LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em meio eletrônico

As Primaveras, de Casimiro de Abreu


Edição de base:
Biblioteca Nacional – setor de obras digitalizadas

 

 

 

 

 

ÍNDICE

 

 

INTRODUÇÃO

 

 

LIVRO PRIMEIRO

 

CANÇÃO DO EXÍLIO.

 

MINHA TERRA.

 

SAUDADES.

 

CANÇÃO DO EXÍLIO.

 

MINHA MÃE.

 

ROSA MURCHA.

 

JURITI

 

MEUS OITO ANOS.

 

NO ÁLBUM DE J. C. M.

 

NO LAR.

 

BRAZILIANAS. MORENINHA.

 

NA REDE.

 

A VOZ DO RIO.

 

SETE DE SETEMBRO.

 

CÂNTICOS. POESIA E AMOR.

 

ORAÇÕES

 

BÁLSAMO.

 

DEUS!

 

 

LIVRO SEGUNDO

 

PRIMAVERAS.

 

CENA ÍNTIMA.

 

JURAMENTO.

 

PERFUMES E AMOR.

 

SEGREDOS.

 

CLARA.

 

A VALSA.

 

BORBOLETA.

 

QUANDO TU CHORAS.

 

CANTO DE AMOR.

 

VIOLETA.

 

SONHOS DE VIRGEM.

 

ASSIM!

 

QUANDO?!...

 

SEMPRE SONHOS!...

 

O QUE É – SIMPATIA.

 

PALAVRAS NO MAR.

 

PEPITA.

 

VISÃO.

 

QUEIXUMES.

 

AMOR E MEDO.

 

PERDÃO!

 

MOCIDADE.

 

NOIVADO.

 

DE JOELHOS.

 

 

LIVRO TERCEIRO

 

TRES CANTOS.

 

ILUSÃO.

 

SONHANDO.

 

LEMBRANÇA.

 

O BAILE!

 

MINH’ALMA É TRISTE.

 

PALAVRAS A ALGUÉM.

 

FOLHA NEGRA.

 

À MORTE DE AFFONSO DE A. COUTINHO MESSEDER ESTUDANTE DA ESCOLA CENTRAL.

 

BERÇO E TÚMULO.

 

INFÂNCIA.

 

A UMA PLATÉIA.

 

NO TÚMULO DUM MENINO.

 

A J. J. C. MACEDO-JÚNIOR.

 

UMA HISTÓRIA.

 

NO LEITO.

 

POIS NÃO É?!

 

NA ESTRADA.

 

NO JARDIM.

 

RISOS.

 

 

LIVRO NEGRO.

 

HORAS TRISTES.

 

DORES.

 

***

 

FRAGMENTO.

 

ANJO!

 

ÚLTIMA FOLHA.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1855 – I858

 

 

 

 

A  F. Octaviano

 

 

São as flores das minhas primaveras

Rebentadas a sombra dos coqueiros.

 

TEIXEIRA DE MELLO – Sombras e Sonhos.

 

 

 

 

 

Um dia – além dos Órgãos, na poética Friburgo – isolado dos meus companheiros de estudo, tive saudades da casa paterna e chorei.

 

Era de tarde; o crepúsculo descia sobre a crista das montanhas e a natureza como que se recolhia para entoar o cântico da noite; as sombras estendiam-se pelo leito dos vales e o silêncio tornava mais solene a voz melancólica do cair das cachoeiras. Era a hora da merenda em nossa casa e pareceu-me ouvir o eco das risadas infantis de minha mana pequena! As lágrimas correram e fiz os primeiros versos da minha vida, que intitulei – Às Ave-Marias: – a saudade havia sido a minha primeira musa.

 

Era um canto simples e natural como o dos passarinhos, e para possuí-lo hoje eu dera em troca este volume inútil, que nem conserva ao menos o sabor virginal daqueles prelúdios!

 

Depois, mais tarde, nas ribas pitorescas do Douro ou nas várzeas do Tejo, tive saudades do meu ninho das florestas e cantei; a nostalgia me apagava a vida e as veigas visonhas do Minho não tinham a beleza majestosa dos sertões.

 

Eu era entusiasta então e escrevia muito, porque me embalava à sombra duma esperança que nunca pude ver realizada. Numa hora de desalento rasguei muitas dessas páginas cândidas e quase que pedi o bálsamo da sepultura para as úlceras recentes do coração; é que as primeiras ilusões da vida, abertas de noite – caem pela manhã como as flores cheirosas das laranjeiras!

 

Flores e estrelas, murmúrios da terra e mistérios do céu, sonhos de virgem e risos de criança, tudo o que é belo e tudo o que é grande, veio por seu turno debruçar-se sobre o espelho mágico da minha alma e aí estampar a sua imagem fugitiva. Se nessa coleção de imagens predomina o perfil gracioso duma virgem, facilmente se explica: – era a filha do céu que vinha vibrar o alaúde adormecido do pobre filho do sertão.

 

Rico ou pobre, contraditório ou não, este livro fez-se por si, naturalmente, sem esforço, e os cantos saíram conforme as circunstâncias e os lugares os iam despertando. Um dia a pasta pejada de tanto papel pedia que lhe desse um destino qualquer, e foi então que resolvi a publicação das – Primaveras; depois separei muitos cantos sombrios, guardei outros que constituem o meu – livro íntimo – e no fim de mudanças infinitas e caprichosas, pude ver o volume completo e o entrego hoje sem receio e sem pretensões.

 

Todos aí acharão cantigas de criança, trovas de mancebo, e raríssimos lampejos de reflexão e de estudo: é o coração que se espraia sobre o eterno tema do amor e que soletra o seu poema misterioso ao luar melancólico das nossas noites.

 

Meu Deus! que se há de escrever aos vinte anos, quando a alma conserva ainda um pouco da crença e da virgindade do berço? Eu creio que sempre tempo de sermos homem sério, e de preferirmos uma moeda de cobre a uma página de Lamartine.

 

De certo, tudo isto são ensaios; a mocidade palpita, e na sede que a devora decepa os louros inda verdes e antes de tempo quer ajustar as cordas do instrumento, que só a madureza da idade e o trato dos mestres poderão temperar.

 

O filho dos trópicos deve escrever numa linguagem – propriamente sua – lânguida como ele, quente como o sol que o abrasa, grande e misteriosa como as suas matas seculares; o beijo apaixonado das Celutas deve inspirar epopéias como a dos – Timbiras – e acordar os Renés enfastiados do desalento que os mata. Até então, até seguirmos o vôo arrojado do poeta de – I-Juca-Pirama – nós, cantores novéis, somos as vozes secundárias que se perdem no conjunto duma grande orquestra:  há o único mérito de não ficarmos calados.

 

Assim, as minhas – Primaveras – não passam de um ramalhete das flores próprias da estação, – flores que o vento esfolhará amanhã, e que apenas valem como promessa dos frutos do outono.

 

 

 

Rio – 20 de Agosto – 1859.

 

 

CASIMIRO DE ABREU.

 

 

 

 

 

 

A

 

Falo a ti – doce virgem dos meus sonhos,

Visão dourada dum cismar tão puro,

Que sorrias por noites de vigília

Entre as rosas gentis do meu futuro.

 

Tu m’inspiraste, oh musa do silêncio,

Mimosa flor da lânguida saudade!

Por ti correu meu estro ardente e louco

Nos verdores febris da mocidade

 

Tu vinhas pelas horas das tristezas

Sobre o meu ombro debruçar-te a medo,

A dizer-me baixinho mil cantigas,

Como vozes sutis dalgum segredo!

 

Por ti eu me embarquei, cantando e rindo,

– Marinheiro de amor – no batel curvo,

Rasgando afouto em hinos d’esperança

As ondas verde-azuis dum mar que é turvo.

 

Por ti corri sedento atrás da glória;

Por ti queimei-me cedo em seus fulgores;

Queria de harmonia encher-te a vida,

Palmas na fronte – no regaço flores!

 

Tu, que foste a vestal dos sonhos d’ouro,

O anjo-tutelar dos meus anelos,

Estende sobre mim as asas brancas.

Desenrola os anéis dos teus cabelos!

 

Muito gelo, meu Deus, crestou-me as galas!

Muito vento do sul varreu-me as flores!

Ai de mim – se o relento de teus risos

Não molhasse o jardim dos meus amores!

 

Não t’esqueças de mim! Eu tenho o peito

De santas ilusões, de crenças cheio!

– Guarda os cantos do louco sertanejo

No leito virginal que tens no seio.

 

Podes ler o meu livro: – adoro a infância,

Deixo a esmola na enxerga do mendigo,

Creio em Deus, amo a pátria, e em noites lindas

Minh’alma – aberta em flor – sonha contigo.

 

Se entre as rosas das minhas – Primaveras –

Houver rosas gentis, de espinhos nuas;

Se o futuro atirar-me algumas palmas

As palmas do cantor – são todas tuas!

 

Agosto 20 – 1859.

C.

 

 

___

 

 

 

La vie du vulgaire n’est qu’un vague et sourd murmure du coeur;

la via de l’homme sensible est un cri; la vie du poète est un chant!

 

Lamartine.

 

____

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PRIMAVERAS

 

 

LIVRO PRIMEIRO

 

____

 

 

Heureux ceux qui n’ont point vu la fumée des fètes de l’etranger,

et qui ne se sont assis qu’aux festins de leurs péres!

 

Chateaubriand.

 

 

 

 

I

 

CANÇÃO DO EXÍLIO.

 

 

Oh! mon pays sera mes amour

Toujours.

 

Chateaubriand.

 

Eu nasci além dos mares:

Os meus lares,

Meus amores ficam lá!

– Onde canta nos retiros

Seus suspiros,

Suspiros o sabiá!

 

Oh que céu, que terra aquela,

Rica e bela

Como o céu de claro anil!

Que seiva, que luz, que galas,

Não exalas

Não exalas, meu Brasil!

 

Oh! que saudades tamanhas

Das montanhas,

Daqueles campos natais!

Daquele céu de safira

Que se mira,

Que se mira nos cristais!

 

Não amo a terra do exílio,

Sou bom filho,

Quero a pátria, o meu país,

Quero a terra das mangueiras

E as palmeiras,

E as palmeiras tão gentis!

 

Como a ave dos palmares

Pelos ares

Fugindo do caçador;

Eu vivo longe do ninho,

Sem carinho;

Sem carinho e sem amor!

 

Debalde eu olho e procuro...

Tudo escuro

Só vejo em roda de mim!

Falta a luz do lar paterno

Doce e terno,

Doce e terno para mim.

 

Distante do solo amado

– Desterrado –

A vida não é feliz.

Nessa eterna primavera

Quem me dera,

Quem me dera o meu país!

 

Lisboa –– 1855

 

 

II

 

MINHA TERRA.

 

 

Minha terra tem palmeiras

Onde canta o sabiá.

 

G. Dias.

 

Todos cantam sua terra,

Também vou cantar a minha,

Nas débeis cordas da Lira

Hei de fazê-la rainha;

– Hei de dar-lhe a realeza

Nesse trono de beleza

Em que a mão da natureza

Esmerou-se em quanto tinha.

 

Correi pr’as bandas do sul

Debaixo dum céu de anil

Encontrareis o gigante

Santa Cruz, hoje Brasil;

– É uma terra de amores

Alcatifada de flores

Onde a brisa fala amores

Nas belas tardes de Abril.

 

Tem tantas belezas, tantas,

A minha terra natal,

Que nem as sonha um poeta

E nem as canta um mortal!

– É uma terra encantada

– Mimoso jardim de fada –

– Do mundo todo invejada,

Que o mundo não tem igual.

 

Não, não tem, que Deus fadou-a

Dentre todas – a primeira:

Deu-lhe esses campos bordados,

Deu-lhe os leques da palmeira,

E a borboleta que adeja

Sobre as flores que ela beija,

Quando o vento rumoreja

Na folhagem da mangueira.

 

É um país majestoso

Essa terra de Tupá,

Desd’o Amazonas ao Prata,

Do Rio Grande ao Pará!

 – Tem serranias gigantes

E tem bosques verdejantes

Que repetem incessantes

Os cantos do sabiá.

 

Ao lado da cachoeira,

Que se despenha fremente,

Dos galhos da sapucaia

Nas horas do sol ardente,

Sobre um solo d’açucenas,

Suspensa a rede de penas

Ali nas tardes amenas

Se embala o índio indolente

 

Foi ali que noutro tempo

À sombra do cajazeiro

Soltava seus doces carmes

O Petrarca brasileiro;

E a bela que o escutava

Um sorriso deslizava

Para o bardo que pulsava

Seu alaúde fagueiro.

