocábulos portugueses. Soletrando os nomes, e procurando identificá-los pelo conhecimento das coisas que eles representavam, não perdia a pachorrenta senhora um pedaço de jornal ou um dístico de cinema, que não soletrasse e traduzisse, ajustando a palavra à figura. E foi com esse intuito que, anunciado, há duas semanas, o "film" do general Rondon, correu ela ao cinema, conduzindo à mão, para as consultas indispensáveis, o seu pequenino dicionário ilustrado.

 

Com os óculos na ponta do nariz, acompanhava a neta de Lohengin a excursão pitoresca dos abnegados sertanistas, quando tomou um susto, ao aparecer, na tela, o primeiro jacaré dos lagos de Mato Grosso. Curiosa, esperou o intervalo, abriu o dicionário, consultou, viu que se tratava de anfíbios vorazes, que nasciam pequeninos e tomavam grandes proporções, anotou o caso, decorou o nome, e continuou a ver o "film" até o fim.

 

À noite, agasalhados os pequenitos da família, estava D. Edda, sozinha, na sala de jantar, quando, ao voltar-se, empalideceu: diante dela, na janela que dava para o Jardim, estava, a espiá-la, batendo a cabecita inquieta, uma pequena lagartixa de muro, uma dessas osgas minúsculas e inocentes, que se alimentam de moscas e habitam, no Brasil, às duas, e às três, os troncos das árvores e as fendas das paredes.

 

Ao deparar o réptil, que a fitava benignamente, a alemã deu um pulo, folheou, rápido, o dicionário, identificou o animalzito pelo aspecto, e correu, aflita, para o salão.

 

- Que é, D. Edda? Que foi? - acudiu, a jovem dona da casa.

 

- Uma "bicho", zenhorra!

 

E, apontando, com os olhos esbugalhados a lagartixa, que a fitava da janela, sacudindo a cabecita inofensiva:

 

- Um "crreança" de "jacarré"!...

 

XXXV

 

A "FESTA DOS OVOS"

 

14 de abril

 

O último número do "Pathé-Journal", que está sendo exibido em um dos nossos cinemas, registra, entre outros acontecimentos curiosos, a chamada "Festa dos Ovos", levada a efeito recentemente em Wilkes Barre, nos Estados Unidos.

 

Entre os divertimentos populares dessa pequena cidade da Pensilvânia, está esse, que é, realmente, pitoresco. Em um parque das redondezas, são escondidos cuidadosamente, nos ramos das árvores, nas raízes, na cavidade das pedras, nos montes de folhas e nos tufos de relva, milhares de ovos, que devem ser descobertos pela criançada das escolas. Conduzida, este ano, ao parque, e dado o sinal, a pequenada composta de sete mil colegiais, dispersou-se pela enorme planície arborizada, à procura dos vinte e cinco mil ovos escondidos. E era de ver a algazarra, o tumulto, a alegria bulhenta, com que aquele exército de crianças se lançava em todos os rumos, na ânsia de fazer a maior colheita possível!

 

O comendador Inocêncio Coutinho havia estado, anteontem, com a sua jovem esposa, D. Odaléa, no conhecido cinema da Avenida, e gozado, em gargalhadas enormes, o interessante episódio de Wilkes Barre, quando resolveu, ontem, reproduzi-lo em família, para afugentar, bonacheirão, o tédio da sua encantadora companheira. Com esse intuito, saiu ele do Banco de que é diretor e, dirigindo-se a uma quitanda das proximidades, adquiriu, aí, três ovos, que escondeu, cuidadosamente acondicionados, no forro do chapéu. Chegado à casa, foi gritando, logo, do vestíbulo:

 

- Sinhazinha? Ó Sinhazinha? Sinhazinha? Vem cá!

 

A esposa acorreu, displicente, e o comendador convidou, feliz, num riso largo, ingênuo, bonachão:

 

- Vamos fazer a "festa dos ovos"? Olha: eu comprei uns ovos, e os escondi, comigo. Se os encontrares, como as crianças do cinema, ganharás um colar novo, de pérolas, para as festas do Rei. Está feito?

 

Incentivada pela idéia do prêmio, a linda senhora atirou-se, sorrindo, à procura dos objetos que o esposo ocultara. Lépida, risonha, barulhenta como uma colegial, meteu as mãozinhas de neve nos fundos bolsos do marido, remexeu-lhe a bainha da calça, examinou-lhe a manga do casaco, passou, em suma, no comendador, uma revista completa.

 

E não os achou, a infeliz!...

 

XXXVI

 

APARÊNCIAS

 

17 de abril

 

Em toda a rua São Gabriel, naquele movimentado bairro operário, o assunto mais em evidencia era, há muitos dias, aquele: a saída furtiva, a horas altas da noite, daquela rapariga tão linda, desde que lhe morrera o marido.

 

- É uma falta de vergonha, D. Inácia, o que está fazendo aquela desalmada - informava, de janela para janela, a vizinha da direita. - Ainda ontem, à noite, eu fiquei de alcatéia aqui por dentro da rótula, e vi tudo: a atrevida esperou que se fechassem todas as casas, abriu a porta, espiou para um lado e para outro, e, como não visse ninguém, pôs um xale, e saiu. Imagine o que ela não foi fazer por ali...

 

- Dizem que vai para um clube dançar o maxixe com o Manoel português, - adiantava D. Inácia.

 

- A Vitalina, outro dia, quando voltava do baile do Alfredo, alta madrugada, encontrou-se com ela, que saía de casa. A desnaturada ficou tão envergonhada que cobriu o rosto, para não ser conhecida.

 

- Que mulher cínica! - terminava uma.

 

- Que falta de vergonha! - confirmava a outra.

 

Divulgada a notícia do escândalo, toda a rua ficava, horas e horas, à espreita, aguardando, pelas frestas das janelas, a saída clandestina da viúva. E quando esta desaparecia, ao longe, na esquina, as rótulas se escancaravam, as cabeças emergiam, e começavam as observações!

 

- Viu?

 

- Vi!

 

- Sim, senhora! Quem diria?!...

 

- Que escândalo!

 

- Que horror!...

 

Certa noite, porém, instigados pelas mulheres, resolveram alguns operários acompanhar de longe a notívaga, fiscalizando-lhe os passos, para desagravo do morto. Pé ante pé, espiando de canto em canto, escondendo-se pelos portais, andaram os homens de rua em rua, até que foram ter a um campo deserto, em frente a um mercado. E ali viram, enxugando os olhos rasos de pranto: a "pervertida" saía todas as noites, embuçada na treva, para disputar aos porcos, no monturo, uma fruta podre, para a fome do filho!...

 

XXXVII

 

A COBERTA

 

21 de abril

 

Não há quem não conheça, em todo o Brasil, a fecundidade da mulher cearense. Terra privilegiada e infeliz, em que a natureza, ao mesmo tempo, se destroi e se refaz, o Ceará constitui um caso curiosíssimo pelo modo por que aumenta, no meio das maiores calamidades, a sua população. À semelhança dos dragões fantásticos dos belos contos medievais, cujo sangue, ao cair na terra, se transformava em legiões de guerreiros, cada cearense que tomba de fome ou de sede, rebenta, no ano seguinte, multiplicado por dez. E daí serem freqüentes, em todo o Estado, os casais com vinte, trinta, e até quarenta filhos, que se espalham depois pelo mundo, honrando pelo talento, e dignificando pelo trabalho, o glorioso nome do Ceará.

 

As famílias de prole modesta que vivem no Sul, compreendem dificilmente como pode uma pobre mãe lidar com uma tribo tão numerosa. E, no entanto, nada mais fácil para o cearense. Eu conheci, por exemplo uma senhora daquela procedência, que descobrira um processo originalíssimo de fiscalizar o seu exercito de descendentes. Mãe de dezessete filhos, de um a quatorze anos, D. Josefa aproximava-se, à tarde, da mesa de cozinha, e partia, ali, uma ou duas rapaduras. Chamava os filhos e, deixando-os a comer, ia colocar-se ao lado do único pote dágua que havia na casa. Acossada pela sede, originada pela absorção do açúcar, a meninada corria, logo, a beber, enquanto D. Josefa os ia contando:

 

- Um. .. dois. . . três. . . quatro... cinco.. seis...

 

E assim por diante, até dezessete. Se havia apenas dezesseis, a bem-aventurada gambá-humana saía a procurar, como o pastor da parábola, a ovelha desgarrada.

 

D. Ifigênia de Medeiros, outra senhora que a seca de 1918 desterrou do seu Estado natal, possuía, entretanto, um processo mais simples. Casada em 1898, aos treze anos, com um fazendeiro de Itapipoca, teve desse consórcio abençoado, que durou seis anos, nove filhos, sendo quatro meninos e cinco meninas. Contraídas novas núpcias, no mesmo ano da viuvez (1904), com um tabelião de Sobral, forneceu D. Ifigênia ao Ceará, em mais cinco anos de matrimônio e caldos de galinha, sete meninas. Viúva pela segunda vez, casou em 1909 com um agricultor da serra de Uruburetama, a quem deu cinco meninos e cinco meninas, em nove anos. Perdido este terceiro esposo em 1918, recusou a fecundíssima senhora seis ou oito pretendentes que lhe apareceram, preferindo embarcar para o Rio de janeiro, onde se encontra desde aquele ano.

 

Apresentado a essa virtuosa nortista, que vive, hoje, em relativa abundância, perguntei-lhe, curioso, se ela não se confundia com tanta criança em casa.

 

- Eu? - atalhou, sorrindo. - Absolutamente!

 

E explicou-me o seu processo de evitar confusões:

 

- Eu adotei, para comodidade, o seguinte sistema: os filhos de cada marido usam roupa de uma cor. Os do primeiro, por exemplo, em número de nove, usam roupa de cor cinzenta.

 

E chamou para dentro:

 

- Lili? Iaiá? Amélia? Nenê? Totó? Bibi? Alfredo? Almerinda?

 

Aparecida a primeira parte da tribo, D. Ifigênia continuou:

 

- Os filhos do meu segundo marido vestem-se de azul.

 

E chamou:

 

- Teté? Lulu? Judith? Ester? Virgilina? Margarida? Sebastiana?

 

A segunda turma apareceu.

 

- Os do meu terceiro marido trajam amarelo.

 

E gritou:

 

- Jequiriçá? Pindoboçú? Coema? Jaci? Lindóia? Ubirajara? Peri? Iracema? Jacaúna? Guaraciaba?

 

O terceiro turno surgiu.

 

Evacuada a sala, D. Ifigênia sorriu; acrescentando:

 

- E ainda tem!

 

- Ainda tem? - exclamei, espantado.

 

- Tem, sim!

 

E entrando para o quarto contíguo, trouxe, nos braços, um pequenito de três meses.

 

Esse, nascido no Rio de janeiro, vinha embrulhadinho numa coberta de retalhos, em que se misturavam o branco, o azul, o preto, o amarelo, o roxo, o rosa, o pardo, o verde, o encarnado...

 

XXXVIII

 

A DERRADEIRA "MORADA"

 

24 de abril

 

O administrador do cemitério de S. Geraldo, Alfredo Costa Ximenes, residia, há anos, à rua Real Grandeza, quando, em março último, forçado a mudar de casa, foi alugar um prédio de segunda ordem, de que era proprietário o comendador Augusto Gonçalves Teixeira, que lhe foi dizendo, logo, sem circunlóquios:

 

- O aluguel da casa é quinhentos e vinte mil réis, fora a pena d'água e a taxa sanitária. Além disso para que eu lhe dê a chave, o senhor terá de pagar-me seis contos de réis, de "luvas".

 

Debalde o honrado funcionário da Morte chorou, suplicou, implorou; o comendador mostrou-se inabalável na sua exigência, e ele teve de arranjar, mesmo, as "luvas", para se não ver, de uma hora para outra, lançado à rua com a família.

 

Dois meses depois desse episódio, estava o administrador, uma tarde, no seu posto, na secretaria da necrópole, quando parou ao portão, buzinando e rolando, um cortejo funerário. Levada às suas mãos a papeleta fúnebre, o funcionário viu pelo nome, que o morto era, nada mais, nada menos, do que o seu senhorio, o comendador Gonçalves Teixeira e teve, de repente, a idéia de uma represália: chegou ao portão, onde o esquife já repousava, agaloado, na carreta do cemitério, e, recebendo da família a chave do caixão, mandou rodar o ataúde no rumo da sepultura.

 

Terminadas, ali, entre lágrimas e vertigens, as angustiosas despedidas da praxe, um filho do defunto mandou chamar o administrador, a quem havia dado a chave do esquife, para que fosse identificar o morto, e fechar o caixão.

 

- Pronto! - apresentou-se Ximenes, apertado na sua sobrecasaca preta. - Que desejam?

 

- A chave, - explicou um parente do defunto.

 

- Suspendam a tampa do esquife, - ordenou o administrador.

 

Um amigo abriu o caixão funerário, onde jazia, inteiriçado, vestido de preto o corpo do desventurado capitalista.

 

Ximenes passou, meticuloso, a vista sobre o cadáver, e, vendo-lhe as mãos nuas, cruzadas sobre o peito bojudo, reclamou, severo:

 

- E as "luvas"? Querem, então, que ele desça à derradeira "morada" sem as "luvas"?

 

E não entregou a chave!

 

XXXIX

 

A PUNIÇÃO

 

Il est des femmes qu'on ne devrait jamais épouser soi-même. On devait les laisser épouser par ses amis - Alfred Capus.

 

26 de abril

 

Molemente estirado no leito revolto, com a farta cabeleira de ouro em desalinho sobre o travesseiro em que se achava impresso ainda, o sinal de outra cabeça, a linda Julieta Erst acompanha com os olhos os movimentos do Dr. Cardoso Simas, que abotoa a botina, tranqüilamente, com o pé sobre uma cadeira. Olhando-o, assim, de costas, ela examina, desvanecida, a máscula formosura do amante jovem, cuja harmonia de espáduas se patenteia através da camisa de seda creme sob a cruz "grenat" do suspensório quando, de repente, a sua saudade lhe dita uma queixa:

 

- Vê, só, Eduardo, o que foi o resultado daquele arrufo em nossa vida! Se tu não tens brigado comigo, naquela tarde, nós nos teríamos casado, e, em vez deste amor cortado de sustos, de incertezas, de pecados, viveríamos, agora, um junto do outro, sem temores nem pesares!

 

O rapaz continua, de costas, abotoando as botinas e a moça insiste, aconchegando o lençol, com os olhos nele:

 

- Seria uma vida ideal; não achas?

 

- Talvez... - aventura o moço.

 

- Talvez por quê?

 

E ele, explicando-se, displicente:

 

- Por que? Porque, se eu me tivesse casado contigo, estaria, agora, no escritório, enquanto que o Erst se acharia, talvez, aqui, na minha ausência, amarrando os sapatos!

 

E, sem olhar para trás, continua, em silêncio, abotoando a botina...

 

XL

 

O NABABO

 

28 de abril

 

De regresso de uma excursão pelos subterrâneos da alma humana, um escritor louvava, certa vez, entre as virtudes que lá descobrira, o pecado da Vaidade. Esse defeito, na sua opinião, era o mais vantajoso de quantos possui o Homem. Foi pela vaidade de possuir um nome ressoante que Colombo descobriu a América. E é a Vaidade, ainda, que dá de comer aos humildes, utilizando nas oficinas milhões de operários, que tecem a seda, fabricam os leques, esculpem as jóias. Tudo, na terra, é Vaidade, e só Vaidade, afirma o Eclesiastes. E Pascal adianta: a Vaidade está de tal maneira inveterada em nosso coração, que os próprios filósofos não lhe fogem ao império: aqueles que escrevem contra a glória, querem a glória de haver bem escrito; e aqueles que lêem, querem a glória de ter lido.

