Páginas Recolhidas
Texto-fonte:
Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II,
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
Publicado originalmente pela Editora Garnier, Rio de Janeiro, 1899.
ÍNDICE
PREFÁCIO
Quelque diversité d'herbes qu'il y ayt,
tout s'enveloppe sous le nom de salade.
MONTAIGNE, Essais, liv. I, cap. XLVI
Montaigne explica pelo seu modo dele a variedade deste
livro. Não há que repetir a mesma idéia, nem qualquer outro lhe daria a graça
da expressão que vai por epígrafe. O que importa unicamente é dizer a origem
destas páginas.
Umas são contos e novelas, figuras que vi ou imaginei, ou
simples idéias que me deu na cabeça reduzir a linguagem. Saíram primeiro nas
folhas volantes do jornalismo, em data diversa, e foram escolhidas dentre
muitas, por achar que ainda agora possam interessar. Também vai aqui Tu só,
tu, Puro Amor... comédia escrita para as festas
centenárias de Camões, e representada por essa ocasião. Tiraram-se dela cem
exemplares numerados que se distribuíram por algumas estantes e bibliotecas.
Uma análise da correspondência de Renan com sua irmã Henriqueta, e um debuxo do
nosso antigo Senado foram dados na Revista Brasileira, tão brilhantemente
dirigida pelo meu ilustre e prezado amigo José Veríssimo. Sai também um pequeno
discurso, lido quando se lançou a primeira pedra da estátua de Alencar. Enfim,
alguns retalhos de cinco anos de crônica na Gazeta de Notícias que me pareceram
não destoar do livro, seja porque o objeto não passasse inteiramente, seja
porque o aspecto que lhe achei ainda agora me fale ao espírito. Tudo é pretexto
para recolher folhas amigas.
MACHADO DE ASSIS
O CASO DA VARA
Damião fugiu do seminário às onze horas da manhã de uma
sexta-feira de agosto. Não sei bem o ano; foi antes de 1850. Passados alguns
minutos parou vexado; não contava com o efeito que produzia nos olhos da outra
gente aquele seminarista que ia espantado, medroso, fugitivo. Desconhecia as
ruas, andava e desandava; finalmente parou. Para onde iria? Para casa, não; lá
estava o pai que o devolveria ao seminário, depois de um bom castigo. Não
assentara no ponto de refúgio, porque a saída estava determinada para mais
tarde; uma circunstância fortuita a apressou. Para onde iria? Lembrou-se do
padrinho, João Carneiro, mas o padrinho era um moleirão sem vontade, que por si
só não faria coisa útil. Foi ele que o levou ao seminário e o apresentou ao
reitor:
— Trago-lhe o grande homem que há de ser, disse ele ao
reitor.
— Venha, acudiu este, venha o grande homem, contanto que
seja também humilde e bom. A verdadeira grandeza é chã. Moço...
Tal foi a entrada. Pouco tempo
depois fugiu o rapaz ao seminário. Aqui o vemos agora na rua, espantado,
incerto, sem atinar com refúgio nem conselho; percorreu de memória as casas de
parentes e amigos, sem se fixar em nenhuma. De repente, exclamou:
— Vou pegar-me com Sinhá Rita! Ela manda chamar meu
padrinho, diz-lhe que quer que eu saia do seminário... Talvez assim...
Sinhá Rita era uma viúva, querida de João Carneiro; Damião
tinha umas idéias vagas dessa situação e tratou de a
aproveitar. Onde morava? Estava tão atordoado, que só daí a alguns
minutos é que lhe acudiu a casa; era no Largo do Capim.
— Santo nome de Jesus! Que é isto? bradou
Sinhá Rita, sentando-se na marquesa, onde estava reclinada.
Damião acabava de entrar espavorido; no momento de chegar à casa, vira passar um padre, e deu um empurrão à porta, que
por fortuna não estava fechada a chave nem ferrolho. Depois de entrar espiou
pela rótula, a ver o padre. Este não deu por ele e ia andando.
— Mas que é isto, Sr. Damião? bradou
novamente a dona da casa, que só agora o conhecera. Que vem fazer aqui?
Damião, trêmulo, mal podendo falar, disse que não tivesse
medo, não era nada; ia explicar tudo.
— Descanse; e explique-se.
— Já lhe digo; não pratiquei nenhum crime, isso juro; mas espere.
Sinhá Rita olhava para ele espantada, e todas as crias, de
casa, e de fora, que estavam sentadas em volta da sala, diante das suas
almofadas de renda, todas fizeram parar os bilros e as mãos. Sinhá Rita vivia
principalmente de ensinar a fazer renda, crivo e bordado. Enquanto o rapaz
tomava fôlego, ordenou às pequenas que trabalhassem, e esperou. Afinal, Damião
contou tudo, o desgosto que lhe dava o seminário; estava certo de que não podia
ser bom padre; falou com paixão, pediu-lhe que o salvasse.
— Como assim? Não posso nada.
— Pode, querendo.
— Não, replicou ela abanando a cabeça; não me meto em
negócios de sua família, que mal conheço; e então seu pai, que dizem que é
zangado!
Damião viu-se perdido. Ajoelhou-se-lhe
aos pés, beijou-lhe as mãos, desesperado.
— Pode muito, Sinhá Rita; peço-lhe pelo amor de Deus, pelo
que a senhora tiver de mais sagrado, por alma de seu marido, salve-me da morte,
porque eu mato-me, se voltar para aquela casa.
Sinhá Rita, lisonjeada com as súplicas do moço, tentou
chamá-lo a outros sentimentos. A vida de padre era santa e
bonita, disse-lhe ela; o tempo lhe mostraria que era melhor vencer as
repugnâncias e um dia... Não, nada, nunca! redargüia
Damião, abanando a cabeça e beijando-lhe as mãos; e repetia que era a sua
morte. Sinhá Rita hesitou ainda muito tempo; afinal perguntou-lhe por que não
ia ter com o padrinho.
— Meu padrinho? Esse é ainda pior que papai; não me
atende, duvido que atenda a ninguém...
— Não atende? interrompeu Sinhá
Rita ferida em seus brios. Ora, eu lhe mostro se atende ou não...
Chamou um moleque e bradou-lhe que fosse à casa do Sr.
João Carneiro chamá-lo, já e já; e se não estivesse em casa, perguntasse onde
podia ser encontrado, e corresse a dizer-lhe que precisava muito de lhe falar
imediatamente.
— Anda, moleque.
Damião suspirou alto e triste. Ela, para mascarar a
autoridade com que dera aquelas ordens, explicou ao moço que o Sr. João
Carneiro fora amigo do marido e arranjara-lhe algumas crias para ensinar.
Depois, como ele continuasse triste, encostado a um portal, puxou-lhe o nariz,
rindo:
— Ande lá, seu padreco, descanse
que tudo se há de arranjar.
Sinhá Rita tinha quarenta anos na certidão de batismo, e
vinte e sete nos olhos. Era apessoada, viva, patusca, amiga de rir; mas, quando
convinha, brava como diabo. Quis alegrar o rapaz, e,
apesar da situação, não lhe custou muito. Dentro de pouco, ambos eles riam, ela
contava-lhe anedotas, e pedia-lhe outras, que ele referia com singular graça.
Uma destas, estúrdia, obrigada a trejeitos, fez rir a uma das crias de Sinhá
Rita, que esquecera o trabalho, para mirar e escutar o moço. Sinhá Rita pegou
de uma vara que estava ao pé da marquesa, e ameaçou-a:
— Lucrécia, olha a vara!
A pequena abaixou a cabeça, aparando o golpe, mas o golpe
não veio. Era uma advertência; se à noitinha a tarefa não estivesse pronta,
Lucrécia receberia o castigo do costume. Damião olhou para a pequena; era uma
negrinha, magricela, um frangalho de nada, com uma cicatriz na testa e uma
queimadura na mão esquerda. Contava onze anos. Damião reparou que tossia, mas
para dentro, surdamente, a fim de não interromper a conversação. Teve pena da
negrinha, e resolveu apadrinhá-la, se não acabasse a tarefa. Sinhá Rita não lhe
negaria o perdão... Demais, ela rira por achar-lhe graça; a culpa era sua, se
há culpa em ter chiste.
Nisto, chegou João Carneiro. Empalideceu quando viu ali o
afilhado, e olhou para Sinhá Rita, que não gastou tempo com preâmbulos.
Disse-lhe que era preciso tirar o moço do seminário,
que ele não tinha vocação para a vida eclesiástica, e antes um padre de menos
que um padre ruim. Cá fora também se podia amar e servir a Nosso Senhor. João
Carneiro, assombrado, não achou que replicar durante os primeiros minutos;
afinal, abriu a boca e repreendeu o afilhado por ter vindo incomodar
"pessoas estranhas", e em seguida afirmou que o castigaria.
— Qual castigar, qual nada! interrompeu
Sinhá Rita. Castigar por quê? Vá, vá falar a seu compadre.
— Não afianço nada, não creio que seja possível...
— Há de ser possível, afianço eu. Se o senhor quiser,
continuou ela com certo tom insinuativo, tudo se há de arranjar. Peça-lhe
muito, que ele cede. Ande, Senhor João Carneiro, seu
afilhado não volta para o seminário; digo-lhe que não volta...
— Mas, minha senhora...
— Vá, vá.
João Carneiro não se animava a sair, nem podia ficar.
Estava entre um puxar de forças opostas. Não lhe importava, em suma, que o
rapaz acabasse clérigo, advogado ou médico, ou outra qualquer coisa, vadio que
fosse; mas o pior é que lhe cometiam uma luta ingente com os sentimentos mais
íntimos do compadre, sem certeza do resultado; e, se este fosse negativo, outra
luta com Sinhá Rita, cuja última palavra era ameaçadora: "digo-lhe que ele
não volta". Tinha de haver por força um escândalo. João Carneiro estava
com a pupila desvairada, a pálpebra trêmula, o peito ofegante. Os olhares que
deitava a Sinhá Rita eram de súplica, mesclados de um tênue raio de censura.
Por que lhe não pedia outra coisa? Por que lhe não ordenava que fosse a pé,
debaixo de chuva, à Tijuca, ou Jacarepaguá? Mas logo persuadir ao compadre que
mudasse a carreira do filho... Conhecia o velho; era capaz de lhe quebrar uma
jarra na cara. Ah! se o rapaz caísse ali, de repente, apoplético, morto! Era uma solução — cruel, é certo, mas
definitiva.
— Então? insistiu Sinhá Rita.
Ele fez-lhe um gesto de mão que esperasse. Coçava a barba,
procurando um recurso. Deus do céu! um decreto do papa
dissolvendo a Igreja, ou, pelo menos, extinguindo os seminários, faria acabar
tudo em bem. João Carneiro voltaria para casa e ia jogar os três-setes. Imaginai que o barbeiro de Napoleão era
encarregado de comandar a batalha de Austerlitz...
Mas a Igreja continuava, os seminários continuavam, o
afilhado continuava cosido à parede, olhos baixos, esperando, sem solução apoplética.
— Vá, vá, disse Sinhá Rita dando-lhe o chapéu e a bengala.
Não teve remédio. O barbeiro meteu a navalha no estojo,
travou da espada e saiu à campanha. Damião respirou; exteriormente deixou-se estar na mesma, olhos fincados no chão, acabrunhado.
Sinhá Rita puxou-lhe desta vez o queixo.
— Ande jantar, deixe-se de melancolias.
— A senhora crê que ele alcance alguma coisa?
— Há de alcançar tudo, redargüiu Sinhá Rita cheia de si. Ande, que a sopa está esfriando.
Apesar do gênio galhofeiro de Sinhá Rita e do seu próprio
espírito leve, Damião esteve menos alegre ao jantar que na primeira parte do
dia. Não fiava do caráter mole do padrinho. Contudo, jantou bem; e, para o fim,
voltou às pilhérias da manhã. À sobremesa, ouviu um rumor de gente na sala, e
perguntou se o vinham prender.
— Hão de ser as moças.
Levantaram-se e passaram à sala. As moças eram cinco
vizinhas que iam todas as tardes tomar café com Sinhá
Rita, e ali ficavam até o cair da noite.
As discípulas, findo o jantar
delas, tornaram às almofadas do trabalho. Sinhá Rita presidia a todo esse
mulherio de casa e de fora. O sussurro dos bilros e o palavrear das moças eram
ecos tão mundanos, tão alheios à teologia e ao latim, que o rapaz deixou-se ir
por eles e esqueceu o resto. Durante os primeiros minutos, ainda houve da parte
das vizinhas certo acanhamento, mas passou depressa. Uma delas cantou uma
modinha, ao som da guitarra, tangida por Sinhá Rita, e a tarde foi passando
depressa. Antes do fim, Sinhá Rita pediu a Damião que contasse certa anedota
que lhe agradara muito. Era a tal que fizera rir Lucrécia.
— Ande, senhor Damião, não se
faça de rogado, que as moças querem ir embora. Vocês vão gostar muito.
Damião não teve remédio senão obedecer. Malgrado o anúncio
e a expectação, que serviam a diminuir o chiste e o efeito, a anedota acabou
entre risadas das moças. Damião, contente de si, não esqueceu Lucrécia e olhou
para ela, a ver se rira também. Viu-a com a cabeça metida na almofada para
acabar a tarefa. Não ria; ou teria rido para dentro, como tossia.
Saíram as vizinhas, e a tarde
caiu de todo. A alma de Damião foi-se fazendo tenebrosa, antes da noite. Que
estaria acontecendo? De instante a instante, ia espiar pela rótula, e voltava
cada vez mais desanimado. Nem sombra do padrinho. Com certeza, o pai fê-lo
calar, mandou chamar dois negros, foi à polícia pedir um pedestre, e aí vinha
pegá-lo à força e levá-lo ao seminário. Damião perguntou a Sinhá Rita se a casa
não teria saída pelos fundos; correu ao quintal, e calculou que podia saltar o
muro. Quis ainda saber se haveria modo de fugir para a Rua da Vala, ou se era
melhor falar a algum vizinho que fizesse o favor de o receber.
O pior era a batina; se Sinhá Rita lhe pudesse arranjar um rodaque, uma
sobrecasaca velha... Sinhá Rita dispunha justamente de um rodaque, lembrança ou
esquecimento de João Carneiro.
— Tenho um rodaque do meu defunto, disse ela, rindo; mas
para que está com esses sustos? Tudo se há de arranjar, descanse.
Afinal, à boca da noite, apareceu um escravo do padrinho,
com uma carta para Sinhá Rita. O negócio ainda não estava composto; o pai ficou
furioso e quis quebrar tudo; bradou que não, senhor, que o peralta havia de ir
para o seminário, ou então metia-o no Aljube ou na presiganga. João
Carneiro lutou muito para conseguir que o compadre não resolvesse logo, que
dormisse a noite, e meditasse bem se era conveniente dar à religião um sujeito
tão rebelde e vicioso. Explicava na carta que falou assim para melhor ganhar a
causa. Não a tinha por ganha; mas no dia seguinte lá iria ver o homem, e teimar
de novo. Concluía dizendo que o moço fosse para a casa dele.
Damião acabou de ler a carta e olhou para Sinhá Rita. Não
tenho outra tábua de salvação, pensou ele. Sinhá Rita mandou vir um tinteiro de
chifre, e na meia folha da própria carta escreveu esta resposta:
"Joãozinho, ou você salva o moço, ou nunca mais nos vemos". Fechou a
carta com obreia, e deu-a ao escravo, para que a
levasse depressa. Voltou a reanimar o seminarista, que estava outra vez no
capuz da humildade e da consternação. Disse-lhe que sossegasse,
que aquele negócio era agora dela.
— Hão de ver para quanto presto! Não, que eu não sou de
brincadeiras!
Era a hora de recolher os
trabalhos. Sinhá Rita examinou-os; todas as discípulas tinham concluído a
tarefa. Só Lucrécia estava ainda à almofada, meneando os bilros, já sem ver;
Sinhá Rita chegou-se a ela, viu que a tarefa não estava acabada, ficou furiosa,
e agarrou-a por uma orelha.
— Ah! malandra!
— Nhanhã, nhanhã!
pelo amor de Deus! por Nossa
Senhora que está no céu.
— Malandra! Nossa Senhora não protege vadias!
Lucrécia fez um esforço, soltou-se das mãos da senhora, e
fugiu para dentro; a senhora foi atrás e agarrou-a.
— Anda cá!
— Minha senhora, me perdoe! tossia a negrinha.
— Não perdôo, não. Onde está a vara?
E tornaram ambas à sala, uma presa pela orelha,
debatendo-se, chorando e pedindo; a outra dizendo que não, que a havia de
castigar.
— Onde está a vara?
A vara estava à cabeceira da marquesa, do outro lado da
sala. Sinhá Rita, não querendo soltar a pequena, bradou ao seminarista.
— Sr. Damião, dê-me aquela vara, faz favor?
Damião ficou frio... Cruel instante! Uma nuvem passou-lhe
pelos olhos. Sim, tinha jurado apadrinhar a pequena, que por causa dele,
atrasara o trabalho...
— Dê-me a vara, Sr. Damião!
Damião chegou a caminhar na direção da marquesa. A
negrinha pediu-lhe então por tudo o que houvesse mais sagrado, pela mãe, pelo
pai, por Nosso Senhor...
— Me acuda, meu sinhô moço!
Sinhá Rita, com a cara em fogo e os olhos esbugalhados, instava
pela vara, sem largar a negrinha, agora presa de um acesso de tosse. Damião
sentiu-se compungido; mas ele precisava tanto sair do seminário! Chegou à
marquesa, pegou na vara e entregou-a a Sinhá Rita.
O DICIONÁRIO
Era uma vez um tanoeiro, demagogo, chamado Bernardino, o
qual em cosmografia professava a opinião de que este mundo é um imenso tonel de
marmelada, e em política pedia o trono para a multidão. Com o fim de a pôr ali, pegou de um pau, concitou os ânimos e deitou
abaixo o rei; mas, entrando no paço, vencedor e aclamado, viu que o trono só
dava para uma pessoa, e cortou a dificuldade sentando-se em cima.
— Em mim, bradou ele, podeis ver a multidão coroada. Eu sou vós, vós sois eu.
O primeiro ato do novo rei foi abolir a tanoaria,
indenizando os tanoeiros, prestes a derrubá-lo, com o título de Magníficos. O
segundo foi declarar que, para maior lustre da pessoa e do cargo, passava a
chamar-se, em vez de Bernardino, Bernardão.
Particularmente encomendou uma genealogia a um grande doutor dessas matérias,
que em pouco mais de uma hora o entroncou a um tal ou
qual general romano do século IV, Bernardus Tanoarius; — nome que deu lugar à controvérsia, que ainda
dura, querendo uns que o rei Bernardão tivesse sido
tanoeiro, e outros que isto não passe de uma confusão deplorável com o nome do
fundador da família. Já vimos que esta segunda opinião é a única verdadeira.
Como era calvo desde verdes anos, decretou Bernardão que todos os seus súditos fossem igualmente
calvos, ou por natureza ou por navalha, e fundou esse ato em uma razão de ordem
política, a saber, que a unidade moral do Estado pedia a conformidade exterior
das cabeças. Outro ato em que revelou igual sabedoria, foi o que ordenou que
todos os sapatos do pé esquerdo tivessem um pequeno talho no lugar
correspondente ao dedo mínimo, dando assim aos seus súditos o ensejo de se
parecerem com ele, que padecia de um calo. O uso dos óculos em todo o reino não
se explica de outro modo, senão por uma oftalmia que afligiu a Bernardão, logo no segundo ano do reinado. A doença levou-lhe um olho, e foi aqui que se revelou a vocação
poética de Bernardão, porque, tendo-lhe dito um dos
seus dois ministros, chamado Alfa, que a perda de um olho o fazia igual a
Aníbal, — comparação que o lisonjeou muito, — o segundo ministro, Ômega, deu um
passo adiante, e achou-o superior a Homero, que perdera ambos os olhos.
Esta cortesia foi uma revelação; e como isto prende com o casamento, vamos ao
casamento.
Tratava-se, em verdade, de assegurar a dinastia dos Tanoarius. Não faltavam noivas ao novo rei, mas nenhuma lhe
agradou tanto como a moça Estrelada, bela, rica e ilustre. Esta senhora, que
cultivava a música e a poesia, era requestada por alguns cavalheiros, e
mostrava-se fiel à dinastia decaída. Bernardão
ofereceu-lhe as coisas mais suntuosas e raras, e, por outro lado, a família
bradava-lhe que uma coroa na cabeça valia mais que uma saudade no coração; que
não fizesse a desgraça dos seus, quando o ilustre Bernardão
lhe acenasse com o principado; que os tronos não andavam a rodo, e mais isto, e
mais aquilo. Estrelada, porém, resistia à sedução.
Não resistiu muito tempo, mas também não cedeu tudo. Como
entre os seus candidatos preferia secretamente um poeta, declarou que estava
pronta a casar, mas seria com quem lhe fizesse o melhor madrigal, em concurso. Bernardão aceitou a cláusula, louco de amor e confiado em
si: tinha mais um olho que Homero, e fizera a unidade dos pés e das cabeças.
Concorreram ao certâmen, que foi
anônimo e secreto, vinte pessoas. Um dos madrigais foi julgado superior aos
outros todos; era justamente o do poeta amado. Bernardão
anulou por um decreto o concurso, e mandou abrir outro; mas então, por uma
inspiração de insigne maquiavelismo, ordenou que não se empregassem palavras
que tivessem menos de trezentos anos de idade. Nenhum dos concorrentes estudara
os clássicos: era o meio provável de os vencer.
Não venceu ainda assim porque o poeta amado leu à pressa o
que pôde, e o seu madrigal foi outra vez o melhor. Bernardão
anulou esse segundo concurso; e, vendo que no madrigal vencedor as locuções
antigas davam singular graça aos versos, decretou que só se empregassem as
modernas e particularmente as da moda. Terceiro concurso, e terceira vitória do
poeta amado.
Bernardão, furioso, abriu-se com os dois ministros, pedindo-lhes um remédio pronto e enérgico, porque, se não ganhasse a mão de Estrelada, mandaria cortar trezentas mil cabeças. Os dois, tendo consultado algum tempo, voltaram com este alvitre:
— Nós, Alfa e Ômega, estamos designados pelos nossos nomes
para as coisas que respeitam à linguagem. A nossa idéia é que Vossa Sublimidade
mande recolher todos os dicionários e nos encarregue de compor um vocabulário
novo que lhe dará a vitória.
Bernardão assim fez, e os dois meteram-se em casa durante três meses, findos os quais
depositaram nas augustas mãos a obra acabada, um livro a que chamaram
Dicionário de Babel, porque era realmente a confusão das letras. Nenhuma
locução se parecia com a do idioma falado; as consoantes trepavam nas
consoantes, as vogais diluíam-se nas vogais, palavras de duas sílabas tinham
agora sete e oito, e vice-versa, tudo trocado, misturado, nenhuma energia,
nenhuma graça, uma língua de cacos e trapos.
— Obrigue Vossa Sublimidade esta língua por um decreto, e
está tudo feito.
Bernardão concedeu um abraço e uma pensão a
ambos, decretou o vocabulário, e declarou que ia fazer-se o concurso definitivo
para obter a mão da bela Estrelada. A confusão passou do dicionário aos
espíritos; toda a gente andava atônita. Os farsolas cumprimentavam-se na rua pela novas locuções: diziam, por exemplo, em vez de: Bom
dia, como passou? — Pflerrgpxx, rouph, aa? A própria dama,
temendo que o poeta amado perdesse afinal a campanha, propôs-lhe que fugissem;
ele, porém, respondeu que ia ver primeiro se podia fazer alguma coisa. Deram
noventa dias para o novo concurso e recolheram-se vinte madrigais. O melhor
deles, apesar da língua bárbara, foi o do poeta amado. Bernardão,
alucinado, mandou cortar as mãos aos dois ministros e foi a
única vingança. Estrelada era tão admiravelmente bela, que ele não se atreveu a
magoá-la, e cedeu.
Desgostoso, encerrou-se oito dias na biblioteca, lendo,
passeando ou meditando. Parece que a última coisa que leu foi uma sátira do
poeta Garção, e especialmente estes versos, que pareciam feitos de encomenda:
O raro Apeles,
Rubens e Rafael, inimitáveis
Não se fizeram pela cor das tintas;
A mistura elegante os fez eternos.
UM ERRADIO
A porta abriu-se... Deixa-me contar a história à laia de
novela, disse Tosta à mulher, um mês depois de
casados, quando ela lhe perguntou quem era o homem representado numa velha
fotografia, achada na secretária do marido. A porta abriu-se, e apareceu este
homem, alto e sério, moreno, metido numa infinita sobrecasaca cor de rapé, que
os rapazes chamavam opa.
— Aí vem a opa do Elisiário.
— Entre a opa só.
— Não, a opa não pode; entre só o Elisiário,
mas, primeiro há de glosar um mote. Quem dá o mote?
Ninguém dava o mote. A casa era uma simples sala,
sublocada por um alfaiate, que morava nos fundos com a família; Rua do
Lavradio, 1866. Era a segunda vez que ia ali, a convite de um dos rapazes. Não
podes ter idéia da sala e da vida. Imagina um município do país da Boêmia, tudo
desordenado e confuso; além dos poucos móveis pobres, que eram do alfaiate,
havia duas redes, uma canastra, um cabide, um baú de folha-de-flandres, livros,
chapéus, sapatos. Moravam cinco rapazes, mas apareciam outros, e todos eram tudo, estudantes, tradutores, revisores, namoradores, e
ainda lhes sobrava tempo para redigir uma folha política e literária, publicada
aos sábados. Que longas palestras que tínhamos! Solapávamos as bases da
sociedade, descobríamos mundos novos, constelações novas, liberdades novas.
Tudo era o novíssimo.
— Lá vai mote, disse afinal um dos rapazes, e recitou:
Podia embrulhar o mundo
A opa do Elisiário.
Parado à porta, o homem cerrou os
olhos por alguns instantes, abriu-os, passou pela testa o lenço que trazia
fechado na mão, em forma de bolo, e recitou uma glosa de improviso. Rimo-nos
muito; eu, que não tinha idéia do que era improviso, cuidei a princípio que a
composição era velha e a cena um logro para mim. Elisiário
despiu a sobrecasaca, levantou-a na ponta da bengala, deu duas voltas pela
sala, com ar triunfal, e foi pendurá-la a um prego, porque o cabide estava
cheio. Em seguida, atirou o chapéu ao teto, apanhou-o entre as mãos, e foi
pô-lo em cima do aparador.
— Lugar para um! disse finalmente.
Dei-me pressa em ceder-lhe o sofá;
ele deitou-se, fincou os joelhos no ar, e perguntou que novidades havia.
— Que o jantar é duvidoso,
respondeu o redator principal do Cenáculo; o Chico foi ver se cobrava
alguma assinatura. Se arranjar dinheiro, traz logo o jantar da casa de pasto.
Você já jantou?
— Já e bem, respondeu Elisiário, jantei numa casa de comércio. Mas vocês por que
é que não vendem o Chico? é um bonito crioulo. É
livre, não há dúvida, mas por isso mesmo compreenderá que, deixando-se vender
como escravo, terão vocês com que pagar-lhe os
ordenados... Dois mil-réis chegam? Romeu, vê ali no
bolso da sobrecasaca. Há de haver uns dois mil-réis.
Havia só mil e quinhentos, mas não
foram precisos. Cinco minutos depois voltava o Chico, trazendo um tabuleiro com
o jantar e o resto da assinatura de um semestre.
— Não é possível! bradou Elisiário. Uma assinatura!
Vem cá, Chico. Quem foi que pagou? Que figura tinha o homem? Baixo? Não é
possível que fosse baixo; a ação é tão sublime que nenhum homem baixo podia
praticá-la. Confessa que era alto. Confessa ao menos que era de meia altura.
Confessas? Ainda bem! Como se chama? Guimarães? Rapazes,
vamos perpetuar este nome em uma placa de bronze. Acredito que não lhe
deste recibo, Chico.
— Dei, sim, senhor.
— Recibo! Mas a um assinante que paga não se dá recibo,
para que ele pague outra vez; não se matam esperanças,
Chico.
Tudo isto, dito por ele, tinha
muito mais graça que contado. Não te posso pintar os gestos, os olhos e um riso
que não ria, um riso único, sem alterar a face, nem
mostrar os dentes. Essa feição era a menos simpática; mas tudo o mais, a fala,
as idéias, e principalmente a imaginação fecunda e moça, que se desfazia em ditos, anedotas, epigramas, versos, descrições,
ora sério, quase sublime, ora familiar, quase rasteiro, mas sempre original,
tudo atraía e prendia. Trazia a barba por fazer, o cabelo à escovinha; a testa,
que era alta, tinha grossas rugas verticais. Calado, parecia estar pensando.
Voltava-se a miúdo no sofá, erguia-se, sentava-se, tornava a deitar-se. Lá o
deixei, quando saí, às nove horas da noite.
Comecei a freqüentar a casa da Rua
do Lavradio, mas durante os primeiros dias não apareceu o Elisiário.
Disseram-me que era muito incerto. Tinha temporadas. Às vezes, ia todos os dias; repentinamente, falhava uma, duas, três
semanas seguidas, e mais. Era professor de latim e explicador de matemáticas.
Não era formado em coisa nenhuma, posto estudasse engenharia, medicina e
direito deixando em todas as faculdades fama de grande talento sem aplicação.
Seria bom prosador, se fosse capaz de escrever vinte minutos seguidos; era
poeta de improviso, não escrevia os versos, os outros é que os ouviam e
transladavam ao papel, dando-lhe cópias, muitas das quais perdia. Não tinha
família; tinha um protetor, o Dr. Lousada, operador
de algum nome, que devera obséquios ao pai de Elisiário,
e quis pagá-los ao filho. Era atrevido por causa de uma sombrinha de
amor-próprio que não tolerava a menor picada. Naquela casa era bonachão. Trinta
e cinco anos; o mais velho dos rapazes contava apenas vinte e um. A
familiaridade entre ele e os outros era como a de um tio com sobrinhos, um
pouco menos de autoridade, um pouco mais de liberdade.
No fim de uma semana, apareceu Elisiário na Rua do Lavradio. Vinha com a idéia de escrever
um drama, e queria ditá-lo. Escolheram-me a mim, por escrever depressa. Esta
colaboração mental e manual durou duas noites e meia. Escreveu-se um ato e as
primeiras cenas de outro; Elisiário não quis
absolutamente acabar a peça. A princípio disse que depois, mais tarde, estava
indisposto, e falava de outras coisas; afinal, declarou-nos que a peça não
prestava para nada. Espanto geral, porque a obra parecia-nos excelente, e ainda
agora creio que o era. Mas o autor pegou da palavra e demonstrou que nem o
escrito prestava, nem o resto do plano valia coisa nenhuma. Falou como se
tratasse de outrem. Nós contestávamos; eu principalmente achava um crime, e
repetia esta palavra com alma, com fogo — achava um crime não acabar o drama,
que era de primeira ordem.
— Não vale nada, dizia ele
sorrindo para mim com simpatia. Menino, você quantos anos tem?
— Dezoito.
— Tudo é sublime aos dezoito anos.
Cresça e apareça. O drama não presta; mas, deixe estar que havemos de escrever
outro daqui a dias. Ando com uma idéia.
— Sim?
— Uma boa idéia, continuou ele com
os olhos vagos; essa, sim, creio que dará um drama.
Cinco atos; talvez faça em verso. O assunto presta-se...
Nunca mais falou em tal idéia; mas
o drama começado fez com que nos ligássemos um pouco mais intimamente. Ou
simpatia, ou amor-próprio satisfeito, por ver que o mais consternado com a interrupção
e condenação do trabalho fui eu, — ou qualquer outra causa que não achei nem
vale a pena buscar, Elisiário entrou a distinguir-me
entre os outros. Quis saber quem eram meus pais e o que fazia. Disse-lhe que
não tinha mãe; meu pai
era lavrador em Baturité, eu estudava
preparatórios, intercalando-os com versos, e andava com idéias de compor
um poema, um drama e um romance. Tinha já uma lista de subscritores para os
versos. Parece que, de envolta com as notícias literárias, alguma coisa lhe
disse ou ele percebeu acerca dos meus sentimentos de moço. Propôs-se a
ajudar-me nos estudos com o seu próprio ensino, latim, francês, inglês,
história... Cheio de orgulho, não menos que de sensibilidade, proferi algumas
palavras que ele gostou de ouvir, e a que respondeu gravemente:
— Quero fazer de você um homem.
Estávamos sós; eu nada contei aos
outros, para os não molestar, nem sei se eles perceberam daí em diante alguma
diferença no trato do Elisiário, em relação a mim. É
certo, porém, que a diferença não era grande, nem o plano de "fazer-me um
homem" foi além da simpatia e da benevolência. Ensinava-me algumas
matérias, quando eu lhe pedia lições, e eu raramente as
pedia. Queria só ouvi-lo, ouvi-lo, ouvi-lo até não acabar. Não imaginas a
eloqüência desse homem, cálida e forte, mansa e doce, as imagens que lhe
brotavam no discurso, as idéias arrojadas, as formas novas e graciosas. Muita
vez ficávamos os dois sós na Rua do Lavradio, ele falando, eu ouvindo. Onde
morava? Disseram-me vagamente que para os lados da Gamboa,
mas nunca me convidou a lá ir, nem ninguém sabia positivamente onde era.
Na rua era lento, direito,
circunspecto. Nada faria então suspeitar o desengonçado da casa do Lavradio, e,
se falava, eram poucas e meias palavras. Nos primeiros dias, encontrava-me sem
alvoroço quase sem prazer, ouvia-me atento, respondia pouco, estendia os dedos
e continuava a andar. Ia a toda parte; era comum achá-lo nos lugares mais
distantes uns dos outros, Botafogo, S. Cristóvão, Andaraí. Quando lhe dava na
veneta, metia-se na barca e ia a Niterói. Chamava-se a si mesmo erradio.
— Eu sou um erradio. No dia em que
parar de vez, jurem que estou morto.
Um dia encontrei-o na Rua de S.
José. Disse-lhe que ia ao Castelo ver a igreja dos Jesuítas, que nunca vira.
— Pois vamos, disse ele.
Subimos a
ladeira, achamos a igreja aberta e entramos. Enquanto eu mirava os altares, ele
ia falando, mas em poucos minutos o espetáculo era ele só, um espetáculo vivo,
como se tudo renascera tal qual era. Vi os primeiros templos da cidade, os padres
da Companhia, a vida monástica e leiga, os nomes principais e os fatos
culminantes. Quando saímos, e fomos até à muralha, descobrindo o mar e parte da
cidade, Elisiário fez-me viver dois séculos atrás. Vi
a expedição dos franceses, como se a houvesse comandado ou combatido. Respirei
o ar da colônia, contemplei as figuras velhas e mortas. A imaginação evocativa
era a grande prenda desse homem, que sabia dar vida às coisas extintas e
realidade às inventadas.
Mas não era só do passado local
que ele sabia, nem unicamente dos seus sonhos. Vês aquela estatuazinha
que ali tenho na parede? Sabes que é uma redução da Vênus de Milo. Uma vez, abrindo-se a exposição das belas-artes, fui
visitá-la; achei lá o meu Elisiário, passeando grave,
com a sua imensa sobrecasaca. Acompanhou-me; ao passar pela sala de escultura,
dei com os olhos na cópia desta Vênus. Era a primeira vez que a via. Soube que
era ela pela falta dos braços.
— Oh! admirável!
exclamei.