 

Quando Dirceu e Marília

Em terníssimos enleios

Se beijavam com ternura

Em celestes devaneios;

Da selva o vate inspirado,

O sabiá namorado,

Na laranjeira pousado

Soltava ternos gorjeios.

 

Foi ali, foi no Ipiranga,

Que com toda a majestade

Rompeu de lábios augustos

O brado da liberdade;

Aquela voz soberana

Voou na plaga indiana

Desde o palácio à choupana,

Desde a floresta à cidade!

 

Um povo ergueu-se cantando

– Mancebos e anciãos –

E, filhos da mesma terra,

Alegres deram-se as mãos;

Foi belo ver esse povo

Em suas glórias tão novo,

Bradando cheio de fogo:

 – Portugal! somos irmãos!

 

Quando nasci, esse brado

Já não soava na serra

Nem os ecos da montanha

Ao longe diziam – guerra!

Mas não sei o que sentia

Quando, a sós, eu repetia

Cheio de nobre ousadia

O nome da minha terra!

 

Se brasileiro eu nasci

Brasileiro hei de morrer,

Que um filho daquelas matas

Ama o céu que o viu nascer;

Chora, sim, porque tem prantos,

E são sentidos e santos

Se chora pelos encantos

Que nunca mais há de ver.

 

Chora, sim, como suspiro

Por esses campos que eu amo,

Pelas mangueiras copadas

E o canto do gaturamo;

Pelo rio caudaloso,

Pelo prado tão relvoso,

E pelo tiê formoso

Da goiabeira no ramo!

 

Quis cantar a minha terra,

Mas não pode mais a lira:

Que outro filho das montanhas

O mesmo canto desfira,

Que o proscrito, o desterrado

De ternos prantos banhado,

De saudades torturado,

Em vez de cantar – suspira!

 

Tem tantas belezas, tantas,

A minha terra natal,

Que nem as sonha um poeta

E nem as canta um mortal!

 – É uma terra de amores

Alcatifada de flores

Onde a brisa em seus rumores

Murmura: – não tem rival!

 

Lisboa – 1856.

 

 

III

 

SAUDADES.

 

Nas horas mortas da noite

Como é doce o meditar

Quando as estrelas cintilam

Nas ondas quietas do mar;

Quando a lua majestosa

Surgindo linda e formosa,

Como donzela vaidosa

Nas águas se vai mirar!

 

Nessas horas de silêncio,

De tristezas e de amor,

Eu gosto de ouvir ao longe,

Cheio de mágoa e de dor,

O sino do campanário

Que fala tão solitário

Com esse som mortuário

Que nos enche de pavor.

 

Então – proscrito e sozinho –

Eu solto aos ecos da serra

Suspiros dessa saudade

Que no meu peito se encerra.

Esses prantos de amargores

São prantos cheios de dores:

– Saudades – dos meus amores,

– Saudades – da minha terra !

 

....1856

 

 

IV

 

CANÇÃO DO EXÍLIO.

 

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,

Meu Deus! não seja já;

Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,

Cantar o sabiá!

 

Meu Deus, eu sinto e tu bem vês que eu morro

Respirando este ar;

Faz que eu viva, Senhor! -me de novo

Os gozos do meu lar!

 

O país estrangeiro mais belezas

Do que a pátria, não tem;

E este mundo não vale um só dos beijos

Tão doces duma mãe!

 

Dá-me os sítios gentis onde eu brincava

Lá na quadra infantil;

Dá que eu veja uma vez o céu da pátria,

O céu do meu Brasil!

 

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,

Meu Deus! não seja já!

Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,

Cantar o sabiá!

 

 

Quero ver esse céu da minha terra

Tão lindo e tão azul!

E a nuvem cor de rosa que passava

Correndo lá do sul!

 

Quero dormir à sombra dos coqueiros,

As folhas por dossel;

E ver se apanho a borboleta branca,

Que voa no vergel!

 

Quero sentar-me à beira do riacho

Das tardes ao cair,

E sozinho cismando no crepúsculo

Os sonhos do porvir!

 

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,

Meu Deus! não seja já;

Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,

A voz do sabiá!

 

Quero morrer cercado dos perfumes

Dum clima tropical,

E sentir, expirando, as harmonias

Do meu berço natal!

 

Minha campa será entre as mangueiras

Banhada do luar,

E eu contente dormirei tranqüilo

À sombra do meu lar!

 

As cachoeiras chorarão sentidas

Porque cedo morri,

E eu sonho no sepulcro os meus amores

Na terra onde nasci!

 

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,

Meu Deus! não seja já

Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,

Cantar o sabiá!

 

Lisboa – 1857.

 

 

V

 

MINHA MÃE.

 

Oh l‘amour d’une mère ! – amour que nul n’oublie!

 

V. Hugo.

 

Da pátria formosa distante e saudoso,

Chorando e gemendo meus cantos de dor,

Eu guardo no peito a imagem querida

Do mais verdadeiro, do mais santo amor:

– Minha Mãe! –

 

Nas horas caladas das noites d’estio

Sentado sozinho co’a face na mão,

Eu choro e soluço por quem me chamava

– “Oh filho querido do meu coração!”

– Minha Mãe! –

 

No berço, pendente dos ramos floridos

Em que eu pequenino feliz dormitava:

Quem é que esse berço com todo o cuidado

Cantando cantigas alegre embalava?

– Minha Mãe! –

 

De noite, alta noite, quando eu já dormia

Sonhando esses sonhos dos anjos dos céus,

Quem é que meus lábios dormentes roçava,

Qual anjo da guarda, qual sopro de Deus?

– Minha Mãe! –

 

Feliz o bom filho que pode contente

Na casa paterna de noite e de dia

Sentir as carícias do anjo de amores,

Da estrela brilhante que a vida nos guia!

– Uma Mãe! –

 

Por isso eu agora na terra do exílio,

Sentado sozinho co’a face na mão,

Suspiro e soluço por quem me chamava:

– “Oh filho querido do meu coração!”

– Minha Mãe! –

 

Lisboa – 1855.

 

 

VI

 

ROSA MURCHA.

 

Esta rosa desbotada

Já tantas vezes beijada,

Pálido emblema de amor;

É uma folha caída

Do livro da minha vida,

Um canto imenso de dor!

 

.....................................................

 

que tempos ! Bem me lembro...

Foi num dia de Novembro:

Deixava a terra natal,

A minha pátria tão cara,

O meu lindo Guanabara,

Em busca de Portugal.

 

Na hora da despedida

Tão cruel e tão sentida

P’ra quem sai do lar fagueiro;

Duma lágrima orvalhada,

Esta rosa foi-me dada

Ao som dum beijo primeiro.

 

Deixava a pátria, é verdade,

Ia morrer de saudade

Noutros climas, noutras plagas;

Mas tinha orações ferventes

Duns lábios inda inocentes

Enquanto cortasse as vagas.

 

E hoje, e hoje, meu Deus?!

– Hei de ir junto aos mausoléus

No fundo dos cemitérios,

E ao baço clarão da lua

Da campa na pedra nua

Interrogar os mistérios!

 

Carpir o lírio pendido

Pelo vento desabrido...

Da divindade aos arcanos

Dobrando a fronte saudosa,

Chorar a virgem formosa

Morta na flor dos anos!

 

Era um anjo! Foi pr’o céu

Envolta em místico véu

Nas asas dum querubim;

Já dorme o sono profundo,

E despediu-se do mundo

Pensando talvez em mim!

 

.....................................................

 

Oh! esta flor desbotada,

Já tantas vezes beijada,

Que de mistérios não tem!

Em troca do seu perfume

Quanta saudade resume

E quantos prantos também!

 

Lisboa – 1855.

 

 

VII

 

JURITI

 

Na minha terra, no bulir do mato,

A juriti suspira;

E como o arrulo dos gentis amores,

São os meus cantos de secretas dores

No chorar da lira.

 

De tarde a pomba vem gemer sentida

À beira do caminho;

– Talvez perdida na floresta ingente –

A triste geme nessa voz plangente

Saudades do seu ninho.

 

Sou como a pomba e como as vozes dela

É triste o meu cantar;

– Flor dos trópicos – cá na Europa fria

Eu definho, chorando noite e dia

Saudades do meu lar.

 

A juriti suspira sobre as folhas secas

Seu canto de saudade;

Hino de angústia, férvido lamento,

Um poema de amor e sentimento,

Um grito d’orfandade!

 

Depois... o caçador chega cantando.

À pomba faz o tiro...

A bala acerta e ela cai de bruços,

E a voz lhe morre nos gentis soluços,

No final suspiro.

 

E como o caçador, a morte em breve

Levar-me-á consigo;

E descuidado, no sorrir da vida,

Irei sozinho, a voz desfalecida,

Dormir no meu jazigo.

 

E – morta – a pomba nunca mais suspira

À beira do caminho;

E como a juriti, – longe dos lares

Nunca mais chorarei nos meus cantares

Saudades do meu ninho!

 

Lisboa – 1857.

 

 

VIII

 

MEUS OITO ANOS.

 

 

Oh! Souvenirs! Printemps! Aurores!

 

V. Hugo.

 

Oh! que saudades que tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!

Que amor, que sonhos, que flores.

Naquelas tardes fagueiras

À sombra das bananeiras,

Debaixo dos laranjais!

 

Como são belos os dias

Do despontar da existência!

– Respira a alma inocência

Como perfumes a flor;

O mar é – lago sereno,

O céu – um manto azulado,

O mundo – um sonho dourado,

A vida – um hino d’amor!

 

Que auroras, que sol, que vida,

Que noites de melodia

Naquela doce alegria,

Naquele ingênuo folgar!

O céu bordado d’estrelas,

A terra de aromas cheia,

As ondas beijando a areia

E a lua beijando o mar!

 

Oh! dias da minha infância!

Oh! meu céu de primavera

Que doce a vida não era

Nessa risonha manhã!

Em vez das mágoas de agora,

Eu tinha nessas delícias

De minha mãe as carícias

E beijos de minha irmã!

 

Livre filho das montanhas,

Eu ia bem satisfeito,

Da camisa aberto o peito,

– Pés descalços, braços nus

Correndo pelas campinas

À roda das cachoeiras.

Atrás das asas ligeiras

Das borboletas azuis!

 

Naqueles tempos ditosos

Ia colher as pitangas,

Trepava a tirar as mangas,

Brincava à beira do mar;

Rezava às Ave-Marias,

Achava o céu sempre lindo,

Adormecia sorrindo

E despertava a cantar!

 

.....................................................

 

Oh! que saudades que tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!

 

– Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

À sombra das bananeiras,

Debaixo dos laranjais!

 

Lisboa – 1857.

 

 

IX

 

NO ÁLBUM DE J.C.M.

 

Nestas folhas perfumadas

Pelas rosas desfolhadas

Desses cantos de amizade,

Permite que venha agora

Quem longe da pátria chora

Bem triste gravar: – saudade!

 

Lisboa.

 

 

X

 

NO LAR.

 

Terra da minha pátria, abre-me o seio

Na morte – ao menos........

 

Garrett

 

I

 

Longe da pátria, sob um céu diverso

Onde o sol como aqui tanto não arde,

Chorei saudades do meu lar querido

– Ave sem ninho que suspira à tarde. –

 

No mar – de noite – solitário e triste

Fitando os lumes que no céu tremiam,

Ávido e louco nos meus sonhos d’alma

Folguei nos campos que meus olhos viam.

 

Era pátria e família e vida e tudo,

Glória, amores, mocidade e crença,

E, todo em choros, vim beijar as praias

Porque chorara nessa longa ausência.

 

Eis-me na pátria, no país das flores,

– O filho pródigo a seus lares volve,

E concertando as suas vestes rotas,

O seu passado com prazer revolve! –

 

Eis meu lar, minha casa, meus amores,

A terra onde nasci, meu teto amigo,

A gruta, a sombra, a solidão, o rio

Onde o amor me nasceu – cresceu comigo.

 

Os mesmos campos que eu deixei criança,

Árvores novas... tanta flor no prado!...

Oh! como és linda, minha terra d’alma,

– Noiva enfeitada para o seu noivado! –

 

Foi aqui, foi ali, além... mais longe,

Que eu sentei-me a chorar no fim do dia;

– Lá vejo o atalho que vai dar na várzea...

Lá o barranco por onde eu subia!...

