LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em meio eletrônico

O Diletante, de Martins Pena 


Edição de base:
Biblioteca Nacional – setor de obras digitalizadas

 

 

 

 

Comédia, em 1 ato

 

 

 

 

 

PERSONAGENS

 

 

 

JOSÉ ANTÔNIO, rico proprietário

 

Da . MERENCIANA, sua mulher

 

Da . JOSEFINA, sua filha

 

Da . PERPÉTUA

 

JÚLIO

 

GAUDÊNCIO, parasita

 

MARCELO, paulista

 

ANDRÉ, tropeiro

 

Tropeiros, pajens e mucambas

 

 

 

A cena se passa no Rio de Janeiro no ano de 1844.

 

 

 

 

 

ATO ÚNICO

 

 

 

Sala em casa de José Antônio. No fundo, porta de saída; à direita e esquerda, portas que dão para o interior. Rica mobília de mogno. À direita, um piano, sobre o qual estarão várias músicas, e à esquerda, um sofá, sobre o qual estará uma viola.

 

 

 

CENA I

 

 

 

Ao levantar do pano, JOSÉ ANTÔNIO está junto do piano arranjando as músicas.

 

 

 

JOSÉ ANTÔNIO – Hoje havemos de cantar alguns pedaços da Norma. (Lendo uma música:) Qual cor tradiste... Há de ser este dueto. Que música! (Põe à parte.) O pior é não termos um tenor... Arremediarei. (Lendo outra música:) Nel cor più non mi sento... Xi, que isto é velho que é o diabo! (Joga para o lado e procura de novo.) Não acho a cavatina. Josefina? Ó Josefina, vem cá. Quero que todos em minha casa cantem. Não há nada como a bela da música. Arte divina!

 

 

 

 

 

CENA II

 

Entra JOSEFINA.

 

 

 

JOSEFINA – Chamou-me, meu pai?

 

JOSÉ ANTÔNIO – Vem cá, loucazinha. Que fizeste da Casta Diva?

 

JOSEFINA – Está sobre o piano.

 

JOSÉ ANTÔNIO – Vai procurá-la.

 

JOSEFINA – Quer cantá-la?

 

JOSÉ ANTÔNIO – Divirta-se a menina comigo.

 

JOSEFINA – Se é para eu cantar, não procuro. Já não posso aturá-la. É maçada!

 

JOSÉ ANTÔNIO – Que dizes, bárbara? A Casta Diva maçada? Esta sublime produção do sublimíssimo gênio?...

 

JOSEFINA – Será sublimíssima, mas como há algum tempo para cá que eu a tenho ouvido todos os dias cantada, guinchada, miada, assobiada e estropiada por essas ruas e casas, já não a posso suportar. Todos cantam a Casta Diva – é epidemia!

 

JOSÉ ANTÔNIO – E o mais é que tens razão! Ouve-se daqui: (Canta a Casta Diva com voz fanhosa.) Ouve[-se] dali: (Canta com [voz] muito fina..) Mais adiante um moleque; (Assobia-a.) Estragam-na! Assassinam-na! Mas tu cantas bem.

 

JOSEFINA – Obrigada, mas não a cantarei mais!

 

JOSÉ ANTÔNIO – Está bom; mas hás de cantar o dueto: Mira, o Norma, a tuoi ginocchi... (Cantando.)

 

JOSEFINA, rindo-se – E com quem? O papá faz a parte da Norma?

 

JOSÉ ANTÔNIO – Com tua mãe.

 

JOSEFINA ri-se – A mamã cantando!... Ela, que apenas canta a Maria Cachucha quando está cosendo, e isso mesmo desentoadíssima! Ora, papai!

 

JOSÉ ANTÔNIO – Eu lhe darei algumas lições. É preciso hoje cantarmos alguma coisa, para que mostres as tuas prendas a nosso hóspede.

 

JOSEFINA – Pois eu não lhe quero mostrar nada!

 

JOSÉ ANTÔNIO – Pois quero eu!

 

JOSEFINA – Um homem tão feio!

 

JOSÉ ANTÔNIO – Feio, mas rico. Seria um bom casamento para ti, e ele o deseja...

 

JOSEFINA – E eu não senhor!

 

JOSÉ ANTÔNIO – Queres-te casar com algum destes bonifrates que andam pelas ruas desta cidade e que não têm onde caírem mortos? E que andam especulando casamento? Nada; o meu dinheiro não é para esses especuladores. O sr. Marcelo não está nesse caso; é homem de bem, abastado e muito considerado lá em S. Paulo; ainda pode ser deputado e mesmo senador.

 

JOSEFINA – O papá hoje está para sermões; vou-me embora.

 

 

 

CENA III

 

 

 

JOSÉ ANTÔNIO, só – É uma louquinha, mas tem bom coração. Por isso quero que encontre um marido que a faça feliz como merece. O amigo Marcelo é homem rico, honesto e bom, ainda que rústico. Coitado, nunca saiu de S. Paulo! É [a] primeira vez que vem à corte; anda espan[ta]diço. Só uma coisa desgosta-me nele: o não gostar da música. Levei-o ontem ao teatro para ouvir Norma e dormiu a sono solto durante toda a representação. Dormir, quando se canta Norma! Isto só faz um paulista dos sertões! Dormir, quando se pode ouvir esse canto incomparável do Cisne da Itália! Infeliz mancebo! Bellini inimitável, rei das almas sensíveis, portento de harmonia, morreste, e tão pouco nos deixaste! Morreste... A terra te seja... melodiosa!

 

 

 

CENA IV

 

 

 

Entra MARCELO vestido à paulista, isto é, de bota branca, calça e jaqueta de ganga azul e ponche de pano azul forrado de baeta vermelha. O seu falar é carregado.

 

 

 

MARCELO – Deus lhe dê muitos bons dias...

 

JOSÉ ANTÔNIO – Oh, como tem passado? Ainda hoje não o vi...

 

MARCELO – Tenho andado passeando pela cidade.

 

JOSÉ ANTONIO – Aonde foi?

 

MARCELO – À Rua do Ouvidor. Vi muitas coisinhas bonitas penduradas nas vidraças e umas figuras que pareciam gente viva, andando assim à roda. (Anda à roda.)

 

JOSÉ ANTÔNIO – Isso é na casa dos cabelereiros.

 

MARCELO – É isso mesmo, que lá vi muitos cabelos nas portas. Entrei numa casa onde estavam tocando um instrumento muito bonito; o homem tocava assim. (Faz ação de quem toca realejo.)

 

JOSÉ ANTÔNIO – Foi no canto do Beco das Cancelas. É um realejo que chama os tolos.

 

MARCELO – Há de ser isso mesmo. É bem bonito; hei de levar um comigo. Depois parei defronte de uma espingarda muito grande, que está metida na parede. Porém o que mais me zangou foi uma ladroeira que vi em muita casa.

 

JOSÉ ANTÔNIO – O que foi?

 

MARCELO – Um homem trepado em cima dos balcões, com um martelo de pau na mão, gritando: Trezentos réis! Quatrocentos réis, senhores! Quinhentos réis!... E os tolos fazendo roda, a olharem para ele.

 

JOSÉ ANTÔNIO, rindo-se – É boa! É uma casa de leilão.

 

MARCELO – Leilão... São modos de esperteza que os estrangeiros inventam para um pobre homem comprar a fazenda sem examinar. Não sou eu que caio nessa – não compro porcos na lama. Quero ver o que compro.

 

JOSÉ ANTÔNIO – O patrício não deixa de ter razão – os tais meninos, quanto pior é a fazenda, mais depressa falam! Que de logros não têm pregado por esta cidade!

