LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em meio eletrônico

Vida Urbana, de Lima Barreto 


Edição de base:
Biblioteca Nacional – setor de obras digitalizadas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A mulher brasileira

 

 

 

É de uso que, nas sobremesas, se façam brindes em honra ao aniversariante, ao par que se casa, ao infante que recebeu as águas lustrais do batismo, conforme se tratar de um natalício, de um casamento ou batizado. Mas, como a sobremesa é a parte do jantar que predispõe os comensais a discussões filosóficas e morais, quase sempre, nos festins familiares, em vez de se trocarem idéias sobre a imortalidade da alma ou o adultério, como observam os Goncourts, ao primeiro brinde se segue outro em honra à mulher, à mulher brasi­leira.

 

Todos estão vendo um homenzinho de pince-nez, testa sungada, metido numas roupas de circunstâncias, levantar-se lá do fim da mesa; e, com uma mão ao cálice, meio suspenso, e a outra na borda do móvel, pesado de pratos sujos, compoteiras de doce, guardanapos, talheres e o resto – dizer: “Peço a palavra”; e começar logo: “Minhas senhoras, meus senhores”. As conversas cessam; da Lili deixa de contar a da Vivi a história do seu último namoro; todos se aprumam nas cadeiras; o homem tosse e entra em matéria: “A mulher, esse ente sublime.. .” E vai por aí, escachoando imagens do Orador Familiar, e fazendo citações de outros que nunca leu, exaltando as qualidades da mulher brasileira, quer como mãe, quer como esposa, quer como filha, quer como irmã.

 

A enumeração não foi completa; é que o meio não lhe permitia completá-la.

 

É uma cena que se repete em todos os festivos ágapes familiares, às vezes mesmo nos de alto bordo.

 

Haverá mesmo razão para tantos gabos? Os oradores terão razão? Vale a pena examinar.

 

Não direi que, como mães, as nossas mulheres não mereçam esses gabos; mas isso não é propriedade exclusiva delas e todas as mulheres, desde as esquimós até às australianas, são merecedoras dele. Fora daí, o orador estará com a ver­dade?

 

Lendo há dias as Memórias, de mme d’Épinay, tive ocasião de mais uma vez constatar a floração de mulheres superiores naquele extraordinário século XVIII francês.

 

Não é preciso ir além dele para verificar a grande influência que a mulher francesa tem tido na marcha das idéias de sua pátria.

 

Basta-nos, para isso, aquele maravilhoso século, onde não só há aquelas que se citam a cada passo, como essa mme d’Épinay, amiga de Grimm, de Diderot, protetora de Rous­seau, a quem alojou na famosa Ermitage, para sempre ce­lebre na história das letras; e mme du Deffant, que, se não me falha a memória, custeou a impressão do Espírito das Leis. Não são únicamente essas. Há mesmo um pululamento de mulheres superiores que influem, animam, encaminham homens superiores do seu tempo. A todo o momento, nas memórias, correspondências e confissões, são apontadas; elas se misturam nas intrigas literárias, seguem os debates filósoficos.

 

É uma mme de Houdetot; é uma Marechala de Luxemburgo; e até, no fundo da Sabóia, na doce casa de campo de Charmettes, há uma mme de Warens que recebe, educa e ama um pobre rapaz maltrapilho, de quem ela faz mais tarde Jean Jacques Rousseau.

 

E foi por ler mme d’Épinay e recordar outras leituras, que me veio pensar nos calorosos elogios dos oradores de sobremesas à mulher brasileira. Onde é que se viram no Brasil, essa influência, esse apoio, essa animação das mulheres aos seus homens superiores?

 

É raro; e todos que o foram, não tiveram com suas esposas, com suas irmãs, com suas mães, essa comunhão nas idéias e nos anseios, que tanto animam, que tantas vantagens trazem ao trabalho intelectual.

 

Por uma questão qualquer, Diderot escreve uma carta a Rousseau que o faz sofrer; e logo este se dirige a mme d’Épinay, dizendo: “Se eu vos pudesse ver um momento e chorar, como seria aliviado!” Onde é que se viu aqui esse amparo, esse domínio, esse ascendente de uma mulher; e, entretanto, ela não era nem sua esposa, nem sua mãe, nem sua irmã, nem mesmo sua amante!

 

Como que adoça, como que tira as asperezas e as brutalidades, próprias ao nosso sexo, essa influência feminina nas letras e nas artes.

 

Entre nós, ela não se verifica e parece que aquilo que os nossos trabalhos intelectuais têm de descompassado, de falta de progressão e harmonia, de pobreza de uma alta compre­ensão da vida, de revolta clara e latente, de falta de sere­nidade vem daí.

 

Não há num Raul Pompéia influência da mulher; e cito só esse exemplo que vale por legião. Se houvesse, quem sabe se as suas qualidades intrínsecas de pensador e de artista não nos poderia ter dado uma obra mais humana, mais ampla, menos atormentada, fluindo mais suavemente por entre as belezas da vida?

 

Como se sente bem a intimidade espiritual, perfeitamente espiritual, que há entre Balzac e a sua terna irmã, Laura Sanille, quando aquele lhe escreve, numa hora de dúvida angustiosa dos seus tenebrosos anos de aprendizagem: “Laura, Laura, meus dois únicos desejos, ‘ser célebre e ser amado’, serão algum dia satisfeitos?” Há disso aqui?

 

Se nas obras dos nossos poetas e pensadores, passa uma alusão dessa ordem, sentimos que a coisa não é perfeitamente exata, e antes o poeta quer criar uma ilusão necessária do que exprimir uma convicção bem estabelecida. Seria melhor talvez dizer que a comunhão espiritual, que a penetração de idéias não se dá; o poeta força as entradas que resis­tem tenazmente.

 

É com desespero que verifico isso, mas que se há de fazer? É preciso ser honesto, pelo menos de pensamento...

 

É verdade que os homens de inteligência vivem separa­dos do país; mas se há uma pequena minoria que os segue e acompanha, devia haver uma de mulheres que fizesse o mesmo.

 

Até como mães, a nossa não é assim tão digna dos elo­gios dos oradores inflamados. A sagacidade e agilidade de espírito fazem-lhes falta completamente para penetrar na alma dos filhos; as ternuras e os beijos são estranhos às almas de cada um. Sonho do filho não é percebido pela mãe; e am­bos, separados, marcham no mundo ideal. Todas elas são como aquela de que fala Michelet: “Não se sabe o que tem esse menino’. ‘Minha Senhora, eu sei: ele nunca foi beijado”.

 

Basta observar a maneira de se tratarem. Em geral, há jeitos cerimoniosos, escolhas de frases, ocultações de pensa­mentos; o filho não se anima nunca a dizer francamente o que sofre ou o que deseja e a mãe não o provoca a dizer.

 

Sem sair daqui, na rua, no bonde, na barca, poderemos ver a maneira verdadeiramente familiar, íntima, sem morgue nem medo, com que as mães inglesas, francesas e portugue­sas tratam os filhos e estes a elas. Não há sombra de timidez e de terror; não há o “senhora” respeitável; é “tu”, é “você.”

 

As vantagens disso são evidentes. A criança habitua-se àquela confidente; faz-se homem e, nas crises morais e de consciência, tem onde vazar com confiança as suas dores, di­minuí-las, portanto, afastá-las muito, porque dor confessada é já meia dor e tortura menos. A alegria de viver vem e o sorumbatismo, o mazombo, a melancolia, o pessimismo e a fuga do real vão-se.