 

Acho agora mais seca a cachoeira

Onde banhei-me no infantil cansaço...

– Como está velho o laranjal tamanho

Onde eu caçava o sanhaçu a laço!...

 

Como eu me lembro dos meus dias puros!

Nada m’esquece!... e esquecer quem há de?...

– Cada pedra que eu palpo, ou tronco, ou folha,

Fala-me ainda dessa doce idade!

 

Eu me remoço recordando a infância,

E tanto a vida me palpita agora

Que eu dera oh! Deus! a mocidade inteira

Por um só dia do viver d’outrora!

 

E a casa?... as salas, estes móveis... tudo,

O crucifixo pendurado ao muro...

O quarto do oratório... a sala grande

Onde eu temia penetrar no escuro!...

 

E ali... naquele canto... o berço armado

E minha mana, tão gentil, dormindo!

E mamãe a contar-me histórias lindas

Quando eu chorava e a beijava rindo!

 

Oh! primavera! oh! minha mãe querida

Oh! mana! – anjinho que eu amei com ânsia –

Vinde ver-me, em soluços – de joelhos

Beijando em choros este pó da infância!

 

II

 

Meu Deus! eu chorei tanto lá no exílio!

Tanta dor me cortou a voz sentida,

Que agora neste gozo de proscrito

Chora minh’alma e me sucumbe a vida!

 

Quero amor! quero vida! e longa e bela

Que eu, Senhor! não vivi – dormi apenas!

Minh’alma que s’expande e se entumece

Despe o seu luto nas canções amenas.

 

Que sede que eu sentia nessas noites!

Quanto beijo roçou-me os lábios quentes!

E, pálido, acordava no meu leito

 – Sozinho – e órfão das visões ardentes!

 

Quero amor! quero vida! aqui, na sombra,

No silêncio e na voz desta natura;

– Da primavera de minh’alma os cantos

Caso co’as flores da estação mais pura.

 

Quero amor! quero vida! os lábios ardem.

Preciso as dores dum sentir profundo!

– Sôfrego a taça esgotarei dum trago

Embora a morte vá topar no fundo.

 

Quero amor! quero vida! Um rosto virgem,

– Alma de arcanjo que me fale amores,

Que ria e chore, que suspire e gema

E doure a vida sobre um chão de flores.

 

Quero amor! quero amor! – Uns dedos brancos

Que passem a brincar nos meus cabelos;

Rosto lindo de fada vaporosa

Que dê-me vida e que me mate em zelos!

 

– Oh! céu de minha terra – azul sem mancha –

Oh! sol de fogo que me queima a fronte,

Nuvens douradas que correis no ocaso,

Névoas da tarde que cobris o monte;

 

Perfumes da floresta, vozes doces,

Mansa lagoa que o luar prateia,

Claros riachos, cachoeiras altas,

Ondas tranqüilas que morreis na areia;

 

Aves dos bosques, brisas das montanhas,

Bem-te-vis do campo, sabiás da praia,

– Cantai, correi, brilhai – minh’alma em ânsias

Treme de gozo e de prazer desmaia!

 

Flores, perfumes, solidões, gorjeios,

Amor, ternura – modulai-me a lira!

– Seja um poema este ferver de idéias

Que a mente cala e o coração suspira.

 

Oh! mocidade! bem te sinto e vejo!

De amor e vida me trasborda o peito...

– Basta-me um ano!... e depois... na sombra...

Onde tive o berço quero ter meu leito!

 

Eu canto, eu choro, eu rio, e grato e louco

Nos pobres hinos te bendigo, oh! Deus!

Deste-me os gozos do meu lar querido...

Bendito sejas! – vou viver c’os meus!

 

Indaiassú – 1857.

 

 

XI

                      

BRAZILIANAS

 

MORENINHA.

 

Moreninha, Moreninha,

Tu és do campo a rainha,

Tu és senhora de mim;

Tu matas todos d’amores,

Faceira, vendendo as flores

Que colhes no teu jardim.

 

Quando tu passas n’aldeia

Diz o povo à boca cheia:

“Mulher mais linda não há

“Ai! vejam como é bonita

Co’as tranças presas na fita,

Co’as flores no samburá! –

 

Tu és meiga, és inocente

Como a rola que contente

Voa e folga no rosal;

Envolta nas simples galas,

Na voz, no riso, nas falas,

Morena – não tens rival!

 

Tu, ontem, vinhas do monte

E paraste ao pé da fonte

À fresca sombra do til;

Regando as flores, sozinha,

Nem tu sabes, Moreninha,

O quanto achei-te gentil!

 

Depois segui-te calado

Como o pássaro esfaimado

Vai seguindo a juriti;

Mas tão pura ias brincando,

Pelas pedrinhas saltando,

Que eu tive pena de ti!

 

E disse então: – Moreninha,

Se um dia tu fores minha,

Que amor, que amor não terás!

Eu dou-te noites de rosas

Cantando canções formosas

Ao som dos meus ternos ais.

 

Morena, minha sereia,

Tu és a rosa da aldeia,

Mulher mais linda não há;

Ninguém t’iguala ou t’imita

Co’as tranças presas na fita,

Co’as flores no samburá!

 

Tu és a deusa da praça,

E todo o homem que passa

Apenas viu-te... parou!

Segue depois seu caminho

Mas vai calado e sozinho

Porque sua alma ficou!

 

Tu és bela, Moreninha,

Sentada em tua banquinha

Cercada de todos nós;

Rufando alegre o pandeiro,

Como a ave no espinheiro

Tu soltas também a voz:

 

“Oh quem me compra estas flores?

“São lindas como os amores,

“Tão belas não há assim;

“Foram banhadas de orvalho,

“São flores do meu serralho,

“Colhi-as no meu jardim.”

 

Morena, minha Morena,

És bela, mas não tens pena

De quem morre de paixão!

– Tu vendes flores singelas

E guardas as flores belas,

As rosas do coração?!...

 

Moreninha, Moreninha,

Tu és das belas rainha,

Mas nos amores és má

– Como tu ficas bonita

Co’as tranças presas na fita,

Co’as flores no samburá!

 

Eu disse então: – “Meus amores,

“Deixa mirar tuas flores,

“Deixa perfumes sentir!”

Mas naquele doce enleio,

Em vez das flores, no seio,

No seio te fui bulir!

 

Como nuvem desmaiada

Se tinge de madrugada

Ao doce albor da manhã

Assim ficaste, querida,

A face em pejo acendida,

Vermelha como a romã!

 

Tu fugiste, feiticeira,

E decerto mais ligeira

Qualquer gazela não é;

Tu ias de saia curta...

Saltando a moita de murta

Mostraste, mostraste o pé!

 

Ai! Morena, ai! meus amores,

Eu quero comprar-te as flores,

Mas dá-me um beijo também;

Que importam rosas do prado

Sem o sorriso engraçado

Que a tua boquinha tem?...

 

Apenas vi-te, sereia,

Chamei-te – rosa da aldeia –

Como mais linda não há.

– Jesus! Como eras bonita

Co’as tranças presas na fita,

Co’as flores no samburá!

 

Indaiassú – 1857.

 

 

XII

 

NA REDE.

 

Nas horas ardentes do pino do dia

Aos bosques corri;

E qual linda imagem dos castos amores,

Dormindo e sonhando cercada de flores

Nos bosques a vi!

 

Dormia deitada na rede de penas

– O céu por dossel,

De leve embalada no quieto balanço

Qual nauta cismando num lago bem manso

Num leve batel!

 

Dormia e sonhava – no rosto serena

Qual um serafim;

Os cílios pendidos nos olhos tão belos,

E a brisa brincando nos soltos cabelos

De fino cetim!

 

Dormia e sonhava – formosa embebida

No doce sonhar,

E doce e sereno num mágico anseio

Debaixo das roupa batia-lhe o seio

No seu palpitar!

 

Dormia e sonhava – a boca entreaberta

O lábio a sorrir;

No peito cruzados os braços dormentes,

Compridos e lisos quais brancas serpentes

No colo a dormir!

 

Dormia e sonhava – no sonho de amores.

Chamava por mim,

E a voz suspirosa nos lábios morria

Tão terna e tão meiga qual vaga harmonia

De algum bandolim!

 

Dormia e sonhava – de manso cheguei-me

Sem leve rumor;

Pendi-me tremendo e qual fraco vagido,

Qual sopro da brisa, baixinho ao ouvido

Falei-lhe de amor!

 

Ao hálito ardente o peito palpita...

Mas sem despertar;

E como nas ânsias dum sonho que é lindo,

A virgem na rede corando e sorrindo...

Beijou-me – a sonhar!

 

Junho – 1858.

 

 

XIII

 

A VOZ DO RIO.

 

NUM ÁLBUM.

 

Nosso sol é de fogo, o campo é verde,

O mar é manso, nosso céu azul!

– Ai! porque deixas este pátrio ninho

Pelas friezas dos vergéis do sul?

 

Lá nessa terra onde o Guaíba chora

Não são as noites, como aqui, formosas,

E as duras asas do Pampeiro iroso

Quebra as tulipas e desfolha as rosas.

 

A lua é doce, nosso mar tranqüilo,

Mais leve a brisa, nosso céu azul!...

Tupá! quem troca pelo pátrio ninho

As ventanias dos vergéis do sul?!

 

Lá novos campos outros campos ligam

E a vista fraca na extensão se perde!

E tu sozinha viverás no exílio

– Garça perdida nesse mar que é verde! –

 

Nossas campinas como doces noivas

Vivem c’os montes sob o céu azul!

– Há vida e amores neste pátrio ninho

Mais rico e belo que os vergéis do sul!

 

Essas palmeiras não tem tantos leques,

O sol das Pampas marcou seu brilho,

Nem cresce o tronco que susteve um dia

O berço lindo em que dormiu teu filho!

 

Nossas florestas sacudindo os galhos

Tocam c’os braços este céu azul!...

– Se tudo é grande neste pátrio ninho

Porque deixai-o p’ra viver no sul?!...

 

Embora digas – essa terra fria

Merece amores, é irmã da minha

Quem dar-te pode este calor do ninho,

A luz suave que o teu berço tinha?!

 

Eu – Guanabara – no meu longo espelho

Reflito as nuvens deste céu azul;

– Ó minha filha! Acalentei-te o sono,

Porque me deixas p’ra viver no sul?!...

 

Lá, quando a terra s’embuçar nas sombras

E o sol medroso s’esconder nas águas,

Teu pensamento, como o sol que morre,

Há de cismando mergulhar-se em mágoas!

 

Mas se forçoso t’é deixar a pátria

Pelas friezas dos vergéis do sul,

Ó minha filha! não t’esqueças nunca

Destas montanhas, deste céu azul.

 

Tupá bondoso te derrame graças,

Doce ventura te bafeje e siga,

E nos meus braços – ao voltar do exílio –

Saudando o berço que teu lábio diga:

 

“Volvo contente para o pátrio ninho,

“Deixei sorrindo esses vergéis do sul;

“Tinha saudades deste sol de fogo...

“Não deixo mais este meu céu azul!...

 

Rio – 1858.

 

 

XIV

 

SETE DE SETEMBRO.

 

A D.PEDRO II.

 

I.

 

Foi um dia de glória! – O povo altivo

Trocou sorrindo as vozes de cativo

Pelo cantar das festas!

O leão indomável do deserto

Bramiu soberbo, dos grilhões liberto,

No meio das florestas!

 

Lá no Ipiranga do Brasil o Marte

Enrolado nas dobras do estandarte

Erguia o augusto porte;

Cercada a fronte dos lauréis da glória

Soltou tremendo brado da vitória:

– Independência ou morte!

 

O santo amor dos corações ardentes

Achou eco no peito dos valentes

No campo e na cidade;

E nos salões – do pescador nos lares,

Livres soaram hinos populares

À voz da liberdade!

 

II.

 

Anos correram; – no torrão fecundo

Ao sol de fogo deste novo-mundo

A semente brotou;

E franca e leda, a geração nascente

À copa altiva da árvore frondente

Segura se abrigou!

 

A roda da bandeira sacrossanta

Um povo esperançoso se levanta

Infante e a sorrir!

A nação do letargo se desperta,

E – livre – marcha pela estrada aberta

Às glórias do porvir!

 

O país, n’alegria todo imerso,

Velava atento à roda só dum berço.

Era o vosso, Senhor!

Vós do tronco feliz doce renovo,

Vede agora, Senhor, na voz do povo

Quão grande é seu amor!

 

Rio – 1858.

 

 

XV

 

CÂNTICOS.