 

Há, entretanto, um gênero de Vaidade que não tem, sequer, essa atenuante: é a do pavão que se espaneja sem cauda, a que repousa na mentira, na falsidade, no ridículo, a que procura, em suma, viver dos juros sem um risco evidente do capital, e da qual é sacerdote, no Rio de janeiro, o conhecido "gentleman" Dr. Alfredo Pereira da Cunha.

 

Modesto de posses, vivendo de um emprego que lhe dá dificilmente para as despesas imprescindíveis, esse meu jovem amigo tem uma fraqueza: pertencer ao número dos cavalheiros irrepreensivelmente elegantes, equiparando os seus coletes aos do Dr. Villaboim, as suas gravatas às do Dr. Darcy, os seus colarinhos aos do Dr. Galeno Martins, as suas botinas às do Dr. Arnaldo Guinle, os seus ternos aos do desembargador Ataulfo, as suas camisas às do Dr. Humberto Gotuzzo, e, até o seu monóculo de vidro ordinário, ao monóculo de cristal puro do eminente Dr. Leão Velloso. E tudo isso com a circunstância de atribuir-se tudo - coletes, gravatas, colarinhos, botinas, ternos, camisas, monóculos, - em quantidades verdadeiramente atordoantes. Dessa forma da sua vaidade, há uma demonstração curiosa, em que eu funcionei, há dias, como testemunha involuntária.

 

Sentados um diante do outro, tomávamos nós, no Alvear, o nosso chá das cinco horas. quando me chamaram a atenção, na elegância americana do meu amigo, uns arabescos em linha branca, traçados no cós da sua calça de flanela, no intervalo dos botões destinados ao suspensório. Curioso, apliquei melhor os óculos, e vi: era o número 846, em algarismos feitos a agulha, como esses que encontramos na roupa ao recebe-la da tinturaria.

 

- Que é isso, doutor? - indaguei.

 

O jovem advogado baixou os grandes olhos negros sobre o seu busto sem colete, em que a camisa de zefir se desfiava em alguns pontos com uma elegância de varanda de rede, e explicou, com um sorriso superior:

 

- É o número da calça.

 

- Você tem oitocentas e quarenta e seis calças? - estranhei, arregalando os olhos e parando a xícara a meio caminho da boca.

 

O Dr. Alfredo olhou-me com irreprimível piedade, e, lamentando intimamente a modéstia dos meus recursos, respondeu-me, apenas, num doce insulto à minha pobreza:

 

- Das de flanela...

 

E continuou, solene, a tomar o meu chá.

 

XLI

 

A CONFISSÃO

 

Em que se prova que certas perguntas inocentes, claramente feitas, valem, às vezes, por uma informação perigosa.

 

2 de maio

 

O padre Sebastião havia tido notícia, por intermédio do sineiro, que a sua paróquia, colocada sob a invocação de Nossa Senhora do Retiro, se achava minada, solapada, anarquizada, pela corrupção dos costumes. Segundo o depoimento dessa testemunha, o bairro estava semeado de casas duvidosas, onde algumas senhoras levianas se juntavam durante certas horas do dia rindo, dançando, palestrando com rapazes e velhos divertidos, que ali ficavam, até à noite, consumindo o seu tempo e gastando o seu dinheiro. Escandalizado com a denúncia, o virtuoso sacerdote chamou, uma tarde, o sacristão e recomendou-lhe:

 

- Francisquinho, nós precisamos agir, na freguesia, contra o demônio da corrupção. A seara de Deus, que se mostrava tão prospera, principia a ser devorada pelas lagartas do Demônio. E nós precisamos trabalhar, meu filho!

 

O sacristão arrebitou o nariz para melhor farejar o escândalo, e o reverendo explicou o seu plano:

 

- É preciso que você, que conhece toda a gente, indague, por aí, quais são as casas suspeitas, em toda a paróquia. Veja o número dos prédios e venha avisar-me, para que ou tome as providências.

 

Francisquinho pegou no chapéu, sacudiu-o no cocoruto, e partiu, rebolando-se, pelas ruas do bairro, a indagar, de café em café, de botequim em botequim, de antro em antro, onde estavam situados aqueles focos de corrupção. E à tarde, informava, com a sua vozinha em falsete, a S. Revma. o vigário:

 

- Meu padrinho, descobri tudo; as casas são três: uma na rua dos Enforcados n. 29, outra na rua França Coelho n. 417, e outra na travessa de Santa Apolônia n. 46. E é só.

 

Padre Sebastião tomou nota em uma das folhas do breviário, decorou, depois, um por um, o nome das ruas e o número das casas, e, no dia seguinte, foi, como de costume, confessar e absolver os fiéis.

 

Estava ele no confessionário, ouvindo, peneirados no crivo de ferro, os pecados do seu rebanho, quando percebeu na última dama que se ajoelhara à sua frente, uma das senhoras cuja virtude não lhe merecia grande confiança. Cauteloso, o sacerdote, em certo momento, indagou:

 

- E você, filha, nunca abandonou o seu lar, para ir à rua dos Enforcados n. 27?

 

- Não, senhor! - gemeu a moça.

 

- E à rua França Coelho n. 417?

 

- Também, não, senhor! - insistiu a dama.

 

- E à travessa Santa Apolônia n. 46? - tornou o pároco.

 

- Não, senhor!

 

Padre Sebastião absolveu a linda ovelha impoluta, e, como não tivesse mais ninguém a confessar, deixou-se ficar no confessionário a olhar para a porta da igreja, por onde ia sair a última confessada. De repente, abriu a boca, espantado: no portal do templo, a formosa paroquiana tomava nota a lápis, em uma carteirinha, que exumara, ali, de uma custosa bolsinha de ouro. Desconfiado, o sacerdote encaminhou-se para a porta, arrastando em silêncio as suas moles sandálias de lã, e, chegando perto da moça indagou, interessado, com a sua santa voz de além-túmulo:

 

- De que é que toma nota, minha filha?

 

A dama, sem se aperceber da pergunta, respondeu, apenas, como se falasse a si mesma:

 

- Essas eu não conhecia, não!

 

E, guardando a carteirinha na bolsa de ouro, retirou-se, descendo os degraus.

 

XLII

 

POLÍTICA

 

6 de maio

 

Sentado diante do seu "bureau-ministre" coberto de telegramas e cartas, que lhe chegam, a todo momento, de toda parte do país, o grande chefe nacional dá audiência aos amigos. A situação do partido é, em toda a República, a mais lisonjeira, e é com a alegria no rosto e o orgulho no coração que ele recebe, um a um, como portadores de boas-novas, o enxame dos políticos correligionários.

 

As eleições para renovação da Câmara e recomposição do Senado haviam atemorizado um pouco o terrível politiqueiro indígena, pondo em perigo a sua poderosa máquina eleitoral. De tal modo havia ele, porém, se conduzido, sacrificando amigos e contemporizando com certos adversários, que emergia, agora, vitorioso, forte, insolente, como um homem que não transigiu um palmo e a todos esmagou pelo caminho.

 

Feliz e forte, ouve ele, embalando-se na cadeira de mola, as informações que lhe são carregadas pelo formigueiro que lhe mantém o prestigio formidável, quando entra no escritório, com familiaridade, um amigo particular. É um antigo senador afastado das lides partidárias, um velho companheiro que preferiu gozar em sossego os proventos da sua advocacia administrativa, um homem tornado independente e conhecedor do mundo, e que goza, por isso, de considerações especiais.

 

- Tu, por aqui? - exclama o chefe poderoso, arrancando o charuto caro e enorme da grande boca servida de dentes rígidos, sólidos, brutais, de antigo estraçalhador de carnes humanas.

 

O outro senta-se, abrindo um parênteses de intimidade na seriação de baixezas, de humilhações, de frases covardes, ouvidas pelo velho político naquele dia de audiências; e, a certa altura, entra no assunto que motivara a visita.

 

- O que me traz aqui - explica - é a situação do Belarmino; ele precisa entrar para a Câmara, e é indispensável que você o auxilie.

 

O grande chefe, habituado às incidências, aos sofismas, às expressões dúbias, balança a cadeira, lança para o teto uma nuvem de fumaça do seu charuto de sessenta mil réis a dúzia, e observa:

 

- Creio que não há nada contra ele...

 

E após um ligeiro silêncio:

 

- A votação não foi boa?

 

- Foi. Quinhentos e oitenta votos sobre o seu competidor.

 

- As mesas não funcionaram com regularidade?

 

- Perfeitamente.

 

- Houve protesto dos fiscais?

 

- Não.

 

- Eles não assinaram os boletins?

 

- Assinaram.

 

O chefe põe os olhos nos olhos do antigo companheiro, como a perguntar onde estava, então, a razão do seu temor, do seu susto, do receio de que o seu protegido seja sacrificado, e este esclarece:

 

- Há, porém, uma coisa.

 

O outro inquire com os olhos.

 

- Ele é casado com uma mulher feia como um bicho!

 

A essa informação a fisionomia do velho chefe, que se mostrara, até então, satisfeita, risonha, jovial, muda de expressão. Três rugas fortes, pronunciadas, profundas, cortam-lhe a testa perpendicularmente, unindo a cabeleira às sobrancelhas de cerda. E, após um instante, compreensivo:

 

- Homem, isso, agora, foi o diabo!

 

E, aborrecido, como quem tem a certeza de que perdeu um deputado:

 

- Enfim, vamos ver...

 

XLIII

 

O AMIGO

 

8 de maio

 

O engenheiro Adriano Walsh havia chegado de viagem, e convidara para almoçar em seu palacete, no dia seguinte, o seu opulento amigo Dr. Polidoro Tavares, advogado jovem e competentíssimo que era tratado na família com as maiores considerações.

 

O almoço, nesse dia, correu delicioso. Alta, esguia, elegantíssima com os fartos cabelos de ouro arranjados com encantadora simplicidade, Mme Walsh mostrara-se, como sempre, deslumbrante de formosura e de espírito. Atordoada pela alegria do marido, os seus olhos, cinzentos e lindos, lembravam duas pérolas grandes e misteriosas, luzindo, magníficas, entre os canteiros de violetas das olheiras. Vestida de linho espumante, o seu vulto emergindo, na mesa, do tumulto dos cristais e da baixela de ouro, era como uma grande rosa branca, em torno da qual fervilhassem, disputando-lhe o pólen, miríades de insetos faiscantes.

 

Após o almoço, quando o sol já sonhava, cansado, com o leito longínquo das colinas, os dois amigos tomaram o automóvel, e desceram, juntos, para a cidade. Na Avenida, saltaram, e caminhavam, palestrando, por uma das ruas transversais, quando diante de uma fabrica de móveis, o engenheiro estacou, preocupado:

 

- Diacho! - proclamou. - Minha mulher pediu-me para mandar concertar um móvel em casa, e eu não me lembro. Agora, qual é a peça da mobília!

 

- Não é o divã da alcova, que está rangendo muito? - atalhou o advogado, insensível.

 

- É isso! é isso mesmo! é o divã da alcova! - lembrou-se o Dr. Walsh batendo na testa.

 

E entrou na marcenaria.

 

XLIV

 

A LIÇÃO

 

12 de maio

 

- Toma cuidado contigo, Enedina! recomendava a bondosa D. Matilde, repreendendo a filha. - Essa mania de bailes, de festas, e passeios e esses vestidos muito curtos e muito decotados, podem prejudicar-te. É preciso um pouco mais de decoro, de zelo, de discrição. Isso, assim, não vai bem!

 

- Ora, mamãe! - respondia a linda moça, num muxoxo. - Mamãe não quer, então, que eu me case?

 

- Quero, sim; mas não é assim, indo a toda parte, e mostrando as pernas até os joelhos, e o colo até o estômago, que encontrarás um bom casamento.

 

A resposta era, porém, a mesma, com o mesmo estouvamento gracioso:

 

- Ora, mamãe!...

 

Sábado último, desejando oferecer à filha uma jóia custosa para as futuras festas ao Rei, veio D. Matilde à cidade, e parou, com ela, diante das vitrines da casa Adamo, na Avenida:

 

- Aquele não te agrada? - indagou, mostrando à moça um dos mais lindos colares da exposição.

 

- Não; não quero aquele.

 

- E aquele?

 

- Também não quero.

 

E convidando D. Matilde:

 

- Vamos ver lá dentro?

 

Entraram.

 

- Colares, de pérolas, ou de brilhantes, - pediu a conhecida senhora.

 

O dono da casa abriu o cofre forte, pondo-lhes sob os olhos um chuveiro de pedrarias.

 

- Quero este! - pediu a moça, batendo as mãozinhas, contente.

 

No automóvel, de caminho para casa, D. Matilde indagou da filha:

 

- Achaste, mesmo, esse colar muito bonito?

 

- Achei-o, sim.

 

- Mas havia outros mais bonitos, na vitrina.

 

- Havia.

 

- Por que não escolheste um deles?

 

E a moça:

 

- Mesmo. Porque estavam tão expostos, tão à mostra... Toda gente já os viu! Este, não; e, com certeza, há de despertar mais interesse, mais curiosidade! Não é?

 

A estas palavras, D. Matilde sorriu, carinhosa, e, tomando nas suas mãos enluvadas, as mãozinhas de neve da sua Enedina, observou-lhe, maternal:

 

- Minha filha, sirva-te isto, pela última vez, de lição. Os homens são pelas mulheres o que as mulheres são pelas jóias: preferem as que se acham guardadas, recolhidas, às que vivem permanentemente no mostruário, expostas a todas as vistas! Aproveita, tu própria, minha filha, a tua experiência!

 

E beijando-lhe a testa, bondosa:

 

- Sê discreta e modesta para seres desejada. Ouviste?

 

XLV

 

OS GÊMEOS

 

16 de maio

 

O piloto Alfredo Fagundes de Moura estava casado há pouco mais de seis meses quando, por determinação da companhia de navegação em que era empregado, teve de embarcar subitamente no "Capanema", antigo cargueiro alemão, para uma demorada viagem ao Mediterrâneo. A travessia, com os submarinos teutônicos a costurarem, como agulhas monstruosas e invisíveis, o manto verde do oceano, era, naquele tempo, arriscadíssima: o que, porém, mais afligia o jovem marujo, não eram os perigos, os riscos, a visão sinistra da morte nas águas, mas a saudade da sua encantadora Palmirinha, tão simples, tão doce, tão amada, e, o que era pior, tão sozinha no mundo, onde não tinha como amparo senão a coluna de ouro do seu amor.

 

A ordem de partida fora, porém, terminante: e, uma tarde, lá se foi o "Capanema", barra a fora, apartando, como um pastor de ovelhas irrequietas, o infinito rebanho das ondas. Dias depois estavam na Madeira. E os portos foram-se sucedendo: Lisboa, Gibraltar, Cadix, Marselha, Gênova... além de outros, pequenos, monótonos, secundários, a que eram forçados a arribar por imposição arbitraria das flotilhas inglesas de vigilância. E nisso gastou ele dezoito meses de trabalho e de saudade, ao fim dos quais ancorou, de novo, com a alma nos olhos, nas proximidades da ilha fiscal.

 

A alegria do casal não podia ser maior. Beijos, abraços, lágrimas de contentamento, foram os confeitos de coração na doce festa daquele encontro.

 

- Estás linda, meu amor!

 

- E tu, forte, corado, bonito!

 

E novos beijos estalaram.

 

Um mês depois, porém, começou a entrar na cabeça do Fagundes, batido pelo martelo de um pensamento mau, o prego de uma dúvida horrível: é que a sua Palmirinha havia dado ao mundo, oito dias depois da sua chegada, dois pequenitos miudinhos, mas perfeitíssimos, que a ciência conseguira salvar.

 

Aos olhos do piloto, habituado a ver longe, aquilo parecia incompreensível. Se ele estivera em viagem ano e meio e chegara apenas há quinze dias, como admitir o nascimento daqueles pirralhitos, tão bem conformados, e que tinham vindo de tempo? O melhor, em tal emergência, era consultar um médico, um entendido, e foi o que ele fez, indo bater à porta do Dr. Abelardo Meira, que morava no mesmo quarteirão.