 

Repito: não há tenção de fazer uma mercurial desta crô­nica; estou a exprimir observações que julgo exatas e constato com raro desgosto. Antes, o meu maior desejo seria dizer das minhas patrícias, aquilo que Bourget disse da missão de mme Taine, junto a seu grande marido, isto é, que elas têm cercado e cercam o trabalho intelectual de seus maridos, fi­lhos ou irmãos de uma atmosfera na qual eles se movem tão livremente como se estivessem sós, e onde não estão de fato sós.

 

Foi, portanto, combinando a leitura de uma mulher ilus­tre com a recordação de um caso corriqueiro da nossa vida familiar que consegui escrever estas linhas. A associação é inesperada; mas não há do que nos surpreender com as as­sociações de idéias.

 

Gazeta da Tarde, Rio, 27-4-1911

 

 

 

OS NOSSOS JORNAIS

 

 

 

Na Câmara (houve um jornal que registrasse a frase) o senhor Jaurès observou que os nossos jornais eram pobres no tocante a informações da vida do estrangeiro. Afora os telegramas lacônicos naturalmente, ele não encontrava nada que o satisfizesse.

 

Jaurès não disse que fosse esse o único defeito dos nossos jornais; quis tão somente mostrar um deles.

 

Se ele quisesse demorar no exame, diretor de um grande jornal, como é e, habituado à grande imprensa do velho mundo, havia de apresentar muitos outros.

 

Mesmo quem não é diretor de um jornal parisiense e não está habituado à imprensa européia, pode, do pé para as mãos, indicar muitos.

 

Os nossos jornais diários têm de mais e têm de menos; têm lacunas e demasias.

 

Uma grande parte deles é ocupada com insignificantes notícias oficiais.

 

Há longas seções sobre exército, marinha, estradas de ferro, alfândega, etc. de nenhum interesse, ou melhor, se há nelas interesse, toca a um número tão restrito de leitores que não vale a pena sacrificar os outros, mantendo-as.

 

Que me importa a mim saber quem é o conferente do armazém K? Um jornal que tem dez mil leitores, unicamente para atender ao interesse de meia dúzia, deve estar a publicar que foram concedidos passes à filha do bagageiro X ? Decerto, não. Quem quer saber essas coisas, dirija-se às publicações oficiais ou vá à repartição competente, informar-se.

 

A reportagem de ministérios é de uma indigência desoladora. Não há mais nada que extratos do expediente; e o que se devia esperar de propriamente reportagem, isto é, descoberta de atos premeditados, de medidas em que os gover­nantes estejam pensando, enfim, antecipações ao próprio diá­rio do senhor Calino, não se encontra.

 

Demais, não está aí só, o emprego inútil que os nossos jornais fazem de um espaço precioso. Há mais ainda. Há os idiotas “binóculos”. Longe de mim o pensamento de es­tender o adjetivo da seção aos autores. Sei bem que alguns deles que o não são; mas a coisa o é, talvez com plena intenção dos seus criadores. Mas... continuemos. Não se compreende que um jornal de uma grande cidade esteja a ensinar às damas e aos cavalheiros como devem trazer as luvas, como devem cumprimentar e outras futilidades. Se há entre nós sociedade, as damas e cavalheiros devem saber estas coisas e quem não sabe faça como M. Jourdain: tome professores. Não há de ser com preceitos escorridos diaria­mente, sem ordem, nem nexo – que um acanhado fazen­deiro há de se improvisar em Caxangá. Se o matuto quer imiscuir-se na sociedade que tem para romancista o psiquia­tra Afrânio, procure professores de boas maneiras, e não os há de faltar. Estou quase a indicar o próprio Figueiredo, o Caxangá ou o meu amigo Marques Pinheiro e talvez o Bueno, se ele não andasse agora metido em coisas acadêmicas.

 

De resto, esses binóculos, gritando bem alto elementares preceitos de civilidade, nos envergonham. Que dirão os es­trangeiros, vendo, pelos nossos jornais, que não sabemos abo­toar um sapato ? Não há de ser bem; e o senhor Gastão da Cunha, o Chamfort oral que nos chegou do Paraguai e vai para a Dinamarca, deve examinar bem esse aspecto da questão, já que se zangou tanto com o interessante Afrânio, por ter dito, diante de estrangeiros, na sua recepção na Aca­demia, um punhado de verdades amargas sobre a diligência de Canudos.

 

Existe, a tomar espaço nos nossos jornais, uma outra bo­bagem. Além desses binóculos, há uns tais diários sociais, vidas sociais, etc. Em alguns tomam colunas, e, às vezes, páginas. Aqui nesta Gazeta, ocupa, quase sempre duas e três.

 

Mas, isso é querer empregar espaço em pura perda. Tipos ricos e pobres, néscios e sábios, julgam que as suas festas íntimas ou os seus lutos têm um grande interesse para todo o mundo. Sei bem o que é que se visa com isso: agradar, captar o níquel, com esse meio infalível: o nome no jornal.

 

Mas, para serem lógicos com eles mesmo, os jornais deviam transformar-se em registros de nomes próprios, pois só os pondo aos milheiros é que teriam uma venda compensa­dora. A coisa devia ser paga e estou certo que os tais diários não desapareceriam.

 

Além disso, os nossos jornais ainda dão muita importância aos fatos policiais. Dias há que parecem uma morgue, tal é o número de fotografias de cadáveres que estampam; e não ocorre um incêndio vagabundo que não mereça as fa­mosas três colunas – padrão de reportagem inteligente. Não são bem “Gazetas” dos Tribunais, mas, já são um pouco Gazetas do Crime e muito Gazetas Policiais.

 

A não ser isso, eles desprezam tudo o mais que forma a base da grande imprensa estrangeira. Não há as infor­mações internacionais, não há os furos sensacionais na política, nas letras e na administração. A colaboração é uma miséria.

 

Excetuando A Imprensa, que tem a sua frente o grande espírito de Alcindo Guanabara, e um pouco O Pau, os nossos jornais da manhã nada têm que se ler. Quando excetuei esses dois, decerto, punha hors-concours o velho Jornal do Co­mércio; e dos dois, talvez, só a Imprensa seja exceção, porque a colaboração de O Paiz é obtida entre autores portugueses, fato que pouco deve interessar à nossa atividade literária.

 

A Gazeta (quem te viu e quem te vê) só merece ser aqui falada porque seria injusto esquecer o Raul Manso. Mas, está tão só! E não se diga que eles não ganham dinheiro e, tanto ganham que os seus diretores vivem na Europa ou levam no Rio trem de vida nababesco.

 

É que, em geral, não querem pagar a colaboração; e, quando a pagam, fazem-no forçados por empenhos, ou obrigados pela necessidade de agradar a colônia portuguesa, em se tra­tando de escritores lusos.

 

E por falar nisso, vale a pena lembrar o que são as cor­respondências portuguesas para os nossos jornais. Não se en­contram nelas indicações sobre a vida política, mental ou social de Portugal; mas, não será surpresa ver-se nelas notícias edi­ficantes como esta: “A vaca do Zé das Amêndoas, pariu ontem uma novilha”; “o Manuel das Abelhas foi, trasanteontem, mordido por um enxame de vespas”.

 

As dos outros países não são assim tão pitorescas; mas chegam, quando as há, pelo laconismo, a parecer telegrafia.

 

Então o inefável Xavier de Carvalho é mestre na coisa, desde que não se trate de festas da famosa Societé d’Études Por­tugaises!

 

Os jornais da tarde não são lá muito melhores. A Notícia faz repousar o interesse da sua leitura na insipidez dos Pe­quenos Ecos e na graça – gênero Moça de Família do amável Antônio. Unicamente o Jornal do Comércio e esta Gazeta procuram sair fora do molde comum, graças ao alto descortino do Félix e a experiência jornalística do Vítor.

 

Seria tolice exigir que os jornais fossem revistas literárias, mas, isto de jornal sem folhetins, sem crônicas, sem artigos, sem comentários, sem informações, sem curiosidades, não se compreende absolutamente.