 

POESIA E AMOR.

 

A tarde que expira,

A flor que suspira,

O canto da lira,

Da lua o clarão;

Dos mares na raia

A luz que desmaia,

E as ondas na praia

Lambendo-lhe o chão;

 

Da noite a harmonia

Melhor que a do dia,

E a viva ardentia

Das águas do mar;

A virgem incauta,

As vozes da flauta,

E o canto do nauta

Chorando o seu lar;

 

Os trêmulos lumes,

Da fonte os queixumes,

E os meigos perfumes

Que solta o vergel;

As noites brilhantes,

E os doces instantes

Dos noivos amantes

Na lua de mel;

 

Do templo nas naves

As notas suaves,

E o trino das aves

Saudando o arrebol;

As tardes estivas,

E as rosas lascivas

Erguendo-se altivas

Aos raios do sol;

 

A gota de orvalho

Tremendo no galho

Do velho carvalho,

Nas folhas do ingá;

O bater do seio,

Dos bosques no meio

O doce gorjeio

Dalgum sabiá;

 

A órfã que chora,

A flor que se cora

Aos raios da aurora,

No albor da manhã;

Os sonhos eternos,

Os gozos mais ternos,

Os beijos maternos

E as vozes de irmã;

 

O sino da torre

Carpindo quem morre,

E o rio que corre

Banhando o chorão;

O triste que vela

Cantando à donzela

A trova singela

Do seu coração;

 

A luz da alvorada,

E a nuvem dourada

Qual berço de fada

Num céu todo azul;

No lago e nos brejos

Os férvidos beijos

E os loucos bafejos

Das brisas do sul;

 

Toda essa ternura

Que a rica natura

Soletra e murmura

Nos hálitos seus,

Da terra os encantos,

Das noites os prantos,

São hinos, são cantos

Que sobem a Deus!

 

Os trêmulos lumes,

Da veiga os perfumes,

Da fonte os queixumes,

Dos prados a flor,

Do mar a ardentia

Da noite a harmonia,

Tudo isso é – poesia!

Tudo isso é – amor!

 

Indaiassú – 1857.

 

 

XVI

 

ORAÇÕES

 

A***

 

A alma, como o incenso, ao céu s’eleva

Da férvida oração nas asas puras,

E Deus recebe como um longo hosana

O cântico de amor das criaturas.

 

Do trono d’ouro que circundam anjos

Sorrindo ao mundo a Virgem-Mãe s’inclina

Ouvindo as vozes d’inocência bela

Dos lábios virginais duma menina.

 

Da tarde morta o murmurar se cala

Ante a prece infantil, que sobe e voa

Fresca e serena qual perfume doce

Das frescas rosas de gentil coroa.

 

As doces falas de tua alma santa

Valem mais do que eu valho oh! querubim!

Quando rezares por teu mano

Não t’esqueças também – reza por mim!

 

 

XVII

 

BÁLSAMO.

 

Eu vi-a lacrimosa sobre as pedras

Rojar-se essa mulher que a dor ferira!

A morte lhe roubara dum só golpe

Marido e filho, encaneceu-lhe a fronte,

E deixou-a sozinha e desgrenhada

– Estátua da aflição aos pés dum túmulo! –

O esquálido coveiro p’ra dois corpos

Ergueu a mesma enxada, e nessa noite

A mesma cova os teve!

E a mãe chorava,

E mais alto que o choro erguia as vozes!

 

.....................................................................................

 

No entanto o sacerdote – fronte branca

Pelo gelo dos anos – a seu lado

Tentava consolá-la

A mãe aflita

Sublime desse belo desespero

As vozes não lhe ouvia; a dor suprema

Toldava-lhe a razão no duro trance.

 

“Oh! padre! – disse a pobre s’estorcendo

Co’a voz cortada dos soluços d’alma –

“Onde o bálsamo, as falas d’esperança,

“O alívio à minha dor?!”

Grave e solene,

O padre não falou – mostrou-lhe o céu!

 

Rio – 1858

 

 

XVIII

 

DEUS!

 

Eu me lembro! eu me lembro! – Era pequeno

E brincava na praia; o mar bramia

E erguendo o dorso altivo, sacudia

A branca escuma para o céu sereno

 

E eu disse a minha mãe nesse momento:

“Que dura orquestra! Que furor insano!

“Que pode haver maior que o oceano,

“Ou que seja mais forte do que o vento?!”

 

Minha mãe a sorrir olhou p’r’os céus

E respondeu: – Um Ser que nós não vemos

“É maior do que o mar que nós tememos,

“Mais forte que o tufão! Meu filho, é – Deus!” –

 

Dezembro – 1858.

 

 

LIVRO SEGUNDO

 

 

La chanson la plus charmante
Est la chanson des amours!

 

V. Hugo.

 

 

XIX

 

PRIMAVERAS.

 

Primavera! juventud Del anno,

Mocidad! primavera della vita.

 

Metastasio

 

 

I.

 

A primavera é a estação dos risos,

Deus fita o mundo com celeste afago,

Tremem as folhas e palpita o lago

Da brisa louca aos amorosos frisos.

 

Na primavera tudo é viço e gala,

Trinam as aves a canção de amores.

E doce e bela no tapiz das flores

Melhor perfume a violeta exala.

 

Na primavera tudo é riso e festa,

Brotam aromas do vergel florido,

E o ramo verde de manhã colhido

Enfeita a fronte da aldeã modesta.

 

A natureza se desperta rindo,

Um hino imenso a criação modula,

Canta a calhandra, a juriti arrula,

O mar é calmo porque o céu é lindo.

 

Alegre e verde se balança o galho,

Suspira a fonte na linguagem meiga,

Murmura a brisa: – Como é linda a veiga!

Responde a rosa: – Como é doce o orvalho!

 

II.

 

Mas como às vezes sobre o céu sereno

Corre uma nuvem que a tormenta guia,

Também a lira alguma vez sombria

Solta gemendo de amargura um treno.

 

São flores murchas; – o jasmim fenece,

Mas bafejado s’erguerá de novo

Bem como o galho do gentil renovo

Durante a noite, quando o orvalho desce.

 

Se um canto amargo de ironia cheio

Treme nos lábios do cantor mancebo,

Em breve a virgem do seu casto enlevo

Dá-lhe um sorriso e lhe intumesce o seio

 

Na primavera – na manhã da vida –

Deus às tristezas o sorriso enlaça,

E a tempestade se dissipa e passa

À voz mimosa da mulher querida.

 

Na mocidade, na estação fogosa,

Ama-se a vida – a mocidade é crença,

E a alma virgem nesta festa imensa

Canta, palpita, s’extasia e goza.

 

1º de Julho – 1858.

 

 

XX

 

CENA ÍNTIMA.

 

Como estás hoje zangada

E como olhas despeitada

Só p’ra mim!

– Ora diz-me: esses queixumes,

Esses injustos ciúmes

Não têm fim?

 

Que pequei eu bem conheço,

Mas castigo não mereço

Por pecar;

Pois tu queres chamar crime

Render-me à chama sublime

Dum olhar!

 

Por ventura te esqueceste

Quando de amor me perdeste

Num sorrir?

Agora em cólera imensa

Já queres dar a sentença

Sem me ouvir!

 

E depois, se eu te repito

Que nesse instante maldito

– Sem querer –

Arrastado por magia

Mil torrentes de poesia

Fui beber!

 

Eram uns olhos escuros

Muito belos, muito puros,

Como os teus!

Uns olhos assim tão lindos

Mostrando gozos infindos,

Só dos céus!

 

Quando os vi fulgindo tanto

Senti no peito um encanto

Que não sei!

Juro falar-te a verdade...

Foi decerto – sem vontade –

Que eu pequei!

 

Mas hoje, minha querida,

Eu dera até esta vida

P’ra poupar

Essas lágrimas queixosas,

Que as tuas faces mimosas

Vêm molhar!

 

Sabe ainda ser clemente,

Perdoa um erro inocente

Minha flor!

Seja grande embora o crime

O perdão sempre é sublime

Meu amor!

 

Mas se queres com maldade

Castigar quem – sem vontade –

Só pecou;

Olha, linda, eu não me queixo,

A teus pés cair me deixo...

Aqui ‘stou!

 

Mas se me deste, formosa,

De amor na taça mimosa

Doce mel;

Ai! deixa que peça agora

Esses extremos d’outrora

O infiel:

 

Prende-me... nesses teus braços

Em doces, longos abraços

Com paixão;

Ordena com gesto altivo...

Que te beije este cativo

Essa mão!

 

Mata-me sim... de ventura,

Com mil beijos de ternura

Sem ter dó,

Que eu prometo, anjo querido,

Não desprender um gemido,

Nem um só!

 

 

XXI

 

JURAMENTO.

 

Tu dizes oh Mariquinhas

Que não crês nas juras minhas,

Que nunca cumpridas são!

Mas se eu não te jurei nada,

Como hás de tu, estouvada,

Saber se eu as cumpro ou não?!

 

Tu dizes que eu sempre minto,

Que protesto o que não sinto,

Que todo o poeta é vário,

Que é borboleta inconstante;

Mas agora, neste instante,

Eu vou provar-te o contrário.

 

Vem cá, sentada a meu lado

Com esse rosto adorado

Brilhante de sentimento,

Ao colo o braço cingido,

Olhar no meu embebido,

Escuta o meu juramento.

 

Espera: – inclina essa fronte...

Assim!... – Pareces no monte

Alvo lírio debruçado!

– Agora, se em mim te fias,

Fica séria, não te rias,

O juramento é sagrado.

 

– Eu juro sobre estas tranças,

“E pelas chamas que lanças

“Desses teus olhos divinos;

“Eu juro, minha inocente,

“Embalar-te docemente

“Ao som dos mais ternos hinos!

 

“Pelas ondas, pelas flores,

“Que se estremecem de amores

“Da brisa ao sopro lascivo;

“Eu juro, por minha vida,

“Deitar-me a teus pés, querida,

“Humilde como um cativo!

 

“Pelos lírios, pelas rosas,

“Pelas estrelas formosas,

“Pelo sol que brilha agora,

– Eu juro dar-te, Maria,

“Quarenta beijos por dia

“E dez abraços por hora!”

 

O juramento está feito,

Foi dito co’a mão no peito

Apontando ao coração;

E agora – por vida minha,

Tu verás oh! moreninha,

Tu verás se o cumpro ou não!...

 

Rio – 1857.

 

 

XXII

 

PERFUMES E AMOR.

 

NA PRIMEIRA FOLHA DUM ÁLBUM.

 

A flor mimosa que abrilhanta o prado

Ao sol nascente vai pedir fulgor;

E o sol, abrindo da açucena as folhas,

Dá-lhe perfumes – e não nega amor.

 

Eu que não tenho, como o sol, seus raios,

Embora sinta nesta fronte ardor,

Sempre quisera ao encetar teu álbum

Dar-lhe perfumes – desejar-lhe amor.

 

Meu Deus! nas folhas deste livro puro

Não manche o pranto da inocência o alvor,

Mas cada canto que cair dos lábios

Traga perfumes – e murmure amor.

 

Aqui se junte, qual num ramo santo,

Do nardo o aroma e da camélia a cor,

E possa a virgem, percorrendo as folhas,

Sorver perfumes – respirar amor.

 

Encontre a bela, caprichosa sempre,

Nos ternos hinos d’infantil frescor

Entrelaçados na grinalda amiga

Doces perfumes – e celeste amor.

 

Talvez que diga, recordando tarde

O doce anelo do feliz cantor:

 – “Meu Deus! nas folhas do meu livro d’alma

Sobram perfumes – e não falta amor!

 

Junho – 1858.

 

 

XXIII

 

SEGREDOS.

 

Eu tenho uns amores – quem é que os não tinha

Nos tempos antigos? – Amar não faz mal;

As almas que sentem paixão como a minha

Que digam, que falem em regra geral.

– A flor dos meus sonhos é moça e bonita

Qual flor entreaberta do dia ao raiar,

Mas onde ela mora, que casa ela habita,

Não quero, não posso, não devo contar!

 

Seu rosto é formoso, seu talhe elegante,

Seus lábios de rosa, a fala é de mel,

As tranças compridas, qual livre bacante,

O pé de criança, cintura de anel;

– Os olhos rasgados são cor das safiras

Serenos e puros, azuis como o mar;

Se falam sinceros, se pregam mentiras,

Não quero, não posso, não devo contar!

 

Oh! ontem no baile com ela valsando

Senti as delícias dos anjos do céu!