Elisiário entrou a comentar a bela obra
anônima, com tal abundância e agudeza que me deixou ainda mais pasmado. Que de
coisas me disse a propósito da Vênus de Milo, e da
Vênus em si mesma! Falou da posição dos braços, que gesto fariam,
que atitude dariam à figura, formulando uma porção de hipóteses graciosas e
naturais. Falou da estética, dos grandes artistas, da vida grega, do mármore
grego, da alma grega. Era um grego, um puro grego, que ali me aparecia e
transportava de uma rua estreita para diante do Pártenon.
A opa do Elisiário transformou-se em clâmide, a língua devia ser a da Hélade,
conquanto eu nada soubesse a tal respeito, nem então, nem agora. Mas era
feiticeiro o diabo do homem.
Saímos; fomos até o Campo da
Aclamação, que ainda não possuía o parque de hoje, nem tinha outra polícia além
da natureza, que fazia brotar o capim, e das lavadeiras, que batiam e
ensaboavam a roupa defronte do quartel. Eu ia cheio do discurso do Elisiário, ao lado dele, que levava a cabeça baixa e os
olhos pensativos. De repente, ouvi dizer baixinho:
— Adeus, Ioiô!
Era uma quitandeira de doces, uma
crioula baiana, segundo me pareceu pelos bordados e crivos da saia e da camisa.
Vinha da Cidade Nova e atravessava o campo. Elisiário
respondeu à saudação:
— Adeus, Zeferina.
Estacou e olhou para mim, rindo
sem riso, e, depois de alguns segundos:
— Não se espante,
menino. Há muitas espécies de Vênus. O que ninguém dirá é que a esta lhe faltem
braços, continuou olhando para os braços da quitandeira, mais negros ainda pelo
contraste da manga curta e alva da camisa.
Eu, de vexado, não achei resposta.
Não contei esse episódio na Rua do
Lavradio; podiam meter à bulha o Elisiário, e não
queria parecer indiscreto. Tinha-lhe não sei que veneração particular que a
familiaridade não enfraquecia. Chegamos a jantar juntos algumas vezes, e uma noite fomos ao teatro. O que mais lhe custava no teatro
era estar muito tempo na mesma cadeira, apertado entre duas pessoas, com gente
adiante e atrás de si. Nas noites de enchente, em que eram precisas travessas
na platéia, ficava aflito com a idéia de não poder sair no meio de um ato, se
quisesse. Naquela, acabado o terceiro ato (a peça tinha cinco), disse-me que
não podia mais e que ia embora.
Fomos tomar chá ao botequim
próximo, e deixei-me estar, esquecido do espetáculo. Ficamos até o fechar das
portas. Tínhamos falado de viagens; eu contei-lhe a vida do sertão cearense,
ele ouviu e projetou mil jornadas ao sertão do Brasil inteiro, por serras,
campos e rios, de mula e de canoa. Colheria tudo, plantas, lendas, cantigas,
locuções. Narrou a vida do caipira, falou de Enéias, citou Virgílio e Camões, com grande espanto dos
criados, que paravam boquiabertos.
— Você era capaz de ir daqui a pé,
até S. Cristóvão, agora? perguntou-me na rua.
— Pode ser.
— Não, você está cansado.
— Não estou, vamos.
— Está cansado, adeus; até depois,
concluiu.
Realmente, estava fatigado,
precisava dormir. Quando ia a voltar para casa, perguntei a mim mesmo se ele
iria sozinho, àquela hora, e deu-me vontade de acompanhá-lo de longe, até certo
ponto. Ainda o apanhei na Rua dos Ciganos. Ia devagar, com a bengala debaixo do
braço, e as mãos ora atrás, ora nas algibeiras das calças. Atravessou o Campo
da Aclamação, enfiou pela Rua de S. Pedro e meteu-se pelo Aterrado acima. Eu,
no Campo, quis voltar, mas a curiosidade fez-me ir andando também. Quem sabe se
esse erradio não teria pouso certo de amores escondidos? Não gostei desta
reflexão, e quis punir-me desandando; mas a curiosidade levara-me o sono e
dava-me vigor às pernas. Fui andando atrás do Elisiário.
Chegamos assim à ponte do Aterrado, enfiamos por ela, desembocamos na Rua de S.
Cristóvão. Ele algumas vezes parava, ou para acender um charuto, ou para nada.
Tudo deserto, uma ou outra patrulha, algum tílburi,
raro, a passo cochilado, tudo deserto e longo. Assim chegamos ao cais da
Igrejinha. Junto ao cais dormiam os botes que, durante o dia, conduziam gente
para o Saco do Alferes. Maré frouxa, apenas o ressonar manso da água. Após
alguns minutos, quando me pareceu que ia voltar pelo mesmo caminho, acordou os
remadores de um bote, que de acaso ali dormiam, e propôs-lhes levá-lo à cidade.
Não sei quanto ofereceu; vi que, depois de alguma relutância, aceitaram a
proposta.
Elisiário entrou no bote, que se afastou logo, os remos feriram a água, e lá se perdeu na
noite e no mar o meu professor de latim e explicador de matemáticas. Também eu
me achei perdido, longe da cidade e exausto. Valeu-me um tílburi, que
atravessava o Campo de S. Cristóvão, tão cansado como eu, mas piedoso e
necessitado.
— Você não quis ir comigo
anteontem a São Cristóvão? Não sabe o que perdeu; a noite estava linda, o
passeio foi muito agradável. Chegando ao cais da Igrejinha, meti-me num bote e
vim desembarcar no Saco do Alferes. Era um bom pedaço até a casa; fiquei numa
hospedaria do Campo de Sant'Ana. Fui atacado por um
cachorro, no caminho do Saco, e por dois na Rua de S. Diogo, mas não senti as
pulgas da hospedaria, porque dormi como um justo. E você que fez?
— Eu?
Não querendo mentir, se ele me
tivesse pressentido, nem confessar que o acompanhara de longe, respondi
sumariamente:
— Eu? Eu também dormi como um
justo.
— Justus,
justa, justum.
Estávamos na casa da Rua do
Lavradio. Elisiário trazia no peito da camisa um
botão de coral, objeto de grande espanto e aclamação da parte dos rapazes, que
nunca jamais o viram com jóias. Maior, porém, foi o meu espanto, depois que os
rapazes saíram. Tendo ouvido que me faltava dinheiro para comprar sapatos, Elisiário sacou o botão de coral e disse que me fosse
calçar com ele. Recusei energicamente, mas tive de aceitá-lo à força. Não o
vendi nem empenhei; no dia seguinte pedi algum dinheiro adiantado ao
correspondente de meu pai, calcei-me de novo, e esperei que chegasse o paquete
do Norte, para restituir o botão ao Elisiário. Se
visses a cara de desconsolo com que o recebeu!
— Mas o senhor não disse outro dia
que lhe tinham dado este botão de presente? repliquei
à proposta que me fez de ficar com a jóia.
— Sim, disse e é verdade; mas para
que me servem jóias? Acho que ficam melhor nos outros.
Bem pensado, como é presente, posso guardar o botão. Deveras, não o quer para
si?
— Não, senhor; um presente...
— Presente de anos, continuou
mirando a pedra com o olhar vago. Fiz trinta e cinco. Estou velho, meu menino;
não tardo em pedir reforma e ir morrer em algum buraco.
Tinha acabado de repor o botão na
camisa.
— Fez anos, e não me disse.
— Para quê? Para visitar-me? Não
recebo nesse dia; de costume janto com o meu velho amigo Dr. Lousada, que também faz o seu versinho, às vezes, e outro
dia brindou-me com um soneto impresso em papel azul... Lá o tenho em casa; não
é mau.
— Foi ele que lhe deu o botão...
— Não, foi a
filha... O soneto tem um verso muito parecido, com outro de Camões; o meu velho
Lousada possui as suas letras clássicas, além de ser
excelente médico... Mas o melhor dele é a alma ...
Quiseram fazê-lo deputado. Ouvi
que dois amigos dele, homens políticos, entenderam que o Elisiário
daria um bom orador parlamentar. Não se opôs, pediu apenas aos inventores do
projeto que lhe emprestassem algumas idéias políticas; riram-se, e o projeto
não foi adiante.
Quero crer que lhe não faltassem
idéias, talvez as tivesse de sobra, mas tão contrárias umas às outras que não
chegariam a formar uma opinião. Pensava segundo a disposição do dia, liberal
exaltado ou conservador corcunda. O principal motivo da recusa era a
impossibilidade de obedecer a um partido, a um chefe, a um regimento de câmara.
Se houvesse liberdade de alterar as horas da sessão, uma de manhã, outra de
noite, outra de madrugada, ao acaso da freqüência, sem ordem do dia, com
direito de discutir o anel de Saturno ou os sonetos de Petrarca, o meu erradio Elisiário aceitaria o cargo, contanto que não fosse
obrigado a estar calado, nem a falar, quando lhe chegasse a
vez.
Aí tens o que era esse homem
fotografado em 1862. Em suma, boa criatura, muito talento, excelente
conversador, alma inquieta e doce, desconfiada e irritadiça, sem futuro nem
passado, sem saudades nem ambições, um erradio. Senão quando... Mas é muito
falar sem fumar um charuto... Consentes? Enquanto acendo o charuto, olha para
esse retrato, descontando-lhe os olhos, que não saíram bem; parecem olhos de
gato e inquisidor, espetados na gente, como querendo furar a consciência. Não eram isso; olhavam mais para dentro que para fora, e quando
olhavam para fora derramavam-se por toda a parte.
Senão quando, uma
tarde, já escuro, por volta das sete horas, apareceu-me na casa de
pensão o meu amigo Elisiário. Havia três semanas que
o não via, e, como tratava de fazer exames, e passava mais tempo metido em casa,
não me admirei da ausência nem cuidei dela. Demais, já me acostumara aos seus
eclipses. O quarto estava escuro, eu ia sair e acabava de apagar a vela, quando
a figura alta e magra do Elisiário apareceu à porta.
Entrou, foi direito a uma cadeira, sentei-me ao pé dele, perguntei-lhe por onde
andara. Elisiário abraçou-me chorando. Fiquei tão
assombrado que não pude dizer nada; abracei-o também, ele enxugou os olhos com
o lenço, que de costume trazia fechado na mão, e suspirou largo. Creio que
ainda chorou silenciosamente, porque enxugava os olhos de quando em quando. Eu,
cada vez mais assombrado, esperava que ele me dissesse o que tinha; afinal
murmurei:
— Que é? que
foi?
— Tosta, casei-me sábado...
Cada vez mais espantado, não tive
tempo de lhe pedir outra explicação, porque o Elisiário
continuou logo, dizendo que era um casamento de gratidão, não de amor, uma
desgraça. Não sabia que respondesse à confidência, não acabava de crer na
notícia, e principalmente, não entendia o abatimento nem a dor do homem. A
figura do Elisiário, qual a recompus depois, não me
aparecia por esse tempo com a significação verdadeira. Cheguei a supor alguma
coisa mais que o simples casamento; talvez a mulher fosse idiota ou tísica; mas
quem o obrigaria a desposar uma doente?
"Uma desgraça! repetia baixinho, falando para si, uma desgraça!"
Como eu me levantasse dizendo que
ia acender uma vela, Elisiário reteve-me pela aba do
fraque.
— Não acenda,
não me vexe, o escuro é melhor, para lhe expor esta minha desgraça. Ouça-me.
Uma desgraça. Casado! Não é que ela me não ame; ao contrário, morria por mim há
sete anos. Tem vinte e cinco... Boa criatura! Uma desgraça!
A palavra desgraça era a
que mais vezes lhe tornava ao discurso. Eu, para saber
o resto, quase não respirava; mas não ouvi grande coisa, pois o homem, depois
de algumas palavras descosidas, suspendeu a conferência. Fiquei sabendo só que a mulher era filha do Dr. Lousada,
seu protetor e amigo, a mesma que lhe dera o botão de coral. Elisiário calou-se de repente, e depois de alguns instantes
como arrependido ou vexado, pediu-me que não referisse
a pessoa alguma aquela cena dele comigo.
— O senhor deve conhecer-me...
— Conheço, e porque o conheço é
que vim aqui. Não sei que outra pessoa me merecesse agora igual confiança. Adeus, não lhe digo mais nada, não vale a pena. Você é moço,
Tosta; se não tiver vocação para o casamento, não se case nunca, nem por
gratidão, nem por interesse. Há de ser um suplício. Adeus. Não lhe digo onde
moro, moro com meu sogro, mas não me procure.
Abraçou-me e saiu. Fiquei à porta
do quarto. Quando me lembrei de acompanhá-lo até escada, era tarde; ia descendo
os últimos degraus. O lampião de azeite alumiava mal a escada, e a figura
descia vagarosa, apoiada ao corrimão, cabeça baixa e a vasta sobrecasaca
alegre, agora triste.
Só dez meses depois tornei a ver o
Elisiário. A primeira ausência foi minha; tinha ido
ao Ceará, ver meu pai, durante as férias. Quando voltei, soube que ele fora ao
Rio Grande do Sul. Um dia, almoçando, li nos jornais que chegara na véspera, e corri a buscá-lo. Achei-o em Santa Teresa, uma
casinha pequena, com um jardim, pouco maior que ela. Elisiário
abraçou-me com alvoroço; falamos de coisas passadas; perguntei-lhe pelos
versos.
— Publiquei um volume em Porto
Alegre. Não foi por minha vontade, mas minha mulher teimou tanto que afinal
cedi; ela mesma os copiou. Tem alguns erros; hei de fazer aqui uma segunda
edição.
Elisiário deu-me um exemplar do livro, mas
não consentiu que lesse ali nada. Queria só falar dos tempos idos. Perdera o
sogro, que lhe deixara alguma coisa, e ia continuar a lecionar, para ver se
achava as impressões de outrora. Onde estavam os rapazes da Rua do Lavradio?
Recordava cenas antigas, noitadas, algazarra, grandes risotas, que me iam
lembrando coisas análogas, e assim gastamos duas boas horas compridas. Quando
me despedi, pegou-me para jantar.
— Você ainda não viu minha mulher,
disse ele. E indo à porta que dava para dentro: — Cintinha!
— Lá vou! respondeu
uma voz doce.
D. Jacinta chegou logo depois, com
os seus vinte e seis anos, mais baixa que alta, mais feia
que bonita, expressão boa e séria, grande quietação de maneiras. Quando ele lhe
disse o meu nome, olhou para mim espantada.
— Não é um bonito rapaz?
Ela confirmou a opinião inclinando
modestamente a cabeça. Elisiário disse-lhe que eu
jantava com eles; a moça retirou-se da sala.
— Boa criatura, disse-me ele;
dedicada, serviçal. Parece que me adora. Já me não faltam botões nos paletós
que trago... Pena! melhor que eles eram os botões que
faltavam. A sobrecasaca de outrora, lembra-se?
Podia embrulhar o mundo
A opa do Elisiário.
— Lembra-me.
— Creio que me durou cinco anos. Onde vai ela! Hei de fazer-lhe um epicédio,
com uma epígrafe de Horácio...
Jantamos alegremente. D. Jacinta
falou pouco; deixou que eu e o marido gastássemos o tempo em relembrar o
passado. Naturalmente, o marido tinha surtos de eloqüência, como outrora; a
mulher era pouca para ouvi-lo. Elisiário esquecia-se
de nós, ela de si, e eu achava a mesma nota antiga, tão viva e tão forte. Era
costume dele concluir um discurso desses e ficar algum
tempo calado. Resumia dentro de si o que acabava de dizer? Continuava a mesma
ordem de idéias? Deixava-se ir ainda pela música da palavra? Não sei; achei-lhe
o velho costume de ficar calado sem dar pelos outros. Nessas ocasiões a mulher
calava-se também, a olhar para ele, não cheia de pensamento, mas de admiração.
Sucedeu isso duas vezes. Em ambas chegou a ser bonita.
Elisiário disse-me, ao café, que viria
comigo abaixo.
— Você deixa,
Cintinha?
D. Jacinta sorriu para mim, como
se dissesse que o pedido era desnecessário. Também ela falou no livro de versos
do marido.
— Elisiário
é preguiçoso; o senhor há de ajudar-me a fazer com que ele trabalhe.
Meia hora depois descíamos a ladeira. Elisiário confessou-me
que, desde que casara, não tivera ocasião de relembrar a vida de solteiro, e ao
chegarmos abaixo declarou-me que iríamos ao teatro.
— Mas você não avisou em casa...
— Que tem? Aviso depois. Cintinha
é boa, não se zanga por isso. Que teatro há de ser?
Não foi nenhum; falamos de outras
coisas, e às nove horas tornou para casa. Voltei a Santa Teresa poucos dias
depois, não o achei, mas a mulher disse-me que o esperasse, não tardaria.
— Foi a uma visita aqui mesmo no
morro, disse ela; há de gostar muito de o ver.
Enquanto falava, ia fechando
dissimuladamente um livro, e foi pô-lo em uma mesa, a um canto. Tratamos do
marido; ela pediu-me que lhe dissesse o que pensava dele, se era um grande
espírito, um grande poeta, um grande orador, um grande homem, em suma. As
palavras não seriam propriamente essas, mas vinham a dar nelas. Eu, que o
admirava, confirmei-lhe o sentimento, e o gosto com que me ouviu foi paga
bastante ao tal ou qual esforço que empreguei para dar à minha opinião a mesma
ênfase.
— Faz bem em ser amigo dele,
concluiu; ele sempre me falou bem do senhor; dizia que era um menino muito
sério.
O gabinete tinha flores frescas e
uma gaiola com passarinho. Tudo em ordem, cada coisa em seu lugar, obra visível
da mulher. Daí a pouco entrou Elisiário, com a
gravata no pescoço, o laço na frente, a barba rapada, correto e em flor. Só
então notei a diferença entre este Elisiário e o
outro. A incoerência dos gestos era já menor, ou estava prestes a acabar
inteiramente. A inquietação desaparecera. Logo que ele entrou, a mulher
deixou-nos para ir mandar fazer café, e voltou pouco depois, com um trabalho de
agulha.
— Não, senhora,
vamos primeiro ao latim, bradou o marido.
D. Jacinta corou
extraordinariamente, mas obedeceu ao marido e foi buscar o livro que estava
lendo quando eu cheguei.
— Tosta é de confiança, continuou Elisário, não vai dizer nada a ninguém.
E voltando-se para mim:
— Não pense que sou eu que lhe
imponho isto; ela mesma é que quis aprender.
Não crendo o que ele me dizia,
quis poupar à moça a lição de latim, mas foi ela própria que me dispensou o
auxílio, indo buscar alegremente a gramática do Padre Pereira. Vencida a
vergonha, deu a lição, como um simples aluno. Ouvia com atenção, articulava com
prazer, e mostrava aprender com vontade. Acabado o latim, o marido quis passar
à lição de história; mas foi ela, dessa vez, que recusou obedecer, para me não
roubá-lo a mim. Eu, pasmado, desfiz-me em louvores; realmente achava tão fora
de propósito aquela escola de latim conjugal, que não alcançava explicação, nem
ousava pedi-la.
Amiudei as visitas. Jantava com
eles algumas vezes. Ao domingo ia só almoçar. D. Jacinta era um primor. Não
imaginas a graça que tinha em falar e andar, tudo sem perder a compostura dos
modos nem a gravidade dos pensamentos. Sabia muitos trabalhos de mãos, apesar
do latim e da história que o marido lhe ensinava. Vestia com simplicidade,
usava os cabelos lisos e não trazia jóia alguma; podia ser afetação, mas tal
era a sinceridade que punha em tudo, que parecia natural nisso como no resto.
Ao domingo, o almoço era no
jardim. Já achava o Elisiário à minha espera, à
porta, ansioso que eu chegasse. A mulher estava acabando de arranjar as flores
e folhagens que tinham de adornar a mesa. Além disso e
do mais, adornava cartões contendo a lista dos pratos, com emblemas poéticos e
nomes de musas para as comidas. Nem todas as musas podiam entrar, eles não eram
ricos, nem nós tão comilões; entravam as que podiam. Era ao almoço que Elisiário, nos primeiros tempos, mais geralmente
improvisava alguma coisa. Improvisava décimas, — ele preferia essa estrofe a
qualquer outra; mais tarde, foi diminuindo o número delas, e para diante não
passava de duas ou de uma. D. Jacinta pedia-lhe então sonetos; sempre eram
quatorze versos. Ela e eu copiávamos logo, a lápis, com retificações que ele
fazia, rindo: — "Para que querem vocês
isso?" Afinal perdeu o costume, com grande mágoa da mulher, e minha
também. Os versos eram bons, a inspiração fácil; faltava-lhes só o calor
antigo.
Um dia perguntei a Elisiário por que não reimprimia o livro de versos, que ele
dizia ter saído com incorreções; eu ajudaria a ler as provas. D. Jacinta apoiou
com entusiasmo a proposta.
— Pois, sim, disse ele, um dia
destes; começaremos domingo.
No domingo, D. Jacinta, estando a
sós comigo, um instante, pediu-me que não esquecesse a revisão do livro.
— Não, senhora, deixe estar.
— Não enfraqueça, se ele quiser adiar o trabalho, continuou a moça; é provável que ele fale em guardar para outra vez, mas teime sempre, diga que não, que se zanga, que não volta cá...
Apertou-me a mão com tanta força,
que me deixou abalado. Os dedos tremiam-lhe; parecia um aperto de namorada.
Cumpri o que disse, ela ajudou-me, e ainda assim gastamos meia hora antes que
ele se dispusesse ao trabalho. Afinal pediu-nos que esperássemos, ia buscar o
livro.
— Desta vez, vencemos, disse eu.
D. Jacinta fez com a boca um gesto
de desconfiança, e passou da alegria ao abatimento.
— Elisiário
está preguiçoso. Há de ver que não acabamos nada. Pois não vê que não faz
versos senão à força de muito pedido, e poucos? Podia escrever também, quando
mais não fosse alguns daqueles discursos que costuma
improvisar, mas os próprios discursos são raros e curtos. Tenho-me oferecido
tantas vezes para escrever o que ele mandar... Chego a preparar o papel, pego
na pena e espero; ele ri, disfarça, diz um gracejo, e responde que não está
disposto.
— Nem sempre estará.
— Pois sim; mas então declaro que estou pronta para quando vier a inspiração, e peço-lhe que me chame. Não chama nunca. Uma ou outra vez tem planos; eu vou animando, mas os planos ficam no mesmo. Entretanto, o livro que ele imprimiu em Porto Alegre foi bem recebido, podia animá-lo.
— Animá-lo? Mas ele não precisa de
animações; basta-lhe o grande talento que tem.
— Não é verdade? disse ela chegando-se a mim, com os olhos cheios de fogo.
Mas é pena! tanto talento perdido!
— Nós o acharemos; hei de tratá-lo como se ele fosse mais moço que eu. O mau foi deixá-lo cair na ociosidade...
Elisiário tornou com um exemplar do livro.
Não trazia tinta nem pena; ela foi buscá-las. Começamos o trabalho da revisão;
o plano era emendar, não só os erros de imprensa, mas o próprio texto. A
novidade do caso interessou grandemente o nosso poeta, durante perto de duas
horas. Verdade é que a maior parte do tempo era interrompido
com a história das poesias, a notícia das pessoas, se as havia, e havia
muitas; uma boa porção das composições era dedicada a amigos ou homens
públicos. Naturalmente fizemos pouco: não passamos de vinte páginas. Elisiário confessou que estava com sono, adiamos o
trabalho, e nunca mais pegamos nele.
D. Jacinta chegou a pedir ao
marido que nos deixasse a nós a tarefa de emendar o livro; ele veria depois o
texto emendado e pronto. Elisiário respondeu que não,
que ele mesmo faria tudo, que esperássemos, não havia pressa. Mas, como disse,
nunca mais pegamos no livro. Já raro improvisava, e, como não tinha paciência
para compor escrevendo, os versos iam escasseando mais. Já lhe saíam frouxos; o
poeta repetia-se. Quisemos ainda assim propor-lhe outro livro, recolhendo o que
havia, e antes de o propor, tratamos de compilá-lo. O
todo precisava de revisão; Elisiário consentiu em
fazê-la, mas a tentativa teve o mesmo resultado que a outra. Os próprios
discursos iam acabando. O gosto da palavra morria. Falava como todos nós
falamos; não era já nem sombra daquela catadupa de idéias, de imagens, de
frases, que mostravam no orador um poeta. Para o fim, nem falava; já me recebia
sem entusiasmo, ainda que cordialmente. Afinal vivia aborrecido.
Com poucos anos de casada, D.
Jacinta tinha no marido um homem de ordem, de sossego, mas sem inspiração nem
calor. Ela própria foi mudando também. Não instava já pela composição de versos
novos, nem pela correção dos velhos. Ficou tão desinteressada como ele. Os
jantares e os almoços eram como os de qualquer pessoa que não cuide de letras.
D. Jacinta buscava não tocar em tal assunto que era penoso ao marido e a ela;
eu imitava-os. Quando me formei, Elisiário compôs um
soneto em honra minha; mas já lhe custou muito, e, a falar verdade, não era do
mesmo homem de outro tempo.
D. Jacinta vivia então, não direi triste, mas desencantada. A razão não se compreenderá bem, senão sabendo as origens da afeição que a levara ao casamento.
Pelo que pude colher e observar,
nunca essa moça amou verdadeiramente o homem com quem casou. Elisiário acreditou que sim, e o disse, porque o pai dela
pensava que era deveras um amor como os outros. A verdade, porém, é que o
sentimento de D. Jacinta era pura admiração. Tinha uma paixão intelectual por
esse homem, nada mais, e nos primeiros anos não pensou em casar com ele. Quando
Elisiário ia à casa do Dr. Lousada,
D. Jacinta vivia as melhores horas da vida,
escutando-lhe os versos, novos ou velhos, — os que trazia de cor e os que
improvisava ali mesmo. Possuía boa cópia deles. Mas, ainda que não fossem
versos, contentava-se em ouvi-lo para admirá-lo. Elisiário,
que a conhecia desde pequena, falava-lhe como a uma irmã mais moça. Depois viu
que era inteligente, mais do que o comum das mulheres, e que havia nela um
sentimento de poesia e de arte que a faziam superior. O apreço em que a tinha
era grande, mas não passava disso.
Assim se passaram anos. D. Jacinta
começou a pensar em um ato de pura dedicação. Conhecia a vida de Elisiário, os dias perdidos, as noitadas, a incoerência e o
desarranjo de uma existência que ameaçava acabar na inutilidade. Nenhum
estímulo, nenhuma ambição de futuro. D. Jacinta acreditava no gênio de Elisiário. Muitos eram os admiradores; nenhum tinha a fé
viva, a devoção calada e profunda daquela moça. O projeto era desposá-lo. Uma
vez casados, ela lhe daria a ambição que não tinha, o
estímulo, o hábito do trabalho regular, metódico, e naturalmente abundante. Em
vez de perder o tempo e a inspiração em coisas fúteis ou conversas ociosas,
comporia obras de fôlego, nas boas horas e para ele quase todas as horas eram
excelentes. O grande poeta afirmar-se-ia perante o mundo. Assim disposta, não
lhe foi difícil obter a colaboração do pai, sem todavia
confessar-lhe o motivo secreto da ação; seria dizer que se casava sem amor. O
que ela disse foi que o amava deveras.
Que haja nisso uma nota romanesca,
é verdade; mas o romanesco era aqui obra de piedade, vinha de um sentimento de
admiração, e podia ser um sacrifício. Talvez mais de um tentasse casar com ela.
D. Jacinta não pensou em ninguém, até que lhe surdiu a idéia generosa de
seduzir o poeta. Já sabes que este casou por obediência.
O resultado foi inteiramente
oposto às esperanças da moça. O poeta, em vez dos louros, enfiou uma carapuça
na cabeça, e mandou bugiar a poesia. Acabou em nada.
Para o fim dos tempos nem lia já obras de arte. D. Jacinta padeceu grandemente;
viu esvair-se-lhe o sonho, e, se não perdeu, antes ganhou o latim, perdeu
aquela língua sublime em que cuidou falar às ambições de um grande espírito. A
conclusão a que chegou foi ainda um desconsolo para si. Concluiu que o
casamento esterilizara uma inspiração que só tinha ambiente na liberdade do
celibato. Sentiu remorsos. Assim, além de não achar as doçuras do casamento na
união com Elisiário, perdeu a única vantagem a que se
propusera no sacrifício.
Errava naturalmente. Para mim Elisiário era o mesmo erradio, ainda que parecesse agora
pousado; mas era também um talento de pouca dura; tinha de acabar, ainda que
não casasse. Não foi a ordem que lhe tirou a inspiração. Certamente, a desordem
ia mais com ele que tanto tinha de agitado, como de solitário; mas a quietação
e o método não dariam cabo do poeta, se a poesia nele não fosse uma grande
febre da mocidade... Em mim é que não passou de ligeira constipação da
adolescência. Pede-me tu amor, que o terás; não me peças versos, que desaprendi
há muito, concluiu Tosta, beijando a mulher.
ETERNO!
— Não me expliques nada, disse eu entrando no quarto; é o
negócio da baronesa.
Norberto enxugou os olhos e sentou-se na cama, com as
pernas pendentes. Eu, cavalgando uma cadeira, pousei a barba no dorso, e
proferi este breve discurso:
— Mas, meu pateta, quantas vezes queres que te diga que
acabes com essa paixão ridícula e humilhante? Sim, senhor, humilhante e
ridícula, porque ela não faz caso de ti; e demais, é arriscado. Não? Verás se o
é, quando o barão desconfiar que lhe arrastas a asa à
mulher. Olha que ele tem cara de maus bofes.
Norberto meteu as unhas na cabeça, desesperado. Tinha-me
escrito cedo, pedindo que fosse confortá-lo e dar-lhe algum conselho;
esperara-me na rua, até perto de uma hora da noite, defronte da casa de pensão
em que eu morava; contava-me na carta que não dormira,
que recebera um golpe terrível, falava em atirar-se ao mar. Eu, apesar de outro
golpe que também recebera, acudi ao meu pobre Norberto. Éramos da mesma idade,
estudávamos medicina, com a diferença que eu repetia o terceiro ano, que
perdera, por vadio. Norberto vivia com os pais; não me cabendo igual fortuna,
por havê-los perdido, vivia de uma mesada que me dava um tio da Bahia e das
dívidas que o bom velho pagava semestralmente. Pagava-as, e escrevia-me logo
uma porção de coisas amargas, concluindo sempre que, pelo menos, fosse
estudando até ser doutor. Doutor, para quê? dizia
comigo. Pois se nem o sol, nem a lua, nem as moças, nem os bons charutos Vilegas eram doutores, que necessidade tinha eu de o ser? E
tocava a rir, a folgar, a deixar correr semanas e credores.
Falei de um golpe recebido. Era uma carta do tio, vinda
com a do Norberto, naquela mesma manhã. Abri-a antes da outra, e li-a com
pasmo. Já me não tuteava; dizia cerimoniosamente:
"Sr. Simeão Antônio de Barros, estou farto de gastar à toa o meu dinheiro
com o senhor. Se quiser concluir os estudos, venha
matricular-se aqui, e morar comigo. Se não, procure por si mesmo recursos; não
lhe dou mais nada." Amarrotei o papel, finquei os olhos numa litografia
muito ruim do Visconde de Sepetiba, que já achei pendente
de um prego, no meu quarto de pensão, e disse-lhe os nomes mais feios, de
maluco para baixo. Bradei que podia guardar o seu dinheiro, que eu tinha vinte
anos, — o primeiro dos direitos do homem, anterior aos tios e outras convenções
sociais.
A imaginação, madre amiga, apontou-me
logo uma infinidade de recursos, que bastavam a dispensar os magros cobres de
um velho avarento; mas, passada essa primeira impressão, e relida a carta,
entrei a ver que a solução era mais árdua do que parecia. Os recursos podiam
ser bons e até certos; mas eu estava tão afeito a ir à Rua da Quitanda receber
a pensão mensal e a gastá-la em dobro, que mal podia adotar outro sistema.
Foi neste ponto que abri a carta do amigo Norberto e corri
à casa dele. Já sabem o que lhe disse; viram que ele
meteu as unhas na cabeça, desesperado. Saibam agora que, depois do gesto, disse
com olhar sombrio que esperava de mim outros conselhos.
— Quais?
Não me respondeu.
— Que compres uma pistola ou uma gazua? algum
narcótico?
— Para que estás caçoando comigo?
— Para fazer-te homem.
Norberto deu de ombros, com um laivozinho de escárnio ao
canto da boca. Que homem? Que era ser homem senão amar a mais divina criatura
do mundo e morrer por ela?
A Baronesa de Magalhães, causa daquela demência, viera
pouco antes da Bahia, com o marido, que antes do baronato, adquirido para
satisfazer a noiva, era Antônio José Soares de Magalhães. Vinham casados de
fresco; a baronesa tinha menos trinta anos que o barão; ia em
vinte e quatro. Realmente era bela. Chamavam-lhe, em família, Iaiá Lindinha. Como o barão era velho amigo do pai de
Norberto, as duas famílias uniram-se desde logo.
— Morrer por ela? disse eu.
Jurou-me que sim; era capaz de matar-se. Mulher
misteriosa! A voz dela entrava-lhe pelos ossos... E, dizendo isto, rolava na
cama, batia com a cabeça, mordia os travesseiros. Às vezes, parava, arquejando;
logo depois tornava às mesmas convulsões, abafando os soluços e os gritos, para
que os não ouvissem do primeiro andar.
Já acostumado às lágrimas do meu amigo, desde a vinda da
baronesa, esperei que elas acabassem, mas não acabavam. Descavalguei
a cadeira, fui a ele, bradei-lhe que era uma criançada, e despedi-me; Norberto
pegou-me na mão, para que ficasse, não me tinha dito
ainda o principal.
— É verdade; que é?
— Vão-se embora. Estivemos lá ontem, e ouvi que embarcam
sábado.
— Para a Bahia?
— Sim.
— Então, vão comigo.
Contei-lhe o caso da carta, e as ordens de meu tio para ir
matricular-me na Bahia, e estudar ao pé dele. Norberto escutou-me alvoroçado.
Na Bahia? Iríamos juntos; éramos íntimos, os pais não recusariam este favor à
nossa jovem amizade. Confesso que o plano pareceu-me excelente, e demo-nos a
ele com afinco. A mãe, apesar de muita lágrima que teria de verter ao
despegar-se do filho, cedeu mais prontamente do que supúnhamos. O pai é que não
cedeu nada. Não houve rogos nem empenhos; o próprio barão, que eu tive a arte
de trazer ao nosso propósito, não alcançou do velho amigo que deixasse ir o
filho, nem ainda com a promessa de o aposentar em casa
e velar por ele. O pai foi inflexível.
Podem imaginar o desespero do meu amigo. Na noite de
sexta-feira esteve em casa dela, com a família, até onze horas; mas, com o
pretexto de passar comigo a última noite da minha estada aqui, veio realmente chorar
tantas e tais lágrimas, como nunca as vi chorar jamais, nem antes nem depois.
Não podia descrer da paixão, nem presumir consolá-la; era a primeira. Até
então, ambos nós só conhecíamos os trocos miúdos do amor; e, por desgraça dele
a primeira moeda grande que achara, não era ouro nem prata, senão ferro, duro
ferro, como a do velho Licurgo, forjada como mesmo amargo vinagre.
Não dormimos. Norberto chorava, arrepelava-se, pedia a
morte, construía planos absurdos ou terríveis. Eu, arranjando as malas, ia-lhe
dizendo alguma coisa que o consolasse; era pior, era como se falasse de dança a
uma perna dolorida. Consegui que fumasse um cigarro, depois outro, e afinal
fumou-os às dúzias, sem acabar nenhum. Às três horas tratava do modo de fugir
ao Rio de Janeiro, — não logo, mas daí a dias, no primeiro vapor. Tirei-lhe
essa idéia da cabeça unicamente no interesse dele próprio.
