LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em meio eletrônico

O Moço Loiro, de Joaquim Manuel de Macedo


Edição de base:
Biblioteca Nacional – setor de obras digitalizadas

 

 

 


 

 

 

 

 

Introdução
 

 

Ce livre

Tremble et palpite sous vos pieds.

 

V. Hugo

 

 

 

SENHORAS!

 

Para que nascesse O moço loiro influíram fortemente em mim dois sentimentos nobres e profundos.

 

No empenho de escrever — a gratidão.

 

Na concepção e desenvolvimento do romance — a esperança.

 

Um ano há decorrido desde que um jovem desconhecido, sem habitações, com fracos e limitadíssimos recursos intelectuais, mas rico de vontade e de bons desejos; temeroso e quase à força ofereceu à generosidade do público do Rio de Janeiro um pobre fruto de sua imaginação — A moreninha — que ele amava, como filha de sua alma. Esse jovem, senhoras, fui eu.

 

Fui eu, que, com meus olhos de pai, a segui em sua perigosa vida, temendo vê-la cair a cada instante no abismo do esquecimento... fui eu que (talvez ainda com vaidade de pai) cheguei a crer que o público a não enjeitava; e, sobretudo, que minha querida filha tinha achado corações angélicos, que, dela se apiedando, com o talismã sagrado de sua simpatia a levantaram mesmo muito acima do que ela merecer podia. E esses corações, senhoras, foram os vossos.

 

Oh! mas é preciso ser autor, ao menos pequenino autor, como eu sou, para se compreender com que imenso prazer, com que orgulho eu sonhava vossos belos olhos pretos brasileiros, derramando os brilhantes raios de suas vistas sobre as páginas do meu livro! vossos lábios cor-de-rosa docemente sorrindo-se às travessuras da Moreninha!

 

E desde então eu senti que devia um eterno voto de agradecimento a esse público, que não enjeitara minha cara menina; e que mais justa dedicação me prendia aos pés dos cândidos seres, que haviam tido compaixão de minha filha.

 

E, pobre como sou, convenci-me para logo que não daria nunca um penhor dos sentimentos, que em mim fervem, se o não fosse buscar no fundo d’alma, colhendo minhas idéias, e delas organizando um pensamento.

 

E, acreditando que me não devia envergonhar da oferta, porque dava o que dar podia; e porque, assim como o perfume é a expressão da flor, o pensamento é o perfume do espírito; eu quis escrever...

 

No empenho de escrever, pois, influiu em mim – a gratidão.

 

Ora, o pensamento que dessas idéias pretendia organizar era – um romance; mas, fraco e desalentado, o que poderia exercer em mim influência tão benigna e forte, que, mercê dela, conseguisse eu conceber (mesmo deforme como é) O moço loiro, e chegasse a terminá-lo? o quê?... — a esperança.

 

Porque a esperança — é um alimento — sim! o mais doce alimento do espírito!

 

E tudo quanto eu esperei, espero ainda.

 

Espero que minhas encantadoras patrícias vejam em O moço loiro, um simples e ingênuo tributo de gratidão a elas votado; e espero também que o público, que outrora me animou, e a quem muito devo, de tal tributo se apraza; pois sei que sempre lisonjeiro lhe é ver render cultos aos astros brilhantes de seu claro céu, às mimosas flores de seu ameno prado.

 

Espero ainda que meu novo filho não será lançado ao longe, como fruto verde e ingrato ao paladar... que O moço loiro será, ao menos por piedade, aceito e compreendido.

 

Espero mais, senhoras, que generosas sempre, perdoando as imperfeições e graves defeitos de O moço loiro, não querereis perguntar a seu débil pai — como ousas escrever? — Oh! não mo perguntareis; porque há em vós bastante ardor, imaginação e poesia para sentir que às vezes o desejo de escrever é forte, qual o instinto, que manda beber água para apagar a sede, e comer para matar a fome; que às vezes o pensamento arde, e se consome em fogo; e que então é inevitável deixar sair as chamas desse fogo... as idéias desse pensamento...

 

Espero finalmente que vós, senhoras, dignando-vos adotar O moço loiro, permitireis que ele, coberto com a égide de vosso patrocínio, possa obter o favor e encontrar o abrigo que à sua irmã não foi negado.

 

Sim! que este pobre menino, saído apenas do tão frio e abatido seio de seu pai, se anime e aqueça à vossa sombra!... que, por uma compensação, pela mais suspirada das compensações, esse passado de gelo e de abatimento para sempre esquecido ante o ardor e a felicidade do futuro!...

 

Oh! que não seja uma ilusão a minha esperança!...

 

Consenti, pois, senhoras, que me eu atreva a dedicar-vos O moço loiro, como um primeiro e fraco sinal de reconhecimento, que há de durar sempre...

 

Inspirado pela gratidão, é ele semelhante a uma inocente flor depositada com religioso respeito no altar e aos pés dos anjos.

 

Filho da esperança, pode parecer-se com brando suspiro do coração, que almeje cair no seio da beleza...

 

E, enfim, como um franguinho infante, que medroso dos camaradas corre a acolher-se no materno colo, O moço loiro convosco se apadrinha, senhoras, e a cada uma de vós repete as palavras do salmo:

 

“Protege-me com a sombra de tuas asas!”

 

 

                                                                  O autor

 

 

 

 

I

 

Teatro italiano

 

 

Declinava a tarde do dia 6 de agosto de 1844: o tempo estava chão e bonançoso; e, contudo, meia cidade do Rio de Janeiro profetizava tempestade para o correr da noite. Como isso era, estando como de feito estava o Pão de Açúcar com sua cabeça desnublada e livre da tal carapuça de fumo com que se agasalha quando prevê mau tempo, é o que ainda agora mesmo poderiam muito bem explicar os habitantes desta bela corte, se não fossem, honrosas exceções para um lado, tão esquecidos dos acontecimentos que se passam em nossa terra, como às vezes finge sê-lo das contradanças, que prometeu a cavalheiros, que lhe não são do peito, uma mocinha do grande tom.

 

Mas, pois que, segundo cremos, o caso em questão não se acha suficientemente lembrado justo é, mesmo para que por tão pouco a ninguém pareça ter cabido honras de profeta, dizer que, se a atmosfera não estava carregada, a antecipação e o espírito de mesquinho partido haviam exalado vapores, que, condensando-se sobre o ânimo do público, deixavam prognosticar uma borrasca moral.

 

Ora, assim como muitas vezes sucede, que rosnam surdamente as nuvens, quando está prestes para rebentar alguma trovoada, assim também notava-se que na tarde de que se fala, ouvia-se um zunido incessante, e do meio dele por vezes ressaltavam as palavras — teatro... direita... esquerda... aplausos... pateada... — e muitas outras tais quais as que deram lugar à cena seguinte passada em um hotel, que nos é muito conhecido, e que se acha estabelecido na rua, que, por se chamar — Direita —, efetivamente representa a antítese do próprio nome.

 

Dois moços acabam de entrar nesse hotel. Um deles, que para o diante melhor conheceremos, trajava casaca e calças de pano preto, colete de seda de xadrez cor de cana, sobre o qual se deslizava finíssima corrente de relógio; gravata também de seda e de uma bela cor azul; trazia ao peito um rico solitário de brilhante; na mão esquerda suas luvas de pelica cor de carne, na direita uma bengala de unicórnio com belíssimo castão de ouro; calçava finalmente botins envernizados. Esse moço, cuja tez devia ser alva e fina, mas que mostrava ter sofrido por muitos dias os ardores do sol, era alto e bem-apessoado; seu rosto, sem ser verdadeiramente belo, causava ainda assim um interesse; ele tinha os cabelos pretos, os olhos da mesma cor, mas pequenos, e sem fogo. Entrou no hotel, como levado à força pelo seu amigo; e, sentando-se junto a uma mesa defronte dele, tomou um jornal e começou a ler.

 

O outro, que nos não deverá obséquio de ser aqui descrito, estava dando as suas ordens a um servente do hotel, quando ouviu a voz do seu amigo.

 

           — Ana Bolena!... Bravíssimo!... caiu-me a sopa no mel! ardia por chegar ao Rio de Janeiro, principalmente para ir ao teatro italiano, e eis que, apenas chegado há duas horas, já leio um anúncio que realiza meus desejos; vou hoje à ópera.

 

— Já tens bilhete?...

 

— Não, mas saindo daqui mando ver uma cadeira.

 

— Não há mais.

 

— Então não há remédio... um camarote.

 

— Estão todos vendidos.

 

— Oh, diabo! irei para a geral.

 

— Nem um só bilhete resta, meu caro.

 

— Pois, deveras, o furor é tal?... paciência, vou encartar-me no camarote de algum amigo.

 

— Não, que desse susto te livro eu: toma lá um bilhete de cadeira.

 

— E tu?...

 

— Eu hoje tenho muito o que fazer na platéia.

 

— Aceito, que não sou pobre soberbo; porém, que história é essa?... oh, Antônio, seria possível que te fizesses cambista?...

 

— Por quê?

 

— Vejo-te aí com um maço de bilhetes, que a menos que não seja agora moda dar aos porteiros uma dúzia de cada vez, que se entra para o teatro...

 

— Nada... nada... isto é para uns camaradas, que pus de mão para ir comigo à ópera.

 

— Como estás tão rico!... muitos parabéns!...

 

— Ah!... já sei que nada sabes do que por aqui vai: há dez meses fora do Rio de Janeiro, acabas de entrar na cidade tão simples e bisonho como um calouro nas aulas. Ora, dize lá; tu és Candianista ou Delmastrista?...

 

O Sr. Antônio fez esta pergunta em voz bastante inteligível; pois, um movimento quase geral se operou no hotel; os olhos do maior número dos que aí se achavam, fitaram-se nos dois parladores; um moço que na mesa fronteira jogava o dominó, ficou com uma peça entre os dedos e a mão no ar, imóvel, estático, como um epiléptico; um velho militar que próximo estava, e que para assoar-se já tinha posto o nariz em posição, deixou-se estar com o lenço estendido diante do rosto e preso entre as duas mãos, não desarranjou mesmo a horrível careta que se habituara a fazer na ação de limpar-se do monco, e assim como se achava, lançou os olhos por cima dos óculos, e os pregou na mesa da questão.

 

 — Dize-me tu primeiro, o que significa isso, respondeu aquele a quem fora dirigida a pergunta.

 

 — Otávio, tornou com muito fogo o Sr. Antônio, pergunto-te de qual das duas primas-donas és tu partidário, se da Delmastro, se da Candiani.

 

         — Mas se eu ainda não ouvi nenhuma, homem!

 

         — Pois faze de conta que já as ouviste: é preciso decidir-te, e já!...

 

         — Essa agora é mais bonita!...

 

         — O Rio de Janeiro em peso se acha extremado!...

 

— E isso que me importa?...

 

— Oh! exclamou o Sr. Antônio com voz sepulcral, oh! oh! “quando se diz acerca do negócios do Estado — que me importa — deve-se contar que o Estado está perdido”!!!

 

— Ora, eis o que se chama uma citação a propósito.

 

— É preciso! é justo, é inevitável!... deves pertencer à esquerda ou à direita do teatro, continuou o diletante com entusiasmo, e sem notar que se fazia o objeto da geral atenção; sim!... Otávio recebe o conselho de um amigo, que não quer ver manchada a tua reputação; nada de sentar-te na direita... nada de Candiani!... escuta: a Delmastro tem por si o prestígio da ciência, e o voto dos peritos; quem diz Candianista, diz criança, estouvado, estudante! A Candiani tem uma voz... e mais nada: e uma voz... triste... sem bemóis, nem sustenidos... lamentável... horrível... detestável... fulminante... que faz mal aos nervos!...

 

— Apoiadíssimo! gritou o velho, concertando os óculos que, com o gosto de ouvir o Delmastrista, lhe haviam caído do nariz no queixo.

 

— O moço do dominó há muito tempo que não dava conta do jogo.

 

— Ora, fico-lhe obrigado, disse-lhe o parceiro, aqui está um seis, e o senhor ajunta-lhe um quatro... inda pior, um dois?... então que é isso?... um três? outro quatro... um cinco? o senhor quer divertir-se à minha custa?... mas... o que tem, meu amigo?... está tremendo... e tão pálido...

 

Com efeito, o moço tremia convulsivamente. E o Sr. Antônio, sem atender a coisa alguma, prosseguia:

 

— E a Delmastro?... a Delmastro é doce e bela, melodiosa e engraçada: sua voz subjuga, arrebata, amortece, vivifica, encanta, enfeitiça, derrota, fere e mata quem a ouve!... sua voz cai no coração, e de lá toma parte no sangue da vida! e, sobretudo, professora incontestável... professora até à ponta dos cabelos, adivinha os pensamentos de Donizetti, corrige-lhe os erros, adoça-lhe as rudezas, e diviniza-lhe as harmonias! sabe música... muita música... toca a música...

 

— É falso!... é falsíssimo!... é falsíssimmo!... bradou, espumando de raiva o moço do dominó e fazendo voar pelos ares todas as peças do jogo.

 

— O senhor atreve-se a dizer-me que é falso?!!

 

— É falso!... repito, é falso!...

 

— Que diz, senhor?... exclamou o velho, atirando-se sobre o novo diletante, é falso?... essa palavra é motivo suficiente para um duelo: retire, pois, a expressão, e não se peje de o fazer; porque isto de retirar expressões é muito parlamentar.

 

— Retire a expressão! retire a expressão, gritaram alguns.

 

— Não retire!... não retire!... bradaram outros.

 

— Não retiro!... aceito todas as conseqüências!... repito que é falso!... digo que a Delmastro nada sabe de música, estudou pelo método de Jean-Jacques Rousseau, tem voz de assobio de criança em Domingo de Ramos; enquanto a Candiani é um rouxinol!... um milagre de harmonia!... um anjo!...

 

— Apoiado!... bravo!... bravo!... muito bem!...

 

— Não!... não! ali o Sr. Antônio é quem tem razão.

 

É de notar, que apenas o moço declarou que não retirava a expressão, o velho Delmastrista foi-se pondo pela porta fora, murmurando entre dentes:

 

— Não se pode argumentar com ele!... não é parlamentar...

 

         — Senhores, acudiu com muita prudência um servente do hotel, por quem são, não vão às do cabo aqui... isso desacreditaria a casa!...

 

— Não, tornou o Candianista, é preciso dizer a este senhor que estou pronto a sustentar o que avancei,  onde, como e quando ele quiser!...

 

— Pois bem, respondeu o Sr. Antônio, até à noite no teatro!

 

Aceito a luva! Até à noite no teatro. Sim! e lá terei o prazer de rebentar estas mãos  a dar palmas, quando ela... quando eu digo ela, já se sabe que é da doce Candiani que falo, entoar com a ternura, com que costuma, o seu

 

Al dolce guidami

Castel natio.

 

E o apaixonado do moço começou a cantar acompanhado por todo o rancho de Candianistas, que se achava no hotel; e que, vendo o Sr. Antônio, para nada ficar devendo ao seu competidor, exclamou:

 

— E eu hei de ter a glória de fazer em postas esta língua, dando entusiásticos bravos, quando ela... quando eu digo ela, já se sabe que é da inefável Delmastro que falo, fizer soar a branda voz no seu

 

Ah! pensate che rivolti

Terra e Cielo han gli occhi in voi;

 

E com o mais detestável falsete, pôs-se a estropiar o sem dúvida belo — Ah! pensate —, que não só por ele, como por todos os outros delmastristas presentes, foi completamente desnaturado.

 

A bons minutos trovejavam de mistura no hotel — Al dolce guidami — com o — Ah! pensate —, quando a esforços inauditos dos criados do hotel saíram para a rua os dois bandos, esquecendo-se o Sr. Antônio, no fogo do entusiasmo, que deixava com a maior sem-cerimônia o seu amigo.

 

Mas, nem por tal se escandalizou Otávio, que antes deu parabéns da boa fortuna com que havia escapado do meio daquela corte de maníacos; e, deixando o hotel, procurou passar divertidamente duas horas, que lhe faltavam, para ir ouvir Ana Bolena.

 

Passaram elas, e Otávio se achou no teatro de S. Pedro de Alcântara.

 

Não se via um só lugar desocupado; as cadeiras estavam todas tomadas, a geral cheia e abarrotada, e de momento a momento ouviam-se as vozes de alguns diletantes que bradavam: — travessas! travessas!...

 

As quatro ordens de camarotes se mostravam cingidas por quatro não interrompidas zonas de belas; desejosas todas de testemunhar desde o começo o combate dos dois lados teatrais, tinham vindo ornar, ainda antes da hora suas felizes tribunas; nenhuma mesmo, dentre as que ostentavam mais rigor no belo tom, se havia adrede deixado para chegar depois de começado o espetáculo, e, fazendo, como é por algumas usado, ruído com as cadeiras e banco ao entrar nos camarotes, desafiar assim as atenções do público.

 

No entanto, elas derramavam a luz de seus lumes sobre essas centenas de cabeças ferventes, que debaixo se agitavam; desassossegadas e ansiosas, como que com seus olhos inquiriam daquele público, até onde levaria sua exaltação, e com a ternura de suas vistas pareciam querer aquietar a hiena, que a seus pés rugia.

 

Finalmente, o primeiro violino, com toda a sua respeitável autoridade de general daquele imenso esquadrão harmônico, deu o sinal da marcha, batendo as três simbólicas pancadas com sua espada de crina: daí a momentos o pano se havia levantado, e a ópera começado.

 

Não se passou muito tempo sem que o nosso conhecido Otávio se convencesse de que sairia do teatro como havia entrado, isto é, sem ouvir a sua tão suspirada Ana Bolena.

 

Alguns diletantes da capital, depois talvez de haver muito parafusado, tinham descoberto um meio novo de demonstrar o seu amor pelas inspirações de Euterpe e a sua paixão pelas duas primas-donas. Eram sem mais nem menos isto: para aplaudir ou patear não é necessário ouvir; de modo que se batia com as mãos e com os pés, ao que ainda não se tinha ouvido; aplaudia-se e pateava-se, apenas alguma das pobres cantoras chegava ao meio de suas peças; não se esperava pelo fim... aplaudia-se e pateava-se o futuro. Era uma assembléia de profetas; uma assembléia que adivinhava se seria bem ou mal executado o que restava para sê-lo.

 

Otávio tinha, por sua má sina, ficado entre dois extremos opostos: o que estava do seu lado direito, Candianista exagerado, era um mocetão com as mais belas disposições físicas; porém, desgraçadamente gago, e tão gago, que, quando desejava soltar o seu bravíssimo, fazia tão horríveis caretas, que em redor dele ninguém podia deixar de rir-se, e, por conseqüência, era isso motivo para dar-se ruído tal, que a mesma predileta, por interesse próprio, deveria, se adivinhasse que estava de posse de tão infeliz diletante, conseguir que ele engolisse silencioso os assomos do seu entusiasmo.

 

Se, pela parte direita, Otávio via-se mal acompanhado, pela esquerda estava talvez em piores circunstâncias. Sentava-se aí um ultradelmastrista, homem de quarenta anos, barbudo e gordo, que fazia ressoar por todo o teatro seus bravos e aplausos, mal começava a sua querida prima-dona; razão por que o moço gago, de quem a pouco se falou, já o tinha chamado ao pé do rosto: “monstro!... alma danada!... e fera da Hircânia”! Felizmente, porém, disso não podia surdir resultado algum desagradável; pois o ultradelmastrista era completamente surdo; e tanto o era, que uma vez em que a sua predileta, devendo guardar silêncio, mas, para o devido desempenho da cena, tendo de demonstrar admiração ou não sabemos quê, abriu um pouco a boca, arregalou os olhos e dobrou-se para diante, o nosso apaixonado, que só por tais sinais conhecia quando ela cantava, pensou que, com efeito, o estava então fazendo, e exclamou todo a remexer-se: — Assim!... assim, sereia!... derrota-me esta alma petrificada!...

 

Em tais circunstâncias, mal podendo gozar as brilhantes inspirações do imortal Donizetti, e menos ainda apreciar as duas cantoras, por quem tão fora de propósito, e desajuizadamente, pleiteava o público do teatro de S. Pedro de Alcântara, Otávio resolveu-se a empregar o seu tempo em alguma coisa proveitosa e entendeu que o que melhor lhe convinha era admirar os triunfos da natureza em algum rosto bonito, que por aqueles camarotes deparasse.

 

Não gastou Otávio muito tempo em procurar objeto digno de suas atenções: em um camarote da primeira ordem, que lhe ficava um pouco para trás, viu ele um engraçado semblante que atirava seu tanto para o moreno (tipo com que, aqui para nós, simpatiza muito certo sujeito do nosso conhecimento), e que, além do mais, era animado por dois olhos vivos... belos... faiscantes... enfim, dois olhos brasileiros; porque, seja dito de passagem, tanto orgulho podem ter as espanholas de seu pequeno pezinho, e delgada cintura, como as brasileiras de seus lindos olhos pretos, que parecem haver passado para suas vistas todo o ardor da zona em que vivemos.

 

O tal camarote, onde estava a moça morena, era, sem pôr nem tirar, um viveiro de originais. Junto dela ostentava seu brilho, esplendor, e não sabemos que mais, uma senhora, que pelo que mostrava, e não pelo que diria, devia andar roçando pelos seus cinqüenta anos, e que, apesar de tal, endireitava-se na cadeira e tais ademanes fazia, como poucas meninas que querem casar, os fazem. Vestia um vestido de seda verde cruelmente decotado, tinha na cabeça uma touca de cassa da Índia, ornada com laços de fitas azuis etc.; segurava com a mão direita em um ramo de belos cravos, e conservava a esquerda esquecida sobre o elegante óculo, deposto no parapeito do camarote.

 

A segunda e última fila era formada por três marmanjos: começando pela esquerda, via-se um homem avelhentado, magro, alto, de rosto comprido, a cuja barba fazia sombra um enorme e afilado nariz, muito cuidadoso das senhoras, e tendo sempre derramada no semblante uma espécie de prazer, que a mais simples observação descobria ser fingido, era necessariamente o pobre pecador que, de antemão, curtia todos os seus pecados, passados, presentes e futuros, com a penitência de ser o chefe daquela família.

 

O que estava no meio era por força um daqueles homens que pertencem a todas as idades, que são conhecidos de todo o mundo, e aparecem em todos os lugares: tinha cara de hóspede daquele camarote.

 

O terceiro, enfim, era um rapaz de seus vinte e seis anos, amarelo, cabeludo, de enorme cabeça, e não fazia senão dar à taramela e comer doce.

 

Em menos de cinco minutos a atenção de Otávio foi sentida no camarote, e quase ao mesmo tempo pela menina morena, e pela senhora... idosa (velha é palavra que está formalmente reprovada, sempre que se trata de senhoras).

 

— Rosinha, disse aquela ao ouvido da primeira, não vês como aquele moço de gravata azul-celeste tem os olhos embebidos no nosso camarote?

 

— Não, minha mãe, respondeu a moça com fingimento, ainda não reparei.

 

— Pois atente, menina.

 

— Sim, parece que sim, minha mãe.

 

— Chamem-me velha, se aquilo não é com alguma de nós.

 

E a boa da senhora idosa levou até ao nariz o seu ramo de belos cravos, que fizeram um terrível contraste com o seu infeliz semblante.

 

— Oh, Sr. Brás, continuou ela falando com o segundo dos homens que foram descritos, conhece aquele moço que está ali de gravata azul-celeste?... 

 

— Perfeitamente, é o senhor... 

 

— Basta; dir-me-á depois; há um mistério na minha pergunta, que só mais tarde lhe poderei descortinar...

 

No entanto, a moça morena já tinha olhado seis vezes para o moço, três cheirando suas flores, e duas limpando a boca com seu lenço de cambraia.

 

Pela sua parte Otávio vingava-se do furor dos ultradiletantes, lembrando-se poucas vezes de que viera ouvir Ana Bolena.

 

O fim do primeiro ato veio suspender por momentos tudo isso; Otávio saiu do teatro para tomar algum refresco, e ainda mais para ter ocasião de mudar de vizinhos. Versado em todos os segredos da arte, mercê da qual os homens conhecem se têm ou não merecido particular atenção das senhoras, ele, entrando de novo para as cadeiras, tomou uma em direção contrária àquela que o primeiro ocupara. Um instante depois de levantar-se o pano, tirou logo resultado de seu estratagema; a senhora idosa e a moça morena davam tratos aos olhos para descobri-lo; depois de algum trabalho, deram por fim com ele; desgraçadamente, porém, o moço achava-se em piores circunstâncias do que no primeiro ato.

 

Com efeito, Otávio via-se então sitiado pela direita, pela esquerda, pela frente, e pela retaguarda: eram quatro diletantes de mão-cheia.

 

À direita, ficava-lhe um diletante sentimental, que no meio das melhores peças puxava-lhe pelo braço e exclamava: ouça! como é belo isto! aquela volata! esta tenuta! então de qual das duas mais gosta?... olhe, eu gosto de ambas... sou epiceno... quero dizer, comum-de-dois: — e enfim falava, falava e falava mais que três moças juntas, quando conversam sobre seus vestidos.

 

À esquerda, estava um diletante estrangeiro, que apontava ao infeliz Otávio os lugares onde mais brilhava a Grisi, aqueles em que primava a Pasta, e os pedaços harmônicos em que se fazia divina a Malibran, que ele tinha ouvido em Paris ainda em 1843.

 

Na frente, sentava-se um diletante perito, que era um eco de quanto se cantava; tinha a Ana Bolena de cor e salteada, e ia por entre os dentes estropiando em meia voz todas as peças que se executavam; de modo que, de redor dele, ouvia-se Ana Bolena dupla.

 

Na retaguarda, enfim, um diletante parlamentar resmungava com o seu compadre sobre a marcha dos negócios públicos; exasperava-se de que esse mesmo povo, que tanto se exaltava por duas cantoras, deixasse em esquecimento as eleições, e por tal forma que ele, que se fizera candidato a juiz de paz, mal tinha podido até esse dia fazer assinar trinta e duas listas muito conscienciosamente.

 

Em tal posição o pobre Otávio nem mesmo tinha licença de olhar para o camarote; pois, se voltava para ele a cabeça, logo o diletante da direita puxava-lhe do braço, e dizia quase gemendo:

 

— Não perca... não perca este pedacinho... oh, que agudos!...

 

O da esquerda dava-lhe uma cotovelada e exclamava:

 

— Aqui a Grisi! eu a ouvi na cidade de Moscou, meses antes da invasão de Bonaparte... olhe que fez furor! um furor tal, que o próprio imperador de todas as Rússias mandou-lhe o seu querido cavalo, para que ela fugisse, duas horas antes do incêndio.

 

Com semelhante companhia não era possível nem ouvir música, nem ver moças. Otávio resignou-se; porém, apenas veio o pano abaixo, sem se dar com os gritos de: Candiani, à cena! à cena! com que os Candianistas celebravam o triunfo de sua maioria firme, compacta, decidida, e o que é mais, patriótica, correu para fora com tenção de esperar à saída dos camarotes a moça morena.

 

Mas parece que o destino estava de candeias às avessas com o pobre moço; ao passar pela parte da platéia o Sr. Antônio agarrou-o pelo braço.

 

— Larga-me, deixa-me, Antônio.

 

— Não! é impossível! é preciso dizer a qual das duas pertences.

 

— Eu a nenhuma, deixa-me.

 

— Mas é preciso! é justo!... é inevitável!...

 

— Pois amanhã te direi; peço-te esta noite para resolver-me.

 

— Não, não! é necessário dizer já!

 

— Então... sou Candianista.

 

O Sr. Antônio recuou três passos, e disse com voz lúgubre:

 

— Otávio, fala sério, quero dizer, sisudo, com seriedade!

 

— Sou Candianista, repetiu Otávio.

 

— Sr. Otávio, exclamou depois de momentos de reflexão o Sr. Antônio, todas as nossas relações estão quebradas! esqueça-se de que sou vivo: e lembre-se que tem um amigo de menos, e um inimigo de mais.  

 

E dito isto, retirou-se; mas talvez que tivesse de voltar mais exasperado que nunca, se a algazarra que faziam os Candianistas dentro do teatro não cobrisse a gargalhada que soltou Otávio, ouvindo as últimas palavras do Sr. Antônio.

 

Quase ao mesmo tempo saía a família que Otávio vinha esperar; ele correu para junto da escada, e a moça morena apenas o viu, olhou para trás e disse com voz bem alta ao ancião que mostrou ser seu pai:

 

— Ora esta, meu paizinho; por que eu digo que vir ao teatro tem seus prazeres e seus desgostos é, na verdade, um desgosto ter de ir a tais horas e a pé, à rua de... onde nós moramos.

 

E apenas acabou, olhou para Otávio, e sorriu-se. O moço tirou do seu álbum e escreveu: rua de... A senhora idosa, a quem nada escapava, bateu com o leque no ombro da filha, e disse-lhe ao ouvido:

 

— Tu és a minha glória! honras a bela árvore de que és vergôntea.

 

No resto da noite apenas se fazem dignos de lembrar-se dois atos praticados pelo Sr. Antônio, e pelo moço com que havia disputado no hotel.

 

O moço, acompanhando a sege que conduziu a sua Candiani a casa, viu-a apear-se, e quando a porta se fechou, e a rua ficou solitária, ele chegou-se àquela, ajoelhou-se, e beijou três vezes a soleira em toda a sua extensão, depois erguendo-se, e, retirando-se, disse:

 

— Agora já posso dormir: beijando toda a soleira da porta, por onde ela entrou, beijei por força o lugar onde tocou com seu sapato o pé de um anjo!...

 

O Sr. Antônio levou adiante o seu sacrifício: ficou todo o resto da noite grudado com a porta da casa de sua inefável Delmastro, tendo o nariz enterrado na fechadura; ao amanhecer, ele a custo abandonou o difícil posto, e retirou-se, murmurando:

 

— Não dormi; porém, ao menos com o meu nariz metido na fechadura daquela porta, respirei por força alguma molécula de ar, que já tivesse sido respirada por aquela Musa do Parnaso.

 

 

 

 

II

 

Agastamentos conjugais

 

 

Um homem de cinqüenta anos, magro, alto, pálido, calvo, e de grande nariz, é o Sr. Venâncio, marido da Sr.ª D. Tomásia, e pai do Sr. Manduca e da Sr.ª D. Rosa.

 

Venâncio é um empregado, sem exercício, não nos lembra de que espécie; na vida que vive, vê-se obrigado a ser somente isso; pois que em tudo o mais é a sombra de sua mulher. Aos vinte e oito anos casou-se, porque seu pai lhe disse que era preciso fazê-lo, com uma senhora que se acompanhava de alguns mil cruzados de dote, como de fato os trouxe a Sr.ª D. Tomásia, que, pela sua parte, segundo ela mesma o diz, casou-se para se casar.