Na dança ligeira qual silfo voando

Caiu-lhe do rosto seu cândido véu!

– Que noite e que baile ! – Seu hálito virgem

Queimava-me as faces no louco valsar,

As falas sentidas que os olhos falavam

Não posso, não quero, não devo contar!

 

Depois indolente firmou-se em meu braço,

Fugimos das salas, do mundo talvez!

Inda era mais bela rendida ao cansaço

Morrendo de amores em tal languidez!

– Que noite e que festa! e que lânguido rosto

Banhado ao reflexo do branco luar!

A neve do colo e as ondas dos seios

Não quero, não posso, não devo contar!

 

A noite é sublime! – Tem longos queixumes,

Mistérios profundos que eu mesmo não sei:

Do mar os gemidos, do prado os perfumes,

De amor me mataram, de amor suspirei!

– Agora eu vos juro... Palavra! – não minto

Ouvi-a formosa também suspirar;

Os doces suspiros que os ecos ouviram

Não quero, não posso, não devo contar!

 

Então nesse instante nas águas do rio

Passava uma barca, e o bom remador

Cantava na flauta: – “Nas noites d’estio

O céu tem estrelas, o mar tem amor!

– E a voz maviosa do bom gondoleiro

Repete cantando: – “viver é amar!”

Se os peitos respondem à voz do barqueiro...

Não quero, não posso, não devo contar!

 

Trememos de medo... a boca emudece

Mas sentem-se os pulos do meu coração!

Seu seio nevado de amor se intumesce...

E os lábios se tocam no ardor da paixão!

– Depois... mas já vejo que vós, meus senhores,

Com fina malícia quereis me enganar.

Aqui faço ponto; – segredos de amores

Não quero, não posso, não devo contar!

 

Rio – 1857.

 

 

XXIV

 

CLARA.

 

Não sabes, Clara, que pena

Eu teria se – morena

Tu fosses em vez de clara!

Talvez... Quem sabe?... não digo...

Mas refletindo comigo

Talvez nem tanto te amara!

 

A tua cor é mimosa,

Brilha mais da face a rosa,

Tem mais graça a boca breve.

O teu sorriso é delírio...

És alva da cor do lírio,

És clara da cor da neve!

 

A morena é predileta,

Mas a clara é do poeta:

Assim se pintam arcanjos.

Qualquer, encantos encerra,

Mas a morena é da terra

Enquanto a clara é dos anjos!

 

Mulher morena é ardente:

Prende o amante demente

Nos fios do seu cabelo;

– A clara é sempre mais fria,

Mas dá-me licença um dia

Que eu vou arder no teu gelo!

 

A cor morena é bonita,

Mas nada, nada te imita

Nem mesmo sequer de leve.

– O teu sorriso é delírio...

És alva da cor do lírio,

És clara da cor da neve!

 

 

XXV

 

A VALSA.

 

A M.***

 

Tu, ontem,

Na dança

Que cansa,

Voavas
Co’as faces
Em rosas
Formosas

De vivo,

Lascivo

Carmim;

Na valsa

Tão falsa,

Corrias,

Fugias,

Ardente,

Contente,

Tranqüila,

Serena,

Sem pena
De mim!
 
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!
– Não negues

Não mintas...

— Eu vi!...

 

Valsavas:

– Teus belos

Cabelos,

Já soltos,

Revoltos,

Saltavam,

Voavam,

Brincavam
No colo

Que é meu;

E os olhos
Escuros

Tão puros,

Os olhos
Perjuros

Volvias,

Tremias,

Sorrias
P’ra outro
Não eu!
 
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera

Que sintas!...

– Não negues,

Não mintas...

– Eu vi!...

 
Meu Deus!
Eras bela

Donzela,

Valsando,

Sorrindo,

Fugindo,

Qual silfo

Risonho

Que em sonho

Nos vem!

Mas esse

Sorriso

Tão liso

Que tinhas

Nos lábios

De rosa,

Formosa,

Tu davas,

Mandavas

A quem?!

 

Quem dera

Que sintas

As dores

De amores

Que louco

Senti!

Quem dera

Que sintas!...

– Não negues,

Não mintas...

– Eu vi!...

 

Calado,

Sozinho,

Mesquinho,

Em zelos

Ardendo,

Eu vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!
Eu triste
Vi tudo!
Mas mudo
Não tive
Nas galas

Das salas,

Nem falas,

Nem cantos,

Nem prantos

Nem voz!

 

Quem dera

Que sintas

As dores

De amores

Que louco

Senti!

Quem dera

Que sintas!

– Não negues,

Não mintas...

– Eu vi!...

 

Na valsa
Cansaste;
Ficaste

Prostrada,

Turbada!

Pensavas,

Cismavas,

E estavas
Tão pálida

Então;

Qual pálida
Rosa

Mimosa,

No vale
Do vento
Cruento

Batida,

Caída
Sem vida
No chão!
 
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...

– Não negues,

Não mintas...

– Eu vi!...

 

Rio – 1858.

 

XXVI

 

BORBOLETA.

 

Borboleta dos amores,

Como a outra sobre as flores,

Porque és volúvel assim?

Porque deixas, caprichosa,

Porque deixas tu a rosa

E vais beijar o jasmim?

 

Pois essa alma é tão sedenta

Que um só amor não contenta

E louca quer variar?

Se já tens amores belos,

P’ra que vais dar teus desvelos

Aos goivos da beira-mar?

 

Não sabes que a flor traída

Na débil haste pendida

Em breve murcha será?

Que de ciúmes fenece

E nunca mais estremece

Aos beijos que a brisa dá?...

 

Borboleta dos amores,

Como a outra sobre as flores,

Porque és volúvel assim?

Porque deixas, caprichosa,

Porque deixas tu a rosa

E vais beijar o jasmim?!

 

Tu vês a flor da campina,

E bela e terna e divina,

Tu dás-lhe o que essa alma tem;

Depois, passado o delírio,

Esqueces o pobre lírio

Em troca duma cecém!

 

Mas tu não sabes, louquinha,

Que a flor que pobre definha

Merece mais compaixão?

Que a desgraçada precisa,

Como do sopro da brisa,

Os ais do teu coração?

 

Borboleta dos amores,

Como a outra sobre as flores,

Porque és volúvel assim?

Porque deixas, caprichosa,

Porque deixas tu a rosa

E vais beijar o jasmim?

 

Se a borboleta dourada

Esquece a rosa encarnada

Em troca duma outra flor;

Ela – a triste, molemente

Pendida sobre a corrente,

Falece à míngua d’amor.

 

Tu também minha inconstante

Tens tido mais dum amante

E nunca amaste a um só!

Eles morrem de saudade,

Mas tu na variedade

Vais vivendo e não tens dó!

 

Ai! és muito caprichosa!

Sem pena deixas a rosa

E vais beijar outras flores;

Esqueces os que te amam...

Por isso todos te chamam:

– Borboleta dos amores!

 

Rio – 1858.

 

 

XXVII

 

QUANDO TU CHORAS.

 

Quando tu choras, meu amor, teu rosto

Brilha formoso com mais doce encanto,

E as leves sombras de infantil desgosto

Tornam mais belo o cristalino pranto.

 

Oh! nessa idade da paixão lasciva

Como o prazer, é o chorar preciso:

Mas breve passa – qual a chuva estiva –

E quase ao pranto se mistura o riso.

 

É doce o pranto de gentil donzela,

É sempre belo quando a virgem chora:

– Semelha a rosa pudibunda e bela

Toda banhada do orvalhar da aurora.

 

Da noite o pranto, que tão pouco dura,

Brilha nas folhas como um rir celeste,

E a mesma gota transparente e pura

Treme na relva que a campina veste.

 

Depois o sol, como sultão brilhante,

De luz inunda o seu gentil serralho,

E às flores todas – tão feliz amante –

Cioso sorve o matutino orvalho.

 

Assim, se choras, inda és mais formosa,

Brilha teu rosto com mais doce encanto:

– Serei o sol e tu serás a rosa...

Chora, meu anjo, – beberei teu pranto!

 

Rio – 1858.

 

 

XXVIII

 

CANTO DE AMOR.

 

A M.***

 

I

 

Eu vi-a e minha alma antes de vê-la

Sonhara-a linda como agora a vi;

Nos puros olhos e na face bela,

Dos meus sonhos a virgem conheci.

 

Era a mesma expressão, o mesmo rosto,

Os mesmos olhos só nadando em luz,

E uns doces longes, como dum desgosto.

Toldando a fronte que de amor seduz!

 

E seu talhe era o mesmo, esbelto, airoso

Como a palmeira que se ergue ao ar,

Como a tulipa ao pôr-do-sol saudoso,

Mole vergando à viração do mar.

 

Era a mesma visão que eu dantes via,

Quando a minha alma transbordava em fé;

E nesta eu creio como na outra eu cria,

Porque é a mesma visão, bem sei que é!

 

No silêncio da noite a virgem vinha

Soltas as tranças junto a mim dormir;

E era bela, meu Deus, assim sozinha

No seu sono d’infante inda a sorrir!...

 

....................................................................................

 

II

 

Vi-a e não vi-a! Foi num só segundo,

Tal como a brisa ao perpassar na flor,

Mas nesse instante resumi um mundo

De sonhos de ouro e de encantado amor.

 

O seu olhar não me cobriu d’afago,

E minha imagem nem sequer guardou,

Qual se reflete sobre a flor dum lago

A branca nuvem que no céu passou.

 

A sua vista espairecendo vaga,

Quase indolente, não me viu, ai, não!

Mas eu que sinto tão profunda a chaga

Ainda a vejo como a vi então.

 

Que rosto d’anjo, qual estátua antiga

No altar erguida, já cabido o véu!

Que olhar de fogo, que a paixão instiga?

Que níveo colo prometendo um céu.

 

Vi-a e amei-a, que a minha alma ardente

Em longos sonhos a sonhara assim;

O ideal sublime, que eu criei na mente,

Que em vão buscava e que encontrei por fim!

 

III

 

P’ra ti, formosa, o meu sonhar de louco

E o dom fatal, que desde o berço é meu;

Mas se os cantos da lira achares pouco,

Pede-me a vida, porque tudo é teu.

 

Se queres culto – como um crente adoro,

Se preito queres – eu te caio aos pés,

Se rires – rio, se chorares – choro,

E bebo o pranto que banhar-te a tez.

 

Dá-me em teus lábios um sorrir fagueiro,

E desses olhos um volver, um só;

E verás que meu estro, hoje rasteiro,

Cantando amores s’erguerá do pó!

 

Vem reclinar-te, como a flor pendida,

Sobre este peito cuja voz calei:

Pede-me um beijo... e tu terás, querida,

Toda a paixão que para ti guardei.

 

Do morto peito vem turbar a calma,

Virgem, terás o que ninguém te dá;

Em delírios d’amor dou-te a minha alma,

Na terra, a vida, a eternidade – lá!

 

IV

 

Se tu, oh linda, em chama igual te abrasas,

Oh! não me tardes, não me tardes, – vem!

Da fantasia nas douradas asas

Nós viveremos noutro mundo – além!

 

De belos sonhos nosso amor povôo,

Vida bebendo nos olhares teus;

E como a garça que levanta o vôo,

Minha alma em hinos falará com Deus!

 

Juntas, unidas num estreito abraço,

As nossas almas uma só serão;

E a fronte enferma sobre o teu regaço

Criará poemas d’imortal paixão!

 

Oh! vem, formosa, meu amor é santo,

É grande e belo como é grande o mar,

E doce e triste como d’harpa um canto

Na corda extrema que já vai quebrar!

 

Oh! vem depressa, minha vida foge...

Sou como o lírio que já murcho cai!

Ampara o lírio que inda é tempo hoje!

Orvalha o lírio que morrendo vai!...

 

Rio – 1858.

 

 

XXIX

 

VIOLETA.

 

Sempre teu lábio severo

Me chama de borboleta!

– Se eu deixo as rosas do prado

É só por ti – violeta!

 

Tu és formosa e modesta,

As outras são tão vaidosas!

Embora vivas na sombra

Amo-te mais do que às rosas.

 

A borboleta travessa

Vive de sol e de flores.

– Eu quero o sol de teus olhos,

O néctar dos teus amores!

 

Cativo de teu perfume

Não mais serei borboleta;

Deixa eu dormir no teu seio,

Dá-me o teu mel – violeta!

 

4 de Abril.

 

XXX

 

O QUÊ?

 

Em que cismas, poeta? Que saudades

Te adormecem na mágica fragrância

Das rosas do passado já pendidas?