 

MARCELO – Enfim, na Rua do Ouvidor é confusão de coisas e de gentes a passarem de baixo para riba e a fazerem uma bulha tal, que me fizeram tonto. Tomara-me já em S. Paulo! (Senta-se no sofá.)

 

JOSÉ ANTÔNIO – Homem, goze primeiro os prazeres da corte. Não queira enterrar-se em vida no sertão. Vá ao teatro ouvir Norma, Belisário, Ana Bolena, Furioso.

 

MARCELO – Não acho graça nenhuma. Umas cantigas que eu não percebo e que não se pode dançar. Não há nada como um fado.

 

JOSÉ ANTÔNIO – Que horror, preferir um fado à música italiana! (À parte:) O que faz a ignorância!

 

MARCELO – É que o senhor ainda não ouviu um fadinho bem rasgadinho e bem choradinho. (Pega na viola e afina, enquanto José Antônio fala.)

 

JOSÉ ANTÔNIO – Nem quero ouvir! Não diga isto a ninguém, que se desacredita. A música italiana, meu amigo, é o melhor presente que Deus nos fez, é o alimento das almas sensíveis.

 

MARCELO – Pois o meu alimento é feijão com toucinho, fubá de milho e lombo de porco.

 

JOSÉ ANTÔNIO – Que blasfêmia! (À parte:) É o que faz a ignorância!

 

MARCELO – Que graça acha o senhor na música? Não me dirá.

 

JOSÉ ANTÔNIO – Que graça? Uma graça divinal e sentimental! Quando eu vou ao teatro e ouço esses sublimes acordes, essas harmonias brilhantes, essa melodia arrebatadora, sinto-me outro... O prazer enleva-me; quero aproveitar a mais pequena nota e estendo o pescoço, aplico o ouvido e sinto que não me desse Deus umas orelhas mais compridas para aproveitar o mais pequeno átomo de harmonia.

 

MARCELO, olhando muito admirado para José Antônio – Não lho entendo...

 

JOSÉ ANTÔNIO – Quando a música toca no fundo da minha alma, dá-me vontade de fazer um despropósito; de fazer nem sei o que... Saltar, pular, esfregar-me, espojar-me pelo chão... Ah, meu amigo, que sensação deliciosa!

 

MARCELO – Cuidado, que a música lhe há de fazer doido.

 

JOSÉ ANTÔNIO – Não o diga brincando...

 

MARCELO – Ó homem!

 

JOSÉ ANTÔNIO – Quando estou no teatro ouvindo essas celestes inspirações, dá-me vontade de matar a todos que me perturbam com as suas conversas e tosses. Quem quer conversar fique em casa e quem tem tosse tome xarope e vá-se deitar, e não incomode aos mais. Um dia faço uma asneira!

 

MARCELO – Não diga isso, homem de Deus!

 

JOSÉ ANTÔNIO – Ainda ontem estava ouvindo aquele belo dueto – Qual cor tradisti... (Canta.) Um bárbaro que estava sentado a meu lado espirrou estrondosamente na ocasião mais patética! Deu-me vontade de lhe dar uma dentada no nariz e lho arrancar.

 

MARCELO – Ah, ah, ah! (Rindo-se.) Tirar o nariz ao homem por causa da música!

 

JOSÉ ANTÔNIO – Patrício, você não sabe de que é capaz um diletante.

 

MARCELO – Diletante? Não sei que seja...

 

JOSÉ ANTÔNIO – Olhe, um dia acordei com a firme tenção de separar-me de minha mulher...

 

MARCELO – Então, por que, patrício?

 

JOSÉ ANTÔNIO – Sonhei que estava ouvindo a Malibran.

 

MARCELO – Malibran?

 

JOSÉ ANTÔNIO – Sim, a Malibran, essa cantora com que os estrangeiros nos quebram a cabeça.. A sua voz chegava a [meus] ouvidos pura e argentina, e fiquei de tal modo comovido e arrebatado, que acordei – e ouço, oh, que sacrilégio!, ouço minha mulher que dorme, roncando como um porco.

 

MARCELO – E só por isso queria se separar de sua companheira?

 

JOSÉ ANTÔNIO – Pois o que quer que se faça a uma mulher que ronca quando a Malibran canta? Diga?

 

MARCELO – Por isso é que digo que não há nada como um fadinho. Ainda que se ronque, não faz mal – até mesmo é bonito. (Toca e canta com voz muito alta.) Faça o obséquio de roncar; verá como fica bonito: Adeus, Coritiba (Etc.)

 

JOSÉ ANTÔNIO, enquanto Marcelo canta – Cale-se, cale-se, com os diabos! Que música infernal! Quer assassinar-me! (Tapa os ouvidos.) Então? Vou-me embora!

 

MARCELO deixa de cantar – Isto é que é bom, patrício!

 

JOSÉ ANTÔNIO, desesperado – É o... Não me faça dizer despropósitos! Quem pode aturar semelhante gritaria?

 

MARCELO – Eu, que fui criado com ela. (Entra um pajem pardo e entrega a José António um rolo de música.)

 

JOSÉ ANTÔNIO – Ah, é a música que eu mandei buscar à rua detrás do Hospício. Está bom, vai para dentro. (Lendo:) Terzetto da Norma. Bom; há de cantar minha mulher e minha filha. Mas, o tenor? Que falta que faz um tenor! Daria tudo para ter voz de tenor... Quem sabe se este sujeito é tenor? Ah, sô Marcelo, o senhor será tenor?

 

MARCELO, sem entender – Hem?

 

JOSÉ ANTÔNIO – Pergunto se é tenor.

 

MARCELO – Tenor?

 

JOSÉ ANTÔNIO – Sim!

 

MARCELO – Não sei o que seja, patrício.

 

JOSÉ ANTÔNIO, à parte – O que faz a ignorância! (Para Marcelo:) Com sua licença, vou levar esta música a minha filha.

 

MARCELO, levantando-se – Espere lá. Quando se arranja o negócio?

 

JOSÉ ANTÔNIO – Homem, eu já dei a entender à menina. Ela não se mostra muito disposta; mas eu farei a diligência e tudo se há de arranjar.

 

MARCELO – Eu espero ainda oito dias, que mais não posso. Se a menina casar comigo, palavra de paulista, há de ser feliz.

 

JOSÉ ANTÔNIO – Sei disso. Conheço suas boas qualidades, estou que fará minha filha feliz. Mas há uma coisa que me aflige, ainda, dando eu de livre vontade o meu consentimento.

 

MARCELO – Se aflige?

 

JOSÉ ANTÔNIO – Se a minha pobre filha for com o senhor para S. Paulo, não ouvirá mais óperas italianas. E agora que se ensaia uma que dizem ser bonita!...

 

MARCELO – Se lá não há obras italianas, há coisas melhores...

 

JOSÉ ANTÔNIO – Melhores?

 

MARCELO – Há muitas cabeças de gado, uma fazenda grande de que vai ser senhora... Podia dar mais, se não fosse a rebelião. Perdi muito dinheiro; não me meto noutra.

 

JOSÉ ANTÔNIO levanta os ombros como em sinal de compaixão – Enfim, tudo se há de arranjar... Até já. (Sai.)

 

 

 

CENA V

 

 

 

MARCELO, só – Este pobre homem é muito tolo! Faz pena, que é boa pessoa. Vive cantando umas asneiras, uma cantiga sem pé nem cabeça... Tomara fazer este casamento! A menina é alegre e eu gosto dela. Tem uns olhinhos tão espertinhos! Eu seria bem feliz, se não fosse a desgraça de minha irmã! Mas eu me hei de vingar. (Sai pela esquerda, por onde entrou.)

 

 

 

CENA VI

 

Entra MERENCIANA e depois JOSEFINA

 

 

 

MERENCIANA, entrando apressada – Vem para cá, vem para cá!