— Ainda se fosse útil, vá, disse-lhe eu; mas ir sem
certeza de nada, ir dar com o nariz na porta, porque a mulher, se não gosta de
ti, e te vê lá, é capaz de perceber logo o motivo da tua viagem, e não te
recebe.
— Que sabes tu?
— Pode receber-te, mas não há certeza, acho eu. Crês que
ela goste de ti?
— Não digo que sim, nem que não.
Contou-me episódios, gestos, ditos, coisas
ambíguas ou insignificantes; depois vinha uma reticência de lágrimas, murros no
peito, clamor de angústia, a dor ia-se-me
comunicando; padecia com ele, a razão cedia à compaixão, as nossas naturezas
fundiam-se em uma só lástima. Daí esta promessa que lhe fiz.
— Tenho uma idéia. Vou com eles, já nos conhecemos, é
provável que freqüente a casa; eu então farei uma coisa: sondo-a a teu
respeito. Se vir que nem pensa em ti, escrevo-te francamente que penses em
outra coisa; mas se achar alguma inclinação, pouca que seja, aviso-te, e, ou
por bem ou por mal, embarca.
Norberto aceitou alvoroçado a proposta;
era uma esperança. Fez-me jurar que cumpriria tudo, que a observaria bem, sem
temor, e, pela sua parte, jurou-me que não hesitaria um instante. E teimava
comigo que não perdesse nada; que, às vezes, um indício pequeno valia muito,
uma palavrinha era um livro; que, se pudesse, aludisse ao desespero em que o
deixava. Para peitar a minha sagacidade, afirmou que o desengano matá-lo-ia,
porque esse amor, eterno como era, iria fartar-se na morte e na eternidade. Não
achei boca para replicar-lhe que isto era o mesmo que obrigar-me a só mandar
boas notícias. Naquela ocasião, apenas sabia chorar com ele.
A aurora registrou o nosso pacto imoral. Não consenti que
ele fosse a bordo despedir-se. Parti. Não falemos da viagem... Ó mares de
Homero, flagelados por Euros, Bóreas
e o violento Zéfiro, mares épicos, podeis sacudir Ulisses, mas não lhe dais as
aflições do enjôo. Isso é bom para os mares de agora, e particularmente para
aqueles que me levaram daqui à Bahia. Só depois de chegar ante a cidade, ousei
aparecer à nossa dona magnífica, tão senhora de si, como se acabasse de dar um
passeio apenas longo.
— Não tem saudades do Rio de Janeiro? disse-lhe
eu logo, de intróito.
— Certamente.
O barão veio indicar-me os lugares que a gente via do
paquete, — ou a direção de outros. Ofereceu-me a casa dele, no Bonfim. Meu tio veio a bordo, e, por mais que quisesse
fazer-se tétrico, senti-lhe o coração amigo. Via-me, único filho da irmã
finada, — e via-me obediente. Não podia haver para mim melhores impressões de
entrada. Divina juventude! as coisas novas pagavam-me
em dobro as coisas velhas.
Dei os primeiros dias ao conhecimento da cidade; mas não
tardou que uma carta do meu amigo Norberto me chamasse a atenção para ele. Fui
ao Bonfim. A baronesa — ou Iaiá
Lindinha, que era ainda o nome dado por toda a gente, — recebeu-me com tanta
graça, e o marido era tão hospedeiro e bom, que me envergonhei da particular
comissão que trazia. Mas durou pouco a vergonha, vi o desespero do meu amigo, e
a necessidade de consolá-lo ou desenganá-lo era superior a qualquer outra
consideração. Confesso até uma singularidade; agora que estavam separados
entrou-me na alma a esperança de que ela não desgostasse dele, — justamente o
que eu negava antes. Talvez fosse o desejo de o ver feliz; podia ser uma
instigação da vaidade que me acenasse com a vitória em favor do desgraçado.
Naturalmente, conversamos do Rio de Janeiro. Eu dizia-lhe
as minhas saudades, falava das coisas que estava acostumado a ver, das ruas que
faziam parte da minha pessoa, das caras de todos os dias das casas, das
afeições... Oh! as afeições eram os laços mais
apertados. Tinha amigos: os pais de Norberto...
— Dois santos, interrompeu a
moça; meu marido, que conhece o velho desde muitos anos, conta dele coisas
curiosas. Sabe que casou por uma paixão fortíssima?
— Adivinha-se. O filho é o fruto expressivo do amor dos
dois. Conheceu bem o meu pobre Norberto?
— Conheci; ia lá à casa muitas vezes.
— Não conheceu.
Iaiá Lindinha franziu levemente a
testa.
— Perdoe-me se a desminto, continuei com vivacidade. Não
conheceu a melhor alma, a mais pura e a mais ardente que Deus criou. Talvez que
ache parcial por ser amigo. A verdade é que ninguém me prende mais ao Rio de
Janeiro. Coitado do meu Norberto! Não imagina que homem talhado para dois
ofícios ao mesmo tempo, arcanjo e herói, — para dizer à
terra as delícias do céu, e para escalar o céu, se for preciso ir lá levar as
lamentações humanas...
Só no fim desta fala compreendi que era ridícula. Iaiá Lindinha, ou não a entendeu assim, ou disfarçou a
opinião; disse-me somente que a minha amizade era entusiasta, mas que o meu
amigo parecia boa pessoa. Não era alegre, ou tinha crises melancólicas.
Disseram-lhe que ele estudava muito...
— Muito.
Não insisti para não atropelar os acontecimentos... Que o
leitor me não condene sem remissão nem agravo. Sei que o papel que eu fazia não
era bonito; mas já lá vão vinte e sete anos. Confio do Tempo, que é um insigne
alquimista. Dá-se-lhe um punhado de lodo, ele o restitui em diamantes; quando
menos, em cascalho. Assim é que, se um homem de Estado escrever e publicar as
suas memórias, tão sem escrúpulo, que lhes não falte nada, nem confidências
pessoais, nem segredos do governo, nem até amores, amores particularíssimos e
inconfessáveis, verá que escândalo levanta o livro. Dirão, e dirão bem, que o
autor é um cínico, indigno dos homens que confiaram nele e das mulheres que o
amaram. Clamor sincero e legítimo, porque o caráter público impõe muitos
resguardos; os bons costumes e o próprio respeito às mulheres amadas
constrangem ao silêncio...
... Mas deixai pingar os anos na cuba de um século. Cheio
o século, passa o livro a documento histórico, psicológico, anedótico. Hão de lê-lo
a frio; estudar-se-á nele a vida íntima do nosso tempo, a
maneira de amar, a de compor os ministérios e deitá-los abaixo, se as mulheres
eram mais animosas que dissimuladas, como é que se faziam eleições e
galanteios, se eram usados xales ou capas, que veículos tínhamos, se os
relógios eram trazidos à direita ou à esquerda, e multidão de coisas
interessantes para a nossa história pública e íntima. Daí a esperança que me
fica, de não ser condenado absolutamente pela consciência dos que me lêem. Já
lá vão vinte e sete anos!
Gastei mais de meio em bater à porta daquele coração, a
ver se lá achava o Norberto; mas ninguém me respondia de dentro, nem o próprio
marido. Não obstante, as cartas que mandava ao meu pobre amigo, se não levavam
esperanças, também não levavam desenganos. Houve-as até mais esperançosas que
desenganadas. A afeição que lhe tinha e o meu amor-próprio
conjugavam as forças todas para espertar nela a curiosidade e a sedução
de um mistério remoto e possível.
Já então as nossas relações eram familiares. Visitava-os a
miúdo. Quando lá não ia três noites seguidas, vivia
aflito e inquieto; corria a vê-los na quarta noite, e era ela que me esperava
ao portão da chácara, para dizer-me nomes feios, ingrato, preguiçoso,
esquecido. Os nomes foram cessando, mas a pessoa não deixava de estar ali à
espera, com a mão prestes a apertar a minha, — às vezes, trêmula, — ou seria a
minha que tremia; não sei.
— Amanhã não posso vir, dizia-lhe algumas noites, à
despedida, baixo, no vão de uma janela.
— Por quê?
Explicava-lhe a causa, estudo ou alguma obrigação de meu
tio. Nunca tentou dissuadir-me de promessa, mas ficava desconsolada. Comecei a
escrever menos ao Norberto e a falar pouco de Iaiá
Lindinha, como quem não ia à casa dela. Tinha fórmulas
diferentes: "Ontem encontrei o barão no largo do Palácio; disse-me que a
mulher está boa". Ou então: "Sabes quem vi há
três dias no teatro? A baronesa". Não relia as cartas, para não encarar a
minha hipocrisia. Ele, pela sua parte, também ia escrevendo menos, e bilhetes
curtos. Entre mim e a moça não aparecia mais o nome de Norberto;
convencionamos, sem palavras, que era um defunto, e um triste defunto sem galas
mortuárias.
Beirávamos o abismo, ambos teimando que era um reflexo da
cúpula celeste, — incongruência para os que não andam namorados. A morte
resolveu o problema, levando consigo o barão, por meio de um ataque de
apoplexia, no dia vinte e três de março de 1861, às seis horas da tarde. Era um
excelente homem, a quem a viúva pagou em preces o que lhe não dera em amor.
Quando eu lhe pedi, três meses depois, que, acabado o
luto, casasse comigo, Iaiá Lindinha não estranhou nem
me despediu. Ao contrário, respondeu que sim, mas não tão cedo; punha uma
condição: que concluísse primeiro os estudos, que me formasse. E disse isto com
os mesmos lábios, que pareciam ser o único livro do mundo, o livro universal, a
melhor das academias, a escola das escolas. Apelei dela para ela; escutou-me
inflexível. A razão que me deu foi que meu tio podia recear que, uma vez
casado, interromperia a carreira.
— E com razão, concluiu. Ouça-me: só me caso com um
doutor.
Cumprimos ambos a promessa. Durante algum tempo andou ela
pela Europa, com uma cunhada e o marido desta; e as saudades foram então as
minhas disciplinas mais duras. Estudei pacientemente; despeguei-me de todas as
vadiações antigas. Recebi o capelo na véspera da
bênção matrimonial; e posso dizer, sem hipocrisia, que achei o latim do padre
muito superior ao discurso acadêmico.
Semanas depois, pediu-me Iaiá
Lindinha que viéssemos ao Rio de Janeiro. Cedi ao pedido, confesso que um pouco
atordoado. Cá viria achar o meu amigo Norberto, se é que ele ainda residia
aqui. Ia em mais de três anos que nos não escrevíamos;
já antes disso as nossas cartas eram breves e sem interesse. Saberia do nosso
casamento? Dos precedentes? Viemos; não contei nada a minha mulher.
Para quê? Era dar-lhe notícia de uma aleivosia oculta,
dizia comigo. Ao chegar, pus esta questão a mim mesmo, se esperaria a visita
dele, se iria visitá-lo antes; escolhi o segundo alvitre, para avisá-lo das
coisas. Engenhei umas circunstâncias especiais, curiosas, acarretadas pela
Providência, cujos fios ficam sempre ocultos aos homens. Não me ria, note-se
bem; minha imaginação compunha tudo isso com seriedade.
No fim de quatro dias, soube que Norberto morava para os
lados do Rio Comprido; estava casado. Tanto melhor. Corri a casa dele. Vi no
jardim uma preta amamentando uma criança, outra criança de ano e meio, que
recolhia umas pedrinhas do chão, acocorada.
— Nhô Bertinho, vai dizer a mamãe que está aqui um moço procurando papai.
O menino obedeceu; mas, antes que voltasse, chegava de
fora o meu velho amigo Norberto. Conheci-o logo, apesar das grandes suíças que
usava; lançamo-nos nos braços um do outro.
— Tu aqui? Quando chegaste?
— Ontem.
— Estás mais gordo, meu velho!
Gordo e bonito. Entremos. Que é? continuou ele
inclinando-se para Nhô Bertinho, que lhe abraçava uma
das pernas.
Pegou dele, alçou-o, deu-lhe trinta mil beijos ou pouco
menos; depois, tendo-o num braço, apontou para mim.
— Conheces este moço?
Nhô Bertinho olhava espantado, com o
dedo na boca. O pai contou-lhe então que eu era um amigo de papai, muito amigo,
desde o tempo em que vovô e vovó eram vivos...
— Teus pais morreram?
Norberto fez-me sinal que sim, e acudiu ao filho, que com
as mãozinhas espalmadas pegava da cara do pai, pedindo-lhe mais beijos. Depois,
foi à criança que mamava, não a tirou do regaço da ama, mas disse-lhe muitas
coisas ternas, chamou-me para vê-la; era uma menina. Revia-se nela, encantado.
Tinha cinco meses por ora; mas se eu voltasse ali quinze anos depois, veria que
mocetona. Que bracinhos! que
dedos gordos! Não podendo ter-se, inclinou-se e beijou-a.
— Entra, anda ver minha mulher. Jantas conosco.
— Não posso.
— Mamãe, está espiando, disse Nhô
Bertinho.
Olhei, vi uma moça à porta da sala, que dava para o
jardim; a porta estava aberta, ela esperava-nos. Subimos os cinco degraus;
entramos na sala. Norberto pegou-lhe nas mãos, e deu-lhes dois beijos. A moça
quis recuar, não pôde, ficou muito corada.
— Não te vexes, Carmela, disse ele. Sabes quem é este sujeito? É aquele Barros de quem te falei muitas vezes, um Simeão,
estudante de medicina... A propósito, por que é que não me respondeste à
participação do casamento?
— Não recebi nada, respondi.
— Pois afirmo que foi pelo correio.
Carmela ouvia o marido com admiração; ele
tanto fez, que foi sentar-se ao pé dela, para lhe
reter a mão, às escondidas. Eu fingia não ver nada; falava dos tempos
acadêmicos, de alguns amigos, da política, da guerra, tudo para evitar que ele
me perguntasse se estava ou não casado. Já me arrependia de ter ido ali; que
lhe diria, se ele tocasse ao ponto e indagasse da pessoa? Não me falou em nada;
talvez soubesse tudo.
A conversação prolongou-se; mas eu teimei em sair, e
levantei-me; Carmela despediu-se de mim com muita
afabilidade. Era bela; os olhos pareciam dar-lhe um resplendor de santa. Certo
é que o marido tinha-lhe adoração.
— Viste-a bem? perguntou-me ele à
porta do jardim. Não te digo o sentimento que nos prende,
estas coisas sentem-se, não se exprimem. De que sorris? Achas-me naturalmente
criança. Creio que sim; criança eterna, como é eterno
o meu amor.
Entrei no tílburi, prometendo ir lá jantar um daqueles
dias.
— Eterno! disse comigo. Tal qual
o amor que ele tinha a minha mulher.
E, voltando-me para o cocheiro, perguntei-lhe:
— O que é eterno?
— Com perdão de V.S.ª, acudiu ele, mas eu acho que eterno
é o fiscal da minha rua, um maroto que, se não lhe quebro a cara um destes
dias, a minha alma se não salve. Pois o maroto parece eterno no lugar; tem aí
não sei que compadres... Outros dizem que... Não me meto nisso... Lá
quebrar-lhe a cara...
Não ouvi o resto: fui mergulhando em mim mesmo, ao zunzum
do cocheiro. Quando dei por mim, estava na Rua da Glória. O demônio continuava
a falar; paguei, e desci até à Praia da Glória, meti-me pela do Russell e fui
sair à do Flamengo. O mar batia com força. Moderei o passo, e pus-me a olhar
para as ondas que vinham ali bater e morrer. Cá dentro, ressoava, como um
trecho musical, a pergunta que fizera ao cocheiro: O que é eterno? As ondas,
mais discretas que ele, não me contaram os seus
particulares, vinham vindo, morriam, vinham vindo, morriam.
Cheguei ao Hotel de Estrangeiros ao declinar da tarde. Minha
mulher esperava-me para jantar. Eu, ao entrar no quarto, peguei-lhe das mãos, e
perguntei-lhe:
— O que é eterno, Iaiá Lindinha?
Ela, suspirando:
— Ingrato! é o amor que te tenho.
Jantei sem remorsos; ao contrário, tranqüilo e jovial.
Coisas do Tempo! Dá-se-lhe um punhado de lodo, ele o restitui em diamantes...
MISSA DO GALO
Nunca pude entender a conversação que tive com uma
senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal.
Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir;
combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.
A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão
Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A
segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de
Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar
preparatórios. Vivia tranqüilo, naquela casa
assobradada da Rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns
passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas.
Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez
e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo
dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões,
a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia,
vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o
teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora,
separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição
padecera, a princípio, com a existência da comborça;
mas afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito
direito.
Boa Conceição! Chamavam-lhe "a santa", e fazia
jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade,
era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes
risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com
as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e
passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos
uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar;
pode ser até que não soubesse amar.
Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos
anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei
até o Natal para ver "a missa do galo na
Corte". A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da
frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem
acordar ninguém. Tinha três chaves a porta; uma estava
com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.
— Mas, Sr. Nogueira, que fará
você todo esse tempo? perguntou-me a mãe de Conceição.
— Leio, D. Inácia.
Tinha comigo um romance, Os Três Mosqueteiros,
velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia
no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa
dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D'Artagnan
e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os
minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi
bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno
rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor
que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi
assomar à porta da sala o vulto de Conceição.
— Ainda não foi? perguntou ela.
— Não fui, parece que ainda não é meia-noite.
— Que paciência!
Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da
alcova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um
ar de visão romântica, não disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o
livro; ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do
canapé. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo
barulho, respondeu com presteza:
— Não! qual! Acordei por acordar.
Fitei-a um pouco e duvidei da
afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam não
ter ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria alguma coisa em
outro espírito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez não dormisse
justamente por minha causa, e mentisse para me não afligir ou aborrecer. Já
disse que ela era boa, muito boa.
— Mas a hora já há de estar
próxima, disse eu.
— Que paciência a sua de esperar acordado, enquanto o
vizinho dorme! E esperar sozinho! Não tem medo de almas do outro mundo? Eu
cuidei que se assustasse quando me viu.
— Quando ouvi os passos estranhei; mas a senhora apareceu
logo.
— Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance
dos Mosqueteiros.
— Justamente: é muito bonito.
— Gosta de romances?
— Gosto.
— Já leu a Moreninha?
— Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.
— Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de
tempo. Que romances é que você tem lido?
Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me
com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras
meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos
beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos
assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e
sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem
desviar de mim os grandes olhos espertos.
"Talvez esteja aborrecida", pensei eu.
E logo alto:
— D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu...
— Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio, são
onze e meia. Tem tempo. Você, perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia?
— Já tenho feito isso.
— Eu, não; perdendo uma noite, no outro dia estou que não
posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas também estou ficando
velha.
— Que velha o que, D. Conceição?
Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De
costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranqüilas; agora, porém,
ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos,
entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho
honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não sei
que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me
pareceu tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um
trecho de cortina ou concertando a posição de algum objeto no aparador; afinal
deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o círculo das suas
idéias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela
sabia, isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e não queria perdê-la.
— É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem.
— Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente
também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita que na roça. S. João não
digo, nem Santo Antônio...
Pouco a pouco, tinha-se reclinado; fincara os cotovelos no
mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando
abotoadas as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muito
claros, e menos magros do que se poderiam supor.
A vista não era nova para mim, posto também não fosse
comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram
tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia contá-las do meu lugar. A
presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o
que pensava das festas da roça e da cidade, e de outras coisas que me iam vindo
à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por que, variando deles ou tornando
aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de
brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o
nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao
rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:
— Mais baixo! mamãe pode acordar.
E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão
perto ficavam as nossas caras. Realmente, não era preciso falar alto para ser
ouvido: cochichávamos os dois, eu mais que ela, porque falava mais; ela, às
vezes, ficava séria, muito séria, com a testa um pouco
franzida. Afinal, cansou; trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio
sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me e pude ver, a furto, o bico das
chinelas; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido
e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas. Conceição disse baixinho:
— Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve; se
acordasse agora, coitada, tão cedo não pegava no sono.
— Eu também sou assim.
— O quê? perguntou ela inclinando
o corpo, para ouvir melhor.
Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé e
repeti-lhe a palavra. Riu-se da coincidência; também ela tinha o sono leve;
éramos três sonos leves.
— Há ocasiões em que sou como mamãe; acordando, custa-me
dormir outra vez, rolo na cama, à toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno
a deitar-me e nada.
— Foi o que lhe aconteceu hoje.
— Não, não, atalhou ela.
Não entendi a negativa; ela pode ser que também não a
entendesse. Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto
é, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma
história de sonhos, e afirmou-me que só tivera um pesadelo, em criança. Quis
saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem
que eu desse pela hora nem pela missa. Quando eu acabava uma narração ou uma
explicação, ela inventava outra pergunta ou outra matéria, e
eu pegava novamente na palavra. De quando em quando, reprimia-me:
— Mais baixo, mais baixo...
Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um
instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado
para ver melhor. Uma dessas vezes creio que deu por
mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se
apressada ou vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me aparecem
truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que, em certa ocasião, ela, que era apenas
simpática, ficou linda, ficou lindíssima. Estava de
pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu,
pôs uma das mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia
dizer alguma coisa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio, voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me
achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava por cima do
canapé, falou de duas gravuras que pendiam da parede.
— Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a Chiquinho
para comprar outros.
Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal
negócio deste homem. Um representava "Cleópatra"; não me recordo o
assunto do outro, mas eram mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo não me
pareciam feios.
— São bonitos, disse eu.
— Bonitos são; mas estão manchados. E depois francamente,
eu preferia duas imagens, duas santas. Estas são mais próprias para sala de
rapaz ou de barbeiro.
— De barbeiro? A senhora nunca foi a
casa de barbeiro.
— Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de
moças e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras
bonitas. Em casa de família é que não acho próprio. É o que eu penso; mas eu
penso muita coisa assim esquisita. Seja o que for, não
gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição, minha madrinha,
muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr na parede, nem eu quero. Está
no meu oratório.
A idéia do oratório trouxe-me a da missa, lembrou-me que
podia ser tarde e quis dizê-lo. Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a
fechei para ouvir o que ela contava, com doçura, com graça, com tal moleza que
trazia preguiça à minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das
suas devoções de menina e moça. Em seguida referia umas anedotas de baile, uns
casos de passeio, reminiscências de Paquetá, tudo de mistura, quase sem
interrupção. Quando cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa,
das canseiras de família, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas não
eram nada. Não me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.
Já agora não trocava de lugar, como a princípio, e quase
não saíra da mesma atitude. Não tinha os grandes olhos compridos, e entrou a
olhar à toa para as paredes.
— Precisamos mudar o papel da sala, disse daí a pouco,
como se falasse consigo.
Concordei, para dizer alguma coisa, para sair da espécie
de sono magnético, ou o que quer que era que me tolhia
a língua e os sentidos. Queria e não queria acabar a conversação; fazia esforço
para arredar os olhos dela, e arredava-os por um sentimento de respeito; mas a
idéia de parecer que era aborrecimento, quando não era, levava-me os olhos
outra vez para Conceição. A conversa ia morrendo. Na rua, o silêncio era
completo.
Chegamos a ficar por algum tempo, — não posso dizer
quanto, — inteiramente calados. O rumor único e escasso, era
um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela espécie de
sonolência; quis falar dele, mas não achei modo. Conceição parecia estar
devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz
que bradava: "Missa do galo! missa do galo!"
— Aí está o companheiro, disse ela levantando-se. Tem
graça; você é que ficou de ir acordá-lo, ele é que vem acordar você. Vá, que hão de ser horas; adeus.
— Já serão horas? perguntei.
— Naturalmente
— Missa do galo! — repetiram de fora, batendo.
— Vá, vá, não se faça esperar. A
culpa foi minha. Adeus, até amanhã.
E com o mesmo balanço do corpo, Conceição enfiou pelo
corredor dentro, pisando mansinho. Saí à rua e achei o vizinho que esperava.
Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Conceição interpôs-se
mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto à conta dos meus dezessete
anos. Na manhã seguinte, ao almoço, falei da missa do galo e da gente que
estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. Durante o dia, achei-a
como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da
véspera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro em
março, o escrivão tinha morrido de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo,
mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente
juramentado do marido.
IDÉIAS DO CANÁRIO
Um homem dado a estudos de ornitologia, por nome Macedo,
referiu a alguns amigos um caso tão extraordinário que
ninguém lhe deu crédito. Alguns chegam a supor que Macedo virou o juízo. Eis
aqui o resumo da narração.
No princípio do mês passado, — disse ele, — indo por uma
rua, sucedeu que um tílburi à disparada, quase me atirou ao chão. Escapei
saltando para dentro de uma loja de belchior.
Nem o estrépito do cavalo e do veículo, nem a minha entrada
fez levantar o dono do negócio, que cochilava ao fundo, sentado numa
cadeira de abrir. Era um frangalho de homem, barba cor de palha suja, a cabeça
enfiada em um gorro esfarrapado, que provavelmente não achara comprador. Não se
adivinhava nele nenhuma história, como podiam ter alguns dos objetos que
vendia, nem se lhe sentia a tristeza austera e desenganada das vidas que foram
vidas.
A loja era escura, atulhada das coisas velhas, tortas,
rotas, enxovalhadas, enferrujadas que de ordinário se acham em tais casas, tudo
naquela meia desordem própria do negócio. Essa mistura, posto que banal, era interessante. Panelas sem tampa,
tampas sem panela, botões, sapatos, fechaduras, uma saia preta, chapéus de
palha e de pêlo, caixilhos, binóculos, meias casacas, um florete, um cão
empalhado, um par de chinelas, luvas, vasos sem nome, dragonas, uma bolsa de
veludo, dois cabides, um bodoque, um termômetro, cadeiras, um retrato litografado pelo finado Sisson,
um gamão, duas máscaras de arame para o carnaval que há de vir, tudo isso e o
mais que não vi ou não me ficou de memória, enchia a loja nas imediações da
porta, encostado, pendurado ou exposto em caixas de vidro, igualmente velhas.
Lá para dentro, havia outras coisas mais e muitas, e do mesmo aspecto,
dominando os objetos grandes, cômodas, cadeiras, camas, uns por cima dos
outros, perdidos na escuridão.
Ia a sair, quando vi uma gaiola pendurada da porta. Tão
velha como o resto, para ter o mesmo aspecto da desolação geral, faltava-lhe
estar vazia. Não estava vazia. Dentro pulava um canário. A cor, a animação e a
graça do passarinho davam àquele amontoado de destroços uma nota de vida e de
mocidade. Era o último passageiro de algum naufrágio, que ali foi parar íntegro
e alegre como dantes. Logo que olhei para ele, entrou a saltar mais abaixo e
acima, de poleiro em poleiro, como se quisesse dizer que no meio daquele
cemitério brincava um raio de sol. Não atribuo essa imagem ao canário, senão
porque falo a gente retórica; em verdade, ele não pensou em cemitério nem sol,
segundo me disse depois. Eu, de envolta com o prazer que me trouxe aquela
vista, senti-me indignado do destino do pássaro, e murmurei baixinho
palavras de azedume.
— Quem seria o dono execrável deste bichinho, que teve
ânimo de se desfazer dele por alguns pares de níqueis? Ou que mão indiferente,
não querendo guardar esse companheiro de dono defunto, o deu de graça a algum
pequeno, que o vendeu para ir jogar uma quiniela?
E o canário, quedando-se em cima do poleiro, trilou isto:
— Quem quer que sejas tu, certamente não estás em teu
juízo. Não tive dono execrável, nem fui dado a nenhum menino que me vendesse.
São imaginações de pessoa doente; vai-te curar,
amigo...
— Como — interrompi eu, sem ter
tempo de ficar espantado. Então o teu dono não te vendeu a esta casa? Não foi a
miséria ou a ociosidade que te trouxe a este cemitério, como um raio de sol?
— Não sei que seja sol nem cemitério. Se os canários que
tens visto usam do primeiro desses nomes, tanto melhor, porque é bonito, mas
estou que confundes.
— Perdão, mas tu não vieste para aqui à toa, sem ninguém,
salvo se o teu dono foi sempre aquele homem que ali está sentado.
— Que dono? Esse homem que aí está é meu criado, dá-me água e comida todos os dias, com tal regularidade
que eu, se devesse pagar-lhe os serviços, não seria com pouco; mas os canários
não pagam criados. Em verdade, se o mundo é propriedade dos canários, seria
extravagante que eles pagassem o que está no mundo.
Pasmado das respostas, não sabia que mais admirar, se a
linguagem, se as idéias. A linguagem, posto me entrasse pelo ouvido como de
gente, saía do bicho em trilos engraçados. Olhei em volta de mim, para
verificar se estava acordado; a rua era a mesma, a loja era a mesma loja
escura, triste e úmida. O canário, movendo a um lado e outro,
esperava que eu lhe falasse. Perguntei-lhe então se tinha saudades do
espaço azul e infinito...
— Mas, caro homem, trilou o canário, que quer dizer espaço
azul e infinito?
— Mas, perdão, que pensas deste mundo? Que coisa é o
mundo?
— O mundo, redargüiu o canário com certo ar de professor,
o mundo é uma loja de belchior,
com uma pequena gaiola de taquara, quadrilonga,
pendente de um prego; o canário é senhor da gaiola que habita e da loja que o
cerca. Fora daí, tudo é ilusão e mentira.
Nisto acordou o velho, e veio a mim arrastando os pés.
Perguntou-me se queria comprar o canário. Indaguei se o adquirira, como o resto
dos objetos que vendia, e soube que sim, que o comprara a um barbeiro,
acompanhado de uma coleção de navalhas.
— As navalhas estão em muito bom uso, concluiu ele.
— Quero só o canário.
Paguei-lhe o preço, mandei comprar uma gaiola vasta, circular,
de madeira e arame, pintada de branco, e ordenei que a
pusessem na varanda da minha casa, donde o passarinho podia ver o jardim, o
repuxo e um pouco do céu azul.
Era meu intuito fazer um longo estudo do fenômeno, sem
dizer nada a ninguém, até poder assombrar o século com a minha extraordinária
descoberta. Comecei por alfabetar a língua do canário, por estudar-lhe a
estrutura, as relações com a música, os sentimentos estéticos do bicho, as suas
idéias e reminiscências. Feita essa análise filológica e psicológica, entrei
propriamente na história dos canários, na origem deles, primeiros séculos,
geologia e flora das ilhas Canárias, se ele tinha conhecimento da navegação,
etc. Conversávamos longas horas, eu escrevendo as notas, ele esperando,
saltando, trilando.
Não tendo mais família que dois criados, ordenava-lhes que
não me interrompessem, ainda por motivo de alguma carta ou telegrama urgente,
ou visita de importância. Sabendo ambos das minhas ocupações científicas,
acharam natural a ordem, e não suspeitaram que o canário e eu nos entendíamos.
Não é mister dizer que dormia pouco, acordava duas e três
vezes por noite, passeava à toa, sentia-me com febre. Afinal tornava ao
trabalho, para reler, acrescentar, emendar. Retifiquei mais de uma observação,
— ou por havê-la entendido mal, ou porque ele não a tivesse
expresso claramente. A definição do mundo foi uma delas. Três semanas
depois da entrada do canário em minha casa, pedi-lhe que me repetisse a
definição do mundo.
— O mundo, respondeu ele, é um jardim assaz largo com
repuxo no meio, flores e arbustos, alguma grama, ar claro e um pouco de azul
por cima; o canário, dono do mundo, habita uma gaiola vasta, branca e circular,
donde mira o resto. Tudo o mais é ilusão e mentira.
Também a linguagem sofreu algumas retificações, e certas
conclusões, que me tinham parecido simples, vi que eram temerárias. Não podia ainda escrever a
memória que havia de mandar ao Museu Nacional, ao Instituto Histórico e às
universidades alemãs, não porque faltasse matéria, mas para acumular primeiro
todas as observações e ratificá-las. Nos últimos dias, não saía de casa, não
respondia a cartas, não quis saber de amigos nem parentes. Todo eu era canário.
De manhã, um dos criados tinha a seu cargo limpar a gaiola e pôr-lhe água e comida.
O passarinho não lhe dizia nada, como se soubesse que a esse homem faltava
qualquer preparo científico. Também o serviço era o
mais sumário do mundo; o criado não era amador de pássaros.
Um sábado amanheci enfermo, a cabeça e a espinha doíam-me.
O médico ordenou absoluto repouso; era excesso de estudo, não devia ler nem
pensar, não devia saber sequer o que se passava na cidade e no mundo. Assim
fiquei cinco dias; no sexto levantei-me, e só então soube que o canário,
estando o criado a tratar dele, fugira da gaiola. O meu primeiro gesto foi para
esganar o criado; a indignação sufocou-me, caí na cadeira, sem voz, tonto. O
culpado defendeu-se, jurou que tivera cuidado, o passarinho é que fugira por
astuto...
— Mas não o procuraram?
— Procuramos, sim, senhor; a princípio trepou ao telhado,
trepei também, ele fugiu, foi para uma árvore, depois escondeu-se
não sei onde. Tenho indagado desde ontem, perguntei aos vizinhos, aos
chacareiros, ninguém sabe nada.
Padeci muito; felizmente, a fadiga estava passada, e com
algumas horas pude sair à varanda e ao jardim. Nem sombra de canário. Indaguei,
corri, anunciei, e nada. Tinha já recolhido as notas
para compor a memória, ainda que truncada e incompleta, quando me sucedeu
visitar um amigo, que ocupa uma das mais belas e grandes chácaras dos
arrabaldes. Passeávamos nela antes de jantar, quando ouvi trilar esta pergunta:
— Viva, Sr. Macedo, por onde tem andado que desapareceu?
Era o canário; estava no galho de uma árvore. Imaginem como fiquei, e o que lhe disse. O meu amigo cuidou que eu estivesse doido; mas que me importavam cuidados de amigos? Falei ao canário com ternura, pedi-lhe que viesse continuar a conversação, naquele nosso mundo composto de um jardim e repuxo, varanda e gaiola branca e circular...
— Que jardim? que repuxo?
— O mundo, meu querido.
— Que mundo? Tu não perdes os maus costumes de professor.
O mundo, concluiu solenemente, é um espaço infinito e azul, com o sol por cima.
Indignado, retorqui-lhe que, se eu lhe desse crédito, o mundo era tudo; até já fora uma loja de belchior...
— De belchior?
trilou ele às bandeiras despregadas. Mas há mesmo
lojas de belchior?
LÁGRIMAS DE XERXES
Suponhamos (tudo é de supor) que Julieta e Romeu, antes
que Frei Lourenço os casasse, travavam com ele este diálogo curioso:
JULIETA. Uma só pessoa?
FREI LOURENÇO. Sim, filha, e, logo que eu houver feito de
vós ambos uma só pessoa, nenhum outro poder vos desligará mais. Andai, andai,
vamos ao altar, que estão acendendo as velas... (Saem da cela e vão pelo
corredor).
ROMEU. Para que velas? Abençoai-nos aqui mesmo. (Pára
diante de uma janela). Para que altar e velas? O céu é o altar: não tarda
que a mão dos anjos acenda ali as eternas estrelas; mas, ainda sem elas, o
altar é este. A igreja está aberta; podem descobrir-nos. Eia,
abençoai-nos aqui mesmo.
FREI LOURENÇO. Não, vamos para a igreja; daqui a pouco
estará tudo pronto. Curvarás a cabeça, filha minha, para que olhos estranhos,
se alguns houver, não cheguem a reconhecer-te...