Nos sonhos d’alma que te lembra?

– A infância!

 

Que sombra, que fantasma vem banhado

No doce eflúvio dessa quadra linda?

E a mente a folhear os dias idos

Que nome te recorda agora?

Arinda!

 

Mas se passa essa quadra, fugitiva,

Qual no horizonte solitária vela,

Por que cismar na vida e no passado?

E de quem são essas saudades?

– Dela!

 

E se a virgem viesse agora mesmo

Surgindo bela qual visão de amores,

Tu, p’ra saudá-la bem do imo d’alma

Diz-me, poeta – o que escolhias?

– Flores.

 

E se ela, farta dos aromas doces

Que tem achado nos jardins divinos,

Tão caprichosa machucasse as rosas...

Diz-me, meu louco, o que mais tinhas?

– Hinos!

 

E se, teimosa, rejeitando a lira,

A fronte virgem para ti pendida,

Dum beijo a paga te pedisse altiva...

O que lhe davas, meu poeta?

– A vida!

 

Rio – 1858.

 

 

XXXI

 

SONHOS DE VIRGEM.

 

A M.***

 

I.

 

Que sonhas, virgem, nos sonhos

Que à mente te vem risonhos

Na primavera inda em flor?

No celeste devaneio,

No doce bater do seio,

Que sonhas virgem? – amor?

 

Que céus, que jardins, que flores,

Que longos cantos de amores

Nos lindos sonhos te vem?

E quando a mente delira,

E quando o peito suspira,

Suspira o peito – por quem?

 

Sonhando mesmo acordada,

Pendida a fronte adorada

Num cismar vago e sem fim;

Do olhar o fogo tão vivo,

A voz, o riso lascivo,

O pensamento é – por mim?!

 

II.

 

Quando tu dormes tranqüila,

Cerrada a negra pupila

E o lábio doce a sorrir;

Então o sonho dourado

Nas dobras do cortinado

Vem esmaltar teu dormir!

 

Oh! sonha! – Feliz a idade

Das rosas da virgindade,

Dos sonhos do coração!

– Puro vergel de açucenas

Ou lago d’águas serenas

Que estremece à viração!

 

Feliz! Feliz quem pudera

Colher-te na primavera

De galas rica e louçã!

Feliz oh! flor dos amores,

Quem te beber os odores

Nos orvalhos da manhã!

 

Rio – 1858.

 

 

XXXII

 

ASSIM!

 

A M.***

 

Viste o lírio da campina?

Lá s’inclina

E murcho no hastil pendeu!

– Viste o lírio da campina?

Pois, divina,

Como o lírio assim sou eu!

 

Nunca ouviste a voz da flauta,

A dor do nauta

Suspirando no alto mar?

– Nunca ouviste a voz da flauta?

Como o nauta

É tão triste o meu cantar!

 

Não viste a rola sem ninho

No caminho

Gemendo, se a noite vem?

– Não viste a rola sem ninho?

Pois, anjinho,

Assim eu gemo, também!

 

Não viste a barca perdida,

Sacudida

Nas asas dalgum tufão?

– Não viste a barca fendida?

Pois querida

Assim vai meu coração!

 

Rio – 1858.

 

 

XXXIII

 

QUANDO?!...

 

Não era belo, Maria,

Aquele tempo de amores,

Quando o mundo nos sorria,

Quando a terra era só flores

Da vida na primavera?

– Era!

 

Não tinha o prado mais rosas,

O sabiá mais gorjeios,

O céu mais nuvens formosas,

E mais puros devaneios

A tua alma inocentinha?

– Tinha!

 

E como achavas, Maria,

Aqueles doces instantes

De poética harmonia

Em que as brisas doudejantes

Folgavam nos teus cabelos?

– Belos!

 

Como tremias oh! vida,

Se em mim os olhos fitavas!

Como eras linda, querida,

Quando d’amor suspiravas

Naquela encantada aurora!

– Ora!

 

E diz-me: não te recordas

– Debaixo do cajueiro –

Lá da lagoa nas bordas

Aquele beijo primeiro?

Ia o dia já findando...

– Quando?!...

 

Rio – 1858.

XXXIV

 

SEMPRE SONHOS!...

 

Se eu tivesse, meu Deus, santos amores,

Eu m’erguera cantando essa paixão,

E atirara p’ra longe – sem saudade –

Este véu que me cobre a mocidade

De tanta escuridão!

 

Eu que sou como o cardo do rochedo

Quase morto dos ventos ao rigor,

Encontrara de novo a minha vida,

O sol da primavera e a luz perdida,

Nos braços desse amor!

 

Minha fronte, que pende sofredora

Acharia, meu Deus, inspirações,

E o fogo que queimou Gilbert e Dante

Correria mais puro e mais constante

Na lira das canções!

 

No mundo tão gentil dos devaneios

Minh’alma mais feliz saudara a luz,

E apagara, Senhor, num beijo puro

A dor imensa da perda do futuro

Que à morte me conduz.

 

Por ela eu deixaria a voz das turbas

E esta ânsia infeliz de gloria vã;

Na vida que nos corre tão sombria

Eu seria, meu Deus, seu doce guia,

E ela – minha irmã!

 

Eu velara, Senhor, pelos seus dias,

Como a mãe vela o filho que dormiu:

Se um dia ela soltasse um só gemido,

Eu iria saber porque ferido

Seu seio assim buliu!

 

Como à sombra das árvores da pátria

S’embala a doce filha dos tupis,

A sombra da ventura e da esperança

Embalara, meu Deus, essa criança

Nos cantos juvenis!

 

Como o nauta olha o céu de primavera,

Eu, sentado a seus pés, ébrio de amor,

Espreitara tremendo no seu rosto

A sombra fugitiva dum desgosto,

À nuvem duma dor!

 

Eu lhe iria mostrar nos hinos d’alma

Outro mundo, outro céu, outros vergéis;

Nossa vida seria um doce afago,

Nós – dois cisnes vogando em manso lago,

– Amor – nossos batéis!

 

Se eu tivesse, meu Deus, santos amores,

Eu deixara este amor da glória vã;

Nesse mundo de luz, doce e risonho,

A pudibunda virgem do meu sonho

Seria minha irmã!

 

.... – 1858

 

 

XXXV

 

O QUE É – SIMPATIA.

 

A UMA MENINA.

 

Simpatia – é o sentimento

Que nasce num só momento

Sincero, no coração;

São dois olhares acesos

Bem juntos, unidos, presos

Numa mágica atração.

 

Simpatia – são dois galhos

Banhados de bons orvalhos

Nas mangueiras do jardim;

Bem longo às vezes nascidos,

Mas que se juntam crescidos

E que se abraçam por fim.

 

São duas almas bem gêmeas

Que riem no mesmo riso,

Que choram nos mesmos ais;

São vozes de dois amantes,

Duas liras semelhantes,

Ou dois poemas iguais.

 

Simpatia – meu anjinho,

É o canto do passarinho,

É o doce aroma da flor;

São nuvens dum céu d’Agosto,

É o que m’inspira teu rosto...

– Simpatia – é – quase amor!

 

Indaiassú – 1857.

 

 

XXXVI

 

PALAVRAS NO MAR.

 

Se eu fosse amado!...

Se um rosto virgem

Doce vertigem

Me desse n’alma

Turbando a calma

Que me enlanguece!...

Oh! se eu pudesse

Hoje – sequer –

Fartar desejos

Nos longos beijos

Duma mulher!...

 

Se o peito morto

Doce conforto

Sentisse agora

Na sua dor;

Talvez nest’hora

Viver quisera

Na primavera

De casto amor!

Então minh’alma,

Turbada a calma,

– Harpa vibrada

Por mão de fada –

Como a calhandra

Saúda o dia,

Em meigos cantos

Se exalaria

Na melodia

Dos sonhos meus;

E louca e terna

Nessa vertigem

Amara a virgem

Cantando a Deus!

 

Avon – 1857.

 

 

XXXVII

 

PEPITA.

 

A toi! toujours a toi!

 

V. Hugo.

 

Minh’alma é mundo virge’ – ilha perdida –

Em lagos de cristais;

Vem, Pepita, – Colombo dos amores,

Vem descobri-lo, no país das flores

Sultana reinarás!

 

Eu serei teu vassalo e teu cativo

Nas terras onde és rei

A sombra dos bambus vem tu ser minha

Teu reinado de amor, doce rainha,

Na lira cantarei.

 

Minh’alma é como o pombo inda sem penas

Sozinho a pipilar;

– Vem tu, Pepita, visitá-lo ao ninho;

As asas a bater, o passarinho

Contigo irá voar.

 

Minh’alma é como a rocha toda estéril

Nos plainos do Sarah;

Vem tu – fada de amor – dar-lhe co’a vara...

– Qual do penedo que Moisés tocara

O jorro saltará.

 

Minh’alma é um livro lindo, encadernado,

Co’as folhas em cetim;

– Vem tu, Pepita, soletrá-lo um dia...

Tem poemas de amor, tem melodia

Em cânticos sem fim!

 

Minh’alma é o batel prendido à margem

Sem leme, em ócio vil

– Vem soltá-lo, Pepita, e correremos

– Soltas as velas – desprezando remos,

Que o mar é todo anil.

 

Minh’alma é um jardim oculto em sombras

Co’as flores em botão;

– Vem ser da primavera o sopro louco,

Vem tu, Pepita, bafejar-me um pouco

Que as rosas abrirão.

 

O mundo em que eu habito tem mais sonhos,

A vida mais prazer;

Vem, Pepita, das tardes no remanso,

Da rede dos amores no balanço

Comigo adormecer.

 

Oh! vem! eu sou a flor aberta à noite

Pendida no arrebol!

Dá-me um carinho dessa voz lasciva,

E a flor pendida s’erguerá mais viva

Aos raios desse sol!

 

Bem vês, sou como a planta que definha

Torrada do calor.

– Dá-me o riso feliz em vez da mágoa...

O lírio morto quer a gota d’água,

– Eu quero o teu amor!

 

Rio – 1858.

 

 

XXXVIII

 

VISÃO.

 

Uma noite, meu Deus, que noite aquela!

Por entre as galas, no fervor da dança,

Vi passar, qual num sonho vaporoso,

O rosto virginal duma criança.

 

Sorri-me – era o sonho de minh’alma

Esse riso infantil que o lábio tinha:

– Talvez que essa alma dos amores puros

Pudesse um dia conversar co’a minha!

 

Eu olhei, ela olhou... doce mistério!

Minh’alma despertou-se à luz da vida,

E as vozes duma lira e dum piano

Juntas se uniram na canção querida.

 

Depois eu indolente descuidei-me

Da planta nova dos gentis amores,

E a criança, correndo pela vida,

Foi colher nos jardins mais lindas flores.

 

Não voltou; – talvez ela adormecesse

Junto à fonte, deitada na verdura,

E – sonhando – a criança se recorde

Do moço que ela viu e que a procura!

 

Corri pelas campinas noite e dia

Atrás do berço d’ouro dessa fada;

Rasguei-me nos espinhos do caminho...

Cansei-me a procurar e não vi nada!

 

Agora como um louco eu fito as turbas

Sempre a ver se descubro a face linda...

– Os outros a sorrir passam cantando,

Só eu a suspirar procuro ainda!...

 

Onde foste, visão dos meus amores!

Minh’alma sem te ver louca suspira!

– Nunca mais unirás, sombra encantada,

O som do teu piano à voz da lira?!...

 

 

Setembro – 1858

 

 

XXXIX

 

QUEIXUMES.

 

Olho e vejo... tudo é gala,

Tudo canta e tudo fala,

minh’alma

Não se acalma,

Muda e triste não se ri!

Minha mente já delira,

E meu peito só suspira

Por ti! Por ti!

 

Ai! quem me dera essa vida

Tão bela e doce vivida

Nos meus lares

Sem pesares

No sossego só dali!

Não tinha-te visto as tranças,

Nem rasgado as esperanças

Por ti! Por ti!

 

Perdi as flores da idade,

E na flor da mocidade

É meu canto

– Todo pranto –

Qual a voz da juriti!

No teu sorriso embebido

Deixei meu sonho querido

Por ti! Por ti!

 

Ai! se eu pudesse, formosa,

Roçar-te os lábios de rosa

Como às flores

– Seus amores –

Faz o louco colibri;

Esta minh’alma nos hinos

Erguera cantos divinos

Por ti! Por ti!

 

Ai! assim viver não posso!