 

E este casal representou logo e continuou a representar o mais interessante contraste. Venâncio é débil, condescendente e pacato; se algumas vezes se empina, é para logo dobrar-se mais humildemente que nunca. Tomásia é forte, decisiva, arrogante e valentona. Não sabe senão mandar e quer sempre ser obedecida. Vendo de longe a sociedade elegante, trata de arremedá-la, e faz-se uma completa caricatura do que ela chama grande tom. Conhecendo cedo o gênio e caráter de seu esposo, tornou-se a déspota, a tirana do pobre homem; e para servirmo-nos de um pensamento dela mesma, escreveremos suas próprias palavras: “Venâncio, diz ela mil vezes, nesta casa a tua vontade é uma colônia, de que a minha voz é a metrópole.” E o pobre Venâncio, casado há vinte e dois anos, há vinte e dois anos que faz inúteis planos de independência; todos os dias levanta-se com disposição de sustentar a pé firme uma batalha decisiva, mas às primeiras cargas do inimigo larga as armas, bagagens e tudo, e põe-se em retirada, ou as mais das vezes ajoelha-se e implora anistia.

 

Ultimamente havia escaramuças diárias: a razão aqui vai. Tomásia tivera nos primeiros cinco anos dois filhos; depois parece que a natureza lhe gritou stop; passaram-se dezesseis e ao correr o décimo sétimo veio, contra a expectativa de Venâncio, mais uma menina, para fazer a conta de três. Tomásia saudou com entusiasmo esse acontecimento. Segundo certa aritmética exclusivamente feminina, algumas senhoras quando chegam aos quarenta anos contam a sua idade no sentido inverso do que até então praticaram: isto é, no ano que se segue àquele em que fizeram quarenta, contam trinta e nove; no outro que vem, trinta e oito, até que chegam segunda vez aos trinta, em que costumam fazer uma estação de um lustro. Ora, Tomásia, mais velha que seu marido três anos, já tinha exatamente três anos de estação, mas, vindo inopinadamente a nova menina, entendeu lá consigo que era preciso contar menos de trinta para ter filhos, e, pois, foi dizendo que se enganara na conta de sua idade; pois que não tinha  mais que vinte e nove anos. Todavia, essa importante revelação não ficava bem-sabida, confiando-se somente às visitas e vizinhas, e, portanto, Tomásia declarou a seu marido que sua filha seria batizada com estrondo; e que se daria um elegante sarau em honra da recém-nascida. Venâncio opunha-se a isso pelo mau estado em que se achavam seus negócios financeiros; a mulher bradava; Rosa votava pelo sarau, Manduca também; e a casa andava de poeira levantada. Também jamais Venâncio se mostrara tão valente.

 

Na manhã do dia que se seguiu à noite tempestuosa descrita no capítulo antecedente, Venâncio achava-se na sala de sua casa, sentado no canapé, triste e silencioso como um marido infeliz, que se vê a sós; vestia uma calça de brim escuro, e uma niza branca, tinha no pescoço um lenço de seda, de dentro do qual surdiam enormes e pontiagudos colarinhos; junto dele descansavam seus óculos sobre o Jornal do Commercio e, tendo de esperar que se levantasse sua mulher, Venâncio com uma perna descansada sobre a outra e exalando sentidíssimos suspiros, empregava o tempo em passar meigamente os dedos sobre o grande nariz, que devia à natureza, e que, depois de seus filhos, era o objeto que mais idolatrava no mundo.

 

No dia anterior, Venâncio tinha tido uma acalorada questão com sua mulher; porque, ao vê-la entrar na sala com os cabelos desgrenhados, não lhe fizera a menor reflexão sobre isso: daí passaram à discussão da ordem do dia, e gritou-se sobre o batizado, como se grita em certo corpo coletivo, quando se trata de eleições.

 

As idéias do dia passado assustavam, portanto, ao pobre Venâncio, que temia ver reproduzidas as mesmas cenas; além disso, tinham batido dez horas, e Tomásia com suas filhas dormiam a sono solto. O infeliz homem sofria em silêncio todas as torturas da fome, quando, passada ainda meia hora, uma porta se abriu, e por ela entrou Tomásia com os cabelos soltos e o vestido desatado. Venâncio lembrou-se logo que, por não reparar nesse desalinho, fora já acometido, e, pois, ergueu-se para receber nos braços o seu flagelo, e, cruelmente risonho, exclamou:

 

— Oh, querida Tomasinha!... pois assim te ergues e sais do teu gabinete sem te penteares, e...

 

— E que tem o senhor com isso?... bradou a mulher, porventura quer que durma penteada, ou já me facilitou um cabeleireiro para toucar-me apenas me levanto da cama?... é impossível!... não se pode viver sossegada com um velho impertinente como o senhor.

 

— Está bem, minha Tomásia... não te aflijas... eu disse aquilo só para falar.

 

— Isso sei eu; porque o senhor é um desenxabido... tanto lhe faz que eu ande malvestida, mal toucada ou não... para o senhor é a mesma coisa... não tem gosto... não presta para nada...

 

— Pois mulher... eu já não disse, que...

 

— Pois se disse, é o mesmo que se não dissesse, porque o senhor não sabe dizer senão asneiras...

 

— Tomásia... estás hoje cruelmente impert... infe... zanga...

 

— O que é que diz?... o que é que eu estou?... hem?...

 

— De mau humor, Tomásia, de mau humor...

 

— Por sua culpa! vivemos em uma guerra aberta... como dois inimigos; mas deixe estar, que hei de perder um dia a paciência; eu sou uma pomba, tenho o melhor gênio do mundo; mas o senhor é um dragão, uma fúria!...

 

Venâncio já torcia-se até não poder mais; finalmente, depois de muito espremer-se, contentou-se com dizer:

 

— Sim... sou eu que sou a fúria... há de ser assim mesmo.

 

— Isto é um martírio!... uma tentação!...

 

O velho não respondeu palavra.

 

O silêncio de Venâncio contrafazia talvez a Tomásia, que, sentando-se em uma cadeira longe do marido, deixou-se ficar por muito tempo muda, como ele; depois, como se tomasse nova resolução, soltou um suspiro, e disse:

 

— Quando eu estou pronta a viver em paz eterna com ele, o cruel volta-me as costas!...

 

— Eu, Tomásia?!...

 

— Sim, tu, tornou ela com voz menos áspera, e eu não posso viver assim... isto me envelhece... tu me fazes cabelos brancos.

 

Venâncio olhou espantado para Tomásia, que, deixando o lugar que ocupava, foi sentar-se ao lado do marido, passando-lhe amorosamente o braço em derredor do colo. O fenômeno espantava: tão rápida mudança da rabugem para os afagos era para admirar; mas Tomásia o fazia de plano.

 

Vendo, contra os hábitos de vinte e dois anos, que o marido resistia à sua vontade, e que apesar de todo o esforço a festa do batizado continuava duvidosa, a mulher pensou, durante a noite, em um ataque de nova espécie contra Venâncio: ela devia estar enfadada na sala, exasperar o marido até fazê-lo gritar, fingir-se, então, pela primeira vez, temerosa, humilhar-se, enternecê-lo, e depois a poder de lágrimas conseguir o que, então, não havia podido o seu quero absoluto.

 

A paciência de Venâncio tinha neutralizado o estratagema de Tomásia: o cordeiro, sem saber e sem querer, opôs-se admiravelmente à raposa; e, conhecendo a mulher que seu marido não se assomava com as loucuras que lhe foi dizendo para levar a efeito o plano que concebera, fez-se por si mesma carinhosa e meiga.

 

O pacato velho começou por espantar-se do que observava; quando, enfim, Tomásia passou gradualmente da meiguice à submissão, ele mirou-se todo inteiro a ver se havia alguma novidade de meter medo em sua pessoa; não descobrindo nada que lhe explicasse o fenômeno, e, tendo de dar-se necessariamente uma explicação, imaginou que nesse dia a sua voz tinha um timbre assustador, que de seus olhos talvez partissem vistas magnéticas... fulminantes... terríveis.

 

Sucedeu a Venâncio o que acontece a todo o homem medroso: apenas acreditou que sua mulher recuava, concebeu a possibilidade de chegar a sua vez de valentão, e determinou aproveitar-se dela; ele! a bigorna de vinte e dois anos passar milagrosamente a ser martelo!... semelhante idéia desenhou-se brilhantemente aos olhos do velho, que bem depressa cerrou as sobrancelhas, fez-se carrancudo e dispôs-se a representar o papel de mau.

 

Tomásia, que tinha assentado de pedra e cal fechar a discussão calorosa, que há tantos dias era debatida entre seu marido e ela, não perdia um só dos movimentos deste, bebia-lhe todos os pensamentos com vistas fingidamente tímidas, e, ao conhecer que o adversário caía nas suas redes, disse com voz terna:

 

— Pois bem, meu Venâncio, de hoje avante viveremos em completa harmonia.

 

— Se a senhora o quiser... seja! respondeu com mau modo o pobre homem.

 

Tomásia reprimiu a custo uma gargalhada; tal era o pouco-caso que fazia do marido. Venâncio levantou-se, e, cruzando as mãos atrás das costas, começou a passear ao longo da sala; a mulher levantou-se também e, acompanhando-o de perto, travou com ele o diálogo seguinte:

 

— Estimo achar-te disposto à paz, disse ela; portanto, meu amigo, tratemos de estabelecê-la com bases sólidas: queres?...

 

— Se a senhora o quiser... isso para mim é quase indiferente.

 

Venâncio não cabia em si de alegre com a sua inopinada vitória, e prometia aproveitar-se dela.

 

— Pois, para isso, continuou Tomásia, troquemos penhores de paz: devemos pedir um ao outro uma prova de amor... um extremo de ternura: então, tu o que exiges de mim?...

 

— Coisa nenhuma.

 

— Não sou eu assim: tenho que te pedir, meu amigo...

 

— Vá dizendo.

 

—E ainda não adivinhaste, ingrato?...

 

— Ora, adivinhem lá o que quer a Sr.ª D. Tomásia! então não está boa?...

 

— Cruel, não compreendes que quero falar do batizado de nossa filha?...

 

— Batizar-se-á.

 

— E daremos um sarau digno de nós, não é assim?...

 

— Não é assim, não senhora.

 

— Ah! já vejo que estás brincando! tu não havias de querer que o batizado de nossa querida filhinha se fizesse como o de qualquer lheguelhé.

 

— Indeferido.

 

— Meu Venâncio!...

 

— Não há que deferir, não há que deferir.

 

— Que dirão as famílias que nos conhecem?... que conceito farão de nós?...

 

— Sustento o meu primeiro despacho.

 

— Ingrato, em recompensa do amor que te consagro, não me dás senão desgostos!... desvelo-me em te adorar, e tu me pagas com rigores... ai! sou pobre flor sem jardineiro, que fenece na espessura!

 

Venâncio, que sempre continuava a passear ao longo da sala, seguido por Tomásia, ouvindo aquela modesta comparação, voltou-se para ver a pobre flor sem jardineiro, que fenecia na espessura e achou diante dos olhos a cara de sua mulher feia, e desbotada; então, para se não expor a perder a posição que ocupava, teve de comprimir uma risada, e, continuando o seu passeio, respondeu:

 

— Não pega a lábia, minha senhora.

 

— Oh, ingratidão! oh, crueldade! e ele disse que queria a paz!... pobre de mim que sou a vítima!...

 

E Tomásia desatou a chorar horrivelmente.

 

Venâncio, cheio de si, perdido nas alturas de seus triunfos, não parou no seu passeio, antes o continuou, dizendo:

 

— Não é possível! não pode ser!

 

Tomásia não pôde conter-se por mais tempo: vendo esgotados até as lágrimas todos os meios brandos com que contava, fez com toda a habilidade própria das senhoras desaparecer o pranto num momento, e, levantando a cabeça, disse:

 

— Ai! pior está essa!... Venâncio, olha que já me vai subindo o sangue à cabeça! cuidado comigo.

 

Venâncio sentiu-se abalado; mas, não querendo mostrar-se desanimado, elevou a voz mais que nunca e gritou:

 

— Requeira em termos!...

 

— Venâncio!... bradou Tomásia com essa voz estrepitosa, com que costumava enterrar o marido três braças pela terra dentro.

 

Venâncio não se meteu três braças pela terra dentro; mas caiu completamente da sua elevada nuvem de superioridade; aquele brado de Venâncio soou na sua alma terrivelmente, e despertou a consciência do seu nada... foi ainda ensaiando um derradeiro esforço, que ele exclamou com voz de falsete:

 

— Tenho deferido.

 

Tomásia já não estava boa, agarrou nas abas da niza que seu marido vestia e, obrigando-o a voltar o rosto para ela, gritou-lhe na cara:

 

— Ouviste?... quero que se dê um sarau! quero! compreendes-me bem?...

 

E dizendo isto cruzou, como fizera Venâncio, as mãos atrás das costas, e se pôs a passear por sua vez; e o marido, que estava completamente por terra, foi quem teve então de acompanhá-la, dizendo-lhe com toda a humildade:

 

— Vem cá, mulher impaciente; não sabes que eu sou um empregado sem exercício, que o meu ordenado e todos os nossos rendimentos não chegam a dois contos de réis, e que por conseqüência não tenho dinheiro para dar saraus?...

 

— Pois tivesse: há de haver sarau.

 

— Não sabes que, sem necessidade e só por tua vontade, aluguei uma quinta, de cujo aluguel já devo seis meses...

 

— Pois não a alugasse: há de haver sarau.

 

— Ignoras que, para comprar tetéias francesas e vestidos para ti e tua filha, fiquei no fim deste ano empenhado em um conto de réis?... — Pois não ficasse: há de haver sarau.

 

— Ignoras que hoje mesmo se venceu a letra de oitocentos mil-réis, que por teu respeito assinei, e que, portanto, quem não tem, como eu, dinheiro para pagar o que deve, também não tem dinheiro para funções inúteis?...

 

— Pois tivesse: há de haver sarau.

 

— Então estas razões não valem nada?...

 

— Não quero saber delas.

 

— Devo eu querer saber. E, portanto, o dia do batizado passará como outro qualquer,  só com a única diferença de bebermos mais um copo...

 

Tomásia não pôde mais conter o seu furor; voltou-se de repente, e esbarrou-se cara a cara com Venâncio.

 

— Um copo de um dardo que te atravesse!... bradou ela batendo com o pé.

 

— Oh, senhora! exclamou Venâncio pondo a mão no nariz a ver se corria sangue, oh, senhora! veja lá como me trata! olhe que ia escapando de esborrachar-me o nariz.

 

Com aquele desgraçado encontro, Venâncio, que amava o seu nariz sobre todas as coisas, tornou-se exasperado.

 

— Quero o sarau! bradou Tomásia.

 

— Não pode ser! um milhão de razões... enfim, não há dinheiro!

 

— Pois cubra o déficit com um crédito suplementar!...

 

— Vou fazer bancarrota... já não tenho crédito na praça.

 

— Há de haver sarau por força! gritou Tomásia com toda a força de seus pulmões.

 

— Não há de!... não quero!...

 

— Quero eu!... há de!...

 

— Não há de!... bradou Venâncio, que, ainda furioso, se lembrava da narigada.

 

— Veremos... vou fazer os convites...

 

— E eu saio logo a desavisar os convidados...

 

— Oh, brejeiro!... há de haver sarau!...

 

— Não há de!... digo-lho eu!...

 

— Patife!... maroto!...

 

— Patife!... maroto a mim!... que tenho saído juiz de paz em todas as eleições?... É muito... isso não se pode sofrer!...

 

— Eu te ensinarei!... lambazão insolente!...

 

— É ela!... tartaruga!... velha!... feia!...

 

Venâncio nunca se havia atrevido a tanto: as dores que sentia no nariz produziram aquela explosão de furor; mas ao nome de velha Tomásia foi às nuvens... era o maior insulto que se lhe podia fazer: tornou-se louca, enraivecida; e, levantando a mão, avançou contra o marido.

 

— Quem é velha?... quem é tartaruga, e feia, grandissíssimo brejeiro?...

 

— Senhora, disse Venâncio recuando!... olhe que eu perco-lhe o respeito!...

 

Mas Tomásia saltou sobre ele, agarrou com a mão esquerda na gola da niza, e com a outra começou a malhar-lhe as costas.

 

— Então quem é velha?... quem é tartaruga, e feia?... há de haver sarau ou não?...

 

— Prudência, senhora, olhe que eu...

 

— Não quero saber de prudências, continuou a boa da mulher; há de haver sarau ou não?...

 

 As costas do pobre marido soavam, como um zabumba, fazendo horríveis caretas, ele exclamou:

 

— Oh, Sr.ª Tomásia, olhe que eu dou-lhe uma dentada!...

 

Mas a Sr.ª Tomásia, a quem já doíam as mãos de tanto socar as costas do infeliz Venâncio, mudou-lhe os tormentos, e a fortes puxões do resto dos cabelos que havia em sua calva cabeça, continuou gritando:

 

— Há de haver sarau ou não?

 

Neste momento bateram palmas na escada. Venâncio respirou com a esperança de escapar das garras de sua mulher, e disse em voz baixa:

 

— Largue-me, senhora, estão batendo, deixe ver quem é.

 

Mas Tomásia não estava disposta a abandonar assim a sua vítima, antes continuou no mesmo gênero de martírio, clamando bem alto para ser ouvida:

 

— Deixe bater... hei de enganá-lo primeiro... ou responda, há de haver sarau ou não?...

 

As palmas soaram de novo; mas desta vez acenderam elas não a esperança no coração, mas a vergonha no rosto de Venâncio.

 

— Largue-me, senhora, murmurou ele.

 

— Há de haver sarau ou não?... gritou ela.

 

As palmas foram pela terceira vez ouvidas.

 

— Está bom, disse Venâncio, quero ser prudente... haverá... haverá sarau... e o que quiser.

 

— Eis aí o que se chama um bom marido, exclamou Tomásia largando-o, e rindo-se: vou fazer as cartas de convite: oh, Micaela! vê quem bate.

 

E sem mais olhar para Venâncio, saiu da sala.

 

A escrava foi abrir a porta da escada, e o mísero marido aproveitou esse momento para concertar-se.

 

Quando Venâncio sentiu que a visita acabava de subir a escada, lembrou-se do ditado antigo, e com terrível ironia feita a si próprio; mas para esconder um pouco a sua vergonha, pronunciou com voz bem inteligível:

 

— Às vezes não há remédio, senão a gente sair fora do sério!...

 

E entrou na sala o Sr. Brás-mimoso.

 

 

 

 

III

 

Brás-mimoso

 

 

Brás chamava-se o homem que havia acabado de entrar; tinha talvez a mesma idade de Venâncio, mas era tal o seu parecer e o seu trajar, o seu viver e o seu praticar, que em toda a parte se fazia conhecer pelo nome de Brás-mimoso. Tudo nele era com efeito mimoso: estatura muito menos que ordinária, pequeninos pés, delicadas mãos... pisar subtil... e até juízo curto. Com o melhor gênio do mundo, vivia, contudo, em guerra declarada com a natureza, e, se não lhe era possível vencê-la, ao menos escondia os triunfos que ela sobre ele obtinha.

 

Assim, o peso dos anos tinha conseguido começar a dobrar-lhe o corpo, pois Brás-mimoso comprou um espartilho, e se pôs teso,  direito e gracioso, como uma palmeira.

 

Os cabelos lhe foram pouco a pouco caindo; Brás-mimoso usou logo de cabeleira.

 

Os dentes se lhe cariaram e se perderam; Brás-mimoso apelou para uma dentadura postiça.

 

Com o crescer da idade conheceu que se ia tornando pesado, Brás-mimoso não perdeu mais em sarau alguma ocasião de dançar a valsa de corrupio, e por último fez-se mestre nos sapateados da polca.

 

Lembrou-se que poderia ir ficando rabugento e frio; Brás-mimoso não deixou mais a companhia das moças, tornou-se namorado; como nunca, recita versos, canta modinhas e escreve cartas de amor.

 

Também não lhe falta tempo para nada disso. Oficial reformado no posto de capitão, ele passa vida de anjo: almoça, janta e ceia sempre, e muitas vezes dorme em casa dos amigos, de manhã vai para os botequins ler periódicos; se é tempo de legislatura, às dez horas guarda-se no melhor lugar de uma das galerias e ouve, e decora para repetir nos círculos que freqüenta, os mais fortes discursos da oposição; se as câmaras estão fechadas, passeia, ou lê romances, nas quintas-feiras vai ao museu, de tarde ao passeio público, e à noite às assembléias, ou ao teatro no camarote de algum conhecido. Freqüenta muito a Rua do Ouvidor, sabe de modas e de vestidos, como M.me Godin, de flores como M.me Finot, de cosméticos e pomadas como Mr. Desmarais. Possui uma lista de todas as moças bonitas do Rio de Janeiro com a nota das suas moradas, tem a modéstia de se crer amado por quase todas, conhece meio mundo, vai a toda a parte, come, bebe, e fala, como... só ele.

 

Nós o vamos encontrar almoçando com a família de Venâncio; estão à mesa cinco pessoas.

 

Venâncio, que almoça com boa vontade de quem sabe que a mesa é o único prazer que lhe resta no mundo.

 

Tomásia, que, devorando quanto vê diante dos olhos, assegura a todos os momentos que nunca tem fome, mas que se vê obrigada a alimentar-se por causa da sua querida filhinha, que deseja amamentar com os seus próprios seios, medrosa dos inconvenientes do leite mercenário.

 

Félix, moço de vinte e seis anos, de estatura ordinária, magro, pálido, com as mãos muito brancas e bem-feitas, desconfiado e melancólico de natureza, mas com tais qualidades modificadas pela freqüência das sociedades, vestia calças  e colete branco e uma sobrecasaca, que magnificamente lhe assentava; tinha ao pescoço uma gravata de cor, muito baixa, e bordada com igualdade matemática por uma estreitíssima dobra do colarinho; sobrinho de Tomásia, freqüentava ele com admirável assiduidade a casa da titia; comendo com a rapidez e boa vontade de um caixeiro, de cada vez que levava o bocado à boca, Félix lançava uma olhadura fulminante sobre a prima Rosinha.

 

Rosa é a mocinha, a quem já conhecemos do teatro; com os seus dezesseis para dezessete anos, é ela uma menina dessas moreninhas capazes de fazer andar com a cabeça à roda a mais de meia dúzia de rapazes a um tempo; pouco alta, esbelta, com lindos e vivos olhos pretos, com pequeninas mãos, proporcionados pezinhos, Rosa, que se vê ao espelho mais de trezentas vezes por dia, gosta muito de si mesma, e, animada pela perigosa educação com que foi criada, é sem mais nem menos conquistadora, travessa e espertinha demais; como tem às suas ordens a chave da despensa, e o dia inteiro por seu, ela come menos que um passarinho diante dos hóspedes, e serve o chá tomando as taças com as pontas dos dedos, mostrando assim um rico anel de brilhante que nunca deixa.

 

Finalmente Manduca, com quem igualmente já tomamos conhecimento  no teatro, era o predileto de Tomásia, rapaz apaixonadíssimo por pão com manteiga, com a qual já tinha emplastrado três partes do seu escarpado rosto.

 

Tomando a última gota de chá, Venâncio levantou-se, como quem se supunha demais naquela roda, e retirou-se.

 

Apenas acabava de sair o velho marido, Brás-mimoso voltou-se para a dona da casa, e disse:

 

— Devo confessar-lhe, Sr.ª D. Tomásia, que tenho dado tratos ao pensamento para penetrar aquele mistério, do qual me falou ontem à noite.

 

— Mas... não me recordo.

 

— Ora... quando me perguntou se eu conhecia o moço da gravata azul-celeste.

 

— Veja só!... pois ainda se lembra disso? estou pensando que só para fazer-me essa pergunta veio dar-nos o prazer de almoçar conosco; vês, Rosinha, nós as mulheres somos exclusivamente as curiosas...

 

— Mas como me tinha prometido a decifração do mistério...

 

— Sim... sim... porém, eu disse isso somente para acender algum ciumezinho no coração do meu Venâncio... bem sabe que o ciúme é o adubo do amor... eu por mim sou ciumenta como o mouro de Veneza.

 

— Bravo, minha mãe!... bravo!... exclamou o interessante Manduca.

 

— Cala-te, Manuelzinho, diz Tomásia, não é bonito interromperes tua mãe.

 

— Apesar de toda a sua modéstia, tornou Brás-mimoso, eu juro pelos olhos da Sr.ª D. Rosa que não é de um ciúme; porém, de uma conquista de que se tratava no teatro.

 

— Muito bem! disse Rosa, então jura pelos meus olhos?...

 

— Pois não, minha senhora, sempre se jura por algum objeto sagrado.

 

— Ora...

 

— Deixemos isso, acudiu Tomásia, mas já que o Sr. Brás levantou a ponta do véu, é melhor que o rasguemos todo.  

 

— Minha mãe, disse Rosa em segredo, olhe meu primo...

 

— Que tem?... ouça, meu sobrinho, Rosa tem medo que se fale em sua presença... dir-se-ia que tu e ele são dois apaixonados.

 

— Aparências, minha tia, aparências...

 

— Também o que se vai dizer não é mais que um desses casos de todos os dias...

 

— Um desses casos que sucedem a minha prima todos os dias?... perguntou o tal primo Félix.

 

— Há de ser pouco mais ou menos isso, respondeu a moça ressentida.

 

— Estavam ontem à noite num camarote, disse Tomásia dirigindo-se a Brás-mimoso, duas senhoras; uma casada, e outra solteira; um moço, que se achava na superior, gastou a noite inteira em prestar-lhe a mais obsequiosa atenção; esse moço trajava-se elegantemente; trazia um rico relógio, um excelente alfinete de brilhantes, gravata azul-celeste, luvas de pelica cor-de-carne, enfim, vestia com o último apuro do bom gosto. Daqui tiram-se três conclusões: primeira — o moço gostou de uma das senhoras; segunda — o moço parece não ser pobre; terceira — o moço é adepto ao culto do bom gosto.

 

— Eu tenho reparado, disse o primo Félix, que minha tia é lógica até à ponta dos cabelos; a prima Rosinha deverá aproveitar muito, pois mostra grande capacidade.

 

— Ora, prosseguiu Tomásia, o casamento é o negócio da mulher; casar é ganhar sempre; mas casar bem é ganhar trezentos por cento; pois se a senhora casada, que estava nesse camarote, podia logo esquecer o moço ao voltar-lhe as costas, não sucede o mesmo à moça solteira; provavelmente ela desejará saber qual é o estado desse homem: se é casado, passe muito bem; mas, se está livre, não se perde nada em trazê-lo para perto... estudá-lo... observá-lo, e, se for conveniente, deitar o anzol no mar, a ver se cai o peixinho.

 

— Agora, minha tia, esperamos pelas conseqüências.

 

— A conseqüência é esta: o Sr. Brás, que é amigo da família, e que se não o fora, não me ouviria falar com tanta liberdade, conhece esse moço; dir-nos-á se é solteiro ou casado, e há de fazer-nos o obséquio de oferecer-lhe um convite para assistir ao sarau que tencionamos dar no dia do batizado de minha filha.

 

— Pois, minha senhora, disse Brás-mimoso, pode contar com o moço da gravata azul-celeste, que é sem mais nem menos o meu amigo Otávio.

 

— Otávio!... exclamou Félix.

 

— Também o conheces?...

 

— Perfeitamente.

 

— Então, podes dizer-nos...

 

— Sem dúvida, tudo quanto minha tia quiser; bem entendido, se o Sr. Brás der licença, e minha prima Rosa se ameigar um pouco.

 

— Pois anda, sobrinho, dize-nos o que sabes.

 

— Sei que o Sr. Otávio vai completar trinta anos.

 

— Pois quê! é quase da minha idade?... perguntou Tomásia, não deixando passar aquele ensejo de caçoar com o tempo.

 

— Pouco mais ou menos, prosseguiu Félix rindo-se; vai, como disse, fazer trinta anos, posto que mais novo pareça; é rapaz de ótimas qualidades, de muito bom gosto, e, ainda mais, negociante rico.

 

— Mas como é possível que nós não o conhecêssemos?... eu então, eu que conheço todos os homens solteiros e ricos, desde que a minha Rosinha completou quatorze anos, como? como me escapou este?...

 

— Facilmente, minha tia; Otávio era, ainda há cinco anos, guarda-livros de seu pai; não tinha licença para freqüentar nem saraus, nem assembléias; não contava amigos, eu era o único que o podia visitar e ser por ele visitado; há cinco anos morreu-lhe o pai, e depois...

 

— E depois?...

 

— Teve de embarcar para arranjar certos negócios... enfim, para facilitar o comércio de certas fazendas, que não pagam direito na alfândega, porque desembarcam em praias desertas, e...

 

— Entendo... entendo...

 

— Tem sido por isso obrigado a repetir a miúdo as suas viagens, e apenas chegou ontem; eis o que lhe posso dizer, minha tia; o resto pertence à prima Rosinha.

 

— Vamos lá...

 

— Prima, Otávio é solteiro... bonito... bem-feito... rico... sensível... e provavelmente não poderá resistir aos seus olhos pretos.

 

— Otimamente! disse Tomásia, será um convite de conseqüências!

 

— Mas espere, minha tia! continuou Félix, posto que devamos contar muito com o poder dos olhos da prima Rosa, contudo...

 

— Contudo o quê?...

 

— Quem é a madrinha da menina?...

 

— Pois não disse já que era D. Lucrécia?!...

 

Félix soltou uma risada.

 

— De que te ris, Félix?

 

— De uma coincidência, minha tia.

 

— E qual?...

 

— Paciência, prima Rosa; mas a madrinha de sua mana é há dois dias a dama dos pensamentos de Otávio.

 

— É possível?...

 

— Tão possível como a minha prima tirar-lhe o lance.

 

— Ora... quem diria?!... mas, enfim, Sr. Brás, não se perde nada em trazê-lo para perto de nós.

 

— Sua comadre, minha tia, há de agradecer-lhe muito.

 

Tomásia arrastou a sua cadeira para perto da de Brás-mimoso, e com ele travou uma conversação cerrada, e em tom de quem não queria ser ouvida.

 

Félix escondia debaixo da sua fingida jovialidade uma dose de ciúme, que já muito cruelmente o incomodava; Rosa afetava ter tomado pouco interesse no que dissera sua mãe, e Manduca continuava a devorar pão com manteiga.

 

Rosa aproveitou aquele momento e dirigiu-se a Félix, falando-lhe também em tom baixo.

 

— Mas não tem razão, meu primo, que culpa tenho eu em que me achem bonita?

 

— Não você tem razão, minha prima, eu ainda não a acusei de nenhuma falta.