ROMEU. Vã dissimulação; não há, em toda Verona, um talhe
igual ao da minha bela Julieta, nenhuma outra dama chegaria a dar a mesma impressão que esta. Que impede que seja aqui? O
altar não é mais que o céu.
FREI LOURENÇO. Mais eficaz que o céu.
ROMEU. Como?
FREI LOURENÇO. Tudo o que ele abençoa perdura. As velas
que lá verás arder hão de acabar antes dos noivos e do padre que os vai ligar;
tenho-as visto morrer infinitas; mas as estrelas...
ROMEU. Que tem? arderão ainda,
nem ali nasceram senão para dar ao céu a mesma graça da terra. Sim, minha
divina Julieta, a Via-Láctea é como o pó luminoso dos teus pensamentos, todas
as pedrarias e claridades altas e remotas, tudo isso está aqui perto e resumido
na tua pessoa, porque a lua plácida imita a tua indulgência, e Vênus, quando
cintila, é com os fogos da tua imaginação. Aqui mesmo, padre. Que outra
formalidade nos pedes tu? Nenhuma formalidade exterior, nenhum consentimento
alheio. Nada mais que amor e vontade. O ódio de outros separa-nos, mas o nosso
amor conjuga-nos.
FREI LOURENÇO. Para sempre.
JULIETA. Conjuga-nos, e para sempre. Que mais então? Vai a
tua mão fazer com que parem todas as horas de uma vez. Em vão o sol passará de
um céu a outro céu, e tornará a vir e tornará a ir, não levará consigo o tempo
que fica a nossos pés como um tigre domado. Monge amigo,
repete essa palavra amiga.
FREI LOURENÇO. Para sempre.
JULIETA. Para sempre! amor
eterno! eterna vida! Juro-vos que não entendo outra
língua senão essa. Juro-vos que não entendo a língua de minha mãe.
FREI LOURENÇO. Pode ser que tua mãe não entendesse a
língua da mãe dela. A vida é uma Babel, filha; cada um de nós vale por uma
nação.
ROMEU. Não aqui, padre; ela e eu somos duas províncias da
mesma linguagem, que nos aliamos para dizer as mesmas orações, com o mesmo
alfabeto e um só sentido. Nem há outro sentido que tenha algum valor na terra.
Agora, quem nos ensinou essa linguagem divina não sei eu nem ela; foi talvez
alguma estrela. Olhai, pode ser que fosse aquela primeira que começa a cintilar
no espaço.
JULIETA. Que mão celeste a terá acendido? Rafael, talvez,
ou tu, amado Romeu. Magnífica estrela, serás a estrela
da minha vida, tu, que marcas a hora do meu consórcio. Que nome tem ela, padre?
FREI LOURENÇO. Não sei de astronomias, filha.
JULIETA. Hás de saber por força. Tu conheces as letras
divinas e humanas, as próprias ervas do chão, as que matam e as que curam...
Dize, dize...
FREI LOURENÇO. Eva eterna!
JULIETA. Dize o nome dessa tocha celeste, que vai alumiar
as minhas bodas, e casai-nos aqui mesmo. Os astros valem mais que as tochas da
terra.
FREI LOURENÇO. Valem menos. Que nome tem aquele? Não sei.
A minha astronomia não é como a dos outros homens. (Depois de alguns
instantes de reflexão) Eu sei o que me contaram os ventos, que andam cá e
lá, abaixo e acima, de um tempo a outro tempo, e sabem muito, porque são
testemunhas de tudo. A dispersão não lhes tira a unidade, nem
a inquietação a constância.
ROMEU. E que vos disseram eles?
FREI LOURENÇO. Coisas duras. Heródoto conta que Xerxes um dia chorou; mas não conta mais nada. Os ventos é
que me disseram o resto, porque eles lá estavam ao pé do capitão, e recolheram
tudo... Escutai; aí começam eles a agitar-se; ouviram-nos falar e
murmuram... Uivai, amigos ventos, uivai como nos
jovens dias das Termópilas.
ROMEU. Mas que te disseram eles? Contai, contai depressa.
JULIETA. Fala a gosto, nós te
esperaremos.
FREI LOURENÇO. Gentil criatura, aprende
com ela, filho, aprende a tolerar as demasias de um velho lunático. O que é que
me disseram? Melhor fora não repeti-lo; mas, se teimais em que vos case aqui
mesmo, ao clarão das estrelas, dir-vos-ei a origem daquela, que parece governar todas as outras... Vamos, ainda é tempo, o
altar espera-nos... Não? teimosos que sois...
Contar-vos-ei o que me disseram os ventos, que lá estavam em torno de Xerxes, quando este vinha destruir a Hélade
com tropas inumeráveis. As tropas marchavam diante dele, a poder de chicote,
porque esse homem cru amava particularmente o chicote
e empregava-o a miúdo, sem hesitação nem remorso. O próprio mar, quando ousou
destruir a ponte que ele mandara construir, recebeu em castigo trezentas
chicotadas. Era justo; mas para não ser somente justo, para ser também
abominável, Xerxes ordenou que decapitassem a todos
os que tinham construído a ponte e não souberam fazê-la imperecível. Chicote e
espada; pancada e sangue.
JULIETA. Oh! abominável!
FREI LOURENÇO. Abominável, mas forte. Força vale alguma
coisa; a prova é que o mar acabou aceitando o jugo do grande persa. Ora, um
dia, à margem do Helesponto, curioso de contemplar as
tropas que ali ajuntara, no mar e em terra, Xerxes
trepou a um alto morro feitiço, donde espalhou as vistas
para todos os lados. Calculai o orgulho que ele sentiu. Viu ali gente infinita,
o melhor leite mungido à vaca asiática, centenas de milhares ao pé de centenas
de milhares, várias armas, povos diversos, cores e vestiduras diferentes,
mescladas, baralhadas, flecha e gládio, tiara e capacete, pelo de cabra, pele
de cavalo, pele de pantera, uma algazarra infinita de coisas. Viu e riu; farejava
a vitória. Que outro poder viria contrastá-lo? Sentia-se indestrutível. E ficou
a rir e a olhar com longos olhos ávidos e felizes, olhos de noivado, como os
teus, moço amigo...
ROMEU. Comparação falsa. O maior déspota do universo é um
miserável escravo, se não governa os mais belos olhos femininos de Verona. E a
prova é que, a despeito do poder, chorou.
FREI LOURENÇO. Chorou, é certo, logo depois, tão depressa
acabara de rir. A cara embruscou-se-lhe de repente, e
as lágrimas saltaram-lhe grossas e irreprimíveis. Um tio do guerreiro, que ali
estava, interrogou-o espantado; ele respondeu melancolicamente que chorava,
considerando que de tantos milhares e milhares de homens que ali tinha diante
de si, e às suas ordens, não existiria um só ao cabo de um século. Até aqui
Heródoto; escutai agora os ventos. Os ventos ficaram atônitos. Estavam
justamente perguntando uns aos outros se esse homem feito de ufania e rispidez
teria nunca chorado em sua vida, e concluíam que não, que era impossível, que
ele não conhecia mais que injustiça e crueldade, não a compaixão. E era a
compaixão que ali vinha lacrimosa, era ela que soluçava na garganta do
tirano... Então eles rugiram de assombro; depois pegaram das lágrimas de Xerxes... Que farias tu delas?
ROMEU. Secá-las-ia, para que a piedade humana não ficasse
desonrada.
FREI LOURENÇO. Não fizeram isso; pegaram das lágrimas
todas e deitaram a voar pelo espaço fora, bradando às considerações: Aqui
estão! olhai! olhai! aqui estão os primeiros diamantes da alma bárbara! Todo o
firmamento ficou alvoroçado; pode crer-se que, por um instante, a marcha das
coisas parou. Nenhum astro queria acabar de crer nos ventos. Xerxes! Lágrimas de Xerxes eram
impossíveis; tal planta não dava em tal rochedo. Mas ali estavam elas; eles as
mostravam, contando a sua curiosa história, o riso que servira de concha a
essas pérolas, as palavras dele, e as constelações não tiveram remédio, e
creram finalmente que o duro Xerxes houvesse chorado.
Os planetas miraram longo tempo essas lágrimas inverossímeis; não havia negar
que traziam o amargo da dor e o travo da melancolia. E quando pensaram que o
coração que as brotara de si tinha particular amor ao estalido do chicote,
deitaram um olhar oblíquo à terra, como perguntando de
que contradições era ela feita. Um deles disse aos ventos que devolvessem as
lágrimas ao bárbaro, para que as engolisse; mas os ventos responderam que não e
detiveram-se para deliberar. Não cuideis que só os homens dissentem uns dos
outros.
JULIETA. Também os ventos?
FREI LOURENÇO. Também eles. O Aquilão
queria convertê-las em tempestades do mundo, violentas e destruidoras, como o
homem que as gerara; mas os outros ventos não aceitaram a idéia. As tempestades
passam ligeiras; eles queriam alguma coisa que tivesse perenidade, um rio, por
exemplo, ou um mar novo; mas não combinaram nada e foram ter com o sol e a lua.
Tu conheces a lua, filha.
ROMEU. A lua é ela mesma; uma e outra são
a plácida imagem da indulgência e do carinho; é o que eu te disse há
pouco, meu bom confessor.
JULIETA. Não, não creias nada do que ele disser, freire amigo; a lua é a minha rival, é a rival que
alumia de longe o belo rosto do galhardo Romeu, que lhe dá um resplendor de
opala, à noite, quando ele vem pela rua...
FREI LOURENÇO. Terão ambos razão.
A lua e Julieta podem ser a mesma pessoa, e é por isso que querem o mesmo
homem. Mas, se a lua és tu, filha, deves saber o que
ela disse ao vento.
JULIETA. Nada, não me lembra nada.
FREI LOURENÇO. Os ventos foram ter com ela,
perguntaram-lhe o que fariam das lágrimas de Xerxes,
e a resposta foi a mais piedosa do mundo. Cristalizemos essas lágrimas, disse a
lua, e façamos delas uma estrela que brilhe por todos os séculos, com a
claridade da compaixão, e onde vão residir todos aqueles que deixarem a terra,
para achar ali a perpetuidade que lhes escapou.
JULIETA. Sim, eu diria a mesma coisa. (Olhando pela
janela) Lume eterno, berço de renovação, mundo do amor continuado e
infinito, estávamos ouvindo a tua bela história.
FREI LOURENÇO. Não, não, não.
JULIETA. Não?
FREI LOURENÇO. Não, porque os ventos foram também ao sol,
e tu que conheces a lua, não conheces o sol, amiga minha. Os ventos levaram-lhe
as lágrimas, contaram a origem delas e o conselho do astro da noite, e falaram
da beleza que teria essa estrela nova e especial. O sol ouviu-os e redargüiu
que sim, que cristalizassem as lágrimas e fizessem delas uma estrela; mas nem
tal como o pedia a lua, nem para igual fim. Há de ser eterna e brilhante, disse
ele, mas para a compaixão basta a mesma lua com a sua
enjoada e dulcíssima poesia. Não; essa estrela feita das lágrimas que a
brevidade da vida arrancou um dia ao orgulho humano ficará pendente do céu como
o astro da ironia, luzirá cá de cima sobre todas as multidões que passam,
cuidando não acabar mais e sobre todas as coisas construídas em desafio dos
tempos. Onde as bodas cantarem a eternidade, ela fará descer um dos seus raios,
lágrima de Xerxes, para escrever a palavra da
extinção, breve, total, irremissível. Toda epifania
receberá esta nota de sarcasmo. Não quero melancolias, que são
rosas pálidas da lua e suas congêneres; — ironia, sim, uma dura boca,
gelada e sardônica...
ROMEU. Como? Esse astro esplêndido...
FREI LOURENÇO. Justamente, filho; e é por isso que o altar
é melhor que o céu; no altar a benta vela arde depressa e morre às nossas vistas.
JULIETA. Conto de ventos!
FREI LOURENÇO. Não, não.
JULIETA. Ou ruim sonho de lunático. Velho
lunático disseste há pouco; és isso mesmo. Vão sonho ruim, como os teus
ventos, e o teu Xerxes, e as tuas lágrimas, e o teu
sol, e toda essa dança de figuras imaginárias.
FREI LOURENÇO. Filha minha...
JULIETA. Padre meu, que não sabes que há, quando menos,
uma coisa imortal, que é o meu amor, e ainda outra, que é o incomparável Romeu.
Olha bem para ele; vê se há aqui um soldado de Xerxes.
Não, não, não. Viva o meu amado, que não estava no Helesponto,
nem escutou os desvarios dos ventos noturnos, como este frade, que é a um tempo
amigo e inimigo. Sê só amigo, e casa-nos. Casa-nos onde quiseres, aqui ou além,
diante das velas ou debaixo das estrelas, sejam elas de ironia ou de piedade;
mas casa-nos, casa-nos, casa-nos...
PAPÉIS VELHOS
Brotero é deputado. Entrou agora mesmo em
casa, às duas horas da noite, agitado, sombrio, respondendo mal ao moleque, que
lhe pergunta se quer isto ou aquilo, e ordenando-lhe, finalmente, que o deixe
só. Uma vez só, despe-se, enfia um chambre e vai estirar-se no canapé do
gabinete, com os olhos no teto e o charuto na boca. Não pensa tranqüilamente;
resmunga e estremece. Ao cabo de algum tempo senta-se; logo depois levanta-se, vai a uma janela, passeia, pára no meio da sala,
batendo com o pé no chão; enfim resolve ir dormir, entra no quarto, despe-se,
mete-se na cama, rola inutilmente de um lado para outro, torna a vestir-se e
volta para o gabinete.
Mal se sentou outra vez no canapé, bateram três horas no
relógio da casa. O silêncio era profundo; e, como a divergência dos relógios é
o princípio fundamental da relojoaria, começaram todos os relógios da
vizinhança a bater, com intervalos desiguais, uma, duas, três horas. Quando o
espírito padece, a coisa mais indiferente do mundo traz uma intenção recôndita,
um propósito do destino. Brotero começou a sentir
esse outro gênero de mortificação. As três pancadas secas, cortando o silêncio
da noite, pareciam-lhe as vozes do próprio tempo, que lhe bradava: Vai dormir.
Enfim, cessaram; e ele pôde ruminar, resolver, e
levantar-se, bradando:
— Não há outro alvitre, é isto mesmo.
Dito isso, foi à secretária, pegou da pena e de uma folha
de papel, e escreveu esta carta ao presidente do conselho de ministros:
Excelentíssimo senhor
Há de parecer estranho a V. Excia.
tudo o que vou dizer neste papel; mas, por mais
estranho que lhe pareça, e a mim também, há situações tão extraordinárias que
só comportam soluções extraordinárias. Não quero desabafar nas esquinas, na Rua
do Ouvidor, ou nos corredores da Câmara. Também não quero manifestar-me, na
tribuna, amanhã ou depois, quando V. Excia. for apresentar o programa do seu ministério; seria digno,
mas seria aceitar a cumplicidade de uma ordem de coisas, que inteiramente
repudio. Tenho um só alvitre: renunciar à cadeira de deputado e voltar à vida
íntima.
Não sei se, ainda assim, V. Excia.
me chamará despeitado. Se o fizer, creio que terá
razão. Mas rogo-lhe que advirta que há duas qualidades de despeito, e o meu é
da melhor.
Não pense V. Excia. que recuo diante de certas deputações influentes, nem que me
senti ferido pelas intrigas do A... e por tudo o que
fez o B... para meter o C... no
ministério. Tudo isso são coisas mínimas. A questão para mim é de lealdade, já
não digo política, mas pessoal; a questão é com V. Excia..
Foi V. Excia. que me obrigou
a romper com o ministério dissolvido, mais cedo do que era minha intenção, e,
talvez mais cedo do que convinha ao partido. Foi V. Excia.
que, uma vez, em casa do Z... me
disse, a uma janela, que os meus estudos de questões diplomáticas me indicavam
naturalmente a pasta de estrangeiros. Há de lembrar-se que lhe respondi então
ser para mim indiferente subir ao ministério, uma vez que servisse ao meu país.
V. Excia. replicou: — É
muito bonito, mas os bons talentos querem-se no ministério.
Na Câmara, já pela posição que fui adquirindo, já pelas
distinções especiais de que era objeto, dizia-se, acreditava-se que eu seria ministro
na primeira ocasião; e, ao ser chamado V. Excia ontem
para organizar o novo gabinete, não se jurou outra coisa. As combinações
variavam, mas o meu nome figurava em todas elas. É que ninguém ignorava as
finezas de V. Excia. para
comigo, os bilhetes em que me louvava, os seus reiterados convites, etc.
Confesso a V. Excia. que
acompanhei a opinião geral.
A opinião enganou-se, eu enganei-me; o ministério está
organizado sem mim. Considero esta exclusão um desdouro irreparável, e
determinei deixar a cadeira de deputado a algum mais capaz, e, principalmente,
mais dócil. Não será difícil a V. Excia. achá-lo entre os seus numerosos admiradores. Sou, com
elevada estima e consideração.
De V. Excia. desobrigado
amigo,
BROTERO.
Os verdadeiros políticos dirão que esta carta é só
verossímil no despeito, e inverossímil na resolução. Mas os verdadeiros
políticos ignoram duas coisas, penso eu. Ignoram Boileau,
que nos adverte da possível inverossimilhança da verdade, em matérias de arte,
e a política, segundo a definiu um padre da nossa língua, é a arte das artes; e
ignoram que um outro golpe feria a alma do Brotero
naquela ocasião. Se a exclusão do ministério não bastava a explicar a renúncia
da cadeira, outra perda a ajudava. Já têm notícia do desastre político; sabem
que houve crise ministerial que o conselheiro *** recebeu do Imperador o
encargo de organizar um gabinete, e que a diligência de um
certo B... conseguiu meter nele um certo C... A
pasta deste foi justamente a de estrangeiros; e o fim secreto da diligência era
dar um lugar na galeria do Estado à viúva Pedroso. Esta senhora, não menos
gentil que abastada, elegera dias antes para seu marido o recente ministro.
Tudo isso iria menos mal, se o Brotero não cobiçasse
ambas as fortunas, a pasta e a viúva; mas, cobiçá-las, cortejá-las e perdê-las,
sem que ao menos uma viesse consolá-lo da perda da outra, digam-me francamente
se não era bastante a explicar a renúncia do nosso amigo?
Brotero releu a carta, dobrou-a,
encapou-a, sobrescritou-a; depois atirou-a a um lado,
para remetê-la no dia seguinte. O destino lançara os dados. César transpunha o Rubicão, mas em sentido inverso. Que fique Roma com os seus
novos cônsules e patrícias ricas e volúveis! Ele volve
à região dos obscuros; não quer gastar o aço em pelejas de aparato, sem
utilidade nem grandeza. Reclinou-se na cadeira e fechou o rosto na mão. Tinha
os olhos vermelhos quando se levantou; e levantou-se, porque ouviu bater quatro
horas e recomeçar a procissão dos relógios, a cruel e
implicante monotonia das pêndulas. Uma, duas, três, quatro...
Não tinha sono; não tentou sequer meter-se na cama. Entrou
a andar de um lado para outro, passeando, planeando, relembrando. De memória em
memória, reconstruiu as ilusões de outro tempo, comparou-as com as sensações de
hoje, e achou-se roubado. Voluptuoso até na dor, mirou afincadamente essas
ilusões perdidas, como uma velha contempla as suas fotografias da mocidade.
Lembrou-se de um amigo que lhe dizia que, em todas as dificuldades da vida,
olhasse para o futuro. Que futuro? Ele não via nada. E foi-se achegando da
secretária, onde tinha guardadas as cartas dos amigos, dos amores, dos
correligionários políticos, todas as cartas. Já agora não podia conciliar o
sono; ia reler esses papéis velhos. Não se relêem livros antigos?
Abriu a gaveta; tirou dois ou três maços e desatou-os.
Muitas das cartas estavam encardidas do tempo. Posto nem todos os signatários
houvessem morrido, o aspecto geral era de cemitério; donde se pode inferir que,
em certo sentido, estavam mortos e enterrados. E ele começou a relê-las, uma a
uma, as de dez páginas e os simples bilhetes, mergulhando nesse mar morto de
recordações apagadas, negócios pessoais ou públicos, um espetáculo, um baile,
dinheiro emprestado, uma intriga, um livro novo, um discurso, uma tolice, uma
confidência amorosa. Uma das cartas, assinada Vasconcelos, fê-lo estremecer:
A L...a, dizia a carta, chegou a
S. Paulo, anteontem. Custou-me muito e muito obter as tuas cartas; mas
alcancei-as, e daqui a uma semana estarão contigo; levo-as eu mesmo. Quanto ao
que me dizes na tua de H... estimo que tenhas perdido
a tal idéia fúnebre; era um despropósito. Conversaremos à vista.
Esse simples trecho trouxe-lhe uma penca de lembranças. Brotero atirou-se a ler todas as cartas do Vasconcelos. Era
um companheiro dos primeiros anos, que naquele tempo cursava a academia, e
agora estava de presidente no Piauí. Uma das cartas, muito anterior àquela,
dizia-lhe:
Com que então a L ... a agarrou-te deveras? Não faz mal; é boa moça e sossegada. E
bonita, maganão! Quanto ao
que me dizes do Chico Sousa, não acho que devas ter nenhum escrúpulo; vocês não
são amigos; dão-se. E depois, não há adultério. Ele devia saber que quem
edifica em terreno devoluto...
Treze dias depois:
Está bom, retiro a expressão terreno devoluto;
direi terreno que, por direito divino, humano e diabólico, pertence ao meu
amigo Brotero. Estás satisfeito?
Outra, no fim de duas semanas:
Dou-te a minha palavra de honra que não há no que disse a
menor falta de respeito aos teus sentimentos; gracejei, por supor que a tua
paixão não era tão séria. O dito por não dito. Custa pouco mudar de estilo, e
custa muito perder um amigo, como tu...
Quatro ou cinco cartas referiam-se às suas efusões
amorosas. Nesse intervalo o Chico Sousa farejou a aventura e deixou a L... a; e o nosso amigo narrou o lance ao Vasconcelos, contente
de a possuir sozinho. O Vasconcelos felicitou-o, mas fez-lhe um reparo.
... Acho-te exigente e transcendente. A coisa mais natural
do mundo é que essa moça, perdendo um homem a quem devia atenções e que lhe
dera certo relevo, recebesse com alguma dor o golpe. Saudade, infidelidade,
dizes tu. Realmente, é demais. Isso não prova senão que ela sabe ser grata aos
benefícios recebidos. Quanto à ordem que lhe deste de não ficar com um só
traste, uma só cadeira, um pente, nada do que foi do outro, acho que não a
entendi bem. Dizes-me que o fizeste por um sentimento de dignidade; acredito.
Mas não será também um pouco de ciúme retrospectivo? Creio que sim. Se a
saudade é uma infidelidade, o leque é um beijo; e tu não queres beijos nem
saudades em casa. São maneiras de ver...
Brotero ia assim relendo a aventura, um
capítulo inteiro da vida, não muito longo, é verdade, mas cálido e vivo. As
cartas abrangiam um período de dez meses; desde o sexto mês começaram os
arrufos, as crises, as ameaças de separação. Ele era ciumento; ela professava o
aforismo de que o ciúme significa falta de confiança; chegava mesmo a repetir
esta sentença vulgar e enigmática: "zelos, sim, ciúmes, nunca". E
dava de ombros, quando o amante mostrava uma suspeita qualquer, ou lhe fazia
alguma exigência. Então ele excedia-se; e aí vinham as cenas de irritação, de reproches, de ameaças, e por fim de lágrimas. Brotero às vezes deixava a casa, jurando não voltar mais; e
voltava logo no dia seguinte, contrito e manso. Vasconcelos reprimia-o de
longe; e, em relação às deixadas e tornadas, dizia-lhe uma vez:
Má política, Brotero; ou lê o
livro até o fim, ou fecha-o de uma vez; abri-lo e fechá-lo, fechá-lo e abri-lo
é mau, porque traz sempre a necessidade de reler o capítulo anterior para ligar
o sentido, e livros relidos são livros eternos.
A isto respondia o Brotero que
sim, que ele tinha razão, que ia emendar-se de uma vez, tanto mais que agora
viviam como os anjos no céu.
Os anjos dissolveram a sociedade. Parece que o anjo L... a, exausto da perpétua antífona, ouviu cantar Dáfnis e Cloé, cá embaixo, e
desceu a ver o que é que podiam dizer tão melodiosamente as duas criaturas. Dáfnis vestia então uma casaca e uma comenda, administrava
um banco, e pintava-se; o anjo repetiu-lhe a lição de Cloé;
adivinha-se o resto. As cartas de Vasconcelos neste período eram de consolação
e filosofia. Brotero lembrou-se de tudo o que
padeceu, das imprudências que praticou, dos desvarios, que lhe trouxe aquela
evasão de uma mulher, que realmente o tinha nas mãos. Tudo empregara para
reavê-la e tudo falhara. Quis ver as cartas que lhe escreveu por este tempo, e
que o Vasconcelos, mais tarde, pôde alcançar dela em S. Paulo e foi à gaveta
onde as guardara com as outras. Era um maço atado com fita preta. Brotero sorriu da fita preta; deslaçou
o maço e abriu as cartas. Não saltou nada, data ou vírgula; leu tudo,
explicações, imprecações, súplicas, promessas de amor e paz, uma fraseologia
incoerente e humilhante. Nada faltava a essas cartas; lá estava o infinito, o
abismo, o eterno. Um dos eternos, escrito na dobra do papel, não se
chegava a ler, mas supunha-se. A frase era esta: "Um só minuto do teu
amor, e estou pronto a padecer um suplício et..."
Uma traça bifara o resto da palavra; comeu o eterno
e deixou o minuto. Não se pode saber a que atribuir essa preferência, se
à voracidade, se à filosofia das traças. A primeira causa é mais provável;
ninguém ignora que as traças comem muito.
A última carta falava de suicídio. Brotero,
ao reler esse tópico, sentiu uma coisa indefinível; chamemos-lhe o
"calafrio do ridículo evitado". Realmente se ele se houvesse
eliminado, não teria o presente desgosto político e pessoal; mas o que não
diriam dele nos pasmatórios da Rua do Ouvidor, nas
conversações à mesa? Viria tudo à rua, viria mais alguma coisa; chamar-lhe-iam
frouxo, insensato, libidinoso, e depois falariam de
outro assunto, uma ópera, por exemplo.
— Uma, duas, três, quatro, cinco principiaram a dizer os
relógios.
Brotero recolheu as cartas, fechou-as uma
a uma, emaçou-as, atou-as e meteu-as na gaveta.
Enquanto fazia esse trabalho, e ainda alguns minutos depois,
deu-se a um esforço interessante: reaver a sensação perdida. Tinha
recomposto mentalmente o episódio, queria agora recompô-lo cordialmente; e o
fim não era outro senão cotejar o efeito e a causa, e saber se a idéia do
suicídio tinha sido um produto natural da crise. Logicamente, assim era; mas Brotero não queria julgar através do raciocínio e sim da
sensação.
Imaginai um soldado a quem uma bala levasse o nariz, e
que, acabada a batalha, fosse procurar no campo o desgraçado apêndice.
Suponhamos que o acha entre um grupo de braços e pernas; pega dele, levanta-o entre os dedos, — mira-o, examina-o, é o seu
próprio... Mas é um nariz ou um cadáver de nariz? Se o dono lhe puser diante os
mais finos perfumes da Arábia, receberá em si mesmo a sensação do aroma? Não:
esse cadáver de nariz nunca mais lhe transmitirá nenhum cheiro bom ou mau; pode
levá-lo para casa, preservá-lo, embalsamá-lo; é o mesmo. A própria ação de assoar o nariz, embora ele a veja e compreenda nos outros,
nunca mais há de podê-la compreender em si, não chegará a reconhecer que efeito
lhe causava o contato da ponta do nariz com o lenço. Racionalmente, sabe o que
é; sensorialmente, não saberá mais nada.
"Nunca mais? pensou o Brotero... Nunca mais poderei ..."
Não podendo obter a sensação extinta, cogitou se não
aconteceria o mesmo à sensação presente, isto é, se a crise política e pessoal,
tão dura de roer agora, não teria algum dia tanto valor como os velhos diários,
em que se houvesse dado a notícia do novo gabinete e do casamento da viúva. Brotero acreditou que sim. Já então a arraiada
vinha clareando o céu. Brotero ergueu-se; pegou da
carta que escrevera ao presidente do conselho, e chegou-a à
vela; mas recuou a tempo.
"Não, disse ele consigo; juntemo-la aos outros papéis
velhos; inda há de ser um nariz cortado".
A ESTÁTUA DE JOSÉ DE ALENCAR
Discurso
proferido na cerimônia do lançamento
da primeira pedra
da estátua de José de Alencar
Senhores,
Tenho ainda
presente a essa em que, por algumas horas últimas, pousou o corpo de José de
Alencar. Creio que jamais o espetáculo da morte me fez tão singular impressão.
Quando entrei na adolescência, fulgiam os primeiros raios daquele grande
engenho; vi-os depois em tanta cópia e com tal esplendor que eram já um sol,
quando entrei na mocidade. Gonçalves Dias e os homens do seu tempo estavam
feitos; Álvares de Azevedo, cujo livro era a boa-nova
dos poetas, falecera antes de revelado ao mundo. Todos eles influíam
profundamente no ânimo juvenil que apenas balbuciava alguma coisa; mas a ação
crescente de Alencar dominava as outras. A sensação que recebi no primeiro
encontro pessoal com ele foi extraordinária; creio ainda agora que não lhe
disse nada, contentando-me de fitá-lo com os olhos assombrados do menino Heine
ao ver passar Napoleão. A fascinação não diminuiu com o trato do homem e do
artista. Daí o espanto da morte. Não podia crer que o autor de tanta vida
estivesse ali, dentro de um féretro, mudo e inábil por todos os tempos dos
tempos. Mas o mistério e a realidade impunham-se; não havia mais que enterrá-lo
e ir conversá-lo em seus livros.
Hoje, senhores, assistimos ao início de outro monumento, este
agora de vida, destinado a dar à cidade, à pátria e ao mundo a imagem daquele
que um dia acompanhamos ao cemitério. Volveram anos; volveram coisas; mas a consciência humana diz-nos que, no meio das obras e dos
tempos fugidios, subsiste a flor da poesia, ao passo que a consciência nacional
nos mostra na pessoa do grande escritor o robusto e vivaz representante da
literatura brasileira.
Não é aqui o
lugar adequado à narração da carreira do autor de Iracema. Todos vós
sabeis que foi rápida, brilhante e cheia; podemos
dizer que ele saiu da Academia para a celebridade. Quem o lê agora, em dias e
horas de escolha, e nos livros que mais lhe aprazem, não tem idéia da
fecundidade extraordinária que revelou tão depressa entrou na vida. Desde logo
pôs mãos à crônica, ao romance, à crítica e ao teatro, dando a todas essas
formas do pensamento um cunho particular e desconhecido. No romance que foi a
sua forma por excelência, a primeira narrativa, curta e simples, mal se espaçou
da segunda e da terceira. Em três saltos estava o Guarani diante de nós;
e daí veio a sucessão crescente de força, de
esplendor, de variedade. O espírito de Alencar percorreu as diversas partes de
nossa terra, o norte e o sul, a cidade e o sertão, a mata e o pampa, fixando-as
em suas páginas, compondo assim com as diferenças da vida, das zonas e dos
tempos a unidade nacional da sua obra.
Nenhum escritor
teve em mais alto grau a alma brasileira. E não é só porque houvesse tratado
assuntos nossos. Há um modo de ver e de sentir, que dá a nota íntima da
nacionalidade, independente da face externa das coisas. O mais francês dos
trágicos franceses é Racine, que só fez falar a antigos. Schiller é sempre
alemão, quando recompõe Filipe II e Joana d'Arc. O
nosso Alencar juntava a esse dom a natureza dos assuntos tirados da vida
ambiente e da história local. Outros o fizeram também; mas a expressão do seu
gênio era mais vigorosa e mais íntima. A imaginação que sobrepujava nele o
espírito de análise, dava a tudo o calor dos trópicos e as galas viçosas de
nossa terra. O talento descritivo, a riqueza, o mimo e a originalidade do
estilo completavam a sua fisionomia literária.
Não lembro aqui
as letras políticas, os dias de governo e de tribuna. Toda essa parte de
Alencar fica para a biografia. A glória contenta-se da outra parte. A política
era incompatível com ele, alma solitária. A disciplina dos partidos e a natural
sujeição dos homens às necessidades e interesses comuns não podiam ser aceitas
a um espírito que em outra esfera dispunha da soberania e da liberdade.
Primeiro em Atenas, era-lhe difícil ser segundo ou terceiro em Roma. Quando um
ilustre homem de Estado respondendo a Alencar, já então apeado do Governo,
comparou a carreira política à do soldado, que tem de passar pelos serviços
ínfimos e ganhar os postos gradualmente, dando-se a si mesmo como exemplo dessa
lei, usou de uma imagem feliz e verdadeira, mas ininteligível para o autor das Minas
de Prata. Um ponto há que notar, entretanto, naquele curto estádio
político. O autor do Gaúcho carecia das qualidades necessárias à
tribuna, mas quis ser orador, e foi orador. Sabemos que se bateu galhardamente
com muitas das primeiras vozes do parlamento.
Desenganado dos
homens e das coisas, Alencar volveu de todo às suas queridas letras. As letras
são boas amigas; não lhe fizeram esquecer inteiramente as amarguras, é certo;
senti-lhe mais de uma vez a alma enojada e abatida. Mas a arte, que é a
liberdade, era a força medicatriz do seu espírito.
Enquanto a imaginação inventava, compunha e polia novas obras, a contemplação
mental ia vencendo as tristezas do coração, e o misantropo amava os homens.
Agora que os anos
vão passando sobre o óbito do escritor, é justo perpetuá-lo, pela mão do nosso
ilustre estatuário nacional. Concluindo o livro de Iracema, escreveu Alencar
esta palavra melancólica: "A jandaia cantava ainda no olho do coqueiro,
mas não repetia já o mavioso nome de Iracema. Tudo passa sobre a
terra". Senhores, a filosofia do livro não podia ser outra, mas a
posteridade é aquela jandaia que não deixa o coqueiro, e que ao contrário da
que emudeceu na novela, repete e repetirá o nome da linda tabajara e do seu
imortal autor. Nem tudo passa sobre a terra.
HENRIQUETA RENAN
Publicado na Revista Brasileira outubro de 1896.
Um espartano, convidado a ouvir
alguém que imitava o canto do rouxinol, respondeu friamente: “Já ouvi o
rouxinol”. O mesmo dirás tu, se leste Henriqueta
Renan, a quem quer que se proponha falar desta senhora que tamanha
influência teve no autor da Vida de Jesus. A diferença é que aqui
ninguém te convida a ver imitar o inimitável. Renan é o próprio rouxinol;
ninguém poderá dizer nada depois do estilo incomparável e da grande emoção
daquelas páginas. Assim é que não venho contar o que leste ou podes ler nessa
língua única, mas trazer somente, com os subsídios posteriores, um esboço da
amiga pia e discreta, inteligência fina e culta, vontade forte e longa, capaz
de esforços grandes para cumprir deveres altos, ainda que obscuros. Os renanistas da nossa terra são como todos os devotos de um espírito
eminente, não lhe amam os livros e atos públicos, mas tudo o que a ele se
refere, seja gozo íntimo ou tristeza particular. De um sei eu, que talvez por
vir também do seminário, é o mais absoluto de todos. Esse, se
estivesse agora na antiga Biblos, iria até à
aldeia de Amschit, onde descansam os restos da irmã
querida do mestre. Sentar-se-ia ao pé das palmeiras para evocar a sombra
daquela nobre criatura. A memória lhe traria novamente os passos de uma vida
feita de sacrifícios e de trabalhos, começada em uma cidadezinha da Bretanha,
continuada em Paris, na Polônia e na Itália, e acabada no recanto modesto de um
pedaço da Ásia.