 

São tão baldos de informações que, por eles, nenhum de nós tem a mais ligeira notícia da vida dos Estados. Continua do lado de fora o velho Jornal do Comércio.

 

Coisas da própria vida da cidade não são tratadas convenientemente. Em matéria de tribunais, são de uma parcimônia desdenhosa. O júri, por exemplo, que, nas mãos de um jornalista hábil, podia dar uma seção interessante, por ser tão grotesco, tão característico e inédito, nem mesmo nos seus dias solenes é tratado com habilidade.

 

Há alguns que têm o luxo de uma crônica judiciária, mas, o escrito sai tão profundamente jurista que não pode inte­ressar os profanos. Quem conhece as crônicas judiciárias de Henri de Varennes, no Figaro, tem pena que não apareça um discípulo dele nos nossos jornais.

 

Aos apanhados dos debates da Câmara e do Senado podia dar-se mais cor e fisionomia, os aspectos e as particularidades do recinto e dependências não deviam ser abandonados.

 

Há muito que suprimir nos nossos jornais e há muito que criar. O senhor Jaurès mostrou um dos defeitos dos nossos jornais e eu pretendi indicar alguns. Não estou certo de que, suprimidos eles, os jornais possam ter a venda decu­plicada. O povo é conservador, mas não foi nunca contando com a adesão imediata do povo que se fizeram revoluções.

 

Não aconselho a ninguém que faça uma transformação no nosso jornalismo. Talvez fosse mal sucedido e talvez fosse bem, como foi Ferreira de Araújo, quando fundou, há quase quarenta anos, a Gazeta de Noticias. Se pudesse, tentava; mas como não posso, limito-me a clamar, a criticar.

 

Fico aqui e vou ler os jornais. Cá tenho o Binóculo, que me aconselha a usar o chapéu na cabeça e as botas nos pés. Continuo a leitura. A famosa seção não abandona os conselhos. Tenho mais este: as damas não devem vir com toilettes luxuosas para a Rua do Ouvidor. Engraçado esse Binóculo! Não quer toilettes luxuosas nas ruas, mas ao mesmo tempo descreve essas toilettes. Se elas não fossem luxuosas haveria margem para as descrições? O Binóculo não é lá muito lógico...

 

Bem. Tomo outro. É o Correio da Manhã. Temos aqui uma seção interessante: “O que vai pelo mundo”. Vou ter notícias da França, do Japão, da África do Sul, penso eu. Leio de fio a pavio. Qual nada! O mundo aí é Portugal só e unicamente Portugal. Com certeza, foi a república recentemente proclamada, que o fez crescer tanto. Bendita re­pública!

 

Fez mais que o Albuquerque terríbil e Castro forte e outros em quem poder não teve a morte.

 

Gazeta da Tarde, Rio, 20-10-1911.

 

 

 

OS CORTES

 

 

 

Nos momentos em que a pátria fica a níqueis, a Câmara e o Senado, isto é, os senhores senadores e os senhores deputados, lembram-se logo de diminuir o número de funcionários públicos.

 

Não digo que se não possa faze-lo; a tal respeito, não tenho opinião.

 

Diminuí-los ou não, mesmo que eu entre no corte, é para mim absolutamente indiferente.

 

Noto, porém, que as duas casas do congresso não se lembram, de forma alguma, do que se passa nelas.

 

Toda a gente sabe que a Câmara e o Senado, têm cada qual uma secretaria, um serviço de redação de debates, uma legião de auxiliares, de contínuos e serventes, e que esse cardume de empregos aumenta de ano para ano. Porque o congresso não começa cortando nas respectivas secretarias, para dar exemplo?

 

Nesse ponto não se toca, não se diz nada e os empregados do executivo são os mais culpados do déficit.

 

É uma verdadeira injustiça, tanto mais que os funcionários da Câmara e do Senado têm, quase sempre, além de bons ordenados legais, consideráveis gratificações, sob este ou aquele pretexto.

 

O povo diz que macaco não olha para o seu rabo; os parlamentares só olham para os dos outros.

 

Não se lembram que, de quando em quando, vão criando lugares nas suas secretarias, absolutamente desnecessários, tão-somente para atender a impulsos de coração.

 

Homo sum...

 

Certamente os senhores devem saber que, antigamente, os atuais diretores de secretarias eram chamados oficiais-maiores.

 

Pois bem: a Câmara tem na sua secretaria um diretor, um vice-diretor ou dois, e um oficial-maior.

 

Não é fácil mostrar assim o rol de empregados em dupli­cata ou triplicata que há por lá. Os regulamentos não falam claro; é preciso combiná-los com indicações, com autorizações camarárias e é trabalho que sempre reputei e reputo enfa­donho.

 

O Diário Oficial foi feito para não ser lido e o congresso não tem mais direitos a melhores atenções.

 

A observação ai fica, e, enquanto ela quiser imitar qualquer das famosas “secretarias da comissão tal” legisladores extraconstitucionais e sobremodo impertigados nas suas fun­ções, penso, dizia, que os abnegados pais da pátria devem meditar sobre o fato.

 

Não é só o poder executivo o grande plantador de sinecuras; o legislativo colabora na plantação, na colheita; e, na sua própria seara faz das suas.

 

Cá e lá, más fadas há; e não é a última vez que torto ri-se do aleijado.

 

Correio da Noite, Rio, 14-12-1914.

 

 

 

QUANTOS?

 

 

 

Os nossos financeiros do congresso, ou fora dele, são deveras interessantes. Tateiam, hesitam, andam às apalpadelas, nos casos que mais precisam de decisão.

 

Resolveram eles, para salvar a Pátria, que anda a níqueis, que os empregados públicos fossem tributados de maneira mais ou menos forte.

 

Nada mais justo. Como já tive ocasião de dizer, é razoável que a Pátria “pronta”, “morda” os seus filhos “prontos”; e eu, que estou em causa, não protesto absolutamente.

 

Estou cordialmente disposto a contribuir com os meus “caraminguaus” para a salvação do país mais rico do mundo. Agora, uma coisa, caros senhores legisladores: quanto te­nho de pagar?

 

Uma hora dizem: dez por cento. Faço os meus cálculos e digo de mim para mim: suporto.

 

E voto porque nos cortem certas despesas suntuárias, como o governo anda a cortar a dos automóveis.

 

Vem, porém, um outro “salvador” e diz: você, “Seu” Barreto, vai pagar unicamente cinco por cento.

 

Tomo a respiração, vou para casa e abençôo o congresso: homens sérios!

 

Viram bem que dez por cento era muita coisa!

 

Não confesso a minha alegria à mulher e aos filhos, porque os não tenho, mas canto a satisfação pelas ruas, embora os transeuntes me tomem por louco.

 

Ainda bem não dou largas à minha alegria, quando chega um outro e propõe: você deve ser descontado em doze por cento.

 

Ora bolas! Isto também é demais! Então eu sou o holandês que paga o mal que não fez?

 

Não é possível que os senhores legisladores pensem que posso assim ser esfolado, sem mais nem menos; e os meus vencimentos estejam assim dispostos a serem diminuídos, con­forme a fantasia de cada um.

 

Entro na subscrição para manter o Ministério da Agricul­tura, mas de conformidade com as minhas posses. Notem bem.

 

Se ele precisa de tanto dinheiro, nada mais razoável do que apelar para o visconde de Morais, o Gaffrée ou mesmo para o Rocha Alazão, que, em tais coisas de “facadas” é mestre consumado, respeitado e admirado por todos, porquanto – confessemos aqui entre amigos – quem não deu a sua “facadinha”?

 

Correio da Noite, Rio, 18-12-1914.