 

- O meu caso senhor doutor, é este.

 

E contou o fato, palavra por palavra, sem omitir a menor particularidade. Ao fim de tudo, o médico fitou-o, indagando:

 

- Quantos meses o senhor passou fora?

 

- Dezoito, senhor doutor.

 

- E quantos filhos sua senhora teve, agora?

 

- Dois, gêmeos.

 

O especialista endireitou o "pincenez", pigarreou, tossiu, remexeu-se na cadeira, e inquiriu, sentindo-se vitorioso:

 

- Diga-me cá: com quantos meses nasce uma criança?

 

- Nove.

 

- Então, está aí! - exclamou o médico.

 

E batendo-lhe na perna:

 

- Está claro, homem de Deus! Duas crianças, dezoito meses, isto é, nove para cada uma. De que é que se admira?

 

O Fagundes sorriu, desafogado. E levando a mão à cabeça, arrancou, satisfeito, num gesto brusco, o doloroso prego daquela duvida...

 

 

 

 

 

XLVI

 

AS CAMISAS

 

18 de maio

 

Há muitos dias que o Dr. Abelardo insistia com a mulher, a encantadora D. Silvia, para que usasse umas camisas de seda cor de rosa, que, na sua opinião, lhe deviam assentar admiravelmente sobre a pele clara, macia, setinosa. Apaixonada pelo marido, que sabia disputado pela mais íntima das suas amigas, a loura Luizita Corrêa, D. Silvia escancarou, nesse dia, o grande móvel do quarto de vestir, em que guardava as suas roupas de interior, e, tirando as dezenas de camisas que ali estavam arrumadas com ordem, ia mostrando-as, uma a uma, ao esposo:

 

- É assim?

 

- Não.

 

- É dessas, de seda, enfiadas de fita?

 

- Não.

 

- É assim, apenas com uma fita sobre o ombro?

 

- Também não!

 

E como a esposa lhe não mostrasse nenhuma camisa como a que ele desejava acariciar sobre o seu corpo soberbo, convidou-a ele próprio, beijando-a nos olhos.

 

- Amanhã, na cidade, veremos onde tem. Quero comprar-te uma dúzia. Ouviste, meu amor?

 

D. Silvia agradeceu, com um sorriso e um beijo, a gentileza amorosa do esposo e, no dia seguinte, à tarde, entravam, os dois, contentes, em uma casa de modas da rua do Ouvidor, onde, tomando a dianteira, o marido pediu:

 

- Camisas de dia, de seda, para senhora; n. 3.

 

- Que cor? - indagou, solicita, a moça que o atendeu.

 

- Cor de rosa.

 

A empregada subiu ao primeiro andar, trouxe algumas caixas de camisas de seda, mas nenhuma correspondia ao desejo elegante do freguês, que era, de fato, exigente.

 

- Não são destas? - consultou.

 

- Não, senhora. São mais finas, mais transparentes, com uma renda de seda até quase à cintura.

 

- Ah! Já sei! - exclamou a mocinha, sorrindo.

 

E, levantando os olhos para o andar superior chamou por uma companheira.

 

- Julieta!

 

Apareceu, em cima, no balaustre, a cabeça oxigenada de outra caixeira da casa.

 

- Manda-me dali, por favor - pediu - a caixa de camisas n. 8.645.

 

E, particularizando, alto:

 

- Olha! daquelas que D. Luizita Corrêa comprou aqui... Sabes?

 

Quando as camisas desceram das nuvens, D. Silvia tinha subido.

 

XLVII

 

O SONÂMBULO

 

20 de maio

 

A noite estava escura, fria, gelada, com a chuva a despencar, lá fora, os cafezais amadurecidos, quando o caboclo bateu, com a mão tiritante, à porta do casebre.

 

- Quem é? - indagou, de dentro, uma. voz masculina, demonstrando na tonalidade o aborrecimento por aquele incomodo fora de horas.

 

- Sou eu! - respondeu, de fora, o viandante, o Praxedes Ferreira, antigo tocador de gado em S. José do Paraíso.

 

Aberto um palmo da porta, o recém-chegado explicou-se. Ia de caminho para o Poço Fundo, e, surpreendido pelo chuveirão daquela tarde, pedia permissão para pernoitar no rancho, uma vez que não havia por ali, naquelas quatro léguas mais próximas, um lugar em que se acoitasse.

 

- Só se for no telheiro da cozinha; mas esse chove, como no meio do tempo. Serve? - observou, de má vontade, o colono Eleutério, dono do lugar e da casa.

 

- Serve! - concordou o Praxedes.

 

O colono fechou de novo a portinhola da frente, e ia atirar-se na esteira espichada no único compartimento do casebre, quando a mulher, que já alí estava encolhida, indagou, curiosa:

 

- Quem é, Lotério?

 

- Sei lá! É um camarada que vai de viaje. Mandei ele p'r'o telheiro. Tá lá.

 

- Coitadinho! - gemeu a rapariga. - Com essa chuva!...

 

E após um momento:

 

- Por que você não manda o "coitado" aqui p'ra dentro? A esteira é grande, cabe os três. Você fica no meio.

 

O Eleutério imaginou o que estaria sofrendo, lá fora, o desgraçado, levantou-se, abriu a porta que dava para o velho telheiro alfinetado de chuva, e chamou:

 

- Ó amigo?

 

- Hôi? - acudiu o outro.

 

- Entre p'ra cá. Se deite aqui na esteira, com a gente.

 

O caboclo entrou, embrulhado num velho capote que tirara do saco, e atirou-se no lugar que lhe foi indicado, separado da rapariga pelo corpo forte, atlético, vigoroso, do dono da casa. Estirou-se, embrulhou-se, e estava para dormir, quando, de repente, como quem se esqueceu de alguma coisa, bate no braço do Eleutério, avisando:

 

- É verdade, eu me esqueci de lhe dizer; eu tenho um sono muito doído, com uns sonho de home doente; dou pulo, salto, rolo no chão, faço o diabo. Por isso, não se incomode não, se eu, sonhando, passá por cima do sinhô.

 

- Você é assim? - indagou o colono, descobrindo o rosto.

 

- É verdade! - confirmou o outro.

 

- Então, é tal qual como eu. Tem vez que eu sonho que estou agarrado com um cabra doido, da minha qualidade, e quando acordo, tou no meio da casa, em pé, de faca na mão. É um perigo!

 

O caboclo ouviu a ameaça, pensou, meditou, ruminou, e, após um instante, propôs:

 

- Vamo, então, fazê uma coisa?

 

- Que é?

 

- Vamo drumi sem sonhá?

 

E embrulhando-se no capote, rolou, macio, para a extremidade da esteira.

 

XLVIII

 

O AMBICIOSO

 

23 de maio

 

A Mesopotânia estava, já, povoada de animais de toda a ordem, quando Jeová resolveu, uma tarde, aperfeiçoar a sua obra dos sete dias.

 

- Tudo isso - pensava o Criador - está muito bem. Urge, entretanto, favorecer estes viventes, facultando-lhes um ornamento natural com que se embeveçam, e que seja, no mundo, o objeto dos seus cuidados.

 

E chamando, com a sua voz poderosa, o anjo Gabriel, mandou que ele preparasse, nas margens do Eufrates, alguns quilômetros de cauda, de diversas grossuras e de diversos feitios, para ser distribuída, na manhã seguinte, pelos seres recém-criados, - à semelhança do que fazem, hoje, com os cordões honoríficos, alguns governantes sem dinheiro.

 

No dia seguinte, pela manhã, a várzea do Éden ressoava de guinchos, de uivos, de gritos, de berros, de bramidos, de um alarido, enfim, que fazia tremer a terra. Eram os gatos, os leões, os cães, os tigres, os coelhos, a animalidade inteira, em suma, que acorria de toda a parte, na ânsia de receber o seu prêmio.

 

Sentado sobre um pequeno outeiro resplandecente, com os rolos de cauda amontoados ao lado, o Criador ia chamando, um a um, os animais aglomerados na campina.

 

- Leão! - gritou.

 

O quadrúpede formidável aproximou-se, arrastando, humilde, pelo solo fresco, a juba monstruosa, e recebeu dois metros de cauda, da mais grossa, que prendeu, imediatamente, à extremidade do espinhaço.

 

- Macaco! - chamou.

 

O animal deu um pulo, chegando-se.

 

- Dê-lhe metro e meio da cauda n. 2! - ordenou Jeová ao anjo Gabriel.

 

E assim foi distribuindo, eqüitativo, pelos outros bichos, dando meio metro aos cachorros, um metro aos tigres, vinte centímetros aos gatos, um metro aos bois, e, desse modo, consecutivamente.

 

Em certo momento, porém, chamou o Homem, entregou-lhe a sua parte, que era, mais ou menos, um metro.

 

- Tome! - exclamou.

 

- Só isso? - estranhou o ambicioso, com desdém.

 

Jeová encarou-o, irritado, mas, pensando em vingança ainda mais terrível, ordenou:

 

- Então, espere aí.

 

O homem ficou de lado, aguardando a nova chamada, e a distribuição continuou, sendo contemplados, então, na proporção das necessidades, o coelho, o gambá, o carneiro, o bode, o veado, o lobo, toda a bicharada, finalmente, que havia no Paraíso.

 

Aflito, retorcendo as mãos, o homem olhava o desenrolar dos rolos de corda viva, notando que ia ficar sem a sua, quando, de súbito, implorou:

 

- E a minha, Senhor?

 

Dos quilômetros de cauda fabricados restavam, apenas, duas pontas pequeninas, de dois ou três centímetros, que o mísero pediu, arrependido:

 

- Dá-me, ao menos, uma destas sobras, meu pai!

 

- Destas? Não. Esta aqui é do tatú.

 

- E aquela, Senhor?

 

- Aquela? É da cotia!

 

Vendo-se assim preterido, como pena da sua ambição, o homem deu meia volta, e afastou-se, contrariado.

 

E daquilo que foi, em verdade, uma punição, fez ele, depois, na terra, o motivo do seu orgulho...

 

XLIX

 

O SOVINA

 

27 de maio

 

Funcionário modesto, ganhando apenas setecentos mil réis por mês, o operoso oficial de Fazenda Emiliano Praxedes não podia, ou não queria, dar à mulher, jamais, um vestido de passeio, mesmo de baixo preço. Casado há um ano, a esposa ignorava em absoluto as suas despesas, a cifra dos seus orçamentos, sabendo, entretanto, que os dispêndios eram grandes, fortes, elevados, porque ele nunca entrava em casa com dinheiro.

 

Cansada de esperar pela generosidade espontânea do esposo, D. Lídia chegou-se, um dia, para ele, e, agradando-o, amimando-o, acariciando-o, pediu, passando-lhe a mão pelos cabelos:

 

- Praxedes, quando é que tu me dás um vestido novo? Tu nunca me deste nada...

 

Apanhado de surpresa, o funcionário prometeu:

 

- Breve. Isso depende apenas de ti. Dá-me um filhinho, um anjo para o nosso lar, que eu te darei um vestido! Está combinado?

 

- Está combinado! - concordou a moça, batendo palmas de contente.

 

No fim de nove meses, dado o beijo no seu primeiro pimpolho, que piscava no leito os olhinhos desconfiados, partia Emiliano Praxedes para a rua, de onde voltava horas depois com um embrulho, que entregou à esposa.

 

- Pronto ! exclamou. - O prometido é devido!

 

D. Lídia abriu, risonha, o pacote, e empalideceu, mais do que estava: era um vestido de chita azul, grosseira, ordinaríssima, que não havia custado, talvez, mais de seiscentos réis o metro!

 

Desapontada embora com a sovinice do marido, a pobre senhora não se revoltou, não protestou, não disse nada. Calcou o seu ressentimento no fundo da alma, escondeu a sua mágoa no coração, e, sem que o esposo lhe tivesse feito outra promessa, deu-lhe, ao fim de mais um ano, um outro filho. Terminado o período de resguardo, tomou um bonde para a cidade, e, à tarde, ao entrar em casa, vinha arrebatadora: vestido de seda, chapéu de plumas, sapato de cetim, pele de raposa, colar de pérolas, enfim, um deslumbramento!

 

- Que é isso, Lídia? Que escândalo é esse? - exclamou, boquiaberto, pondo-se de pé, o Praxedes, que já se achava em casa, à mesa de jantar.

 

E madame, desafiadora:

 

- Você pensa, então, que todos são miseráveis como você?

 

E entrou na alcova, tirando as luvas.

 

L

 

CERIMÔNIAS NUPCIAIS

 

31 de maio

 

Em um congresso de jurisconsultos, reunido, há alguns anos, em Berna, o delegado da Suécia, se bem me lembro, sugeriu a uniformização do Direito Civil, dando-se às leis peculiares aos costumes de certos povos uma feição de instituto internacional. Essa medida constituiria um passo para a fraternidade humana, acabando-se, de vez, com as complicações decorrentes da desigualdade dos códigos. A cerimônia do casamento, principalmente, se tornaria mais simples e respeitável, como observava, e muito justamente, um destes dias, o Sr. comendador Paulino Sampaio, em uma palestra erudita com algumas senhoras inteligentes.

 

- É, realmente, absurda - observava o honrado capitalista, essa desigualdade de critério. Não seria mais razoável que o casamento, aqui, fosse igual ao casamento na China ou na Arábia? Para que, pois, essas diferenças fundamentais, nesse processo de reunir o destino das criaturas que se querem?

 

E, para demonstrar o que é a desordem nessa matéria, lembrou, documentando o seu pensamento:

 

- Na África, por exemplo, são adotados os processos mais esquisitos, e, até, mais repugnantes. Em certas regiões daquele continente, a cerimônia consiste, mesmo, no seguinte: a noiva enche de água uma vasilha, e leva-a ao noivo, para que lave as mãos. Feito isso, a noiva toma a cuia entre os dedos e bebe o resto da água servida. Feito isso, estão casados.

 

As senhoras entreolharam-se, espantadas, e o comendador continuou:

 

- Em outras regiões, a coisa é ainda pior: em vez de dar as mãos a lavar, o noivo dá os pés, tomando a noiva, depois, solenemente, os restos da água. É horrível! Não é?

 

As senhoras entreolharam-se de novo, escandalizadas, e o velho capitalista insistiu:

 

- Esses costumes dão ensejo até, às vezes, a crimes inomináveis. Ainda em 1918, após uma lavagem dos pés do noivo, uma rapariga bebeu a água, na forma da tradição. E, momentos depois, caiu fulminada!

 

- Onde foi isso, comendador? - indagou Mme. Costa Pinho, penalizada.

 

O capitalista sorriu, e explicou, gentil:

 

- Na África Portuguesa, minha senhora!

 

LI

 

A PEDRA DOS NAMORADOS

 

3 de junho

 

Fugindo ao clima intolerável da cidade, os dois amigos inseparáveis resolveram passar, este anuo, o verão em Paquetá. As dificuldades, como era natural, foram enormes. Ao fim de algum tempo encontraram, porém, duas casas na mesma praia, as quais se comunicavam pelo quintal, e foram alugadas, não só entre as demonstrações de alegria de D. Adalgiza, esposa do Dr. Archimedes, como entre as de D. Eleonora, mulher do tenente Pedreira.

 

- Magnifico! - aplaudiu a primeira, batendo as mãozinhas finas, brancas, de dedos afilados.

 

- Esplendido! - confirmou a segunda, com as mesmas demonstrações de contentamento.

 

Mudados para a ilha encantadora, saíram os dois casais, uma tarde, a passeio, juntando conchas pela praia, até que foram ter ao local em que se levanta, entre a terra e o mar, um penedo de três ou quatro metros de altura, em cujo cimo se amontoava uma infinidade de pedras pequeninas, equilibrando-se com dificuldade.

 

- Olha, ali! Que é aquilo? - exclamou D. Eleonora, radiante com aquela vida de liberdade, apontando, com a sombrinha fechada, no rumo da pedra.