A vida de Henriqueta Renan
completa-se pelas cartas trocadas entre os dois irmãos, ela nos confins da
Polônia, ele na província e em Paris. Destas me
servirei principalmente. A impressão original do opúsculo de Renan, feita em
1862, não foi divulgada: cem exemplares bastaram para recordar Henriqueta às
pessoas que a tinham conhecido. No prólogo dos Souvenirs
d’enfance et de jeunesse, Renan declara
que não queria profanar a memória da irmã juntando aquele opúsculo a este
livro. “Inserindo essas páginas em um volume posto à venda, andaria tão mal
como se levasse o retrato dela a um leilão”. Não obstante, autorizou a
reimpressão depois dele morto. A reimpressão fez-se integralmente em 1895,
trazendo os retratos de ambos. Não imagines, se não
viste o dela, que é uma formosa criatura moça. Aos dezenove anos, segundo o
irmão, fora em extremo graciosa, de olhos meigos e mãos finíssimas. O retrato
representa uma senhora idosa, com a sua touca de
folhos, atada debaixo do queixo, um vestido sem feitio; mas a doçura que ele
tanto louva lá se lhe vê na gravura, cópia da fotografia. Conta o próprio irmão
que, em 1850, voltando da Polônia, Henriqueta estava inteiramente mudada;
trazia as rugas da velhice prematura, “não lhe restando da graça antiga mais
que a deleitosa expressão de sua inefável bondade”.
Camões, mestre em figuras
poéticas, diz do filho de Semele, que era nascido de
duas mães — e não dá o próprio nome de Baco senão por alusão àquele que traz a
perpétua mocidade no rosto. De Renan, eterno moço, se pode dizer igual coisa;
mas aqui a imagem pagã e graciosa, não menos que
atrevida, é uma austera e doce verdade. Henriqueta, mais velha que ele doze
anos, dividiu com a mãe de ambos a maternidade do irmãozinho. “Uma das tuas
mães”, escreve-lhe ela em 28 de fevereiro de 1845, dia
em que ele fazia vinte e dois anos. Já antes (carta de 30 de outubro de 1842)
havia-lhe dito que era seu filho de adoção. Os primeiros tempos da infância de
Ernesto são deliciosos sem alegria, unicamente pela afeição recíproca, pela
docilidade daquela moça, que deixava de ir ter com as amigas, para não afligir
o pequeno que a queria só para si. Henriqueta é que o leva à igreja,
agasalhadinho em sua capa, quando era inverno. Um dia, como o visse disfarçar
envergonhado o casaquinho surrado pelo uso, não pode reter as lágrimas. Já
então haviam perdido o pai, — náufrago ou suicida, — que não deixara de si mais
que dívidas e saudades. Um mês inteiro gastaram a esperar alguma notícia ou o
cadáver. Parece que esses dramas são comuns na costa bretã; lembrai-vos do
pescador de Islândia e das angústias da pobre Maud, à
espera que voltem Yann e o seu barco, e vendo que
todos voltam, menos eles.
— Já vieram todos os de Tréguier e Saint-Brieuc, diz à
pobre Maud uma das mulheres que também iam esperar à
praia.
Tréguier é justamente a cidadezinha em que
nasceu Renan. O navio do pai voltou, ao invés da Leopoldine de Yann, mas
voltou sem o dono, e só depois de longos dias é que o cadáver foi arrojado à
praia entre Saint-Brieuc e o cabo Fréhel.
Os pormenores e o quadro são outros; da invenção de Loti
resultou um livro; da realidade de 1828 nasceu e cresceu a nobre figura de
Henriqueta. Ela enfrentou com o trabalho, disposta a resgatar as dívidas do pai
e acudir às necessidades da família. Rejeitou um casamento rico, unicamente
pela condição que trazia de deixar os seus. Abriu uma escola, mas foi obrigada
a fechá-la, e pouco depois aceitou emprego em uma pensão de meninas em Paris.
Renan diz que as suas estréias na capital foram horríveis, e pinta o contraste
da provinciana, e particularmente da bretã, com aquele mundo novo para ela,
feito de “sequidão, de frieza e de charlatanismo”. Henriqueta aceitou a direção
de outro colégio, onde trabalhou descomunalmente sem prosperidade, mas onde fez
crescer a sua própria instrução, que chegou a ser excepcional; é a palavra do
irmão. Este viera então a Paris, a chamado dela, para entrar no seminário
dirigido por Dupanloup, e continuar os estudos
começados em um colégio de padres da cidade natal: era em 1838. Dois anos
depois, não podendo tirar da vida de mestra em Paris os meios necessários para
liquidar as dívidas do pai, contratou Henriqueta os seus serviços de professora
em casa de uma família polaca, e começou novo exílio, mais longo (dez anos) e
mais remoto, em um castelo da Polônia, a sessenta léguas de Varsóvia.
Aqui entra naturalmente a
correspondência (Lettres intimes),
publicada agora em volume, uma coleção que vai de 1842 a 1845. Há outras cartas
(1845-1848), dadas mais recentemente em uma revista francesa; não as li. A
correspondência que tenho à vista mostra, ainda melhor
que a narração de Renan, o sentimento raro, a afeição profunda, e a dedicação
sem aparato daquela boa e grave Henriqueta. As cartas desta senhora são a sua
própria alma. Escrevem-se muitas para o prelo, algumas para a posteridade;
nenhum desses destinos podia atraí-la. Fala do irmão ao irmão. Raro trata de
si, e quando o faz é para completar um conselho ou uma reflexão. Também não
conta o que se passa em torno dela. Conquanto a vida fosse solitária, algum
incidente interior, alguma observação do meio em que estava podia cair no
papel, por desabafo sequer, não digo por malícia; nada disso. Uma vez falará de
dinheiro pedido ao pai das educandas, para explicar a
demora de uma remessa. Outra vez, em poucas linhas, dirá do campônio polaco que
é o mais pobre e embrutecido que se possa imaginar, e notará os
excesso de fanatismo e de ódio religioso entre os judeus que enchem as
cidades e os cristãos, e entre os próprios dissidentes do cristianismo. Pouco
mais dirá na longa correspondência de quatro anos. A distância era tamanha que
não dava tempo a desperdiçar papel com assunto alheio. Todo ele é pouco para
tratar somente do irmão. Henriqueta aperta as linhas e as letras, aproveita as
margens das folhas para não acabar de lhe falar. “Custa-me deixar-te”, conclui
a primeira carta impressa. Era inútil dizê-lo; todas as seguintes fazem sentir
que mui dificilmente Henriqueta suspende a mão do papel. São verdadeiramente
cartas íntimas, medrosas de aparecer, receosas de violação.
Desde logo revelam a força do afeto e a gravidade do espírito. Nenhum floreio
de retórica, nenhum arrebique de sabichona, mas um alinho natural, muita
simpleza de arte, fino estilo e comoção sincera. As expressões de ternura são
intensas e abundantes. Meu filho, meu amado, meu querido, meu bom e mil vezes
querido, são umas de tantas palavras inspiradas por um amor único.
Henriqueta Renan é melancólica.
Segundo o irmão, herdou essa disposição do pai; a mãe era vivaz e alegre. A
tristeza, em verdade, ressumbra das suas cartas. O meio em que vive era
apropriado a agravar essa inclinação de nascença. Nem o interior do castelo nem
as temporadas de Varsóvia podiam trazer-lhe a alegria que não vinha dela.
Querendo dar idéia da terra em que habita, fala de “imensas e monótonas
planícies de areia que fariam pensar na Arábia ou na África, se intermináveis
pinhais, interrompendo-as, não viessem lembrar a vizinhança do norte”. Junta a
isso a estranheza das gentes, as saudades dos seus, maiores que as da terra
natal; não esqueças a distância no espaço, que é enorme, e no tempo que parece
infinito, e compreenderás que em toda a correspondência de Henriqueta não haja
o reflexo de um sorriso. O sentimento que tem da vida, aos trinta anos, aqui o
dá ela ao irmão, uma vez que fala de o ver feliz: “Feliz! Quem é feliz nesta
terra de dores e desassossegos? E, sem contar os lances da sorte e as ações dos
homens, não é certo que em nosso coração há uma fonte perene de agitações e de
misérias?” Entretanto, a melancolia de Henriqueta não lhe abate as forças, não
é daquela espécie que faz da alma uma simples espectadora da vida. Henriqueta não
se contenta de gemer; a queixa não parece que seja a sua voz natural. Aconselha
ao irmão que lute e que conte com ela para ajudá-lo. Exorta-o a ser homem. Um
dia, achando-lhe resolução, louva a força de vontade, “sem a qual não passamos
de criançolas”. Henriqueta tira do sentimento do dever, não menos que do amor,
a energia necessária para amparar Renan, primeiro nas dúvidas, depois nos
estudos e na carreira nova.
Há um ponto na narrativa de Renan,
que as cartas de Henriqueta completam e explicam: é o que se refere aos laços
de afeição e estima existentes entre ela e a família do conde Zamosky com quem contratara os seus serviços de preceptora;
tais laços que lhe faziam esquecer a tristeza da posição e o rigor do clima. As
cartas de Henriqueta não deixam tão simples impressão. Se a queixa não parece
ser a sua voz natural, alguma vez, como na carta de 12 de março de 1843,
referindo-se às faculdades de cada um, e à liberdade interior, confessa que só
com grande luta se consegue fazer crer àqueles que pagam que há coisas
de que só se dão contas a Deus e à consciência. Foi nessa mesma carta que falou
do dinheiro pedido ao pai das educandas, a que aludi
acima; era para mandá-lo à mãe, e não conhecia outra pessoa. O conde demorou-se
em satisfazê-la, por fim ausentou-se e ainda não voltara “sem má intenção”
acrescenta; o que não a impede de exclamar: “Deus meu! Porque é que os grandes
não pensam naqueles que só têm o fruto do seu trabalho, e que este lhes é
preciso receber regularmente!” E conclui com esta máxima, que porventura
resgatará o que achares banal naquela exclamação: “É que o homem não pode
compreender senão as penas que já padeceu; tudo o mais não existe para ele”.
Noutro lugar, respondendo a um reparo do irmão, concorda que a vida para muitos
é passada no meio de pessoas com quem só há relações de fria polidez, e “nem tu
nem eu somos desses a quem tais relações bastem”. Uma organização dessas
poderia conquistar a estima da família, e mui provavelmente a afeição das educandas, mas não esquecia tão de leve a tristeza do
ofício nem a aspereza dos ares. Henriqueta ia de um lado para outro sem levar
saudades; é que tudo lhe era estranho no campo e na cidade, e bem pode ser que
quase tudo lhe fosse aborrecido. A paixão grande e real estava fora dali. Assim
se explicam os dez anos de exílio para concluir a obra contratada com outros e
com a sua consciência.
Durante metade desse prazo, Renan
freqüentou os seminários de Issy e de Saint-Sulpice. Daquele, aliás
dependência deste, data a primeira carta da coleção, respondendo a outra da
irmã, que não vem nela. Conquanto o livro dos Souvenirs
nos conte abreviadamente a estada em ambos os seminários, é certo que melhor se
sentem na correspondência as hesitações e dúvidas do
autor da Vida de Jesus em relação à carreira eclesiástica e ao próprio
fundador da Igreja. As cartas acompanham o movimento psicológico do homem,
fazem-nos assistir às alterações de um espírito destinado pela família ao
serviço do altar e à gloria católica, ao mesmo tempo
que nos mostram a influência de Henriqueta na alma do seu querido Ernesto.
“Minha irmã (Souvenirs), cuja razão era desde
anos como a coluna luminosa caminhando ante mim, animava-me do fundo da Polônia
com suas cartas cheias de bom senso”. Não há propriamente iniciativa ou
tentação da parte dela. É certo que nunca desejou vê-lo padre; assim o declara
mais tarde (28 de fevereiro de 1845), quando as confissões de Renan estão quase
todas feitas; diz-lhe então que previra as dúvidas que ora o assediam, e
acrescenta que ninguém a quis ouvir e não podia resistir sozinha. Mas então,
como antes, como depois, a arte que emprega é tal que antes parece ir ao
encontro dos novos sentimentos do irmão que sugerir-lhos.
A este respeito as
duas cartas de 15 de setembro e 30 de outubro de 1842 são cheias de interesse.
Renan conta naquela os efeitos do primeiro ano de filosofia e matemáticas. A
primeira destas disciplinas fá-lo julgar as coisas de
modo diverso que antes, e troca-lhe uma porção de supostas verdades em erros e
preconceitos; ensina a ver tudo e claro. Assim disposto à reflexão, e com o
sossego e a liberdade de espírito que lhe dá o seminário, Renan pensou em si e
no seu futuro. Fala demoradamente da influência que têm sobre este os atos
iniciais da vida; não se arrepende dos seus, e, se tivesse de escolher
novamente uma carreira, não escolheria outra senão a eclesiástica. Mas, em
seguida, confessa os inconvenientes desta, que declara imensos; coisas há que
meteram na cabeça do clero, e que jamais entrarão na dele; alude também à
frivolidade, à duplicidade, ao caráter cortesão de alguns “seus futuros
colegas”, e finalmente à submissão a uma autoridade por vezes suspicaz, à qual
não poderia obedecer. Tais inconvenientes encontrá-los-ia
em qualquer carreira, e ainda maiores que esses, verdadeiras impossibilidades;
louva o retiro, a independência, o estudo, e afirma a execração que tem à vida
social com as suas futilidades. Não fala assim por zelo de devoção espiritual,
diz ele... “Oh! não! é defeito que já não tenho; a
filosofia é bom remédio para cortar excessos, e, se há nela que recear, será
antes uma violenta reação”. Enfim, chega a conclusão
inesperada em um seminarista: “ainda que o cristianismo não passasse de um
devaneio, o sacerdócio seria divino”. Mais uma vez lastima que o sacerdócio
seja exercido por pessoas que o rebaixam, e que o mundo superficial confunda o
homem com o ministério; mas logo reduz isto a uma opinião, “e, graças a Deus,
creio estar acima da opinião”. Parece que esta palavra é definitiva? Não é; na
parte seguinte e final da carta declara à irmã que continua a pensar naquele
grave negócio a ver se o esclarece, e pede que não escreva à mãe sobre as suas
hesitações.
Há duas explicações para esse
vaivém de idéias e de impressões — ou hesitação pura ou cálculo. Mas há uma terceira, que é talvez a única real. Creio juntamente na
hesitação e no cálculo. Uma parte da alma de Renan vacila deveras entre a vida
mundana, que lhe não oferece as delícias íntimas, e a vida eclesiástica, onde a
condição terrena não corresponde muita vez ao seu ideal cristão. A outra parte
calcula de modo que a confissão lhe não saia tão acentuada e decisiva que
destoe do espírito geral do homem e desminta a compostura do seminarista. Ao
cabo, é já um esboço de renanismo. Entretanto, se
examinarmos bem as duas tendências alternadas, veremos
que a negação para a vida eclesiástica é mais forte que a outra; falta-lhe
vocação. Também se sente que a dúvida relativamente ao dogma começa de
ensombrar a alma do estudante de filosofia. Renan confessa a Henriqueta “gostar
muito dos seus pensadores alemães, posto que um tanto céticos e panteístas”.
Recomenda-lhe que, se for a Konigsberg, faça por ele
uma visita ao túmulo de Kant. O pedido de nada dizer à mãe, repetido em outras
cartas, é porque a mãe conta vê-lo padre, e vive dessa esperança velha.
Que esses dois espíritos eram
irmãos vê-se bem na carta que Henriqueta escreve a Renan, em 30 de outubro,
respondendo à de 15 de setembro. Também ela, sem dizer francamente que não
deseja vê-lo padre, sabe insinuá-lo; menos ainda que insinuá-lo, parece apenas
repetir o que ele balbuciou. A carta dela tem a mesma ondulação que a dele.
Henriqueta declara estremecer ao vê-lo tratar tão graves questões em idade
geralmente descuidosa; entretanto, gosta que ele encare com seriedade o que
outros fazem leviana ou apaixonadamente. Concorda que as estréias da vida
influem no resto dela, e insinua que “às vezes de modo irreparável”. Tem para
si que ele não deve precipitar nada; não quer aconselhá-lo, para que lhe fique
a liberdade de escolha. Quando alude à vida retirada e independente, diz-se
mais que ninguém capaz de entendê-lo; mas, pergunta logo, onde encontrá-la? Crê
que a raros caiba, e não pode esperar que o irmão a encontre numa sociedade
hierárquica, onde já antevê a autoridade suspicaz. Também ela acha suspicaz a
autoridade, mas acrescenta que o mesmo se dá com todas as profissões; e quando
parece que esta fatalidade de caráter deva enfraquecer qualquer argumento
contra o ministério eclesiástico, lembra interrogativamente o vínculo perpétuo
de juramento. Quer que ele pense por si, que escolha por si, apela para a razão
e a consciência do irmão. Insiste em lhe não dar conselhos; mas já lhe tem dito
que, se uma parte do clero é pessoal e ambiciosa, ele, Renan, pode vir a ser a
mesma coisa. A frase em que o diz é velada e cautelosa: “o número e o costume
não levarão atrás de si a minoria e o dever?” Essa pergunta,
todas as demais perguntas que lhe faz pela carta adiante, trazem o fim
evidente de evocar uma idéia ou atenuar outra, e porventura criar-lhe novos
casos e motivos de repugnância à milícia da Igreja. É uma série de sugestões e
de esquivanças.
A diferença de um a outro espírito
é que Henriqueta, insinuando as desvantagens que o irmão possa achar na
carreira eclesiástica, entre palavras dúbias e alternação de pensamentos,
aceitá-lo-ia sacerdote, senão com igual prazer, certamente com igual dedicação.
Nem lhe quer impor o que julga melhor, nem lhe doerá a
escolha do irmão, se for contrária aos seus sentimentos, uma vez que o faça feliz.
Certo é, porém, que as preferências de Renan, que ora vemos a
meio século de distância, à vista da carta impressa, ele mesmo as
sentiria lendo a carta manuscrita. Com efeito, por mais que equilibre os
sentimentos, Renan está inclinado à vida leiga. Não importa que a situação se
prolongue por vinte meses. Em 1844, Renan comunica à irmã (16 de abril) que
havia dado o primeiro passo na carreira eclesiástica. Hesitou até à última
hora, e ainda assim não se decidiu senão porque o primeiro passo não era irrevogável;
exprimia a intenção atual. Parte dessa epístola é destinada a explicar o
ajuste entre o sentimento e o ato, entre o alcance deste e a liberdade efetiva.
Não fazia mais que renunciar às frivolidades do mundo. A 11 de julho
escreve-lhe que deu um passo mais na carreira, menos importante que o primeiro,
sem vínculo novo, pelo que não lhe custou muito; é um complemento daquele — um
anexo, como lhe chama. O terceiro, o subdiaconato, é que seria definitivo, mas,
como o prazo era longo, um ano mais tarde, a ansiedade era menor. Durante esse
tempo, o seminarista entrega-se aos estudos hebraicos, às línguas orientais, e
mais tarde, à língua alemã. Pelos fins de 1844, é encarregado de lecionar
hebreu, porque o professor efetivo não podia com os dois cursos; aceitou a
posição, já pela vantagem científica que lhe trará, já “porque pode levá-lo a
alguma coisa”. Assim começará o então professor da Sorbona.
Três meses depois, a 11 de abril
de 1845, escreve Renan a carta mais importante da situação. Resolveu não atar
naquele ano o laço indissolúvel, o subdiaconato, e solta a palavra explicativa:
não crê bastante para ser padre. Expõe assim, e mais longamente, o estado em
que se acha ante o catolicismo e os seus dogmas, dos quais fala com respeito,
proclamando que Jesus será sempre o seu Deus; mas tendo procedido ao que chama
“verificação racional do cristianismo”, descobriu a verdade. Descobriu também
um meio termo, que exprime a natureza moral do futuro exegeta: o cristianismo
não é falso, mas não é a verdade absoluta. Não repareis na contradição do
seminarista, para quem o sacerdócio era divino, há vinte meses, ainda que o
cristianismo fosse um devaneio, e agora encontra na meia verdade da Igreja
razão bastante para deixá-la. Ou reparai nela, como único fim de entender a
formação intelectual do homem. Contradição aqui é sinceridade.
Não há espanto da parte de
Henriqueta, quando Renan lhe faz a confissão de 11 de abril. Tinha soletrado a
alma dele, à medida que lhe recebia as letras, assim como tu e eu podemos lê-la
agora de vez e integralmente. Também não há no primeiro momento nenhuma
manifestação de alegria, que alguns possam dizer ímpia. A alma desta senhora
conserva-se fundamentalmente religiosa, cheia daquela caridade do Evangelho que
falava ao coração de Rousseau. Demais, além de conhecer o estado moral do
irmão, foi ela própria que o aconselhou a adiar o subdiaconato. Não sabe — pelo
menos não lho contou ele nas cartas do volume — não sabe da cena que ocorreu no
seminário de Issy, muito antes da confissão de 11 de
abril, que é datada de Saint-Sulpice. Foi após uma
das argumentações latinas, que o professor Gottofrey,
desconfiando das inclinações de Renan, em conversação particular, à noite,
concluiu por estas palavras que o aterraram: “Vós não sois
cristão!” (Souvenirs). Já antes disso
sentia Renan em si mesmo a negação do espiritualismo; mas ele explica a
conservação do cristianismo, apesar da concepção positiva do mundo que ia
adquirindo “por ser moço, inconseqüente e falho de crítica” (Souvenirs). De resto, a confissão à irmã não foi
única; escreveu por esse tempo outras cartas a vários, uma ao seu diretor,
apenas designado por *** em 6 de setembro de 1845, outra a um de seus
companheiros, Cognat, que mais tarde tomou ordens, em
24 de agosto, ambas datadas da Bretanha. Henriqueta, ao que se pode supor, teve
as primícias da confissão; foi para ela que ele rompeu, antes que para
estranhos, os véus todos da incredulidade mal encoberta.
Ficou entendido que ocultariam à mãe a resolução nova e última. Trataram dos
meios de acudir à necessidade presente, se aceitar um lugar de preceptor na
Alemanha, se adotar estudos livres; o fim era proceder de modo que a renúncia
da carreira eclesiástica se fizesse cautelosamente sem dor para a mãe nem
escândalo público. Há aqui uma divergência de datas em que não vale a pena
insistir; segundo a carta de Renan de 13 de outubro de 1845, à irmã, foi na
noite de 9 que ele deixou o seminário para ir morar na hospedaria próxima;
segundo o livro dos Souvenirs foi a 6 *.
A alma delicada de Henriqueta
manifesta-se vivamente no que respeita ao dinheiro. Henriqueta custeia as
despesas todas da vida e dos estudos do irmão. A vida deste, antes da saída do
seminário, quase não passa dos livros; mas, depois da saída, é preciso
alojamento e alimentação, é preciso que ele ande “vestido como toda a gente”, e
Henriqueta não esquece nada. Não esquecer é pouco; um coração daquele melindre
tem cuidados que escapariam à previsão comum. “Espero de Varsóvia uma letra de
câmbio de mil e quinhentos francos; mandá-la-ei a Paris a uma pessoa de
confiança, que acreditará que esta soma é só tua”... Em que é que podia
vexar ao irmão esse auxílio pecuniário? Henriqueta quer poupar-lhe até a sombra
de algum acanhamento. Conhecendo-lhe a nenhuma prática da vida, a absorção dos
estudos, a mesma índole da pessoa, desce às minúcias derradeiras, ao modo de
entrar na posse do valor da letra, por bimestre ou trimestre, segundo as
necessidades; é o orçamento de um ano. Manda-lhe outras somas por intermédio do
outro irmão, a quem incumbe também da tarefa de comprar a roupa em Saint-Malo, por conta dela; a razão é a inexperiência de
Ernesto. Mas ainda aqui prevalece o respeito à liberdade; se este preferir
comprá-la em Paris, Henriqueta recomenda que lhe seja entregue mais um tanto em
dinheiro. Que te não enfadem estas particularidades, grave leitor amigo; aqui
as tens ainda mais ínfimas. Henriqueta desce à indicação da cor e forma do
vestuário, uma sobrecasaca escura, o resto preto, é o que lhe parece mais
adequado. Ao pé disso não há falar de conselhos sobre hospedagens e tantas
outras miudezas, intercaladas de expressões tão d’alma, que é como se víssemos uma jovem mãe
ensinando o filhinho a dar os primeiros passos.
A influência de Henriqueta avulta
com o tempo e as necessidades da carreira nova. O zelo cresce-lhe na mesma
proporção. Pelo outro irmão, por uma amiga de Paris, Mlle.
Ulliac, e pelas cartas, Henriqueta governa a vida de
Renan, e não cuida mais que de lhe incutir confiança e de lhe abrir caminho. O
que lhe escreve sobre o bacharelado, Escola Normal, estudo de línguas orientais
e o resto é apoiado pela amiga. Uma e outra suscitam-lhe proteções e auxiliares de boa vontade. Renan
faz daquela amiga da irmã excelente juízo; não o diz só nas cartas do tempo,
mas ainda no opúsculo de 1862. Era uma senhora bela, virtuosa
e instruída. Com grande arte, ao que parece, insinuou-lhe ela que lhe era
preciso relacionar-se com alguma senhora boa e amável. “Ri-me, escreve Renan a
Henriqueta, mas não por mofa”. E, confessando que não é bom que o homem esteja
só, pergunta se alguém está só tendo uma irmã (carta de 31 de outubro de 1845).
Henriqueta é-lhe necessária à vida moral e intelectual. De novembro em diante
insta com a irmã para que volte da Polônia. A amiga falou-lhe da saúde de
Henriqueta como estando muito alterada, e deu-lhe notícias que profundamente o
afligiram; “desvendou-lhe o mistério” é a expressão dele. Foi na noite de 3 de
novembro que Mlle. Ulliac
abriu os olhos a Renan, confiando-lhe que Henriqueta tivera grandes
padecimentos, dos quais nem ele nem a mãe souberam nada. Não se deduz bem do
texto se eram moléstias recentes, se antigas; sabe-se que eram caladas, e por isso ainda mais tocantes. As cartas do volume não passam de
25 de dezembro daquele ano; as instâncias repetem-se, um longo silêncio da irmã
assusta o irmão; afinal vimos que ela só voltou da Polônia cinco anos depois,
em 1850. Trazia uma laringite crônica. Tudo, porém, estava pago.
Os sacrifícios é que não estavam cumpridos.
A vida desta senhora tinha de continuar com eles, e acabar por eles. O maior de
todos foi o casamento do irmão. Quando Renan resolveu casar, Henriqueta recebeu
um grande golpe e quis separar-se dele. Essa irmã e mãe tinha
ciúmes de esposa. Renan quis desfazer o casamento; foi então que o coração de
Henriqueta cedeu, e consentiu em vê-lo feliz com outra. A dor não morreu; o
irmão confessa que o nascimento do seu primeiro filho é que lhe enxugou a ela todas as lágrimas; mas foi só dias antes de
morrer que, por algumas palavras dela, reconheceu haver a ferida cicatrizado
inteiramente. As palavras seriam talvez estas, transcritas no opúsculo:
“Amei-te muito; cheguei a ser injusta, exclusiva, mas foi porque te amei como
já se não ama, como talvez ninguém deva amar”. Viveram
juntos os três; juntos foram em 1860 para aquela missão da Fenícia, a que o
imperador Napoleão convidou Renan. A esposa deste regressou pouco depois; Renan
e Henriqueta continuaram a jornada de explorações e de estudos, durante a qual
ela padeceu largamente, trabalhando longas horas por dia, curtindo violentas
dores nevrálgicas, até contrair a febre perniciosa que a levou deste mundo. As
páginas em que Renan conta a viagem, a doença e a morte de Henriqueta são das
mais belas que lhe saíram das mãos. Morreu trabalhando; os últimos auxílios que
prestou ao irmão foi copiar as laudas da Vida de
Jesus, à medida que ele as ia escrevendo, em Gazhir.
Renan confessa que lhe deveu
muito, não só na orientação das idéias, mas ainda em relação ao estilo, e
explica por que e de que maneira. Antes da missão da Fenícia trabalharam
juntos, em matéria de arte e de arqueologia; além disso, ela compunha trabalhos
para jornais de educação; mas os seus melhores escritos diz
ele que eram as cartas. Moralmente, tinham ambos alcançado
as mesmas vistas e o mesmo sentimento; ainda aí, porém, reconhece Renan alguma
superioridade nela.
Que impressão final deixa a
correspondência daqueles dois corações? O de Henriqueta, mais exclusivo, era
também mais terno e o amor mais profundo. As cartas de Henriqueta são talvez
únicas, como expressão de sentimento fraternal. Mais de uma vez lhe diz que a
vida dele e a sua felicidade são o seu principal cuidado, e até único. Não
temos aqui o que escreveu à mãe; mas não creio que a nota fosse mais forte, nem
talvez tanto. Renan ama a irmã, é-lhe gratíssimo,
ia-lhe sacrificando o consórcio; mas, enfim, pôde amar outra mulher, e, feliz
com ambas, viver dessas duas dedicações. Henriqueta, por mais que Renan nos
afirme o contrário, tinha um fundo pessimista. Que amasse a vida, creio, mas
por ele; se “podia sorrir a um enfeite, como se pode sorrir a uma flor”, estava
longe da inalterável bem-aventurança do irmão. O cetismo
otimista de Renan nunca seria entendido por ela; temperamento e experiência
tinham dado a Henriqueta uma filosofia triste que se lhe sente nas cartas.
Todos conhecem a confissão geral feita pelo autor dos Souvenirs
d’enfance et de jeunesse. Renan afirma
ter sido tão feliz que, se houvesse de recomeçar a vida, com direito de
emendá-la, não faria emenda alguma. Henriqueta, se tivesse
igual sentimento, seria unicamente para servi-lo, e amá-lo, e, caso pudesse,
creio que usaria do direito de eliminar, quando menos, as moléstias que
padeceu. Renan tinha da vida e dos homens um sentimento que, apesar das agruras
dos primeiros anos, já lhe aparece em alguma parte da correspondência. “Um
livro — diz ele na última carta do volume — é o melhor introdutor no mundo
científico. A sua composição obriga a consultar uma porção de sábios, que nunca
ficam tão lisonjeados como quando se lhes vai prestar homenagem e à ciência
deles. As dedicatórias fazem amigos e protetores elevados. Tenciono dedicar o
meu ao Sr. Quatremère”. Na confissão dos Souvenirs é já o sábio que fala em relação
aos estreantes: “Um poeta, por exemplo, apresenta-nos os seus versos. É preciso
dizer que são admiráveis; o contrário equivale a
dizer-lhe que não valem nada, e fazer sangrenta injúria a um homem cuja
intenção é fazer-nos uma fineza”. Um clássico da nossa língua, Sá de Miranda,
põe na boca de um personagem de uma das suas comédias alguma coisa que resume
toda essa arte e polidez aí recomendadas: “A mor ciência que no mundo há assim
é saber conversar com os homens; bom rosto, bom barrete, boas palavras não
custam nada e valem muito... Vou-me a comer”.
“Vou-me a comer”, aplicado a
Renan, é a glória que lhe ficou das suas admiráveis páginas de escritor único.
A glória de Henriqueta seria a contemplação daquela, o gozo íntimo de uma
adoração e de um amor, que a vida achou realmente excessivos, tanto que a
despegou de si, com um derradeiro e terrível sofrimento, talvez mais inútil que
os outros.
O VELHO SENADO
Publicado
originalmente em Revista Brasileira, Rio de Janeiro,
1898.
A propósito de
algumas litografias de Sisson, tive há dias
uma visão do Senado de 1860. Visões valem o mesmo que a retina em que se
operam. Um político, tornando a ver aquele corpo, acharia nele a mesma alma dos seus correligionários
extintos, e um historiador colheria elementos para a história. Um simples
curioso não descobre mais que o pinturesco do tempo e a expressão das linhas com
aquele tom geral que dão as coisas mortas e enterradas.
Nesse ano entrara
eu para a imprensa. Uma noite, como saíssemos do Teatro Ginásio, Quintino
Bocaiúva e eu fomos tomar chá. Bocaiúva era então uma gentil figura de rapaz,
delgado, tez macia, fino bigode e olhos serenos. Já então tinha os gestos
lentos de hoje, e um pouco daquele ar distant que Taine achou em Mérimée. Disseram coisa
análoga de Challemel-Lacour, que alguém
ultimamente definia como très républicain de conviction et très aristocrate de tempérament. O nosso Bocaiúva era só a segunda
parte, mas já então liberal bastante para dar um republicano convicto. Ao chá,
conversamos primeiramente de letras, e pouco depois de política, matéria
introduzida por ele, o que me espantou bastante, não era usual nas nossas
práticas. Nem é exato dizer que conversamos de política, eu antes respondia às
perguntas que Bocaiúva me ia fazendo, como se quisesse
conhecer as minhas opiniões. Provavelmente não as teria fixas nem determinadas;
mas, quaisquer que fossem, creio que as exprimi na proporção e com a precisão
apenas adequadas ao que ele me ia oferecer. De fato, separamo-nos com prazo
dado para o dia seguinte, na loja de Paula Brito, que era na antiga Praça da
Constituição, lado do Teatro S. Pedro, a meio caminho das Ruas do Cano e dos
Ciganos. Relevai esta nomenclatura morta; é vício de memória velha. Na manhã
seguinte, achei ali Bocaiúva escrevendo um bilhete. Tratava-se do Diário do
Rio de Janeiro, que ia reaparecer, sob a direção política de Saldanha
Marinho. Vinha dar-me um lugar na redação com ele e Henrique César Múzio.
Estas
minudências, agradáveis de escrever, sê-lo-ão menos de ler. É difícil fugir a
elas, quando se recordam coisas idas. Assim, dizendo que no mesmo ano, abertas
as câmaras, fui para o Senado, como redator do Diário do Rio, não posso
esquecer que nesse ou no outro ali estiveram comigo, Bernardo Guimarães,
representante do Jornal do Comércio, e Pedro Luís, por parte do Correio
Mercantil, nem as boas horas que vivemos os três. Posto que Bernardo
Guimarães fosse mais velho que nós, partíamos irmãmente o pão da intimidade. Descíamos juntos aquela Praça da Aclamação, que não era então o
parque de hoje, mas um vasto espaço inculto e vazio como o Campo de
S. Cristóvão. Algumas vezes íamos jantar a um restaurant da Rua dos Latoeiros, hoje Gonçalves
Dias, nome este que se lhe deu por indicação justamente no Diário do Rio;
o poeta morara ali outrora, e foi Múzio, seu amigo, que pela nossa folha o pediu à Câmara
Municipal. Pedro Luís não tinha só a paixão que pôs nos belos versos à Polônia
e no discurso com que, pouco depois, entrou na Câmara dos Deputados, mas ainda
a graça, o sarcasmo, a observação fina e aquele largo riso em que os grandes
olhos se faziam maiores. Bernardo Guimarães não falava nem ria tanto,
incumbia-se de pontuar o diálogo com um bom dito, um reparo, uma anedota. O
Senado não se prestava menos que o resto do mundo à conversação dos três amigos.