 

— Sempre lhe conheci ciumento.

 

— Ora... quando se ama uma moça tão firme como minha prima...

 

— Senhor!... basta de ironias!

 

— Senhora! eu estou falando como Salomão, com o coração na mão.

 

— Eu não desço da minha dignidade para fazer caso do que o senhor diz.

 

— Bravo, mana Rosa! bravo! exclamou Manduca com a boca cheia.

 

— Então que é isso? perguntou Tomásia.

 

— Era uma história que eu contava, respondeu Félix!

 

— É verdade, minha mãe, era uma história que ele contava à minha mana.

 

— Pois, se era uma história, nós todos queremos ouvi-la.

 

— Agora, meu primo! exclamou outra vez Manduca, conte lá a história à minha mãe.

 

— Pois então lá vai, disse Félix sem hesitar; é uma história muito verdadeira, e acontecida há pouco tempo: ia ontem para S. Cristovão no ônibus das cinco horas da tarde, quando chegamos à ponte do aterrado vimos vir um homem que, montado em um vivo cavalo, todavia acompanhava a custo uma jovem que cavalgava branco palafrém, boleado, ardido e fogoso; nem eu, nem nenhum dos que vinha no ônibus se importou mais com o cavaleiro que a seguia; os nossos olhos ficaram embebidos na jovem cavaleira.

 

— Isso é muito natural, disse Brás-mimoso.

 

— O vestido da moça era verde-escuro; nada mais engraçado que a sua cinturinha delicada, do que o justo corpinho do seu vestido, que desenhava as mais encantadoras e voluptuosas formas; trazia na cabeça um simples boné preto que, muito pequeno para esconder os seus cabelos, deixava cair uma imensa multidão de lindos anéis de madeixas negras, que voavam pelos ares na impetuosidade da carreira que trazia o cavalo! oh!... ela passou junto do ônibus!...

 

— E então?...

 

— Oh! minha tia, é cruel; mas, enfim, os anjos devem passar assim, rápidos e brilhantes como o relâmpago!...

 

— Portanto, não sabes se é bonita ou feia?...

 

— Sei, sei muito bem; nesse curto instante nós admiramos, desprendendo um leve chicotinho, uma pequena mão de querubim.

 

— Mas o rosto?... o rosto?...

 

— O rosto talvez seja pálido; mas a agitação lhe acendia o rubor nas faces... meigo sorriso estava deslizado em belos lábios cor de nácar... os seus olhos grandes... negros... ardentes... brilhavam como o sol no mais claro dia. Oh!... palavra de honra, minha tia, é o rosto mais bonito que tenho visto!

 

Rosa soltou uma gargalhada, e disse:

 

— Continue a sua história, meu primo, na verdade está muito bonita.

 

— Essa moça causou-nos, como era de esperar, a mais viva impressão, e um jovem poeta que ia conosco, exclamou: eis o tipo romântico! e em toda a viagem não falamos senão na moça romântica.

 

— E depois?...

 

— Voltando de S. Cristovão para a cidade, achei a notícia de que meu amo, o Sr. Hugo de Mendonça, havia chegado e partido logo para Niterói, onde tinha mandado alugar uma quinta. Fui imediatamente vê-lo, e quem o diria?... o homem que seguia a jovem cavaleira e de quem desviei os olhos, para só empregá-los nela, era meu amo!

 

— E a jovem cavaleira?...

 

— A jovem cavaleira é a filha dele, a quem não conheci, sem dúvida, pela grande rapidez com que passou junto do ônibus.

 

— Pois bem, e como a achou?...

 

— Desgraçadamente não a pude ver; estava descansando.

 

— Foi na verdade uma desgraça enorme!... disse Rosa.

 

— Certamente, acudiu Félix; mas foi uma desgraça da qual eu espero que minha tia tome o cuidado de vingar-me.

 

— Como?...

 

— Já que minha tia não se poupa a oferecer convites para o seu sarau a pessoas a quem não conhece, eu lhe rogo que me encarregue de levar uma carta ao Sr. Hugo de Mendonça, meu amo.

 

— Eu sei... mas...

 

— Não o deve fazer, minha mãe, disse Rosa.

 

— Oh, minha prima! não se perde assim uma moça bonita, quando se trata de um sarau.

 

— Temos muitas, e muitas bonitas!

 

— Sim, minha mãe!... há de convidar a moça romântica, quero dançar com ela.

 

— Eu entendo que deve produzir efeito, disse Brás-mimoso; sempre é uma novidade...

 

— Não ceda, minha mãe!...

 

— Ora... dir-se-ia que minha prima tem medo da concorrência.

 

— Com efeito!... meu primo está hoje insuportável...

 

— Por que, minha bela prima?... por falar na concorrência?... não, eu tenho a certeza de que minha prima não tem medo.

 

— Eu vou mostrar-lhe que não tenho medo!... minha mãe, mande convidar essa gente que veio do campo!

 

— Pois sim, convidar-se-á.

 

— Bravo, minha mãe!... gritou Manduca.

 

— Estou louco pelo sarau, disse Brás-mimoso.

 

Os dois primos estavam exasperados um contra o outro; Tomásia quis vê-los fazer as pazes.

 

— Vamos, meninos, parecem crianças! andem, preparem-se para dançar a primeira contradança.

 

— Não posso, minha mãe, disse Rosa.

 

— É impossível, minha tia, acudiu Félix.

 

— Oh! e por quê?...

 

— Porque quero dançar a primeira contradança com o Sr. Otávio.

 

— E eu fiz votos de dançar a primeira contradança com a moça romântica.

 

— Que loucuras!... exclamou Tomásia.

 

 

 

 

IV

 

Honorina e Raquel

 

 

A pouca distância desse mar sereno e amoroso, que lambe as brancas orlas da voluptuosa Niterói, se levanta uma graciosa casa cercada de lindos jardins e meio escondida por trás de sibilantes casuarinas e frondosas mangueiras e, olhando como namorada para a cidade do Rio de Janeiro, defronte da qual se terminam seus curtos e floridos domínios por um gradil a cavaleiro do mar, para quem abre passagem engraçado pórtico campestre ladeado de bancos de relva.

 

Alta ia a noite; o silêncio das dez horas derramava não sabemos que feiticeiro encanto sobre essa pequena e ditosa cidade, adormecida ao clarão de cheio luar, por entre seus vales e bosques, pelas encostas dos seus montes, e com uma de suas faces banhadas por mansinhas ondas, e toda ela enfim embalada no seu dormir pelo sussurrar dos zéfiros, que velavam galanteando as flores de seus mil jardins.

 

Mas, contrastando com esse geral silêncio, como dois belos gênios da noite, duas moças conversavam recostadas a uma janela da casa, que ficou acima nomeada; perto e defronte delas um pé de casuarina se elevava, a lua penetrando por entre seus galhos espargia-se gostosa sobre os semblantes de ambas. Ao clarão do luar pareciam igualmente pálidas, e em descuidadoso alinho, que a hora e solidão desculpava, longas madeixas, negligentemente soltas, caíam como espessa nuvem negra sobre espáduas cor de leite; dir-se-iam duas sombras encantadoras e belas.

 

Depois de separação dilatada, essas duas moças de novo se abraçavam; quem sabe, quem tem sido testemunha do afã com que se dizem mil coisas duas amigas da infância, que há muito tempo se não vêem, compreenderá facilmente o porquê velavam a tais desoras Honorina e Raquel.

 

Depois de longos meses passados no campo, Honorina, a jovem romântica de quem Félix havia dado notícias, tornava para a sua bela corte, e pela primeira vez a sós com Raquel, a camarada de seus jogos da infância, a companheira de suas travessuras de criança, a comadre de suas bonecas, ela esquecia que a noite corria, e conversavam juntas.

 

Um momento tinham ficado ambas em silêncio, quando Raquel, que até então só tivera de responder à sua amiga, entendeu que cumpria por sua vez interrogar.

 

— Mas, Honorina, doravante deixarás tu de ser freira?...

 

— Devo crer que sim, Raquel; pois que é morto meu avô, e meu pai não olha para o mundo como o encarava aquele.

 

— Pois bem, tu vais ser a bela princesa das nossas festas.

 

— Pensas isso?...

 

— Com tão lindos olhos, e tão belo rosto, disse Raquel dando-lhe um beijo, impera-se nas sociedades, e escolhe-se um escravo para marido.

 

— Mas casar-me-ei eu?...

 

— Que pergunta! terás medo de não encontrar quem jure que te ama?...

 

— Quem sabe?... e também, Raquel, chegarei eu a amar?...

 

— Em conclusão, e ainda que tu e eu fossemos feias, é tudo isso muito indiferente para acharmos quem nos proteste amar e queira casar conosco.

 

— Mas por quê?...

 

— Porque somos ricas.

 

— Oh, Raquel, isso é horrível!...

 

— E, todavia, nada há neste mundo mais verdadeiro, e como é neste mundo que devemos viver, devemos dar graças a Deus, que nos deu fortuna e riqueza.

 

— Permita Deus, Raquel, que tu me estejas mentindo; porque eu teria vergonha de viver num mundo como esse.

 

— Escuta, Honorina, a diversidade dos nossos pensamentos a tal respeito nasce da diferença de educação com que se nos fez crescer. Ambas temos dezesseis anos; mas tu és muito mais nova que eu. Nossos pais amam-nos com amor igual, quiseram ambos dar-nos a maior felicidade possível; ricos, como são, desejariam que nós tivéssemos todas as prendas peculiares do nosso sexo, e, mais ainda, que o nosso espírito fosse afincadamente cultivado, de modo que nós adquirimos o dobro da instrução que devem ter as nossas patrícias com a educação ordinária.

 

— Raquel, continua.

 

— Mas, para conseguir esse fim, nós trilhamos caminhos absolutamente opostos; começarei por ti, Honorina. Tu tinhas um avô, que te idolatrava com excesso, homem do século passado, que chegara até ao nosso com todas as velhas idéias firmes e inabaláveis. Ele combateu a vontade de teu pai, opôs-se  ao gênero da educação que se te queria dar, e, para que este conseguisse ver-te instruída, foi preciso conceder que toda a instrução te fosse dada debaixo dos olhos de teu avô. Esse bom velho via o mundo cheio de mentiras e traição, de perigos e de enganos; e, tremendo pelo seu querido anjo, temendo que o bafo do vício manchasse a flor do seu coração, ele te escondeu dos homens; tu eras a sua bela violeta... modesta, oculta entre as suas folhas; providente, ele fugia contigo em sua alma, quando sonhava um perigo; escolhia a casa em que devias passar uma só hora em uma noite; cobria-te o rosto com um véu para te levar à igreja; tinha os olhos fitos sobre os teus mestres; ensinou-te a amar a virtude no seio da solidão; tu cresceste; aos quinze anos eras bela, sem saber que o eras; alegre, sem conhecer o mundo, pura e inocente como a florzinha; porque enfim nunca se tinha queimado a teus pés o turíbulo lisonjeiro dessas reuniões perigosas, onde reina uma febre de vaidade tão fatal como contagiosa; porque enfim nunca falara a teus ouvidos o galante mancebo que jura quando mente; que festeja quando atraiçoa; que diz que ama, e vai rir-se!

 

— Oh! foi assim! exclamou Honorina abraçando sua amiga.

 

Raquel cotinuou:

 

— Há um ano que tu perdeste teu avô e teu tio. Foram dois golpes duma vez; teu pai teve de sair da corte para tomar conta de fazendas e bens, que seus dois parentes que lhe tinham deixado; dez meses passaste no campo, e agora voltas mais bela, e mais interessante que nunca; teu pai, que não desposa os costumes dos velhos tempos, vai atirar-se contigo ao meio do tumulto dessa corte; e as sociedades te vão abrir as portas, tu entrarás por elas com o receio no coração, e um novo mundo se apresentará a teus olhos. Hás de corar no mais simples cumprimento, tremerás ao mais leve gracejo, e não compreenderás tão cedo esse viver de ilusões e de mentiras, que se vive nas sociedades elevadas, essa arte preciosa e naturalmente cortesã de encobrir a frieza do coração com o fogo dos olhos, e ocultar a indiferença ou a maldade dos sentimentos com o sorriso dos lábios; poderás tu passar pela noite de um sarau, como um raio de luz através de um corpo diáfano?... não levarás nenhuma lembrança dele?... dormirás sem sonhar, acordarás sem suspirar?... não te chegará à alma algum olhar, e não irão em alguma vez até ela as palavras ardentes do homem que te requestar uma noite inteira?... oh! Honorina, tu não compreendes o que é um homem que nos tenta enganar!... no seio da paz e da solidão, onde cresceste, tu sonhaste com o mundo... e o sonhaste nobre, puro e sincero como tu mesma; julgaste todos os homens por teus pais e teus mestres; acostumada com a verdade, não sabes desconfiar da mentira, e até há pouco criada e associada só com a virtude, tu a vês... tu pensas encontrá-la por toda a parte; e não sabes pensar que neste mundo se apresentam semblantes que se parecem com o dela, mas que não o são; que são máscaras traidoras, que escondem o horrível aspecto do crime! e, portanto, Honorina, sendo bela como o dia, tu és ainda inocente como a pomba do vale, pura como o favônio da madrugada; sim, graças à tua educação, tu és a própria virtude, não conheces o vício; mas ah! por isso mesmo dificilmente escaparás de suas redes!...

 

Honorina ocultou o rosto no seio de sua amiga, e só passados alguns instantes disse:

 

— E tu, Raquel?...

 

— Comigo, Honorina, passou-se o contrário de tudo isso. Meu pai viu também o mundo cheio de mentiras e de traições, de perigos e enganos; tremeu por mim, que me ama também, como o seu anjo; mas, em lugar de esconder-me dos homens, levou-me para o meio deles; em vez de fugir comigo dos perigos, conduziu-me à borda dos abismos, e fez-me medir com os olhos o seu fundo até recuar horrorizada! amante, carinhoso, pai e amigo ao mesmo tempo, ele procurou e soube ganhar a minha confiança inteira; oh! Honorina, ele lê no meu coração, como no seu livro; meu pai é uma segunda consciência que eu tenho.

 

— Oh! fala mais, Raquel!

 

— Com efeito, Honorina, desde a mais tenra idade, eu comecei a não ter segredos para com meu pai, a ser aos seus olhos tão transparente, que ele lia quanto se passava na minha alma; era em tal que baseava todo o edifício da minha educação moral. Aos doze anos eu pisei no grande mundo, meu pai me fazia freqüentar as sociedades, os saraus e as festas. Honorina, eram lições que ele me dava. Quando voltávamos a casa, interrogava o meu coração, a verdade falava por meus lábios, e meu pai me mostrava a ação em que havia um erro, as doces palavras que eu tinha ouvido, que eram uma vil lisonja, uma perigosa mentira, ou que vestiam uma traição! diante do espelho ele me convencia de que eu não era encantadora, como me tinham dito; à força de um raciocínio simples e veemente, ele fazia vir à flor da água a verdade, que fora submergida no mar de loucos e falsos protestos, de exagerados obséquios, e dessas primeiras e temerosas súplicas que nos fazem, e que são sempre a chave que abre a porta a mil atrevidas pretensões. Honorina, meu pai nunca voltou as costas ao perigo, nem os olhos ao vício; era para ao pé de ambos que ele gostava de me conduzir: eu dancei, passei cem vezes ao lado do homem depravado, do homem de quem toda a mulher devia recear; e depois, quando me achava a sós com meu pai, ele me dizia: “Raquel, dançaste e passeaste com um miserável; os sedutores falam e praticam como ele.”

 

Honorina, eu vi a mulher perdida, observei-a em todo o horror da sua vida, de seus martírios e da sua vergonha, era meu próprio pai quem ma apontava com o dedo para dizer-me: “Raquel, eis a mulher pervertida!” E assim, Honorina, aprendi a conhecer o sedutor, e vi com terror os efeitos da sedução.

 

— Deve ser assim, Raquel, mas fala ainda...

 

— Portanto, Honorina, a tua educação fez-te muito mais nova do que eu; vi o mundo desde que raciocinei, e tu até agora somente ouviste falar dele; tu temes o vício pelos seus espinhos, oh! Honorina, é preciso temê-lo ainda mais pelas suas flores!... e então este nosso mundo, que hoje nos está beijando os pés para amanhã cuspir-nos no rosto!... este mundo, em que as mulheres são sempre nossas rivais, que nos observam, e estudam para morder-nos, e perder-nos; os homens quase sempre sacerdotes de um culto horrível que nos ornam as cabeças com flores insanas, para logo depois imolar-nos no altar do seu deus de torpezas!...   

 

Honorina respondeu a essas palavras de Raquel com um pungente gemido. Nos seus feiticeiros sonhos de moça ela tinha imaginado modesto e nobre, virtuoso e alegre esse mesmo mundo, cuja descrição, talvez exagerada, lhe fazia agora estremecer de espanto e de horror.

 

Raquel ainda prosseguiu:

 

— Que pensarás tu, minha Honorina, ou ainda melhor, que pensa a rica herdeira a quem se corteja num sarau?... oh!... se acredita somente na décima parte do que lhe dizem... é já uma louca.

 

— Como!

 

— É quase impossível não enlouquecer, Honorina; porque ali cerca-se de todos os lados uma moça rica; não se lhe fala senão com a linguagem da adulação; trata-se de afogar-lhe o bom senso com o fumo perfumado da lisonja; vêm dez, vinte, cem elegantes mancebos jurar-lhe amor e ternura... e ela... ela, já louca, conta por vitórias dos seus olhos os triunfos do seu dinheiro!...

 

— Portanto, só as ricas são amadas?... perguntou ingenuamente Honorina.

 

— Oh! lá não se perde nada!... senhora de grande dote é o amor... o cálculo do futuro; a bela jovem de fracos teres é o amor... o passatempo do presente. Vivemos num século de frias idéias, em uma época de algarismos; tudo é positivo... o comércio tem invadido tudo; negoceia-se também com o sentimento.

 

— Ah Raquel! e, no entanto, tu estás sempre alegre!

 

— Porque é preciso rir, Honorina, já que o chorar não dá remido... e também com ânimo e virtude assoberba-se a tempestade. Olha, nós somos amigas dos primeiros anos; caminhemos, pois, juntas, e nos ajudaremos mutuamente; além de que, Honorina, e para tornar ao ponto donde saímos, nós pertencemos ao pequeno círculo das mais felizes: eu te dizia, temos ricos dotes.

 

— Mas essa idéia de devermos tudo ao nosso dinheiro não te acanha, Raquel?

 

 — Eu sei, Honorina; porém, nesta vida não nos dão licença de pensar, senão no casamento; e a esperança deste está mais em um bom dote do que em dois bonitos olhos; portanto, demos graças à providência, já que nem por feias espantamos, nem por pobres desesperamos.

 

— Oh! porém é torpe, Raquel, disse com entusiasmo Honorina; é torpe, que um homem venda o seu coração, ou pelo menos a liberdade, por um cofre cheio de ouro! é um horrível sacrilégio ir um homem ajoelhar-se aos pés do altar, receber a bênção do sacerdote, estender a mão para uma triste mulher, com os olhos no seu rosto e o pensamento no dinheiro!... e mais baixo e mais torpe que tudo isso é um homem negociar com a desgraçada simpatia que lhe tributa uma infeliz mulher, enganá-la quando ela conta com o seu amor; quando a conduz do templo para casa, antes de outorgar-lhe o primeiro beijo de esposo, correr ao seu escritório a escrever no livro das suas contas mais uma parcela na coluna dos rendimentos!... Raquel, se eu me casasse com um homem desses, daria todo o dote que tivesse de meu pai, para que ele se não assentasse junto de mim; porque teria nojo da sua alma!... Raquel, dize que zombavas de mim, quando falavas há pouco, ou então eu te juro que melhor me fora ser pobre!...

 

— E pensas, Honorina, que ganharias muito com isso?...

 

— Pelo menos, Raquel, quando eu chegasse a ser amada teria a certeza de sê-lo por mim mesma.

 

— No entanto, com esse tão belo rosto, mais que a nenhuma outra, te armariam traições e cavariam debaixo de teus pés um abismo de que escaparias, eu sei, com a tua virtude, mas também com trabalhos, sofrimentos e lágrimas. Honorina, o pensamento dos homens a respeito de nós outras é este: “venda-se o homem pelo ouro da mulher rica, para com esse ouro tentar perder a mulher pobre”, repito, o nosso mundo é este; vivamos, pois, com ele, e tanto mais que não vejo razão para a celeuma que tens feito.

 

— Oh! Raquel! quando se nos quebra contra o coração o único sentimento que pode fazer a ventura da mulher neste mundo!... quando se nos apaga no espírito a única luz que nos pode tornar brilhante o caminho da vida!... quando parece que nos estão dizendo: mulher! não ames!...

 

— Meu Deus!... mas tu és romântica, Honorina!...

 

— O amor!... o amor!... o amor!... exclamou Honorina com sentimento e fogo.

 

— Amor, minha cara amiga, é uma vã mentira; amor não é mais que uma das muitas quimeras com que a fantasia nos entretém na vida, como a boneca que se dá à criança para conservá-la quieta no berço... o amor não é mais que a flor de um só dia, que abre de manhã e antes da noite está murcha...

 

— Raquel!... pensar assim com dezesseis anos!... dizer que o amor é uma quimera!... flor de um dia!... oh! pois bem! mas essa flor tem um aroma que há de embriagar; que deve adormecer-nos num belo sono cheio de sonhos, do qual só deveríamos acordar para passar de suas delícias para as do paraíso!...   

 

— Honorina! eu tenho medo de ti!... pensa bem nisto: o amor é uma hora de felicidade em chamas, que levantam altas labaredas; mas que se extinguem cedo para deixar após a cinza e o fumo da indiferença ou do aborrecimento, que tolda para sempre o horizonte da vida dos amantes, se o zéfiro da amizade não vem a tempo para limpá-lo.

 

— Oh! pois bem, Raquel, a desgraça de toda a minha vida... o horizonte dela toldado pela indiferença, ou pelo aborrecimento; mas uma só hora dessa felicidade em chamas, que tão cruelmente pintaste!... oh! sim!... o amor de um homem que se misture com a minha vida e com o meu futuro; que comigo faça um só ente; que se esqueça do meu ouro; desse ouro vil, para se lembrar de mim só... como eu me lembrarei só dele!... ah! Raquel, um amor de poeta! um amor de fogo, ainda que acabe na desgraça e na morte; mas que seja sempre o mesmo amor, deve ser bem belo!...

 

Os entusiásticos e nobres pensamentos da moça foram interrompidos por soluços, que quase a sufocavam. Ela chorava, e tinha razão para chorar.

 

Alma tão ardente e angélica, tão cheia de poesia e de imaginação, devia doer-se, sentindo-se presa em um mundo todo de matéria, de gelo, e de torpe positivismo.

 

A educação tinha arrojado essas duas moças para dois extremos, ambos perigosos. Uma, acostumada a ouvir com santo amor filial todos os conselhos de seu pai desde os primeiros anos; afeita a olhar para o mundo sempre pelo lado pior; tendo aprendido a amar a virtude, menos pelos encantos desta do que pelo horror que deve inspirar o vício; escutando a todas as horas a voz de uma moral fraca, grandiosa, mas fria e melancólica; abafou, sem talvez o querer, dentro do coração, os sentimentos brilhantes, arrojados e ardentes, próprios da sua idade. O amor é por ela considerado uma mentira ou um abismo; e, orgulhosa da sua educação e da sua prudência, ri-se do mundo e para o mundo.

 

Uma moça pensando como Raquel pode causar surpresa; mas certamente faz entristecer, porque a sua sensibilidade é o perfume da beleza.

 

A outra, criada longe do bulício da sociedade, separada do grande mundo pela vontade da sua família, porém ao mesmo tempo instruída com esmero; tendo até então conversado somente com os livros, imaginou o que não podia ver; cresceu na solidão, como uma flor, pura, inocente, cheia de deleitosas fragrâncias; a solidão alimentou, acendeu, inflamou a sua imaginação brilhante que voou livremente... ela sonhou com um mundo... com cem amigas... com um belo mancebo... esposo e amante, e todo o seu sonho era encantador... feiticeiro... adorável! tanto tempo, dezesseis anos fechada consigo mesma... com a alma repleta de ternos e ardentes sentimentos, e sequiosa de generosas impressões, ela que lera romances e poesias, ela que se fizera poeta na soledade e no retiro... pensava no amor com religioso encantamento; separava desse ente ideal, mavioso, angélico e vivificante toda a idéia material e bruta... não, não separava; antes, nunca se tinha lembrado ela, virgem e inocente, que se pudesse ligar uma só dessas miseráveis idéias, com aquele filho mimoso do coração, amamentado, criado, embelecido, endeusado pela imaginação.

 

E, portanto, ambas essas moças se enganavam com o mundo, e talvez que o seu erro seja para ambas funesto.

 

É possível que um dia desperte no coração de Raquel o sentimento, que aí dorme, e nesse caso terrível deverá ser a reação.

 

E Honorina achará nesse mundo, em que vai entreter o seu belo sonho de poesia? haverá nesse mundo, que, sem talvez estar tão pervertido, como o pinta Raquel, é, todavia, egoísta, mau, e enregelado; haverá nele ainda um homem, que compreenda a alma dessa mulher-anjo que pede ao céu um amor de poeta de fogo?... dessa nobre moça, que com a ponta do pé arrojará para longe de si o cofre de ouro do homem que ela não amar, e que pretender possuí-la?...

 

Oh!... se a realidade fria e negra aparecer sempre, desmentindo a sua imaginação alva e fervente!... quanto não custará a essa criatura angélica o arrastar a vida por este nosso campo de misérias!...

 

Mas Raquel, que primeiro escutara admirada a linguagem sentimental e entusiástica de sua amiga, apertou-a contra o peito, vendo-a chorar tão tristemente; e, como se antevisse os perigos que ela ia correr com tão inflamado espírito, exclamou quase sem sentir:

 

— Infeliz da minha Honorina!...

 

— Sim, sim, Raquel, bem infeliz; porque vivo neste mundo de ambições e de vergonhas, onde tu dizes que se ama a mulher pelo seu dote.

 

— Nada de tristezas agora... e tanto mais que, se fores enganada no teu amor, saberás olhar de bem alto para o homem a quem comprares com o teu dinheiro.

 

— Raquel, a solidão me fez tão sensível e tão capaz de amar, perdoa; mas preciso é confessar que também o aspecto e as lições do mundo têm embotado na tua alma o mais fino dos sentimentos! Não temos tocado os extremos, arrebatadas pela educação que nos deram nossos maiores: eu serei demais inocente; mas tu ficaste sábia demais.

 

— Aceito o cumprimento, Honorina, e te ofereço toda a minha ciência; façamos um contrato; segundo as necessidades do momento eu te emprestarei metade da minha malícia, ou tu me darás algumas doses da tua inocência. Ora, pois: realizemos os votos da nossa infância; soldemos para sempre os laços de uma amizade velha como a nossa vida; celebremos uma dupla aliança ofensiva e defensiva, e primeiro que tudo, Honorina — confiança por confiança.

 

— Sim, Raquel, coração por coração.

 

E as duas moças acabavam de selar com um beijo o tratado de aliança, quando ouviram rumor, como o que faria alguém que furtivamente se retirasse por entre os arbustos do jardim.

 

— Meu Deus!... é alguém...

 

— Honorina! eu tenho medo...

 

As duas moças instintivamente cerraram a vidraça, trancaram a janela, e depois de escutar se de novo faziam algum ruído no jardim, lançaram-se ambas sobre o mesmo leito.

 

 

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   

 

 

 

Elas dormiam ainda no momento em que Lúcia entrou no quarto e as acordou dizendo:

 

— Já são nove horas da manhã, senhoras!

 

As duas jovens se levantaram e trataram de vestir-se; depois, lembrando-se da noite que tinham passado, elas foram à janela, recostadas à qual tanto tinham conversado. Debaixo da vidraça dessa janela estava um papel; Honorina o puxou... era uma carta.

 

Lúcia já as tinha deixado a sós.

 

— É uma carta... disse Honorina, admirada.

 

— E sem sobrescrito... nem selo, disse Raquel.

 

— Portanto... que faremos?...

 

— Abri-la sem dúvida.

 

— Mas... eu não sei... se devo...

 

Porém, quando Honorina disse — mas... — tinha os dedos na carta... chegou a pronunciar — eu não sei... — começara a abri-la: e ao dizer o — se deve... já a carta estava completamente aberta.

 

A carta era escrita com lápis, e dirigida a Honorina, era assim concebida: “Honorina; eu ouvi os teus pensamentos da noite passada; portanto, eu te amo! eu te amo com esse amor de poeta, com esse amor de fogo, que ainda quando acaba na desgraça e na morte, contanto que seja sempre o mesmo amor, é por força bem belo! Sim: eu te amo! e tu me verás em toda a parte, seguindo-te, beijando as pisadas de teus pés, obrigando-te a amar-me ainda contra tua vontade, e não me deixando conhecer senão na hora em que tiveres de ser minha para sempre... oh! jovem cheia de imaginação e de sensibilidade... querias um amor de poeta?... uma paixão de louco?... em mim tens.”

 

— Mas, meu Deus, isto é inconcebível, murmurou Honorina toda vermelha de pejo, um homem amar uma mulher por a ter ouvido! 

 

— É verdade... porém, não te lembras que falamos tanto na tua riqueza?...

 

— Oh! exclamou ela indignada e executando um movimento para rasgar a pobre carta.

 

— Honorina, disse Raquel suspendendo-a, um papel destes guarda-se para fazer rir as amigas.

 

— Não, respondeu a jovem romântica, mas guarda-se, porque o homem, que nela escreveu, tem talvez de ser o bom anjo, ou o gênio mau da minha vida.

 

 

 

 

V

 

Hugo

 

 

Era quase meio-dia; Raquel já tinha partido com seu pai, quando Honorina entrou de novo na sala. Duas pessoas aí se achavam: Ema e Hugo; a avó e o pai da moça.

 

Ema era uma estátua do século passado; uma mulher de setenta anos, gorda, respeitável, coroada por seus cabelos brancos, com o rosário na mão direita, trajando as vestes negras da viuvez, e com uma expressão de bondade misturada com orgulho em sua fisionomia.

 

Hugo era, posto que às vezes timidamente, um representante da nova época: o primeiro que de sua família abandonara antigos hábitos e velhas idéias, foi por isso menos estimado de seus pais que um irmão, morto há alguns meses, e via-se então chefe da casa; era o contraste de sua mãe, pois pensava, falava e vestia-se segundo a ordem do dia.