 

JOSEFINA, entrando – Pobre papai! (Ri-se.)

 

MERENCIANA – Não te rias, que ele nos pode ouvir.

 

JOSEFINA, espiando para dentro – Lá anda ele à nossa procura.

 

MERENCIANA – Meu Deus, o senhor José Antônio mata-me com a música! Quer por força que eu cante. É preciso fugir constantemente dele. Isto é desagradável!

 

JOSEFINA – E a mamã por que não canta?

 

MERENC1ANA – Engraça-te?

 

JOSEFINA – A mama canta bem a Cachucha.

 

MERENCIANA – Brincas comigo? Espera. (Quer segurar em Josefina. Josefina corre para trás do piano.) Que fazes, desgraçada?

 

JOSEFINA, detrás do piano – Se a mamãe quer me bater, eu toco piano e o papai saberá onde nós estamos.

 

MERENCIANA – Não, não, vem para cá, filhinha!

 

JOSEFINA – Não me bate?

 

MERENCIANA – Não tenhas medo. Mas sai daí! (Josefina sai do piano.) Assim. Vivo em um tormento depois que se meteu nessa nossa gente a mania da cantoria.

 

JOSEFINA – E eu vivo numa alegria, porque vou sempre ao teatro!

 

MERENCIANA – Divertes-te com tudo. És uma criança.

 

JOSEFINA – E a mamãe aflige com tudo; é uma...

 

MERENCIANA – Velha. Acaba!

 

JOSEFINA – Se a mamãe quer ser!

 

MERENCIANA – Hem? (Vai para ela e Josefina recua.)

 

JOSEFINA – Eu vou para o piano!

 

MERENCIANA – Espera, espera! (Olha para a porta, receosa.) Vai espiar se teu pai aí vem. (Josefina vai espiar à porta.) O José Antônio está perdido com a música. Já ninguém o pode aturar. É um inferno!

 

JOSEFINA – Não o vejo... Está nos procurando lá por dentro.

 

MERENCIANA – Meteu-se-lhe na cabeça cantar também! Um velho daqueles, cheio de defluxo asmático. Vejam só! (Josefina, enquanto a mãe fala, vê a viola sobre o sofá e pega nela, e faz soar algumas cordas.) É uma mania insuportável! Mas o pior é querer que também cante. Ora, eu a cantar... Tinha que ver... Menina, não toques! Deixa essa viola.

 

JOSEFINA, cheirando as mãos – Meu Deus, como fede a cigarro! (Limpa as mãos no lenço.)

 

MERENCIANA – É bem-feito, para não seres boliçosa.

 

JOSEFINA – E o papai que quer que eu case com ele!

 

MERENCIANA – Com ele quem?

 

JOSEFINA – Com o paulista.

 

MERENCIANA – Ah, não digas tal! Pois tu te havias de casar com um bicho daqueles, que a tudo diz: Senhor sim! e que anda sempre metido num ponche?

 

JOSEFINA – A mamã também não gosta de homem de ponche?

 

MERENCIANA – Arrenego-os!

 

JOSEFINA – Pois eu rio-me deles.

 

MERENCIANA – Ires para S. Paulo? Eu ficava num susto contínuo. Aquilo por lá, há tempos que não anda muito bom. Casares-te com um papa-formigas!...

 

JOSEFINA – E a mãe é capaz de dizer isso mesmo a meu pai?

 

MERENCIANA – Se digo!

 

JOSEFINA – Minha cara mamãe, já que é tão boa para mim, quero-lhe fazer uma confissão. Eu amo a um moço muito bonito.

 

MERENCIANA – Ai, sem o meu consentimento?

 

JOSEFINA – E a mamã, quando namorou o papá, pediu o consentimento a minha avó?

 

MERENCIANA, evitando a resposta – Quem é esse moço?

 

JOSEFINA, à parte – A isto não responde ela. (Pausa.) Quem é? A mamãe o conhece muito. É o sr. dr. Gaudêncio, que veio há dois anos de S. Paulo.

 

MERENCIANA – Ai, menina, logo um doutor de S. Paulo! Se ao menos fosse de Paris ou de Coimbra!

 

JOSEFINA – E em que valem mais os de Paris ou de Coimbra?

 

MERENCIANA – Em muitas coisas! Basta dizer que os de S. Paulo não passam o mar, e que todos os anos chegam-nos aos centos... Encontras em cada canto. E quanto mais houverem, pior; menos que fazer encontram. Nem todos podem ser juízes de direito.

 

JOSEFINA – Pois mamã, encontrem ou não encontrem o que fazer, não tenho nada com isso; eu hei de me casar com o dr. Gaudêncio, dê no que der.

 

MERENCIANA – Não hás de casar!

 

JOSEFINA, desesperada – Hei de me casar! (Assenta-se no sofá e bate com os pés e mãos.) Hei de me casar, ou enforco-me com este lenço. (Amarra o lenço, que traz na mão, no pescoço.)

 

MERENCIANA – Filha, que fazes? Larga o lenço! (Chega-se para ela e quer tirar o lenço.)

 

JOSEFINA, ainda com o lenço amarrado – Hei de me casar?

 

MERENCIANA – Larga o lenço!

 

JOSEFINA – Eu aperto! (Bota a língua de fora.)

 

MERENCIANA – Josefina!

 

JOSEFINA – Hei de me casar?

 

MERENCIANA – Hás de, hás de te casar!

 

JOSEFINA desamarra o lenço – Com o sr. dr. Gaudêncio?

 

MERENCIANA – Com quem quiseres. (Josefina levanta-se, dá um abraço em Merenciana e cobre de beijos e carícias.)

 

JOSEFINA – Minha mãezinha!

 

MERENCIANA – És uma louca!

 

JOSEFINA – Promete-me falar ao papá?

 

MERENCIANA – Prometo, sim.

 

JOSEFINA – E ao sr. Marcelo também, para o despersuadi-lo?

 

MERENCIANA – Também. (Josefina dá beijos em Merenciana. Aqui aparece à porta José Antônio, que vendo as duas a conversarem, caminha para elas pé ante pé. Merenciana, sem ver José Antônio:) Estás muito contente! Pensas que é muito fácil despersuadir a teu pai de um intento! Há de custar muito, principalmente por dizer ele que esses doutores não sabem nada.

 

JOSEFINA – Que injustiça!

 

MERENCIANA – Não sei se é injustiça; ele é que diz, eu cá não! (José Antônio metendo-se no meio de ambas e segurando-as pelos braços.)

 

 

 

CENA VII

 

[JOSÉ ANTÔNIO, MERENCIANA e JOSEFINA.]

 

 

 

MERENCIANA, espantando-se – Ai!

 

JOSÉ ANTÔNIO – Pilhei-as! Há uma hora que as procuro! (Josefina desata a rir.)

 

MERENCIANA, para Josefina – De que te ries? Ora, sr. José Antônio, deixe-me.

 

JOSÉ ANTÔNIO – Minha mulherzinha, faze-me um favor?

 

MERENCIANA – Qual favor, sr. José Antônio?

 

JOSÉ ANTÔNIO – Estuda o terceto da Norma... Ei-lo aqui.

 

JOSEFINA – A mamã já o sabe.

 

JOSÉ ANTÔNIO – Já sabe?

 

MERENCIANA – O que é lá isso? Tu me ouviste cantar?

 

JOSEFINA – Fiz mal em dizer, mas agora está dito. A mamã queria-lhe causar uma surpresa. Canta o dueto, o terceto e o romance final. (Ri-se.)

 

MERENCIANA – Já se viu coisa igual?

 

JOSÉ ANTÔNIO – Dá-me um abraço. (Atraca-a.) Meu amorzinho, meu anjinho!