 

 

 

NÃO SE ZANGUEM

 

 

 

A cartomancia entrou decididamente na vida nacional. Os anúncios dos jornais todos os dias proclamam aos quatro ventos as virtudes miríficas das pitonisas.

 

Não tenho absolutamente nenhuma ojeriza pelas adivinhas; acho até que são bastante úteis, pois mantêm e sustentam no nosso espírito essa coisa que é mais necessária à nossa vida que o próprio pão: a ilusão.

 

Noto, porém, que no arraial dessa gente que lida com o destino, reina a discórdia, tal e qual no campo de Agra­mante.

 

A política, que sempre foi a inspiradora de azêdas polêmicas, deixou um instante de sê-lo e passou a vara à cartomancia.

 

Duas senhoras, ambas ultravidentes, extralúcidas e não sei que mais, aborreceram-se e anda uma delas a dizer da outra cobras e lagartos.

 

Como se pode compreender que duas sacerdotisas do invisível não se entendam. e dêem ao público esse espetáculo de brigas tão pouco próprio a quem recebeu dos altos pode­res celestiais virtudes excepcionais?

 

A posse de tais virtudes devia dar-lhes uma mansuetude, uma tolerância, um abandono dos interesses terrestres, de forma a impedir que o azedume fosse logo abafado nas suas almas extraordinárias e não rebentasse em disputas quase san­grentas.

 

Uma cisão, uma cisma nessa velha religião de adivinhar o futuro, é fato por demais grave e pode ter consequências desastrosas.

 

Suponham que F. tenta saber da cartomante X se coisa essencial à sua vida vai dar-se e a cartomante, que é dissidente da ortodoxia, por pirraça diz que não.

 

O pobre homem aborrece-se, vai para casa de mau humor e é capaz de suicidar-se.

 

O melhor, para o interesse dessa nossa pobre humanidade, sempre necessitada de ilusões, venham de onde vier, é que as nossas cartomantes vivam em paz e se entendam para nos ditar bons horóscopos.

 

Correio da Noite, Rio, 26-12-1914.

 

 

 

A POLÍCIA SUBURBANA

 

 

 

Noticiam os jornais que um delegado inspecionando, durante uma noite destas, algumas delegacias suburbanas, encontrou-as às moscas, comissários a dormir e soldados a sonhar.

 

Dizem mesmo que o delegado-inspector surripiou objetos para pôr mais à mostra o descaso dos seus subordinados.

 

Os jornais, com aquele seu louvável bom senso de sempre, aproveitaram a oportunidade para reforçar as suas recla­mações contra a falta de policiamento nos subúrbios.

 

Leio sempre essas reclamações e pasmo. Moro nos subúrbios há muitos anos e tenho o hábito de ir para a casa alta noite.

 

Uma vez ou outra encontro um vigilante noturno, um policial e muito poucas vezes é-me dado ler notícias de cri­mes nas ruas que atravesso.

 

A impressão que tenho é de que a vida e a proprie­dade daquelas paragens estão entregues aos bons sentimentos dos outros e que os pequenos furtos de galinhas e coradouros não exigem um aparelho custoso de patrulhas e apitos.

 

Aquilo lá vai muito bem, todos se entendem livremente e o Estado não precisa intervir corretivamente para fazer res­peitar a propriedade alheia.

 

Penso mesmo que, se as coisas não se passassem assim, os vigilantes, obrigados a mostrar serviço, procurariam meios e modos de efetuar detenções e os notívagos, como eu, ou os pobres-diabos que lá procuram dormida, seriam incomodados, com pouco proveito para a lei e para o Estado.

 

Os policiais suburbanos têm toda a razão. Devem continuar a dormir. Eles, aos poucos, graças ao calejamento do ofício, se convenceram de que a polícia é inútil.

 

Ainda bem.

 

Correio da Noite, Rio, 28-12-1914.

 

 

 

A MÚSICA

 

 

 

Pouco entendo de semelhante arte, mas quero mostrar uma pequena observação que venho fazendo de há muito.

 

Os jornais... Eu gosto dos jornais para justificar as minhas observações. Os jornais, dizia, desmancham-se em elogios, em retratos, em gabos, por ocasião de um concerto ou, pelo fim do ano, quando se realizam os exames do Instituto de Música, a tais ou quais cantoras, pianistas, violinistas, harpistas, pistonistas, flautistas, etc.

 

Eu leio os elogios e fico convencido de que a arte musical vai num progresso doido entre nós.

 

E a manifestação estética que mais revelações apresenta é aquela que mais se afirma entre nós.

 

Porque, em se tratando de pintores, que aparecem com seus quadros, em exposições públicas, não são os elogios assim, tão constantes e seguidos.

 

Mesmo no que toca às letras, os quotidianos são sempre parcos em gabos e clichés de imortalidade.

 

Porque, então, o são tanto para a música?

 

É difícil de explicar, tanto mais que a criação musical, as obras, não aparece.

 

Não se diga que tal coisa sempre se deu.

 

As crônicas registram obras de alguns homens notáveis e as poucas que hoje aparecem são de homens.

 

A música está atualmente, entre nós, entregue às moças; ficou sendo um atavio, um adorno mundano e vai perdendo aos poucos o que possa haver nela de profundo e importan­te para o nosso destino.

 

As mulheres são extraordinariamente aptas para essas coi­sas de reprodução, de execução, de exames, de concursos; mas quando se trata de criação, de invenção, de ousadia inte­lectual, fraqueiam.

 

Um autor, Abel France, num estudo, O indivíduo e os diplomas, explanou muito bem essa capacidade das mulheres e mostrou que a continuar esse nosso sistema chinês de exames e concursos, combinando com a emancipação feminina, todos os cargos ficariam nas mãos das mulheres e o progresso intelectual estagiaria.

 

Sei bem que há exceção, mas todas elas estão fora da música.

 

Os grandes músicos têm sido sempre homens e se não temos músicos equivalentes aos escritores e pintores que possuímos, é porque de uns tempos a esta parte a música ficou sendo, entre nós, arte de moças que querem casar, ou de outras que querem ganhar muito dinheiro ensinando aqui e ali.

 

Correia da Noite, Rio, 30-12-1914.

 

 

 

A PROPÓSITO

 

 

 

Continuam a proliferar as chamadas “revistas de ano” e continuam também a ser aclamadas e gabadas em todos os tons.

 

Se elas são procuradas, se os teatros que as representam se enchem, é porque o povo as aprecia.

 

Não há razão, portanto, para essa grita, essas reclamações, essas petições lamurientas com que andam os nossos atores a pedir aos poderes públicos que lhes venham em auxílio.

 

O problema está remediado, não é preciso intervenção do Estado, municipal ou federal, para salvá-los, para protegê-los. Tudo está em fabricar “revistas” e representá-las, para que os teatros se encham, os atores ganhem dinheiro e as atrizes fa­çam vibrar as platéias.

 

O governo não precisa meter-se no caso e a resolução do problema está entregue a iniciativa particular.

 

De resto, não me parece curial que o Estado vá subvencionar um teatro que só é capaz de produzir, de representar e de atrair o público quando põe em cena revistas.

 

O povo não quer outro gênero, o povo não gosta de outra coisa, pois que o povo goze, se emocione com seu gê­nero predileto.

 

O governo não tem mais nada que se intrometer; e é entregar o teatro com o povo, com os atores e os famosos autores de revistas às pernadas e couplets “do preto no branco”.

 

O mais é malhar em ferro frio, não se obtendo coisa alguma.

 

O teatro com pretensões artísticas definitivamente morreu entre nós, a menos que queiramos esperar pela lenta evolu­ção para refinamento das peças do Circo Spinelli.