 

- Ah! É a "pedra dos namorados"! - explicou o Dr. Archimedes. - Essa pedra tem uma história curiosa.

 

E contou:

 

- É corrente aqui, na ilha, que este rochedo anuncia os casamentos. Os namorados que passam por aqui, atiram-lhe ao cimo uma pedra pequena, uma concha, ou coisa semelhante. Se ficar lá em cima, a pessoa terá de casar-se; se não, se a pedra rejeitar o objeto atirado, fazendo-o rolar para o chão, é sinal de que a pessoa não se casará.

 

- Que graça! - rouxinoleou, rindo, Dona Adalgiza.

 

E, voltando-se para os companheiros:

 

- Vamos experimentar?

 

- Mas... nós já estamos casados! - obtemperou a amiga.

 

- Não faz mal. Vamos!

 

Apanhados quatro seixos, aproximaram-se do penedo, e atiraram, cada um por sua vez. O primeiro ficou. O segundo, igualmente. O terceiro, da mesma forma. O quarto, também.

 

- Todos ficaram! - exclamou, com a sua jovialidade infantil, a linda D. Eleonora.

 

E acentuou, espichando-se, nas pontas dos pés:

 

- Olhem: a minha pedrinha ficou junto da do Dr. Archimedes, e a da Aldagiza bem juntinho da do Pedreira!

 

O tenente olhou, sério, o bacharel. O bacharel fitou, grave, o tenente. Sorriram, os dois.

 

E continuaram, os quatro, o seu passeio, apanhando, felizes, na areia úmida, as pequeninas conchas da praia...

 

LII

 

O PORCO

 

(Lenda muçulmana)

 

5 de junho

 

A terra estava ainda mole do Dilúvio, mas começavam a rebentar, já, aqui e ali, as sementes das plantas resistentes. E como já houvesse, no solo libertado das águas alimento bastante para a bicharia salva da inundação, resolveu Noé, naquela manhã de grande sol e de grandes ventos, abrir as portas da arca, encalhada na areia.

 

- Primeiro os veados. - ordenou o Patriarca.

 

Jafet correu à proa da embarcação, espantou um casal de gamos que devorava uns restos de palha espalhados nas tábuas, e os dois animais pararam em disparada, estalando os cascos luzentes no soalho escuro do tombadilho.

 

- Agora, os leões.

 

Cham instigou, cauteloso, um leão e uma leoa que piscavam os olhos fulvos a claridade intensa do sol, e as duas feras saltaram no areal ainda úmido, gravando com força, na terra empapada, as quatro patas de unhas fortes.

 

E assim foram saindo, dois a dois, os camelos, os cavalos, as zebras, as girafas, os bugios, os tigres, os ursos, os castores, Os cães, as águias, os milhafres, as cotovias, tudo, em suma, que devia constituir, mais tarde, o ornamento da terra ou do ar.

 

Deserta a Arca, notou Noé, ao passar-lhe revista, que, no lugar em que estivera o elefante, ficara, empestando o ambiente, um monte de imundice, de lama pútrida, que repugnava.

 

- Sem? Cham? Jafet? - gritou o velho, chamando os filhos.

 

Os rapazes acudiram, tapando o nariz.

 

- Tirem daqui esta indignidade, - ordenou.

 

Os futuros construtores de Babel entreolharam-se, horripilados com aquela incumbência nauseante. E iam principiar, obedientes, o trabalho penoso, quando o pai, compreendendo-lhes o escrúpulo, mandou que se abstivessem. Tinha-lhe acudido uma idéia: estendeu os braços no rumo do monte de esterco, e ordenou:

 

- Move-te!

 

A montanha de imundice estremeceu por si mesma, ergueu-se acima do soalho alguns centímetros, suspensa por quatro pés invisíveis.

 

O Patriarca estendeu os braços e, novamente, determinou:

 

- Retira-te!

 

O monte de lama podre partiu correndo, buscando misturar-se com a lama que ficara das águas.

 

Tinha nascido o porco.

 

LIII

 

REVELAÇÃO

 

"A recordação de um primeiro beijo de homem, mesmo quando recebido contragosto, transforma-se no espírito da mulher virgem em desejo tenaz, absorvente, imperioso de o repetir, de renovar a sensação daquele delicioso pecado. - COLETTE WILLY"

 

8 de junho

 

Com os olhos vermelhos de chorar, e com tremores de susto por todo o corpo delicado, a loura Mariazinha penetrou no gabinete do pai, em cujos braços se atirou, desatando em soluços. Trazido um copo dágua, e serenados os seus nervos exaltados, ainda, pelo terror, a moça contou, a custo, com o rosto nas mãos, o caso inominável.

 

- Eu vinha, - soluçava, entrecortando as palavras, - eu vinha da aula de música, sozinha, com a pasta debaixo do braço, quando, ali, na rua Paissandú, perto da praia, um sujeito se aproximou de mim, pelas costas, e, pondo o braço no meu pescoço. curvou-me para trás, e...

 

- E... - interrompeu o pai, com a agonia no coração.

 

E a moça, terminando, com dificuldade:

 

- Deu-me um beijo na boca, e correu, no rumo da praia!

 

O caso havia sido, realmente, assim, mas o comendador insistiu na explicação:

 

- E tu não o conheces?

 

- Não, senhor. É um rapaz alto, de roupa clara, chapéu de palha, que eu não sei quem é. Se, porém, o encontrar, eu o reconhecerei. Intimamente aborrecido com aquela aventura da filha, o comendador deliberou punir o atrevido, prometendo à menina, entre carícias afetuosas:

 

- Deixa estar, sossega. Esse patife há de ser castigado. De agora em diante eu passarei a acompanhar-te, e, onde o encontrares, eu quero que m'o apontes.

 

E, entre dentes:

 

- Patife!

 

Passada a primeira emoção, em que o seu pudor de criatura ingênua, de botão desabrochando para a vida, se patenteara com toda a violência da pureza sem simulações, começou o instinto feminino a tomar o seu lugar no espírito da moça, entre cogitações que a alarmavam. Aquele beijo, roubado por um desconhecido, revoltara-a, indignara-a, enchera-a de ódio, na ocasião. À medida, porém, que o tempo se passava, parecia-lhe que aquela carícia brutal aflorava, de novo, na sua boca, numa fome angustiosa de repetição. Debalde, passando a mãozinha pelos lábios, ela procurava escorraçar, afastar, dissipar aquela lembrança. Esta voltava, entretanto, persistente, continua, teimosa, e de modo tal que ela própria já buscava conservá-la no pensamento, como se conserva uma flor encantada, cuja árvore se viu morrer no caminho.

 

No dia seguinte, após uma noite de angústias deliciosas, em que se casavam, substituindo-se, o pudor e o desejo, foi com desprazer, e com um susto mal definido, que a mocinha ouviu, recompondo com coquetaria os finos cabelos de ouro sob o lindo chapéu de palha de Itália, o convite paterno:

 

- Mariazinha, estás pronta?

 

- Já vou, papai! - respondeu a moça, de dentro, dando os últimos retoques na "toilette", diante do toucador.

 

Durante uma semana o comendador acompanhou a filha, acima e abaixo, da cidade até o palacete, e do palacete à cidade, sem que ela descobrisse o seu insolente desrespeitador. E se o velho capitalista sofria com essas caminhadas, com essas idas e vindas fatigantes, mais padecia, ainda, a menina, cujos olhos se foram cercando de um halo escuro, denunciador evidente das penosas noites de insônia.

 

Uma tarde, enfim, ao sair com o pai, a um passeio na praia Mariazinha tomou um susto, que a fez parar, branca, de cera, no gramado por onde ia: diante dela, em um grupo de rapazes, estava, de pé, o estroina, que lhe acordara a alma adormecida na inocência, furtando-lhe na árvore virgem dos lábios o fruto venenoso daquele ósculo! Voltando a si, a moça, como num delírio, não se conteve:

 

- É aquele, papai! gritou, batendo as mãos geladas pela emoção.

 

E, atirando-se ao pescoço do rapaz, cobriu-o doidamente, furiosamente, desesperadamente, de beijos...

 

LIV

 

RESPOSTA DIFÍCIL

 

10 de junho

 

Rosto em fogo, cabelos em desalinho, Dr. Atanásio, que acaba de entrar da rua, passeia nervosamente de um lado para outro no seu gabinete de trabalho, agitando nas mãos crispadas uma carta que acabara de receber no escritório, e que fora, para ele, uma punhalada no coração. À sua frente, no canapé de couro escuro, tauxiado de prata polida, a jovem D. Eleonora esconde a face lavada de lágrimas nas duas conchas das mãos cor de neve, soluçando de vergonha e de susto no horror daquela situação.

 

- E dizer-se que eu confiava em ti, tua honra, no teu amor, e que estava em S. Paulo tranqüilo, sereno, na certeza de que procedias, aqui, com seriedade. com dignidade, com a correção que me havias jurado, de joelhos, diante de Deus!... - geme, quase chorando, o pobre esposo desesperado.

 

Madame procura, como um náufrago na tormenta, uma frase com que inicie a desculpa impossível, mas o marido atalha, agitado, com os olhos em chama, forçando-a a esconder, de novo, a cabeça entre as mãos:

 

- Que vergonha, meu Deus! que vergonha, agora, para mim!... Nunca mais, na minha vida, poderei levantar o rosto diante desta sociedade, que conhece, que sabe, que testemunhou, impassível, o teu crime, a lama que atiraste sobre o meu nome!...

 

Enfiando os dedos na cabeleira grisalha, passadas largas, o notável advogado mede, cada vez mais nervoso, a extensão do gabinete, cujos tapetes lhe abafam os passos, quando, de repente, pára, e reclama, cerrando os punhos:

 

- Confessa-me. afinal: quando foi que aquele miserável, abusando da tua fraqueza, e aproveitando a minha ausência, penetrou nesta casa?

 

Adivinhando nessa pergunta um caminho para a reconciliação, D. Eleonora levanta o lindo rosto ensopado de lágrimas, e, fixando os grandes olhos úmidos nos olhos ardentes do marido, indaga, apenas, pronta para uma explicação:

 

- Qual?

 

LV

 

O TROPEIRO

 

14 de junho

 

O casamento do Sr. Antônio Moreira, comerciante e fazendeiro em S. Bernardo das Russas, cidade cearense a duzentos e quarenta quilômetros de Fortaleza, estava anunciado para a véspera de Natal, que distava, apenas, oito dias. Há um mês, quase, não se falava em outra coisa. A festa devia ser estrondosa, com banda de música e danças por uma semana, e o que era mais, com uma abundância de comidas e bebidas como não havia noticia de outra na redondeza. Antegozando o sucesso daquele acontecimento, o Sr. Antônio chamou, uma tarde, um antigo tropeiro, e ordenou:

 

- João, você vai, amanhã, à capital. Daqui lá são quarenta léguas, das grandes. Você ponha a cangalha na burra preta; escanche, em cima, o jogo de malas. e, chegando à cidade, receba, na casa da modista para quem vai esta carta, o vestido da noiva.

 

E olhando o tropeiro, significativamente:

 

Mas, olhe: você deve estar aqui no sábado, à tarde. Se não, já sabe!

 

O caboclo correu ao cercado, pôs a cangalha na burra, atirou-lhe por cima o jogo das malas de couro, e partiu. Chegando a Fortaleza, recebeu a encomenda, e, para estar em S. Bernardo no dia determinado, retrocedeu na mesma hora.

 

O prazo que o Sr. Moreira lhe havia dado para a viagem era, francamente, curto. O caminho não era bom, a burra era velha, e, sexta-feira, à tardinha, faltando ainda dezoito léguas, estava completamente estropiada. Debalde o caboclo, sacudindo o cabresto, lhe metia o relho, rogando-lhe pragas: a alimária reunia as forças, tentava um choto manhoso, e voltava ao mesmo passo triste, lento, fatigado.

 

De repente, surgiu à margem da estrada uma palhoça de lavrador. João bateu:

 

- Ôi, de casa!

 

- Ôi, de fóra!

 

E apareceu à porta de esteira um sertanejo cobreado, dando as "boas-tardes".

 

O tropeiro, que era mais ou menos conhecido por ali, perguntou, interessado, se não havia um cavalo, um burro, um jumento, que lhe pudessem alugar. O dono da casa foi franco: animais, não tinha; informado, porém, do compromisso do viajante, lembrou-lhe, experiente, um remédio:

 

- Homem, você quer um conselho? E ensinou:

 

- Olhe, ali, atrás da casa, tem uma pimenteira. Está encarnada de pimenta. Você. apanha uma porção delas, machuca num caco, faz uma bolota de pano, e... e... passa!

 

O João aceitou a receita: machucou as pimentas, enrolou alguns molambos à ponta de um pau, ensopou-os no molho, e passou.

 

Passou e despediu-se.

 

Daí a pouco, a burra começou a aumentar a marcha. Momentos depois, principiou a trotar; e, finalmente, largou, de malas às costas, numa carreira brutal, furiosa, desabalada, caminho em fora.

 

Seguro à ponta do cabresto, o caboclo, a principio, acompanhou o quadrúpede. Quando, porém, este abalou na correria desbragada pela estrada silenciosa, não houve mais recurso: estava, ele também, cansado, fatigado, estropiado. Mas, recordando-se que tinha prometido estar com o animal em São Bernardo das Russas, e este se podia transviar com a roupa da noiva, reuniu, num supremo esforço todas as suas energias de inteligência e de músculos, arrancou, num movimento rápido, o cinturão de couro, e, fazendo em si mesmo o que havia feito com a burra, largou-se, também, pelo caminho soturno, numa carreira desenfreada!

 

No dia seguinte, pela manhã, oito horas antes da que lhe fora marcada, atravessavam os dois, o tropeiro e a burra, em disparada, as últimas ruas de São Bernardo das Russas.

 

LVI

 

PARÁBOLAS

 

16 de junho

 

Em matéria de parábolas, eu conhecia, apenas, as que o Nazareno arquitetou para edificação dos seus discípulos: a do bom samaritano, a do filho pródigo, a do semeador, e três ou quatro outras, igualmente profundas e morais. Agora, acabo de conhecer mais umas duzentas, contidas em um volume encantador, publicado há dois dias pelo Sr. Dr. Afrânio Peixoto.

 

As "Parábolas" do brilhante romancista da "Maria Bonita" e da "Esfinge" são, como todas as parábolas bem urdidas e meditadas, um excelente repositório de "ensinamentos, de exemplo", de lições adaptáveis à vida dos homens. E entre elas nenhuma é, talvez, tão humana, tão sábia, nem tão oportuna, como a do melro e do tico-tico. "Descobri num arbusto, quase à beira do caminho, no meu jardim - escreve o autor, - um ninho de tico-tico. Vi-o voar, quando me aproximava, e pude notar três ovinhos depostos na fofa cama bem feita. Pareceu-me que um dos ovos era diferente na forma e na cor, dos outros dois, mas não insisti na minha malícia. Seria lá com o tico-tico. Não perturbei mais o mistério dessa maternidade com a minha indiscrição. Muitos dias depois, distraído, vou pelas mesmas bandas e ouço inquieto pipilar. Pé, ante pé, chego à espreita: o tico-tico depois de saltitar de galho em galho, acerca-se do ninho, trazendo no bico a nutrição para a ninhada que o chamava sôfrega. Olho paro o ninho e vejo um passarinho só, grande, bem maior que o outro, vestido de penugem negra, de amplo bico aberto, à espera de alimento... O filho do tico-tico era um melro!"

 

Entusiasmado com essa página de Afrânio Peixoto, eu acabava de lê-la para a admiração do desembargador Bernardo Meireles quando o velho político do Império me interrompeu, indagando:

 

- Como se chama essa história?

 

- Parábola, desembargador.

 

- Parábola? - trovejou o ancião, fazendo ressoar no soalho o seu bengalão de massaranduba, e agitando, num tremor subitâneo, as barbas veneráveis. - Que parábola, o quê!?...