 

MERENCIANA – Chegue-se para lá, que a menina nos está vendo.

 

JOSÉ ANTÔNIO – Canta esta passagem... Anda, ladrozinho!

 

MERENCIANA – Ora, senhor! Como quer que lhe diga que não sei e que nunca tive jeito de cantora?

 

JOSEFINA – Cante, mamã, não tenha vergonha.

 

MERENCIANA – Contigo posso! Eu... (Quer ir para [a] filha; José a retém.)

 

JOSÉ ANTÔNIO – Deixe a menina e cante.

 

MERENCIANA – E então? Ora, senhor, que demo se lhe meteu nos miolos? O senhor, que há um ano tinha tanto juízo e que nem sabia se existia Norma no mundo, e que só às vezes tocava a brincar e especialmente a sua valsinha?...

 

JOSEFINA, ao ouvido de José – Ateime, que ela canta...

 

JOSÉ ANTÔNIO – Senhora, um marido pede até quando deve pedir; depois, manda!

 

MERENCIANA – Não o ouvem? Agora quer-me obrigar!

 

JOSEFINA, ao ouvido do pai – É que ela canta com o sr. Marcelo...

 

JOSÉ ANTÔNIO, com prazer – Ele também canta! Oh, que satisfação! Ó patrício? Patrício?

 

MERENCIANA, para Josefina – Tu me pagarás! (Corre para dentro.)

 

JOSEFINA, gritando – Mamã, não fuja! (José Antônio, ouvindo a voz de Josefina, volta-se, e vendo a mulher fugir, corre atrás. Esta consegue sair de cena, e José segue-a. Josefina, que fica só, ri-se. Josefina:) Isto está divertido! Que mania!

 

 

 

CENA VIII

 

Entra MARCELO.

 

 

 

MARCELO – Quem me chama? (Vendo Josefina:) Oh, às suas ordens...

 

JOSEFINA – Foi meu pai que o chamou. Que figura!

 

MARCELO – Que olhos matadores!

 

 

 

CENA IX

 

Entra JOSÉ ANTÔNIO trazendo MERENCIANA pelo braço.

 

 

 

MERENCIANA – Não há meio de escapar a um doido!

 

JOSÉ ANTÔNIO – Estou estafado! Ó patrício, venha cá, já sei que canta com minha mulher.

 

MARCELO – Que eu canto com sua mulher? Que eu saiba, não senhor.

 

JOSÉ ANTÔNIO – Quer também fazer-se rogado, como uma moça! Deixe isso para [a] tola da minha mulher. Venha cá.

 

MERENCIANA, repentinamente – Dê cá a música! (Toma e abre.)

 

JOSÉ ANTÔNIO – Bravo! Faça a segunda, patrício!

 

MERENCIANA, cantando desentoadamente – Tra la la la! Tra tra la la!

 

JOSÉ ANTÔNIO – O que é isto, o que é isto? (Josefina e Marcelo riem-se.)

 

MERENCIANA – É a Norma! É o dueto! Cante, sr. Marcelo, para contentar a meu marido! (Cantando:) Tra la la la tra tra la la la... ([Marcelo] cai sentado no sofá, rindo-se.)

 

JOSÉ ANTÔNIO – Não é assim, não é assim! Está tudo estropiado! Vem para o piano, que eu quero acompanhar.

 

JOSEFINA – Vamos para o piano.

 

MERENCIANA, com resolução – Vamos! (José Antônio senta-se ao piano; Merenciana fica em pé de um lado e Josefina de [outro.)]

 

JOSÉ ANTÔNIO, do piano – Venha, patrício.

 

MARCELO, do sofá – Canto daqui.

 

JOSÉ ANTÔNIO – Nada, venha para cá!

 

MARCELO – Não senhor, daqui mesmo.

 

JOSÉ ANTÔNIO – Pois bem, mas cante alto.

 

MARCELO – Senhor sim, cantarei o que sei...

 

JOSÉ ANTÔNIO – Atenção! (Toca no piano a introdução do dueto da Norma; logo que deve principiar o canto diz José Antônio: Agora! Merenciana canta como no princípio. Ao dizer estas palavras, Marcelo, que disfarçadamente tomou a viola, principia a cantar em voz alta, acompanhando-se com a viola.)

 

[MARCELO] – Sou um triste boiadeiro,

 

Não tenho tempo de amar:

 

De dia pasto o meu gado,

 

De noite para rondar.

 

 

 

JOSÉ ANTÔNIO, levantando-se – Cale-se com trezentos milhões de diabos, sô papa-formigas! (Vai para Marcelo, que continua a cantar.)

 

MERENCIANA – E eu safo-me! É bem-feito! (Sai correndo e Josefina a segue.)

 

JOSÉ ANTÔNIO arranca a viola das mãos de Marcelo – Quer-me fazer doido?

 

MARCELO, impassível – Cada um canta como sabe... O patrício pediu que eu cantasse, eu cantei.

 

JOSÉ ANTÔNIO – E eu lhe pedi que cantasse o fado, animal?

 

MARCELO, levantando – Animal?

 

JOSÉ ANTÔNIO – Animal, sim! Arre, que já não o posso aturar! Bruto!

 

MARCELO – Se eu não estivesse na sua casa... (Chamando:) André? André? (Para José:) O senhor não sabe dar hospitalidade! Eu sou seu hóspede, devia-me respeitar. (Entra André; vem vestido como um tropeiro.) Apronta os burros, que eu hoje mesmo me vou.

 

JOSÉ ANTÔNIO – Espere, sr. Marcelo, desculpe-me! Tenha paciência!

 

MARCELO – Animal não tem paciência...

 

JOSÉ ANTÔNIO – Por quem é, não desconfie! Eu não sou capaz de escandalizar um hóspede como o senhor. Faz-me o favor, assente-se. (Quer obrigá-lo a sentar.)

 

MARCELO – Está bom, ficarei. Quero mostrar que ainda que sou do mato, sou mais bem-criado do que o senhor.

 

JOSÉ ANTÔNIO – Muito estimo! (À parte:) O que faz a ignorância!

 

 

 

CENA X

 

Entra GAUDÊNCIO com uma caixa de óculo de teatro na mão.

 

 

 

GAUDÊNCIO – Reverente criado da casa.

 

JOSÉ ANTÔNIO – Oh, dr. Gaudêncio!

 

GAUDÊNCIO, para Marcelo – Bons dias, patrício.

 

MARCELO – Deus lhe dê os mesmos. (À parte:) Não gosto deste homem...

 

GAUDÊNCIO – Eis aqui o óculo que pediu-me que comprasse. É da casa do Wallerstein. O Lesmarais agora não os tem.

 

JOSÉ ANTÔNIO, tomando e abrindo a caixa e tirando um óculo grande [de] tartaruga – Vejamos. É bonito! E que tal será? (Põe o óculo para os camarotes.) É magnífico! Um verdadeiro diletante não deve estar sem óculo, para gozar o frangir da testa, o arregalar dos olhos e o entumescimento da veia dos cantores de sua predileção.

 

MARCELO ri-se – Ah! Ah!

 

JOSÉ ANTÔNIO – De que se ri?

 

GAUDÊNCIO, ao mesmo tempo – Achou graça?

 

MARCELO – O senhor com estas duas coisas nos olhos parece-me um boi com dois chifres...

 

GAUDÊNCIO – E o senhor com que se parece, com essa bota enlameada e esse ridículo ponche? Que cara! Sô tanajura!

 

MARCELO – Com que me pareço? (Abaixa e tira das botas uma faca grande; o que vendo Gaudêncio, dá um salto para o lado.)

 

GAUDÊNCIO – Não brinque!