 

E Honorina é sua filha querida. Ela tem dezesseis anos, é de estatura regular, longas e negras madeixas se mostravam presas com avultada trança ao mesmo tempo que dos lados lhe caem, como esquecidos, bastos anéis delas, que voam em caracol, beijando-lhe o nascer dos seios; a fronte é lisa, branca e elevada; os olhos pretos, grandes, cheios de doçura e langor; a tez de seu rosto é alva, fina, transparente mesmo, sem fogo, e deixando apenas adivinhar longínquo rubor, e entrever neste ou naquele ponto um azulado ramúsculo venoso, que para logo desaparece. No entanto, admira-se aí essa palidez, que interessa e arrebata; nada mais majestoso que o seu colo, nada mais perigosamente belo do que o seu peito cor de leite com a mais feliz perfeição encarnado, transpirando amor e desejos de cada vez que, respirando, se eleva; a sua compleição é fraca e delicada; e há no seu sorrir, nas suas menores ações, em todos os seus traços, enfim, um não sei quê de tocante e melancólico, que quem a vê, a observa, a estuda por força; a sua voz é doce, melíflua, como o gemer saudoso da flauta noturna e afastada; e pela angélica pureza da sua vista, pela celeste candura do seu semblante parecem transluzir todos os pensamentos da sua alma; o seu pisar é subtil e imperceptível; dir-se-ia ao vê-la passar silenciosa, que não é uma mulher que anda, mas a imagem de um anjo que, refletida em um espelho, se desliza por ele, e desaparece impalpável e bela.

 

Posto que já um ano tivesse decorrido depois da morte de seu avô e tio, trajava Honorina ainda nesse dia vestido preto, que mais fazia realçar a alvura de suas mãos, perfeitamente torneadas e a encantadora palidez de seu rosto; o bico de um sapatinho também preto, que a furto tinha escapado por baixo da barra do longo vestido, deixava adivinhar um pé tão delicado como bem-feito.

 

Na manhã desse dia lera Honorina a carta misteriosa, que com Raquel achara na janela de seu quarto; ela estava pensativa e melancólica.

 

Apenas Honorina acabava de sentar-se junto de sua avó, seu pai, que ao pé da janela lia com avidez uma extensa carta, voltou-se para elas e exclamou:

 

— Loucuras sobre loucuras!...

 

— Eu o previa, disse a velha, ele é um fruto degenerado!... o que diz-nos, portanto, nesse papel?...

 

— É uma longa história; quer minha mãe ouvi-la?

 

— Seja: os meus derradeiros dias são votados ao desgosto de ver uma a uma perdidas todas as belas heranças de nossos velhos pais! Ouvirei, pois, a carta desse, que foi o primeiro a ferir-me no coração.

 

Naquelas palavras ia uma indireta atirada contra Hugo, que, fingindo não entendê-la para não entrar em novas questões com sua mãe, arrastou uma cadeira e, sentando-se perto dela, principiou a ler:

 

“Meu tio”

 

Depois de sete longos anos de ausência de minha família, que julgou dever tão completamente esquecer-me, que nem ao menos me quis dar parte da morte de minha adorada mãe, que, sucumbindo um ano depois da minha partida, foi talvez vítima das saudades dum carinhoso filho, horrível e injustamente lançado fora da casa de seus pais, recebi finalmente uma carta de Vossa Mercê, em que me mandou a fatal notícia da morte de meus amados avô e pai; foi, portanto, preciso que a mão da desgraça pesasse sobre nós todos, para que fosse lembrado por aqueles a quem o dever ordenava,  que de mim muito se lembrassem. Eu já respondi com todo o sentimento, com toda a dor pungidora da orfandade a essa pungente carta.

 

“Ultimamente, Vossa Mercê escreve-me de novo, mostrando-se admirado de me não ver chegar ao Rio de Janeiro para tomar conta dos bens que devo herdar de meu avô e de meu pai, os quais, segundo Vossa Mercê diz, devem montar a mais de sessenta contos.

 

“Meu tio, há sete anos que sofro em silêncio todos os meus infortúnios; há sete anos que engulo os meus gemidos; mas o gemido é a expressão da dor, e tarde ou cedo é necessário que o homem gema, quando o seu padecer é longo e não acaba. Leia, pois, esta carta como se fosse um gemido que estivesse ouvindo, e dê-me o seu perdão, se em algum ponto dela eu abusar da sua bondade.

 

“Meu tio, declaro que não voltarei ao Rio de Janeiro, que não aparecerei diante de vós nem de minha avó, enquanto lhes não puder provar que foi uma calúnia infame de que se serviram para me perderem, esse crime, que meu pai e todos os meus parentes não duvidarão de julgar-me capaz de o haver cometido.

 

“Vossa Mercê lembrar-se-á que no fim do ano de 1837 tinha eu feito dezessete anos e concluído os meus estudos preparatórios, quando desapareceu do gabinete de minha prima Honorina, menina então de nove anos de idade, uma cruz, chamada por nós todos — a cruz da família —, toda crivada de riquíssimos brilhantes. Um jovem caixeiro de nossa casa acusou-me de a haver furtado; algumas aparências pareceram justificar essa infame imputação; e, apesar de todos os meus protestos de inocência, apesar do grito saído do coração de minha mãe, que então vivia, e que foi a única que defendeu seu filho, fui lançado fora de casa dos meus maiores e, se escapei das mãos da justiça, foi porque, pensaram eles, cumpria esconder a vergonha de que todos participavam.

 

“Lembro-me perfeitamente do que então se passou. Meu avô disse: — Vai-te para sempre de meus olhos! e, se tens piedade de nós, muda o teu nome.

 

“Minha avó disse: — Torne-se em pedra o pão que comprares com o dinheiro pelo qual vendeste os brilhantes da cruz da família. O ladrão não me faça corar de vergonha, aparecendo ainda diante de mim.

 

“Meu pai disse-me: — Consuma o fogo todas as minhas riquezas antes que tu possas tocar em uma só moeda dos meus cofres.

 

“E minha mãe disse: — Vai, meu filho; mas volta um dia com o rosto descoberto para provar a tua inocência.

 

“Na sala estavam ainda três pessoas que nada disseram: Vossa Mercê, meu tio, que hesitava; Honorina, minha prima, que nada parecia compreender; Lúcia, que me tinha dado de mamar, e que chorava como minha mãe.

 

“Quando eu saí da sala, ouvi as maldições de meus maiores; quando eu me apartei da casa, vi que as portas se fecharam para mim. Delirante e exasperado corri para o mar; ia vingar-me, suicidando-me, quando uma fiel escrava me veio entregar uma bolsa e um anel dos cabelos de minha mãe. Então eu me lembrei das suas palavras: — Vai-te, meu filho; mas volta um dia com o rosto descoberto para provar tua inocência.

 

“Eu tornei à vida!... guardei o precioso anel, guardei a bolsa, oh!... era a bolsa de minha mãe, que podia receber sem corar!... eu tornei à vida, um anjo me tinha arrancado do suicídio: isto não é um sacrilégio; uma mãe é o segundo anjo da guarda do filho.

 

“Agora, meu tio, Vossa Mercê consentirá que eu conte, em poucas palavras, quanto me tem sucedido de então para cá.

 

“Sem plano algum de vida, sem destino e sem meios, vi-me só no mundo e na idade das loucuras; era preciso seguir um caminho, tomei o primeiro que se me apresentou. A cidade da Bahia se achava em braços com o gênio da revolta; o governo chamava soldados; eu me ofereci, como voluntário, vesti uma farda, tomei uma espingarda, e parti.

 

“Lá, no empenho do jogo dos combates, em que tantas mil vezes um homem defronte de outro pára a vida contra a vida, eu estive cem vezes a ponto de perder a partida; mas fosse porque o anel de cabelos de minha mãe seja um talismã sagrado, ou porque a morte fuja daquele que a não teme, e antes a procura, eu ouvi assobiar por cima da minha cabeça e em volta de mim mil balas inimigas, sem que uma só me tacasse. O corpo a que pertencia foi um dos primeiros que entrou na cidade.

 

“Houve cenas horríveis, que é necessário esquecer.

 

“Uma, porém, dentre todas preciso eu lembrar, porque teve ela benéfica influência sobre a minha vida.

 

“Sabe-se que o desespero e o delírio dos vencidos ateou o archote do incêndio. Em certa ocasião uma força, na qual eu me contava, era empregada a apagar as chamas que estavam terrivelmente devorando algumas casas. Defronte de uma dessas vi um homem velho, respeitável, com os vestidos queimados e caído por terra; ouvi as suas vozes... eram gritos de dor indizível... — minha filha!... — dizia ele... depois uma mulher, também velha, também respeitável, que uma, duas e três vezes se tinha atirado às chamas, e outras três caído para trás sufocada, avançou para nós, e com lamentos que repassavam o coração dos que a ouviam, com acento de aflição tão profunda, como o amor de uma mãe, ela, apontando para uma janela, exclamou: — minha filha!... minha filha!...

 

“Eu olhei, e vi através das chamas aparecer uma moça, que recuou pela força do fumo... ela tinha estendido os braços, implorando compaixão... pedindo que a salvassem... e a morte, a morte com cem línguas de fogo ia prestes devorá-la...

 

“Era uma cena horrível!... e na minha alma brilhou o pensamento de salvar essa moça...

 

“Outra vez olhei... as chamas tinham conquistado toda a casa... fantasmas de fumo defendiam as portas... o instinto da conservação me empurrava para longe daquele inferno... o generoso pensamento de salvar a moça ia apagar-se...

 

“A mãe da desditosa chorava... pedia... mandava... bradava convulsa e delirante...

 

“O seu grito era um... único... cruel e despedaçador... sempre o mesmo, mil vezes repetido... ela bradava:

 

“— Minha filha!

 

“Oh!... mas aquela dor de mãe caiu no meu coração e se espalhou na minha alma... lembrei-me de minha mãe! e, beijando o anel de seus cabelos, gritei — eu a salvo! — e desapareci nas chamas.

 

“Ouvi o sussurro da multidão, que se espantava da minha temeridade... quase sufocado... subi o primeiro andar... a pobre moça tinha caído desmaiada... levantei aquele precioso fardo, e desci... 

 

“No entanto, o que eu sofria era inexplicável: uma nuvem de fumo densa e ardente me sufocava e abrasava as entranhas... aqui a escada cedia debaixo dos meus pés, e eu tombava com o meu pobre fardo... ali havia um caminho de brasas a atravessar com os meus pés nus... acolá uma tábua caía sobre mim... uma parede estava prestes a esmagar-nos... oh! era horrível!... e só a bondade de um Deus, e a lembrança de minha mãe me deram forças... chegávamos à porta... eu ia outra vez passar por um mar de chamas; mas... um monstro de fumo, imenso... abrasador... insuperável me empurrou para longe!... oh!... eu senti um desespero horrível no coração... a cabeça pesava-me... a boca se abria-se-me as narinas se me dilatavam... e o fumo, o fumo entrava por elas para queimar-me! um não sei quê brilhou diante de meus olhos... um amor da vida, um desejo de salvar-me, forte e irresistível, se apossou de mim... abracei-me com a infeliz moça... fechei os olhos, atirei-me às chamas e não vi mais nada.

 

“Quando abri os olhos, achei-me num quarto decentemente mobiliado; eu estava deitado, e uma jovem senhora velava junto do meu leito.

 

“A essa moça tinha eu salvado das chamas com a minha temeridade, e ela por sua vez me salvava então com os seus cuidados e dedicação. Ela chamava-se Emília.

 

“Graças a mil obsequiosos desvelos eu me restabeleci prontamente; o pai de Emília alcançou a minha baixa e me empregou em sua casa, pois ele é um rico negociante da Bahia.

 

“Vendo pela minha educação, e por essa fraca instrução que eu tinha adquirido, que só um grande infortúnio me poderia ter obrigado a fazer-me soldado, perguntou pela minha família e pelo meu passado. Eu abaixei os olhos e guardei silêncio; o pai de Emília respeitou o meu segredo e deu-me a sua estima.

 

“Emília era bela, e eu sensível: nós  nos amamos; a gratidão da sua família alimentou o nosso amor.

 

“Ao tempo coube fazer o resto.

 

“Em janeiro de 1842 já estava casado com Emília; pareceu-me que a fortuna começava a sorrir-se para mim...

 

“Era ilusão! a fortuna tinha apenas preparado um novo golpe para ferir-me no coração...

 

“Há dezoito meses que sou viúvo.

 

“Por conseqüência, meu tio, agora estou livre; podia voltar ao Rio de Janeiro; mas há alguma outra prisão, que não posso quebrar; é essa cena, que teve lugar na última hora que passei na casa de meus pais. Meu tio, a minha resolução é irrevogável.

 

“Por falta de um nome ilustre, na carência de tradições de antigos parentes, condes, marqueses, duques, ou elevados fidalgos, a nossa família, meu tio, alimenta o seu orgulho com a lembrança de certas qualidades, com a memória dum caráter forte e talvez extravagante, com que sempre se tem apresentado todos os que têm o sobrenome que eu tive.

 

“Quando algum dos meus antigos parentes se comprometia a alguma coisa, cumpria a promessa por força, quaisquer que fossem os sacrifícios a que devesse sujeitar-se.

 

“Um dos meus velhos avós, porque uma vez, em Lisboa, não viu o rei, que passava, e um soldado fez-lhe tirar o chapéu, tratando-o vilmente, jurou que nunca mais traria chapéu na cabeça, viveu ainda cinqüenta anos, e cumpriu à risca o juramento.

 

“Um outro, sendo levado à Inquisição para ser obrigado a descobrir um segredo que jurara guardar, cortou a língua com os dentes, temendo que as torturas o pudessem nalgum momento fazer esquecer a sua palavra.

 

“Uma das nossas antepassadas, porque seu filho mais velho se havia portado sem valor num encontro com os infiéis, tomada de vergonha, protestou que nunca mais sairia do seu quarto; só dez anos depois saiu pela primeira vez... num esquife para enterrar-se.

 

“Meu avô e meu pai deram exemplos da mesma vontade forte, da mesma força de caráter.

 

“Porém, eles diziam que a árvore já de velha começava a perder o antigo viço; que em Vossa Mercê começara ela a definhar; e que eu não era mais que um  fruto degenerado.

 

“Mas eu quero mostrar que, se não sigo em tudo os passos daqueles que me repeliram, acompanho-os, todavia, em alguma coisa; que se não tenho as velhas idéias, os velhos costumes, os velhos prejuízos que eles trouxeram do século passado e queriam fazer vigorar no século presente, herdei deles a mesma fortaleza de coração e firmeza de vontade.

 

“No meio de todas as extravagâncias, de que eu próprio acuso o meu gênio, sei tornar-me inabalável naquilo a que uma vez determino.

 

“Meu tio, eu jurei a mim próprio, e aqui o declaro a Vossa Mercê para o fazer presente à minha avó, à minha prima e à pobre Lúcia, declaro, digo, que cumprirei as ordens que recebi dos meus maiores, executarei as suas vontades, modificando-as apenas em um ponto para obedecer também a minha mãe.   

 

    “Assim meu avô disse: ‘Vai-te para sempre de meus olhos e’ se tens piedade de nós, muda teu nome, eu cumpri e cumprirei o que ele quis, pois nunca mais lhe apareci; e, se não mudei o meu nome, pelo menos até agora ainda ninguém me viu assinar o sobrenome que eu tinha de família.

 

“Minha avó disse: Torne-se em pedra o pão que comprares com o dinheiro pelo qual vendeste os brilhantes da cruz da família. O ladrão não me faça corar de vergonha, aparecendo ainda diante de mim... O meu pão não se tem tornado em pedra, porque o dinheiro com que o compro é ganho com o suor do meu rosto; mas cumprirei também a vontade de minha avó; enquanto ela não se convencer que eu fui vilmente caluniado, não terá, eu o juro, não terá de envergonhar-se, vendo-me diante dos seus olhos.

 

“Meu pai disse: Consuma o fogo todas as minhas riquezas, antes que tu possas tocar numa só moeda dos meus cofres. Não quero, portanto, um ceitil da herança que me deve tocar pela desgraçada morte de meu avô e de meu pai; cedo todos esses bens para dote de minha prima, e se Vossa Mercê os não quiser aceitar, divida-os com a minha boa Lúcia e os pobres. Quanto a mim, respeitarei a vontade de meu pai, não querendo nada das suas riquezas.

 

“E minha mãe disse: Vai, meu filho; mas volta um dia com o rosto descoberto para provar a tua inocência. Eis aqui enfim a ordem de minha mãe, que eu ainda não cumpri, mas espero cumpri-la toda inteira, sim, minha mãe! para ir, beijando a sepultura em que descansas, dizer às tuas cinzas — já tenho o rosto descoberto! já provei a minha inocência!

 

“Mas, enquanto a vontade de minha mãe não for executada à risca, não, nenhum daqueles que injustamente me condenaram me tornará a ver.

 

“Vossa Mercê, meu tio, que nessa hora de maldições estava também na sala, e não praguejou contra mim; porque hesitava... não hesitei, e creia que me caluniaram.

 

“Minha prima, que também aí estava, e parecia nada compreender do que se passava, compreenda agora que há no mundo uma serpente venenosa, que morde na honra do homem! é a calúnia, foi ela quem me mordeu.

 

“Lúcia chorava porque sabia que eu não era capaz de cometer uma ação infame; não se arrependa de ter chorado; ela me fazia justiça; e depois de minha mãe, foi o único coração que tive, onde a minha inocência achasse abrigo.

 

“Mas eu vejo que tenho abusado da paciência de meu tio; esta carta já vai sendo por demais extensa. Meu tio fica por ela sabendo as minhas inabaláveis resoluções, e, portanto, termino-a aqui. A bênção de minha avó e a amizade de meu tio, outrora as pedi inutilmente; agora só por outra maneira as pretendo conseguir: consegui-las-ei. Há, porém, alguma coisa que me não envergonho de mandar, é uma saudade à minha pobre Lúcia.

 

“Cidade da Bahia... junho de 1844.

 

Lauro.”

 

 

 

— Então, minha mãe, exclamou Hugo, o rapaz está louco ou não?... Vão agora arrancá-lo de lá.

 

— Faz bem em não vir, disse Ema; porque me esconderia para não ser obrigada a ver-lhe o rosto.

 

— Mas, minha mãe, ele escreve de tal modo, que custa muito a não pensar que o caluniaram!

 

— Também tu, Hugo?

 

— Minha mãe, é que há uma força tal nas palavras deste pobre Lauro!

 

— Palavras!... disse Ema, e não é este tempo de escândalo, de irreligião e de liberdade, o tempo das palavras?... todos vós falais bem, falais assim; mas em outrora um só cabelo da barba de um homem valia mais do que valem os vossos mais sagrados juramentos!

 

— Eis aí minha mãe mortificando-se sem razão.

 

— Pois não é assim?... tantas leis, tantas constituições, tantas câmaras, e para quê? para desmoralizar o povo, para perverter a mocidade, como se perverteu aquele rapaz até chegar a roubar um objeto sagrado!

 

— Porém, minha avó, se fosse uma calúnia como ele jura que é?...

 

— Até tu, Honorina?... até tu, quando foi a ti mesma que ele roubou?...

 

— A mim, minha avô?... mas como eu não me lembro...

 

— Oh! era preciso que não falássemos nisso, como não falamos, para ocultar no silêncio a nossa vergonha: lembrar que um nosso filho cometeu tal crime é aprofundar ainda mais uma chaga, que nunca pode sarar; mas enfim... eu quero contar-te, e ainda mais que por direito te pertencia o objeto sagrado. Escuta.

 

Honorina chegou-se para sua avó com viva demonstração de curiosidade.

 

 

 

 

VI

 

A herança paterna

 

 

— Honorina, disse a velha Ema depois de empregar alguns instantes em coordenar as suas idéias, foi há muito tempo, talvez há seis séculos passados, que sucedeu o que te vou contar.

 

Nas imediações da cidade de Lisboa havia uma família que se compunha de marido e mulher, cujos nomes não puderam chegar até nós, e de uma moça que era filha deles, que se chamava Arabela; pobre, mas temente a Deus, essa família passava os seus dias sossegada e felizmente.

 

Arabela, porém, era o que dizia a terminação de seu nome: tão encantadora e engraçada, que, quando passava por alguma rua, os que estavam à janela gritavam para dentro das casas — lá vem ela —, e todos corriam para vê-la, porque já sabiam que quem vinha era Arabela, tão carinhosa e humana que não havia no seu bairro quem, pela ventura de Arabela, não rezasse algumas orações.

 

Também nunca em tão fresca idade, pois que bem moça era, se vira unidos a tanta inocência, caráter tão firme, prudência tão consumada, e tão seguro e são juízo; por isso todos a tinham em grande respeito e estima. Os seus próprios pais com ela se aconselhavam nas conjunturas difíceis, em que às vezes se achavam; as palavras de Arabela eram para eles oráculos infalíveis; a sua vontade como uma ordem santa, a que com prazer à risca se cumpre.

 

Apesar da sua pobreza, Arabela mostrava-se tão formosa, que era conhecida de todos pelo nome de Rosa do Tejo, porque o rubor das suas faces semelhava o aspecto, e a virtude da sua alma o perfume da flor.

 

Arabela tinha feito dezoito anos, e via-se cercada de apaixonados requestadores, que à porfia se extremavam em dar-lhe mais altas provas do amor que os consumia, e que, surda ou insensível achando-a, corriam dela para os pais, a pedir-lhes a filha.

 

Os pais de Arabela, porém, sabendo o quanto era a moça prudente e recatada, jamais fizeram por dirigir-lhe a vontade para aquilo de que ela parecia querer fugir.

 

Entretanto, apareceu entre os pretendentes de Arabela um rico e jovem fidalgo, que, levado dos lindos olhos e perfeições da pobre moça, se esqueceu de que alta era a sua linhagem, elevados os seus teres e, descendo do seu brilhante palácio a uma rasteira casinha, veio pôr o seu coração de grande senhor aos pés de uma humilde aldeã.

 

Debalde o seu muito ostentar de galas e louçainhas, debalde o seu alto despender de agrados e extremos, o grande senhor passava por baixo dos olhos da pobre aldeã com o seu amor tão mal-atendido como os outros: ainda não era a D. Rui Vaz que devia pertencer a alma de Arabela.

 

Mas o amor de Rui Vaz era tão ardente como puro; e foi ele, a despeito das repulsas da moça, oferecer seu nome à família dela: era um partido imensamente brilhante; era um nome de fidalgo que ia cobrir o desconhecido e simples da popular; era um palácio que se trocava por uma cabana; era um futuro que se oferecia a quem não tinha passado e só podia contar com um pobre presente. Os pais de Arabela foram entusiasmados aplaudir a filha; mas recuaram espantados, porque ela lhes respondeu:

 

— Não foi para este que eu nasci.

 

— Mas olha, Arabela, disse o pai, que se trata do Sr. D. Rui Vaz, rico fidalgo de alta linhagem.

 

— Que hoje me ama, tornou a moça, que casando-se comigo há de ainda amar-me um ano, e depois se envergonhará de meus pais e terá enfim pejo de andar comigo a seu lado.

 

Os pais calaram-se, porque era isso, na verdade, o que havia de acontecer; mas depois a mãe disse:

 

— Pensa, Arabela, que já fizeste dezoito anos, e que é tempo de tomar um marido que te proteja; cumpre escolher um noivo.     

 

— Eu já o tenho escolhido, minha mãe.

 

— Então, quem é?

 

— Gil Mendonça.

 

— Bom mancebo é ele, minha filha; mas tão pobre!

 

— Como eu também o sou, minha mãe; porém, ambos nos amamos.

 

— Homem, disse a mulher ao marido, irás levar a resposta de Arabela ao Sr. D. Rui Vaz.

 

— Irei, mulher; posto que me pareça loucura preferir um aldeão a um fidalgo; mas Arabela tem mais juízo do que nós pensamos; ela que assim o fez, é porque assim o devia fazer.

 

A vontade de Arabela foi prontamente cumprida; e, ao mesmo tempo que D. Rui Vaz se sentia despeitado da sua má fortuna, tudo se dispunha para o casamento da linda popular com o feliz Gil Mendonça.

 

Na véspera do casamento, em volta de uma tão frugal como alegre mesa, estavam os noivos e seus pais, quando entrou o fidalgo, que vinha tentar o último esforço.

 

Convidado a tomar parte na parca ceia, ele sentou-se, comeu com boa vontade, e, depois de se levantarem da mesa, pôs em ação quanto podia para desviar Arabela de casar-se com Gil Mendonça, e aceitar a sua mão; pretendeu chamar ao seu partido os pais da moça, dando-lhes conta das suas imensas riquezas, e ganhar o mesmo Gil Mendonça, apelando para a sua generosidade, dizendo-lhe que, se ele sinceramente amava Arabela, devia sacrificar o seu amor para vê-la feliz na elevada posição que se lhe oferecia.

 

Os pais de Gil Mendonça ficaram duvidosos; os de Arabela inclinados a favor de D. Rui Vaz, porém calados, porque tinham sua filha na conta de muito prudente e sábia, pensavam que tudo quanto ela fazia era somente o que devia ser feito.

 

Gil Mendonça, silencioso e com os braços cruzados, esperava frio e impávido a resposta de Arabela.

 

— Sr. D. Rui Vaz, disse Arabela, eu sou reconhecida aos seus extremos; e quero provar que não os desmereço: a mulher que esquece o pobre a quem ama, pelo rico a quem apenas estima, tem coração que com dinheiro se compra?

 

— Oh! não... bradou o fidalgo.

 

— E o coração da mulher, prosseguiu a moça, deve ser tesouro sagrado, que nunca se venda, nem vender-se possa, e que só se troque por outro coração igual a ele. Sr. D. Rui Vaz, eu vos dedico a minha estima; Gil Mendonça, tu és o dono do meu amor.

 

— E tu, Gil Mendonça, disse o fidalgo, tu que dizes?...

 

— O que ela disse, respondeu o rústico.

 

— Pois bem, tornou Rui Vaz; pois bem. Gil Mendonça, eu dou-te metade das minhas riquezas, armar-te-ei cavaleiro, ofereço-te duas das minhas vilas, um dos meus castelos e o mais rico dos meus palácios; mas em troca de tudo isso, tu que és dono dos amor de Arabela, cede-mo.

 

— Vale mais, Sr. D. Rui Vaz, o coração de Arabela.

 

— Pois tudo, Gil Mendonça, tudo o que é meu... dou-te, tudo...

 

— Ainda é pouco.

 

— Oh!... dize! pois com que se pode comprar esse amor que eu aspiro, e a posse daquela moça?...

 

O popular sacudiu a cabeça friamente, como quem dizia:

 

— O amor nem se compra, nem se vende.

 

— E eles nem pensam no futuro daquela linda moça!... exclamou o fidalgo pegando no chapéu. Gil Mendonça! pobre Gil Mendonça! que darás tu por herança ao filho de Arabela?... oh! pobreza!... sempre pobreza!...

 

O rosto do plebeu pareceu anuviar-se; passado um momento, ele levantou a cabeça, e disse:

 

— Nobre Sr. D. Rui Vaz, o filho de Arabela não herdará de mim nem palácios, nem castelos, nem um colar de cavaleiro, porque plebeu nasci, e plebeu morrerei; mas juro, à face de Deus, que dia e noite trabalharei por ele, e para deixar-lhe uma herança que o livre da miséria e do infortúnio.

 

Depois, voltando-se para sua noiva, disse com voz grave e firme:

 

— Arabela! a Deus o juro!

 

No dia seguinte Arabela era à face dos altares a mulher de Gil Mendonça.

 

Alguns dias depois o nobre e leal cavaleiro Sr. D. Rui Vaz tinha desaparecido das terras de Portugal; era um jovem fidalgo que, aos vinte e cinco anos de idade, aborrecia o mundo...

 

Ao lado de Arabela, Gil Mendonça, senhor do seu coração, e certo da sua fidelidade, vivia feliz e sossegado; três anos se passaram, em que ele pedia ao céu um filho e, na esperança de vir a tê-lo, trabalhava com ardor indizível para preparar-lhe uma herança.

 

Ele nunca esquecia o seu juramento.

 

No fim de três anos Arabela concebeu, e Gil Mendonça, festejando com entusiasmo tal acontecimento, sentiu, todavia, com tristeza que se achava ainda tão pobre como dantes. E ainda trabalhou mais...

 

No fim de nove meses, Arabela deu à luz uma linda menina, a quem puseram o nome de Isabel.

 

No dia que se seguiu ao do batizado, Gil Mendonça falou a sua mulher.

 

— Arabela, tu tens visto com que ardor eu trabalho e como mal nos paga a fortuna. Todos os dias me parece estar ouvindo as palavras daquele fidalgo que te amou: — que darás tu por herança ao filho de Arabela?... enfim, tu deste-me uma filha, eu lembro-me também, que por Deus te permiti dar-lhe uma herança; vejo que nada faço na minha terra, e vou partir. 

 

— Partir para onde?...

 

— Vou correr o mundo, Arabela, e conseguirei sem dúvida uma herança para deixarmos a Isabel.

 

A despeito das lágrimas e dos conselhos de Arabela, Gil Mendonça fez de sua roupa uma trouxa, tomou um bastão e o chapéu, e, recebendo a bênção de seus pais, beijou sua filha, abraçou ternamente a sua esposa, e partiu.

 

Gil Mendonça não sabia escrever, e Arabela não esperava notícias dele; contentou-se com chorar as suas saudades, consolando-se com o lindo anjinho que das suas entranhas recebera o nome do céu.

 

O tempo foi correndo; os dias e semanas foram passando, depois meses e anos, sem que chegasse notícia alguma de Gil Mendonça.

 

No entanto, ia crescendo Isabel; linda e engraçada como fora Arabela nessa feliz idade, sua mãe espelhava os antigos encantos infantis no rosto, e as suas virtudes no coração de Isabel.

 

Com toda a sublime ternura do amor maternal, Arabela perdeu primeiro as noites velando junto do berço querido, bebeu depois entusiasmada os sorrisos meigos e inocentes da filha da sua alma, escutou e decorou a sua primeira palavra, ensinou-lhe a repetir o nome de seu pai, dirigiu os seus primeiros passos, e, quando Isabel começou a falar, aprendeu logo de sua mãe a pedir a Deus o regresso de Gil Mendonça.

 

Ao amanhecer de todos os dias Arabela levava Isabel pela mão à porta da rua e, mostrando-lhe uma estrada, que fronteira ficava, dizia-lhe:

 

— Foi por ali, Isabel, que por amor do teu futuro partiu teu pai; é por ali que ele deverá voltar; todas as manhãs viremos esperar por ele, todas as tardes também; no entanto, Isabel, continua ser a boa menina, para que ele te ache bonita, e te ame como eu.