 

Insistir em esperar que a ação do governo mude de orientação o gosto da multidão, é uma ingenuidade de pasmar.

 

Se ele só vai espontaneamente às várias “urucabacas” que se representam por aí, não irá às peças do senhor Pinto da Rocha nem que os subdelegados, suplentes, inspectores, guardas civis, soldados, agentes, secretas, encostados obriguem-no.

 

Convém pôr de lado essa esperança de milagre do governo em matéria de teatro.

 

O governo é o Deus menos milagroso que há e, quando faz milagres, pesa sobremodo nas nossas algibeiras.

 

Não vale a pena que ele nos tire mais alguns níqueis das nossas algibeiras, para representar diante das cadeiras vazias do Municipal peças de cavalheiros mais ou menos bem relacionados na nossa melhor sociedade.

 

Se querem exibir a sua dramaturgia que o façam nas salas dos magnatas e ricaços de Botafogo e Laranjeiras.

 

Correio da Noite, Rio, 12-1-1915.

 

 

 

O MORCEGO

 

 

 

O carnaval é a expressão da nossa alegria. O ruído, o barulho, o tantã espancam a tristeza que há nas nossas almas, atordoam-nos e nos enche de prazer.

 

Todos nós vivemos para o carnaval. Criadas, patroas, dou­tores, soldados, todos pensamos o ano inteiro na folia carna­valesca.

 

O zabumba é que nos tira do espírito as graves preocupações da nossa árdua vida.

 

O pensamento do Sol inclemente só é afastado pelo regougar de um qualquer Iaiá me deixe.

 

Há para esse culto do carnaval sacerdotes abnegados.

 

O mais espontâneo, o mais desinteressado, o mais lídimo é certamente o Morcego.

 

Durante o ano todo, Morcego é um grave oficial da Di­retoria dos Correios, mas, ao aproximar-se o carnaval, Morcego sai de sua gravidade burocrática, atira a máscara fora e sai para a rua.

 

A fantasia é exuberante e vária, e manifesta-se na modinha, no vestuário, nas bengalas, nos sapatos e nos cintos.

 

E então ele esquece tudo: a pátria, a família, a humanidade. Delicioso esquecimento!... Esquece e vende, dá, prodigaliza alegria durante dias seguidos.

 

Nas festas da passagem do ano, o herói foi o Morcego.

 

Passou dois dias dizendo pilhérias aqui, pagando ali; cantando acolá, sempre inédito, sempre novo, sem que as suas dependências com o Estado se manifestassem de qualquer forma.

 

Ele então não era mais a disciplina, a correção, a lei, o regulamento; era o coribante inebriado pela alegria de viver. Evoé, Bacelar!

 

Essa nossa triste vida, em país tão triste, precisa desses videntes de satisfação e de prazer; e a irreverência da sua alegria, a energia e atividade que põem em realizá-la, fazem vibrar as massas panurgianas dos respeitadores dos preconcei­tos.

 

Morcego é uma figura e uma instituição que protesta contra o formalismo, a convenção e as atitudes graves.

 

Eu o bendisse, amei-o, lembrando-me das sentenças falsamente proféticas do sanguinário positivismo do senhor Teixeira Mendes.

 

A vida não se acabará na caserna positivista enquanto os “morcegos” tiverem alegria...

 

Correio da Noite, Rio, 2-1-1915.

 

 

 

PÓLVORA E COCAÍNA

 

 

 

Já houve quem dissesse por aí que o Rio de Janeiro é a cidade das explosões.

 

Na verdade, não há semana em que os jornais não registrem uma aqui e ali, na parte rural.

 

A idéia que se faz do Rio é de que é ele um vasto paiol, e vivemos sempre ameaçados de ir pelos ares, como se estivéssemos a bordo de um navio de guerra, ou habitando uma fortaleza cheia de explosivos terríveis.

 

Certamente que essa pólvora terá toda ela emprego útil; mas, se ela é indispensável para certos fins industriais, convinha que se averiguassem bem as causas das explosões, se são acidentais ou propositais, a fim de que fossem removidas na medida do possível.

 

Isto, porém, é que não se tem dado e creio que até hoje não têm as autoridades chegado a resultados positivos.

 

Entretanto, é sabido que certas pólvoras, submetidas a dadas condições, explodem espontaneamente e tem sido essa a explicação para uma série de acidentes bastante dolorosos, a começar pelo do Maine, na baía de Havana, sem esquecer também o do Aquidabã.

 

Noticiam os jornais que o governo vende, quando ava­riada, grande quantidade dessas pólvoras.

 

Tudo está a indicar que o primeiro cuidado do governo devia ser não entregar a particulares tão perigosas pólvoras, que explodem assim sem mais nem menos, pondo pacificas vidas em constante perigo.

 

Creio que o governo não é assim um negociante ganancioso que vende gêneros que possam trazer a destruição de vidas preciosas; e creio que não é, porquanto anda sempre zangado com os farmacêuticos que vendem cocaína aos sui­cidas.

 

Há sempre no Estado curiosas contradições.

 

Correio da Noite, Rio, 5-1-1915.

 

 

 

UM EXEMPLO

 

 

 

Ontem, véspera de Reis, encontrei na avenida o meu ve­lho amigo doutor Honório Menelique.

 

Todo o Rio conhece, pelas notícias dos jornais, o Centro Cívico Sete de Setembro, mas poucos sabem que o centro é criação do esforço constante de Menelique, é a sua idéia, é o seu amor.

 

Os maldosos poderão julgar levianamente que se trata de uma sociedade de festejos e bajulação a pessoas poderosas e influentes. Julgarão mal. Menelique crê na instrução, quer propagá-la, deseja transformar os seus cursos que o centro mantém em aulas profissionais, onde as crianças pobres e sem arrimo se eduquem, aprendam um ofício, de forma a poderem levar o fardo da vida com mais facilidade. Para realizar o seu ideal é preciso fazer o centro conhecido, preocupando a cidade; e, já que não temos milionários generosos que auxi­liem os nossos Brooks Washingtons, ele emprega processos ade­quados.

 

Conhecendo o nosso meio, Menelique age de acordo com ele, procede de acordo com os seus gostos e vai mansamente realizando os seus projetos.

 

É um esforçado e abnegado que trocou as comodidades de primeiro escriturário da alfândega, pelas agruras de diretor de uma instituição, frequentada por mais de trezentas crianças, sem receber dos poderes públicos a menor subvenção pecu­niária.

 

Ele me falou largamente dos seus projetos futuros, da criação de uma sucursal dos cursos do centro, fora da cidade, em que pudesse criar oficinas amplas, iluminadas, higiênicas, em que os seus discípulos pudessem adestrar-se nos vários mis­teres e ofícios.

 

Lembramos que se podia estender mais o seu já vasto plano, criando a aprendizagem agrícola, encaminhando atividades para a agricultura, inculcando nos espíritos o amor pela terra, de onde se pode tirar meios de vida com auxílio de processos racionais e aperfeiçoados.

 

Admirei Menelique, a sua constância, a sua tenacidade, o seu espirit de suit, qualidades de caráter tão diferentes das que estamos habituados a encontrar nos nossos homens e que eu não encontro em mim mesmo.

 

Menelique, é um esforçado, não desanima e vai vencendo os obstáculos opostos à realização dos seus ideais com habilidade de quem penetrou profundamente no nosso meio social. É um exemplo a imitar.

 

Correio da Noite, Rio, 6-1-1915.

 

A LEI

 

 

 

Este caso da parteira merece sérias reflexões que tendem a interrogar sobre a serventia da lei.

 

Uma senhora, separada do marido, muito naturalmente quer conservar em sua companhia a filha; e muito naturalmente também não quer viver isolada e cede, por isto ou aquilo, a uma inclinação amorosa.