 

JOSÉ ANTÔNIO – O que é isto, patrício?

 

MARCELO, para Gaudêncio – Vem cá, carioca, quero te dizer com que me pareço...

 

JOSÉ ANTÔNIO – Então? Tenha prudência!

 

MARCELO – Queres brincar com o paulista? (Anda para Gaudêncio, que recua. José Antônio está ao meio deles.)

 

GAUDÊNCIO – Tenha mão nele, sr. José Antônio!

 

JOSÉ ANTÔNIO – Patrício! Patrício!

 

MARCELO – Tenho pena de ti! (Mete a faca nas botas, volta as costas e sai.)

 

 

 

CENA XI

 

[GAUDÊNCIO e JOSÉ ANTÔNIO.]

 

 

 

GAUDÊNCIO – Que tal o paulista? Safa! Por isso há tantas mortes aí pelo interior. Por qualquer coisa, tome lá você uma facada, ou um tiro de bacamarte. Por isso é que nas eleições corre tanto sangue.

 

JOSÉ ANTÔNIO – Cale-se, cale-se, que não quero saber dessas coisas!

 

O senhor é que teve a culpa; foi escandalizá-lo.

 

GAUDÊNCIO – Ele é que o escandalizou, dizendo que o senhor parecia-se com um boi com chifres. Mande esta onça embora.

 

JOSÉ ANTÔNIO – Isso não se faz assim! Ele é homem rico e considerado lá em S. Paulo. Anda mal vestido porque assim foi criado e não há forças humanas que o façam mudar. Não se ajeita com uma casaca. Tem gostado muito da Josefina, e pediu-ma.

 

GAUDÊNCIO, à parte – Mau! (Para José Antônio) Pois o senhor atreve-se a sacrificar a sua filha, casando-a com um homem tão assomado, que puxa uma faca pela menor palavra e que é capaz de fazer uma morte e acabar na forca?

 

JOSÉ ANTÔNIO – Tudo fosse isso! Puxar uma faca não vale nada; o diabo é ele não gostar da Italiana.

 

GAUDÊNCIO – Pois acha não gostar de música pior?

 

JOSÉ ANTÔNIO – Mil vezes!

 

GAUDÊNCIO, à parte – Ah, bom! Isto me servirá...

 

JOSÉ ANTÔNIOHei de lhe dar algumas lições, e ele tomará gosto.

 

GAUDÊNCIO, à parte – É preciso desviá-lo deste intento. (Para José António:) Acho que tem muita razão em dizer que pior não gostar de música, do que dar facadas. O homem pode ser ladrão e assassino sem que tenha má índole. Essas péssimas inclinações provêm quase sempre de uma educação mal dirigida; os bons exemplos e a Casa da Correção o pode[m] emendar; mas aquele que não gosta de música?... Nasceu com alma mal conformada! É um perverso!

 

JOSÉ ANTÔNIO – Perverso, diz o senhor? É um monstro! O que não se extasia com os suaves encantos da harmonia não tem alma e...

 

GAUDÊNCIO – É incorrigível!

 

JOSÉ ANTÔNIO – Capaz dos maiores crimes!

 

GAUDÊNCIO – Feroz!

 

JOSÉ ANTÔNIO – Antropófago! Meu caro amigo, eu estou bem persuadido que Robespierre, Pedro Espanhol, os ladrões da Caqueirada e Remecheda e todos aqueles de que nos fala Os mistérios de Paris não gostavam de música.

 

GAUDÊNCIO – Isto está provado...

 

JOSÉ ANTÔNIO – Ah, já está provado? Não o dizia eu? É para ver. Ouça aqui muito em segredo – é ao senhor a primeira pessoa a quem digo; não quero que roubem-me a idéia.

 

GAUDÊNCIO – O que é?

 

JOSÉ ANTÔNIO – Preparei um trabalho que será de grande transcendência moral! Que terá resultado estupendíssimo e que muito lucrará com ele a sociedade.

 

GAUDÊNCIO – Excita a minha curiosidade!

 

JOSÉ ANTÔNIO – Numa palavra, provo nesse trabalho todo evidência que se criasse uma escola de música vocal e instrumento em toda prisão e presigangas, em breve os crimes desapareciam da face da terra.

 

GAUDÊNCIO – Dê-me um abraço! Grande homem! Que idéia luminosa e sublime!

 

JOSÉ ANTÔNIO – Criadas essas escola, as funções do júri seriam mais suaves e humanas. Do seu seio não sairiam condenações de prisão, galé e morte; seriam suas sentenças assim formuladas: Condeno ao réu fulano, com infração, a um ano de flauta. Ou: Condeno ao réu sicrano, por crime de assassinato, com circunstâncias agravantes, a quatro de fagote e canto vocal. E assim por diante. Enfim, o júri se dirigia por um Código Musical que fosse dando a última demão. É impossível que assim os maiores criminosos não se emendassem...

 

GAUDÊNCIO – Impossibilíssimo! (Com exaltação:) O assassino armado de aguda e açacalada espada, frenético, delirante, sedento de sangue humano, com a destra alçada (levanta o braço e bengala) e com a sinistra apoderando-se da vítima... (Agarra com a mão esquerda a gola da casaca de José Antônio, que se assusta.)

 

JOSÉ ANTÔNIO – O que lá isso?

 

GAUDÊNCIO, continuando – ...que, trêmula e oprimida, implora compaixão e que nada no mundo antigo e moderno seria capaz de livrar a sua vítima e suster o seu criminoso braço, se ouvisse suave melodia... (canta com ternura) deixaria cair o ferro e, prostrado de joelho, (ajoelha-se) pediria perdão à sua vítima!...

 

JOSÉ ANTÔNIO – Estou comovido! Levante-se, meu amigo! (Enxuga os olhos.)

 

GAUDÊNCIO – É preciso que eu também diga o meu segredo; já não me posso calar. A sua franqueza excita a minha. (Com mistério:) Eu sei cantar!

 

JOSÉ ANTÔNIO com grande prazer – Sabe cantar? Deveras? Sabe cantar?

 

GAUDÊNCIO – Há seis meses que tenho mestre... Queria causar-lhe uma surpresa.

 

JOSÉ ANTÔNIO – Causou-me, causou-me, meu querido! Ora diga-me, que voz tem?

 

GAUDÊNCIO, à parte – Os diabos me levem, se eu sei que voz tenho!

 

(Para José Antônio:) Ah, quer saber que voz tenho?

 

JOSÉ ANTÔNIO – Sim, quero saber se é tenor, baixo ou barítono.

 

GAUDÊNCIO – De qual destas vozes gosta mais?

 

JOSÉ ANTÔNIO – De tenor.

 

GAUDÊNCIO – É a minha voz!

 

JOSÉ ANTÔNIO – Oh, que satisfação! Um abraço! Então a sua voz sobe muito?

 

GAUDÊNCIO – Pois não! Sobe até acima!

 

JOSÉ ANTÔNIO – E tem bom falsete?

 

GAUDÊNCIO, à parte – Em boas me meti! (Para Antônio:) Olá, pergunta se eu dou falsete?

 

JOSÉ ANTÔNIO – Justamente. Se é bem sustenuto, e se o dá com firmeza e suavidade...

 

GAUDÊNCIO – Pois que pensa? O falsete? Não há nada como o falsete! Tenho-lhe uma afeição particular. Todos os dias não faço outra coisa... E o meu amigo também dá o falsete?

 

JOSÉ ANTÔNIO – Nada; o diabo do defluxo asmático não me deixa.

 

GAUDÊNCIO – Eu o lastimo! O falsete é [o] maior prazer que um homem pode ter neste mundo.

 

JOSÉ ANTÔNIO – Venha cantar um pouco; quero ouvi-lo.