Morrerei, meu Deus, bem moço,

– Qual n’aurora

Que descora,

Desfolhado bogari;

Mas lá da campa na beira

Será a voz derradeira

Por ti! Por ti!

 

Ai! não m’esqueças já morto!

À minh’alma dá conforto,

Diz na lousa:

“Ele repousa,

“Coitado! descansa aqui!” –

Ai! não t’esqueças, senhora,

Da flor pendida n’aurora

Por ti! Por ti!...

 

Junho – 1858.

 

 

XL

 

AMOR E MEDO.

 

***

 

I.

 

Quanto eu te fujo e me desvio cauto

Da luz de fogo que te cerca, oh! bela,

Contigo dizes, suspirando amores:

– Meu Deus! que gelo, que frieza aquela.”

 

Como te enganas! meu amor é chama

Que se alimenta no voraz segredo,

E se te fujo é que te adoro louco...

És bela – eu moço; tens amor – eu medo!

 

Tenho medo de mim, de ti, de tudo,

Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes,

Das folhas secas, do chorar das fontes,

Das horas longas a correr velozes.

 

O véu da noite me atormenta em dores,

A luz da aurora me intumesce os seios,

E ao vento fresco do cair das tardes

Eu me estremeço de cruéis receios.

 

É que esse vento que na várzea – ao longe,

Do colmo o fumo caprichoso ondeia,

Soprando um dia tornaria incêndio

A chama viva que teu riso ateia!

 

Ai! se abrasado crepitasse o cedro,

Cedendo ao raio que a tormenta envia,

Diz: – que seria da plantinha humilde

Que à sombra dele tão feliz crescia?

 

A labareda que se enrosca ao tronco

Torrara a planta qual queimara o galho,

E a pobre nunca reviver pudera

Chovesse embora paternal orvalho!

 

II.

 

Ai! se eu te visse no calor da sesta,

A mão tremente no calor das tuas,

Amarrotado o teu vestido branco,

Soltos cabelos nas espáduas nuas!...

 

Ai! se eu te visse, Magdalena pura,

Sobre o veludo reclinada a meio,

Olhos cerrados na volúpia doce,

Os braços frouxos – palpitante o seio!...

 

Ai! se eu te visse em languidez sublime,

Na face as rosas virginais do pejo,

Trêmula a fala a protestar baixinho...

Vermelha a boca, soluçando um beijo!...

 

Diz: – que seria da pureza d’anjo,

Das vestes alvas, do candor das asas?

– Tu te queimaras, a pisar descalça,

– Criança louca, – sobre um chão de brasas!

 

No fogo vivo eu me abrasara inteiro!

Ébrio e sedento na fugaz vertigem

Vil, machucara com meu dedo impuro

As pobres flores da grinalda virgem!

 

Vampiro infame, eu sorveria em beijos

Toda a inocência que teu lábio encerra,

E tu serias no lascivo abraço

Anjo enlodado nos pauis da terra.

 

Depois... desperta no febril delírio,

– Olhos pisados – como um vão lamento,

Tu perguntaras: – qu’é da minha c’roa?...

Eu te diria: – desfolhou-a o vento!...

 

______

 

 

Oh! não me chames coração de gelo!

Bem vês: traí-me no fatal segredo.

Se de ti fujo é que te adoro e muito,

És bela – eu moço; tens amor, eu – medo!...

 

Outubro – 1858.

 

 

XLI

 

PERDÃO!

 

I

 

Choraste?! – E a face mimosa

Perdeu as cores da rosa

E o seio todo tremeu?!

Choraste, pomba adorada?

E a lágrima cristalina

Banhou-te a face divina

E a bela fronte inspirada

Pálida e triste pendeu?!

 

Choraste?! – E longe não pude

Sorver-te a lágrima pura

Que banhou-te a formosura!

Ouvir-te a voz de alaúde

A lamentar-se sentida!

Humilde cair-te aos pés,

Oferecer-te esta vida

No sacrifício mais santo,

Para poupar esse pranto

Que te rolou sobre a tez!

 

Choraste?! – De envergonhada,

No teu pudor ofendida,

Porque minh’alma atrevida

No seu palácio de fada,

– No sonhar da fantasia –

Ardeu em loucos desejos,

Ousou cobrir-te de beijos

E quis manchar-te na orgia!

 

........................

 

II.

 

Perdão p’r’o pobre demente

Culpado, sim, – inocente

Que se te amou, foi demais!

Perdão p’ra mim que não pude

Calar a voz do alaúde,

Nem comprimir os meus ais!

 

Perdão oh! flor dos amores,

Se quis manchar-te os verdores,

Se quis tirar-te do hastil!

– Na voz que a paixão resume

Tentei sorver-te o perfume...

E fui covarde e fui vil!...

 

........................

 

III

 

Eu sei, devera sozinho

Sofrer comigo o tormento

E na dor do pensamento

Devorar essa agonia!

Devera, sedento algoz,

Em vez de sonhos felizes,

Cortar no peito as raízes

Desse amor, e tão descrido

Dos hinos matar-lhe a voz!

Devera, pobre fingido,

Tendo n’alma atroz desgosto,

Mostrar sorrisos no rosto,

Em vez de mágoas – prazer,

E mudo e triste e penando,

Como um perdido te amando,

Sentir, calar-me e – morrer!

 

........................

 

Não pude! – A mente fervia,

O coração trasbordava,

Interna voz me falava,

E louco ouvindo a harmonia

Que a alma continha em si,

Soltei na febre o meu canto

E do delírio no pranto

Morri de amores – por ti!

 

........................

 

IV.

 

Perdão! se fui desvairado

Manchar-te a flor d’inocência

E do meu canto n’ardência

Ferir-te no coração!

– Será enorme o pecado,

Mas tremenda a expiação

Se me deres por sentença

Da tua alma a indiferença,

Do teu lábio a maldição!...

 

........................

 

Perdão, senhora!... Perdão!...

 

Junho – 1858.

 

 

XLII

 

MOCIDADE.

 

 

Ninon, Ninon, que fais tu de la vie?

L’heure s’enfuit, le jour succede au jour.

Rose ce soir, demain flétrie,

Comment vis-tu, toi qui n’as pas d’amour?!

 

Musset.

 

 

Doce filha da lânguida tristeza

Ergue a fronte pendida – o sol fulgura!

Quando a terra sorri-se e o mar suspira

Por que te banha o rosto essa amargura?!

 

Por que chorar quando a natura é risos,

Quando no prado a primavera é flores?

– Não foge a rosa quando o sol a busca

Antes se abrasa nos gentis fulgores.

 

Não! – Viver é amar, é ter um dia

Um amigo, uma mão que nos afague;

Uma voz que nos diga os seus queixumes,

Que as nossas mágoas com amor apague.

 

A vida é um deserto aborrecido

Sem sombra doce, ou viração calmante;

– Amor – é a fonte que nasceu nas pedras

E mata a sede à caravana errante.

 

Amai-vos! disse Deus criando o mundo,

Amemos! – disse Adão no paraíso,

Amor! – murmura o mar nos seus queixumes,

Amor! – repete a terra num sorriso!

 

Doce filha da lânguida tristeza

Tua alma a suspirar de amor definha...

– Abre os olhos gentis à luz da vida,

Vem ouvir no silêncio a voz da minha!

 

Amemos! Este mundo é tão tristonho!

A vida, como um sonho – brilha e passa;

Porque não havemos p’ra acalmar as dores

Chegar aos lábios o licor da taça?

 

O mundo! o mundo! – E que te importa o mundo?

– Velho invejoso, a resmungar baixinho!

Nada perturba a paz serena e doce

Que as rolas gozam no seu casto ninho.

 

Amemos! – tudo vive e tudo canta...

Cantemos! seja a vida – hinos e flores;

De azul se veste o céu... vistamos ambos

O manto perfumado dos amores.

 

...................................................................................

 

Doce filha da lânguida tristeza

Ergue a fronte pendida – o sol fulgura!

– Como a flor indolente da campina

Abre ao sol da paixão tua alma pura!

 

Setembro – 1858.

 

 

XLIII

 

NOIVADO.

 

Filha do céu – oh flor das esperanças,

Eu sinto um mundo no bater do peito!

Quando a lua brilhar num céu sem nuvens

Desfolha rosas no virgíneo leito.

 

.............................................................................

 

Nas horas do silêncio inda és mais bela!

Banhada do luar, num vago anseio,

Os negros olhos de volúpia mortos

Por sob a gaze te estremece o seio!

 

Vem! a noite é linda, o mar é calmo,

Dorme a floresta – meu amor só, vela;

Suspira a fonte e minha voz sentida

É doce e triste como as vozes dela.

 

Qual eco fraco de amorosa queixa

Perpassa a brisa na magnólia verde,

E o som magoado do tremer das folhas

Longe – bem longe – devagar se perde.

 

Que céu tão puro! que silêncio augusto!

Que aromas doces! que natura esta!

Cansada a terra adormeceu sorrindo

Bem como a virgem no cair da sesta!

 

Vem! tudo é tranqüilo, a terra dorme,

Bebe o sereno o lírio do valado...

– Sozinhos, sobre a relva da campina,

Que belo que será nosso noivado!

 

Tu dormirás ao som dos meus cantares

Oh! filha do sertão! sobre o meu peito.

O moço triste, o sonhador mancebo

Desfolha rosas no teu casto leito.

 

...........................................................................

 

....– 1858.

 

 

XLIV

 

DE JOELHOS.

 

Qual reza o irmão pelas irmãs queridas,

Ou a mãe que sofre pela filha bela,

Eu – de joelhos – com as mãos erguidas,

Suplico ao céu a felicidade dela.

 

 “Senhor meu Deus, que sois clemente e justo,

Que dais voz às brisas e perfume à rosa,

Oh! protegei-a com o manto augusto

A doce virgem que sorri medrosa!

 

Lançai os olhos sobre a linda filha,

Dai-lhe o sossego no seu casto ninho,

E da vereda que seu pé já trilha

Tirai a pedra e desviai o espinho!

 

Senhor! livrai-a da rajada dura

A flor mimosa que desponta agora;

Deitai-lhe orvalho na corola pura,

Dai-lhe bafejos, prolongai-lhe a aurora!

 

A doce virgem como a tenra planta

Nunca floresce sobre terra ingrata;

– Bem como a rola – qualquer folha a espanta,

– Bem como o lírio – qualquer vento a mata.

 

Ela é a rola que a floresta cria,

Ela é o lírio que a manhã descerra...

Senhor, amai-a! – a sua voz macia

Como a das aves, a inocência encerra!

 

Sua alma pura na novel vertigem

Pede ao amor o seu futuro inteiro...

– Senhor! ouvi o suspirar da virgem,

Dourai-lhe os sonhos no sonhar primeiro!

 

A mocidade, como a deusa antiga,

Na fronte virgem lhe derrama flores...

– Abri-lhe as rosas da grinalda amiga,

Na mocidade derramai-lhe amores!

 

Cercai-a sempre de bondade terna,

Lançai orvalho sobre a flor querida;

Fazei-lhe oh Deus! a primavera eterna,

Dai-lhe bafejos – prolongai-lhe a vida!

 

Depois – de joelhos – eu direi sois justo,

Senhor! mil graças eu vos rendo agora!

Vós protegestes com o manto augusto

A doce virgem que a minh’alma adora! –

 

Dezembro – 1858.

 

 

LIVRO TERCEIRO

 

Nascer, lutar, sofrer — eis toda a vida!

 

Gonçalves Dias.

 

 

XLV

 

TRES CANTOS.

 

Quando se brinca contente

Ao despontar da existência

Nos folguedos de inocência,

Nos delírios de criança;

A alma, que desabrocha

Alegre, cândida e pura

Nessa contínua ventura

É toda um hino: – esperança!

 

Depois... na quadra ditosa,

Nos dias da juventude,

Quando o peito é um alaúde,

E que a fronte tem calor;

A alma que então se expande

Ardente, fogosa e bela

Idolatrando a donzela

Soletra em trovas: – amor!

 

Mas quando a crença se esgota

Na taça dos desenganos,

E o lento correr dos anos

Envenena a mocidade;

Então a alma cansada

Dos belos sonhos despida,

Chorando a passada vida –

Só tem um canto: – saudade!

 

Fevereiro – 1858.

 

 

XLVI

 

ILUSÃO.