Poucos membros
restarão da velha casa. Paranaguá e Sinimbu carregam
o peso dos anos com muita facilidade e graça, o que ainda mais admira em Sinimbu, que suponho mais idoso. Ouvi falar a este bastantes vezes; não apaixonava o debate,
mas era simples, claro, interessante, e, fisicamente, não perdia a linha. Esta
geração conhece a firmeza daquele homem político, que mais tarde foi presidente
do Conselho e teve de lutar com oposições grandes. Um incidente dos últimos
anos mostrará bem a natureza dele. Saindo da Câmara dos Deputados para a
Secretaria da Agricultura, com o Visconde de Ouro Preto, colega de gabinete, eram seguidos por
enorme multidão de gente em assuada. O carro parou em frente à secretaria; os
dois apearam-se e pararam alguns instantes, voltados para a multidão, que
continuava a bradar e apupar, e então vi bem a diferença dos dois
temperamentos. Ouro Preto fitava-a com a cabeça erguida e certo gesto de repto;
Sinimbu parecia apenas mostrar ao colega um trecho de
muro, indiferente. Tal era o homem que conheci no Senado.
Para avaliar bem
a minha impressão diante daqueles homens que eu via ali juntos, todos os dias,
é preciso não esquecer que não poucos eram contemporâneos da maioridade, algum
da Regência, do Primeiro Reinado e da Constituinte. Tinham feito ou visto fazer
a história dos tempos iniciais do regímen, e eu era um adolescente espantado e
curioso. Achava-lhes uma feição particular, metade militante, metade
triunfante, um pouco de homens, outro pouco de instituição. Paralelamente, iam-me
lembrando os apodos e chufas que a
paixão política desferira contra alguns deles, e sentia que as figuras serenas
e respeitáveis que ali estavam agora naquelas cadeiras estreitas não tiveram
outrora o respeito dos outros, nem provavelmente a
serenidade própria. E tirava-lhes as cãs e as rugas, e fazia-os outra vez
moços, árdegos e agitados.
Comecei a aprender a parte do presente que há no passado, e vice-versa. Trazia
comigo a oligarquia, o golpe de Estado de 1848, e outras
notas da política em oposição ao domínio conservador, e ao ver os cabos deste
partido, risonhos, familiares, gracejando entre si e com os outros, tomando
juntos café e rapé, perguntava a mim mesmo se eram eles que podiam fazer, desfazer e refazer os elementos e
governar com mão de ferro este país.
Os senadores
compareciam regularmente ao trabalho. Era raro não haver sessão por falta de quorum.
Uma particularidade do tempo é que muitos vinham em carruagem própria, como
Zacarias, Monte Alegre, Abrantes, Caxias e outros, começando pelo mais velho,
que era o Marquês de Itanhaém. A idade deste
fazia-o menos assíduo, mas ainda assim era-o mais do que cabia esperar dele.
Mal se podia apear do carro, e subir as escadas; arrastava os pés até à
cadeira, que ficava do lado direito da mesa. Era seco e mirrado, usava
cabeleira e trazia óculos fortes. Nas cerimônias de abertura e encerramento
agravava o aspecto com a farda de senador. Se usasse barba, poderia disfarçar o
chupado e engelhado dos tecidos, a cara rapada acentuava-lhe a decrepitude; mas
a cara rapada era o costume de outra quadra, que ainda existia na maioria do
Senado. Uns, como Nabuco e Zacarias,
traziam a barba toda feita; outros deixavam pequenas suíças, como Abrantes e
Paranhos, ou, como Olinda e Eusébio, a barba em forma de colar; raros usavam
bigodes, como Caxias e Montezuma, — um Montezuma de segunda
maneira.
A figura de Itanhaém era uma razão
visível contra a vitaliciedade do Senado, mas é também certo que a vitaliciedade dava àquela casa uma consciência
de duração perpétua, que parecia ler-se no rosto e no trato de seus membros.
Tinham um ar de família, que se dispersava durante a estação calmosa, para ir
às águas e outras diversões, e que se reunia depois, em prazo certo, anos e
anos. Alguns não tornavam mais, e outros novos apareciam; mas também nas
famílias se morre e nasce. Dissentiam sempre, mas é próprio das famílias
numerosas brigarem, fazerem as pazes e tornarem a brigar; parece até que é a
melhor prova de estar dentro da humanidade. Já então se evocavam contra a
vitaliciedade do Senado os princípios liberais, como se fizera antes. Algumas
vozes vibrantes cá fora, calavam-se lá dentro, é certo, mas o gérmen da reforma
ia ficando, os programas o acolhiam, e, como em vários
outros casos, os sucessos o fizeram lei.
Nenhum tumulto
nas sessões. A atenção era grande e constante. Geralmente, as galerias não eram
mui freqüentadas, e, para o fim da hora, poucos espectadores ficavam, alguns dormiam. Naturalmente, a
discussão do voto de graças e outras chamavam mais gente. Nabuco e algum outro
dos principais da casa gozavam do privilégio de atrair grande auditório, quando
se sabia que eles rompiam um debate ou respondiam a um discurso. Nessas
ocasiões, mui excepcionalmente, eram admitidos ouvintes no próprio salão do
Senado, como aliás era comum na
Câmara temporária; como nesta, porém, os espectadores não intervinham com
aplausos nas discussões. A presidência de Abaeté redobrou a disciplina do
regimento, porventura menos apertada no tempo da presidência de Cavalcanti.
Não faltavam oradores.
Uma só vez ouvi falar a Eusébio
de Queirós, e a impressão que me deixou foi viva; era fluente, abundante,
claro, sem prejuízo do vigor e da energia. Não foi discurso de ataque, mas de
defesa, falou na qualidade de chefe do Partido Conservador, ou papa;
Itaboraí, Uruguai, Saião Lobato e outros eram cardeais, e todos formavam
o consistório, segundo a célebre definição de Otaviano no Correio
Mercantil. Não reli o discurso, não teria agora tempo nem oportunidade de
fazê-lo, mas estou que a impressão não haveria diminuído muito, posto lhe falte
o efeito da própria voz do orador, que seduzia. A matéria era sobremodo
ingrata: tratava-se de explicar e defender o acúmulo dos cargos públicos,
acusação feita na imprensa da oposição. Era a tarde da oligarquia, o crepúsculo do domínio
conservador. As eleições de 1860, na capital, deram o primeiro golpe na
situação; se também deram o último, não sei; os partidos nunca se entenderam
bem acerca das causas imediatas da própria queda ou subida, salvo no ponto de
serem alternadamente a violação ou a restauração da carta constitucional.
Quaisquer que fossem, então, a verdade é que as eleições da capital naquele ano
podem ser contadas como uma vitória liberal. Elas trouxeram à minha imaginação
adolescente uma visão rara e especial do poder das urnas. Não cabe inseri-la
aqui; não direi o movimento geral e o calor sincero dos votantes, incitados
pelos artigos da imprensa e pelos discursos de Teófilo Otôni, nem os lances,
cenas e brados de tais dias. Não me esqueceu a maior parte deles; ainda guardo
a impressão que me deu um obscuro votante que veio ter com Otôni, perto da matriz
do Sacramento. Otôni não o conhecia,
nem sei se o tornou a ver. Ele chegou-se-lhe e mostrou-lhe um maço de cédulas, que
acabava de tirar às escondidas da algibeira de um agente contrário. O riso que
acompanhou esta notícia nunca mais se me apagou da memória. No meio das mais ardentes reivindicações deste mundo, alguma vez me
despontou ao longe aquela boca sem nome, acaso verídica e honesta em
tudo o mais da vida, que ali viera confessar candidamente, e sem outro prêmio
pessoal, o fino roubo praticado. Não mofes desta insistência pueril da minha
memória; eu a tempo advirto que as mais claras águas podem levar de enxurro
alguma palha podre, — se é que é podre, se é que é mesmo palha.
Eusébio de
Queirós era justamente respeitado dos seus e dos contrários. Não tinha a figura
esbelta de um Paranhos, mas ligava-se-lhe uma história particular e célebre, dessas que a crônica social e
política de outros países escolhe e examina, mas que os nossos costumes,
— aliás demasiado soltos na palestra, — não consentem
inserir no escrito. De resto, pouco valeria repetir agora o que se divulgava
então, não podendo pôr aqui a própria e extremada beleza da pessoa que as ruas
e salas desta cidade viram tantas vezes. Era alta e robusta; não me ficaram
outros pormenores.
O Senado contava
raras sessões ardentes; muitas, porém, eram animadas. Zacarias fazia reviver o
debate pelo sarcasmo e pela presteza e vigor dos golpes. Tinha a palavra
cortante, fina e rápida, com uns efeitos de sons guturais,
que a tornavam mais penetrante e irritante. Quando ele se erguia, era
quase certo que faria deitar sangue a alguém. Chegou até hoje a reputação de debater,
como oposicionista, e como ministro e chefe de gabinete. Tinha audácias, como a
da escolha "não acertada", que a nenhum outro acudiria, creio eu. Politicamente, era uma natureza seca
e sobranceira. Um livro que foi de seu uso, uma História de Clarendon (History of the Rebellion and Civil Wars in England), marcado em
partes, a lápis encarnado, tem uma sublinha nas seguintes palavras (vol. I, pág. 44) atribuídas ao Conde de Oxford, em
resposta ao Duque de Buckingham, "que não
buscava a sua amizade nem temia o seu ódio". É arriscado ver sentimentos
pessoais nas simples notas ou lembranças postas em livros de estudo, mas aqui
parece que o espírito de Zacarias achou o seu parceiro. Particularmente, ao
contrário, e desde que se inclinasse a alguém, convidava fortemente a amá-lo;
era lhano e simples, amigo e confiado. Pessoas que o freqüentavam, dizem e
afirmam que, sob as suas árvores da Rua do Conde ou entre os seus livros, era
um gosto ouvi-lo, e raro haverá esquecido a graça e a polidez dos seus
obséquios. No Senado, sentava-se à esquerda da mesa, ao pé da janela, abaixo de
Nabuco, com quem trocava os seus reparos e reflexões. Nabuco, outra das
principais vozes do Senado, era especialmente orador para os debates solenes.
Não tinha o sarcasmo agudo de Zacarias, nem o epigrama alegre de Cotegipe. Era então o centro
dos conservadores moderados que, com Olinda e Zacarias, fundaram a liga e os
partidos Progressista e Liberal. Joaquim Nabuco, com a eloqüência de escritor
político e a afeição de filho, dirá toda essa história no livro que está
consagrando à memória de seu ilustre pai. A palavra do velho Nabuco era
modelada pelos oradores da tribuna liberal francesa. A minha impressão é que
preparava os seus discursos, e a maneira por que os proferia realçava-lhes a
matéria e a forma sólida e brilhante. Gostava das imagens literárias: uma
dessas, a comparação do poder moderador à estátua de Glauco, fez então fortuna.
O gesto não era vivo, como o de Zacarias, mas pausado,
o busto cheio era tranqüilo, e a voz adquiria uma sonoridade que habitualmente
não tinha.
Mas eis que todas
as figuras se atropelam na evocação comum, as de grande peso, como Uruguai, com
as de pequeno ou nenhum peso, como o Padre Vasconcelos, senador creio que pela
Paraíba, um bom homem que ali achei e morreu pouco depois. Outro,
que se podia incluir nesta segunda categoria, era um de quem só me
lembram duas circunstâncias, as longas barbas grisalhas e sérias, e a cautela e
pontualidade com que não votava os artigos de uma lei sem ter os olhos pregados
em Itaboraí. Era um modo de cumprir a fidelidade política e obedecer ao chefe,
que herdara o bastão de Eusébio. Como o recinto era pequeno, viam-se todos
esses gestos, e quase se ouviam todas as palavras particulares. E, conquanto
fosse assim pequeno, nunca vi rir a Itaboraí, creio que os seus músculos
dificilmente ririam — o contrário de S. Vicente, que ria com facilidade, um
riso bom, mas que lhe não ia bem. Quaisquer que fossem, porém, as deselegâncias
físicas do senador por S. Paulo, e malgrado a palavra sem sonoridade, era
ouvido com grande respeito, como Itaboraí. De Abrantes dizia-se que era um
canário falando. Não sei até que ponto merece a definição; em verdade, achava-o
fluente, acaso doce, e, para um povo mavioso como o nosso, a qualidade era
preciosa; nem por isso Abrantes era popular. Também não o era Olinda, mas a
autoridade deste sabe-se que era grande. Olinda aparecia-me envolvido na aurora
remota do reinado, e na mais recente aurora liberal ou "situação
nascente", mote de um dos chefes da liga, penso que Zacarias, que os conservadores glosaram por
todos os feitios, na tribuna e na imprensa. Mas não deslizemos a reminiscências
de outra ordem; fiquemos na surdez de Olinda, que competia com Beethoven nesta
qualidade, menos musical que política. Não seria tão surdo. Quando tinha de responder
a alguém, ia sentar-se ao pé do orador, e escutava atento, cara de mármore, sem
dar um aparte, sem fazer um gesto, sem tomar uma nota. E a resposta vinha logo;
tão depressa o adversário acabava, como ele
principiava, e, ao que me ficou, lúcido e completo.
Um dia vi ali
aparecer um homem alto, suíças e bigodes brancos e compridos. Era um dos
remanescentes da Constituinte, nada menos que Montezuma, que voltava da Europa. Foi-me
impossível reconhecer naquela cara barbada a cara rapada que eu conhecia da
litografia Sisson; pessoalmente
nunca o vira. Era, muito mais que
Olinda, um tipo de velhice robusta. Ao meu espírito de rapaz afigurava-se que
ele trazia ainda os rumores e os gestos da assembléia de 1823. Era o mesmo
homem; mas foi preciso ouvi-lo agora para sentir toda a veemência dos seus
ataques de outrora. Foi preciso ouvir-lhe a ironia de hoje para entender a
ironia daquela retificação que ele pôs ao texto de uma pergunta ao Ministro do
Império, na célebre sessão permanente de 11 a 12 de novembro: "Eu disse
que o Sr. Ministro do
Império, por estar ao lado de Sua Majestade, melhor conhecerá o "espírito
da tropa", e um dos senhores secretários escreveu "o espírito de Sua
Majestade", quando não disse tal, porque deste não duvido eu".
Agora o que eu mais
ouvia dizer dele, além do talento, eram as suas infidelidades, e sobre isto
corriam anedotas; mas eu nada tenho com anedotas políticas. Que se não pudesse
fiar muito em seus carinhos parlamentares, creio. Uma vez, por exemplo, encheu
a alma de Sousa Franco de grandes aleluias. Querendo criticar o Ministro da
Fazenda (não me lembra quem era) começou por afirmar que nunca tivéramos
ministros da Fazenda, mas tão-somente ministros do Tesouro. Encarecia com
adjetivos: excelentes, ilustrados, conspícuos ministros do Tesouro, mas da
Fazenda nenhum. "Um houve, Sr. presidente que nos deu alguma coisa do que deve ser
um Ministro da Fazenda; foi o nobre senador pelo Pará". E Sousa Franco
sorria alegre, deleitava-se com a exceção, que devia doer ao seu forte rival em
finanças, Itaboraí; não passou muito tempo que não perdesse o gosto. De outra
vez, Montezuma atacava a Sousa
Franco, e este novamente sorria, mas agora a expressão não era alegre, parecia
rir de desdém. Montezuma empina o busto,
encara-o irritado, e com a voz e o gesto intima-lhe que recolha o riso; e passa
a demonstrar as suas críticas, uma por uma, com esta espécie de estribilho:
"Recolha o riso o nobre senador!" Tudo isto aceso e torvo. Sousa
Franco quis resistir; mas o riso recolheu-se por si mesmo. Era então um homem
magro e cansado. Gozava ainda agora a popularidade ganha na Câmara dos
Deputados, anos antes, pela campanha que sustentou, sozinho e parece que enfermo, contra o
Partido Conservador.
Contrastando com
Sousa Franco, vinha a figura de Paranhos, alta e forte. Não é preciso dizê-lo a
uma geração que o conheceu e admirou, ainda belo e
robusto na velhice. Nem é preciso lembrar que era uma das primeiras vozes do
Senado. Eu trazia de cor as palavras que alguém me confiou haver
dito, quando ele era simples estudante da Escola Central: "Sr.
Paranhos, você ainda há de ser ministro". O estudante respondia
modestamente, sorrindo; mas o profeta dos seus destinos tinha apanhado bem o
valor e a direção da alma do moço.
Muitas
recordações me vieram do Paranhos de então, discursos de ataque, discursos de
defesa, mas, uma basta, a justificação do convênio de 20 de fevereiro. A
notícia deste ato entrou no Rio de Janeiro, como as outras desse tempo, em que
não havia telégrafo. Os sucessos do exterior chegavam-nos às braçadas, por
atacado, e uma batalha, uma conspiração, um ato diplomático eram conhecidos com
todos os seus pormenores. Por um paquete do Sul soubemos do convênio da vila da
União. O pacto foi mal recebido, fez-se uma manifestação de rua, e um grupo de
populares, com três ou quatro chefes à frente, foi pedir ao governo a demissão
do plenipotenciário. Paranhos foi demitido, e, aberta a sessão parlamentar,
cuidou de produzir a sua defesa.
Tornei a ver aquele dia, e ainda agora me parece vê-lo. Galerias e
tribunas estavam cheias de gente; ao salão do Senado foram admitidos muitos
homens políticos ou simplesmente curiosos. Era uma hora da tarde quando o
presidente deu a palavra ao senador por Mato Grosso; começava a discussão do
voto de graças. Paranhos costumava falar com moderação e pausa; firmava os
dedos, erguia-os para o gesto lento e sóbrio, ou então para chamar os punhos da
camisa, e a voz ia saindo meditada e colorida. Naquele dia, porém, a ânsia de
produzir a defesa era tal, que as primeiras palavras foram antes bradadas que
ditas: "Não a vaidade. Sr.
presidente..." Daí a um instante, a voz tornava ao diapasão habitual, e o
discurso continuou como nos outros dias. Eram nove horas da noite, quando ele
acabou; estava como no princípio, nenhum sinal de fadiga nele nem no auditório,
que o aplaudiu. Foi uma das mais fundas impressões que me deixou a eloqüência
parlamentar. A agitação passara com os sucessos, a defesa estava feita. Anos
depois do ataque, esta mesma cidade aclamava o autor da lei de 28 de setembro
de 1871, como uma glória nacional; e ainda depois, quando ele tornou da Europa,
foi recebê-lo e conduzi-lo até a casa. Ao clarão de um belo sol, rubro de
comoção, levado pelo entusiasmo público, Paranhos seguia as mesmas ruas que,
anos antes, voltando do Sul, pisara sozinho e condenado.
A visão do Senado
foi-se-me assim alterando
nos gestos e nas pessoas, como nos dias, e sempre remota e velha: era o Senado
daqueles três anos. Outras figuras vieram vindo. Além dos cardeais, os Muritibas, os Sousa e Melos, vinham os de
menor graduação política, o risonho Pena, zeloso e
miúdo em seus discursos, o Jobim, que falava algumas vezes, o Ribeiro, do Rio
Grande do Sul, que não falava nunca, — não me lembra, ao menos. Este, filósofo
e filólogo, tinha junto a si, no tapete,
encostado no pé da cadeira, um exemplar do dicionário de Morais. Era comum
vê-lo consultar um e outro tomo, no correr de um debate, quando ouvia algum
vocábulo, que lhe parecia de incerta origem ou duvidosa aceitação. Em contraste
com a abstenção dele, eis aqui outro, Silveira da Mota, assíduo na tribuna,
oposicionista por temperamento, e este outro, D. Manuel de Assis Mascarenhas,
bom exemplar da geração que acabava. Era um homenzinho seco e baixo, cara lisa,
cabelo raro e branco, tenaz, um tanto
impertinente, creio que desligado de partidos. Da sua tenacidade dará
idéia o que lhe vi fazer em relação a um projeto de subvenção ao teatro lírico,
por meio de loterias. Não era novo; continuava o de anos anteriores. D. Manuel
opunha-se por todos os meios à passagem dele, e fazia extensos discursos. A
mesa, para acabar com o projeto, já o incluía entre os primeiros na ordem do
dia, mas nem assim desanimava o senador. Um dia foi ele colocado antes de
nenhum. D. Manuel pediu a palavra, e francamente declarou que era seu intuito
falar toda a sessão; portanto, aqueles de seus colegas que tivessem algum
negócio estranho e fora do Senado podiam retirar-se; não se discutiria mais
nada. E falou até o fim da hora, consultando a miúdo o relógio para ver o tempo
que lhe ia faltando. Naturalmente não haveria muito que dizer em tão escassa
matéria, mas a resolução do orador e a liberdade do regimento davam-lhe meio de
compor o discurso. Daí nascia uma infinidade
de episódios, reminiscências, argumentos e explicações; por exemplo, não era
recente a sua aversão às loterias, vinha do tempo em que, andando a viajar, foi
ter a Hamburgo; ali ofereceram-lhe com tanta instância
um bilhete de loteria, que ele foi obrigado a comprar, e o bilhete saiu branco.
Esta anedota era contada com todas as minúcias necessárias para ampliá-la. Uma
parte do tempo falou sentado, e acabou diante
da mesa e três ou quatro colegas. Mas, imitando assim Catão, que também
falou um dia inteiro para impedir uma petição de César, foi menos feliz que o
seu colega romano. César retirou a petição, e aqui as
loterias passaram, não me lembra se por fadiga ou
omissão de D. Manuel; anuência é que não podia ser. Tais eram os costumes do
tempo.
E após ele vieram
outros, e ainda outros, Sapucaí, Maranguape, Itaúna, e outros mais, até que se confundiram todos e
desapareceu tudo, coisas e pessoas, como sucede às visões. Pareceu-me vê-los
enfiar por um corredor escuro, cuja porta era fechada por um homem de capa
preta, meias de seda preta, calções pretos e sapatos de fivela. Este era nada
menos que o próprio porteiro do Senado, vestido segundo as praxes do tempo, nos
dias de abertura e encerramento da assembléia geral. Quanta coisa obsoleta!
Alguém ainda quis obstar à ação do porteiro, mas tinha o gesto tão cansado e
vagaroso que não alcançou nada; aquele deu volta à chave, envolveu-se na capa,
saiu por uma das janelas e esvaiu-se no ar, a caminho de algum cemitério,
provavelmente. Se valesse a pena saber o nome do cemitério, iria eu catá-lo,
mas não vale; todos os cemitérios se parecem.
TU, SÓ TU, PURO AMOR
Publicado originalmente em Revista Brasileira ,
Rio de Janeiro, 1880.
Tu só, tu, puro amor, com força
crua,
Que os corações humanos tanto
obriga...
Camões, Lusíadas, 3, CXIX.
O desfecho dos amores palacianos
de Camões e de D. Catarina de Ataíde é o objeto da comédia, desfecho que deu
lugar à subseqüente aventura de África, e mais tarde à partida para a Índia,
donde o poeta devia regressar um dia com a imortalidade nas mãos. Não pretendi
fazer um quadro da corte de D. João II, nem sei se o permitiam as proporções
mínimas do escrito e a urgência da ocasião. Busquei sim haver-me de maneira que
o poeta fosse contemporâneo de seus amores, não lhe dando feições épicas, e,
por assim dizer, póstumas.
Na primeira impressão escrevi uma
nota, que reproduzi na segunda, acrescentando-lhe alguma coisa explicativa.
Como na cena primeira se trata da anedota que motivou o epigrama de Camões ao duque de Aveiro, disse eu ali
que, posto se lhe não possa fixar data, usaria dela por me parecer um curioso
rasgo de costumes. E aduzi: “Engana-se, creio eu, o Sr. Teófilo Braga, quando
afirma que ela só podia ter ocorrido depois do regresso de Camões a Lisboa,
alegando, para fundamentar essa opinião, que o título de duque de Aveiro foi
criado em 1557. Digo que se engana o distinto escritor, porque eu encontro o
duque de Aveiro, cinco anos antes, 1552, indo receber, na qualidade de
embaixador, a princesa d.
Joana, noiva do príncipe d. João (Veja Mem. e Doc. Anexos aos Anéis de d.
João III, págs. 440 e 441); e, se Camões só em 1553 partiu para a Índia, não é
impossível que o epigrama e o caso que lhe deu origem
fossem anteriores.”
Temos ambos razão, o Sr. Teófilo Braga e eu. Com efeito, o
ducado de Aveiro só foi criado formalmente em 1557, mas o agraciado usava o
título desde muito antes, por mercê de D. João III: é o que confirma a própria
carta régia de 30 de agosto daquele ano, textualmente inserta na Hist. Geneal... de D. Antônio Caetano de Souza, que cita em abono da
asserção o testemunho de Andrade, na Crônica d’el-rei d, João III. Naquela mesma obra se lê (liv. IV, cap. V) que em 1551, na
transladação dos ossos d’el-rei D, Manuel estivera presente o duque de Aveiro.
Não é pois impossível que a
anedota ocorresse antes da primeira ausência de Camões.
Machado
de Assis.
PERSONAGENS
ANTÔNIO DE LIMA
CAMINHA
D. MANUEL DE PORTUGAL
Sala no paço
CENA I
CAMINHA, D. MANUEL DE PORTUGAL
(Caminha vem do fundo, da
esquerda; vai a entrar pela porta da direita, quando lhe sai Manoel de
Portugal, a rir).
D. MANUEL — Não; não foi El-rei. Adivinhai o que seria, se é que o não sabeis já.
CAMINHA — Que foi?
D. MANUEL — Sabeis o caso da
galinha do duque de Aveiro?
CAMINHA — Não.
D. MANUEL — Não sabeis? — Pois é
isto: uns versos mui galantes do nosso Camões. (Caminha
estremece e faz um gesto de má vontade.) Uns versos como ele os sabe fazer.
(À parte.) Doe-lhe a noticia. (Alto.) Mas, deveras não sabeis do
encontro de Camões com o duque de Aveiro?
CAMINHA — Não.
D. MANUEL — Foi o próprio duque
que mo contou agora mesmo, ao vir de estar com El-rei...
CAMINHA — Que houve então?
D. MANUEL — Eu vo-lo digo;
achavam-se ontem, na igreja do Amparo, o duque e o poeta...
CAMINHA, com enfado. — O
poeta! O poeta! Não é mais que engenhar
aí uns poucos versos, para ser logo poeta! Desperdiçais o vosso entusiasmo,
senhor D. Manuel. Poeta é o nosso Sá, o meu grande Sá! Mas, esse arruador, esse
brigão de horas mortas...
D. MANUEL — Parece-vos então...?
CAMINHA — Que esse moço tem algum
engenho, muito menos do que lhe diz a presunção dele e a cegueira dos amigos; algum engenho não lhe nego eu. Faz sonetos sofríveis. E
canções... Digo-vos que li uma ou duas, não de todo mal alinhavadas. Pois
então? Com boa vontade, mais esforço, menos soberba, gastando as noites, não a
folgar pelas locandas de
Lisboa, mas a meditar os poetas italianos, digo-vos que pode vir a ser...
D. MANUEL — Acabe.
CAMINHA — Está acabado: um poeta
sofrível.
D. MANUEL — Deveras? Lembra-me que
já isso mesmo lhe negastes.
CAMINHA, sorrindo. — No meu epigrama, não? E nego-lho ainda
agora, se não fizer o que vos digo. Pareceu-vos gracioso o epigrama? Fi-lo
por desenfado, não por ódio... Dizei,
que tal vos pareceu ele?
D. MANUEL — Injusto, mas gracioso.
CAMINHA — Sim? Tenho em mui boa
conta o vosso parecer. Algum tempo supus que me desdenháveis. Não era impossível
que assim fosse. Intrigas da corte dão azo a muita injustiça; mas
principalmente acreditei que fossem artes desse rixoso...
Juro-vos que ele me tem ódio.
D.
MANUEL — O Camões?
CAMINHA — Tem, tem...
D. MANUEL — Por quê?
CAMINHA — Não sei, mas tem. Adeus.
D. MANUEL — Ides-vos?
CAMINHA — Vou a El-rei, e depois ao meu senhor
infante. (Corteja-o e dirige-se para a porta da direita. D. Manuel dirige-se
para o fundo.)
D. Manuel, andando.
Eu já vi a
taverneiro
vender vaca por carneiro...
CAMINHA, volta-se. — Recitais
versos?... São vossos?... Não me negueis o gosto de os ouvir.
D. MANUEL — Meus não; são de
Camões... (Repete, descendo a cena.)
Eu já vi a
taverneiro
Vender vaca por carneiro...
CAMINHA, sarcástico. — De
Camões?... Galantes são. Nem Virgílio os daria melhores. Ora, fazei o favor de
repetir comigo:
Eu já vi a
taverneiro
Vender vaca por carneiro...
— E depois vá, dizei-me o resto,
que não quero perder iguaria de tão fino sabor.
D. MANUEL — O duque de Aveiro e o
poeta encontraram-se ontem na igreja do Amparo. O duque prometeu ao poeta
mandar-lhe uma galinha de sua mesa, mas só lhe mandou um assado. Camões retorquiu-lhe com estes versos, que o próprio duque
me mostrou agora, a rir:
Eu já vi a
taverneiro,
Vender vaca por carneiro.
Mas não vi, por vida minha,
vender vaca por galinha,
senão ao duque de Aveiro.
— Confessai, confessai senhor Caminha, vós que sois poeta, confessai
que há aí certo pico, e uma simpleza de dizer... Não vale tanto de certo como
os sonetos dele, alguns dos quais são sublimes, aquele por exemplo:
De amor escrevo, de amor trato e
vivo...
ou este
Tanto de meu estado me acho
incerto...
— Sabeis a continuação?
CAMINHA — Até lhe sei o fim:
Se me pergunta alguém porque assim
ando
respondo que não sei, porém suspeito
que só porque vos vi, minha senhora.
— (Fitando-lhe muito os olhos.) Esta senhora... Sabeis vós, de
certo, quem é esta senhora do poeta, como eu o sei, como o sabem todos...
Naturalmente amam-se ainda muito?
D. Manuel, à parte. — Que quererá ele?
CAMINHA — Amam-se por força.
D. MANUEL — Cuido que não.
CAMINHA — Que não?
D. MANUEL — Acabou, como tudo acaba.
CAMINHA, sorrindo. — Anda
lá; não sei se me dizeis tudo. Amigos sois,
e não é impossível que também vós... Onde está a nossa gentil senhora D.
Francisca de Aragão?
D. MANUEL — Que tem?
CAMINHA — Vede: um simples nome
vos faz estremecer. Mas sossegai,
que não sou vosso inimigo; mui ao contrário, amo-vos, e a ela também... e respeito-a muito. Um para o outro
nascestes. Mas, adeus, faz-se tarde, vou ter com El-rei. (Sai pela direita.)
CENA II
— Este homem!... Este
homem!... Como se os versos dele, duros e insossos... (Vai à porta por onde
Caminha saiu e levanta o reposteiro.) Lá vai ele; vai cabisbaixo; rumina
talvez alguma coisa. Que não sejam versos! (Ao fundo aparecem D. Antônio de
Lima e D. Catarina de Ataíde.)
CENA III
D. MANUEL DE PORTUGAL, D. CATARINA
DE ATAÍDE, D. ANTÔNIO DE LIMA
D. ANTÔNIO DE LIMA — Que
espreitais aí, senhor D. Manuel.
D. MANUEL — Estava a ver o porte
elegante do nosso Caminha. Não vades supor que era alguma dama. (Levanta o
reposteiro.) Olhai, lá vai ele a desaparecer. Vai a El-rei.
D. ANTÔNIO — Também eu. Tu, não,
minha boa Catarina. A rainha espera-te. (D. Catarina faz uma reverência e
caminha para a porta da esquerda.) Vai, vai, minha gentil flor... (A D.
Manuel.) Gentil, não a achais?
D. MANUEL — Gentilíssima.
D. ANTÔNIO — Agradece, Catarina.
D. CATARINA — Agradeço; mas o
certo é que o senhor D. Manuel é rico de louvores...
D. MANUEL — Eu podia dizer que a
natureza é que foi conosco pródiga de graças; mas, não digo; seria repetir mal aquilo
que só poetas podem dizer bem. (D. Antônio fecha o
rosto.) Dizem que também sou poeta, é verdade; não sei; faço versos. Adeus,
senhor D. Antônio... (Corteja-os e sai. D. Catarina vai a entrar, à
esquerda. D. Antônio detém-na.)
CENA IV
D. ANTÔNIO — Ouviste aquilo?
D. CATARINA, parando. — Aquilo?
D. ANTÔNIO — “Que só poetas podem dizer bem” foram as palavras dele. (D.
Catarina aproxima-se.) Vês tu, filha? tão
divulgadas andam já essas coisas, que até se dizem nas barbas de teu pai!
D. CATARINA — Senhor, um
gracejo...
D. ANTÔNIO, enfadando-se. — Um
gracejo injurioso, que eu não consinto,
que não quero, que me dói... “Que só poetas podem
dizer bem!” E que é poeta! Pergunta ao nosso Caminha o que é esse atrevido, o
que vale a sua poesia... Mas, que seja outra e melhor, não a quero para mim,
nem para ti. Não te criei para entregar-te às mãos do primeiro que passa, e lhe
dá na cabeça haver-te.
D. CATARINA, procurando
moderá-lo. — Meu pai...
D. ANTÔNIO — Teu pai e teu senhor!
D. CATARINA — Meu senhor e pai... juro-vos que... Juro-vos que vos
quero e muito... Por quem sois,
não vos irriteis contra mim!
D. ANTÔNIO — Jura que me
obedecerás.
D. CATARINA — Não é essa a minha
obrigação?
D. ANTÔNIO — Obrigação é, e a mais
grave de todas. Olha-me bem, filha; eu amo-te como pai que sou. Agora, anda,
vai.
CENA V
D. ANTÔNIO DE LIMA, D. CATARINA DE
ATAÍDE, D. FRANCISCA DE ARAGÃO
D. ANTÔNIO — Mas não, não vás sem
falar à senhora D. Francisca de Aragão, que aí nos aparece, fresca como a rosa
que desabotoou agora mesmo, ou, como dizia a farsa do nosso Gil Vicente, que eu
ouvi há tantos anos, por tempo do nosso sereníssimo senhor D. Manuel... Velho estou, minha formosa dama...
D. FRANCISCA — E que dizia a
farsa?
D. ANTÔNIO — A farsa dizia:
É bonita como estrela,
Uma rosinha de Abril,
Uma frescura
de maio,
Tão manhosa.
Tão sutil!
— Vede que a farsa adivinhava já a
nossa D. Francisca de Aragão, uma frescura de maio,
tão manhosa, tão sutil...
D. FRANCISCA — Manhosa, eu?
D. ANTÔNIO — E sutil. Não vos
esqueça a rima, que é de lei. (Vai a sair pela porta da direita; aparece Camões.)
CENA VI
D. CATARINA, à parte. — Ele!
D. FRANCISCA, baixo a D.
Catarina. — Sossegai!
D. ANTÔNIO — Vinde cá, senhor
poeta das galinhas. Já me chegou aos ouvidos o vosso lindo epigrama. Lindo,
sim; e estou que não vos custaria mais tempo a fazê-lo do que eu a dizer-vos
que me divertiu muito... E o duque? O duque, ainda não emendou a mão? Há de
emendar, que não é nenhum mesquinho.
CAMÕES, alegremente. — Pois
El-rei deseja o
contrário...
D. ANTÔNIO — Ah! Sua Alteza
falou-vos disso?... Contar-mo-eis em tempo. (A D. Catarina, com
intenção). Minha filha e senhora, não
ides ter com a rainha? Eu vou falar a El-rei. (D. Catarina corteja-os e dirige-se para
a esquerda; D. Antônio sai pela direita.)