 

GAUDÊNCIO, à parte – Esta agora é pior! Estou em talas! (Para Antônio:) Agora não posso, estou rouco...

 

JOSÉ ANTÔNIO – Isso é desculpa de cantora... Um bocadinho só; faça-me este obséquio!

 

GAUDÊNCIO – Bem queria servi-lo...

 

JOSÉ ANTÔNIO, puxando-o pelo braço – Venha, venha! Que felicidade para mim, se eu tivesse um genro que fosse tenor!

 

GAUDÊNCIO, à parte – Ah! (Para Antônio) Pois bem, cantarei um pouco.

 

JOSÉ ANTÔNIO – Bravo! (Assenta-se ao piano) O que quer cantar?

 

GAUDÊNCIO, junto a Antônio – O que quiser... Tudo é o mesmo...

 

JOSÉ ANTÔNIO – A ária de BelisárioTrema Bisâncio?

 

GAUDÊNCIO – Essa mesma! (Antônio toca no piano a introdução da ária acima; na ocasião em que Gaudêncio deve cantar, concerta a voz)

 

JOSÉ ANTÔNIO – Então?

 

GAUDÊNCIO – Estou consertando a voz, principie outra vez... (Principia de novo a introdução.)

 

JOSÉ ANTÔNIO – Agora! (Gaudêncio abre a boca para cantar e finge-se repentinamente engasgado.) O que é isto?

 

GAUDÊNCIO, saindo para o meio da sala, fingindo-se sempre engasgado – Foi uma mosca que entrou-me nas goelas! Ai!

 

JOSÉ ANTÔNIO, seguindo-o – Escarre! Ainda não saiu? (Gaudêncio sempre engasgado.) Espere! (Dá-lhe um murro nas costas.)

 

GAUDÊNCIO – Ai!

 

JOSÉ ANTÔNIO – Ainda não? Ó lá de dentro, tragam água!

 

GAUDÊNCIO – Parece-me que a engoli...

 

JOSÉ ANTÔNIO – Então podemos cantar.

 

GAUDÊNCIO – Cá está, ainda, cá está! (Metendo o dedo na boca.)

 

JOSÉ ANTÔNIO – Eu vou buscar água. (Sai correndo.)

 

 

 

CENA XII

 

[GAUDÊNCIO e JOSEFINA]

 

 

 

GAUDÊNCIO – Em boa me meti eu! Agora é preciso sustentar a mentira que sei cantar... Não sei como há de ser! (Josefina, que da porta espreita, depois que Antônio sai, encaminha-se para Gaudêncio sem que ele a veja, por estar de costas, correndo na ponta dos pés. Logo que chega junto dele, toca-lhe o braço. Gaudêncio julga que é Antônio que está de volta com a água que foi buscar, e finge-se de novo engasgado.)

 

JOSEFINA – Sou eu! (Apressada.)

 

GAUDÊNCIO – Ah!

 

JOSEFINA – Meu pai quer que eu me case com o paulista...

 

GAUDÊNCIOCom o paulista? Isso agora é maior engasgadela...

 

JOSEFINA – . Continue a dizer que sabe cantar, cante mesmo alguma coisa... A mamã é por nós. Cante, cante, que conseguirá tudo do papá. (Corre para dentro.)

 

GAUDÊNCIO – Espere, espere! (Josefina sai.) Que eu cante? É bom de se dizer! Casar-se com o paulista? Adeus! Saia o que sair, dou exercício à goela... (Entra um pajem com uma carta e entrega a Gaudêncio.)

 

CRIADO – Uma carta para o senhor, que acabam de trazer.

 

GAUDÊNCIO – Dê cá. (O criado sai. Gaudêncio abre a carta e fica surpreendido.) Que desgraça! (Toma o chapéu e sai apressado; ao meter a carta na algibeira, esta cai sem que ele o pressinta.)

 

 

 

CENA XIII

 

Logo que GAUDÊNC1O sai, entra MARCELO.

 

 

 

MARCELO, vendo a carta – Um papel? (Apanha-o.)

 

 

 

CENA XIV

 

[JOSÉ ANTÔNIO e MARCELO.]

 

 

 

Entra JOSÉ ANTÔNIO com um copo de água na mão; vem com tanto cuidado no copo, que não repara na pessoa que está em cena, e toma MARCELO por GAUDÊNCIO.

 

 

 

JOSÉ ANTÔNIO – Aqui está a água, beba.

 

MARCELO, tomando o copo – Obrigado! (Bebe a água.)

 

JOSÉ ANTÔNIO, espantado – Oh!

 

MARCELO – O patrício adivinhou que eu estava com sede? Está o copo.

 

JOSÉ ANTÔNIO – Aonde está o sr. dr. Gaudêncio?

 

MARCELO – Que eu visse, não senhor.

 

JOSÉ ANTÔNIO – E esta!...

 

MARCELO – Patrício, então, que tem dito a menina?

 

JOSÉ ANTÔNIO – Que não quer. Que não quer casar-se com um homem que não sabe música. E tem razão! (À parte:) Já não o posso aturar! Sem dúvida foi ele que fez sair o tenor... E fiquei privado deste prazer! (Sai.)

 

 

 

CENA XV

 

[MARCELO e MERENCIANA.]

 

 

 

MARCELO, só – Ah, não quer? Pois eu também não quero! Pensam que hão de mangar com o paulista? Vou-me embora hoje mesmo! (Vai para sair. Entra Merenciana.)

 

MERENCIANA, entrando – Faz-me o favor?

 

MARCELO, voltando – Aqui estou, que quer de mim?

 

MERENCIANA – O senhor é homem de bem...

 

MARCELO – E quem o duvida?

 

MERENCIANA – Ninguém. E sendo assim, espero que não ateimará com meu marido para que lhe dê minha filha.

 

MARCELO – Esteja descansada, que não ateimo mais.

 

MERENCIANA – Deveras?

 

MARCELO – Palavra de paulista! Paulista não volta atrás!

 

MERENCIANA – Quanto me alegro! Olhe, sr. Marcelo, não é por fazer pouco no senhor que eu não desejo que se case com minha filha, não. É porque ela ama ao sr. dr. Gaudêncio...

 

MARCELO – Pois tem bom gosto...

 

MERENCIANA – E eu protejo os seus amores. E não quero que ela se case e separe de mim.

 

MARCELO – Pois bem, senhora, fique-se com sua filha...

 

MERENCIANA – E demais, minha filha casada com o senhor havia de ser infeliz.

 

MARCELO – E por quê?

 

MERENCIANA – O senhor é paulista, e mais dias menos dias, há de vir a ter papo... E a menina tem muito medo dos papos.

 

MARCELO – Pois, senhora, fique descansada, que eu me vou hoje mesmo e que não hei de meter medo a sua filha. Que gente!

 

MERENCIANA – Não sabe quanto lhe sou agradecida.

 

MARCELO – Não há de quê.

 

MERENCIANA – Com sua licença. (Sai fazendo mesuras.)

 

 

 

CENA XVI

 

MARCELO, só.

 

 

 

MARCELO – Não era à toa que eu tinha raiva daquele sujeito! Esta gente toda está doida... Vejamos o papel. (Lendo:) “Sr. Gaudêncio!” (Deixando de ler:) É para ele! (Lendo:) “Escrevo-te esta às pressas. A tua amante sabe que freqüentas a casa do sr. José Antônio com tenção de te casares com a filha. Está desesperada; saiu de casa com os teus dois filhos e jura vingar-se. Cuidado! Teu amigo, Júlio.” (Deixando de ler:) E então? Que me dizem a esta? O sujeito tem uma moça e dois filhos, e quer enganar a outra! Vou dizer tudo... Mas não! Como me tratam de resto, eu me hei de vingar calando a boca... (Guarda a carta.) E quando minha pobre irmã foi também seduzida e roubada, uma só alma de Deus não me avisou, para eu vingá-la! Que me importo com os mais? (Marcelo vai a sair e entra Josefina.)