 

Quando o astro do dia desmaia

Só brilhando com pálido lume,

E que a onda que brinca na praia

No murmúrio soletra um queixume;

 

Quando a brisa da tarde respira

O perfume das rosas do prado,

E que a fonte do vale suspira

Como o nauta da pátria afastado;

 

Quando o bronze da torre da aldeia

Seus gemidos aos ecos envia,

E que o peito que em mágoas anseia

Bebe louco essa grave harmonia;

 

Quando a terra, da vida cansada,

Adormece num leito de flores

Qual donzela formosa embalada

Pelos cantos dos seus trovadores;

 

Eu de pé sobre as rochas erguidas

Sinto o pranto que manso desliza

E repito essas queixas sentidas

Que murmuram as ondas co’a brisa.

 

É então que a minha alma dormente

Duma vaga tristeza se inunda,

E que um rosto formoso, inocente,

Me desperta saudade profunda.

 

Julgo ver sobre o mar sossegado

Um navio nas sombras fugindo,

E na popa esse rosto adorado

Entre prantos p’ra mim se sorrindo!

 

Compreendo esse amargo sorriso,

Sobre as ondas correr eu quisera...

E de pé sobre a rocha, indeciso,

Eu lhe brado: – não fujas, – espera!

 

Mas o vento já leva ligeiro

Esse sonho querido dum dia,

Essa virgem de rosto fagueiro,

Esse rosto de tanta poesia!...

 

E depois... quando a lua ilumina

O horizonte com luz prateada,

Julgo ver essa fronte divina

Sobre as vagas cismando, inclinada!

 

E depois... vejo uns olhos ardentes

Em delírio nos meus se fitando,

E uma voz em acentos plangentes

Vem de longe um – adeus – soluçando!

...............................................................................

 

Ilusão!... que a minha alma, coitada,

De ilusões hoje em dia é que vive;

É chorando uma gloria passada,

É carpindo uns amores que eu tive!

 

Lisboa – 1856.

 

 

XLVII

 

SONHANDO.

 

Um dia, oh linda, embalada

Ao canto do gondoleiro,

Adormeceste inocente

No teu delírio primeiro,

– Por leito o berço das ondas,

Meu colo por travesseiro!

 

Eu, pensativo, cismava

Nalgum remoto desgosto,

Avivado na tristeza

Que a tarde tem, ao sol-posto,

E ora mirava as nuvens,

Ora fitava teu rosto.

 

Sonhavas então, querida,

E presa de vago anseio

Debaixo das roupas brancas

Senti bater o teu seio,

E meu nome num soluço

À flor dos lábios te veio!

 

Tremeste como a tulipa

Batida do vento frio...

Suspiraste como a folha

Da brisa ao doce cicio...

E abriste os olhos sorrindo

Às águas quietas do rio!

 

Depois – uma vez – sentados

Sob a copa do arvoredo,

Falei-te desse soluço

Que os lábios abriu-te a medo...

– Mas tu, fugindo, guardaste

Daquele sonho o segredo!...

 

Agosto – 1858.

 

 

XLVIII

 

LEMBRANÇA.

 

_____

 

NUM ÁLBUM.

 

_____

 

Como o triste marinheiro

Deixa em terra uma lembrança,

Levando n’alma a esperança

E a saudade que consome,

Assim nas folhas do álbum

Eu deixo meu pobre nome.

 

E se nas ondas da vida

Minha barca for fendida

E meu corpo espedaçado,

Ao ler o canto sentido

Do pobre nauta perdido

Teus lábios dirão: – coitado!

 

Junho – 1858.

 

 

XLIX

 

O BAILE!

 

Se junto de mim te vejo

Abre-te a boca um bocejo,

Só pelo baile suspiras!

Deixas amor – pelas galas,

E vais ouvir pelas salas

Essas douradas mentiras!

 

Tens razão! Mais valem risos

Fingidos, desses Narcisos

– Bonecos que a moda enfeita –

Do que a voz sincera e rude

De quem, prezando a virtude,

Os atavios rejeita.

 

Tens razão! – Valsa, donzela,

A mocidade é tão bela,

E a vida dura tão pouco!

No burburinho das salas,

Cercada de amor e galas,

Sê tu feliz – eu sou louco!

 

E quando eu seja dormido

Sem luz, sem voz, sem gemido,

No sono que a dor conforta;

Ao concertar tuas tranças

No meio das contradanças

Diz tu sorrindo: “– Qu’importa?..

 

“Era um louco, em noites belas

“Vinha fitar as estrelas

“Nas praias, co’a fronte nua!

“Chorava canções sentidas

“E ficava horas perdidas

“Sozinho, mirando a lua!

 

“Tremia quando falava

“E – pobre tonto – chamava

“O baile – alegrias falsas!

– Eu gosto mais dessas falas

“Que me murmuram nas salas

“No ritornelo das valsas. –

 

Tens razão! – Valsa, donzela,

A mocidade é tão bela

E a vida dura tão pouco!

P’ra que fez Deus as mulheres,

P’ra que há na vida prazeres?

Tu tens razão... eu sou louco!

 

Sim, valsa, é doce a alegria,

Mas ai! que eu não veja um dia

No meio de tantas galas –

Dos prazeres na vertigem,

A tua coroa de virgem

Rolando no pó das salas!...

 

Julho – 1858.

 

 

L

 

MINH’ALMA É TRISTE.

 

Mon coeur est plein – je veux pleurer!

 

Lamartine.

 

I

 

Minh’alma é triste como a rola aflita

Que o bosque acorda desde o albor da aurora,

E em doce arrulo que o soluço imita

O morto esposo gemedora chora.

 

E, como a rola que perdeu o esposo,

Minh’alma chora as ilusões perdidas,

E no seu livro de fanado gozo

Relê as folhas que já foram lidas.

 

E como notas de chorosa endecha

Seu pobre canto com a dor desmaia,

E seus gemidos são iguais à queixa

Que a vaga solta quando beija a praia.

 

Como a criança que banhada em prantos

Procura o brinco que levou-lhe o rio,

Minh’alma quer ressuscitar nos cantos

Um só dos lírios que murchou o estio.

 

Dizem que há gozos nas mundanas galas,

Mas eu não sei em que o prazer consiste.

– Ou só no campo, ou no rumor das salas,

Não sei porque – mas a minh’alma é triste!

 

II

 

Minh’alma é triste como a voz do sino

Carpindo o morto sobre a laje fria;

E doce e grave qual no templo um hino,

Ou como a prece ao desmaiar do dia.

 

Se passa um bote com as velas soltas,

Minh’alma o segue n’amplidão dos mares;

E longas horas acompanha as voltas

Das andorinhas recortando os ares.

 

Às vezes, louca, num cismar perdida,

Minh’alma triste vai vagando à toa,

Bem como a folha que do sul batida

Bóia nas águas de gentil lagoa!

 

E como a rola que em sentida queixa

O bosque acorda desde o albor da aurora,

Minh’alma em notas de chorosa endecha

Lamenta os sonhos que já tive outrora.

 

Dizem que há gozos no correr dos anos!...

Só eu não sei em que o prazer consiste.

– Pobre ludíbrio de cruéis enganos,

Perdi os risos – a minh’alma é triste!

 

III

 

Minh’alma é triste como a flor que morre

Pendida à beira do riacho ingrato;

Nem beijos dá-lhe a viração que corre,

Nem doce canto o sabiá do mato!

 

E como a flor que solitária pende

Sem ter carícias no voar da brisa,

Minh’alma murcha, mas ninguém entende

Que a pobrezinha só de amor precisa!

 

Amei outrora com amor bem santo

Os negros olhos de gentil donzela,

Mas dessa fronte de sublime encanto

Outro tirou a virginal capela.

 

Oh! quantas vezes a prendi nos braços!

Que o diga e fale o laranjal florido!

Se mão de ferro espedaçou dois laços

Ambos choramos mas num só gemido!

 

Dizem que há gozos no viver d’amores,

Só eu não sei em que o prazer consiste!

– Eu vejo o mundo na estação das flores...

Tudo sorri – mas a minh’alma é triste!

 

IV

 

Minh’alma é triste como o grito agudo

Das arapongas no sertão deserto;

E como o nauta sobre o mar sanhudo,

Longe da praia que julgou tão perto!

 

A mocidade no sonhar florida

Em mim foi beijo de lasciva virgem:

– Pulava o sangue e me fervia a vida,

Ardendo a fronte em bacanal vertigem.

 

De tanto fogo tinha a mente cheia!...

No afã da glória me atirei com ânsia...

E, perto ou longe, quis beijar a s’reia

Que em doce canto me atraiu na infância.

 

Ai! Loucos sonhos de mancebo ardente!

Esp’ranças altas... Ei-las já tão rasas!...

– Pombo selvagem, quis voar contente...

Feriu-me a bala no bater das asas!

 

Dizem que há gozos no correr da vida...

Só eu não sei em que o prazer consiste!

– No amor, na glória, na mundana lida,

Foram-se as flores – a minh’alma é triste!

 

Março 12. – 1858.

 

 

LI

 

PALAVRAS A ALGUÉM.

 

Tu folgas travessa e louca

Sem ouvires meu lamento,

Sonhas jardins d’esmeralda

Nesse virgem pensamento,

Mas olha que essa grinalda

Bem pode murchá-la o vento!

 

Ai que louca! abriste o livro

Da minh’alma, livro santo,

Escrito em noites d’angústia,

Regado com muito pranto,

E... quase rasgaste as folhas

Sem entenderes o canto!

 

Agora corres nos charcos

Em vez das alvas areias!

Deleita-te a voz fingida

Dessas formosas sereias.

Mas eu te falo e te aviso:

 – “Olha que tu te enlameias!”

 

Tu és a pomba inocente,

Eu sou teu anjo-da-guarda,

Devo dizer-te baixinho:

“Olha que a morte não tarda!

“Mariposa dos amores

“Deixa a luz, embora arda.

 

“A chama seduz e brilha

 “Qual diamante entre as gazas –

“E tu no fogo maldito

“Tão descuidosa te abrasas!

“Mariposa, mariposa,

“Tu vais queimar tuas asas!”

 

Conchinha das lisas praias

Nasceste em alvas areias,

Não corras tu para os charcos

Arrebatada nas cheias!...

– Os teus vestidos são brancos...

Olha que tu te enlameias!...

 

...– 1858.

 

LII

 

FOLHA NEGRA.

 

Sinhá,

Um outro mancebo

Alegre, poeta e crente,

Soltara um canto fervente

De amor talvez! – de alegria,

E aqui nas folhas do livro

Deixara – amor e poesia.

 

Mas eu que não tenho risos

Nem alegrias tão pouco,

Nem sinto esse fogo louco

Que a mocidade consome,

Nas brancas folhas do livro

Só posso deixar meu nome!

 

É triste como um gemido,

É vago como um lamento;

– Queixume que solta o vento

Nas pedras duma ruma

Na hora em que o sol se apaga

E quando o lírio s’inclina!...

 

Grito de angústia do pobre

Que sobre as águas se afoga,

Cadáver que bóia e voga

Longe da praia querida,

Grito de quem n’agonia

– Já morto – se apega à vida!

 

Vozes de flauta longínqua

Que as nossas mágoas aviva,

Soluço da patativa,

Queixume do mar que rola,

Cantiga em noite de lua

Cantada ao som da viola!...

 

Saudades do pegureiro

Que chora o seu lar amado,

– Calado e só – recostado

Na pedra dalgum caminho...

Canção de santa doçura

Da mãe que embala o filhinho!...

 

Meu nome!... É simples e pobre

Mas é sombrio e traz dores,

– Grinalda de murchas flores

Que o sol queima e não consome...

– Sinhá!... das folhas do livro

É bom tirar o meu nome!...

 

Setembro – 1858.

 

 

LIII

 

À MORTE

 

DE

 

AFFONSO DE A. COUTINHO MESSEDER

 

ESTUDANTE DA ESCOLA CENTRAL.

 

Who hath not lost a friend?…

 

M.

 

É triste ver a flor que desabrocha

Ou quer no prado, ou na deserta rocha,

Pender no fraco hastil!

É bem triste dos anos nos verdores

Morrer mancebo, no brotar das flores,

Na quadra juvenil!

 

Meu Deus! tu que és tão bom e tão clemente,

P’ra que apagas, Senhor, a chama ardente

Num crânio de vulcão?

P’ra que poupas o cedro já vetusto

E, sem dó, vais ferir o pobre arbusto

Às vezes no embrião?!...

 

Pois não fora melhor vivesse a planta

Cujo perfume a solidão encanta

No sossego do val?...

– Não veríamos nós neste martírio

Desfalecer tão belo o pobre lírio