 

E depois Arabela voltava o rosto para esconder as lágrimas de Isabel, que poderia chorar também, e afligir assim o seu coração maternal. Ainda se passou muito tempo sem que murchasse na alma de Arabela a esperança de ver chegar seu marido, e sem que este tornasse. Finalmente chegou o dia do natalício de Isabel.

 

Tinham-se passado nove anos depois que Gil Mendonça partiu em procura de melhor fortuna.

 

Ao amanhecer, Arabela, como costumava, levou Isabel pela mão até à porta, e disse:

 

— Isabel, fazes hoje nove anos; há quase outro tanto que teu pai, por amor do teu futuro, nos deixou, partindo por ali... e é por ali que ele deverá voltar; esperemos...

 

O dia se passou como tantos outros, e, ao quebrar da tarde, Arabela, que se sentia abatida e aflita, sem, contudo, adivinhar a causa do que sofria, recolheu-se ao seu quarto, ficou só, chorando em segredo as suas saudades.

 

Isabel foi, segundo costumava fazer com sua mãe, sentar-se à porta da casa e, fitando os olhos na estrada fronteira, como não tivesse ao lado sua mãe para repetir-lhe as palavras que sempre lhe ouvia, repetiu-as ela mesma:

 

— Foi por ali que, por amor do meu futuro, partiu meu pai, e é por ali que ele deverá voltar: continuarei a ser boa menina, para que ele me ache bonita e me ame como minha mãe.

 

Então ela viu vir chegando em direção à sua casa um velho peregrino, que parou a dois passos diante dela.

 

— Boa-tarde, minha menina! disse o peregrino.

 

— Boa-tarde, meu velho! respondeu ela.

 

— Olhavas com tanta curiosidade para mim, que me lembrei de vir perguntar a causa.

 

— Ora... é que o senhor vinha pelo mesmo caminho por onde deve vir meu pai.

 

— Teu pai?... e como te chamas, menina?...

 

— Isabel, meu velho.

 

— Isabel?!... repetiu o peregrino com violenta comoção; e depois continuou: Isabel, eu tenho fome, dar-me-ás que comer?

 

— Sim, sim, entre: nós lhe daremos pão, ovos, bolos e vinho.

 

O velho peregrino entrou, e daí a pouco foi cercado por toda a família, que lhe ofereceu uma frugal refeição. O semblante desse homem era respeitável: a cabeça estava toda branca, a voz era trêmula e compassada.

 

— Boa gente, disse ele depois de dar fim à sua alimentação, é hoje o dia em que faz nove anos aquela menina?...

 

— Sim... sim... e como o sabeis?...

 

— Eu vos trago novas do Sr. Gil Mendonça...

 

Um grito de Arabela interrompeu o peregrino:

 

— E onde está ele?... perguntou.

 

— Na eternidade, Arabela! respondeu o velho.

 

— Morto!... morto!... Isabel!... tu és órfã!... e eu sou viúva!... minha mísera filha!

 

Arabela abraçada em sua filha soluçava de um modo terrível; era a expressão de uma dessas dores profundas, que se trocaria em amargoso e despedaçador silêncio, se ao pé não estivesse uma filha para desfazê-la em lágrimas.

 

— Minha filha! minha pobre Isabel! exclamou depois de muito tempo Arabela, que te resta agora?...

 

— A herança de seu pai, respondeu o peregrino; a herança de seu pai, que trazer-vos venho.

 

Todos olharam admirados para aquele homem.

 

— Arabela, continuou ele, modera tua justa aflição, e escuta-me; vós todos ouvi-me; Isabel, sossega tua mãe, e atende-me também. Gil Mendonça, casando-se com Arabela, jurou que à força de seu braço saberia ganhar bastante para deixar ao filho, que tivesse, uma herança, que o tirasse da miséria e do infortúnio. Trabalhando sem descansar, trabalhando com ardor admirável, Gil Mendonça não deu um passo avante, e no fim de três anos o céu lhe havia concedido uma filha; mas ele achava-se ainda tão pobre como dantes. Então, entendeu que lhe cumpria ir buscar em outras terras a fortuna; deixou pátria, esposa, filha e família, deixou tudo, e, com sua vontade de ferro no coração, vagou pelo mundo oito anos; mas parece que a sua estrela o tinha condenado a ser pobre, de modo que baldados todos os seus esforços, ele se via sempre o mesmo, tendo por únicos bens a trouxa de seus vestidos e o bordão do peregrino.

 

Sempre animoso, sempre trabalhando, ele correu a Espanha, a Itália, grande parte da Alemanha e voltou de novo à Itália, entrou na França, sem que a fortuna lhe tivesse sido um dia menos adversa. Há seis meses passados, enfim, ele estava em Provença e se dirigia à cidade de Aix.

 

Passava perto de uma ermida, viu sua porta aberta, e a ela se dirigiu para ofertar suas orações ao Altíssimo... Dentro da ermida havia sussurro; e passavam-se cenas de horrível profanação... Gil Mendonça entrou e ficou pasmado do que via; o altar estava destruído, imagens santas feitas pedaços rolavam pela terra... homens furiosos... uma horda de demônios em delírio, que em uma mão traziam um facho e na outra um machado, pareciam querer levar a destruição inda além.

 

Eram os maniqueus, os devastadores dos templos e das imagens, os gênios de destruição e do horror!

 

Um pobre e velho eremita, um desgraçado monge, coberto de cabelos brancos,  e meio caído em um canto da ermida, se abraçava com ardente devoção com uma pequena e santíssima cruz de ouro, que tinha arrancado do altar, destruído logo depois, para assim salvá-la das mãos sacrílegas dos maniqueus.

 

Esse velho indefeso e inerme estava cercado por vinte miseráveis, que contra ele despejavam pragas, maldições e ameaças.

 

— Tem ainda uma cruz nas mãos! exclamou um deles, seja quebrada, seja destruída!

 

— Não! não!... não!... exclamou o pobre monge matai-me antes!...

 

Mas uma onda de maniqueus caiu sobre ele, e um desses monstros arrancou-lhe a cruz dentre as mãos...

 

O monge caiu de joelhos, e, levantando as mãos para o céu, pôde apenas exclamar:

 

— A cruz de Jesus Cristo!... quem salva a cruz de Jesus Cristo!?...

 

O sacrílego, que arrancara o Santo Lenho das mãos do monge, estava a dois passos de Gil Mendonça, em quem os maniqueus não tinham reparado, e levantava uma pedra para quebrar a cruz, quando com voz de trovão Gil Mendonça bradou:

 

— Judeu! pára!...

 

Sua voz ressoou terrivelmente no seio da ermida; uma multidão de braços se levantou contra ele!... mas Gil Mendonça sem hesitar descarregou o seu bastão sobre a cabeça do sacrílego, e, ao mesmo tempo que este caía desmaiado, ele se apossava da cruz. Então os maniqueus avançaram sobre Gil Mendonça, que se defendeu nobremente; enfim, cercado de todos os lados, depois de ferido cem vezes, tendo sempre a cruz em seu peito, e já tinta com seu sangue, o valente cristão caiu debaixo de tantos golpes, quando também uma centena de religiosos agricultores entrando na ermida, começaram a bater e lançar por terra os maniqueus.

 

Meia hora depois os sacrílegos tinham sido completamente postos em fuga, deixando muitos dos seus companheiros mortos; no meio desses cadáveres, o monge foi levantar o frio corpo daquele que sacrificara sua vida em defesa do Santíssimo Lenho.

 

Gil Mendonça ainda respirava, e com força indizível apertava a cruz contra o coração.

 

Graças aos cuidados que lhe foram prodigalizados, ele abriu os olhos, viu ao pé de si o monge, e pôde falar. Contou então em poucas e entrecortadas palavras a história de sua vida; disse ao monge o nome de sua mulher e de sua filha, ensinou-lhe o lugar onde moravam, e concluiu dizendo:

 

— Monge! eu vou morrer; mas esta cruz é minha! esta cruz é o fruto de perto de nove anos de trabalho! esta cruz é a herança que deixo à minha filha; ela será feliz. Monge, tu me deves talvez a vida, serve-me, pois, no que te vou pedir: irás a Lisboa, sabe já onde moram meus parentes; de hoje a seis meses faz Isabel nove anos; tens cento e oitenta e um dias contados para lá ir; tu lhe entregarás nesse dia a cruz que passo agora às tuas mãos; dize-lhe que foi resgatada com o sangue e com a vida de seu pai, que lha deixa por herança.

 

Uma herança havia eu jurado legar-lhe... herança que a pusesse a salvo do infortúnio e da miséria... perto de nove anos trabalhei para cumprir meu juramento... eu buscava ouro... ouro para minha filha... e graças a Deus, eu deixo mais do que ouro, mais do que tudo... a ela... e a todos os meus descendentes. Essa cruz deverá fazê-los felizes!... protegerá a inocência e a fraqueza!... dize a minha filha, que sempre que nascer para o futuro uma herdeira do nosso nome, se lhe entregará a cruz, quando fizer nove anos, até que venha uma nova herdeira, e complete também essa idade... Monge... a herança de minha filha é sagrada!... cumpre o que te peço... leva minhas despedidas a meus pais... a Arabela... e a Isabel... e enfim... reza por minha alma...

 

Gil Mendonça deixou então cair a cabeça e expirou; o monge rezou duas horas ao lado de seu cadáver, e, erguendo-se depois, disse em voz baixa:

 

— E ele morreu sem reconhecer-me!

 

— Agora, Isabel, tu já ouviste as disposições de teu pai; recebe, pois, a herança que te pertence.

 

E isto dizendo, o velho peregrino tirou do seio uma cruz de ouro, que entregou a Isabel.

 

Toda essa história tinha sido ouvida com a maior atenção, no mais profundo silêncio. No fim dela, a cruz foi por todos beijada, e o pranto da família recomeçou.

 

Ao amanhecer do dia seguinte, o velho peregrino abençoou a triste família, e partiu para nunca mais voltar.

 

Quando, ao quebrar da estrada, a casa de Arabela tinha de desaparecer para sempre a seus olhos, o peregrino voltou-se, e, limpando duas grossas lágrimas, disse:

 

— E Arabela viu-me!... ouviu-me!... e não me reconheceu!

 

E esse monge, cujos cabelos estavam completamente brancos... esse monge pálido... magro... com o rosto enrugado... as mãos trêmulas... o andar mal seguro... esse monge, que todos julgariam octogenário... tinha apenas trinta e cinco anos...

 

Oh!... é porque há alguma coisa que envelhece e gasta o homem ainda mais do que o tempo... é a paixão desgraçada, que não se extingue nunca... que escondida no fundo do coração... acabrunha o espírito e muda o aspecto do homem...

 

E aquele monge...

 

Gil Mendonça esteve nos seus braços... viu-o... ouviu-o... e não o reconheceu!

 

 E esse peregrino...

 

Arabela hospedou-o em sua casa... viu-o... ouviu-o... e não o reconheceu!

 

Nunca mais se ouviu falar, e nunca mais se falou em D. Rui Vaz.

 

 

 

 

VII

 

A cruz da família

 

 

Subida tinha sido a atenção com que Honorina escutava aquela velha história; espalhou-se no seu espírito ardente e romanesco aquele firme e inabalável propósito de um homem, que a todo o custo queria uma herança para sua filha e que, enxotado de seus teres pela má fortuna, foi correr mundo, até que a preço do seu sangue e vida conseguiu haver e deixar à herdeira do seu nome um legado tão novo como santo: achara, enfim, eco em seu coração esse amor puro e nunca vencido de rico fidalgo, que, por não ser aceito pela pobre aldeã, esquecera nome, riquezas e mundo, eremita se fizera, e em tão poucos anos tanto o pungira a sua paixão veemente e desgraçada, que lhe enrugara o rosto, que lhe tornara grisalhos os cabelos, e prematuramente o envelhecera por tal modo, que nem o seu próprio rival, nem sua antiga amada puderam conhecer no hábito de eremita o antigo Sr. D. Rui Vaz.

 

Passados alguns momentos, e, quando ainda duas lágrimas, mimosas pérolas de ternura, alvejavam pendentes nos negri longos cílios da bela moça, Ema prosseguiu dizendo:

 

— Eis aí pois, Honorina, a origem dessa cruz, que em tão grande amor e devoção tínhamos, e que tanto devemos eternamente chorar.

 

Certamente; uma cruz sagrada, arrancada por semelhante maneira das mãos de homens loucos e ferozes, tinha de ser o talismã protetor dos descendentes desse homem, que seu sangue derramara, e dera a sua vida para não a ver menoscabada.

 

“Assim foi, porque, minha filha, Deus não se esquece daqueles que dele se lembram e nele confiam.

 

“Desde que o sagrado lenho entrou em casa de Arabela, a ventura começou a sorrir-se para a sua família; as privações foram desaparecendo como por encanto, seus bens se aumentaram de dia em dia, e o sossego e prazer presidiram de mãos dadas à corrente de seus anos.

 

“Os desejos e a recomendação de Gil Mendonça foram completamente satisfeitos; a cruz de sua filha fez-se a cruz da família, a cruz que aos nove anos de idade recebia a herdeira de seu nome. Essa obrigação cumpriu-se religiosamente talvez seis séculos; essa herança chegou ainda até nós pura, como a tinha recebido Isabel de Mendonça.

 

“E nunca houve uma herdeira dessa cruz, que não passasse vida feliz e sossegada.

 

“Enfim, forçados pelo império das circunstâncias, nós, que jamais havíamos deixado a nossa pátria, vimos buscar seguro asilo na terra de Santa Cruz, fugindo dos horrores, da destruição e da impiedade que a todos os cantos da Europa levava a espada terrível de um monstro que se chamou Bonaparte.

 

“Além de um tão cruel desgosto um outro, Honorina, me acompanhava. Eu não tinha tido senão dois filhos; o céu me tinha negado uma herdeira para a cruz da família; casamos Raul de Mendonça, nosso filho mais velho; porém, o primeiro fruto desse himeneu foi ainda um varão, e minha nora não concebeu mais. Restou-nos uma única esperança, era Hugo; nós o casamos também, e graças a Deus, Honorina, um ano depois desse casamento, nasceste tu para sossegar-nos, para ser a herdeira da cruz da família.”

 

Ema suspendeu por um momento na relação que fazia, e voltando-se, para Hugo, disse com voz pausada e grave:

 

— Hugo, eu hei de dizer tudo o que penso e que sinto a Honorina; se não te achas disposto a ouvir-me, ou se temes incomodar-te com o que vou dizer, será melhor que te retires.

 

— Pois bem, minha mãe, respondeu Hugo sorrindo-se, eu saio para a deixar em completa liberdade; Honorina fará justiça a seu pai.

 

Logo que Hugo saiu, Ema continuou:

 

“O mundo, minha filha, tinha passado, estava e está passando por uma revolução espantosa; revolução que nada respeita, desde a política e a religião até mesmo as mais nobres e generosas crenças de idéias individuais. Demônios eloqüentes, penas temperadas no fogo do inferno, tinham antes espalhado e pregado, segundo mil vezes me repetiu o meu santo confessor, princípios fatais à humanidade, desorganizadores dos tronos e do altar;  máximas ardentes e perigosas eram oferecidas ao povo, e como incensavam a sua vaidade, foram bebidas e aceitas com entusiasmo por muitos; um vulcão se preparava, vulcão horrível, que rebentou primeiro na América, que logo depois prorrompeu em França, e do qual se ressentiu o mundo todo; depois adiante da infernal propaganda, na frente da ímpia cruzada, apareceu esse inqualificável flagelo, essa vingança de Deus, chamada Bonaparte, que fez estremecer os templos do Senhor e os tronos dos reis; que regou com ondas de sangue humano a árvore da impiedade. Enfim, esse homem sucumbiu, depois de triunfar mil vezes; porém, as idéias que ele replantou com a ponta da sua espada germinaram e vegetam ainda hoje!

 

“Uma palavra mentirosa, mas de fogo, embriagava os homens; era ela — liberdade! em nome da liberdade os grandes homens subiam a infamantes patíbulos... esgotavam-se os cofres públicos... cometiam-se horríveis sacrilégios... desterravam-se e exterminavam-se modestos religiosos!... ninguém mais se supôs pequeno. Uma outra palavra também mentirosa, mas também de fogo, fazia gigantes os mais desprezíveis anões... era ela — igualdade!

 

“Ninguém concebe quantos milhões de vítimas se tem sacrificado nos falsos altares desses dois ídolos de fumo.

 

“Como precisa conseqüência de tão nefandos princípios, o gênio do mal, para alimentar e dar mais intensidade ao facho da anarquia, vomitou sobre e contra nós a liberdade da imprensa... máquina de calúnias e de intrigas... veneno dos espíritos... guarda avançada das revoltas.

 

“Tudo mudou. Os meninos deixaram de aprender a rezar para ler periódicos e discutir presumidos direitos do homem; os operários abandonaram as suas fábricas para cuidar em eleições; a plebe imunda e perigosa agitou-se radiosa e triunfante em todas as nações.

 

“A peste chegou até ao Brasil. Esta nação, criança, que ainda mal andava sustida pelos bracinhos, levantou orgulhosa a cabeça, dizendo que era um gigante, que não corria porque lhe atavam as pernas; que era uma águia, que não voava porque lhe prendiam as asas; que queria, que havia de caminhar só e livre; e, o que é mais, Honorina, um príncipe, um homem, em cujas veias corria o sangue mais nobre do mundo, foi o mesmo que, cheio de mal-empregado entusiasmo e bravura, tomou a dianteira ao povo, e bradou — independência ou morte!     

 

“Portanto, a embriaguez se tornou mais notável. As idéias deste século pervertido são contagiosas; povos inteiros padeceram o mesmo mal; o brasileiro não podia formar exceção.

 

“E não se falou mais aqui senão em liberdade, câmaras, deputados e constituição...

 

“Os velhos tornaram-se crianças... os meninos não tomaram mais a bênção aos pais... as moças desprezaram os véus da modéstia e a vida sossegada da solidão para ir com o rosto bem à mostra, e, carregadas de adornos e de modas indecentes, dançar em saraus, onde a licença e o desregramento tomaram o nome de civilização e de progresso!

 

“Tudo isso foi devido à liberdade...

 

“A peste também entrou em nossa família: teu avô, teu tio e eu nos conservamos firmes em nossos antigos princípios, com as belas inspirações dos nossos antepassados, desprezando todos esses erros, detestando todos esses crimes da época, todas essas mentiras de liberdade, igualdade, direitos do homem, constituição, e não sei quê mais! tenho finalmente por única glória sermos sempre devotados ao altar e trono, e mais nada.

 

“No meio de nós, porém, levantava-se uma cabeça de louco, a criava-se um coração de serpente.

 

“Teu pai, Honorina, apesar da educação que lhe demos, e dos exemplos que sem cessar lhe oferecíamos, tinha-se feito sectário das novas idéias: era um liberal delirante, que trouxe no braço a sua legenda, como na cabeça as suas loucuras; que cem vezes se enfeitava com flores e folhas para ir bramar nas praças, para tomar parte nas orgias do povo desenfreado.

 

“Era uma cabeça de louco.

 

“E o filho de Raul, teu primo Lauro, Honorina, desprezando os conselhos de nós todos, a despeito dos castigos que seu pai lhe fazia sofrer, cedendo a seu gênio inquieto e desastrado, crescia correndo pela estrada da perdição. Vivo e sagaz, travesso e imprudente como nenhum outro; sempre cheio de resolução e audácia, possuindo talento e habilidade em alto grau, poder-se-ia fazer dele um grande homem, se o tempo em que vivemos não bastasse para pervertê-lo. Tentamos aproveitá-lo, e o fizemos estudar; compreendia as lições com facilidade espantosa, progredia rapidamente; mas ao mesmo tempo opunha-se com repreensível obstinação às idéias de seus mestres, quando não lhe agradavam; ria-se diante deles, se os ouvia dizer o que ele chamava um absurdo; abandonava as aulas para passar horas inteiras nas galerias da câmara dos deputados; decorava os discursos mais veementes, e arremedava os mais fortes oradores; enfim, mesmo na minha presença, atrevia-se a combater e zombar das minhas nobres crenças, a que ele ousava dar o nome de prejuízos dos séculos de escravidão e ignorância!

 

“Era um coração de serpente.

 

“Não: nem os avós, nem o pai desse menino protegerão com criminoso desleixo ou estúpida indiferença os erros, filhos da sua má índole; mas ele tinha uma mãe... indulgente como quase todas; uma mãe, que o amava extremosamente, que fechava os olhos às suas faltas, e que, finalmente, sem o querer, cooperou para a sua perdição...   

 

“Ao correr dos seus dezesseis anos, esse menino tinha concluído os seus estudos preparatórios e redobrado a viveza, a resolução, a audácia e a insolência que lhe eram naturais.

 

“Então... a serpente mordeu-nos.

 

“Tu, Honorina, chegavas à época feliz dos nove anos... De antemão nós fruíamos o prazer de ver brilhar esse dia, em que a cruz da família tinha de passar às tuas mãos...

 

“Mas eu nunca me enganei... eu tive pressentimentos de que uma grande desgraça estava prestes a cair sobre ti... sobre nós... Essa desgraça foi preparada por teu próprio pai.

 

“Sentindo aproximar-se o dia do teu nono aniversário, Hugo declarou-nos que queria mandar ornar a cruz da família com preciosos brilhantes; teu avô e teu tio, Honorina, aplaudiram essa idéia, porque pensavam assim demonstrar o muito apreço em que tinham a sagrada cruz, e porque também isso satisfazia a ternura com que todos te amavam.

 

“Fui eu a única que me opus; eu sempre entendi que cumpria conservar pura e intacta a nobre herança havida dos nossos avós, a nobre herança de Isabel deixada por Gil Mendonça. Mas que podia eu triste mulher contra todos os parentes?... Foi com lágrimas nos olhos que eu vi levarem a cruz da família...

 

“Chegou o dia do teu nono aniversário.

 

“Jantamos todos reunidos. Duas únicas pessoas que não tinham o nome de Mendonça jantaram conosco: Lúcia, que dera de mamar a teu primo Lauro e a ti, e Félix, que é hoje o guarda-livros de teu pai; pobre e desvalido moço a quem por compaixão recebemos para nossa casa, e que nos tem sabido pagar com admirável gratidão.  

 

      “Acabado o jantar, Honorina, eu chamei-te para junto de mim; todos vieram cercar-me e ouviram-me repetir a história da cruz que ias receber, e que conseqüentemente foi lançada ao teu pescoço.

 

“Tu, Honorina, posto que contasses nove anos, eras inocentinha como uma pomba; porque na falta de tua mãe (pois já a tinhas perdido), nós, teus avós, te guardávamos, e zelávamos sobre a tua educação, para que teu pai te não enlouquecesse com as tuas extravagantes idéias.

 

“Inocentinha como eras, tu beijaste a cruz com alegria infantil, e, sem ainda compreender o valor dela, orgulhosa a andavas mostrando a nós todos.

 

“Então, Lauro disse-te sorrindo-se:

 

“Honorina... eis uma bela cruz para ser furtada! tem ricos brilhantes, que se podem vender...

 

“Tu correste instintivamente para mim; e eu respondi a teu primo:

 

“Lauro, tu és louco: não se graceja com um objeto sagrado.

 

“Este episódio não passou daí. Às sete horas da noite adormeceste, e a tua cruz foi depositada perto do teu leito numa salva de prata.

 

“Às dez horas da noite a cruz da família tinha desaparecido.

 

“A dor que sentimos não se pode descrever; e antes de procurar conhecer o ladrão, teus avós e eu, Honorina, já tínhamos adivinhado quem fora.

 

“Todas as suspeitas recaíram sobre Lauro.

 

“Félix e uma velha parente nossa declararam que o tinham visto entrar no teu quarto com precaução e cuidado; que ele por algum tempo aí se demorara, tendo tomado e examinado a cruz atentamente.

 

“Lauro, ouvindo o testemunho de ambos, corou e disse com a sua costumada audácia:

 

— Tudo isso é verdade.

 

— E a cruz?... onde a puseste?... bradamos nós.

 

— Deixei-a lá mesmo; foi a sua única resposta.

 

“O resto tu o sabes, Honorina; a carta, que ouviste ler a teu pai, me poupa o trabalho de referir a cena de maldição, em que eu proferi as palavras de que ele se lembra, palavras que nunca me arrependi de ter proferido, palavras, que repito ainda...”

 

E a velha Ema, levantando a voz, disse com força:

 

— Torne-se em pedra o pão que ele comprar com o dinheiro pelo qual vendeu os brilhantes da cruz da família!... o ladrão não me obrigue a corar de vergonha, aparecendo ainda diante de mim!...

 

 

 

 

VIII

 

O primo Félix

 

 

Era a hora em que (segundo a fraseologia das moças) se prega no ponto: e da costura ou do bordado corre-se para a janela. Entendamo-nos; não queremos com isto dizer que a nossa civilização esteja tão atrasada, que se imponha ainda ao belo sexo o importuno cativeiro da agulha: nada; isso não! É somente propósito nosso fazer sentir que tinha chegado o momento feliz em que o sol não reflete mais os seus raios sobre as janelas das casas da nossa cidade, e conseguintemente apareceram naquelas as elegantes e mimosas filhas de Niterói.

 

D. Rosinha estava, conforme o seu costume, de janela, e então conversava fortemente com uma vizinha tão sua amiga, que já uma vez chegara a sustentar seriamente que ela não era feia; sentia-se, pois, tão enlevada, no que praticava com o seu pensamento, como a chamava, que não viu entrar o primo Félix.

 

Antes de irmos por diante convém lembrar que temos aqui dois objetos que, sendo muito comuns, merecem, todavia, momentos de reflexão: são eles uma moça, que está de janela, e um primo da moça bonita.

 

Mas é preciso prevenir também que as observações, que vão ser lidas sobre o primeiro ponto, não poderão caber senão a um restrito número de jovens, que não podem formar regra, que são tristes exceções entre as do seu sexo. E, para ofender ainda menos a susceptibilidade de quem quer que seja tratando delas, não diremos “uma moça”; diremos uma moça loureira.

 

Uma moça loureira, que está de janela e que é do número dessas que sabem estar de janela, põe em ação a ciência mais difícil do mundo, e que é ao mesmo tempo tão positiva como matemática, e tão cheia de coisas nenhumas como a diplomacia. Ela tem vista tão segura, que pelo menear da bengalinha conhece o jovem que vem no princípio da rua; pelo tirar do chapéu adivinha se é moça ou velha a pessoa a quem ele cortejou; e pelo cortejo que recebe, se o padecente inda tem de voltar pela mesma rua ou não. Tem o ouvido tão apurado, que, pelo som da corneta, prediz o oficial que comanda a guarda que vai passar; pelo longínquo tropear de um ginete, quem é o cavaleiro que o cavalga; e pela boa-tarde que lhe dá a vizinha, sabe logo se ela já o viu... ou se ainda espera. E a mãozinha de moça loureira que está de janela?... com os seus dedinhos cor-de-rosa, fala essa mão ainda mais que um papagaio de seminário! um lenço nessa mão move-se e dá mais sinais que o telégrafo do castelo; uma rosa ou um cravo entre os seus dedos é mais brilhante que a fogueira de Sesto, mais eloqüente que um discurso de Lamartine.   

 

E uma moça loureira não perde nada; antes de tudo tira partido nessa posição: se, por exemplo, apanha um mocinho, um sobrinho, uma criança enfim de poucos meses... que de carícias não recebe o pobre inocente!... ensina-lhe adeus a com mãozinha... abraça-a mil vezes... e em conclusão a criança não é mais do que um trunfo, no qual se embarca uma bisca.

 

E se há loureiras como ela?... misericórdia! isso sim é que é maçonaria, onde não penetra o vulgo profano; elas fazem elas um tratado de aliança tal, que deve causar inveja a todos os diplomatas das quatro grandes potências: a mais sonsa delas vale o dobro do príncipe de Meternich. Velha ou moça, que passa, não vai sem sofrer uma análise crítica e miúda de todos os seus vestidos, e a enumeração de todas as imperfeições do seu físico; velho ou moço, que tem a desgraça de fazer por ali seu caminho, não volta o canto sem levar nas costas a sua alcunha; e os senhores apaixonados tenham também paciência; será bom que vão passando com a certeza de que, se as queridas lhe perdoam, as vizinhas não podem deixar de lhes fazer ao menos uma careta, de dizer ao menos — que tolo! Ainda o que vale é que às vezes tais enredos e ciúmes se levantam entre elas, que mutuamente se beliscam e se atrapalham, que faz gosto ouvi-las e vê-las, de tão lindamente arrufadas que ficam.

 

Julga muita gente que, logo que olha para a moça loureira que está de janela, pode dizer a respeito do que está ela pensando, do que ela cuida, e o que ela sente; pois elas riem-se! e riem-se com razão; porque lá dos segredos da arte das janelas ainda ninguém tocou o fundo... Os vaidosos acreditam ter compreendido assaz, por haver tirado as seguintes conseqüências:

 

1ª — Moça que estando de janela tem os olhos fitos no lado do mar, é porque espera que venha alguém desse lado.

 

2ª — Moça que não conversa com as vizinhas, que olha ora para baixo, ora para cima, sempre cuidadosa e suspirante, é porque não sabe por onde surdirá um rapagão, que, por ciumento ou adoidado, não tem nem hora, nem ponto certo em que apareça.

 

3ª — Moça sentada à janela com a face pousada sobre a mão tem saudades.

 

4ª — Moça que, quando sente vir o predileto da parte de cima, fita os olhos no lado de baixo, e, ao senti-lo defronte da janela, faz com a cabeça um movimento, formando um arco de círculo, e olha para a parte donde ele veio, fingindo não tê-lo visto, está de arrufos.

 

5ª — Moça que, ao ver aproximar-se o jovem que a requesta, volta-lhe as costas e foge para dentro, morre por ele.

 

Mas basta de falar em janelas, e já que por demais foi longe a reflexão sobre tal ponto, seja em compensação ligeira a que tocar aos primos.

 

Um jovem primo é pouco mais ou menos o espírito maligno em forma humana, calçando botas e vestindo casaca; há uma tal queda para os primos, que se faz preciso andar sempre com os olhos bem abertos sobre eles.

 

Um jovem primo foi uma criança, que brincou o tempo será com as primas, que chamou a uma delas minha mulher, e foi por essa chamado meu marido; que se acostumou desde então a entrar em casa delas sem bater palmas, que fez quadrinhas para os lenços delas, que é o compadre das suas bonecas, e que agora ou é desses que fazem garbo da liberdade que têm com as primas, e, à vista de gente, grita, corre e patusca com elas, e então não passa de moço de bom-tom fogo de palha, casca de grande coisa com âmago de coisa nenhuma; ou, pelo contrário, é um primo com cara de tolo, que não perde terço nem novena, que reza muito na presença dos tios, e tem um oratório em casa, onde faz festas aos santos da sua devoção, e que, enfim, em noites de reunião em casa das primas, enquanto elas palestram, dançam e se divertem, ele se deixa ficar em um dos cantos da sala, bocejando e cochilando, uma vez por outra dando tabaco ao tio, espevitando as velas, e indo ajudar as primas a preparar o chá.