 

E acentuou, indignado:

 

- Uma grande patifaria, é que é!

 

E chamando os oito netinhos, filhos da mesma filha, começou a distribuir biscoitos por esse pequeno viveiro humano, em que havia, cantando, pipilando chilreando, melros, canários, tico-ticos, cambachirras, curiós...

 

LVII

 

A ADÚLTERA

 

(João, VIII, 1-12)

 

20 de junho

 

Regressava Jesus, naquela tarde, do monte das Oliveiras, quando, em meio do caminho, com o sol a esconder-se, ao longe, no leito de fogo das montanhas, foi rodeado por um pequeno grupo de fariseus, que traziam de rastros, pálida e desgrenhada, uma pobre mulher que se debatia entre eles. Supondo confundir o Rabino com a sua consulta inesperada, um escriba, de nome Barachias, adiantou-se dois passos, e pediu, com fingida humildade:

 

- Mestre, esta mulher foi surpreendida a trair o esposo, a quem jurara fidelidade. A lei de Moisés determina que ela seja apedrejada, e morta pela multidão. Que devemos fazer?

 

Jesus, que lhe ouvira o coração antes de lhe escutar a palavra, baixou-se na areia da estrada, e pôs-se, com o dedo, a escrever.

 

- Mestre - tornou o fariseu, - esta mulher foi apanhada em flagrante, traindo o seu esposo. Devemos matá-la à pedrada, como estabelece a lei de Moisés?

 

Jesus, em silêncio, continuava a escrever sobre a areia, quando, de repente, erguendo-se, respondeu:

 

- Só o justo pode punir o pecador. Aquele, pois, que, dentre vós nunca pecou, atire a primeira pedra!

 

A estas palavras, Barachias desapareceu, e, com ele, um a um, aqueles que o acompanhavam, ficando no caminho, apenas, Jesus e a pecadora. Agradecida e assustada, ia a mísera atirar-se de joelhos para beijar as sandálias do Mestre, quando o Rabino a deteve pelos braços, dizendo-lhe, severo:

 

- Nada me deves, mulher. Em verdade te digo, que as leis de meu Pai são mais implacáveis do que as leis de Moisés. Poupei-te a vida porque a própria morte não puniria a tua falta!

 

E, repelindo-a com a mão, suavemente:

 

- Anda; vai! A vergonha do teu crime, na tua velhice, será, na terra, o teu castigo!

 

E, baixando os olhos, continuou, sozinho, a caminho de Jerusalém...

 

LVIII

 

OBEDIÊNCIA

 

23 de junho

 

Mal saída do colégio, para onde entrara ainda criança, isto é, desde que o pai, o comendador Anacleto, enviuvara, foi a encantadora Maria Lúcia residir no palacete recentemente alugado pelo velho capitalista em uma das ruas menos movimentadas de Botafogo. Deslumbrada com a liberdade conquistada à força de estudo, de uma aplicação que lhe granjeara o primeiro lugar na sua turma, apenas uma coisa a desgostou: foi a recomendação que lhe fez o pai, severo e prudente:

 

- Olha, minha filha; esta casa é tua; governa-a como se fosses a dona. Uma coisa, apenas, eu te peço: vive isolada, sem relações de amizade, e nunca, em hipótese alguma, incomodes os vizinhos.

 

E beijando-lhe a testa clara. coroada por uns lindos cabelos castanhos:

 

- Muito juizinho; ouviu?

 

Duas semanas não se tinham passado sobre a libertação de Maria Lúcia, quando uma quadrilha de ladrões, vendo, uma tarde, sair as criadas, que a jovem patroa indultara naquele dia, resolveu assaltar, pulando o muro dos fundos, o palacete do comendador. Descalços, em mangas de camisa, chapéu em cima dos olhos, os miseráveis penetraram na casa e, desrespeitando a fraqueza da moça, praticaram toda a sorte de depredações, esvaziando as gavetas, arrombando os cofres de jóias, carregando, enfim, com todas as coisas de valor que havia na residência do honrado capitalista.

 

À noite, ao abrir a porta, de regresso ao lar, o comendador teve um pressentimento triste, ao ver a casa às escuras. Abertas, porém, as lâmpadas, recuou, horrorizado, para, em seguida, precipitar-se, de compartimento em compartimento, chamando, aflito, pela menina:

 

- Maria Lúcia? Maria Lúcia? Onde estás, minha filha?

 

No último quarto da casa, esperava-o uma surpresa maior: sentada no leito, desgrenhada pálida, com as vestes em desalinho, Maria Lúcia chorava, com a cabeça nas mãos.

 

- Minha filha da minh'alma! - gemeu o velho, atirando-se para ela. - Que foi isso?

 

- Os ladrões!... - explicou a moça, num gemido.

 

E enxugando os olhos;

 

- Levaram tudo: as roupas, as jóias, a louça, tudo, enfim. Depois...

 

- Depois?... - rugiu o velho, com os olhos esbugalhados.

 

- Desgraçaram-me!... - concluiu a moça, prorrompendo em soluços.

 

- Desgraçaram-te?... - gritou o velho, de dentes e punhos cerrados, com um rugido soturno, cavo, de fera atingida no coração.

 

E após um instante de silencio desesperado:

 

- E como foi? Amarraram-te?

 

- Não, senhor.

 

- Subjugaram-te?

 

- Não, senhor.

 

- Taparam-te a boca?

 

- Não, senhor.

 

- E por que não gritaste? - berrou o ancião, parando, de súbito, no meio do quarto.

 

E a moça, levantando para ele, num soluço, os lindos olhos machucados de lágrimas:

 

- Papai não disse que eu não incomodasse os vizinhos?

 

LIX

 

AS LOÇÕES MIRACULOSAS

 

28 de junho

 

A coisa mais fácil de inventar, é. neste mundo, o tônico para cabelo. Não há barbeiro por mais modesto e preguiçoso, que não possua a sua formula prestigiosa, destinada a fazer rebentar uma cabeleira encaracolada na calva mais rebelde e, se possível, numa bola de bilhar. Quanto à utilidade real dessas loções, desses tônicos, dessas tinturas miraculosas, prova-a o número, sempre crescente, de carecas, existente no Rio de janeiro.

 

O mais curioso é, no entanto, o entusiasmo, a fé, a convicção, com que os "fígaros" fazem a propaganda do seu preparado. Concluída a barba do freguês, o bárbaro, empunhando ainda a navalha, propõe à vítima:

 

- Vamos, agora, a uma fricção do nosso tônico?

 

Agredido assim, o freguês encara o agressor, medindo-o de alto a baixo, com raiva; ao dar, porém, com os olhos na lamina faiscante, aberta a dois palmos do seu pescoço, capitula, forçosamente, concordando, desarmado:

 

- Ponha!

 

Autorizado a cometer o crime nefando, o barbeiro passa, então, a fazer o elogio do seu remédio.

 

- É um prodígio, senhor doutor! - assegura. - Se ele caísse numa pedra, no chão, a pedra criaria cabelo!...

 

O mais curioso propagandista desse gênero foi, entretanto, o de que deu noticia, há muitos anos, na imprensa do norte, um saudoso jornalista paraense. Apanhado, certa vez, de surpresa, em uma cadeira de barbearia, esse mártir foi intimado, de súbito, pelo homem da navalha:

 

- Então, uma loçãozinha para nascer o cabelo; não?

 

O desventurado ia recusar terminantemente a proposta, mas o barbeiro atalhou, abrindo a navalha:

 

- É um verdadeiro milagre, o meu preparado. Basta cair na calva, para o cabelo começar, logo, a nascer. É assombroso! É prodigioso! É formidável!

 

E enquanto esfregava na cabeça do freguês a água do pote perfumada, contou:

 

- O senhor quer ver o que é a minha loção? Uma vez, estando eu a fabricar este preparado, peguei um jarro, que estava cheio dele, e coloquei-o em uma prateleira, pregada à parede. Debaixo da prateleira, que é alta, ficava o meu baú, um baú grande, de couro curtido, todo pregueado, daqueles antigos, sólidos, enormes, que se faziam em Portugal. Pois, bem; o jarro, que estava rachado, começou a vazar o liquido na prateleira, que o fazia cair, por seu turno, sobre o baú; e de tal forma que, na dia seguinte, ao abrir a porta encontrei o baú...

 

- Molhado. não? - interrompeu o jornalista.

 

E o fígaro, sério:

 

- Não, senhor; coberto de cabelo!

 

E esfregou-lhe a careca, com força.

 

LX

 

A VINGANÇA

 

30 de junho

 

O caboclo Saturnino, agricultor em Jacarepaguá, era, por natureza um homem morigerado. Criando os seus porcos, as suas cabras, os seus perus, as suas galinhas, fazia o possível para que a bicharada não saltasse a cerca, indo devastar as plantações dos vizinhos. Se ele se indignava até à inconveniência quando um bode alheio lhe penetrava o roçado, era natural que os outros se revoltassem, também, quando vítimas de idênticas depredações.

 

Não obstante os cuidados de todo o dia, tapando, endireitando, recompondo os menores buracos do cercado, foi o Saturnino surpreendido, uma tarde, pela falta de uma das galinhas mais gordas do terreiro. Experiente como era, saiu o caboclo pelo fundo do quintal, e, ao olhar para a cozinha do seu compadre Teodoro Maniva, descobriu, lá, a sua galinha, que estava sendo depenada pela dona da casa. Saturnino rodeou o cercado, bateu à porta da frente, e queixou-se do que lhe haviam feito. Positivamente, aquilo não era sério, nem digno de um homem de bem... Teodoro sorriu, e desculpou-se:

 

- Ora, compadre, para que brigar? Vamos entrar num acordo. A galinha já está na panela; venha jantar, hoje, comigo...

 

Inimigo de questões, Saturnino aceitou o convite, esperou a hora, jantou, despediu-se, e dirigiu-se para casa, de cabeça baixa, imaginando o meio de tomar desforra do seu compadre Teodoro.

 

Esta, não foi difícil. A Brígida, mulher do Teodoro, era uma cabocla forte, rochonchuda, atarracada, cujos olhos faiscavam toda a vez que divisavam, na vila ou nas estradas, o vulto do Saturnino. O caboclo recordou-se disso e, com o propósito da represália, resolveu explorar essa fraqueza da comadre. E tanto fez, tanto virou, tanto mexeu, que, um dia, ao voltar do roçado, o Teodoro não encontrou mais a mulher. Desconfiado, rumou para a casa do Saturnino, e bateu.

 

- Quem é? - perguntaram de dentro.

 

- Sou eu! - trovejou o Teodoro.

 

Saturnino apareceu na soleira do casebre e o outro indagou, feroz:

 

- A Brígida não está aqui?

 

O caboclo sorriu, batendo-lhe no ombro:

 

- Está aí, compadre; ela está aí dentro.

 

E tomando-o pelo braço, puxando-o para a cabana:

 

- Entre, compadre; fique para dormir com a gente...

 

 

 

LXI

 

ALTRUÍSMO

 

("Diário" de uma senhora recentemente chegada da Europa)

 

2 de junho

 

"Domingo, 6. Regresso, enfim, à pátria querida, e aos braços do meu marido. Após dois anos de ausência, embarquei, ontem, às 5 horas da tarde, em Lisboa, aonde cheguei anteontem, de Paris. O navio vai repleto de passageiros, principalmente de emigrantes, embarcados em Vigo e no Porto. O mar apresenta-se bem, e a viagem está sendo feita sem novidade.

 

Segunda-feira, 7. - Tudo continua bem a bordo. Os passageiros de 1ª classe, na sua maior parte argentinos, bebem e jogam, no "bar". No tombadilho, alguns ingleses, que se dirigem ao Rio e a Buenos-Aires, fumando displicentemente. Algumas francesas que conduzem vestidos feitos para a sociedade carioca; e três ou quatro famílias brasileiras, que se conservam nos seus camarotes.

 

Terça-feira, 8. - A viagem continua excelente. Em palestra com o imediato, este me informou que vão a bordo, para o Rio, Santos, Montevidéu e Buenos-Aires, 1.275 passageiros. Uma verdadeira cidade flutuante, em que não há cinco pessoas que reciprocamente se conheçam!

 

Quarta-feira, 9. - O mar permanece calmo, e o céu prenuncia bom tempo. À mesa do almoço, notei que o comandante olhava insistentemente para mim, distinguindo-me entre as outras senhoras. Achei esquisita a insistência, e fiz-me de desentendida. À noite, não desci para o jantar.

 

Quinta-feira, 10. - O comandante continuou, hoje, à mesa, a olhar-me com desusado atrevimento, a ponto de esquecer-se do talher e do whisky. É um inglesão alto, robusto, de quarenta e poucos anos presumíveis, bigode louro, tez corada e fina, olhos azuis como o oceano. Um verdadeiro tipo de marujo britânico. Entretanto, a sua insistência irrita-me. Por quem me tomará ele?

 

Sexta-feira, 11. - Após o jantar, o comandante Wiliam desceu da casa de comando ao tombadilho, procurando conversar comigo, em inglês. Fiz todo o possível para impedir uma declaração indelicada, não o conseguindo. Não é que o homem está mesmo apaixonado?

 

Sábado, 12. - Esta situação começa a incomodar-me. O comandante passou o dia quase todo a perseguir-me, insistindo em declarar-me a sua paixão desordenada. Tenho a impressão de que o homem enlouqueceu. E eu, sozinha, sem um amigo, sem um conhecido que me defenda! Como é perigoso para uma senhora viajar só!...

 

Domingo, 13. - O comandante enlouqueceu, positivamente. Hoje, à tarde, aproveitando um momento em que ficamos sós no salão de música, apertou-me os pulsos com violência, dizendo-me que não lhe é possível resistir mais. Diz ele que, se eu me não entregar à sua paixão louca, ele meterá o navio a pique em pleno oceano, fazendo perecer todos que nele viajam, Dai-me forças, meu Deus! Dai-me coragem!

 

Segunda-feira, 14. - Que dia horrível, este! Como um louco, o cabelo e o bigode revoltos, os olhos inchados pela insônia e pelo desejo, o comandante declarou-me, trêmulo sob palavra de honra, que, se eu não for à meia-noite de hoje, ao seu camarote, meia hora depois ele fará explodir o navio, em uma catástrofe de que se não salvará ninguém. Que situação a minha! Tende piedade de mim, minha Nossa Senhora da Penha! Iluminai-me, minha Virgem Maria!

 

Terça-feira, 15. - Salvei da morte 1.275 passageiros! Não haverá outros navios correndo perigo no mar?"

 

LXII

 

MODAS...

 

5 de julho

 

A imprensa carioca tem mostrado, nestes últimos tempos, um desusado interesse pelo Japão. "A Noite" mantém em Tóquio um correspondente epistolar, o Sr. Carlos Abreu, e não há quem não tenha lido, e quem não admire, no Rio, as crônicas deliciosas que o nosso cônsul em Kobe, o Sr. Osório Dutra, está mandando para "O Imparcial". Despertada assim a fome de pitoresco do publico, não há, hoje, quem não deseje conhecer a terra do Mikado, com as suas "geishas", os seus crisântemos, as suas cegonhas azuis e as suas cerejeiras cor de rosa, enfim, o Japão verídico ou de legenda, com os seus pequenos leques de seda e os seus grandes templos de porcelana.

 

Entre os curiosos desse gênero está, como era natural, o antigo engenheiro da Central do Brasil, Dr. Guilherme Viana, cuja velhice decorre, hoje, no meio da melhor prosperidade econômica, ao lado da esposa, a virtuosa Dona Saturnina, da filha viúva, D. Odete Meireles, e da sua encantadora sobrinha Maria Otávia, botão de rosa de dezoito pétalas, que é, pode-se dizer, uma segunda filha do casal. Interessado, dessa forma, pelo Império do Sol Nascente, o velho engenheiro perguntou-me, outro dia, se eu possuía nas minhas estantes alguma obra sobre o Japão. Eu lhe falei em cinco ou seis, entre as quais as dos nossos patrícios Drs. Oliveira Lima, Luiz Guimarães e padre Feitosa, e o meu amigo escolheu:

 

- Mande-me o livro do padre; deve ser mais fiel, mais de acordo com a verdade. E mande-me outro qualquer, de autor estrangeiro.