 

O caso se complica com uma gravidez e para que a lei, baseada em uma moral que já se findou, não lhe tire a filha, procura uma conhecida, sua amiga, a fim de provocar um aborto de forma a não se comprometer.

 

Vê-se bem que na intromissão da “curiosa” não houve nenhuma espécie de interesse subalterno, não foi questão de dinheiro. O que houve foi simplesmente camaradagem, amizade, vontade de servir a uma amiga, de livrá-la de uma ter­rível situação.

 

Aos olhos de todos, é um ato digno, porque, mais do que o amor, a amizade se impõe.

 

Acontece que a sua intervenção foi desastrosa e lá vem a lei, os regulamentos, a polícia, os inquéritos, os peritos, a faculdade e berram: você é uma criminosa! você quis impe­dir que nascesse mais um homem para aborrecer-se com a vida!

 

Berram e levam a pobre mulher para os autos, para a justiça, para a chicana, para os depoimentos, para essa via-sacra da justiça, que talvez o próprio Cristo não percorresse com resignação.

 

A parteira, mulher humilde, temerosa das leis, que não conhecia, amedrontada com a prisão, onde nunca esperava parar, mata-se.

 

Reflitamos, agora; não é estúpida a lei que, para proteger uma vida provável, sacrifica duas? Sim, duas porque a ou­tra procurou a morte para que a lei não lhe tirasse a filha. De que vale a lei?

 

Correio da Noite, Rio, 7-1-1915.

 

 

 

AS ESQUINAS

 

 

 

A questão da venda de jornais volta a ser ventilada e há a tal respeito um projeto no Conselho Municipal.

 

Os jornais, em geral, se insurgem contra a regulamentação desse comércio. Não vemos razão para semelhante procedi­mento.

 

São as folhas volantes artigo de comércio como outro qualquer e dessa mercancia diversas pessoas auferem lucros, às vezes mesmo fabulosos, como no caso dos distribuidores.

 

É verdade que o imposto sobre os pequenos vendedores viria dificultar a circulação dos jornais, mas continuar a exposição dos jornais, como se faz atualmente na via pública, tomando os passeios, é coisa que não depõe muito francamente para o nosso adiantamento.

 

Os gansos do Binóculo, é de estranhar que não tenham ainda dado o alarme... Acresce o fato de que tais lugares são vendidos por avultadas quantias, passam de dono a dono, como se fossem verdadeiras casas comerciais, para justificar um maior rigor na fiscalização de tal comércio.

 

Não se compreende que certa e determinada classe de mercantes goze de privilégios e não se pode compreender também que a rua, propriedade comum, patrimônio de todos, seja cindida, limitada aqui e ali, transformando-se certos espa­ços dela em propriedade de alguns.

 

Que o Conselho Municipal tem toda a razão em voltar as suas vistas para o caso, não há pessoa de bom senso que o negue.

 

Basta passar pelas esquinas das ruas transitadas para verificar como é desagradável, como perturba o trânsito, o acúmulo de jornais que os vendedores nelas fazem.

 

Considere-se ainda que o número de jornais tende a crescer, que todos eles querem ser postos à venda, para justificar uma regulamentação, que se faz mister a menos que não queiramos ver os passeios das nossas ruas transformados em mostruário de quotidianos.

 

Os homens viajados e passeados pelo mundo dizem que essa venda é feita em outras capitais em quiosques espe­ciais – porque não pode ela ser feita aqui da mesma manei­ra?

 

Os pequenos vendedores não são o mais grave aspecto da questão; os “jornaleiros” estacionados nas esquinas, julgo eu é que constituem a face mais importante do problema.

 

Os nossos edis, que já protegeram a virtude com certo uniforme adequado, devem quanto antes voltar as suas vistas para essa feição da nossa vida urbana e resolvê-la cabalmente.

 

Correio da Noite, Rio, 9-1-1915.

 

 

 

COM O BINÓCULO

 

 

 

Ontem, domingo, o calor e a mania ambulatória não me permitiram ficar em casa. Saí e vim aos lugares em que um “homem das multidões” pode andar aos domingos.

 

Julgava que essa história de piqueniques não fosse mais binocular; o meu engano, porém, ficou demonstrado.

 

No Largo da Carioca havia dois ou três bondes especiais e damas e cavalheiros, das mais chics rodas, esvoaçavam pela Galeria Cruzeiro, à espera da hora.

 

Elas, as damas, vinham todas vestidas com as mais custosas confecções ali do Ferreira, do Palais, ou do nobre Ramalho Ortigão, do Parc, e ensaiavam sorrisos como se fossem para Versalhes nos bons tempos da realeza francesa.

 

Eu pensei que uma pasmosa riqueza tinha abatido sobre o Ameno Resedá ou sobre a Corbeille des Fleurs do nosso camarada Lourenço Cunha; mas estudei melhor as fisionomias e recebi a confirmação de que se tratava de damas binocu­lares, que iam a uma festa hípica, ou quer que seja, no Jardim Botânico.

 

Não é de estranhar que as pessoas binoculares vão a festas e piqueniques, mas assim, charanga à porta, a puxar o cortejo com um dobrado saltitante, julgo eu que não é da mais refinada elegância.

 

O Binóculo deve olhar para esse fato; deve procurar por um pouco mais de proporção, de discreção nessas manifesta­ções festivas da nossa grande roda aos cavalos de corridas; e ele tem tanto trabalho para o refinamento da nossa socie­dade que não pode esquecer esse ponto.

 

Imagino que em Paris ou Londres os dez mil de cima não dão aos “rotos” esse espetáculo de tão flagrante mau gosto.

 

     Não posso compreender como a elegante mme Bulhões Sylvá, toda lida e saída nas revistas, jornais e livros do bom-tom, que tem o Don’t de cor, como o senhor Aurelino o Código Penal, saia de manhã de casa, meta-se num bonde em companhia de pessoas mais ou menos desconhecidas e vá pelas ruas do Rio de Janeiro afora, ao som de uma cha­ranga que repinica uma polca chorosa de muito rancho car­navalesco.

 

Correio da Noite, Rio, 11-1-1915.

 

 

 

CONHECEM?

 

 

 

Eu não sei que mania se meteu na nossa cabeça moderna de que todas as dificuldades da sociedade se podem obviar mediante a promulgação de um regulamento executado mais ou menos pela coação autoritária de representantes do governo.

 

Nesse caso de criados, o fato é por demais eloquente e pernicioso.

 

Porque regulamentar-se o exercício da profissão de criado? Porque obrigá-los a uma inscrição dolorosa nos registros oficiais, para tornar ainda mais dolorosa a sua situação dolo­rosa?

 

Porque?

 

Porque pode acontecer que sejam metidos nas casas dos ricos ladrões ou ladras; porque pode acontecer que o criado, um dado dia, não queira mais fazer o serviço e se vá embora.

 

Não há outras justificativas senão estas, e são bem tolas.

 

Os criados sempre fizeram parte da família: é concep­ção e sentimento que passaram de Roma para a nobreza feu­dal e as suas relações com os patrões só podem ser regula­das entre eles.

 

A Revolução, aniquilando a organização da família feudal, trouxe à tona essa questão da flamulagem; mas, mesmo assim, ela não rompeu o quadro familiar de modo a impedir que os seus chefes regulem a admissão de estranhos no lar.

 

A obrigação do dono ou dona de casa que procura um criado, que o põe debaixo do seu teto, é saber quem ele é; o resto não passa de opressão do governo sobre os humil­des, para servir à comodidade burguesa.

 

Querem fazer das nossas vidas, dos indivíduos, das almas, uma gaveta de fichas. Cada um tem que ter a sua e, para obtê-la, pagar emolumentos, vencer a ronha burocrática, lidar com funcionários arrogantes e invisíveis, como em geral, são os da polícia.