 

 

 

CENA XVII

 

[JOSEFINA e MARCELO.]

 

 

 

JOSEFINA, entrando – Sr. Marcelo?

 

MARCELO, voltando – Quem me chama? Ah!

 

JOSEFINA – Faz-me o obséquio? A mamã contou-me o que há pouco passou-se aqui com o senhor.

 

MARCELO – Pois então, muito estimo... (Quer sair.)

 

JOSEFINA, retendo-o – Ouça! Eu não dormiria tranqüila, se soubesse que há no mundo uma pessoa mal comigo... Venho pedir-lhe perdão.

 

MARCELO – Perdão a mim?

 

JOSEFINA – Antes de o senhor chegar de S. Paulo eu já conhecia o senhor doutor e o amava. Assim, não leve a mal que eu o prefira... Perdoa-me?

 

MARCELO – Menina, eu queria sair de sua [casa,] onde se me tem maltratado, sem dizer uma palavra, para me vingar; mas a sua candura me desarma. Conhece muito bem o tal senhor doutor?

 

JOSEFINA – Há dois meses que frequenta a nossa casa, e tem-me parecido bom moço.

 

MARCELO – E não sabe mais nada?

 

JOSEFINA – O senhor assusta-me!

 

MARCELO – Há dois anos, um homem, negociante cá no Rio, esteve lá em S. Paulo, aonde foi cobrar uma dívida. Demorou-se oito dias em nossa casa. Eu estava então no serro. Minha mãe e minha irmã o receberam com agasalho, e esse homem pagou a hospitalidade seduzindo e roubando minha irmã.

 

JOSEFINA – Oh!

 

MARCELO – Moça e inexperiente, acreditou em suas palavras traiçoeiras e, coitada! esqueceu-se de mim e de nossa mãe, que passa a vida chorando.

 

JOSEFINA – Desgraçada!

 

MARCELO – Quando eu soube, pus-me a caminho. Quinze dias [e] quinze noites andei sem descanso. Cheguei à casa de minha mãe, tomei a sua bênção e continuei a jornada, trazendo por companhia minha espingarda carregada com duas balas. Outros quinze dias caminhei; cheguei ao alto da serra, sem que ninguém me desse informação de minha irmã e do seu roubador. Parei alguns instantes, chorei duras lágrimas. Tirei as balas da espingarda, que comigo guardo (tira da algibeira duas balas, que mostra a Josefina) para quando encontrar o malvado – e voltei a consolar minha mãe.

 

JOSEFINA – Pobre mãe!

 

MARCELO – E acabou-se a alegria de nossa casa. Eu às vezes rio-me, mas choro no coração!

 

JOSEFINA – Depois que está no Rio tem procurado sua irmã?

 

MARCELO – Tenho, mas debalde! Não sei o nome do sujeito. Quando nós damos hospitalidade, não indagamos a quem.

 

JOSEFINA – Oh, desculpe-me se fui despertar essa lembrança que aflige!

 

MARCELO, dando-lhe a carta – Leia esta carta e não seja infeliz como a minha desgraçada irmã. Adeus! [(Sai.)]

 

 

 

CENA XVIII

 

JOSEFINA, depois PERPÉTUA.

 

 

 

JOSEFINA, com a carta na mão – O que será? (Lendo.) Meu Deus, será possível? (Acabando de ler:) Assim enganada? Eis-me chorando. Eu, que há tanto tempo não choro! Ingrato! Hei de vingar-me de ti casando-me com o paulista! É preciso falar à minha mãe! (Quando volta para sair, aparece-lhe à porta d.a Perpétua com dois filhinhos pela mão.) Quem é?

 

PERPÉTUA, entrando – Perdoe-me, minha senhora, se a venho importunar...

 

JOSEFINA, com bondade – Não me importuna. Se quisesse ter a bondade de dizer-me quem é?

 

PERPÉTUA – Sou uma desgraçada que venho implorar a sua bondade e compaixão, e por[que] sei que está nas suas mãos o não ser eu mais infeliz do que sou...

 

JOSEFINA – Quem será?

 

PERPÉTUA – Como eu, é a senhora moça e inexperiente, e como eu, também pode ser enganada...

 

JOSEFINA – Ah!

 

PERPÉTUA – Não me queixo; fui culpada. Abandonei aos meus para seguir um pérfido, mas meus filhos, meus inocentes filhos, que culpa têm dos meus desvarios? (Obriga-os a ajoelharem-se.) Eles vos pedem pela minha voz que não lhe roubeis seu pai... (Aqui aparece à porta Antônio, que vendo o que se passa, pára surpreendido.) ...que talvez algum dia, arrependido, ainda se compadeça deles...

 

 

 

CENA XIX

 

[JOSÉ ANTÔNIO, PERPÉTUA e JOSEFINA.]

 

 

 

JOSÉ ANTÔNIO, caminhando para frente – Bravo! Bravíssimo! (As duas surpreendem-se; os pequenos conservam-se de joelhos.) Continuem, que eu acompanho. (Vai para o piano.)

 

PERPÉTUA – Ah!

 

JOSEFINA – Continuar o quê, senhor?

 

JOSÉ ANTÔNIO – Pois não é o dueto da Norma que estavam cantando?

 

JOSEFINA – Qual dueto! Que loucura!

 

JOSÉ ANTÔNIO, caminhando para ela – Ó filha, pois eu pensei que ias cantar. Vi estes dois pequenos de joelhos, julguei que tu ias fazer de Norma e ali a senhora de Adalgisa...

 

JOSEFINA – E não se enganou de todo. Somente trocou os nomes: aqui a Adalgisa sou eu, e a senhora a Norma, porque é a traída e aband[onada] pelo falso...

 

JOSÉ ANTÔNIO – Pollione?

 

JOSEFINA – Qual Pollione! Pelo dr. Gaudêncio!

 

JOSÉ ANTÔNIO – Hem? O que estás dizendo?

 

 

 

CENA XX

 

Entra MARCELO com um chapéu branco, como os que trazem os paulistas, e uma espingarda no ombro; seguem-no ANDRÉ com outra espingarda e, após este, dois tropeiros com canastras às costas.

 

 

 

MARCELO, entrando – Adeus, gentes!

 

JOSÉ ANTÔNIO – Aonde vai? (Marcelo dirige-se para a frente. André apeia; [os] dois tropeiros param no fundo junto ao pano.)

 

MARCELO – Vou-me embora!

 

PERPÉTUA, reconhecendo Marcelo – Marcelo! Meu irmão!

 

MARCELO, reconhecendo-a – Joana!

 

JOSEFINA – Sua irmã?

 

JOSÉ ANTÔNIO, ao mesmo tempo – Seu irmão?

 

PERPÉTUA, lançando-se a seus pés – Perdão, meu irmão, perdão!

 

JOSÉ ANTÔNIO, para Josefína – Que diabo quer isto dizer? (Josefina conduz Antônio um pouco mais para o lado, junto ao piano, e parece que lhe conta o que sabe. Antônio dá sinais de admiração e espanto. Enquanto estes conversam mudamente a cena continua entre Marcelo e Perpétua. Enquanto esta fala prostrada a seus pés, aquele está imóvel a olhar para ela, tendo a coronha da espingarda apoiada no chão.)

 

PERPÉTUA – Fui enganada! Caro tenho pago a minha loucura! Marcelo, Marcelo, meu irmão, dize-me algumas palavras! Este teu silêncio mata-me!