 

No dia seguinte remetia-lhe eu a "Viagem ao Japão", de monsenhor Feitosa, e uma obra de Mabel Bacon, americana, traduzida, há anos, para o francês, com o titulo de "Jeunes filles et femmes au Japon". E ontem fui visitar o meu velho amigo, a quem encontrei com os dois volumes em cima da mesa, rodeado das três senhoras que lhe compõem a totalidade da família.

 

- Excelente livro, o do padre; - observou-me, de sopetão, o meu velho camarada. - Achei apenas um pouco exagerado, naquela parte em que ele diz ter visto os soldados de um destacamento tirarem a farda, e descansarem, nus, à vista de toda gente, ao lado das baionetas.

 

- E o outro livro, o da americana? - indaguei.

 

- Também tem exageros, excessos abomináveis, como, por exemplo, esse em que a autora conta que, no interior do país, as camponesas trabalham ao sol, cultivando a terra, tendo sobre o corpo unicamente um chapéu de abas largas, e, à cintura, um leque, amarrado por um cordão.

 

- Como é essa vestimenta? - indagou

 

D. Odete, intervindo.

 

- Um chapéu de palha, e um leque à cintura, - repetiu o pai.

 

- E nada mais! - acentuou.

 

A essa informação, D. Saturnina juntou as gordas mãos sobre o estômago, espantada:

 

- Meu Deus! Parece até "toilette" do Municipal!

 

Mas não terminou. Escandalizada com aquela heresia, a viúva interrompeu-a, protestando, logo, não em nome da decência, mas em nome do bom gosto:

 

- Oh, mamãe, assim, também, não!

 

E acrescentou, com horror:

 

- Onde a senhora já viu a gente ir ao Municipal de chapéu?!...

 

LXIII

 

OS SUSPENSÓRIOS

 

8 de julho

 

Um advogado ilustre, pessoa da minha estima, contava-me, há dias, um caso curioso que o impressionara profundamente. Procurado por uma senhora, que desejava divorciar-se, fizera ele a petição competente, com todo o segredo, e foi levá-la ao juiz. E regozijava-se com a surpresa que ia causar ao péssimo esposo da sua cliente, quando abriu a boca estupefato: no cartório havia, já, uma petição do marido, que apelava para o mesmo recurso judiciário apoiado nas mesmas razões em que se apoiava a mulher. E, como conversa puxa conversa, contou-me o ilustre causídico uma história interessante, que ele havia lido, poucos dias antes, em certa revista estrangeira.

 

Homem de gênio desigual, o Sr. Fabiano preparava-se para sair, quando, de repente, começou a perder a paciência. Faltava-lhe o suspensório, que devia estar preso à calça vestida na véspera, e era com indignação que ele berrava, com as mãos segurando o cós:

 

- Não o viste, Maria?

 

A criada respondia-lhe negativamente e ele trovejava para a mulher:

 

- Não o viste, Marcela?

 

De repente, coordenando as idéias, ajustando o "puzzle" das lembranças recentes, calou-se, acalmando completamente a tempestade. E ia fazer o possível para que ninguém falasse mais em tal coisa, quando a mulher chegou à porta do quarto, avisando:

 

- Fabiano, aí tem uma pessoa que quer falar contigo, com urgência.

 

- Quem é?

 

- O Sr. Octaviano, da farmácia.

 

Um minuto depois, mostrando nas olheiras escuras as infinitas torturas de uma noite de insônia, entrava no quarto, usando da intimidade que ligava as duas famílias, o Sr. Octaviano, farmacêutico de renome. Estava soturno, grave, circunspecto, e, sentindo-se a sós com o amigo, explicou, misterioso, o motivo daquela visita matinal:

 

- Você sabe - começou, - que eu tinha absoluta confiança em minha mulher. Em minha casa não entrava, jamais, outro homem. Entretanto, ao penetrar, ontem, no nosso quarto de dormir, encontrei isto debaixo da cama. Veja!

 

E, dizendo isso, arrancou do bolso do sobretudo, que não tirara, um par de suspensórios azul, com fivelas de prata, que exibiu, confiante, aos olhos espantados do amigo.

 

A essas vozes, porém, a porta escancara-se e, de um pulo, aparece no meio do quarto uma figura de mulher. Era D. Marcela que, tendo visto e ouvido tudo pela fechadura, bradava, branca de cólera:

 

- Mas, que é isso, afinal? Esse suspensório é o teu, que estas procurando há meia hora!

 

E cerrando os punhos, no rumo do esposo:

 

- Indigno! Canalha! Miserável! Não fico nesta casa mais, nem um minuto! Cachorro!...

 

E prorrompendo em soluços:

 

- Bandido! Infame! Desgraçado!..

 

Atarantado com o que acabava de ouvir, o Sr. Octaviano recuara até à parede, boquiaberto. Pálido, tonto, desorientado, o Sr. Fabiano fizera outro tanto, em sentido contrário. E ia a comédia por essa altura, com a moça a arrancar furiosamente os cabelos no meio do quarto, quando apareceu à porta a criada, trazendo alguma coisa nas mãos.

 

- Patrão, achei os seus suspensórios.

 

A patroa parou de chorar, estacando, de olhos escancarados, pálida, de cera. E a criada continuou:

 

- Estavam na secretária da senhora, ao lado do canapé.

 

Recobrando animo, o Sr. Fabiano encaminhou-se, rápido, para a rapariga, e vendo que os suspensórios eram cinzentos, e não azuis, como os seus, trovejou, furibundo:

 

- De quem são estes suspensórios, senhora?

 

Mas não obteve resposta. D. Marcela. apavorada havia saído pela porta dos fundos.

 

LXIV

 

A BARONESA

 

12 de julho

 

Um médico ilustre, de incontestável influencia no seio da família carioca, está utilizando, ultimamente, o seu prestigio pessoal para que as senhoras eliminem, de uma vez, o habito de pintar os cabelos. Acha ele que uma cabeça alva, ou, pelo menos. polvilhada de prata, é um sinal de insubstituível respeitabilidade, que se não pode, de modo nenhum, esconder ou disfarçar. E tamanho tem sido o resultado dessa campanha metódica, persistente, silenciosa, contra a vaidade feminina, que sobem a dezenas, já, as senhoras que se reconciliaram com o destino, conformando-se com as conseqüências inevitáveis da idade.

 

Esse costume de mudar a cor dos cabelos não é, entretanto, um vício dos nossos tempos. As atenienses conheceram-no, conheceram-no as mulheres de Veneza, criadoras do "louro veneziano". e não houve corte européia posterior à Renascença em que não se procurasse um processo de ocultar à curiosidade do mundo, sempre impiedoso, a neve que nos avisa, alvejando-nos a cabeça, que é chegado, enfim, o triste inverno da vida... Há trinta anos, ainda, era isso em voga no Rio de janeiro. E era sobre isso mesmo que eu meditava, uma destas tardes, ao despedir-me da minha veneranda amiga a Sra. baronesa de Caçapava, cujos oitenta e seis anos constituem, em nossos dias, uma das relíquias mais preciosas da mais alta sociedade do Império.

 

Estendida na sua "chaise-longue", com os pés, pequeninos e engelhados como duas flores murchas, abrigados sob uma delicada toalha de seda, a boníssima titular sorria, carinhosa, com a sua boca muito pequena, escondida em um dos vales do rosto recortado de rugas, quando eu lhe falei nos inícios do nosso conhecimento.

 

- O senhor andava pelos trinta anos; não era, conselheiro?

 

Eu fiz as contas, mentalmente, embaraçando-me nos algarismos.

 

- Não estou certo, Sra. baronesa; não estou certo - respondi. - Recordo-me, porém, que, certa vez, ao vê-la, fiquei impressionadíssimo com a sua figura. A Sra. baronesa, nesse tempo, lembro-me bem, tinha o rosto ainda moço, mas apresentava na cabeça, já, acentuando a sua beleza, numerosos fios de prata.

 

- Foi em 1871, - confirmou a velha fidalga, sorrindo benevolamente com a sua boquita de criança, encolhida e funda, privada de todos os dentes. - Foi em 1871; eu tinha, então, trinta e sete anos.

 

- De outra vez que a vi, - tornei, - o que mais me impressionou foi, ainda, a beleza do seu cabelo. A sua cabeleira, sempre farta, abundante, maravilhosa, era, ainda, inteiramente negra.

 

A baronesa olhou-me novamente, com um sorriso de saudade, que era um doce perdão para nós ambos, e acentuou, bondosa:

 

- Foi em 1880; eu tinha quarenta e seis...

 

E, olhando-me significativamente, pediu-me, com a vergonha brilhando, como uma brasa, na cinza fria dos olhos:

 

- Cubra-me os pés, conselheiro; sim?

 

LXV

 

A FOME NO AMAZONAS

 

15 de julho

 

São alarmantes, aflitivas, desesperadoras, as notícias provenientes da Amazônia, relatando o que têm sido, ali, os horrores da fome. Reduzidas à miséria extrema, centenas de famílias vivem, naquelas regiões inóspitas, sem remédios, sem roupa, sem alimentação, num retrocesso forçado à vida selvagem. As casas, que outrora permaneciam abertas à margem das estradas e dos rios, fecharam-se de todo, para que o viajante não veja, de passagem, a nudez das pessoas que nelas habitam. Milhares de senhoras, de moças. de meninas, refugiaram-se nos aposentos, por não terem um andrajo, um molambo, um trapo, sequer, para velarem as partes vergonhosas do corpo. E, se a carência de vestidos é tamanha, que se poderá dizer, então, da falta de alimentos? O episódio narrado pelo Sr. deputado Pereira Teixeira. que dele teve notícia por um amigo recentemente chegado do Acre, é desses que dissolvem em lágrimas as fibras mais duras do coração.

 

Seringueiro destemido, o Antônio Cajapió havia resistido, quanto possível, na sua barraca de Santa Ifigênia, à fúria da calamidade. Avisado de que os vapores de Manaus não iriam mais àquelas paragens, levando mantimentos, enquanto a borracha não subisse de preço, meteu-se ele no seu casebre, a consumir o que lhe restava: carne seca, feijão, farinha, bolachas, e, quando acabou tudo, sentou-se na canoa, e pôs-se de viagem. descendo o rio.

 

Ao fim de dois dias, descobriu, à beira da grande estrada fluvial, um barracão, que se achava completamente fechado. Intrigado, encostou a embarcação, amarrou-a a uma árvore da ribanceira e, como não tivesse mais um punhado de farinha para a fome do dia, resolveu disputá-lo, mesmo pela violência, aos moradores daquela tapera. Com esse intuito encaminhou-se para a porta, e bateu:

 

- Ó de casa!

 

Ninguém respondeu.

 

- Ó de casa! - insistiu.

 

Como o silencio continuasse, o caboclo procurou uma fresta da porta, e olhou: dentro, estiradas na paxiúba do soalho, estavam, completamente despidas, a dona da casa, mulher ainda jovem, e duas irmãs desta, que lhe faziam companhia. Espiando pela fresta, viu ele que a família se encontrava em conciliábulo, procurando, talvez, um meio de atender ao viajante, quando não havia mais, na casa, quem tivesse um vestido ou um pedaço de pano para a nudez. De repente, como se tivessem deliberado alguma coisa, ele viu, do seu ponto de observação, que a dona da casa se afastava do grupo e, tímida, assustada, vergonhosa, chegava à mesa, tomava um prato vazio, que ali se achava, e, colocando-o no lugar em que devia estar a folha de parreira, encaminhar-se para a porta. Um minuto mais, a porta abria-se, e o caboclo recuava, espantado, ante o tipo escultural que lhe caía sob os olhos e cujo corpo só era vedado à sua curiosidade no ponto em que estava coberto pelo prato.

 

- Que deseja? - indagou a cabocla, de olhos baixos, desconfiada.

 

O viajante examinou, por um instante, a mulher, pensou dois minutos, e, sem se conter, trovejou:

 

- Almoçar!...

 

À tarde, quando a canoa partiu, as três mulheres juntavam com uma vassoura os cacos da louça. espalhados no chão...

 

LXVI

 

OS "REDDIS"

 

18 de julho

 

A alma humana é uma caverna tão ponteada de esconderijos e retorcida de zig-zags que ainda não houve na terra um homem, por mais atilado e meticuloso, que chegasse a conhecer a metade, sequer, do seu próprio coração. Quando a gente supõe haver encontrado uma vida simples, singela, sem complicações nem subterfúgios, eis que se abre diante de nós um abismo, um vulcão, uma boca subterrânea, capaz de engolir o peregrino que lhe busca desvendar o mistério. Mesmo no que diz respeito à educação, isto é, às qualidades adquiridas pelo indivíduo, essas surpresas não são raras nem, geralmente, pequenas. E era disso mesmo que eu me convencia, mais uma vez, há poucos dias, ao voltar da última recepção do coronel Anfrísio Guimarães, pai do Dr. Claudemiro Guimarães cujo nome é, pode-se dizer, um dos orgulhos da nova geração de advogados brasileiros.

 

Homem de sólidos capitais, o coronel, assim que o filho casou, teve, não se sabe por que, uma desinteligência com a esposa, a velha e virtuosa D. Cherubina, passando a residir no palacete do novo casal, cujas despesas, de nove contos por mês, são enfrentadas galhardamente pela sua fortuna. Mme. Claudemiro, a nora, tem pelos cinqüenta anos do sogro uma adoração filial. O filho, o Dr. Claudemiro, respeita-o duplamente como pai, e, principalmente, porque o velho lhe desculpa sempre, como os bons pais, perante a esposa, as suas longas vigílias jurídicas fora do lar. E como a vida lhes corra, a uns e a outros, como um ribeiro japonês entre margens de crisântemos eu me dou, de vez em quando, ao prazer de visitá-los, concorrendo para a enchente das suas salas nas costumeiras recepções dos domingos.

 

Um desses dias, fui. E conversávamos em uma roda sobre costumes orientais, quando, de repente, a propósito de casamentos, eu me lembrei dos "reddis", povo da Índia meridiona1, cuja história havia lido na véspera, e contei, com certo desvanecimento:

 

- Os "reddis", nesse particular, são originalíssimos. Entre eles, a mulher de quinze ou vinte anos pode esposar um menino de seis, o qual será criado por ela. Enquanto, porém, a criança não cresce, ela fica, por seu turno, entregue a um parente do marido, geralmente ao pai deste, seu sogro, o qual poderá substituir o filho em todas as eventualidades. E este esposo interino preenche de tal forma as suas funções de tutor, que o marido, quando cresce encontra, já, a casa repleta de crianças, que, sendo seus filhos, são. também, seus irmãos.

 

Como se fizesse em torno de mim um silencio geral, eu o aproveitei, continuando:

 

- Esses maridos não ficam, porém, prejudicados; sendo as suas mulheres mais velhas do que eles, e os "seus" filhos quase da sua idade, eles terão, mais tarde, a compensação, fazendo com os filhos o que o pai fizera com eles. E assim vivem muito bem.

 

Enquanto eu contava essa história, notei que alguém se afastava do grupo. E quando acabei, fiquei estarrecido com uma surpresa: junto de mim, com a minha bengala e a minha cartola na mão, estava o coronel Guimarães, que me perguntava, pálido, com ligeiros tremores no "cavaignac":

 

- O conselheiro pediu o seu chapéu?