CENA VII
OS MESMOS, menos D. ANTÔNIO DE LIMA
(D. Catarina quer sair, D.
Francisca de Aragão detém-na.)
D. FRANCISCA — Ficai, ficai...
D. CATARINA — Deixe-me ir!
CAMÕES — Fugis de mim?
D. CATARINA — Fujo... Assim o
querem todos.
CAMÕES — Todos quem?
D. FRANCISCA, indo a Camões. — Sossegai.
Tendes, na verdade, um gênio, uns espíritos... Que há de ser? Corre a mais e
mais a notícia dos vossos amores... e
o senhor D. Antônio, que é pai, e pai severo...
CAMÕES, vivamente a D.
Catarina. — Ameaça-vos?
D. CATARINA — Não; dá-me conselhos...
bons conselhos, meu Luís. Não
vos quer mal, não quer... Vamos lá; eu é que sou desatinada. Mas passou.
Dizei-nos lá esses versos de que faláveis há pouco. Um epigrama, não é? Há de ser tão bonito como os
outros... menos um.
CAMÕES — Um?
D. CATARINA — Sim, o que fizestes
a D. Guiomar de Blasfé.
CAMÕES, com desdém. — Que
monta? Bem frouxos versos.
D. FRANCISCA — Não tanto; mas eram
feitos a D. Guiomar, e os piores versos deste mundo são os que se fazem a outras damas. (A D. Catarina.) Acertei? (A
Camões.) Ora, andai, vou deixar-vos; dizei o caso do vosso epigrama, não a mim, que já o sei de cor, porém
a ela que ainda não sabe nada... E que foi que vos disse El-rei?
CAMÕES — El-rei viu-me, e dignou-se chamar-me; fitou-me um
pouco a sua real vista, e
disse com brandura: — «Tomara eu, senhor poeta, que todos os duques vos faltem
com galinhas, por que assim nos alegrareis com versos tão chistosos.
D. FRANCISCA — Disse-vos isto? é um grande espírito El-rei!
D. CATARINA, a D. Francisca. — Não
é? (A Camões.) E vós que lhe dissestes?
CAMÕES
— Eu? nada... ou quase nada. Era tão inopinado louvor que me tomou a fala. E,
contudo, se eu pudesse responder agora... agora que recobrei os espíritos...
dir-lhe-ia que há aqui (leva a mão à fronte) alguma coisa mais do que
simples versos de desenfado... dir-lhe-ia que... (Fica absorto um instante,
depois olha alternadamente para as duas damas, entre as quais se acha.) Um
sonho... às vezes cuido conter cá dentro mais do que a minha vida e o meu século...
Sonhos... sonhos! A realidade é que vós sois as duas mais lindas damas da
cristandade, e que o amor é a alma do universo!
D. FRANCISCA — O amor e a espada,
senhor brigão!
CAMÕES, alegremente. — Por
que me não dais logo as alcunhas que me hão de ter posto os poltrões do Rocio?
Vingam-se com isso, que é a desforra da poltroneria...
Não sabeis? Naturalmente não; vós gastais as horas nos lavores e recreios do
paço; mora aqui a doce paz do espírito.
D. CATARINA, com intenção. — Nem
sempre.
D. FRANCISCA — Isto é convosco; e
eu, que posso ser indiscreta, não me detenho a ouvir mais nada. (Dá alguns
passos para o fundo.)
D. CATARINA — Vinde cá...
D. FRANCISCA — Vou-me... vou a consolar o nosso Caminha, que
há de estar um pouco enfadado... Ouviu ele o que El-rei vos disse?
CAMÕES — Ouviu; que tem?
D. FRANCISCA — Não ouviria de boa
sombra.
CAMÕES — Pode ser que não... dizem-me que não. (A D.
Catarina.) Pareceis inquieta...
D. CATARINA, a D. Francisca. — Não,
não vades; ficai um instante.
CAMÕES, a D. Francisca. — Irei
eu.
D. FRANCISCA — Não, senhor; irei
eu só. (Sai pelo fundo.)
CAMÕES, com uma reverência. — Irei
eu. Adeus, minha senhora D. Catarina de Ataíde! (D. Catarina dá um passo
para ele.) Mantenha-vos Deus na sua santa guarda.
D. CATARINA — Não... vinde cá... (Camões detém-se.) Enfadei-vos?
Vinde um pouco mais perto. (Camões aproxima-se.) Que vos fiz eu?
Duvidais de mim?
CAMÕES — Cuido que me quereis
ausente.
D. CATARINA — Luís! (Inquieta.)
Vede esta sala, estas paredes... falarmos
a sós... Duvidais de mim?
CAMÕES — Não duvido de vós; não
duvido da vossa ternura: da vossa firmeza é que eu duvido.
D. CATARINA — Receais que fraqueie
algum dia?
CAMÕES — Receio; chorareis muitas
lágrimas, muitas e amargas... mas,
cuido que fraqueareis.
D. CATARINA — Luís! juro-vos...
CAMÕES — Perdoai, se vos ofende
esta palavra. Ela é sincera: subiu-me do coração à boca. Não posso guardar a verdade;
perder-me-ei algum dia por dizê-la sem rebuço. Assim me fez a natureza;
assim irei à sepultura.
D. CATARINA — Não, não fraquearei,
juro-vos. Amo-vos muito, bem o sabeis. Posso chegar a afrontar tudo, até a
cólera de meu pai. Vede lá, estamos a sós; se nos vira alguém... (Camões dá
um passo para sair.) Não, vinde cá. Mas, se nos vira alguém,
defronte um do outro, no meio de uma sala deserta, que pensaria? Não sei que
pensaria; tinha medo há pouco, já não tenho medo... amor sim... O que eu tenho é amor, meu Luís.
CAMÕES — Minha boa Catarina.
D. CATARINA — Não me chameis boa, que eu não sei se o sou... Nem boa, nem má.
CAMÕES — Divina sois
.
D. CATARINA — Não me deis nomes
que são sacrilégios.
CAMÕES — Que outro vos cabe?
D. CATARINA — Nenhum.
CAMÕES — Nenhum? — Simplesmente a
minha doce e formosa senhora D. Catarina de Ataíde, uma ninfa do paço, que se
lembrou de amar um triste escudeiro, sem se lembrar que seu pai a guarda para
algum solar opulento, algum grande cargo de camareira-mor. Tudo isso havereis,
enquanto que o coitado de Camões irá morrer em África ou Ásia...
D. CATARINA — Teimoso sois! Sempre
essas idéias de África...
CAMÕES — Ou Ásia. Que tem isso?
Digo-vos que, às vezes, a dormir, imagino lá estar, longe dos galanteios da
corte, armado em guerra, diante do gentio. Imaginai agora...
D. CATARINA — Não imagino nada;
vós sois meu, tão só meu,
tão-somente meu. Que me importa o gentio, ou o Turco, ou que quer que é, que não sei, nem quero?
Tinha que ver, se me deixáveis, para ir às vossas Áfricas... E os meus sonetos?
Quem mos havia de fazer, meu rico poeta?
CAMÕES — Não faltará quem vo-los
faça, e da maior perfeição.
D. CATARINA — Pode ser; mas eu
quero-os ruins, como os vossos... como
aquele da Circe, o meu retrato, dissestes vós.
CAMÕES, recitando.
Um mover de olhos, brando e
piedoso.
Sem ver de que; um riso brando e
honesto,
Quase forçado um doce e humilde
gesto
De qualquer alegria duvidoso...
D. CATARINA — Não acabeis, que me obrigareis a fugir
de vexada.
CAMÕES — De vexada! Quando é que a
rosa se vexou, por que o sol a beijou de longe?
D. CATARINA — Bem respondido, meu
claro sol.
CAMÕES — Deixai-me repetir que sois divina. Natércia minha, pode a sorte separar-nos, ou a morte
de um ou de outro; mas o amor subsiste, longe ou perto, na morte ou na vida, no
mais baixo estado, ou no cimo das grandezas humanas, não é assim? Deixai-me
crê-lo, ao menos; deixai-me crer que há um vínculo secreto e forte, que nem os
homens, nem a própria natureza poderia já destruir. Deixai-me crer... Não me
ouvis?
D. CATARINA — Ouço, ouço.
CAMÕES — Crer que a última palavra
de vossos lábios será o meu nome. Será? Tenha eu esta fé, e não se me dará da
adversidade; sentir-me-ei afortunado e grande. Grande, ouvis bem? Maior que
todos os demais homens.
D. CATARINA — Acabai!
D. CATARINA — Não sei; mas é tão
doce ouvir-vos! Acabai, acabai,
meu poeta! Ou antes, não, não acabeis; falai sempre, deixai-me ficar perpetuamente
a escutar-vos.
CAMÕES — Ai de nós! A perpetuidade
é um simples instante, um instante em que nos deixam sós nesta sala! (D. Catarina afasta-se
rapidamente.) Olhai; só a idéia do perigo vos arredou de mim.
D. CATARINA — Na verdade, se nos
vissem... Se alguém aí, por esses reposteiros... Adeus...
CAMÕES — Medrosa, eterna medrosa!
D. CATARINA — Pode ser que sim;
mas não está isso mesmo no meu retrato?
Um encolhido ousar, uma brandura,
Um medo sem ter culpa; um ar
sereno,
Um longo e obediente sofrimento...
CAMÕES -
Esta foi a celeste formosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu
pensamento.
D. CATARINA, indo a ele. — Pois
então? A vossa Circe manda-vos que não duvideis dela, que lhe perdoeis os
medos, tão próprios do lugar e da condição; manda-vos crer e amar. Se ela às
vezes foge, é porque a espreitam; se vos não responde, é porque outros
ouvidos poderiam escutá-la. Entendeis? É o que vos manda dizer a vossa Circe,
meu poeta... e agora... (Estende-lhe
a mão.) Adeus!
CAMÕES — Ides-vos?
D. CATARINA — A rainha espera-me.
Audazes fomos, Luís. Não
desafiemos o paço... que
esses reposteiros...
D. CATARINA, detendo-o. — Não,
não. Separemo-nos.
CAMÕES — Adeus! (D. Catarina
dirige-se para a porta da esquerda; Camões olha para a
porta da direita.)
D. CATARINA — Andai, andai!
CAMÕES — Um instante ainda!
D. CATARINA — Imprudente! Por quem
sois, ide-vos meu Luís!
CAMÕES — A rainha espera-vos?
D.
CATARINA — Espera.
CAMÕES — Tão raro é ver-vos!
D. CATARINA — Não afrontemos o
céu... podem dar conosco...
CAMÕES — Que venham! Tomara eu que nos vissem! Bradaria
a todos o meu amor, e a que o faria respeitar!
D. CATARINA, aflita pegando-lhe
na mão. — Reparai, meu
Luís, reparai onde estais, quem eu sou, o que são estas paredes... domai esse gênio arrebatado, peço-vo-lo eu. Ide-vos em boa
paz, sim?
CAMÕES — Viva a minha corça
gentil, a minha tímida corça! Ora vos juro que me vou, e de corrida. Adeus!
D. CATARINA — Adeus!
CAMÕES, com a mão dela
presa. — Adeus
D. CATARINA — Ide... deixai-me ir!
CAMÕES — Hoje há luar; se virdes
um embuçado diante das vossas janelas, quedado a olhar para cima, desconfiai
que sou eu; e então, já não é
o sol a beijar de longe uma rosa, é o goivo que pede calor a uma estrela.
D. CATARINA — Cautela, não vos reconheçam.
CAMÕES — Cautela haverei; mas, que
me reconheçam, que tem isso? embargarei a palavra ao importuno.
D. CATARINA — Sossegai. Adeus!
CAMÕES — Adeus!
(D. Catarina dirige-se para a
porta da esquerda, e pára diante dela, à espera que Camões saia. Camões corteja-a com um gesto gracioso, e dirige-se para o
fundo. — Levanta-se o reposteiro da porta da direita, e aparece Caminha. — D.
Catarina dá um pequeno grito, e sai precipitadamente. — Camões detém-se. Os
dois homens olham-se por um instante.)
CENA IX
CAMÕES, CAMINHA
CAMINHA, entrando. — Discreteáveis com alguém, ao que
parece...
CAMÕES — É verdade.
CAMINHA — Ouvi de longe a vossa
fala, e reconheci-a. Vi logo que era o nosso poeta, de quem tratava há pouco
com alguns fidalgos. Sois o
bem-amado, entre os últimos de Coimbra. — Com que, discreteáveis... Com alguma dama?
CAMÕES — Com uma dama.
CAMINHA — Certamente formosa, que não as há de outra casta nestes reais paços. Sua Alteza cuido que continuará, e
ainda em bem, algumas boas tradições de El-rei
seu pai. Damas formosas, e, quanto possível, letradas. São estes, dizem, os
bons costumes italianos. É
vós, senhor Camões, por que não ides à Itália?
CAMÕES — Irei à Itália, mas
passando por África.
CAMINHA — Ah! Ah! para lá deixar primeiro um braço,
uma perna, ou um olho... Não, poupai os olhos, que são o feitiço dessas damas
da corte; poupai também a mão, com que nos haveis de escrever tão lindos
versos; isto vos digo que
poupai...
CAMÕES — Uma palavra, senhor Pero
de Andrade. Uma só palavra, mas sincera.
CAMINHA — Dizei.
CAMÕES — Dissimulais algum outro
pensamento. Revelai-mo... intimo-vos que mo reveleis.
CAMINHA — Ide à Itália, senhor Camões, ide à Itália.
CAMÕES — Não resistireis muito
tempo ao que vos mando.
CAMINHA — Ou à África, se o
quereis... ou à Babilônia...
À Babilônia melhor; levai a harpa do desterro, mas em vez de a pendurar de um salgueiro, como na Escritura,
cantar-nos-eis a linda copla da galinha, ou comporeis
umas outras voltas ao mote, que já vos serviu tão bem:
Perdigão perdeu a pena,
Não há mal que lhe não venha.
CAMÕES, pegando-lhe no pulso. —
Por vida minha, calai-vos!
CAMINHA — Vede o lugar em que
estais.
CAMÕES, solta-o. — Vejo; vejo também quem sois;
só não vejo o que odiais em mim.
CAMINHA — Nada.
CAMÕES — Nada?
CAMINHA
— Coisa nenhuma.
CAMÕES — Mentis pela gorja,
senhor camareiro.
CAMINHA — Minto? Vede lá; ia-me
deixando arrebatar, ia conspurcando com alguma vilania esta sala de El-rei. Retraí-me a tempo. Menti,
dizeis vós? — Pode ser que sim, porque eu creio que efetivamente vos odeio, mas
só há um instante, depois que me pagastes com uma injúria o aviso que vos dei.
CAMÕES — Um aviso?
CAMINHA — Nada menos. Queria eu
dizer-vos que as paredes do paço nem são mudas, nem sempre são caladas.
CAMÕES — Não serão; mas eu as
farei caladas.
CAMINHA — Pode ser. Essa dama
era...?
CAMÕES — Não reparei bem.
CAMINHA — Fizestes mal; é
prudência reparar nas damas; prudência e cortesia. Com que, ides à África? Lá
estão os nossos em Mazagão,
cometendo façanhas contra essa canalha de Mafamede; imitai-os. Vede, não deixeis lá esse
braço, com que nos haveis de calar as paredes os reposteiros. É conselho de
amigo.
CAMÕES — Por que sereis meu amigo?
CAMINHA — Não digo que o seja; o
conselho é que o é.
CAMÕES — Credes, então...?
CAMINHA — Que poupareis uma grande
dor e um maior escândalo.
CAMÕES — Percebo-vos. Imaginais
que amo alguma dama? Suponhamos que sim. Qual é o meu delito? Em que ordenação,
em que rescrito, em que bula, em que escritura, divina ou humana, foi já dado como delito amarem-se
duas criaturas?
CAMINHA — Deixai a corte.
CAMÕES — Digo-vos que não.
CAMINHA — Oxalá que não!
CAMÕES, à parte. — Este
homem... que há neste homem?
Lealdade ou perfídia? (Alto.) Adeus, senhor Caminha. (Pára no meio da
cena). Por que não tratamos de versos?... Fora muito melhor...
CAMINHA. — Adeus, senhor Camões. (Camões sai.)
CENA X
CAMINHA, logo D. CATARINA DE ATAÍDE
CAMINHA – Ide, ide, magro poeta de camarins... (Desce ao proscênio.) Era ela, de
certo, era ela que aí estava com ele, no meio do paço, esquecidos de El-rei e de todos... Oh
temeridade do amor! Do amor? ele...
ele... Mas seria ela
deveras?... Que outra podia ser?
D. CATARINA, espreita e entra. — Senhor... senhor...
CAMINHA — Ela!
D. CATARINA — Ouvi tudo... tudo o que lhe dissestes... e peço-vos que não nos façais mal. Sois amigo de meu pai, ele é vosso amigo; não lhe digais
nada. Fui imprudente, fui, mas que quereis? (Vendo que Caminha não diz
nada.) Então? falai... poderei contar convosco?
CAMINHA — Comigo? (D. Catarina
inquieta, aflita, pega-lhe na
mão; ele retira-lha com aspereza.) Contar comigo! para que, minha senhora D. Catarina? Amais um mancebo
digno, por que vós o amais... muito,
não?
D. CATARINA — Muito.
CAMINHA — Muito, dizeis... E éreis
vós que estáveis aqui, com ele, nesta sala solitária, juntos um do outro, a
falarem naturalmente do céu e da terra... ou
só do céu, que é a terra dos namorados. Que dizeis?...
D. CATARINA, baixando os olhos.
— Senhor...
CAMINHA — Galanteios, galanteios, de que
se há de falar lá fora... (Gesto de D. Catarina.) Ah! cuidais que estes amores nascem e morrem no paço? —
Não; passam além; descem à rua, são o mantimento dos ociosos e ainda dos que
trabalham, porque, ao serão, principalmente nas noites de inverno, em que se há
de ocupar a gente, depois de fazer as suas orações? Com que, éreis vós? Pois digo-vos que o não sabia;
suspeitava, porque não podia talvez ser outra... E confessais que lhe quereis
muito. Muito?
D. CATARINA — Pode ser fraqueza;
mas crime...onde está o
crime?
CAMINHA — O crime está em desonrar
as cãs de um nobre homem, arrastando-lhe o nome por vielas e praças; o crime
está em escandalizar a corte, com essas ternuras, impróprias do alto cargo que
exerceis, do vosso sexo e estado... esse
é o crime. E parece-vos pequeno?
D. CATARINA — Bem; desculpai-me,
não direis nada...
CAMINHA — Não sei.
D. CATARINA — Peço-vos... de joelhos até... (Faz um gesto
para ajoelhar-se, ele impede-lho.)
CAMINHA — Perderíeis o tempo; eu
sou amigo de vosso pai.
D. CATARINA — Contar-lhe-eis tudo?
CAMINHA — Talvez.
D. CATARINA — Bem mo diziam
sempre; sois inimigo de
Camões.
CAMINHA — E sou.
D. CATARINA — Que vos fez ele?
CAMINHA — Que me fez? (Pausa.) D.
Catarina de Ataíde, quereis saber o que me fez o vosso
Camões? Não é só a sua soberba que me afronta; fosse só isso, e que me
importava um frouxo cerzidor de palavras, sem arte nem conceito?
D. CATARINA — Acabai.
CAMINHA — Também não é porque ele
vos ama, que eu o odeio; mas
vós, senhora D. Catarina de Ataíde, vós o amais... eis o crime de Camões. Entendeis?
D. Catarina, depois de um
instante de assombro. — Não quero entender.
CAMINHA — Sim, que também eu vos
quero, ouvis? — E quero-vos muito... mais
do que ele, e melhor do que ele; porque o meu amor tem o impulso do ódio,
nutre-se do silêncio, o desdém o avigora, e não faço alarde nem escândalo; é um
amor...
D. CATARINA — Calai-vos! Pela
Virgem, calai-vos!
CAMINHA — Que me cale? Obedecerei.
(Faz uma reverência.) Mandais alguma outra coisa?
D. CATARINA — Não, ficai, ficai.
Jurai-me que não direis nada...
CAMINHA — Depois da confissão que
vos fiz, esse pedido chega a ser mofa. Que não diga nada? Direi tudo, revelarei
tudo a vosso pai. Não sei se a ação é má ou boa; sei que vos amo, e que
detesto esse rufião, a quem vadios deram
foros de letrado.
D. CATARINA — Senhor! É demais!
CAMINHA — Defendei-o, não é assim?
D. CATARINA — Odiai-o, se vos
apraz; insulta-o, é que não é de cavaleiro...
CAMINHA — Que tem? O amor
desprezado sangra e fere.
D. CATARINA — Deixai que lhe chame
um amor vilão.
CAMINHA — Sois vós agora que me
injuriais. Adeus, senhora D. Catarina de Ataíde! (Dirige-se para o fundo.)
D. CATARINA, tomando-lhe o
passo. — Não! Agora não vos peço... intimo-vos
que vos caleis.
CAMINHA — Que recompensa me dais?
D. CATARINA — A vossa consciência.
CAMINHA — Deixai
em paz os que dormem. Quereis que vos prometa alguma coisa? Uma só coisa prometo; não contar a vosso pai o que se
passou. Mas, se por denúncia ou desconfiança, for interrogado por ele, então
lhe direi tudo. E duas vezes farei bem: — não faltarei à verdade, que é dever
de cavaleiro; e depois... chorareis
lágrimas de sangue; e eu prefiro ver-vos chorar a ver-vos sorrir. A vossa
angústia será a minha consolação. Onde falecerdes de pura saudade, ai me glorificarei eu. Chamai-me
agora perverso, se o quereis; eu respondo que vos amo, e que não tenho outra
virtude. (Vai a sair, encontra-se com D. Francisca de Aragão; corteja-a e
sai.)
D. CATARINA DE ATAÍDE, D.
FRANCISCA DE ARAGÃO
D. FRANCISCA — Vai afrontado o
nosso poeta. Que terá ele? (Reparando em D.
Catarina. ) Que tendes vós? Que foi?
D. CATARINA — Tudo sabe.
D. CATARINA — Esse homem.
Achou-nos nesta sala; eu tive medo; disse-lhe tudo.
D. CATARINA — Duas vezes
imprudente; deixei-me estar ao lado do meu Luís, a ouvir-lhe as palavras tão
nobres, tão apaixonadas... e
o tempo corria... e podiam
espreitar-nos... Credes que o Caminha diga alguma coisa a meu pai?
D. FRANCISCA — Talvez não.
D. CATARINA — Quem sabe? Ele
ama-me.
D. FRANCISCA — O Caminha?
D. CATARINA — Disse-mo agora. Que admira? Acha-me formosa, como os
outros. Triste dom é esse. Sou formosa para não ser feliz, para ser
amada às ocultas, odiada às escancaras, e, talvez... Se meu pai vier a saber... que fará ele, amiga minha?
D. FRANCISCA — O senhor D. Antônio
é tão severo!
D. CATARINA — Irá ter com El-rei, pedir-lhe-á que o castigue, que o encarcere, não? E
por minha causa... Não; primeiro irei eu... (Dirige-se para a porta da
direita.)
D. FRANCISCA — Onde ides?
D. CATARINA — Vou falar a El-rei... Ou, não... (Encaminha-se
para a porta da esquerda.) Vou ter com a rainha; contar-lhe-ei tudo; ela me
amparará. Credes que não?
D. FRANCISCA — Creio que sim.
D. CATARINA — Irei, ajoelhar-me-ei
a seus pés. Ela é rainha, mas é também mulher... e ama-me. (Sai pela esquerda.)
D. FRANCISCA, depois de um
momento de reflexão. — Talvez chegue cedo demais. (Dá um passo para a porta
da esquerda.) Não; melhor é que lhe fale... mas, se se
aventa a notícia? Meu Deus, não sei...
não sei... Ouço passos...
Entra D. Antônio de Lima. Ah!
D. ANTÔNIO — Que foi?
D. FRANCISCA — Nada, nada... não sabia quem era. Sois vós... (Risonha.)
Chegaram galeões da Ásia; boas notícias, dizem...
D. ANTÔNIO — Eu não ouvi dizer
nada. (Querendo retirar-se.) Permitis?...
D. FRANCISCA — Jesus! Que tendes?
Que ar é esse? (Vendo entrar D. Manuel de Portugal.) Vinde cá,
senhor D. Manuel de Portugal, vinde saber o que tem este meu bom e velho amigo,
que me não quer... (Segurando na mão de D. Antônio ). Então, eu já não sou a vossa frescura de maio?
D. ANTÔNIO, sorrindo a custo. —
Sois, sois. Manhosamente sutil, ou sutilmente manhosa, à escolha; eu é que
sou uma triste secura de dezembro, que me vou e vos deixo. Permitis, não? (Corteja-a
e dirige-se para a porta.)
D. MANUEL, interpondo-se. — Deixai
que vos levante o reposteiro. (Levanta o reposteiro.) Ides ter com Sua
Alteza, suponho?
D. ANTÔNIO — Vou.
D. MANUEL — Ides levar-lhe
notícias da Índia?
D. ANTÔNIO — Sabeis que não é o
meu cargo...
D. MANUEL — Sei, sei; mas dizem
que... Senhor D. Antônio, acho-vos o rosto anuviado, alguma coisa vos penaliza
ou turva. Sabeis que sou vosso amigo; perdoai se vos interrogo. Que foi? Que
há?
D. ANTÔNIO, gravemente. — Senhor
D. Manuel, tendes vinte e sete anos, eu conto sessenta; deixai-me passar. (D.
Manuel inclina-se, levantando o reposteiro. D. Antônio desaparece.)
CENA XIII
D. MANUEL — Vai dizer tudo a El-rei.
D. FRANCISCA — Credes?
D. MANUEL — Camões
contou-me o encontro que tivera com o Caminha aqui; eu ia falar ao
senhor D. Antônio; achei-o agora mesmo, ao pé de uma janela, com o dissimulado Caminha, que lhe dizia: "Não vos nego, senhor D.
Antônio, que os achei naquela sala, a sós e que vossa filha fugiu desde que eu
lá entrei."
D. FRANCISCA — Ouvistes isso?
D.
MANUEL — D. Antônio
ficou severo e triste. “Querem escândalo?...” foram as suas palavras. E não
disse outras; apertou a mão ao Caminha, e seguiu para cá... Penso que foi
pedir alguma coisa a El-rei. Talvez o desterro.
D. FRANCISCA — O desterro?
D. MANUEL — Talvez. Camões há de
voltar agora aqui; disse-me que viria falar ao senhor D. Antônio. Para quê? Que
outros lhe falem, sim; mas o meu Luís que não sabe conter-se... D. Catarina?
D. FRANCISCA — Foi lançar-se aos
pés da rainha, a pedir-lhe proteção.
D. MANUEL — Outra imprudência. Foi
há muito?
D. FRANCISCA — Pouco há.
D. MANUEL — Ide ter com ela, se é
tempo, dizei-lhe que não, que não convém falar nada. (D. Francisca vai a
sair, e pára ) Recusais?
D. FRANCISCA — Vou, vou. Pensava
comigo uma coisa. (D. Manuel vai a ela.) Pensava que é preciso querer
muito aqueles dois para nos esquecermos
assim de nós.
D. MANUEL — É verdade. E não há
mais nobre motivo da nossa mútua indiferença. Indiferença, não; não o é, nem o
podia ser nunca. No meio de toda essa angústia que nos cerca, poderia eu
esquecer a minha doce Aragão?
Poderíeis vós esquecer-me. Ide agora, nós que somos
felizes, temos o dever de consolar os desgraçados. (D. Francisca sai pela
esquerda.)
CENA XIV
D. MANUEL — Se perco o confidente
dos meus amores, da minha mocidade, o meu companheiro de longas horas... Não é
impossível. — El-rei
concederá o que lhe pedir D. Antônio. A culpa, — força é confessá-lo, — a culpa
é dele, do meu Camões, do meu impetuoso poeta; um
coração sem freio... (Abre-se o reposteiro, aparece D. Antônio.) D.
Antônio!
D. ANTÔNIO, da porta, jubiloso.
— Interrogastes-me há pouco; agora hei tempo de vos responder.
D. MANUEL — Talvez não seja
preciso.
D. ANTÔNIO, adianta-se — Adivinhais então?
D. MANUEL — Pode ser que sim.
D. ANTÔNIO — Creio que adivinhais.
D. MANUEL — Sua Alteza
concedeu-vos o desterro de Camões.
D. ANTÔNIO — Esse é o nome da
pena: a realidade é que Sua Alteza restituiu a honra a um vassalo, e a paz a um
ancião.
D. MANUEL — Senhor D. Antônio...
D. ANTÔNIO — Nem mais uma palavra,
senhor D. Manuel de Portugal, nem mais uma palavra. — Mancebo sois; é natural
que vos ponhais do lado do amor; eu sou velho, e a velhice ama o respeito. Até
à vista, senhor D. Manuel, e não turveis o meu contentamento. (Dá um passo
para sair.)
D. MANUEL — Se matais vossa filha?
D. ANTÔNIO — Não a matarei. Amores
fáceis de curar são esses que aí brotam no meio de galanteios e versos. Versos
curam tudo. Só não curam a honra os versos; mas para a honra dá Deus um rei
austero, em pai inflexível... Até à vista, senhor D. Manuel. (Sai pela
esquerda.)
D. MANUEL DE PORTUGAL, logo CAMÕES
D. MANUEL — Perdido... está tudo perdido.(Camões entra
pelo fundo.) Meu pobre Luís! Se soubesses...
CAMÕES — Que há?
D. MANUEL — El-rei... El-rei
atendeu às súplicas do senhor D. Antônio. Está tudo perdido.
CAMÕES — E que pena me cabe?
D. MANUEL — Desterra-vos da corte.
CAMÕES — Desterrado! Mas eu vou
ter com Sua Alteza, eu direi...
D. MANUEL, aquietando-o. — Não
direis nada; não tendes mais que cumprir a real ordem; deixai que os vossos
amigos façam alguma coisa; talvez logrem abrandar o rigor da pena. Vós não
fareis mais do que agravá-la.
CAMÕES — Desterrado! E para onde?
D. MANUEL — Não sei. Desterrado da
corte é o que é certo. Vede... não
há mais demorar no paço. Saiamos.
CAMÕES — Aí me vou eu, pois,
caminho do desterro, e não sei se da miséria! Venceu então o Caminha? Talvez os
versos dele fiquem assim melhores. Se nos vai dar uma nova Eneida, o
Caminha? Pode ser, tudo pode
ser... Desterrado da corte! Cá me ficam os melhores dias, e as mais fundas
saudades. Crede, senhor D.
Manuel, podeis crer que as mais fundas saudades cá me ficam.
D. MANUEL — Tornareis,
tornareis...
CAMÕES — E ela? Já o saberá ela?
D. MANUEL — Cuido que o senhor D.
Antônio foi dizer-lho em pessoa. Deus ! Aí vem eles.
CENA XVI
OS MESMOS, D. ANTÔNIO DE LIMA, D.
CATARINA DE ATAÍDE
D. Antônio aparece à porta da esquerda, trazendo D. Catarina
pela mão. — D. Catarina vem profundamente abatida.
D. CATARINA, à parte,
vendo Camões. — Ele! Dai-me
força, meu Deus! (D. Antônio corteja os dois, e segue na direção do fundo. Camões dá um passo para falar-lhe, mas D. Manuel contém-no.
D. Catarina, prestes a sair, volve a cabeça para trás.)
D. MANUEL DE PORTUGAL, CAMÕES
CAMÕES — Ela aí vai... talvez para sempre... Credes que
para sempre?
D. MANUEL — Não. Saiamos!
CAMÕES — Vamos lá; deixemos estas
salas que tão funestas me foram. (Indo ao fundo e olhando para dentro.) Ela
aí vai, a minha estrela, aí vai a resvalar no abismo, de onde não sei se a
levantarei mais... Nem eu... (Voltando-se para D. Manuel.) Nem vós, meu
amigo, nem vós que me quereis tanto, ninguém.
CAMÕES — Não saberia dizer-vos;
mas sinto-o aqui no coração. Essa clara luz, essa doce madrugada da minha vida,
apagou-se agora mesmo, e de uma vez.
D. MANUEL — Confiai em mim, nos
meus amigos, nos vossos amigos. Irei ter com eles; induzi-los-ei a....
CAMÕES — A quê? A mortificarem um
camareiro-mor, a fim de servir um triste escudeiro que já estará a caminho de
África?
CAMÕES — Pode ser; sinto umas
tonteiras africanas. Pois que me fecham a porta dos
amores, abrirei eu mesmo as da guerra. Irei lá pelejar, ou não sei se morrer...
África, disse eu? Pode ser que Ásia também, ou Ásia só; o que me der na
imaginação.
D. MANUEL — Saiamos.
CAMÕES — E agora, adeus, infiéis
paredes; sede ao menos com passivas; guardai-ma,
guardai-ma bem, a minha
formosa D. Catarina! (A D. Manuel.) Credes que tenho vontade de
chorar?
D. MANUEL — Saiamos, Luís!
CAMÕES — Eu não choro, não; não
choro... não quero... (Forcejando
por ser alegre.) Vedes? até
rio! Vou-me para bem longe. Considerando bem, Ásia é melhor; lá rematou a
audácia lusitana o seu edifício, lá irei
escutar o rumor dos passos do nosso Vasco. E este sonho, esta
quimera, esta coisa que me flameja cá dentro, quem sabe se... Um grande sonho,
senhor D. Manuel... Vede lá, ao longe, na imensidade desses mares, nunca dantes
navegados, uma figura rútila, que se debruça dos balcões da aurora, coroada de
palmas indianas? É a nossa glória, é a nossa glória que alonga os olhos, como a
pedir o seu esposo ocidental. E nenhum lhe vai dar o ósculo que a fecunde;
nenhum filho desta terra, nenhum que empunhe a tuba da imortalidade, para
dizê-la aos quatro ventos do céu... Nenhum... (Vai amortecendo a voz.) Nenhum...
(Pausa, fita D. Manuel, como se acordasse, e dá de ombros.) Uma grande
quimera, senhor D. Manuel. Vamos ao nosso desterro.
ENTRE 1892 E 1894
VAE SOLI!
(1892, julho)
Um dia desta
semana, farto de vendavais, naufrágios, boatos, mentiras, polêmicas, farto de
ver como se descompõem os homens, acionistas e diretores, importadores
e industriais, farto de mim, de
ti, de todos, de um tumulto sem vida, de um silêncio sem quietação,
peguei de uma página de anúncios, e disse comigo:
"Eia, passemos em revista as procuras e ofertas, caixeiros
desempregados, pianos, magnésias, sabonetes, oficiais de barbeiro, casas para
alugar, amas-de-leite, cobradores, coqueluche, hipotecas, professores, tosses
crônicas..."
E o meu espírito,
estendendo e juntando as mãos e os braços, como fazem os nadadores, que caem do
alto, mergulhou por uma coluna abaixo. Quando voltou à tona, trazia entre os
dedos esta pérola:
Uma viúva interessante, distinta, de boa família e
independente de meios, deseja encontrar por esposo um homem de meia
idade, sério, instruído, e também com meios de vida, que esteja como ela
cansado de viver só; resposta por carta ao escritório desta folha, com as
iniciais M. R...., anunciando, a fim de ser procurada essa carta.
Gentil viúva, eu
não sou o homem que procuras, mas desejava ver-te, ou, quando menos, possuir o
teu retrato, porque tu não és qualquer pessoa, tu vales alguma coisa mais que o
comum das mulheres. Ai de quem está só! dizem as sagradas letras; mas não foi a religião que te
inspirou esse anúncio. Nem motivo teológico, nem metafísico. Positivo também
não, porque o positivismo é infenso às segundas núpcias. Que foi então, senão a
triste, longa e aborrecida experiência? Não queres amar; estás cansada de viver
só.