 

Imagino-me amanhã na mais dura miséria, sem parentes, sem amigos. Sonho fazer-me esquivo e bato à primeira porta.

 

Seria aceito, mas é preciso a ficha.

 

Vou buscar a ficha e a ficha custa vinte ou trinta mil-réis. Como arranjá-los?

 

Eis aí as belezas da regulamentação, desse exagero de legislar, que é o característico da nossa época.

 

Toda a gente sabe a que doloroso resultado tem chegado semelhante mania.

 

Inscrito um tipo nisto ou naquilo, ele está condenado a não sair dali, a ficar na casta ou na classe, sem remissão nem agravo.

 

Deixemos esse negócio entre patrões e criados, e não estejamos aqui a sobrecarregar a vida dos desgraçados com exi­gências e regulamentos que os condenarão toda a sua vida à sua lamentável desgraça.

 

Os senhores conhecem a regulamentação da prostituição em Paris? Os senhores conhecem o caso de mme Comte? Oh! meu Deus!

 

Correio da Noite, Rio, 15-1-1915.

 

 

 

O NOVO MANIFESTO

 

 

 

Eu também sou candidato a deputado. Nada mais justo. Primeiro: eu não pretendo fazer coisa alguma pela pátria, pela família, pela humanidade.

 

Um deputado que quisesse fazer qualquer coisa dessas, ver-se-ia bambo, pois teria, certamente, os duzentos e tantos espíritos dos seus colegas contra ele.

 

Contra as suas idéias levantar-se-iam duas centenas de pessoas do mais profundo bom senso.

 

Assim, para poder fazer alguma coisa útil, não farei coi­sa alguma, a não ser receber o subsídio.

 

Eis aí em que vai consistir o máximo da minha ação parlamentar, caso o preclaro eleitorado sufrague o meu nome nas urnas.

 

Recebendo os três contos mensais, darei mais conforto à mu­lher e aos filhos, ficando mais generoso nas facadas aos amigos.

 

Desde que minha mulher e os meus filhos passem melhor de cama, mesa e roupas, a humanidade ganha. Ganha, porque, sendo eles parcelas da humanidade, a sua situação melhorando, essa melhoria reflete sobre o todo de que fazem parte.

 

Concordarão os nossos leitores e prováveis eleitores, que o meu propósito é lógico e as razões apontadas para justificar a minha candidatura são bastante ponderosas.

 

De resto, acresce que nada sei da história social, política e intelectual do país; que nada sei da sua geografia; que nada entendo de ciências sociais e próximas, para que o no­bre eleitorado veja bem que vou dar um excelente deputado.

 

Há ainda um poderoso motivo, que, na minha consciên­cia, pesa para dar este cansado passo de vir solicitar dos meus compatriotas atenção para o meu obscuro nome.

 

Ando mal vestido e tenho uma grande vocação para elegâncias.

 

O subsídio, meus senhores, viria dar-me elementos para realizar essa minha velha aspiração de emparelhar-me com a deschanelesca elegância do senhor Carlos Peixoto.

 

Confesso também que, quando passo pela Rua do Passeio e outras do Catete, alta noite, a minha modesta vaga­bundagem é atraída para certas casas cheias de luzes, com carros e automóveis à porta, janelas com cortinas ricas, de onde jorram gargalhadas femininas, mais ou menos falsas.

 

Um tal espetáculo é por demais tentador, para a minha imaginação; e, eu desejo ser deputado para gozar esse paraí­so de Maomé sem passar pela algidez da sepultura.

 

Razões tão ponderosas e justas, creio, até agora, nenhum candidato apresentou, e espero da clarividência dos homens livres e orientados o sufrágio do meu humilde nome, para ocupar uma cadeira de deputado, por qualquer Estado, pro­víncia, ou emirado, porque, nesse ponto, não faço questão alguma.

 

Às urnas.

 

Correio da Noite, Rio, 16-1-1915.

 

 

 

O NOSSO SECRETÁRIO

 

 

 

O Emílio Alvim faz anos hoje. É coisa curiosa que festejemos esse avanço para o túmulo. Muita gente tem protestado contra semelhante praxe.

 

As razões são bastante valiosas; mas, quando se festeja mais um ano de vida, não é o caminho para a morte que se tem a vista.

 

E a vida que se já viveu, pois morrer deve ser bom, mas viver é melhor e, ao se notar que já completamos mais um ano de existência, temos certeza de que gozamos alguma coisa.

 

Alvim, hoje, como se dizia antigamente, colhe mais uma flor no jardim da sua preciosa existência.

 

E um bom pretexto para falar dele, para dizer alguma das suas boas qualidades de coração e de caráter, da sua intrepidez e amor ao trabalho.

 

Dizem os metafísicos que o fundo do ser é a contradição; o fundo desta vida de jornais é também a contradição.

 

Berram eles pelos princípios morais, reclamam lealdade entre os homens, generosidade, clemência, justiça, etc., etc., e nada disso há entre os seus profissionais.

 

Nas suas relações mútuas mais domina o azedume do que a cordialidade; mais a intolerância do que o perdão mútuo.

 

Quem vive dentro do jornalismo, tem a impressão de que está entre lobos; os homens de jornais se devoram.

 

Há mesmo a teoria do “tombo”. Consiste a teoria do tombo em se meter um sujeito em um jornal, por intermédio deste ou daquele, fazer artes e coisas, e derrubar o protetor.

 

São intrigas de serralho, mas às quais ninguém escapa, quer como paciente, quer como agente, quer como agente paciente.

 

Alvim não é assim, tem no jornal um procedimento à parte, procede retamente, limpamente, e constitui por isso um exemplar excepcional de homem de jornal.

 

Secretário deste jornal, ele o foi por si mesmo, sem ca­bala, nem comadriagem devido unicamente a seu esforço, à sua capacidade de encher tiras e mais tiras, quase sem uma hesitação, sem uma emenda, tendo feito muito rapidamente, uma segurança de estilo, de julgamento, de quem veio para o jornal já seguro dos instrumentos de que a arte de escre­ver exige se tenha.

 

É assim o Alvim. Ele faz anos hoje; que o faça muitas vezes.

 

Correio da Noite, Rio, 18-1-1915.

 

 

 

AS ENCHENTES

 

 

 

As chuvaradas de verão, quase todos os anos, causam no nosso Rio de Janeiro, inundações desastrosas. Além da suspensão total do tráfego, com uma prejudicial interrupção das comunicações entre os vários pontos da cida­de, essas inundações causam desastres pessoais lamentáveis, muitas perdas de haveres e destruição de imóveis.

 

De há muito que a nossa engenharia municipal se devia ter compenetrado do dever de evitar tais acidentes urbanos.

 

Uma arte tão ousada e quase tão perfeita, como é a engenharia, não deve julgar irresolvível tão simples problema.

 

O Rio de Janeiro, da avenida, dos squares, dos freios elétricos, não pode estar à mercê de chuvaradas, mais ou menos violentas, para viver a sua vida integral.

 

Como está acontecendo atualmente, ele é função da chuva. Uma vergonha!

 

Não sei nada de engenharia, mas, pelo que me dizem os entendidos, o problema não é tão difícil de resolver como parece fazerem constar os engenheiros municipais, procrasti­nando a solução da questão.

 

O Prefeito Passos, que tanto se interessou pelo embelezamento da cidade, descurou completamente de solucionar esse defeito do nosso Rio.

 

Cidade cercada de montanhas e entre montanhas, que recebe violentamente grandes precipitações atmosféricas, o seu principal defeito a vencer era esse acidente das inunda­ções.