 

LXVII

 

FORTUNATO

 

22 de julho

 

Em luta permanente com a adversidade, Fortunato segurou, uma noite, entre as mãos, a cabeça da mulher, e confessou o seu propósito:

 

- A fome, como tu vês, bate-nos à porta. Sem pão e sem amigos, a vida, neste povoado, é-me, de todo, impossível. É preciso, pois, que eu me prive do teu carinho, e parta, sozinho, pelo mundo, em busca de terra menos ingrata. Tudo que possuímos dar-te-á, com certeza, para uns vinte ou trinta meses. Com o teu trabalho honesto, poderás dilatar a utilidade desses recursos, fazendo-os durar cinco anos. Se, dentro desse prazo, eu não tornar aos teus braços e ao teu amor, considera-te viúva, porque, de certo, eu morri.

 

Na manhã seguinte, após um esforço inaudito para libertar-se das cadeias de cristal e mármore que eram as lágrimas e os braços da esposa jovem, Fortunato punha às costas, preso ao seu cajado de caminhante, uma trouxa com a roupa indispensável, e desaparecia, limpando os olhos úmidos na manga da camisa grosseira, na curva da estrada por onde passara, há um ano, trazendo a noiva pela mão.

 

Errando de terra em terra, de fazenda em fazenda, eram-lhe companheiros, por toda a parte, o infortúnio impiedoso, a má sorte inclemente, os contratempos inevitáveis. Debalde se esforçava, infatigável, para juntar um pecúlio, amontoando algumas moedas com que levasse ao lar um pouco de felicidade e fartura. As suas tentativas mais tímidas, mais simples, mais modestas, eram, sempre, como uma árvore infeliz, cujas folhas fossem dispersadas, ainda tenras, por um sopro de tempestade.

 

Ao fim de quatro anos, porém, como por um milagre, tudo mudou. As moedas multiplicaram-se em seu bolso, acumulando-se, amontoando-se, como se a fortuna, arrependida de tanta avareza, se tivesse predisposto a compensar a usura anterior com um gesto de espantosa prodigalidade.

 

Meses depois, nas vésperas, quase, do prazo concedido à mulher, Fortunato encheu de moedas o seu grande surrão de couro, prendeu-o à cintura, e, velho, barbado, desfigurado pelos sofrimentos inomináveis, tomou, a pé, o caminho da terra natal. Ao cabo de quatro semanas, com os pés sangrando, viu, enfim, da curva da estrada por onde se fora cinco anos antes, a sua aldeia e o seu lar. Trôpego, magro, faminto, mas disposto. mesmo assim, a dar uma sensação de alegria à companheira querida, encaminhou-se, de manso, para a porta e bateu. Uma criança de quatro anos, linda e forte, em quem se repetiam os traços inolvidáveis da esposa, surgiu na sala pequenina, e chamou para dentro:

 

- Papai!

 

- Heim? - respondeu, do compartimento contíguo, uma voz masculina.

 

- Aqui está um homem - informou, alto, a pequenita.

 

Fortunato cambaleou numa síncope,. encostando-se ao portal, para não cair. Antes, que o dono da casa aparecesse, entregou o saco de ouro à criança, retomou o seu bordão de peregrino, e partiu...

 

LXVIII

 

O LIMO

 

24 de julho

 

Mme. Costa Mafra particulariza-se na sociedade carioca pela originalidade das suas perguntas, que lhe colocam o marido, de vez em quando, nas piores situações. Roda em que ela se encontre, dissolve-se invariavelmente com uma das suas consultas inesperadas, a mais simples das quais poria em dificuldades, talvez, o mais hábil dos sofistas. Como, porém, todo veneno possui um antídoto, Dona Arabela tem, para neutralizar as suas perguntas indiscretas, as respostas irretorquíveis do conselheiro Brazilino do Amaral.

 

Desse duelo entre a inocência e a esperteza, ou, melhor, entre a ingenuidade e a experiência, fui eu próprio testemunha, há dias, no salão de chá do Jockey-Club, quando, a propósito do Sr. deputado José Bonifácio, que havíamos encontrado à porta, Mme. Costa Mafra perguntou:

 

- Mas, é verdade, conselheiro: por que é que os homens têm o rosto ponteado de barba, de pelos irritantes e incomodatícios, quando as mulheres possuem, em geral, o delas macio, liso, limpo, sem um fio de cabelo?

 

O conselheiro olhou o Dr. Mafra, que o fitava suplicante, passou a mão pelas barbas veneráveis, e começou a explicar, com os olhos na toalha:

 

- Como a senhora sabe, o homem foi feito de barro, e a mulher foi tirada da sua costela.

 

- Isto eu sei.

 

- Pois, bem. Feito em primeiro lugar, com alguns punhados de barro umedecido, o homem foi posto a secar ao sol, como todas as obras de cerâmica. A senhora sabe, porém, que, todo barro molhado, quando não apanha sol convenientemente, cria limo; e foi o que aconteceu ao homem, cujo rosto, na ocasião de ser o corpo submetido ao fogo solar, ficou sombreado por um ramo de árvore, na oficina do Paraíso.

 

- E a mulher?

 

- A mulher, não. Tirada da costela do homem, e posta com o rosto para o sol, ficou naturalmente, com o cabelo apenas na cabeça, posta à sombra, mas, em compensação, sem o limo na face.

 

D. Arabela descansou o queixo de bonequinha alemã no polegar e no indicador da mão esquerda, e, ao dar com os olhos no próprio braço de mármore posto a descoberto até a "avenida da ligação", insistiu:

 

- E em toda a parte aonde o sol não chegou, criou limo?

 

O conselheiro ia responder, mas, ao abrir a boca, fechou-a, de novo. É que, defronte dele, com a xícara suspensa e os olhos fuzilantes, o Dr. Mafra intimava, com significativos tremores na voz:

 

- Conselheiro, tome o seu chá...

 

LXIX

 

A VIRGEM

 

27 de julho

 

Após aquela noite de festa, em que dançara desesperadamente com todos os rapazes que lhe pediam essa honra, amanheceu mademoiselle Beatriz com febre alta, e uma tosse forte, com grandes dores no peito. Chamados os Drs. Miguel Couto, Austregésilo e Aluísio de Castro, foi debalde que eles recorreram, em conjunto, às possibilidades da ciência: ao segundo dia a encantadora brasileirinha falecia, fazendo desfilar pela rua D. Mariana o mais suntuoso enterro de virgem que já se viu no bairro de Botafogo.

 

Quebrados, assim, os grilhões que a prendiam a este mundo de "fox-trots" e "maxixes", foi mle. Beatriz tão alva como a de Dante, bater, sorrindo, à luminosa porta do céu. E foi um alvoroço, como dificilmente se imagina. Tratando-se de um acontecimento raro, e que se torna cada vez menos freqüente, a recepção das virgens se reveste, no céu, de uma sumptuosidade excepcional. Para ver, e saudar, de perto, a heroína, juntam-se no vestíbulo dos empíreo, agitando palmas de rosas, todos os bem-aventurados. E mal a recém-chegada põe o pé no batente florido, rompe por todo o Paraíso o coro dos anjos, cujas vozes se misturam, doces, meigas, comoventes, às das onze mil companheiras de Santa Úrsula.

 

Era essa a recepção que aguardava mle. Beatriz, quando ia ficando tudo inutilizado por um incidente imprevisto. Anunciada pelos serafins, de longe, do carro de ouro das nuvens, a aproximação da venturosa, ordenou S. Pedro que Santa Cecília e Santa Matilde o ajudassem no reconhecimento da nova eleita de Deus, estabelecendo a sua identidade. Para isso era preciso, entretanto, despojá-la da sua grinalda, dos seus enfeites, das suas complexas roupas terrenas, deixando patente, com a pureza do seu corpo, a inocência do seu coração.

 

Assim, porém, que principiou este serviço delicado, as santas recuaram, escandalizadas. E, entreolhando-se, chamaram São Pedro.

 

- A moça não é esta, meu santo!

 

O chaveiro correu, aflito, e fixando os olhos puros no corpo virginíssimo de Beatriz, indagou, espantado:

 

- De que foi que você morreu, minha filha?

 

- De pneumonia, meu santo!

 

O apostolo encarou-a, incrédulo, e insistiu:

 

- Você não está enganada, não?

 

- Não, senhor.

 

- Você não morreu em algum desastre de estrada de ferro, de alguma queda de aeroplano, de algum encontro de automóveis?

 

- Não, senhor! - teimou a moça, firme, sacudindo a cabeça.

 

- Que significam, então, - tornou o santo, - essas equimoses no seu colo, no seu estômago, no seu ventre, nas suas pernas como quem foi arrastada de bruços pelo calçamento?

 

Beatriz baixou os olhos negros pelo seu claro corpo maravilhoso, e, sorrindo:

 

- Ahn! Não é nada, não!

 

E explicou, com graça:

 

- É que eu morri, dois dias depois de um grande baile, em que dancei o tango com os rapazes mais elegantes do Rio de janeiro!

 

E, desatando a rir, entrou, entre os anjos, no céu...

 

LXX

 

MELHORAMENTOS...

 

31 de julho

 

A grande preocupação nacional do momento, conforme é notório, é a visita de sua majestade o rei da Bélgica. Da Gávea à Tijuca, do Cais Faroux às águas paludosas do rio Pavuna, reinam uma febre, uma atividade, uma fúria de empreendimentos verdadeiramente assombrosa. Nunca se viu, no Rio, atacados de uma só vez, tão grande número de melhoramentos. A cidade modifica-se, rejuvenesce, transforma-se, das pedras das ruas à crista dos monumentos.

 

Aí estão, demonstrando a influencia benéfica dessa visita real, as notícias da imprensa, registrando essas alterações. Calça-se uma rua dos subúrbios? Para que? Para o rei Alberto ver... Modifica-se o palácio Guanabara? Reforma-se o jardim da praça Maná? Aumenta-se o edifício da Prefeitura? Com que intuito? Para o rei Alberto ver... Até a pintura das carroças de lixo, ordenada pela Limpeza Publica, já foi atribuída à próxima visita de sua majestade.

 

Isso, no que está patente, visível, positivo. Os melhoramentos privados, secretos, de iniciativa da população, estes ainda são mais numerosos, mais sérios, mais significativos do nosso entusiasmo. Dezenas de vestidos de baile, "para o rei Alberto ver", já foram encomendados aos grandes costureiros daqui, de Paris e de Londres. Há, mesmo, até, nas rodas elegantes, quem se esteja entregando, pessoalmente, na cidade, com o mesmo fim, a melhoramentos mais interessantes.

 

Um destes dias, entrava eu no Instituto de Beleza, onde ia comprar um vidro de tintura para o cabelo, quando encontrei, no salão de espera, a minha velha amiga D. Sofia Pedreira, que aguardava, ali, pacientemente, a lindíssima viúva Odete Aires, que se achava, no momento, no gabinete do cabeleireiro. Começávamos nós a conversar sobre coisas sem importância, quando a formosíssima senhora suspendeu o reposteiro, e apareceu à porta, radiando e cheirando, como uma grande rosa que desabrochasse num vaso.

 

- O senhor por aqui, conselheiro? - gritou a encantadora criatura, com alvoroço, e com todos os dentes, estendendo-me, de longe a sua mão rosada e fina, onde as unhas faiscavam, rubras, como corais.

 

- É verdade, - expliquei, titubeando.

 

- Vim comprar uma caixa de pó para dentes... E a senhora?

 

- Eu? - respondeu, rindo. - Eu... Olhe?

 

E, espiando para um lado e para outro, a ver se não nos observavam, suspendeu até o ombro deslumbrante a manga curta e larga do finíssimo vestido de seda, mostrando a parte inferior e extrema do lindo braço de mármore, fina, alva, lisa, como de uma criança.

 

- Veja! - ordenou-me.

 

E já no primeiro degrau da escada, por trás do leque, piscando-me um olho, com brejeirice:

 

- Para o rei Alberto ver.

 

LXXI

 

A CAÇADA

 

8 de agosto

 

A noticia de que S. M. o rei Alberto ia realizar uma caçada em terras da família Prado, em São Paulo, trouxe à minha lembrança, tão confusa nestes últimos tempos, o fantasma de uma velha saudade.

 

Estudante, ainda, na Paulicéia, fui eu convidado, um dia, pelo meu colega de turma, o atual conselheiro Antônio Prado, para um recreio venatório em propriedade de sua família, na serra do Cubatão, onde abundavam, ainda, naqueles tempos, o veado, a paca, o porco do mato, e, em especial, as onças, os famosos tigres americanos, que faziam enorme estrago na criação.

 

Organizada a comitiva, composta de numerosos cavalheiros da melhor sociedade paulista daquela época, partimos para São Bernardo, indo pousar, ao fim de dois dias de viagem, na fazenda do Encantado, pertencente a Exma. D. Veridiana, no ponto mais alto da serrania. No terceiro dia, enfim, partíamos todos para a mata, montando vinte e oito cavalos e conduzindo quarenta e sete cães, distribuídos pelos diversos membros do séquito.

 

Separados uns dos outros, ia eu beirando um córrego marulhoso que rolava da penedia, quando ouvi, ao longe, entre a reza religiosa da selva, o barulho da matilha, anunciando a caça. Esporeei o cavalo, venci um bosque de ipês, atravessei uma clareira, e cheguei ao local. Em uma furna da montanha, evitando, feroz, a pontaria dos caçadores, estava uma onça, acuada, mostrando os dentes enormes, agudos, afiados, para uma dezena de cães!

 

- Atire, doutor! - pedi, apeando-me, ao Dr. Antônio Prado.

 

- É impossível! - observou-me o futuro estadista.

 

A posição era, realmente, péssima. Defendido por umas raízes entrelaçadas à boca da furna, o felino não só impedia o avanço dos cães, como impossibilitava, em absoluto a pontaria dos caçadores. Vários tiros já haviam sido disparados pelos atiradores mais adestrados, conseguindo eles, apenas, enfurecer o animal, que empregava toda a sua agilidade na defesa.

 

De repente, ouviu-se um galope no rumo da furna; e, um minuto mais, apeava-se ao nosso lado, risonha, jovem, arrebatadora, a formosíssima Sra. Corrêa Aires, cuja beleza constituía, então, com o seu moreno rosado, seus olhos azuis e os seus finíssimos cabelos castanhos, o maior dos orgulhos de São Paulo.

 

- Que é? - perguntou, mostrando, num sorriso, os seus lindos dentes de neve, a furiosa amazona batendo com o chicotinho de ouro na sua pequenina bota de montaria.

 

- Uma onça! - explicamos, todos, a uma voz.

 

Nesse momento, a onça. que olhava, fixa, para fora. deteve os olhos na moça, como deslumbrada. A linda caçadora tirou do cinto de veludo uma pistola de caça, de cabo de marfim, levou-a à altura dos olhos, e. fazendo pontaria no felino, que a fitava, esquecido de si esmo, disparou. A fera deu um salto de dor, estorcendo-se. A matilha investiu, latindo, penetrando a furna. Um instante depois era a onça arrastada para fora, morta.

 

Sorridente. Fresca, maravilhosa, a divina caçadora colocou o pezinho sobre o corpo da fera, buscando-lhe a ferida. De repente, descobriu-a:

 

- Foi no coração! - disse.

 

E. encarando Antônio Prado, desafiadora:

 

- Morreu como certos homens...

 

Nós, em torno, baixamos os olhos.

 

LXXII

 

A MANICURA

 

7 de agosto

 

O merceeiro Agostinho Pereira Alvares, proprietário de um dos estabelecimentos mais afreguesados do Engenho Novo, não havia saído, jamais, do seu bairro, para fazer a barba e cortar o cabelo. Sempre que, de dois em dois meses, lhe vinha a idéia de praticar essas medidas higiênicas, mandava ele chamar o barbeiro à sua casa de comércio, submetendo-se à tesoura e à navalha do fígaro em um compartimento nos fundos da mercearia.

 

Um destes dias, porém, com a noticia de que toda a cidade entrava em melhoramentos para receber o soberano dos belgas, resolveu o futuro capitalista vir, também, à zona urbana, para uns reparos estéticos na sua própria pessoa. Tornava-se preciso que o rei o encontrasse de cabelo cortado e barba feita, e era evidente que esse trabalho só podia ser efetuado por um verdadeiro mestre da arte, como deviam ser, naturalmente, os do centro da cidade.