 

Esta é que é a casta de primos mais perigosa no seio de uma família do que um doente de sarampo ou bexigas.

 

Félix, a quem de antes conhecemos, pois que já o encontramos almoçando com a família de Venâncio, é um primo do primeiro gênero; perdido de amores por sua prima Rosinha, tem mais ciúmes dela do que uma criança do colo de sua mãe; Rosa, que o vê com olhos de quem quer casar, e que além disso é moça entendida em negócios diplomáticos, o julga um moço que, por falta de outro, lhe poderá servir para marido; e por conseqüência, segundo a tática, que em outras pode ser observada, nem o despede, nem se deixa dominar; trá-lo atrás de si, como o seu gatinho; se o vê exasperado e disposto a fugir-lhe, sorri-se para ele, e assim o amansa, e o faz beijar-lhe os ferros; se o observa muito altaneiro e confiado em sua constância, não olha para ele um dia inteiro, e o põe com o juízo em voltas, e a esperança em alarma. Já se vê, portanto, que Félix pertence ao número dos tolos de amor.

 

Pois ele não se quis fazer anunciar: com toda a sua perigosa liberdade de primo, entrou pé por pé para a sala; vendo aberto o piano, em que tantas vezes tocava a sua querida Rosinha, o foi beijando tecla por tecla... já tinha lambido metade do teclado, quando se lembrou de causar um susto à prima, que, no fervor da sua conversa com a vizinha, não o tinha ainda percebido; mas não tardou a mudar de resolução, e, encobrindo-se atrás de um aparador, dispôs-se a escutar o que diziam  as duas.      

 

— Mas, o meu pensamento, perguntava nesse instante a vizinha, isso é sempre assim?...

 

— Sempre assim de três dias a esta parte!... foi há três dias a primeira vez que o vi, e desde então tanto eu o amo como minha mãe o mostra aborrecer.

 

— Amar há três dias?... pensou o ciumento do primo; há três dias viu ela Otávio no teatro?... mas como é que a mãe o detesta, e o manda convidar para o sarau?...

 

E prestou dobrada atenção.

 

— Mas por que tanto ódio, meu pensamento?...

 

— Porque diz que é indigno de mim, e que eu me não devo ocupar com ele; oh! isto já me aborrece!... talvez que em breve vá descansar.

 

— Sim!... estimarei bem.

 

— Sou capaz de, em menos de dois meses, estar casada com meu primo Félix.

 

— E ele que te há de amar tanto!

 

— Por certo; morre por mim.

 

— Disseram-me que é excessivamente ciumento.

 

— Sim... sim... mas embora; ainda quando lhe não tivesse amor algum casar-me-ia com ele, só para ver-me livre do mau gênio de minha mãe; ora... só o ódio que ela vota ao meu querido...

 

— A quem?... a teu primo?...

 

— Não: quando eu digo meu querido deves adivinhar que não é a meu primo que me refiro.

 

— Ah!... disse a vizinha de D. Rosa; porém, como ainda me não disseste o nome...

 

— É que o seu nome não tem nada com o amor que eu lhe tenho.

 

Félix começava a sentir-se cada vez mais curioso.

 

— Pois bem, começou D. Rosa, como te eu dizia, minha mãe vota-lhe um ódio de morte; diz que por causa dele não coso, não bordo, e não estudo piano há três dias.

 

— Que injustiça!...

 

— É verdade! então ele, que gosta tanto de me ouvir tocar!... uma vez, quando levantei-me do piano, ele estava ao pé de mim, sem que eu saiba ainda como pôde entrar na sala; e sabes o que fez?... beijou-me a mão. 

 

— Que amor! disse a amiga.

 

Félix já estava realmente incomodado.

 

— Aí está! não diria isso minha mãe; não sei por que o detesta; ainda ontem, depois de ralhar comigo e de amaldiçoá-lo, perguntou-me, afetando um sorriso irônico: “por que te não casas com ele?...

 

— Que mau gênio de senhora!...

 

— Ainda mais, a todo o momento o chama desenxabido e feio.

 

— Outra injustiça, não é assim, meu pensamento?...

 

— Sem dúvida; e respondo chamando o teu testemunho: dize, meu pensamento, serão feios aqueles olhos vivos e travessos, será feio aquele rosto redondo e branco?... serão feios aqueles pés tão pequeninos, e feias aquelas mãos tão finas e tão macias?... oh!... como deixar de amá-lo?...

 

— Bem se vê que tens toda a razão.

 

— Sim!... eu o amo... amo-o e muito! será um capricho, uma loucura; mas não posso passar sem ele... eu dou-lhe os meus sorrisos de dia e sonho com ele de noite!...

 

— Que paixão, meu pensamento!...

 

— E o mais é que eu entendo que tenho todo o direito de amar a quem bem me parecer...

 

— Eu também sou da sua opinião, meu pensamento: a vontade do cidadão é livre.

 

— Pois não é assim?... não se fala tanto em direitos e garantias?... quanto a mim, o direito e a garantia da mulher é amar a quem lhe agradar.

 

— Apoiado! meu pensamento, apoiadíssimo.

 

— Por conseqüência, minha mãe não me pode coagir a não amar o meu querido.      

 

— Não, decerto; isso seria uma suspensão de garantias...

 

— E, portanto, hei de amá-lo sempre, e cada vez mais...

 

— E fará muito bem.

 

— Quando vier tocar piano, deixarei a porta da sala aberta para que ele venha ouvir-me... e beijar-me a mão...

 

— Isso... isso...

 

— Em todas as tardes, enquanto a minha mãe dormir a sesta, eu e ele havemos de comer, no mesmo prato, do melhor doce que tivermos em casa...

 

— Assim, assim, meu pensamento.

 

— E, apesar de minha mãe, hei de sempre achar meios de acariciá-lo e de gozar suas carícias; ao levantar-me da cama... durante o dia... de noite mesmo, procurarei vê-lo... mostrarei que o amo.

 

— Ora, aí está como deveríamos ser todas nós... fortes... decididas...

 

O infeliz primo Félix já se não podia suster... suava ciúme por todos os poros do seu corpo.

 

— Agora minha mãe, para afligir-me, diz que quer ver se quando eu me casar, e for dona-de-casa, ainda farei as mesmas meiguices, e me portarei do mesmo modo com ele.

 

— E tu que pensas?

 

— Penso que posso muito bem, depois de casada, amá-lo como agora; penso que terei tempo de me ocupar dele, sendo mesmo dona-de-casa; penso, enfim, que me será fácil conseguir que meu marido me ame também.

 

— Eu também julgo tudo isso muito possível e natural.

 

— O meu querido!... o meu querido!... prosseguiu D. Rosa; ah!... mal podes conceber o susto que por causa dele passei ainda há pouco; eu te conto. Minha mãe mandou-me estudar a lição de piano; eu vim e apenas tinha tocado a introdução de uma peça, entrou ele pela porta da escada, que estava aberta, como agora, e, segundo seu costume de três dias, veio encostar sua linda cabeça no meu colo para ouvir-me tocar; mas cinco minutos não se haviam passado, quando senti os passos de minha mãe... ah!... não tive tempo, senão de entrar na alcova, e de escondê-lo atrás das cortinas do leito... então ele, que é tão medroso!...

 

— E depois?

 

— E depois, minha mãe não me deixou mais; vim para a janela para não fazê-la desconfiar, e, se o meu querido ainda não fugiu, vou agora dar-lhe escapula.

 

E D. Rosa voltou-se para ir abrir a porta da alcova, quando Félix ergueu-se e mostrou-se pálido, trêmulo e desfigurado.

 

— Ouvi tudo!... balbuciou ele a custo.

 

— Senhor!... meu primo!... exclamou a moça.

 

— Digo que eu estava ali, continuou o infeliz ciumento com voz rouca e sinistra, estava ali e ouvi tudo!... tudo!...

 

— Que quer dizer?... perguntou D. Rosa confusa.

 

— Quero dizer que, se há uma mulher que reúna em si quanta perfídia, quanta ingratidão, quanta astúcia e vileza tem vomitado o inferno, essa mulher... é a senhora.

 

— Senhor!...

 

— E a prova do que eu digo está bem perto de nós... vai mostrar-se já; porque eu vou abrir a porta desta alcova, e o infame há de aparecer para logo depois sair daqui... comigo.

 

D. Rosa soltou uma risada de escárnio.

 

— Escarneça!... escarneça!... mas o escárnio que me está lançando, há de ser lavado com o sangue do covarde!

 

E Félix dirigiu-se à porta da alcova.

 

— Um duelo?! exclamou D. Rosa com indizível expressão de ironia; um duelo?... nunca o acreditei tão intrépido.

 

— E será um duelo de morte?...

 

— Vergonha a quem recuar! disse a moça.

 

— Não serei eu! bradou Félix enfurecido.

 

— Vergonha a quem recuar!... repetiu a moça, abrindo em par as portas da alcova.

 

Félix avançou furioso para o leito...

 

Com as mãos trêmulas, correu as cortinas...

 

Olhou com olhos flamejantes de cólera.

 

Soltou uma gargalhada...

 

E entrou de novo na sala, trazendo o seu rival nos braços.

 

O querido de D. Rosa era o seu cachorrinho; o seu branco e felpudo dogue.

 

 

 

 

IX

 

Noites de visitas

 

Félix, com o dogue nos braços, alcançou para logo o perdão das parvoíces que haviam dito a Rosa, que recebeu, apertou contra o peito e beijou cem vezes o feliz felpudo animalzinho, pelo que já o padecente primo começava a fazer uma quadrinha imitante de outras por ele lidas, e principiava a dizer assim:

 

Quem me dera ser cachorro,

 Para...

 

Quando foi estagnada sua veia poética pela repentina chegada de Tomásia, que, ouvindo as risadas que há pouco tinham soado, vinha pedir a explicação delas. Encontrando o dogue nos braços de sua filha, seu rosto tomou expressão de cólera; mas cedo riu-se também com a melhor vontade, sabendo do qüiproquó de seu sobrinho, e em louvor de tal prometeu a Rosa fechar os olhos à sua paixão pelo cãozinho.

 

Félix, que já se achava mais a sangue-frio, reparou então que alguma novidade devia haver na casa de sua tia; a sala estava cuidadosamente ornada; havia flores frescas nos vasos, e velas ainda virgens nos castiçais; as duas senhoras mostravam-se vestidas no último apuro da mais afetada simplicidade.

 

— Então que quer dizer isto? perguntou ele; minha tia, eu aposto que se esperavam visitas aqui!

 

— E ninguém será tão louco que queira perder apostando contra ti, respondeu Tomásia, sentando-se com um cuidado admirável para não amarrotar o vestido.

 

— Mas quem são, portanto, as pessoas que se devem mostrar hoje?... eu quero saber se me cumpre fugir ou ficar.

 

— Fica, fica, meu Félix, ao menos para me ajudares a sofrer com paciência as parvoíces do Sr. Estanislau, de sua terrível metade, desenxabida filha, e malcriado filho... eu bem me não quero meter com semelhante gente... são as amizades de meu marido.

 

— Porém, minha mãe, disse Rosa, em compensação meu primo apreciará a sociedade de D. Mafalda, que sem dúvida traz consigo a lindeza de sua sobrinha.

 

— Fico, minha prima, fico; ainda que seja só para ouvir D. Mafalda e ver D. Inácia.

 

— Pois o que tem de bom ouvir-se D. Mafalda? perguntou Tomásia.

 

— Muito, tiazinha; ela sabe e conta a crônica dos mortos, dos vivos, e até dos que ainda estão para nascer.

 

— E o que tem de bom ver D. Inácia? inquiriu Rosa sorrindo-se de antemão.

 

— Misericórdia!... minha prima!...

 

— Ora... estou vendo que o senhor não a queria...

 

— Oh!... se a queria! mas para ganhar minha vida, andando pelo mundo a mostrá-la como raridade; que carão, minha prima, que carão!...

 

— Quanto mais se ela não andasse de vestido tão comprido.

 

— Então por quê?

 

— Tem as pernas enormemente zambras, e um pé duas polegadas maior do que o outro.

 

— Bravo! que belo achado!

 

— Mas que é isto, meu primo, que alegria é essa?...

 

— Um feliz achado; um amigo meu se ocupa em escrever os Mistérios do Rio de Janeiro, e vou oferecer-lhe em D. Inácia, uma cambeta.

 

— Cala-te, língua má! disse por entre risadas de gosto Tomásia, cala-te e esperemos todos pelas nossas visitas.

 

No entanto, que estas cenas se passavam em casa de Venâncio, em duas outras casas estiveram desde as sete até às oito horas e meia da noite, demonstrando toda a sua paciência dois pobres homens, mártires da moda.

 

Porque, em verdade, não é um martírio; mas é a provação mais segura da paciência de um homem, o fazê-lo esperar por uma senhora, gamenha, que se veste para sair; assim como no fogo se prova o ouro e a prata, assim também nessa longa hora, em que o pai ou marido leva a bocejar, coçar a cabeça, passear pela sala e consultar o relógio, fica-lhe provada a santa virtude da paciência, e, o que é mais, são-lhe de justiça descontados boa meia dúzia de seus pequenos pecados.      

 

De ordinário as senhoras fazem voto de sair cedo de casa, pois que, principalmente entre as moças, não se conta uma só que não beba os ares por uma noite de teatro, de visita às amigas, ou de passeio pela Rua do Ouvidor; mas, quando se vêem defronte do toucador (aqui para nós, um toucador é a cachaça das moças) esquecem-se das horas que passam, e de lá se não desgrudam, sem que os pais ou maridos gritem por elas cem vezes, de cansados de esperar que se acham.

 

Há, no entanto, duas cenas sobremaneira apreciáveis: aqui se vê um homem que, apertado dentro de sua casaca e enforcado por sua gravata, passeia impaciente ao longo da sala; lá, uma ou meia dúzia de moças, que, firmes ante o toucador, dão graças à natureza, pois não há nenhuma que se não julgue bonita, e arengam e gritam com as escravas e criadas para que as apertem até o ponto de sufocá-las.

 

Na sala, o pobre homem exclama de momento a momento: “andem, senhoras! venham meninas! pois ainda não estão prontas?”... do toucador responde umas delas: “já vamos, meu paizinho! estamos pondo os anéis” e ainda lhes falta todo o ânimo preciso para afastar-se defronte do feiticeiro toucador... e ainda elas se ocupam em beliscar as orelhas para torná-las vermelhas, em morder os lábios para fazê-los rubros, em preparar certo mover neles para fingir um sorriso, com que derrotem, quem o merecer, e ensaiar um  quebrar de olhos com que ponham em fino cascalho o coração mais de pedra que lhes venha à mente conquistar.

 

Finalmente, depois que na sala muito se esperou e se gritou, sai a senhora do toucador, exclamando que não se pode aturar um homem rabujento, e as meninas confessando em segredo que seu paizinho, à medida que se vai fazendo mais velho, se está tornando mais impertinente. Ainda ao descer a escada, e mesmo da porta da rua, elas voltam ou mandam buscar o vidro de essência de rosas, a flor, o leque, o lencinho escolhido e outras coisinhas, de que ordinariamente se esquecem para lembrar-se nesse lugar o que não deixa de ter seu mérito no grande tom. Em resultado é sempre uma vitória de peso o vê-las em ordem de marcha. As senhoras negam estas observações; mas... respondam os mártires. Foi pouco mais ou menos isto mesmo o que se passou com o Sr. Estanislau, e com Brás-mimoso, que tinha  sido convidado para acompanhar D. Mafalda.

 

Às oito horas e meia da noite chegaram as visitas com diferença de minutos uma da outra. Escusado é dizer que muito tempo gastaram as senhoras em dar-se muitos beijos, e em dizer-se mil coisinhas muito lisonjeiras, de que no interior elas mesmas se estavam rindo por havê-las dito.

 

Achavam-se, pois, presentes o Sr. Estanislau com sua mulher, filha e filho; o Sr. Brás-mimoso com D. Mafalda, e D. Inácia; e Venâncio, Tomásia, Rosa e Félix.

 

Manduca tinha ido a um teatrinho de bonecos; divertimento de que era muitíssimo apaixonado.

 

Depois de sentados na sala, a sessão começou, como era de esperar, pela apresentação da recém-nascida, que foi trazida e mostrada a todos, passando pelo colo de todas as senhoras, recebendo um beijinho de cada uma delas.

 

— Dou-lhe os parabéns, Sr.ª D. Tomásia, disse D. Carlota, que assim se chamava a mulher de Estanislau; sua filha é um perfeito cupidinho.

 

— E que viveza, minha senhora!... quando me vê já estende os bracinhos e move com os lábios, como para dizer — mamãe; olhe — Má já ela chegou a dizer ontem à tarde... é o meu encanto... ri-se... brinca... conhece a todos de casa... não chora de noite... enfim, não é por ser minha filha, mas eu nunca vi criança como esta.

 

— Isso é verdade... eu nunca vi criança como esta, disse automaticamente Venâncio.

 

— Com quem se parece, Sr. Estanislau?...

 

O Sr. Estanislau, na verdade que quando a criança lhe fora apresentada, havia dito — que lindo anjinho! — mas, aqui para nós, nem de leve lhe reparara nas feições; todavia, ouvindo a pergunta de Tomásia, entendeu que deveria responder satisfatoriamente, e por isso disse sem hesitar:

 

— Ora, minha senhora... basta um rápido olhar para se reconhecer o retrato de V. S.ª no belo rosto daquele querubim!...

 

— Então Venâncio, não te tenho eu dito que esta menina é o meu retrato?...

 

— Basta vê-la, Tomási, eu penso do mesmo modo.

 

— Olhem... exclamou Tomásia... olhem como ela chupa o dedo!... que graça! que encanto!... quer mamar e não chora: uma outra criança já nos teria ensurdecido com seus vagidos; leva-a rapariga, leva-a com cuidado e dá-lhe de mamar; por esta vez...

 

— As crianças deste tempo, disse D. Mafalda, são todas vivas e maliciosas logo que nascem; desde que se proclamou a constituição não se vê mais criança tola.

 

— Tomara eu que chegasse o dia do batizado!...

 

— Por falar no batizado, já sei que se deve achar em trabalhos com o seu baile.

 

— O certo é que me tenho visto doida com pedidos de convites!

 

— A propósito, minha tia, disse Félix, devo dar-lhe conta de minha comissão.

 

— De que comissão me falas, sobrinho?

 

— Do convite que me obriguei a oferecer ao Sr. Hugo de Mendonça.

 

— O Sr. Hugo de Mendonça?... disse Estanislau; é o homem de quem te falei, minha Carlota.

 

— O homem que tem uma filha que diz ser bonita?...

 

— Esse mesmo.       

 

— O pai da jovem a quem chamam romântica?... perguntou D. Rita, filha de Estanislau.

 

— Exatamente, respondeu Félix.

 

— Mas que tem ela para se chamar romântica?... tornou Carlota.

 

— Eu não sei; ainda não a vi.

 

— Eu já tive a honra inapreciável de vê-la, disse com ar meio irônico a sobrinha de D. Mafalda.

 

— E então?...

 

— E então?...

 

— Pinte-nos esse belo anjinho.

 

Todos se voltaram para D. Inácia e fizeram voto de lhes prestar a maior atenção. Brás-mimoso era, porém, da roda, o que se via mais atrapalhado: o filho de Estanislau, menino de sete anos, o rapazinho mais espirituoso do Rio de Janeiro, como supunha Carlota, o não deixava parar; empregava todo o seu espírito em incomodar o pobre homem; havia principalmente implicado com a corrente do relógio e com os belos cachos da postiça cabeleira de Brás-mimoso.

 

— Espere, nhonhô... Sr. Juca... espere, disse ele.

 

— Aquieta-te, Juca... olha que eu te prendo em uma cadeira, acudiu Estanislau.

 

— Estanislau, deixa a criança, exclamou Carlota; tu sabes como o Sr. Brás ama o nosso Juca... aposto eu, que ele está gostando... Juca é tão engraçado...

 

— Sem dúvida, tornou Brás-mimoso meio desapontado, eu gosto muito dele... venha, Sr. Juca... sente-se aqui no meu colo.

 

O Juca não esperou segundo convite; sentou-se no colo de Brás-mimoso que, para vingar-se do menino, que com as mãos lhe torcia a corrente do relógio e com os botins lhe esfregava as calças, deu-lhe um comprido beijo na face, fitando os olhos em D. Rita.

 

— Mas, meus encantos, disse Rosa a D. Inácia, a romântica, a romântica?...

 

— A romântica... é... uma moça.

 

— Até aí sabemos nós; falta o essencial: principiemos pela idade quantos anos tem?...

 

— Não lhe vi ainda a certidão de batismo; a tal respeito não será bom fiarmo-nos no que ela disser.

 

— É bonita?...

 

— Isso é conforme... para mim todas são bonitas.

 

— Ora...

 

— Ora, não; se quiserem, o que eu posso fazer é dar os princípios, e depois podem as senhoras tirar a conseqüência.

 

— Pois comece, meus encantos; não vê a nossa ansiedade?...

 

— Começarei pelos cabelos... são negros... negros de meter medo!...

 

— Lisos ou crespos?...

 

— Não se conhece bem... parecem crespos; mas assim uns crespos à custa de muito trabalho...

 

— Curtos?...

 

— Não serão curtos; mas logo se adivinha que ela há de vir a ser calva.

 

— Oh! exclamavam todas as senhoras a um tempo, isso é horrível!...

 

— A testa, continuou D. Inácia, é alta; mas sem nobreza...

 

— Antes fosse baixa... isso é já um defeito, acudiu Rita, uma testa alta sem nobreza... vejam só como há de ser.

 

— Os olhos?...

 

— Os olhos... na verdade que são grandes e pretos; mas ao mesmo tempo são amortecidos... requebrados...

 

— Santa Bárbara! gritou D. Carlota, olhos requebrados são coisas muito indecentes... antes ser cega...

 

— O nariz... não pequeno... é afilado... a falar seriamente, eu não julgo o nariz dela bem-feito.

 

— Eu faço idéia, disse D. Rosa, dando uma risada.

 

— Os lábios são rubros... quando ela os morde... é um hábito que ela tem desde criança.

 

— Olhem que tal!... assim todos têm lábios bonitos.

 

— Os dentes muito brancos... ora este excesso...

 

— É um sinal de tísica pulmonar complicada com tubérculos pulmonares, acudiu Tomásia.

 

— O queixo... eu não me lembro bem se ela tem queixo!

 

As senhoras desataram a rir.

 

— A tez é branca, muito branca... não é amarela; mas também ela não tem a palidez da moda... a palidez romântica...

 

— É uma cor sem alma.

 

— Isso mesmo, minha mãe; o colo não é lá essas coisas... os braços podiam ser mais bem-feitos... as mãos um pouco mais brancas... os dedos... os dedos tão finos que causam pena...

 

— Adiante, adiante, meus encantos.

 

— Que direi mais... meus encantos, você bem sabe que o corpo se arranja muito bem com algodão, saias e vestidos, de modo que só parece mal feita quem quer assim parecer.

 

— Por conseqüência?... perguntou Félix rindo-se.

 

— Há de ser calva, disse uma.

 

— Tem olhos indecentes, disse a outra.

 

— Não é bonita.

 

— É feia.

 

— É horrível.

 

— Não, não, tornou D. Inácia, ela não é lá essas coisas que querem dizer; mas também não consinto que a julguem horrível... olhem, eu simpatizei com ela; talvez seja suspeita por isso; pois quem simpatiza com uma moça, sempre a julga melhor do que na verdade é.

 

— Pois bem, disse Rosa, nós a veremos em poucos dias; porque não creio que seu pai rejeitasse o convite que levou meu primo.

 

— Ah! acudiu Tomásia; é verdade, Félix, vamos ao resultado da tua comissão.

 

— Foi uma batalha, minha tia.

 

— Como?...

 

— É o caso que a mãe do Sr. Hugo de Mendonça detesta os bailes, tanto como qualquer outro progresso nacional, e por conseqüência opôs-se furiosamente à aceitação do convite.

 

— Então tem o atrevimento de rejeitar?

 

— Ela por certo que não virá ao sarau de minha tia.

 

— Também não se precisa de semelhante original; e o Sr. Hugo?...

 

— Finalmente aceitou o convite, depois de uma discussão de duas horas, em que a Sr.ª Ema de Mendonça saiu fora da ordem mais de cem vezes.

 

Um grito de Brás-mimoso interrompeu a Félix. Todos olharam: o mais extravagante sucesso tinha acontecido ao infeliz gamenho; o Juca, que não lhe havia mais deixado o colo, e que tinha passado o divertimento de suas mãos da corrente do relógio exclusivamente para os cabelos emprestados de Brás-mimoso, em um dos arrancos que lhes deu, atirou a cabeleira ao meio da sala, de modo que a linda calva de Brás-mimoso ficou patente aos olhos de toda a sociedade.

 

Seguiu-se um momento de contração de risadas.

 

Um outro de hilaridade prolongada.

 

Enfim, Estanislau passou a repreender o Juca; quando, porém, se dispunha a pô-lo de penitência em uma cadeira, Carlota chamou para junto de si o filho e deu-lhe três beijos seguidos, como mãe muito boa e extremosa que era.

 

Enquanto Brás-mimoso concertava a cabeleira, chegou o chá.

 

Depois do chá D. Inácia cantou uma modinha, D. Rita um romance, e Brás-mimoso um lundu.

 

Às onze horas as senhoras levantaram-se para retirar-se, às onze horas e meia chegaram ao topo da escada, e alguns minutos depois da meia-noite desceram a escada, voltando ainda D. Rita para dar um beijo na filhinha de Tomásia.

 

Na primeira esquina, as duas famílias deviam separar-se. Aí conversaram ainda boa meia hora; entre muitas coisas disse D. Carlota:

 

— Aquela D. Tomásia é a velha mais tola e vaidosa que conheço.

 

— É uma amizade que a gente entretém para não dar que falar, disse D. Mafalda; quanto ao mais, direi que só o pobre do Venâncio podia aturar semelhante bicho.

 

— E a tonta da filha? disse D. Rita.

 

— É uma víbora, acudiu D. Inácia; é o retrato da mãe.

 

— Leva de má língua, disse Estanislau; vamos, que é quase uma hora.

 

Separadas que foram as duas famílias, cada qual conversou como pôde.

 

— Estanislau, disse D. Carlota, que peça importante é esta D. Mafalda! que língua venenosa que tem!

 

— Meu paizinho, e a filha dela? é a moça mais estúpida com quem tenho conversado.

 

— Oh! Sr. Brás, dizia na outra rua D. Mafalda, já viu mulher como aquela D. Carlota?... enfim, tem os mesmos costumes da avó e da mãe, que por minha desgraça conheci: é uma família de mexeriqueiros.

 

— E D. Rita, mamãe?... dizia também D. Inácia, que desenxabida maitaca!... que cascavel! não se cala um instante.

 

— E o Juca, minhas senhoras, respondia Brás-mimoso, que menino malcriado!

 

Chegando à porta da casa, Brás-mimoso despediu-se das senhoras. Apenas havia voltado as costas:

 

— De que empada nos fizemos acompanhar, Inácia!... disse D. Mafalda.

 

E Brás-mimoso ia pela rua, dizendo consigo:

 

— Oh! que duas pamonhas eu aturei eu esta noite!...

 

Em casa de Venâncio, Tomásia havia exclamado apenas as visitas saíram:

 

— Que duas velhas tão detestáveis!...

 

E Rosa tinha dito:

 

— Que duas moças tão impertinentes e feias!

 

Venâncio exclamou coçando a cabeça:

 

— Que maçada!

 

 

 

 

X

 

O cabeleireiro

 

 

Tinham soado quatro horas da tarde do dia em que devia ter lugar o sarau de Tomásia. No gabinete de vestir de Honorina achavam-se duas pessoas: ela, que esperava pelo cabeleireiro que tinha de toucá-la, e Lúcia, que, no entanto, a distraía conversando.

 

A mãe Lúcia, como Honorina chamava, era uma mulher de mais de quarenta anos, alta, gorda, cheia de saúde e vivacidade, havia nascido longe da corte, e perto de uma das fazendas do pai de Hugo, por quem fora convidada para servir de ama-de-leite ao pequeno Lauro de Mendonça. Lúcia, que nada tinha de seu, e aos vinte anos de idade, que então fazia, acabava de perder, quase ao mesmo tempo, o marido, que a amparava, e uma filhinha de três meses, que ternamente amava, aceitou sem hesitar o convite; prudente, sossegada e carinhosa, amamentou com tanto amor, com tantos desvelos o pequeno Lauro, que mereceu e teve a gratidão e amizade da família dele. Graças à solicitude de Raul de Mendonça (pai de Hugo), casou-se Lúcia pela segunda vez, e, dando à luz uma menina exatamente na mesma época em que nasceu Honorina, soube com esta repartir o leite de seu filho; mas, roubando-lhe a morte também este, concentrou todos os seus cuidados e amor na menina que a seus seios confiaram. Alguns anos depois ficou de novo viúva, e só no mundo; e então a família Mendonça a recebeu para sempre em sua casa.

 

Tanta amizade, tanta confiança merecia essa mulher de toda a família, que a muitos pareceria uma parenta dos Mendonça; a sua voz é naquela casa atendida, os seus desejos estudados e sempre satisfeitos; ainda na véspera do dia em que se passa este capítulo, uma simples insinuação de Lúcia bastou para que Hugo mandasse admitir entre os caixeiros do seu armazém um menino, a quem nunca tinha visto, mas que a ama de sua filha apresentou como seu sobrinho.

 

Tendo dado uma sucinta idéia da mãe Lúcia, iremos agora acompanhar com ela a linda moça que espera pelo cabeleireiro.

 

— Mas tu vês, mãe Lúcia, disse Honorina, que assim tenho por força de aparecer no sarau malvestida e mal toucada, de modo que todos se hão de rir de mim.

 

— Oh! não tenha medo disso, Sr.ª D. Honorina; com os olhos e rosto que tem, poderá causar inveja, mas não riso.

 

— Ora, mãe Lúcia!

 

— Além de que ainda temos tempo de sobra para tudo aquilo: às cinco horas chega o cabeleireiro, às seis estará penteada, às sete vestida, e em uma hora poderá chegar à corte.

 

— Porém, sempre foi bem má lembrança de minha avó o exigir que eu me preparasse e vestisse para o sarau aqui, em vez de o ir fazer na corte, mesmo em casa de Raquel.