E a cláusula de
ser o esposo outro aborrecido, fato de solidão, mostra que tu não queres
enganar, nem sacrificar ninguém. Ficam desde já excluídos os sonhadores, os que
amem o mistério e procurem justamente esta ocasião de comprar um bilhete na
loteria da vida. Que não pedes um diálogo de amor, é claro, desde que impões a
cláusula da meia idade, zona em que as paixões arrefecem, onde as flores vão perdendo a cor purpúrea e
o viço eterno. Não há de ser um náufrago, à espera de uma tábua de salvação,
pois que exiges que também possua. E há de ser instruído, para encher com as
luzes do espírito as longas noites do coração, e contar (sem as mãos presas) a
tomada de Constantinopla.
Viúva dos meus
pecados, quem és tu que sabes tanto? O teu anúncio lembra a carta de certo
capitão da guarda de Nero. Rico, interessante, aborrecido, como tu, escreveu um
dia ao grave Sêneca, perguntando-lhe como se havia de curar do tédio que
sentia, e explicava-se por figura: "Não é a tempestade que me aflige, é o
enjôo do mar". Viúva minha, o que tu queres realmente, não é um marido, é
um remédio contra o enjôo. Vês que a travessia ainda é longa, — porque a tua
idade está entre trinta e dois e trinta e oito anos, — o mar é agitado, o navio
joga muito; precisas de um preparado para matar esse mal cruel e indefinível.
Não te contentas com o remédio de Sêneca, que era justamente a solidão, "a
vida retirada, em que a alma acha todo o seu sossego". Tu já provaste esse
preparado; não te fez nada. Tentas outro; mas queres menos um companheiro que
uma companhia.
Pode ser que a esta hora já tenhas achado o esposo nas
condições definidas. Não estás ainda casada, porque é preciso fazer correr os
pregões, e tens alguns dias diante de ti, para examinar bem o homem. Lembra-te
de Xisto V, amiga minha; não vá ele sair, em vez de um coração arrimado à
bengala, um coração com pernas, e umas pernas com músculos e sangue; não vás tu ouvir, em vez da tomada de Constantinopla, a queda de
Margarida nos braços de Fausto. Há desses corações, nevados por cima, como
estão agora as serras do
Itatiaia e de Itajubá, e contendo em si as lavas que o Etna está cuspindo desde
alguns dias.
Mas, se ele te
sair o que queres, que grande prêmio de loteria! Junto
à amurada do navio, vendo a fúria do mar e dos ventos, tu ouvirás muitas coisas
sérias e graciosas a um tempo,
seguindo com os olhos a fúria dos ventos e o tumulto das ondas livre, do enjôo,
como pedia aquele capitão de Nero, e por diferente regímen do que lhe aconselhou o filósofo. E a
tua conclusão será como a tua premissa; em caso de tédio, antes um marido que
nada.
SALTEADORES DA
TESSÁLIA
(1893,
novembro)
Tudo isto cansa,
tudo isto exaure. Este sol é o mesmo sol, debaixo do qual, segundo uma palavra
antiga, nada existe que seja novo. A lua não é outra lua. O céu azul ou embruscado, as estrelas e as nuvens, o galo da madrugada, é tudo a mesma
coisa. Lá vai um para a banca da advocacia, outro para o gabinete médico, este
vende, aquele compra, aquele outro
empresta, enquanto a chuva cai ou não cai, e o vento sopre ou não; mas sempre o
mesmo vento e a mesma chuva. Tudo isto cansa, tudo isto exaure.
Tal era a
reflexão que eu fazia comigo, quando me trouxeram os jornais. Que me diriam
eles que não fosse velho? A guerra é velha, quase tão velha como a paz. Os
próprios diários são decrépitos. A primeira crônica do mundo é justamente a que
conta a primeira semana dele, dia por dia até o sétimo em que o Senhor
descansou. O cronista bíblico omite a causa do descanso divino; podemos supor
que não foi outra senão o sentimento da caducidade da obra.
Repito, que me trariam os diários? As mesmas
notícias locais e estrangeiras, os furtos do Rio e de Londres, as damas da
Bahia e de Constantinopla, um incêndio em Olinda, uma tempestade em Chicago, as
cebolas do Egito, os juízes de Berlim, a paz de Varsóvia, os Mistérios de
Paris, a Lua de Londres, o Carnaval
de Veneza... Abri-os sem curiosidade, li-os sem interesse, deixando que os
olhos caíssem pelas colunas abaixo, ao peso do próprio fastio. Mas os diabos
estacaram de repente, leram, releram e mal puderam crer no que liam. Julgai por
vós mesmos.
Antes de ir
adiante, é preciso saber a idéia que faço de um legislador, e a que faço de um
salteador. Provavelmente, é a vossa. O legislador é o homem deputado pelo povo
para votar os seus impostos e leis. É um cidadão ordeiro, ora implacável e
violento, ora tolerante e brando, membro de uma câmara que redige, discute e vota as regras do governo, os deveres do
cidadão, as penas do crime. O salteador é o contrário. O ofício deste é
justamente infringir as leis que o outro decreta. Inimigo delas, contrário à
sociedade e à humanidade, tem por gosto, prática e religião tirar a bolsa aos
homens, e, se for preciso, a vida. Foge naturalmente aos tribunais, e, por
antecipação, aos agentes de polícia. A sua arma é uma espingarda; para que lhe
serviriam penas, a não serem de ouro? Uma espingarda, um punhal, olho vivo, pé
leve, e mato, eis tudo o que ele pede ao céu. O mais é com ele.
Dadas estas
noções elementares, imaginai com que alvoroço li esta
notícia de uma de nossas folhas: "Na Grécia foi preso o deputado Talis, e expediu-se
ordem de prisão contra outros deputados, por fazerem parte de uma quadrilha de
salteadores, que infesta a província de Tessália". Dou-vos
dez minutos de incredulidade para o caso de não haverdes lido a notícia; e, se
vos acomodais da monotonia da vida, podeis clamar contra semelhante acumulação.
Chamai bárbara à moderna
Grécia, chamai-lhe opereta, pouco importa. Eu chamo-lhe sublime.
Sim, essa mistura
de discurso e carabina, esse apoiar o ministério com um voto de confiança às
duas horas da tarde, e ir espreitá-lo às cinco, à beira da estrada, para tirar-lhe os restos
do subsídio, não é comum, nem rara, é única. As instituições parlamentares não
apresentam em parte nenhuma esta variante. Ao contrário, quaisquer que sejam as
modificações de clima, de raça ou de costumes, o regímen das câmaras difere pouco, e, ainda que
difira muito, não irá ao ponto de pôr na mesma curul Catão e Caco. Há
alguma coisa nova debaixo do sol.
Durante meia hora
fiquei como fora de mim. A situação é, na verdade, aristofanesca. Só a mão do grande cômico podia
inventar e cumprir tão extraordinária facécia. A folha que dá a notícia não
conta nada da provável confusão de linguagem que há de haver nos dois ofícios.
Quando algum daqueles deputados tivesse de falar na Câmara, em vez de pedir a
palavra, podia muito bem pedir a bolsa ou a vida. Vice-versa, agredindo um viajante, pedir-lhe-ia dois minutos de
atenção. E nada ficaria, em absoluto, fora do seu lugar; com dois minutos de
atenção se tira o relógio a um homem, e mais de um na Câmara preferiria
entregar a bolsa a ouvir um discurso.
Mas, por todos os
deuses do Olimpo! não há gosto perfeito na terra. No melhor da alegria,
acudiu-me à lembrança o livro de Edmond About, onde me pareceu que havia alguma coisa semelhante à
notícia. Corri a ele; achei a cena dos maniotas, que ameaçavam brandamente um dos amigos
do autor, se lhes não desse uma pequena quantia. O chefe do grupo era empregado
subalterno da administração local. About chega, ameaça por sua vez os homens, e, para assustá-los,
cita o nome de um deputado para quem levava carta de recomendação.
"Fulano! exclamou o chefe da quadrilha, rindo;
conheço muito, é dos nossos."
Assim, pois, nem
isto é novo! Já existia há quarenta anos! A novidade está no mandado de prisão,
se é a primeira vez que ele se expede, ou se até agora os homens faziam um dos
dois ofícios discretamente. Fiquei triste. Eis aí, tornamos à velha divisão de
classes, que a terra de Homero podia destruir pela forma audaz de Talis. Aí volta a
monotonia das funções separadas, isto é, uma restrição à liberdade das
profissões. A própria poesia perde com isto; ninguém ignora que o salteador, na
arte, é um caráter generoso e nobre. Talis, se é assim que se lhe
escreve o nome, pode ser que tivesse ganho um par de sapatos a tiro de
espingarda; mas estou certo que proporia na Câmara uma pensão à viúva da
vítima. São duas operações diversas, e a diversidade é o próprio espírito
grego. Adeus, minha ilusão de um instante! Tudo continua a ser velho; nihil sub sole novum.
Eu pediria o
perdão de Talis, se pudesse ser
ouvido. Condenem os demais, se querem, mas deixem um, Talis ou outro
qualquer, um funcionário duplo, que tire ao parlamento grego o aspecto de uma
instituição aborrecida. Que a Hélade deite os
ministérios abaixo, se lhe apraz, mas não atire às águas do Eurotas um elemento de
aventura e de poesia. Acabou com o turco, acabe com este modernismo, que é
outro turco, diferente do primeiro em não ser silencioso. Não esqueça que
Byron, um dos seus grandes amigos, deixou o parlamento britânico para fugir à
discussão da resposta à fala do trono. E repare que não há, entre os seus
poemas, nenhum que se chame O presidente do conselho, mas há um que se
chama O Corsário.
O SERMÃO DO DIABO
(1893,
setembro)
Nem sempre
respondo por papéis velhos; mas aqui está um que parece autêntico; e, se o não é, vale pelo texto, que é substancial. É um pedaço do evangelho
do Diabo, justamente um sermão da montanha, à maneira de S. Mateus. Não se
apavorem as almas católicas. Já Santo Agostinho dizia que "a igreja do
Diabo imita a igreja de Deus". Daí a semelhança entre os dois evangelhos.
Lá vai o do Diabo:
1º E vendo o
Diabo a grande multidão de povo, subiu a um monte, por nome Corcovado, e,
depois de se ter sentado, vieram a ele os seus discípulos.
2º E ele, abrindo
a boca, ensinou dizendo as palavras seguintes.
3º
Bem-aventurados aqueles que embaçam, porque eles não serão embaçados.
4º
Bem-aventurados os afoitos, porque eles possuirão a terra.
5º Bem-aventurados
os limpos das algibeiras, porque eles andarão mais leves.
6º
Bem-aventurados os que nascem finos, porque eles morrerão grossos.
7º
Bem-aventurados sois, quando vos injuriarem e disserem todo o
mal, por meu respeito.
8º Folgai e
exultai, porque o vosso galardão é copioso na terra.
9º Vós sois o sal
do money market. E se o sal
perder a força, com que outra coisa se há de salgar?
10º Vós sois a luz do mundo. Não se põe uma vela acesa debaixo de um
chapéu, pois assim se perdem o chapéu e a vela.
11º Não julgueis
que vim destruir as obras imperfeitas, mas refazer as desfeitas.
12º Não
acrediteis em sociedades arrebentadas. Em verdade vos digo que todas se
consertam, e se não for com remendo da mesma cor, será com remendo de outra
cor.
13º Ouvistes que
foi dito aos homens: Amai-vos uns aos outros. Pois eu digo-vos: Comei-vos uns
aos outros; melhor é comer que ser comido; o lombo alheio é muito mais
nutritivo que o próprio.
14º Também foi
dito aos homens: Não matareis a vosso irmão, nem a vosso inimigo, para que não
sejais castigados. Eu digo-vos que não é preciso matar a vosso irmão para
ganhardes o reino da terra; basta arrancar-lhe a última camisa.
15º Assim, se estiveres fazendo as tuas
contas, e te lembrar que teu irmão anda meio desconfiado de ti, interrompe
as contas, sai de casa, vai ao encontro de teu irmão na rua, restitui-lhe a
confiança, e tira-lhe o que ele ainda levar consigo.
16º Igualmente
ouvistes que foi dito aos homens: Não jurareis falso, mas cumpri ao Senhor os teus
juramentos.
17º Eu, porém,
vos digo que não jureis nunca a verdade, porque a verdade nua e crua, além de
indecente, é dura de roer; mas jurai sempre e a propósito de tudo, porque os
homens foram feitos para crer antes nos que juram falso, do que nos que não juram nada. Se
disseres que o sol acabou, todos acenderão velas.
18º Não façais as
vossas obras diante de pessoas que possam ir contá-lo à polícia.
19º Quando, pois,
quiserdes tapar um buraco, entendei-vos com algum sujeito hábil, que faça treze
de cinco e cinco.
20º Não queirais
guardar para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os consomem, e
donde os ladrões os tiram e levam.
21° Mas remetei
os vossos tesouros para algum banco de Londres, onde nem a ferrugem, nem a
traça os consomem, nem os ladrões os roubam, e onde ireis vê-los no dia do
juízo.
22º Não vos fieis
uns nos outros. Em verdade vos digo, que cada um de
vós é capaz de comer o seu vizinho, e boa cara não quer dizer bom negócio.
23º Vendei gato
por lebre, e concessões ordinárias por excelentes, a fim de que a terra se não
despovoe das lebres, nem as más concessões pereçam nas vossas mãos.
24º Não queirais
julgar para que não sejais julgados; não examineis os papéis do próximo para
que ele não examine os vossos, e não resulte irem os dois para a cadeia, quando
é melhor não ir nenhum.
25º Não tenhais
medo às assembléias de acionistas, e afagai-as de preferência às simples
comissões, porque as comissões amam a vanglória e as assembléias as boas
palavras.
26º As
porcentagens são as primeiras flores do capital; cortai-as logo, para que as
outras flores brotem mais viçosas e lindas.
27º Não deis
conta das contas passadas, porque passadas são as contas contadas e perpétuas
as contas que se não contam.
28º Deixai falar
os acionistas prognósticos; uma vez aliviados, assinam de boa vontade.
29º Podeis
excepcionalmente amar a um homem que vos arranjou um bom negócio; mas não até o
ponto de o não deixar com as cartas na mão, se jogardes juntos.
30° Todo aquele
que ouve estas minhas palavras, e as observa, será comparado ao homem sábio,
que edificou sobre a rocha e resistiu aos ventos; ao contrário do homem sem
consideração, que edificou sobre a areia, e fica a ver navios...
Aqui acaba o
manuscrito que me foi trazido pelo próprio Diabo, ou alguém por ele; mas eu
creio que era o próprio. Alto, magro, barbícula ao queixo, ar de Mefistófeles. Fiz-lhe
uma cruz com os dedos e ele sumiu-se. Apesar de tudo, não respondo pelo papel,
nem pelas doutrinas, nem pelos erros de cópia.
CANÇÃO DE PIRATAS
(1894, julho)
Telegrama da
Bahia refere que o Conselheiro está em Canudos com 2.000 homens (dois mil
homens) perfeitamente armados. Que Conselheiro? O Conselheiro. Não lhe ponhas
nome algum, que é sair da poesia e do mistério. É o Conselheiro, um homem,
dizem que fanático, levando consigo a toda a parte aqueles dois mil
legionários. Pelas últimas notícias tinha já mandado um contingente a
Alagoinhas. Temem-se no Pombal e outros lugares os seus assaltos.
Jornais recentes
afirmam também que os célebres clavinoteiros de Belmonte têm fugido, em turmas, para
o Sul, atravessando a comarca de Porto-Seguro. Essa outra horda, para empregar
o termo do profano vulgo que odeio, não obedece ao mesmo chefe. Tem outro ou
mais de um, entre eles o que responde ao
nome de Cara de Graxa. Jornais e telegramas dizem dos clavinoteiros e dos sequazes
do Conselheiro que são criminosos; nem outra palavra pode sair de cérebros
alinhados, registrados, qualificados, cérebros eleitores e contribuintes. Para
nós, artistas, é a renascença, é um raio de sol que, através da chuva miúda e
aborrecida, vem dourar-nos a janela e a alma. É a poesia que nos levanta do
meio da prosa chilra e dura deste fim de século. Nos climas ásperos, a árvore
que o inverno despiu é novamente enfolhada pela primavera, essa eterna florista
que aprendeu não sei onde e não
esquece o que lhe ensinaram. A arte é a árvore despida: eis que lhe rebentam
folhas novas e verdes.
Sim, meus amigos.
Os dois mil homens do Conselheiro, que vão de vila em vila, assim como os clavinoteiros de Belmonte, que
se metem pelo sertão, comendo o que arrebatam, acampando em vez de morar,
levando moças naturalmente, moças cativas, chorosas e belas, são os piratas dos
poetas de 1830. Poetas de 1894,
aí tendes matéria nova e fecunda. Recordai vossos pais; cantai, como Hugo, a canção dos piratas:
En mer, les hardis écumeurs!
Nous allions de Fez à Catane...
Entrai pela
Espanha, é ainda a terra da imaginação de Hugo, esse homem de todas as pátrias;
puxai pela memória, ouvireis Espronceda dizer outra
canção de pirata, um que desafia a ordem e a lei como o nosso Conselheiro. Ide
a Veneza; aí Byron recita os versos do Corsário no regaço da bela Guiccioli. Tornai à nossa
América, onde Gonçalves Dias também cantou o seu pirata. Tudo pirata. O
romantismo é a pirataria, é o banditismo, é a aventura do salteador que estripa
um homem e morre por uma dama.
Crede-me, esse Conselheiro que está em Canudos
com os seus dois mil homens, não é o que dizem telegramas e papéis públicos.
Imaginai uma legião de aventureiros galantes, audazes, sem ofício nem
benefício, que detestam o calendário, os relógios, os impostos, as reverências,
tudo o que obriga, alinha a apruma. São homens fartos
desta vida social e pacata, os mesmos dias, as mesmas caras, os mesmos
acontecimentos, os mesmos delitos, as mesmas virtudes. Não podem crer que o
mundo seja uma secretaria de Estado, com o seu livro do ponto, hora de entrada
e de saída, e desconto por faltas. O próprio amor é regulado por lei; os consórcios celebram-se por um regulamento em casa do
pretor, e por um ritual na casa de Deus, tudo com etiqueta dos carros e
casacas, palavras simbólicas, gestos de convenção. Nem a morte escapa à
regulamentação universal; o finado há de ter velas e responsos, um caixão
fechado, um carro que o leve, uma sepultura numerada, como a casa em que
viveu... Não, por Satanás! Os partidários do Conselheiro lembraram-se dos
piratas românticos, sacudiram as sandálias à porta da civilização e saíram à
vida livre.
A vida livre,
para evitar a morte igualmente livre, precisa comer, e daí alguns possíveis
assaltos. Assim também o amor livre. Eles não irão às vilas pedir moças em
casamento. Suponho que se casam a cavalo, levando as noivas à garupa, enquanto
as mães ficam soluçando e gritando à porta das casas ou à beira dos rios. As
esposas do Conselheiro, essas são raptadas em verso, naturalmente:
Sa Hautesse aime les primeurs,
Nous vous ferons mahométane...
Maometana ou
outra coisa, pois nada sabemos da religião desses, nem dos clavinoteiros, a verdade é que
todas elas se afeiçoarão ao regímen, se regímen se pode chamar a
vida errática. Também há estrelas erráticas, dirão elas, para se consolarem.
Que outra coisa podemos supor de tamanho número de gente?
Olhai que tudo cresce, que os exércitos de hoje não
são já os dos tempos românticos, nem as armas, nem os legisladores, nem os
contribuintes, nada. Quando tudo cresce, não se há de exigir que os
aventureiros de Canudos, Alagoinhas e Belmonte contem ainda aquele exíguo
número de piratas da cantiga:
Dans la galère capitane,
Nous étions quatre-vingts rameurs,
mas mil, dois mil, no mínimo. Do mesmo modo,
ó poetas, devemos compor versos extraordinários e
rimas inauditas. Fora com as cantigas de pouco fôlego. Vamos fazê-las de mil
estrofes, com estribilho de cinqüenta versos, e versos compridos, dois
decassílabos atados por um alexandrino e uma redondilha. Pélion sobre Ossa, versos de Adamastor, versos de Encélado. Rimemos o
Atlântico com o Pacífico, a Via-Láctea com as areias do
mar, ambições com malogros, empréstimos com calotes, tudo ao som das polcas que
temos visto compor, vender e dançar só no Rio de Janeiro. Ó vertigem das
vertigens!
GARNIER
(1893, outubro)
Segunda-feira desta semana, o livreiro Garnier saiu pela primeira vez de casa para ir a outra parte que não
a livraria. Revertere ad locum tuum — está escrito
no alto da porta do cemitério de S. João Batista. Não, murmurou ele talvez
dentro do caixão mortuário, quando percebeu para onde o iam conduzindo, não é
este o meu lugar; o meu lugar é na Rua do Ouvidor 71, ao pé de uma carteira de
trabalho, ao fundo, à esquerda: é ali que estão os meus livros, e minha
correspondência, as minhas notas, toda a minha escrituração.
Durante meio
século, Garnier não fez outra coisa, senão estar
ali, naquele mesmo lugar, trabalhando. Já enfermo desde alguns anos, com a
morte no peito, descia todos os dias de Santa Teresa para a loja, de onde
regressava antes de cair a noite. Uma
tarde, ao encontrá-lo na rua, quando se recolhia, andando vagaroso, com os seus
pés direitos, metido em um sobretudo, perguntei-lhe
por que não descansava algum tempo. Respondeu-me com
outra pergunta: Pourriez-vous résister, si vous
étiez forcé de ne plus faire ce que vous auriez fait pendant cinquante ans?
Na
véspera da morte, se estou bem informado, achando-se de pé, ainda planejou
descer na manhã seguinte, para dar uma vista de olhos à livraria.
Essa livraria é
uma das últimas casas da Rua do Ouvidor; falo de uma rua anterior e acabada.
Não cito os nomes das que se foram, porque não as conheceríeis, vós que sois
mais rapazes que eu, e abristes os olhos em uma rua animada e populosa onde se
vendem, ao par de belas jóias,
excelentes queijos. Uma das últimas figuras desaparecidas foi o Bernardo, o
perpétuo Bernardo, cujo nome achei ligado aos charutos do Duque de Caxias, que
tinha fama de os fumar únicos, ou quase
únicos. Há casas como a Laemmert e o Jornal do
Comércio, que ficaram e prosperaram, embora os
fundadores se fossem; a maior parte, porém, desfizeram-se com os donos.
Garnier é das figuras derradeiras. Não aparecia muito; durante os 20
anos das nossas relações, conheci-o sempre no mesmo lugar, ao fundo da
livraria, que a princípio era em outra casa, nº 69,
abaixo da Rua Nova. Não pude conhecê-lo na da Quitanda, onde se estabeleceu
primeiro. A carteira é que pode ser a mesma, como o banco alto onde ele
repousava, às vezes, de estar em pé. Aí vivia sempre, pena na mão, diante de um grande livro, notas soltas, cartas que assinava ou
lia. Com o gesto obsequioso, a fala lenta, os olhos mansos, atendia a toda
gente. Gostava de conversar o seu pouco. Neste caso, quando a pessoa amiga
chegava, se não era dia de mala ou se o trabalho ia adiantado e não era
urgente, tirava logo os óculos, deixando ver no centro do nariz uma depressão
do longo uso deles. Depois vinham duas cadeiras. Pouco sabia da política da
terra, acompanhava a de França, mas só o ouvi falar com interesse por ocasião
da guerra de 1870. O francês sentiu-se francês. Não sei se tinha partido;
presumo que haveria trazido da pátria, quando aqui aportou, as simpatias da
classe média para com a monarquia orleanista. Não gostava do império napoleônico.
Aceitou a república, e era grande admirador de Gambetta.
Daquelas
conversações tranqüilas, algumas longas, estão mortos quase todos os interlocutores, Liais, Fernandes
Pinheiro, Macedo Joaquim Norberto, José de Alencar, para só indicar estes. De
resto, a livraria era um ponto de conversação e de encontro. Pouco me dei com
Macedo, o mais popular dos nossos autores, pela Moreninha e pelo Fantasma
Branco, romance e comédia que fizeram as delícias de uma geração inteira.
Com José de Alencar foi diferente; ali travamos as nossas relações literárias.
Sentados os dois, em frente à rua, quantas vezes tratamos daqueles negócios de
arte e poesia, de estilo e imaginação, que valem todas as canseiras deste
mundo. Muitos outros iam ao mesmo ponto de palestra. Não os cito, porque teria
de nomear um cemitério, e os cemitérios são tristes, não em si mesmos, ao
contrário. Quando outro dia fui a enterrar o nosso velho livreiro, vi entrar no
de S. João Batista, já acabada a cerimônia e o trabalho, um bando de crianças
que iam divertir-se. Iam alegres, como
quem não pisa memórias nem saudades. As figuras sepulcrais eram, para elas,
lindas bonecas de pedra; todos esses mármores faziam um mundo único, sem
embargo das suas flores mofinas, ou por elas mesmas, tal é a visão dos
primeiros anos. Não citemos nomes.
Nem mortos, nem
vivos. Vivos há-os ainda, e dos bons, que alguma coisa se lembrarão daquela casa e do homem que a fez e
perfez. Editar obras jurídicas ou escolares, não é mui difícil; a necessidade é
grande, a procura certa. Garnier, que fez
custosas edições dessas, foi também editor de obras literárias, o primeiro e o
maior de todos. Os seus catálogos estão cheios dos nomes principais, entre os
nossos homens de letras. Macedo e Alencar, que eram os mais fecundos, sem
igualdade de mérito, Bernardo Guimarães, que também produziu muito nos seus
últimos anos, figuram ao pé de outros, que entraram já consagrados, ou acharam
naquela casa a porta da publicidade e o caminho da reputação.
Não é mister lembrar o que era essa livraria tão copiosa e tão variada,
em que havia tudo, desde a teologia até à novela, o livro clássico, a
composição recente, a ciência e a imaginação, a moral e a técnica. Já a achei feita; mas vi-a crescer ainda mais, por longos anos. Quem
a vê agora, fechadas as portas,
trancados
os mostradores, à espera da justiça, do inventário e dos herdeiros, há de
sentir que falta alguma coisa à rua. Com efeito, falta uma grande parte dela, e
bem pode ser que não volte, se a casa não conservar a mesma tradição e o mesmo
espírito.
Pessoalmente, que
proveito deram a esse homem as
suas labutações? O gosto do trabalho, um gosto que se transformou em pena,
porque no dia em que devera libertar-se dele, não pôde mais; o instrumento da
riqueza era também o do castigo. Esta é uma das misericórdias da Divina
Natureza. Não importa: laboremus. Valha sequer a
memória, ainda que perdida nas páginas dos dicionários biográficos. Perdure a
notícia, ao menos, de alguém que neste país novo ocupou a vida inteira em criar
uma indústria liberal, ganhar alguns milhares de contos de réis, para ir afinal
dormir em sete palmos de uma sepultura perpétua. Perpétua!
A CENA DO
CEMITÉRIO
(1894, junho)
Não mistureis
alhos com bugalhos; é o melhor conselho que posso dar
às pessoas que lêem de noite na cama. A noite passada, por infringir essa regra, tive um pesadelo
horrível. Escutai; não perdereis os cinco minutos de audiência.
Foi o caso que,
como não tinha acabado de ler os jornais de manhã, fi-lo à noite. Pouco já havia que ler, três notícias e a cotação da praça.
Notícias da manhã, lidas à noite, produzem sempre o efeito de modas velhas,
donde concluo que o melhor encanto das gazetas está na hora em que aparecem. A
cotação da praça, conquanto tivesse a mesma feição, não a li com igual indiferença,
em razão das recordações que trazia do ano terrível (1890-91). Gastei mais
tempo a lê-la e relê-la. Afinal pus os jornais de lado, e, não sendo tarde,
peguei de um livro, que acertou de ser Shakespeare. O drama era Hamlet.
A página, aberta ao acaso, era a cena do cemitério, ato V. Não há que dizer ao
livro nem à página; mas essa mistura de
poesia e cotação de praça, de gente morta e dinheiro vivo, não podia gerar nada bom; eram
alhos com bugalhos.
Sucedeu o que era
de esperar; tive um pesadelo. A princípio, não pude dormir; voltava-me de um
lado para outro, vendo as figuras de Hamlet e de Horácio, os coveiros e as
caveiras, ouvindo a balada e a conversação. A muito
custo, peguei no sono. Antes não pegasse! Sonhei que
era Hamlet; trazia a mesma capa negra, as meias, o gibão e os calções da mesma
cor. Tinha a própria alma do príncipe de Dinamarca. Até aí nada houve que me
assustasse. Também não me aterrou ver, ao pé de mim, vestido de Horácio, o meu
fiel criado José. Achei natural: ele não o achou menos. Saímos de cara para o
cemitério; atravessamos uma rua que nos pareceu ser a Primeiro de Março e
entramos em um espaço que era metade cemitério, metade sala. Nos sonhos há
confusões dessas, imaginações duplas ou incompletas, mistura de coisas opostas,
dilacerações, desdobramentos inexplicáveis; mas, enfim, como eu era Hamlet e
ele Horácio, tudo aquilo devia ser cemitério. Tanto era que ouvimos logo a um
dos coveiros esta estrofe:
Era um título
novinho,
Valia mais de
oitocentos;
Agora que está
velhinho
Não chega a valer
duzentos.
Entramos e
escutamos. Como na tragédia, deixamos que os coveiros falassem
entre si, enquanto faziam a cova de Ofélia. Mas os coveiros eram ao mesmo tempo
corretores, e tratavam de ossos e papéis. A um deles ouvia bradar que tinha
trinta ações da Companhia Promotora das Batatas Econômicas. Respondeu-lhe outro
que dava cinco mil-réis por elas. Achei pouco dinheiro e disse isto mesmo a
Horácio, que me respondeu, pela boca de José: "Meu senhor, as batatas
desta companhia foram prósperas enquanto os portadores dos títulos não as foram plantar. A economia da nobre instituição consistia
justamente em não plantar o precioso tubérculo; uma vez que o plantassem, era
indício certo da decadência e da morte".
Não entendi bem;
mas os coveiros, fazendo saltar caveiras do solo, iam dizendo graças e
apregoando títulos. Falavam de bancos, do Banco Único, do Banco Eterno, do
Banco dos Bancos, e os respectivos títulos eram vendidos ou não, segundo
oferecessem por eles sete tostões ou duas patacas. Não eram bem títulos nem bem
caveiras; eram as duas coisas
juntas, uma fusão de aspectos, letras com buracos de olhos, dentes por
assinaturas. Demos mais alguns passos, até que eles nos viram. Não se
admiraram; foram indo com o
trabalho de cavar e vender. — Cem da Companhia Balsâmica! — Três mil-réis. —
São suas. — Vinte e cinco da Companhia Salvadora! — Mil-réis! — Dois mil-réis! — Dois mil e cem! — E duzentos! —
E quinhentos! — São suas.
Cheguei-me a um,
ia a falar-lhe, quando fui interrompido pelo próprio homem: "— Pronto Alívio! meus senhores! Dez do Banco Pronto Alívio!
Não dão nada, meus senhores? Pronto Alívio! senhores... Quanto dão? Dois tostões? Oh! não! não! valem mais! Pronto
Alívio! Pronto Alívio!" O homem calou-se afinal, não sem ouvir de outro
coveiro que, como alívio, o banco não podia ter sido mais pronto. Faziam
trocadilhos, como os coveiros de Shakespeare. Um deles, ouvindo apregoar sete
ações do Banco Pontual, disse que tal banco foi realmente pontual até o dia em
que passou do ponto à reticência. Como espírito, não era grande coisa; daí a
chuva de tíbias que caiu em cima do autor. Foi uma cena lúgubre e alegre ao
mesmo tempo. Os coveiros riam, as caveiras riam, as árvores, torcendo-se ao ventos da Dinamarca, pareciam torcer-se de
riso, e as covas abertas riam, à espera que fossem chorar sobre elas.
Surdiram muitas
outras caveiras ou títulos. Da Companhia Exploradora de Além-Túmulo apareceram cinqüenta e quatro, que se venderam a dez réis. O fim desta
companhia era comprar para cada acionista um lote de trinta metros quadrados no
Paraíso. Os primeiros títulos, em março de 1891, subiram a conto de réis; mas
se nada há seguro neste mundo
conhecido, pode havê-lo no incognoscível? Esta dúvida entrou no espírito do
caixa da companhia, que aproveitou a passagem de um paquete transatlântico,
para ir consultar um teólogo europeu, levando consigo tudo o que havia mais
cognoscível entre os valores. Foi um coveiro que me contou este antecedente da
companhia. Eis aqui, porém, surdiu uma voz do fundo da cova, que estavam
abrindo. Uma debenture! uma debenture!
Era já outra
coisa. Era uma debenture. Cheguei-me ao
coveiro, e perguntei que era que estava dizendo. Repetiu o nome do título. Uma debenture? — Uma debenture. Deixe ver,
amigo. E, pegando nela, como Hamlet, exclamei, cheio de melancolia:
— Alas, poor Yorick! Eu a conheci,
Horácio. Era um título magnífico. Estes buracos de olhos foram algarismos de
brilhantes, safiras e opalas. Aqui, onde foi nariz, havia um promontório de
marfim velho lavrado; eram de nácar estas faces, os dentes de ouro, as orelhas
de granada e safira. Desta boca saíam as mais sublimes promessas em estilo
alevantado e nobre. Onde estão agora as belas palavras de outro tempo? Prosa
eloqüente e fecunda, onde param os longos
períodos, as frases galantes, a arte com que fazias ver a gente cavalos
soberbos com ferraduras de prata e arreios de ouro? Onde os carros de cristal,
as almofadas de cetim? Dize-me cá, Horácio.
— Meu senhor...
— Crês que uma
letra de Sócrates esteja hoje no mesmo estado que este papel?
— Seguramente.
— Assim que, uma
promessa de dívida do nobre Sócrates não será hoje mais que uma debenture escangalhada?
— A mesma coisa.
— Até onde
podemos descer, Horácio! Uma
letra de Sócrates pode vir a ter os mais tristes empregos deste mundo; limpar
os sapatos, por exemplo. Talvez ainda valha menos que esta debenture.
— Saberá Vossa
Senhoria que eu não dava nada por ela.
— Nada? Pobre
Sócrates! Mas espera, calemo-nos, aí vem um enterro.
Era o enterro da
Ofélia. Aqui o pesadelo foi-se tornando cada vez mais aflitivo. Vi os padres, o
rei e a rainha, o séquito, o caixão. Tudo se me fez turvo e confuso. Vi a
rainha deitar flores sobre a defunta. Quando o jovem Laertes saltou dentro da
cova, saltei também; ali dentro atracamo-nos, esbofeteamo-nos. Eu suava, eu
matava, eu sangrava, eu gritava...
— Acorde, patrão! acorde!
* É mais interessante citar uma
coincidência. Na carta que Renan escreveu ao colega Cognat,
datada de 12 de novembro de 1845, e na que escreveu à irmã em data de 13 de
outubro, a narração da chegada e saída do seminário de Saint-Sulpice
é feita com as mesmas palavras, pouco mais ou menos (Conf.
Lettres intimes, e Souvenirs, apêndice). É mais que coincidência, é
repetição de textos. O sentimento final é expresso em ambos os lugares com este
mesmo suspiro: “Que de liens, mon
ami (ma bonne amie) rompus en quelques heures!”