 

Tomada essa deliberação, meteu-se o acreditado comerciante, sábado último, em um bonde, e saltou na rua Floriano Peixoto, enfiando-se, pressuroso, pela primeira barbearia que encontrou aberta.

 

- Cabelo e barba! - pediu, arrogante, libertando-se, com um soco, do formidável colarinho que o asfixiava.

 

Enfiada, que foi, a toalha pelo pescoço do freguês, começou o barbeiro, um mulato de nariz de batata e cabeleira revolta, a tosquiar a vítima. Terminado o serviço, que não primava, aliás, pelo asseio, o fígaro convidou-o, gentil:

 

- O "comendador" não quer "fazer" as unhas? Nós temos, aí, para os fregueses, uma boa manicura...

 

Nesse momento apareceu à porta dos fundos, escandalosamente decotada, e rescendente de si mesmo, uma cafusa de dentes alvíssimos, que cumprimentou, sorrindo; o Agostinho. O merceeiro correspondeu ao cumprimento, olhou as unhas formidáveis, que ele costumava aparar com a faca de cortar sabão, e aquiesceu, condescendente:

 

- Vamos lá ver isso! Vamos lá!

 

Uma hora depois, com os dedos ardendo, e com as unhas cortadas até o sabugo, saía o honrado negociante a porta da barbearia. regressando, de pronto, ao Engenho Novo.

 

No dia seguinte, à tarde, foi, porém, a rua Floriano Peixoto alarmada por um vozerio infernal. Avisado do caso, o guarda civil correu para o local, e viu: no salão da barbearia, andando de um lado para outro, como um possesso, o Agostinho, do Engenho Novo, trovejava, indignado:

 

- Patifes!... Canalhas!... Ladrões!... Estavam os dois combinados para essa traição, os miseráveis!

 

Penetrando na casa, o guarda interveio:

 

- Que é isso, camarada? Que foi que aconteceu?

 

E o merceeiro, apoplético:

 

- Foi este homem; este barbeiro, que, de combinação com aquela mulher, me fez uma patifaria, uma canalhice, uma perversidade. Eu vim aqui para cortar o cabelo, e ele me pôs na cabeça uns piolhos; e para que eu não os pudesse tirar, chamou a mulher, e mandou-me cortar as unhas. Veja isto!

 

E com as grandes mãos estendidas, mostrando os dedos enormes, de sabugo à mostra:

 

- Canalhas!... Patifes!... Miseráveis!...

 

LXXIII

 

MOCIDADE...

 

9 de agosto

 

O teatro Fênix enchera-se, naquela tarde de junho, para o espetáculo científico, anunciado pelo Dr. Wilhelm Korner, antigo reitor da Universidade de Iena. As frisas, os camarotes, as cadeiras, as galerias, regurgitavam de espectadores, quando, após a apresentação do sábio pelo eminente professor Austregésilo, começaram as provas práticas de magnetismo animal.

 

- Senhores, - começou, arrastando as sílabas, o ilustre homem de ciência, - a minha primeira demonstração, para que me não tomem por um aventureiro, um intrujão, um impostor, será coletiva. Entre vós, há velhos e moços, pessoas que sentem em si os arrebatamentos da juventude, a alegria, a saúde e o entusiasmo dos verdes anos, e anciãos que pendem para o túmulo, e que mal se arrastam por si mesmos. Para demonstrar-vos que essas energias são meros produtos da sugestão, eu vou fazer com que todos sejam postos em uma condição média, isto é, que os moços se sintam mais velhos, e que os velhos se sintam, de súbito, rejuvenescidos. A experiência durará dez minutos e começará com o simples estender da minha mão, para terminar com um sopro da minha boca, em momento oportuno.

 

E unindo o gesto à palavra, estendeu a mão sobre a platéia, ordenando o milagre.

 

O resultado, de acordo com o que ele havia prometido, não se fez esperar. Cavalheiros de idade avançada, que para ali haviam ido nos braços vigorosos dos netos, experimentavam as juntas, exercitavam os músculos, passavam as mãos pelas rugas, estranhando o ânimo novo que lhes distendia os nervos, reavivando-lhes o sangue, a memória, o coração. Nenhum deles se mostrava, no entanto, mais alegre, mais feliz, do que um ancião de cabeça inteiramente alva, que para ali havia ido a arrastar-se, e que tomara lugar em uma das primeiras filas. Agitava-se ele, porém, risonho, contentíssimo, na cadeira, quando soou a hora tremenda.

 

- Senhores, - trovejou o sábio, - vai terminar o encantamento. Cada um vai ser o que era antes. Vou soprar.

 

Nesse momento, manifestou-se um reboliço na platéia. Curiosos, olhando para o lado do palco, os espectadores perguntavam o que teria acontecido, quando viram, de pé, na primeira fila, um ancião, nervoso, pálido, agitado, empunhando um revólver. Era o octogenário respeitável, que, trêmulo, com a voz rouca, intimava o magnetizador, com o dedo no gatilho:

 

- Se soprar... mato-o!

 

E desabou na cadeira, chorando...

 

LXXIV

 

A PÉROLA

 

(APÓLOGO PERSA)

 

Em que se demonstra que a fraqueza humilde é mais proveitosa do que a grandeza arrogante.

 

11 de agosto

 

Rugiam, lá em cima, os ventos tempestuosos do inverno, quando a gota d'água, trêmula e pura, se sentiu, de repente, sozinha no espaço, desgarrada, por um sopro mais forte, da nuvem em que se formara. Medrosa, humilde, pequenina, voava a mísera arrebatada pelas doidas ondas aéreas, quando viu, de súbito, precipitando-se na mesma direção, mugindo, rolando, redemoinhando, uma enorme tromba marinha, que abalava o céu com a fúria da sua carreira. Ao perceber a límpida gota assustada, a tromba monstruosa, - equóreo traço de união colocado entre o mar e as nuvens, - parou, de repente, rodando, sobre si mesma, e indagou, irônica:

 

- Aonde vais tu, miserável poeira da chuva? Que fazes por estes caminhos perigosos do espaço, arrastada, como entidade invisível, pelo mínimo sopro dos ventos?

 

Trêmula, encolhida, assaltada por diferentes ondas de ventania, a gota límpida não pôde, sequer, responder, e a tromba continuou, zombeteira:

 

- Já pensaste, acaso, no destino que te espera? O vento que nos conduz a ambas, arrasta-nos, furioso, para o oceano largo, que reboa, lá em baixo, clamando por nós. Ouves?

 

A gota d'água prestou atenção, e percebeu. Para além da neblina que cobria a terra, em baixo, reboavam, apavorantes, os grandes soluços do mar. Como um bando de tigres enfurecidos, as ondas uivavam, despedaçando-se umas de encontro às outras, ao mesmo tempo que a água, revolvida pelos braços da tempestade, chorava, gemia, guaiava, num tumulto de vozes desesperadas.

 

Percebendo o susto da gota humilde, a tromba insistiu:

 

- Lá em baixo, estão o meu túmulo e o teu. A mim, porém, me espera um destino que é, por si mesmo, a minha glória. Tombando no oceano, eu constituirei uma parte dele mesmo, tendo, como ele, as minhas ondas, os meus vagalhões, as minhas espumas. Serão necessários dias talvez uma semana, para que as minhas águas sejam absorvidas pelo mar. E tu, que te aguarda? Mal tombes em um cabeço de vaga, em um simples floco de espuma, desaparecerás, anônima, para sempre, sem que fique, na terra ou no céu, a sombra do teu vulto ou da tua memória!

 

- Meu Deus!... gemeu a gota d'água. apavorada, pálida, trêmula, no horror daquele extermínio próximo.

 

Nesse instante, um trovão continuo, forte, soturno, anunciou a vizinhança do oceano. Rajadas formidáveis abraçaram a tromba d'água, arrebatando-a, abalando-a, desconjuntando-a. Outras rajadas, precipitando-se em sentido contrário, tomaram com o seu hálito a gota humilde, a mísera poeira de chuva, e, horas depois, serenada a tempestade, aparecia, de novo, ao sol, a face tranqüila do mar.

 

Dias passaram-se, porém. E uma tarde, quando da tromba marinha já não existia, sequer, na memória do oceano, um pescador do mar Índico encontrou na praia, dentro de uma concha, uma gota petrificada e brilhante. Era a gota d'água do céu, que Deus, ouvindo a prece da humildade, salvara das águas...

 

LXXV

 

OS MÉDICOS

 

15 de agosto

 

Há três ou quatro anos, quando se cuidou, no Rio, da fundação da Casa do Médico, destinada a recolher, na velhice, os numerosos náufragos da profissão, Paulo Araújo e Belmiro Valverde definiram, em interessante memorial, o que é, em verdade, a vida de um apóstolo da Medicina.

 

Não há, realmente, na terra, profissão economicamente mais ingrata do que a de médico. O indivíduo que entra na loja de um comerciante seu amigo, paga pelo preço comum, ou com pequeno abatimento, a mercadoria de que faz aquisição. O barbeiro não faz a barba gratuitamente a ninguém. O advogado não defende causas sem remuneração, nem o ferreiro conserta de graça a ferramenta dos operários que lhe são íntimos. Ao médico, entretanto, não se faz a mesma justiça. Pelo fato de ser o seu trabalho relativamente leve, e consistir, apenas, em pôr algumas palavras sobre uma folha de papel, acham os clientes que lhes não devem pagar por tão pouco, esquecendo-se que essas palavras, isto é, essa receita, constitui o fruto de vários anos de estudo, de esforço, de experiência, em que foram consumidas diversas dezenas de contos. Porque o médico não gasta aos olhos do cliente, senão um pouco de tinta e uma tira em branco, é o seu trabalho depreciado, especialmente pelos camaradas, pelos amigos, pelos íntimos, que não fariam, jamais, o mesmo, se se tratasse de um engenheiro ou, em esfera mais baixa, de um simples engraxate. E daí o número relativamente grande de médicos que envelhecem na pobreza, e que entram, afinal, no carro escuro da Morte, pela porta de ferro da miséria.

 

Tomando em consideração esse abuso é que aparecem, de vez em quando, por toda a parte, as reações justas, enérgicas, inteligentes. É conhecida, por exemplo, a história daquela senhora que, pretendendo arranjar uma receita de certo médico ilustre, indagou, ao encontrá-lo:

 

- Doutor, que é que o senhor faz quando tem tosse?

 

O médico percebeu o plano e respondeu, grave:

 

- Tusso, minha senhora!

 

A reação mais pitoresca e eficaz de que há noticia foi, porém, a de que tomou a iniciativa, há dias, o notável mestre Sr. Dr. Miguel Couto. Certa senhora de fortuna, habituada a tratar-se com o ilustre clínico brasileiro por meio de receitas obtidas de surpresa, resolveu, da última vez, fazer o mesmo cercando-o em plena. Avenida:

 

- Ó doutor, como está?

 

- Bem, D. Veneranda; e a senhora, como tem passado?

 

- Eu? - acudiu a matrona atingindo o ponto a que pretendia chegar. - Eu não estou passando bem, não, doutor.

 

E logo, em seguida:

 

- Tenho sentido uma dor aqui, no peito, que responde aqui, no fígado, causando-me uma aflição enorme, que me não deixa dormir. Que é que o doutor acha que seja?

 

O Dr. Miguel Couto olhou para um lado e para outro na Avenida fervilhante de gente, e ordenou:

 

- Vamos ver isso, D. Veneranda. Dispa-se!

 

- Como? - estranhou a velha, recuando.

 

- Dispa-se, para fazer-lhe um exame, tornou o médico.

 

A matrona arregalou os olhos, escandalizada, e protestou:

 

- O senhor pensa que eu sou maluca?

 

E o Dr. Miguel, no mesmo tom:

 

- E a senhora não acha que eu tenho o meu consultório no meio da rua?

 

A velha eclipsou-se.

 

 

 

 

 

 

 

LXXVI

 

O "BRAVO DOS BRAVOS"

 

18 de agosto

 

Quando o tenente Felisberto regressou do "front", precedia-o a mais invejável das famas. Notícias dos jornais, telegramas do governo e cartas dos camaradas, haviam espalhado, realmente, pelo Brasil, os ecos da sua bravura. Em Verdun, no forte de Vaux, fora ele o herói por excelência, defendendo, uma a uma, as pedras daquele reduto. Na Champagne, comandando um pelotão de "poilus", operara prodígios, resistências assombrosas, a ponto de ser preciso arrancá-lo, às vezes, do seu entrincheiramento, rilhando os dentes, coberto de lama e de sangue. O seu heroísmo tornou-se, em suma, tão acentuado, tão famoso, tão evidente, que o seu nome se constituíra, em toda a extensão do setor, uma espécie de grito de guerra. A Morte passava por ele, medrosa, de asas fechadas, como se temesse cair ferida, ela própria, atingida pela sua espada.

 

Ao chegar ao Rio, eram conhecidos, já, de toda a cidade, os seus feitos, as suas investidas corajosas, o ímpeto das suas cargas de baioneta, a que correspondia, sempre, uma nova trincheira arrancada ao inimigo. E foi por isso mesmo que o seu desembarque teve o caráter de uma verdadeira apoteose, que envolvia na mesma auréola o glorioso exército nacional.

 

Festejado e querido, foi, aqui, o tenente Felisberto rodeado pelos amigos e, principalmente, pelos colegas de classe, que se disputavam, gentis, a sua companhia. E tanto o cercaram, tanto o arrastaram pelos lugares festivos da cidade, que ele foi acabar, uma noite, no Assírio, onde se realizava um ruidoso baile de Carnaval.

 

Desconfiado no meio daquele tumulto, que lhe entontecia mais os sentidos do que o perturbavam, na França, as tempestades de fogo e de fumo da formidável artilharia alemã, o tenente observava aquelas danças, aquela orgia, aquela alegria desordenada, quando um dos camaradas lhe pediu, insistente, à mesa da ceia:

 

- Conta as tuas aventuras de guerra, Felisberto! Que diabo! tudo que nós sabemos de ti, é por intermedio dos outros. Ainda não nos contaste nada!

 

- Conta! - pediu outro, pondo-se de pé.

 

- Conta! Conta! - reclamaram todos.

 

O tenente sorriu modesto, mas, reclamado pelos colegas, começou a narrar singelamente os seus feitos.

 

- O que eu fiz - começou, - qualquer de vocês o faria, estando no meu lugar. Fui eu, efetivamente, quem defendeu o forte de Vaux, durante três dias, com pouco mais de duzentos homens. O rompimento da linha de Hindemburgo foi, também, obra minha, que obteve, como é sabido, os resultados mais felizes. Tomei, a arma branca, dezessete trincheiras; subjuguei algumas dezenas de soldados, corpo a corpo; conquistei, a sabre, oito canhões; destruí, em suma, todo o poder ofensivo do inimigo, no setor a meu cargo.

 

Nesse momento, alarmando a sala, ouve-se, a alguns metros de distancia, um tiro de revólver, e, em seguida, o barulho da multidão elegante, a precipitar-se no rumo da detonação. Ao segundo tiro, porém, o capitão, que se calara com o primeiro, empalidece, e, sem dissimular o seu pavor, põe-se a tremer, a ponto de se não poder sustentar nas pernas. Espantados com aquela modificação, os amigos entreolham-se, duvidando, já, da bravura do herói, quando um deles, indignado, pergunta:

 

- Está com medo?

 

- Estou! - confessou o bravo dos bravos.

 

E explicou:

 

- Imaginem que isto degenera em rolo, em barulho, em conflito...

 

E concluindo, aterrorizado, batendo o queixo:

 

- E minha mulher sabe... que eu vim aqui!...

 

LXXVII

 

O PÉ E O SAPATO

 

20 de agosto

 

Uma das novidades elegantes que mais têm merecido o meu aplauso, é a condenação das danças, dos bailes retumbantes e demorados, nas f