 

— O que quer?... a nossa boa velha tem suas idéias, mais ou menos extravagantes; não ouviu o que ela disse?... fora de mim carregar-te-ão com essas modas e enfeites indecentes, de que terás vergonha de ti própria!... A Sr.ª D. Ema está exatamente no ponto em que estava há cinqüenta anos atrás.    

 

— É verdade, mãe Lúcia, e o ódio que ela vota a meu primo!... é um ódio tão elevado, como só o é também o amor que lhe tens!

 

— Pois então, menina?... ele como a senhora beberam o leite dos meus peitos, disse Lúcia enxugando uma lágrima; e não é justo que se ame, como a filhos, as crianças que mamam o nosso leite?

 

— Agradecida, mãe Lúcia, agradecida! também pela minha parte eu te amo tanto como meu primo.

 

— Oh! o Sr. Lauro me amava muito!

 

— E eu, mãe Lúcia, e eu?

 

— Também, também! mas o Sr. Lauro...

 

— Sim... é porque tu o amas muito mais do que a mim, disse a moça tristemente.

 

— Não Sr.ª D. Honorina; mas é porque se deve mais ternura aos que estão ausentes; a senhora lembra-se dele?...

 

— Eu era tão pequena quando ele partiu...

 

— E que amor que ele lhe tinha, menina!... parecia seu irmão!...

 

Nesse momento uma escrava apareceu e anunciou a chegada do cabeleireiro.

 

— Ah!... que entre!... exclamou Honorina desabafando um suspiro e arranjando-se para logo defronte do toucador.

 

O cabeleireiro entrou; era um moço alto, vestido à fantasia, isto é, trazia uma coisa que ficava entre a casaca e sobrecasaca, de cor verde, enfiada e segura pelos braços; a gravata era amarela, o colete vermelho com botões de metal dourado, as calças roxas, e calçava botis de duraque de cor questionável com ponteira envernizada; quanto ao seu parecer, o cabeleireiro tinha os cabelos excessivamente ruivos, trazia óculos, e o seu rosto era tão rubro que parecia usar carmim.

 

Depois de cumprimentar as senhoras com respeitoso movimento de cabeça, colocou-se em posição de começar o seu trabalho.

 

— Faço mal conversar, enquanto me penteio?... perguntou a moça.

 

O cabeleireiro fez um movimento que parecia querer dizer não; depois desatou a fita que prendia os cabelos de Honorina, e as bastas e negras madeixas da moça caíram como uma nuvem negra até ao chão. Honorina tinha as costas voltadas para o cabeleireiro; Lúcia olhava com prazer inefável para os cabelos da querida filha do seu leite, e por isso nenhuma das duas viu através dos vidros dos óculos do mancebo, o fogo que de seus olhos lançava, como querendo devorar eles tão precioso tesouro.

 

— Pois que não faz mal conversar enquanto me penteio, disse Honorina, podemos continuar, mãe Lúcia.

 

— Pois sim, Sr.ª D. Honorina, eu lhe dizia que o Sr. Lauro a amava muito, e lhe perguntava se se lembrava dele.

 

— Eu te dizia que não, mãe Lúcia, isto é, de sua figura me não lembro nada, mas da sua amizade, sim, conservo ainda bem agradáveis recordações!

 

— É possível?...

 

— Mas não é bem verdade que nós nos lembramos sempre docemente do que conosco se passou no tempo da nossa infância?

 

— Certamente.

 

— E, portanto, é por isso que eu me recordo de muitas coisas passadas então comigo, com minha mãe, e contigo mãe Lúcia, com as minhas camaradas, e com meu primo.

 

— Também com ele?... ora...

 

— Então duvidas de mim, mãe Lúcia? pois eu podia provar-te já que é verdade o que digo... eu me lembro de mil pequeninos episódios...

 

— Passados com o Sr. Lauro?

 

— Sim... também com ele; olha... sim, por exemplo..., a boneca cor-de-rosa...

 

— E então a boneca cor-de-rosa?...

 

— Eu te conto. Não sei que idade deveria eu ter — ai!... senhor, não me puxe assim os cabelos! mas eu era bem pequenina, bem travessa, e, segundo o que dizem, bem engraçada; falava como um papagaio; ora, tu, mãe Lúcia, para me fazeres adormecer, costumavas embalar-me, cantando uma balada, ou o que quer que seja, uma cantiga enfim: tão fácil era a música, e tantas vezes a havias cantado embalando-me, que eu já a tinha de cor, e a cantava também com minha graça infantil; riam-se tanto de me ouvir cantar, que me faziam repetir vinte vezes por dia a tal cantiga; meu primo era insaciável; apesar do meu gênio condescendente, um dia já de tão cansada que estava, teimei, e não quis cantar para ele ouvir. Ele fingiu-se enfadado. Chamou-me feia, tola, e disse-me que já tinha outra prima mais bonita do que eu, e que no dia seguinte lhe compraria uma boneca; ora, eu era louca por bonecas... Mas o senhor o que faz? está parado... não me penteia... há mais de meia hora que tenho os cabelos soltos!... Mãe Lúcia, faça que ele me penteie.

 

Com efeito, o cabeleireiro estava em enlevada contemplação: o colo de alabastro de Honorina, todo nu e alvejando debaixo dos seus olhos, lhe havia feito esquecer o pente e o dever do seu ministério; já mesmo tinha levantado os óculos sobre a fronte, e com vistas ardentes atentava as perfeições do colo da moça. Ouvindo a observação que lhe era dirigida, ele, sempre em teimosa mudez, não pronunciou uma só palavra, e continuou o trabalho que havia, talvez sem querer, interrompido.

 

— Ande, senhora, disse Lúcia; havia-se depressa.

 

Senhora D. Honorina, continue a sua história.

 

— No outro dia, às horas do jantar, meu primo apareceu, trazendo uma boneca de vestido cor-de-rosa; apenas a vi, lembrei-me da cena passada; mas sentida do que ele fazia, e que eu julguei um insulto, despeitada e talvez um pouco ciumenta, olhei para a boneca e não lha pedi.

 

— Então, Honorina, disse-me minha mãe, não é tua aquela boneca?...

 

— Não, minha mãe, respondi eu, é da prima bonita dele.

 

— Sem querer, meus olhos se encheram de lágrimas; mas meu primo Lauro fingiu que não me via chorar. Acabado o jantar, Lauro disse que ia guardar a boneca para levá-la de noite à sua prima, e entrou para o seu quarto; depois saiu... e desapareceu. Eu me sentia ansiosa por conseguir tão linda boneca; meus olhos não se podiam arrancar da porta do quarto de meu primo; minha mãe, que estava lendo o meu coração, disse:

 

— Honorina, vai furtar a boneca da prima bonita de Lauro.

 

— Eu achei tão justo e agradável o conselho de minha mãe, que entrei correndo no quarto de meu primo.

 

Havia no fundo do quarto uma espécie de altar; Lauro tinha feito da colcha da sua cama uma cortina, que caía até baixo, tapando a frente de uma mesa, no fundo da qual eu vi a boneca.

 

“Muito pequena para chegar até lá, eu arrastei uma cadeira, trepei e fui pegar na boneca; mas, quando a minha mão estava quase tocando-a, ela ergueu-se acima da minha mão... levantei esta... a boneca abaixou-se... abaixei a mão... ela fugiu para um lado... persegui-a ali, e ela escapou-se para o outro!... espantada... supondo-me só no quarto... eu recuei... dei um grito, e corri para onde estava minha mãe... — ora... ora... isto é demais!... mãe Lúcia, este homem está beijando os meus cabelos!...”

 

— Senhor!... exclamou Lúcia erguendo-se.

 

O cabeleireiro não fez o menor movimento; tinha com efeito beijado duas ou três vezes alguns anéis das belas madeixas de Honorina; mas, conhecendo que ela se ofendia com isso, continuou a penteá-la, sempre sem dizer palavra.

 

— Porém, mãe Lúcia, não é isto ousadia demais?...

 

— Provavelmente ele não quis ofendê-la com tal ação; se a senhora visse como o rosto do pobre homem está exprimindo dor tão pungente...

 

— Está bem, mãe Lúcia, não lhe digamos nada; coitado! é um estrangeiro, que ignora os nossos costumes. Eu creio que ele não sabe uma palavra do português: ainda não disse nada.

 

— Eu também penso do mesmo modo, disse Lúcia, mas vamos à conclusão da história.

 

— Sim, continuou Honorina; eu corri para minha mãe, e contei assustada o que acabava de acontecer-me, assegurando que a boneca era encantada; minha mãe, contrafazendo-se para não se rir, disse-me que sabia um segredo para destruir o encanto da boneca, e depois de me ouvir instar muito para que mo dissesse, depois de me ver beijá-la e abraçá-la mil vezes, ensinou-me que fosse outra vez ao quarto e que, subindo na cadeira, cantasse defronte da boneca a minha cantiga; eu olhei para minha mãe, como quem duvidava; mas tanto ela insistiu e me assegurou que com isso seria destruído o encanto, tantas vezes me repetiu as mesmas palavras, que acabei por acreditar e entrei de novo, posto que menos apressada, no quarto de meu primo.

 

— E então?...

 

— Entre a dúvida e a esperança coloquei-me defronte da boneca e comecei a cantar tremendo...

 

“Eu a vi fazer um movimento para mim...

 

“Quase que soltei um grito... pouco depois, já mais animada continuei... cantei o segundo verso...

 

“A boneca aproximou-se algumas polegadas do meu lado...

 

“O meu espanto só podia ser igualado pelo meu prazer; apesar da comoção que sentia, cantei ainda... cantei sempre... cantei até ao fim...

 

“E a boneca ainda se veio chegando... sempre mais... sempre mais... até que ao terminar a minha cantiga, estendi os braços e prendi-a entre as minhas mãos. Então eu pude ver que alguns arames sustinham a boneca em pé, e que diversos cordões, que se perdiam por baixo da mesa tinham servido, não sei como, para fazê-la mover-se em diferentes sentidos; desatei esses cordões, livrei a minha boneca dos arames, e abraçada com ela ia saltar da cadeira, quando caí nos braços de meu primo, que me cobriu de beijos... oh! mãe Lúcia! todo aquele encanto de arames e cordões era ele que tinha ideado... ele não tinha prima bonita... a boneca tinha sido comprada de propósito para mim.

 

— E depois?...

 

— Nós fizemos as pazes, e eu lhe cantava todos os dias a minha cantiga... Ai!... oh!... mãe Lúcia, este homem me cortou uma porção de cabelos!...

 

— Senhor! exclamou Lúcia.

 

— Senhor! disse a moça fazendo-se cor de nácar, saiba que eu amo muito os meus cabelos para consentir que eles sejam assim cortados contra minha vontade! Mãe Lúcia, onde está meu pai?...

 

— Ainda não veio, senhora.

 

— Pois devo eu estar sofrendo as loucuras deste homem?... eu juro que ele não é cabeleireiro... ainda tenho os cabelos soltos!... oh!... será possível que Raquel me mandasse cá semelhante homem para me pentear?...

 

O cabeleireiro, sempre silencioso e parecendo não compreender coisa alguma do que a moça estava dizendo, depois de guardar furtivamente no bolso da sua casaca ou sobrecasaca um belo anel de madeixa, ia continuar, quando Honorina se levantou; a moça estava rubra de despeito.

 

— Senhor, quero saber se me quer pentear ou não?... se quer, já o podia ter feito, se o não sabe fazer, deixe-nos.

 

Nada mais encantador do que a figura graciosa de Honorina: com uma mão pousada sobre o encosto da cadeira, em que estivera assentada, com os seus cabelos caídos até à altura dos joelhos, com as faces fortemente enrubescidas, ela encarava com olhos de despeito o homem que se atrevera a cortar-lhe um anel das suas belas madeixas.

 

O insolente cabeleireiro a princípio pareceu comovido por tantos encantos; depois, sempre sem dizer palavra, tomou o chapéu, cortejou as duas senhoras e foi saindo sem cerimônia alguma, e sem mesmo cuidar em apanhar um papel, que do seio lhe caiu.

 

— Então ele se vai, mãe Lúcia?...

 

— Parece que sim...

 

— Será crível!... que homem é este?...

 

— Olhe, Sr.ª D. Honorina, ele deixou cair um papel... vejamos.

 

— Dá-mo.

 

— Ei-lo.

 

Honorina abriu o papel e soltou um grito.

 

— Que é isto? perguntou Lúcia.

 

— É ele, mãe Lúcia, é ele!...

 

— Ele quem?... ele quem?... diga!...

 

— O desconhecido que jurou amar-me! o desconhecido de quem te falei!...

 

— Meu Deus!... e o que diz ele?...

 

— Ouve, respondeu Honorina, lendo o que estava escrito naquele papel: “Honorina!... perdoa, se te roubei um anel de madeixas, mas eu te amo! eu te amo com esse amor de poeta, com esse amor de fogo, que ainda quando acaba na desgraça e na morte, contanto que seja sempre o mesmo amor, é por força bem belo!...”

 

— Oh! mas isto é já uma loucura!... balbuciou Honorina.

 

— É admirável!... porém aquele que se esconde no mistério é um homem de quem se deve fugir.

 

— Sim, mãe Lúcia, disse automaticamente a moça, é um homem de quem se deve fugir.

 

E, deixando-se insensivelmente sentar na cadeira, Honorina pareceu entregar-se à mais profunda meditação.

 

Era de ver-se essa jovem tão bela e tão interessante caída nessa posição desleixada, e tão fechada consigo mesma no íntimo de seus ocultos pensamentos; pálida, como a sombra da mais linda virgem refletida em água de fonte sossegada; com as mãos esquecidas sobre o colo; com seus cabelos espalhados e soltos negligentemente; com seus belos olhos desmaiados em doce quebrantamento; e em todo o seu semblante, com traços ligeiros dessa melancolia inefável, que tanto pode nos corações!

 

Lúcia olhava em silêncio para Honorina... parecia querer adivinhar seus pensamentos na expressão de seu rosto... bebê-los no ar que ela, respirando, deixava sair embalsamado por entre seus lábios cor-de-rosa.

 

No fim de um quarto de hora a moça levantou a cabeça e com as mãos afastou para trás das orelhas as aneladas madeixas, que lhe brincavam nas faces; estava então perigosamente fascinadora! era já absolutamente outra!... via-se sua fronte umedecida por leve suor, em seus olhos brilhava fogo celeste... suas faces mostravam-se brandamente coradas... suas narinas um pouco dilatadas... e pelos lábios, entreabertos, escapava-lhe respiração difícil e quase suspirante, que lhe agitava o seio, como se se sujeitasse a repetidos choques elétricos, de momento a momento estremecia; depois de alguns instantes mais, ela passou a mão pela testa e, erguendo-se, desassossegada:

 

— O sarau!... exclamou, o sarau!... que se me penteie... que se me vista depressa!... eu preciso sair... eu quero respirar o ar livre... e depois esquecer-me do mundo e de mim mesma na embriaguez de uma noite de prazeres ruidosos!... Mãe Lúcia, a minha cabeça me está ardendo! eu tenho nela alguma coisa que me queima... que me devora... que pode enlouquecer-me de um instante para outro!...

 

— Menina!...

 

— Que me penteiem!... que me vistam depressa!...

 

— Então será preciso mandar vir outro cabeleireiro...

 

— Oh!... quanto tempo perdido!... mas é impossível que fosse Raquel quem me mandasse aquele homem!... é impossível que se ela tenha ligado com ele para conspirar contra o meu sossego!...

 

— Um cabeleireiro, que vem da parte da Sr.ª Raquel, disse uma escrava, aparecendo na porta do gabinete.

 

— Que entre! exclamou a moça; mãe Lúcia... não foi, portanto, Raquel quem o mandou cá...

 

O cabeleireiro entrou; a moça estava perfeitamente toucada uma hora depois.

 

No entanto, o primeiro cabeleireiro, que havia estado com Honorina, pouco depois de ter saído da casa dela, buscou apressadamente o ponto da praia, onde em Niterói se encontram as faluas; aí cercado e perseguido pelos patrões e remadores, que à porfia lhe ofereciam seus batéis, o mancebo livrou-se deles, empurrando-os para os lados, e, saltando dentro da primeira falua que viu, gritou:

 

— Para a corte! velas ao vento, remos ao mar! e uma boa molhadura, se curta for a viagem!...

 

Meia hora depois o mancebo desembarcava no cais da rua fresca, devendo apenas notar-se que, com a pressa com que saltou fora do batel, desarranjou-se-lhe a cabeleira ruiva que trazia, e ele, para não demorar-se concertando-a, arrancou-a, e guardou-a no bolso da casaca.

 

 

 

 

XI

 

O sarau de Tomásia

 

 

Este mundo é grande campo, esta vida uma longa batalha, mercê de quem todos se combatem, embora a cada espécie e ainda a cada sexo caiba seu gênero de peleja particular, assim como a cada classe sua estratégia peculiar. Os homens, que têm para si tomado o que há de mais grave e talvez de mais difícil na ordem da sociedade, se dão batalha por diversos modos: e, pois, o político se bate no parlamento e nas ante-salas de palácio; o diplomata nos brilhantes salões; o literato no prelo; os artistas nas exposições etc. As senhoras não podiam deixar de ter no mundo o seu campo de guerra; elas o tem, o mote de todas é um só quero agradar, e o triunfo de uma significa a derrota de todas as outras.

 

Elas pelejam mostrando-se. No teatro elas pelejam, mas no teatro só são vistas por metade; no passeio elas pelejam, mas no passeio só de relance se mostrarão; seu grande campo é, pois, a noite de sarau. Então, desde a flor do cabelo até o bico do sapato, tudo se ostenta. Então se luta; luta-se uma noite inteira espírito contra espírito, gracejo contra gracejo, ironia contra ironia; então se opõe seda a seda, jóia a jóia, brilhantismo a brilhantismo; então se dança e se canta, se olha e se sorri, se fala e se suspira com estudo, com arte e intenção. Uma flor vale ali uma espada, uma amiga serve às vezes de escudo, um leque pode falar de longe, um lenço branco vale mais que tudo isso.

 

E a batalha é geral: não há camarada nem parenta que não possa ser uma rival; às vezes é uma prima, uma irmã, mesmo a inimiga, a quem se hostiliza, a quem se não dá tréguas, a quem se faz oposição na sala e se persegue até na toilette.

 

E o triunfo?... o triunfo está na imaginação: ao entrar no carro, ao apear-se dele em casa, ao deitar-se no leito de repouso, a moça suspira fatigada, e diz — agradei! Eis sua vitória.

 

Pois uma dessas interessantes batalhas, em que damas são lidadores, e armas os encantos delas, se dava com vigor em casa de Venâncio.

 

Conceba-se agora uma espaçosa sala em que se deve dançar, uma outra mais curta onde se joga, um gabinete onde se há de tocar, uma escada gostosamente iluminada, pela qual sobem as senhoras para a toillete, uma sala que deverá ser a de jantar, e que ora nela se servem refrescos, e, enfim, ao lado dela um agradável terrado, cujos parapeitos estão cobertos de lindos vasos de flores, dos quais se pode gozar o aroma, sentado em bancos crivados de conchinhas brancas; e ter-se-á feito uma justa idéia da casa de Venâncio.

 

Conceba-se mais do belo ruído, toda a sublime desordem do começo de um sarau; as senhoras que chegam, os beijos que estalam lábio a lábio entre as camaradas que se encontram; o murmúrio das que criticam; os planos que se forjam nas rodas de moços; as quadrilhas que se engajam; as lisonjas que se dizem; as desculpas que se oferecem; e, sobretudo, os parabéns que recebe a Sr.ª D. Tomásia, e ter-se-á feito também justa idéia do que aí se passava pouco antes de começar o sarau.

 

Nesse tão forte ostentar de agrados e louçainhas, e entre as que mais se extremavam, via-se a madrinha da filha de Tomásia, D. Lucrécia, jovem viúva de vinte anos, orgulhosa de suas faces cor-de-rosa, de seu rosto fresco e belo, do interesse que lhe dava seu estado de viuvez tão prematuro, e que, cônscia de tais atrativos, ainda mais se deixava adormecer, sem cuidados do futuro, no seio da segurança e da felicidade que lhe prometiam seus avultados teres.

 

Tomásia não cabia em si de contente: havia umas poucas de razões, porque se julgava venturosa. Antes de tudo ela conhecia que jamais enganara com mais habilidade a si própria: com efeito, nunca tingira melhor seus cabelos brancos, nem até então lhe havia M.me Gudin cortado com mais feliz mão um vestido de seda; depois, Tomásia não deixava de ser mãe; via com orgulho sua querida filha, que, como toda a moça que tendo dezesseis anos não é feia e mostra-se espertinha, brilhava aos olhos da sociedade. Sem dúvida, Rosa fazia-se acompanhar em seus menores movimentos de boas duas dúzias de olhos masculinos, como conquistador, que em triunfo arrasta após si vencidos algemados, tão galantinha, tão faceira e (digamos em francês para mais agradar) tão coquette, que estava. 

 

Finalmente, Tomásia se dava alegremente parabéns pelo gosto e brilhantismo de sua festa; fosse como fosse, Venâncio arranjou-se o melhor que pôde; o dinheiro havia aparecido, e Brás-mimoso, que tinha dedo para negócios tais, forjara e estava executando um plano de sarau tão bem concebido, determinado, e posto em prática, que nada deixava a desejar.

 

A casa já se achava cheia de convidados, e a todos os momentos vinham chegando novos. Entre os jovens mais elegantes, primava Otávio. Tomásia o tinha recebido com a maior afabilidade, e Rosa com engraçado sorrir, posto que ambas já não contavam com ele: Félix as tinha precedentemente desanimado com a relação da amorosa inteligência, que se dava entre ele e D. Lucrécia; e também Otávio, que tanto olhara para Rosa no teatro, que a fora esperar à saída, e que até tomara nota da rua onde ela morava, nem uma só vez viera passar por defronte das janelas da moça, e nem mais se lembrara de seu lindo rosto moreno.

 

À vista de semelhante procedimento, Rosa tinha riscado o nome de Otávio da lista dos seus adoradores, e o olhava quase com indiferença, quase que com os mesmos olhos com que observava a multidão de moços que vinham entrando e espalhando-se pelas salas.

 

Às oito horas e um quarto da noite, pouco mais ou menos ouviu-se na sala um sussurro geral... os homens precipitaram-se para ver uma pessoa que entrava, as senhoras moveram-se todas... umas sorriram-se, outras estenderam os pescoços... foi, enfim, um movimento de curiosidade geralmente demonstrado por toda a assembléia.

 

Era Honorina que entrava.

 

A curiosidade, que tinha sido igual tanto nos homens como nas senhoras, nascia, porém, de um desejo absolutamente contrário; as senhoras desejavam dizer — é falso, e os homens — é verdade.

 

Não é uma ficção de romance. Uma moça, que dizem ser formosa e que chega a qualquer cidade, é pedida e desejada pelos olhos de todos; todos a querem ver, e no coração de todos se prepara um sentimento para ela, que antes da primeira vista apenas interrogativo. No coração das moças se pergunta: “será uma rival perigosa”?... No coração dos moços se diz ao contrário: “será um encanto poderoso”?...

 

E, pois, Honorina estava nesse caso. Fora, é certo, nascida e educada na corte, mas longe dos olhos da multidão, abrigada à sombra do amor, e escondida debaixo do véu dos prejuízos de uma família, que, arraigada a graves usanças, se espantava e corava diante da civilização galanteadora da furta-cor França. Enfim, conquistada pelo gosto da época, ela entrava pela  primeira vez em uma dessas salas de prazer ardente, onde parece que se quer com olhos de fogo devorar a beleza, que chega.

 

Honorina entrou ao lado de Raquel: comovida e trêmula, ela hesitou um momento; inocente ainda, não compreendeu o que queria dizer o sussurro que se levantava à sua chegada; mas Raquel, que de coração a amava, vendo-a com os olhos no chão, e mais pálida que nunca, disse-lhe ao ouvido:

 

— Princesa da festa, levanta a cabeça; pois que a vitória é já tua.

 

Honorina levantou os olhos, e com eles percorreu toda a sala... o rubor do pejo tingiu suas faces... como as primeiras rosas da aurora insinuada em um céu cor de leite.

 

Com efeito, o triunfo era dela. O murmúrio que se escuta quando uma moça entra numa assembléia, ou demonstra o horror que se vota ao vício, ou a admiração e entusiasmo, como que se contempla a virtude e a beleza. O vício estava longe de Honorina; a virtude se aninhava em sua alma e a beleza se mostrava em toda ela; e, pois, o triunfo era dela.

 

Honorina vinha toucada e vestida do seguinte modo: dois largos bandós de lindos cabelos negros desciam até dois dedos abaixo das orelhas e para trás se voltavam, indo suas extremidades a perder-se por entre longas tranças de perfeitíssimo trabalho, que se enroscavam terminando em cesta; uma grinalda de flores brancas salteadas de pequeninos botões de rosa se entretecia nesse belo tecido de madeixas; duas rosetas de brilhantes pendiam de suas orelhas; nenhum enfeite, nenhum adorno ousara cair sobre seu colo, que, nu, alvejava, arredondado, virginal, e puro; um vestido de finíssimo blonde, que deixava transparecer o branco cetim que cobria o corpinho todo talhado em estreitas pregas, que desenhavam elegantes formas, era debruado por uma longa fita de flores, semelhantes às dos cabelos, as quais ainda se deixavam de novo ver formando uma cercadura em que acabavam as mangas curtas, justas, e singelas; esse vestido cruelmente comprido para esconder dois pequenos pés calçando sapatinhos de cetim, se terminava por uma simples barra bordada de branco; no braço esquerdo da moça fulgia um bracelete de riquíssimos brilhantes; e, enfim, suas mãos calçavam luvas de pelica branca, guarnecidas de arminho e com borlas de seda frouxa.

 

Raquel se tinha vestido, toucado, e adornado absolutamente como Honorina. Não se via em uma nada de menos e nada de mais do que na outra: eram duas irmãs, e ambas da mesma altura, ambas com cabelos e olhos pretos, ambas quase igualmente belas; apenas no rosto deferiam; porque a primeira o tinha corado, vivo e alegre; e a segunda, pálido e melancólico.

 

Honorina e Raquel ocupavam duas cadeiras, que estavam aos lados de D. Lucrécia. Esta senhora beijou as duas moças, e Honorina viu fitos em seu rosto dois lindos olhos azuis cheios de encantadora doçura, e ouviu que a jovem viúva lhe dizia:

 

— É preciso ser bem feliz, minha senhora, para que com tanta formosura se ganhe ao primeiro momento todo o coração de outra moça!...

 

E D. Lucrécia se sorriu com um sorrir angélico... e era uma rival que se sorria!...

 

Honorina, vivamente tocada do que lhe dizia Lucrécia, mal teve tempo de apertar decentemente a mão da moça, que segurava na sua, porque uma multidão de mancebos se precipitava para ela.

 

— Meu Deus!... exclamou a moça encostando-se o mais que pôde na cadeira.

 

A primeira, a segunda, a terceira... até a décima segunda quadrilha já estavam concedidas, e a coluna dos cavalheiros cada vez se tornava mais compacta e forte.  

 

A cada mancebo galante que corria para Honorina, um novo e engraçado sorriso se derramava pelos lábios de Lucrécia, e uma seta penetrava em seu coração.

 

— Raquel! disse Honorina passando a cabeça por detrás da cadeira de Lucrécia; Raquel! acode-me; eu já não posso...

 

— Escuta, respondeu-lhe a amiga; ao primeiro que te falar, responde: “já tenho para todas”.

 

Quando Honorina voltou a cabeça, já estavam três cavalheiros defronte dela; o primeiro que lhe falou foi Brás-mimoso.

 

— Minha senhora, venho implorar a V. Ex.ª a honra de uma contradança.

 

— Mas se eu já tenho par para todas...

 

— Porém, quantas são todas, minha senhora?...

 

— A falar a verdade... eu me não lembro... Raquel, tu te lembras quantas contradanças prometi?...

 

— Vinte e três, respondeu Raquel sem hesitar.

 

— E V. Ex.ª, minha senhora? disse Brás-mimoso, voltando-se para D. Lucrécia.

 

— Vinte e quatro, respondeu a viúva.

 

— E V. Ex.ª, senhora D. Raquel?...

 

— Vinte e cinco, disse Raquel rindo-se.

 

As três moças viram-se felizmente livres de seus cruéis perseguidores; no entanto, Félix achava-se preso, desde que entrara Honorina, nas redes de sua interessante prima Rosinha. A moça, no meio de uma roda de quatro ou cinco companheiras tão travessas, tão galantinhas e levianas como ela mesma, entretinha o primo, contando-lhe uma história muito comprida e cheia de mil supérfluos episódios, tendo, porém, os olhos fitos na bela romântica.

 

Quando conheceu que seu primo não poderia obter mais contradança alguma de Honorina, exclamou:

 

— Oh!... mas, meu pensamento, nós nos esquecíamos de que meu primo deverá estar ansioso por alcançar para uma quadrilha o sim da interessante senhora que acabou de entrar... vá, meu primo, se já não veio engajado de casa, vá depressa.

 

— Sim, minha prima, eu vou... porém... minha prima ainda me não deu uma contradança...

 

— Eu já tenho par para todas, disse a moça soltando uma risada, que foi acompanhada pelas das outras moças.

 

— Muito sinto, disse Félix fazendo-se vermelho. Conheço perfeitamente que as senhoras zombavam de mim; mas protesto que a jovem romântica me vingará.

 

Félix aproximou-se de Honorina... falou... e em resposta escutou essas terríveis palavras, que ela já  de Raquel tinha aprendido; essas cinco palavrinhas, que ainda pronunciadas com toda a doçura por uma boca de moça bonita, têm gosto de fel, e pesam, e soam horrivelmente para os pobres rapazes, que, mal as ouvem, voltam-se desapontados.

 

Às oito horas e meia da noite teve princípio o sarau. Será bom considerá-lo em três partes distintas.

 

 

 

 

XII

 

Começa o sarau

 

 

Uma bela ouverture foi o sinal do começo do sarau. Logo depois dançou-se a primeira quadrilha. A prova de que Honorina recebia as honras da noite é que todos os olhos estavam fitos nela, como querendo beber seus movimentos.