 

MARCELO, com calma – Levanta-te. (Abre os braços; Perpétua se lança neles.) Não tens culpa; mas graças a Deus que sei ele quem é, e hei de vingar-te! (Desprende-se dos braços de Perpétua, tira um polvarinho da algibeira e principia a carregar a espingarda, e diz para André:) Carrega tu!

 

PERPÉTUA – Que fazes?

 

MARCELO – O que está vendo... (Carregando sempre a espingarda; o mesmo faz André.) Agora já o conheço: Gaudêncio Mendes!

 

JOSÉ ANTÔNIO, chegando-se para Marcelo – O que isto? Carrega a espingarda?

 

MARCELO – É para matar a um tratante...

 

PERPÉTUA – Marcelo!

 

JOSÉ ANTÔNIO – Matar! Pois assim se mata?

 

MARCELO, carregando sempre – E por que não?

 

JOSÉ ANTÔNIO – O senhor pensa que está em S. Paulo? Largue a espingarda... (Marcelo, que neste tempo tem a[ca]bado de carregar, inclina a espingarda para escorvar, ficando a boca dirigida para Antônio. José Antônio, ladeando:) Tire para lá a boca... Sai daí, menina! Está doido?

 

PERPÉTUA, angustiada – Meu Deus, meu Deus!

 

MARCELO, pondo a espingarda no ombro – Agora que conheço o tratante que te enganou, nem o diabo o salva! Ou há de ser teu marido, ou morrerá! (Para André:) Quando eu fizer fogo, faz também!

 

ANDRÉ – Senhor sim!

 

JOSÉ ANTÔNIO – Temos descarga!

 

MARCELO, para Antônio – Se não fosse o paulista, sua filha casava-se com um brejeiro...

 

JOSÉ ANTÔNIO – Casava-se? Não sei de nada!

 

MARCELO – E como há de o senhor saber, se vive só cantando? Adeus! (Vai para sair.)

 

PERPÉTUA – Meu irmão!

 

JOSEFINA, ao mesmo tempo – Sr. Marcelo!

 

JOSÉ ANTÔNIO, ao mesmo tempo – Vem cá!

 

MARCELO – Deixem-me, vou vingar-me! (Caminha para a porta do fundo.)

 

PERPÉTUA – Desgraçado!

 

JOSEFINA, ao mesmo tempo – Vai matá-lo! (Marcelo, à saída, esbarra-se com Gaudêncio, que entra apressado.)

 

GAUDÊNCIO – Irra!

 

MARCELO agarra-lhe na gola da casaca e o obriga a caminhar para frente – Não me escapa!

 

GAUDÊNCIO – Que diabo é isso? (Inquietação nos que estão em cena.)

 

MARCELO, empurrando para junto de Perpétua – Conheces?

 

GAUDÊNCIO – Ah, é tarde! Estou perdido!

 

MARCELO, metendo-se no meio dos dois – Sabes quem é esta infeliz que seduziste? (N.B.: Nesta ocasião, a cena estará assim distribuída, para seu perfeito desempenho: Perpétua e os dois filhos, Marcelo, Gaudêncio, José Antônio, André, Josefina e Merenciana.)

 

GAUDÊNCIO – Não é da sua conta!

 

MARCELO – É mais do que pensas, miserável. É minha irmã!

 

GAUDÊNCIO – Sua irmã!

 

MARCELO – Hoje mesmo hás de casar com ela!

 

GAUDÊNCIO – Não quero!

 

PERPÉTUA – Ah! (Marcelo recua dois passos e mete a espingarda à cara, apontando para Gaudêncio; o mesmo faz André. Gaudêncio assusta-se e corre para encobrir-se com o corpo de José António, com quem se agarra. Marcelo procura modos de atirar sem ofender a José Antônio.)

 

JOSÉ ANTÔNIO – Patrício, tenha mão! Tenha mão, não atire, patrício!

 

MARCELO, com a espingarda à cara – Largue, patrício, largue, que eu atiro! Atire, André! (Josefina esconde-se, abaixada atrás do piano, e Gaudêncio fica sem saber o que há de fazer, aterrorizado. José António e Gaudêncio vêem-se atrapalhados com as duas espingardas para ele apontadas. José Antônio, vendo que Marcelo está quase a atirar, agarra-se a Gaudêncio e o coloca adiante de si.)

 

GAUDÊNCIO, aterrorizado – Ai, ai, ai!

 

PERPÉTUA – Marcelo, Marcelo, que fazes? Mata-me primeiro! (Atravessa a cena e vai para Gaudêncio, que agarra-se com ela e esconde-se com o corpo desta, ficando deste modo os quatro escondidos um atrás dos outros.)

 

MARCELO, descansando a espingarda, para Gaudêncio – Casas-te com minha irmã?

 

JOSÉ ANTÔNIO e MERENCIANA – Case-se, case-se, senão morremos todos!

 

MARCELO – Não responde? (Quer levar a espingarda à cara.)

 

GAUDÊNCIO – Ai!

 

JOSÉ ANTÔNIO – Espere, espere! (Sempre agarrado um ao outro. Para Gaudêncio:) Case, que eu lhe dou o dote!...

 

GAUDÊNCIO – Pois bem, casarei!

 

MERENCIANA e JOSÉ ANTÔNIO – Muito bem!

 

MARCELO – Hoje mesmo!

 

GAUDÊNCIO, sempre agarrado a José Antônio – Quando os papéis estiverem prontos...

 

MARCELO – Pois senhor sim, estamos justos. (Larga um ao outro.)

 

MERENCIANA – De boa escapamos!

 

MARCELO, para Perpétua – Dê-me um abraço; tudo está reparado. Pobres meninos! (Vendo os meninos junto ao sofá. Perpétua vai para junto dos filhos e os beija.)

 

JOSÉ ANTÔNIO, para Gaudêncio – Tratante!

 

MARCELO – André, não percas este sujeito de vista – anda de vigia.

 

GAUDÊNCIO – O que é lá isso? Não precisa! (André vem se pôr atrás de Gaudêncio, com a espingarda no ombro.) E esta!

 

MARCELO, para Antônio – Ainda quer me dar sua filha?

 

JOSÉ ANTÔNIO – Se o pedido vai à espingarda...

 

JOSEFINA, debaixo do piano, em voz trêmula – Eu não quero!

 

MARCELO – Pois nem eu!

 

JOSÉ ANTÔNIO – Ora, meus amigos, já que tudo se arranjou a contento geral e que estamos aqui reunidos, não poderíamos cantar o final da Norma?

 

MARCELO – Asneira!

 

GAUDÊNCIO – Tolice!

 

MERENCIANA – Vai para o diabo!

 

JOSÉ ANTÔNIO – Está bom!...

 

 

 

CENA XXI

 

Entra um pajem com uma carta, que entrega a [JOSÉ] ANTÔNIO.

 

 

 

PAJEM – Esta carta que acabam de trazer para o senhor. (Entrega a carta.)

 

JOSÉ ANTÔNIO, abrindo a carta – Com sua licença. (Lendo em voz alta:) “Meu amigo, dou-lhe a mais triste e infausta nova que se pode dar a um diletante.”(Deixando de ler:) O que será? (Lendo:) “Fecha-se o nosso teatro e a Companhia Italiana vai para Europa.” (José Antônio acaba de ler a carta; fica por alguns instantes trêmulo, levanta os braços, dá um pungente gemido e caí morto.)

 

TODOS – Ah! (Merenciana abaixa para socorrer Antônio. Grupo.)

 

GAUDÊNCIO, de joelhos junto de José Antônio – Está morto!

 

TODOS – Morto! Que desgraça! (Grupam-se em redor do corpo de Antônio e cai o pano.)

 

 

 

[FIM]

 

 

 

 

 

 

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