 

Não se diga, nem se pense, que loucura é querer concluir da graça de uma bela jovem dos vaivéns que simplesmente fazem as moças, quando contradançam. É inegável, que nos mais brilhantes saraus, a dança não passa, quanto aos homens, de meia dúzia de arrasta-pés acompanhados de outras tantas cortesias, e quanto às moças, de igual número de interessantes deslizamentos; porém, quando uma senhora tem em si isso, que se não pode explicar, mas que por demais se sente no coração, isso que alguns têm chamado graça, mas que não se diz tudo, dizendo-se somente graças; porque graça não define essa bela reunião de uma boca, donde saem palavras que nos fazem sempre sorrir de gosto e que nos ficam de cor; de olhos, cujas vistas nos obrigam a hesitar e estremecer e que penetram até o âmago de nossos corações; de um mimoso andar, que nos faz embeber os olhos nos vestígios das pisadas que deixou, para procurarmos ver alguma coisa que não vemos, mas que devera ter ficado ali; do mimoso andar de um corpo, que deixa na coluna de ar que cortou alguma doce... encantadora... inefável exalação de si próprio, como a rosa impregna de seus eflúvios a branda aragem que lhe varreu a face... isto tudo, e muito mais ainda, que nenhuma boca pode dizer, que nenhuma pena pode explicar, não é somente graça... é antes um sopro saído dos lábios de Deus, que cerca de uma atmosfera mágico-celestina a criatura feliz: não é somente graça; ou então é a graça de Deus.

 

Pois este dom sagrado, que nenhum homem tem, que pertence exclusivamente a algumas senhoras, pode-se apreciar e de fato se aprecia nas próprias contradanças francesas, apesar de toda a sua monotonia e desagradável simplicidade. E Honorina o tinha!... e eles, pois, a viram andando... (porque dizer dançando, além de uma mentira, seria fazer um insulto ao bom gosto da época), e eles, pois, a viram andando... não... deslizando-se doce e imperceptivelmente, como um leve batel, a quem o sopro do brando zéfiro faz lamber a superfície de um lago sossegado!... e ainda mais: para o encanto ser completo, Honorina, de momento a momento, tornava-se dobradamente interessante. Com efeito, Honorina havia entrado na sala mais pálida do que era; trêmula, receosa, com os olhos baixos, e toda cheia desse acanhamento que acobarda a jovem campesina, que, pela primeira vez aparece em uma assembléia da corte, cônscia de sua ignorância, dos usos do belo tom, ela temia que em cada simples vista de seus olhos houvesse um erro, em cada palavra sua um crime de leso-bom gosto; por isso ela tinha os olhos no colo, e respondia apenas por monossílabos; porém, sua organização eminentemente nervosa lhe devia dar a vitória sobre si mesma. Desde que a música rompeu, o milagre foi operado.

 

Ouvindo as primeiras harmonias dessa feiticeira inspiração de Auber, o Domino-noir (que foi exatamente a ouverture, com que se deu princípio ao sarau), Honorina sentiu um choque inexplicável... depois... sempre... até o fim se foi ela animando... seu coração pulsando com mais força... sua alma pareceu inflamar-se... seu rosto ergueu-se e ela começou a viver para o mundo onde estava.

 

Enfim, todo esse movimento, todo esse ruído de um sarau, o calor que fazia, a agitação das contradanças, cuja alegre música podia tanto nela, acenderam ainda mais o fogo que a salvara de seu acanhamento; já tinha as faces levemente coradas... seu peito arfava... ela começava a gostar de tudo o que via... seu cavalheiro já lhe havia jurado que ela era encantadora... Honorina já se tinha sorrido para Raquel... estava alegre, estava feliz; e sua alegria a tornava mais bela que nunca.

 

Mas o centro, o alvo das atenções dos homens deveria ser o dos ciúmes, pelo menos da maior parte das senhoras. Lucrécia vivamente se incomodava com os obséquios que a via receber; e tanto mais que Lucrécia era realmente bela, e dobradamente orgulhosa. Flor das sociedades, não cedendo até então a primazia a nenhuma, Lucrécia queria todos os homens a seus pés; e nessa noite Honorina lhe conquistou a maior parte dos seus adoradores.

 

Além disso, um episódio tinha ocorrido, que convém não deixar passar desapercebidamente. Otávio havia chegado pouco antes de Honorina, e se esquecera de ir logo aos pés da bela viúva; quando a filha de Hugo de Mendonça entrou e se sentou junto de Lucrécia, Otávio correra e obtivera daquela a sexta quadrilha, e só depois foi que se dirigiu à sua bela amada, pedindo-lhe exatamente uma contradança que ela acabava de conceder a outro cavalheiro.

 

Ora, Lucrécia sabia bastante dos segredos dos saraus, que muitas vezes, quando um jovem não quer nem dançar, nem ofender o amor-próprio da senhora a quem um dever qualquer o obriga a dirigir-se, manda um amigo seu convidá-la para certa quadrilha, e depois vai ter com ela e pede para si essa mesma quadrilha, que, incauta já deu a outro.

 

Esta idéia, a lembrança desse estratagema tantas vezes posto em uso, feriu cruelmente o orgulho da viúva; portanto, Otávio levantava acima dela essa menina, que apenas acabava de aparecer!... isso era uma dessas ofensas que as senhoras jamais perdoam; e, entre as senhoras, o amante que se esqueceu de uma delas, comete um crime enorme, que se faz expiar, não ao desleal que o cometeu, mas à rival, ainda inocente, que o causou. E, pois, Lucrécia, que se sorria, que tinha doçura angélica em seus belos olhos azuis, tinha ao mesmo tempo o despeito e o amargor no coração.

 

No gabinete onde estava a música, e em que se achava também o piano, apareceu uma moça para cantar, e começou a deixar ouvir os belos acordes de sua doce voz; uma coluna de moços tomava a porta do gabinete.

 

— Parabéns! disse um àquele que conduzira a moça ao piano, parabéns ao condutor de Euterpe!...

 

— Que se há de fazer?... respondeu ele, eu cá tolero que se cante, quando não há mais nada que fazer; porém agora, que podemos dançar e conversar com as moças, é mesmo horrível roubar-se-nos meia hora desse prazer para se ouvir aquela senhora!...

 

— O que é aquilo que ela está cantando?...

 

— Eu não sei... parece-me inglês; mas deve ser uma ária italiana: — bravo, minha senhora!...

 

— E que bico faz ela: bravíssimo!...

 

— Como desafina: bonito! bravo!...

 

Os dois senhores continuavam a falar desapiedadamente em voz baixa contra a moça que lhes fazia a honra de se deixar ouvir, ao mesmo tempo que em voz alta aplaudiam; mas... é preciso passar isto por alto, porque há tantos homens que se podem julgar retratados nestes dois Midas, que é bom não entender com eles.

 

A moça concluiu a sua ária no meio de bravos e palmas, e foi conduzida à sua cadeira pelo mesmo cavalheiro que dela criticara em voz baixa.

 

— Parabéns, minha senhora, dizia ele à moça; cantou mais que brilhantemente!... que harmonia, e que execução!... seria perdoável perguntar a V. Ex.ª se não podia repetir a mesma peça esta noite?...

 

— Oh!... a mesma não, respondeu a moça; eu cantarei outras, que são igualmente bonitas.

 

— E quantas serão, minha senhora?...

 

— Talvez... ainda três...

 

— Meu Deus!... por que não serão antes seis!...

 

Mas um sinal da orquestra pôs fim às lisonjas e zombarias de que estava sendo vítima a inocente senhora; era o sinal brilhante e vivo da valsa.

 

A valsa! sim, a valsa é com toda a razão o delírio das moças e o belo ideal dos moços em um sarau. Acusem-na muito embora os senhores Esculápios (que aqui para nós, nada há com que se não intrometam) como causa de enfermidades sem-número; amaldiçoem-na muito embora como origem de mil pleurites, hepatites e tudo mais que na sua benta língua acabar em “ites”, se é assim... melhor para eles.

 

A valsa é o delírio das moças; porque na valsa é que elas experimentam esses movimentos rápidos, acelerados, consecutivos, que tanto amam por sua organização, e que, marcados por uma música forte, alegre, impulsiva, produzem nelas choques nervosos e abaladores. É na valsa que seus olhos mais brilham, e que mais vivo fogo se acende em suas faces; é na valsa, enfim, que elas se assemelham com os anjos, voando pelos ares, e tendo só de humanos... o receio de uma queda.

 

E a valsa é o belo ideal dos mancebos; porque é nela que eles cingem a delicada cintura de uma moça! nas contradanças, o apaixonado prefere dançar defronte da sua bela; na valsa, pelo contrário, é com ela mesma que ele dança... com o rosto perto do dela... sentindo o fogo ardente de seus olhos fitos nele... sentindo o  delicioso bafo que escapa suspiroso dos lábios dela para refletir nos seus; sentindo a palpitação de seu coração... o toque de sua mão... bebendo o sorriso de seus lábios, e amparando o doce peso de seu corpo, que desleixadamente se abandona nos braços que a cingem!...

 

A valsa acabou enfim. E passeava-se.

 

Quem poderá ouvir tudo quanto se diz em um passeio de sarau! seria sua relação um romance tão variado como completo... seria talvez mil romances; porém, desgraçadamente, o que aí se conversa de mais interessante é feito tão em segredo e por entre tantos sorrisos, que mal se pode entender. É melhor, pois, não dizer nada, para não cair no erro de dizer o que menos interessa.

 

Mas Lucrécia tinha sido convidada, para passear, por Otávio; era como uma satisfação que lhe dava o moço; ela aceitou-lhe o braço. Havia algum acanhamento entre ambos, por isso durante a primeira volta pela sala nenhum dos dois disse palavra; depois eles se dirigiram para o terraço; ao passar pela sala dos refrescos Otávio viu um amigo seu, que passeava só.

 

— Oh!... Leopoldo! tão solitário...

 

— Que queres? não encontrei senhora que quisesse aceitar a oferta do meu braço.

 

— Olha... dirige-te àquela... vai sem cavalheiro.

 

E Otávio mostra-lhe uma senhora, que deveria contar seus bons setenta janeiros.

 

— Misericórdia! exclamou Leopoldo; antes só, do que mal acompanhado.

 

— Mas, segundo o teu sistema, a melhor maneira de chegar até junto das moças é agradar às velhas.

 

— Sim, sim; porém, aquela é uma velha sem fiadores.

 

Neste momento Otávio e Lucrécia entravam no terrado.

 

— Que quer dizer uma velha sem fiadores?... perguntou Lucrécia.

 

— Quer dizer, respondeu Otávio, uma senhora adiantada em anos, que não tem filhas, nem sobrinhas, nem agregadas moças.

 

— E por conseqüência uma senhora, com quem os senhores julgam todos os momentos perdidos; Sr. Otávio, V. S.ª tem mãe?...

 

— Minha senhora, eu não penso como o meu amigo.

 

— Oh!... mas o que se pratica... o que tenho ouvido... o que acabei de ouvir, enfim me convence de que se eu nunca tiver filhas, não devo freqüentar sociedade alguma, logo que me sentir envelhecer.

 

— Mas, minha senhora, com o espírito de V. Ex.ª não é possível envelhecer...

 

— Obrigada... obrigada!... eu gosto muito de parecer espirituosa; mas V. S.ª o sabe, as senhoras gostam ainda mais de parecer outra coisa.

 

— Eu acreditei, respondeu Otávio, que devia mostrar-me simplesmente tocado do espírito de V. Ex.ª, pois que para o completo elogio de sua beleza é mais que suficiente um espelho.

 

— Acha-me, portanto, bonita?...

 

— Preciso repeti-lo ainda?...

 

— Agradável?...

 

— Muito.

 

— Espirituosa?

 

— O mais que é possível.

 

— Meu Deus!... isto é quase uma declaração.

 

— Que não seria mais do que a repetição do que já me tem ouvido.

 

— Estou a ponto de crer que me ama.

 

— Eu pensava que já não havia dúvida a esse respeito.

 

— E, no entanto, o senhor nem ao menos dançará comigo!

 

— Minha senhora... eu cheguei tarde aos pés de V. Ex.ª

 

— Nem uma quadrilha... nem uma valsa... nada!

 

— Eu estava dizendo que cheguei tarde aos pés...

 

— Oh! é porque talvez, quando quis chegar até a mim, alguma bela aparição o fez parar... sentir... e desejar...

 

— Minha senhora...

 

— Primeiro dirigiu-se a uma moça que se sentava ao meu lado; obteve, sem dúvida, o que queria; e depois, quando ouviu que eu acabava de conceder a um seu amigo a terceira quadrilha, V. S.ª chega-se então a mim; e o que me pede?... a terceira quadrilha...

 

— Então V. Ex.ª chegou a persuadir-se...

 

— Tenho a certeza de que o Sr. Otávio não se lembrou de mim neste sarau.

 

— É uma injustiça, minha senhora, que eu podia voltar também contra V. Ex.ª

 

— Como?...

 

— Dizendo outro tanto de V. Ex.ª

 

— Por quê?...

 

— Porque sabendo que eu vinha a este sarau, porque vendo-me na sala, não me quis guardar uma quadrilha.

 

— Oh!... mas V. Ex.ª podia ter-me castigado com mais generosidade...

 

— Pois receba o castigo, senhor: eu guardei-lhe uma quadrilha.

 

— E qual?... e qual?... minha senhora!

 

— O senhor a deseja?

 

— Peço-a de joelhos!... diga-me o número!...

 

— A sexta...

 

— A sexta quadrilha...

 

— Eu não sei a que atribua o movimento que faz: para atribuí-lo a prazer... seria amor-próprio demais.

 

— É que a sexta quadrilha... eu... me havia comprometido...

 

— Eu aprecio a sua urbanidade; porém, é tão fácil fingir-se um engano... e depois com uma polida satisfação... ora, os senhores homens sabem às mil maravilhas como se faz  isto.

 

— Se fosse possível ser uma outra qualquer...

 

— Senhor, eu poderia neste momento lembrar-me de ter ciúmes, se não devesse só recordar-me que já desci bastante de minha posição, guardando-lhe uma quadrilha!...

 

— Eu reconheço o obséquio que devo a V. Ex.ª

 

— E então?...

 

— Em todo o caso aproveitar-me-ei dele... não era possível que de outra forma procedesse.

 

— Por civilidade, não é assim?...

 

— Oh!... não: por um sentimento bem terno.

 

Alguns minutos depois Lucrécia estava outra vez sentada junto de Honorina.

 

— Então, minha bela menina, disse ela, como acha o sarau?... tem sido feliz nele?...

 

— Sim... sim, minha senhora; tenho passado uma noite bem esquecida de mim mesma...

 

— É uma compensação, porque acredito que muita gente só se tem ocupado em admirá-la.

 

— Minha senhora... eu não posso merecer...

 

— Ora... ora... aposto eu que tem dançado todas as quadrilhas, que não tem perdido uma só valsa?...

 

— É verdade; mas creio que também a senhora...

 

— Não... deixei de dançar a segunda quadrilha; estes homens!... acreditará que estes mesmos senhores, que tantas lisonjas nos dizem, que tantos elogios nos fazem, se aproveitam de tudo para atormentar-nos?...

 

— Mas a senhora parece ofendida.

 

— Não, eu os desprezo; porém, quero preveni-la: sabe como aqui se fere o amor-próprio de uma mulher?...

 

— Não, minha senhora; eu nunca freqüentei saraus.

 

— Pois bem: o homem que quer demonstrar a uma senhora, que aquela que ele ama é superior a ela, convida-a para certa quadrilha, e quando chega esta, deixa a senhora ficar sentada, e vai dançar com a que ama!

 

— Isso quando feito de propósito deve julgar-se um insulto!

 

— Pois eles o fazem!...

 

Lucrécia pôs fim à sua conversação aí: tinha aguçado um punhal, que deveria ferir o amor-próprio de Honorina no momento de se dançar a sexta quadrilha.

 

 

 

 

XIII

 

O chá

 

 

O chá começou a servir-se às dez horas e meia da noite: a hora do chá é nos saraus a hora das satisfações, dos longos cumprimentos, e de certos prazeres que lhe são muito peculiares. Compreender e ouvir para relatar tudo o que então se passa e se diz, seria operar o milagre que não esteve no alcance dos arquitetos e operários da torre de Babel. É certo que ali não se grita, nem se amotina ninguém; mas há em compensação mais de cinqüenta homens que conversam, e outras tantas senhoras que falam todas ao mesmo tempo... e tanto basta.

 

Brás-mimoso tirava então o seu ventre da miséria; no meio de meia dúzia de moças, nenhuma das quais tinha mais de vinte anos, ele, que tinha embora escondidos cabelos de avô de todas elas, se apresentava com cara e pretensões de priminho de qualquer das seis.

 

É preciso fazer sentir, antes de ir por diante, o erro em que estão certos sujeitos que, supondo enganar o mundo, enganando a natureza, não enganam senão a si próprios. Para todas as idades, como para todas as condições, há um quadro com duas faces; uma oferece o belo, e a outra o feio, que lhe deve caber. Na boa face de seu quadro tem o velho os respeitos, as considerações, as honras, que todo o mundo bem-educado lhe deve e lhe vota; e o velho, que se quer fazer passar por moço e gamenho, perde o belo de seu quadro e fica com o feio em ambas as faces dele. Pois Brás-mimoso não se dava com isso: espartilhado, todo no rigor do tom, com sua bela cabeleira de cabelos pretos; gamenho com rugas na face, engraçado sem sainete, vaidoso sem mesmo saber de quê, perseguia as moças como... como... tantos outros.

 

Ele investiu para aquela interessante meia dúzia de tentaçõezinhas com seis balas de estalo nas mãos; era o seu mar de rosas!... no entender de Brás-mimoso, a invenção das balas de estalo era o último apuro do engenho humano.

 

As moças, assim que o viram, começaram para logo a beliscar-se e a trocar segredos e meias risadinhas. Ora, essa espécie de cabala, nelas é sempre denunciada por um risozinho engraçado, do qual todo o homem, que conta em si uma oitava de juízo, tem mais medo do que da mais estrepitosa trovoada; porém, Brás-mimoso não se dava muito com aquilo; também parece que a natureza, quando tivera de assoprar juízo na cabeça do jovem qüinquagenário, se achava com veia para a homeopatia.

 

Pobre do meu Brás-mimoso! ei-lo com elas! um velho namorado no meio de seis gênios de graças e travessuras.

 

— Senhora D. Adelaide, disse Brás-mimoso, venho rogar-lhe que estale uma bala comigo... oh! será um estalo misterioso!...

 

— Pois não, Sr. Brás, de todo o coração...

 

A menina pegou na bala com a ponta dos dedos... puxaram, puxaram e o papel rompeu-se sem estalar.

 

— Chocha!... exclamaram as moças rindo às gargalhadas.

 

Ora, uma bala de estalo que sai chocha, é uma coisa horrível para o gamenho; Brás-mimoso ficou espantado, como se nunca dantes lhe houvera sucedido tal, a ele o non plus ultra estala balas!

 

— Uma outra, minha senhora...

 

— Nada... respondeu a moça; a primeira saiu chocha, não quero mais.

 

— Então Sr.ª D. Emília...

 

— Vamos... eu gosto muito de estalar balas com o senhor... bem, puxe!

 

— Chocha!... exclamaram de novo as seis caçoístas...

 

— É que eu não compreendo isto! disse Brás-mimoso, só se as senhoras não seguram na bala, como manda a arte...

 

— Não senhor, não senhor... nós puxamos direito; é porque o senhor não nos estima...

 

— Oh! minhas senhoras...

 

— Puxe comigo, Sr. Brás, disse a terceira moça.

 

— Prontamente, Sr.ª D. Camila.

 

— Olhe... eu pego bem junto da bala... puxe!

 

— Chocha!...

 

— Ora, vocês estão mangando com o Sr. Brás, disse a quarta moça; querem ver como estala?... vamos comigo, Sr. Brás.

 

Brás-mimoso, pálido e desfigurado estendeu a mão a D. Rosaura... era a quarta bala que pretendia estalar... puxou...

 

— Chocha! gritaram pela quarta vez as moças.

 

Brás-mimoso estava mesmo a ponto de chorar de vergonha; parecia-lhe que toda a sociedade tinha os olhos fitos sobre ele... e ele desmentia o conceito que tanto se gabava de merecer!

 

— Puxe comigo, Sr. Brás, disse D. Leocádia, puxe...

 

— Ei-la aí, murmurou o pobre do homem quase gemendo.

 

— Chocha!...

 

Aquele grito — chocha — soava terrivelmente aos ouvidos do presumido velho, como poderia aparecer ainda nas assembléias, ele, o gamenho por excelência, se em seus dedos haviam consecutivamente falhado cinco balas?! Brás-mimoso estava ouvindo a cada passo esse grito fatal, grito de maldição — chocha!... Foi trêmulo e fora de si, que automaticamente estendeu a última bala à sexta senhora.

 

D. Felícia teve piedade dele.

 

— Oh!... exclamou Brás-mimoso, ouvindo o estalo, que trovão argentino!...

 

As moças desataram-se a rir; com as risadas caiu o ramo de cravos a Felícia; Brás-mimoso imediatamente o apanhou, e, beijando-o, lho entregou; mas quase ao mesmo tempo escapou o leque da mão de Rosaura; o infeliz homem quando o levantou, abaixou-se de novo para dar a Leocádia o lenço que lhe caíra; porém no mesmo momento tombaram os leques de Adelaide e Emília, e Brás-mimoso, que os ergueu, viu que de novo caíra o pendão de cravos de Felícia, e, ao apanhá-lo, esteve a ponto de pisar nas luvas de Camila.

 

Finalmente, apiedadas do infeliz homem, as moças puseram termo a seu martírio, e para consolá-lo cada uma lhe deu uma flor, e lhe disse, sorrindo docemente, o competente significado.

 

Brás-mimoso, suando por todos os poros de seu corpo, recebeu as flores com entusiasmo e, orgulhoso, atravessou a sala com elas no peito.

 

— Ande lá, Sr. Brás, disse um moço, ao vê-lo passar, o senhor é o querido das moças; mas trabalha!...

 

— Meu amigo, respondeu seriamente Brás-mimoso, sem trabalho não se conquista!

 

E saiu da sala para concertar-se; porque, graças às muitas vezes que se havia curvado para apanhar os objetos caídos, tinha ficado sem dois botões de sua esticada calça.

 

No entanto, Honorina e Raquel, alguns momentos depois de haverem tomado chá, tinham-se levantado e passeavam juntas. Apenas deixaram suas cadeiras, um elegante jovem correu para elas:

 

— V. Ex.as, perguntou ele, estimariam honrar o braço de um cavalheiro?...

 

— Oh! foi Raquel quem respondeu, nós nos levantamos para conversar juntas e em liberdade; mas, se V. S.ª se interessa por passear conosco, nós teremos prazer em agradar-lhe...

 

— Minha senhora... grande seria para mim a honra; mas o interesse de meu coração deve ser sacrificado aos desejos de V. Ex.as... eu as deixo em liberdade.

 

— Este moço é muito civil, disse Honorina continuando a passear com sua amiga.

 

— Sim, Honorina, contam-se poucos homens que, como ele, deixem de ser importunos.

 

— Certamente; tenho notado em todos uma urbanidade tão estudada, cumprimentos tão exagerados, palavras tão escolhidas, comparações tão multiplicadas, que...

 

— Que parece que já as trazem de casa, não é assim?... pois até aí nada há de novo; alguns são ainda suportáveis pela variedade de suas cortesias; mas uma grande parte, Honorina, diz-nos hoje, o que nos está a dizer há cinco ou seis saraus passados; diz-me agora o mesmo, o que já te disse e o que já havia dito as todas as moças com quem tem conversado durante a noite. São cortesãos a machado... belas casacas de fidalgo, cobrindo corpos de rústicos aldeões...

 

— Raquel, tu falas tão alto...

 

— Ora, Honorina, e quem manda a essas gralhas virem aqui mostrar-se com presunção de pavões?... é que se faz preciso rirmo-nos muito deles, porque eles pensam que zombam sempre de nós; zombemos, pois, também... zombemos muito. Olha, Honorina, uma boa parte desses senhores, que tanto nos cercam e nos cortejam, são tão tolos como presumidos, e alguns há ainda tão presumidos como insolentes!

 

— Mas tu és terrível, Raquel!

 

— É porque tu não os conheces como eu, Honorina. Tu não sabes o que é um jovem presumido. Por exemplo, dize: quantos hoje te hão asseverado que és encantadora!... anda... não cores assim... estás falando comigo: quantos?...

 

— Todos com quem dancei, Raquel.

 

— Pois bem, Honorina, eles falaram por acaso a verdade; mas queres tu apostar que quaisquer desses senhores vai dizer que és feia?...

 

Apesar de toda a sua simplicidade, Honorina não gostou da palavra feia; ela era mulher.

 

— Então, queres ou não?... repetiu Raquel.

 

— À minha vista, Raquel?... perguntou Honorina.

 

— Ora... à tua vista juraria de novo que és um anjo, o mesmo que tivesse dito que és feia.

 

— Mas poderei eu ouvi-lo?...

 

— Sim... é possível.

 

— Pois aceito.

 

— Bem... oh! a propósito... ali vai uma amiga minha, que nos pode servir: vem cá, Úrsula...

 

— Adeus, Raquel!... mas deixa-me, eu vou à toilette...   

 

— Não precisas: estás tão bela como entraste, ou mais ainda...

 

— Obrigada, meu senhor! quer saber onde eu moro?... perguntou Úrsula gracejando.

 

— Deixa-te de graças, Úrsula; temos negócio sério; primeiro que tudo apresento-te esta senhora, que é minha amiga do coração.

 

Úrsula deu um beijo em Honorina, e voltando-se para Raquel:

 

— E depois?... perguntou.

 

— Ouve: Honorina é nova em nossas assembléias; acha por isso exagerado o quadro que lhe eu tracei dos nossos jovens cavalheiros...

 

— Oh!... são anjos todos eles, minha senhora!

 

— Pois, para dar-lhe uma fraca prova do que disse, eu propus fazê-la ouvir ser chamada feia por algum, ou alguns dos que durante a noite lhe juraram que ela era encantadora.

 

— Pois a senhora duvida disso?...

 

— Não; mas sempre quisera ouvir.

 

— Nada é mais fácil; mostre-me alguns desses senhores...

 

— Aqueles dois que ali conversam...

 

— Oh! por minha vida! exclamou Úrsula; são meus apaixonados!... mas... separemo-nos... e por enquanto, minha senhora, sou a sua maior inimiga!... Raquel, toma cuidado no meu lenço, ouviste?

 

— Vai... e apressa-te.

 

Cinco minutos depois a espertinha D. Úrsula, que se achava no vão de uma janela com outra moça, cercadas por alguns cavalheiros, fez com seu lencinho branco um sinal a Raquel.

 

— Agora, vem cá, disse Raquel a Honorina.

 

E, dando uma volta para não serem vistas, as duas moças espremeram-se na janela contígua àquela em que estava Úrsula.

 

A discussão já tinha começado. Os dois moços, que Honorina havia mostrado, estavam lá.

 

— Mas eu digo, falava Úrsula, que ela deve estar bem orgulhosa! tem sido tão incensada... tão requestada... eu não sei mesmo por quê...

 

— Porque é uma novidade...

 

— Tem dançado por empenhos!...

 

— Ora, minha senhora, também isso é exageração...

 

— O Sr. Daniel e o Sr. Jônatas, por exemplo, morriam de paixão se não tivessem dançado com ela!...

 

Os dois rapazes começaram a dar satisfações, e tentaram livrar-se da moça, jogando a arma feliz, com que quase sempre se faz as pazes com uma senhora... fazendo-lhe elogios.

 

— Em todo o caso, D. Querubina, continuou Úrsula falando com a moça que lhe estava ao pé, nós devemos estar descontentes, e mesmo despeitadas; aquela senhora foi uma aparição terrível, que nos veio fazer mal... nós nos temos achado sós toda a noite!...

 

— Que injustiça! bradou Jônatas, eu não me lembro de haver jamais perseguido tanto V. Ex.ª como hoje!...

 

— Eles fizeram uma comparação entre nós e ela, e a declararam princesa; concedendo-nos, talvez por compaixão, o grau de suas vassalas!...

 

— Meu Deus!... meu Deus!... como se julga mal de um pobre homem!...

 

— Paciência, D. Querubina, paciência!... é preciso ceder a palma à beleza do dia... o nosso reinado passou...

 

— Mas quem é a beleza do dia?... perguntou Daniel.

 

— Quem?... o seu par da segunda contradança...

 

— Misericórdia!...

 

— Nega que os senhores a têm achado a mais bela moça do sarau?...

 

Daniel olhou para Jônatas.

 

— Nego! disse Jônatas.

 

— Seria uma blasfêmia!... disse Daniel.

 

— Oh! eu os compreendo! ao pé de mim fala-se desse modo; mas daqui a pouco os senhores se vingam, desfazendo-se em elogiar a sua figura...

 

— Figura sem expressão, minha senhora, disse Daniel torcendo o nariz.

 

— A sua beleza...

 

— Que beleza!... é uma flor desbotada... sem aroma... disse Jônatas.

 

— O seu espírito...

 

— Espírito?... espírito de mudez: é uma estátua.

 

— Uma estátua... sim, meus senhores; estátua de Vênus, é o que querem dizer...

 

— Pois bem, tornou Jônatas, uma estátua de Vênus feita por mãos de escultor calouro.

 

— E o Sr. Daniel, que é tão apaixonado da cor pálida...

 

— Sim... aprecio, amo muito a cor pálida... como, por exemplo, a de V. Ex.ª; porém a dela...

 

— É transparente... diáfana... romântica...

 

— Repulsiva... repulsiva, disse Daniel.

 

— Repulsiva?...

 

— É uma defunta viva, minha senhora! acrescentou Jônatas.

 

As duas moças começaram a rir-se; e os dois cavalheiros continuariam a dizer ainda melhores coisas de Honorina, se a orquestra não os chamasse para a quinta quadrilha.

 

Portanto uns e outros se separaram, e um momento depois Úrsula estava junto de Raquel e Honorina.

 

— Então?... perguntou a Honorina.

 

— Agradeço-lhe muito, minha senhora: juro-lhe que foram os minutos mais agradáveis que tenho passado esta noite.

 

— É verdade, Úrsula; a nossa Honorina ouviu tudo com o ar mais divertido do mundo.

 

— E hesitará em divertir-se também com eles?...

 

— Oh! não!... não, minha senhora!... muito simples deve ser a mulher que não souber fazer de um homem um bobo com quem se ria!

 

— Bem!... bem!...

 

— Honorina, disse Raquel, eis um dos teus apaixonados.

 

— O Sr. Jônatas...

 

— Que te chamou defunta viva.

 

— Vem buscar-me para dançar com ele, tornou Raquel.

 

Jônatas chegou e ofereceu a mão a Raquel.

 

— Senhor Jônatas, disse Úrsula, apresento-lhe a mais bela aquisição de nossas assembléias, a minha nova e querida amiga, a Sr.ª D. Honorina: não concorda que é uma jovem encantadora?...

 

— Apareceu-nos, senhora, como um anjo caído do céu!...

 

Honorina levou o lenço à boca... mas foi impossível suster-se: soltou uma risada.

 

 

 

 

XIV