 

Infelizmente, porém, nos preocupamos muito com os as­pectos externos, com as fachadas, e não com o que há de essencial nos problemas da nossa vida urbana, econômica, fi­nanceira e social.

 

Correio da Noite, Rio, 19-1-1915.

 

 

 

E O TAL BALÁZIO?

 

 

 

Ontem, o Instituto Histórico e outras pessoas conspícuas foram ali pelas bandas do Pão de Açúcar e inauguraram um marco comemorativo da fundação da cidade do Rio de Janeiro.

 

Nada mais justo e ato não há mais digno de encômios.

 

O senhor Vieira Fazenda, com aquela sua secura de alfarrabista, com aquele seu amor a datas e às controvérsias, leu um discurso sisudo, muito adstricto ao fato, sem associações de outros fatos próximos e remotos.

 

A fundação do Rio de Janeiro é, para ele, um simples pretexto de alvarás, cartas régias, foros e sesmarias. O senhor Fazenda não vê nada além dos secos documentos oficiais; não vê as consequências econômicas, as sociais, os encadeamentos de grandes e pequenos acontecimentos, que o ato de Estácio de Sá deu causa, foi gerador, sem que estivessem no seu ou no pensamento dos companheiros dele.

 

Não nego ao senhor Fazenda méritos de historiógrafo, de paciente pesquisador, de rebuscador de documentos, mas fal­ta-lhe a adivinhação, de que falava Renan, a imaginação cria­dora necessária para recompor os acontecimentos históricos.

 

Quero falar, porém, do monumento e não do senhor Vieira Fazenda, pessoa por todos os feitios respeitável, cujo termítico labor em condensar documentos que interessem à história da cidade, me merece a mais intensa admiração.

 

O tal monumento é a coisa mais “estrambótica” que se possa imaginar.

 

Deixou de ter a singeleza que era de esperar tivesse, para ser uma coisa cerebrina de uma agulha de granito ponteada com uma bala de canhão moderno, simbolizando assim as lu­tas que se travaram na fundação da cidade.

 

Se essa simbolização fosse necessária, creio eu que melhor seriam arcos, flechas, tacapes, mosquetes, arcabuzes, balas es­féricas dos velhos canhões de retrocarga, que esse balázio cilindrocônico que é quase de anteontem.

 

Estamos sempre dispostos a ver no passado lutas; porque não havemos de ver solidariedade?

 

Porque só um dos aspectos do sucesso há ser relembrado com um produto do Krupp?

 

A fundação de uma cidade é, antes de tudo, um desejo de comunhão, de associação.

 

Na cidade, todos colaboram, todos concorrem com o seu quinhão, com o seu pequeno esforço para o culto do seu deus – como é então que os senhores do instituto só viram luta e luta com canhões alemães, a despejar projetis cilin­drocônios pelos meados do século XVI?

 

Correio da Noite, Rio. 21-1-1915.

 

 

 

AO SENHOR LUCAS DO PRADO

 

 

 

Não conheço o senhor Lucas do Prado, o famoso “salvador da Pátria”, que, com auxilio de suas bandeirinhas e um apito, proclama, no Largo de São Francisco, as suas virtu­des maravilhosas para levar esta “joça” em bom caminho.

 

Pouco frequento meetings; é gênero teatral que não me atrai, como não me atraem as revistas do senhor Castro ou de outra qualquer sumidade de escritor teatral; mas sigo a ação do “salvador da Pátria” pelas noticias que os jornais dão das suas pitorescas reuniões.

 

As suas teorias me seduzem, sobretudo a de fazer dinhei­ro, papel-moeda, a granel.

 

Floriano Peixoto que, no dizer de muita gente, sem esquecer o senhor Gomes de Castro e o apóstolo Teixeira Men­des, tinha nessa parte da ciência das finanças a mesma opinião que o senhor Lucas; Floriano foi e é ainda proclamado um benemérito, embora não tivesse tomado, como o senhor Lucas, por antecipação, o título que os povos lhe deram.

 

Esse negócio de fazer dinheiro devia ser inteiramente livre.

 

Albino Mendes, que é homem de letras, e, no dizer de muitos, não vulgar, por se ter convencido de semelhante doutrina, quase ficou na cadeia durante catorze anos.

 

O Estado é contra o indivíduo.

 

O governo julga-se no direito de fabricar dinheiro, entretanto, contesta semelhante faculdade nos indivíduos.

 

Porque? É que ele só e unicamente quer merecer confiança; mas confiança não se impõe, lá diz o vulgo, e há Estados que merecem muito menos que o vendeiro ali da esquina.

 

Todos deviam ter a faculdade de emitir moeda e só a confiança no emissor devia regular o recebimento da mesma.

 

Eu de muito boa vontade, receberia a que fosse estampada pelo Albino Mendes.

 

Dizem que são bem feitas, artísticas, bem acabadas, porque não circulam?

 

É o tirano do Estado, o monopolizador que só quer benefícios para o seu egoísmo sem entranhas.

 

O senhor Lucas devia ampliar as suas doutrinas financeiras até o ponto que acabo de apontar e a sua tenacidade e entusiasmo de apóstolo talvez conseguissem uma vitória sobre o odioso estanco governamental que nos põe a “nenê”.

 

Abaixo a Casa da Moeda! Abaixo o Enes que fabrica tesouros!

 

Correio da Noite, Rio, 22-1-1915

 

 

 

OS PRÓPRIOS NACIONAIS

 

 

 

Não sei há quantos anos ouço falar nessa questão de próprios nacionais ocupados indevidamente por particulares.

 

De onde em onde, um paredro lembra na Câmara ou no Senado um alvitre para acabar com semelhante abuso; mas a coisa continua como dantes.

 

O maior escândalo dessa ocupação indébita foi dado pelo senhor barão do Rio Branco que, sem lei, autorização, artigo de regulamento, transformou o palácio do Itamarati em sua residência. Ninguém nada disse, porque o senhor Rio Branco podia perpetrar todos os abusos, todas as violações da lei, impunemente.

 

Guizot, Soult e Wellington, foram ministros de Estado em suas respectivas pátrias e nunca se arrogaram o direito de fazer o que entendessem.

 

Rio Branco, que, apesar dos seus grandes serviços, não tinha absolutamente o valor desses homens, começou por deso­bedecer à Constituição, não apresentando os relatórios anuais, transformando um edifício público em sua residência, nomeava para os lugares de seu ministério quem entendia, sem obe­decer os artigos da lei, e acabou criando essa excrescência, essa inutilidade que é o lugar de subsecretário das Relações Exteriores.

 

Esse exemplo foi edificante e depois dele parece que o governo ficou desmoralizado, sem força, sem autoridade para pôr na rua os intrusos que se meteram nos próprios da Nação.

 

O meu ideal seria que o governo desse uma casa a cada um; mas, como sei muito bem que o custo dessas casas vai recair sobre os que menores cômodos ocuparem, afasto do meu pensamento tão idiota utopia.

 

O que está se dando é de uma desigualdade assombrosa.

 

Em todos os ministérios, principalmente no da Guerra, há umas certas pessoas privilegiadas que moram de graça em belos e magníficos palácios.

 

Não se trata absolutamente de funcionários que, por motivo do seu ofício, se admita tenham casas próximas aos estabelecimentos em que trabalham.

 

São viúvas, filhas, netas, bisnetas de generais, de coronéis, de majores, que acham muito natural que o Estado tenha para elas cuidados mais paternais que não têm com as viúvas, filhas, sobrinhas, netas e bisnetas de carpinteiros, de calafates, de marceneiros, etc.

 

Se o governo tem que proteger herdeiros, proteja logo o de todos os que trabalham ou trabalharam, mas não os de indivíduos desta ou daquela classe, para cuja comodidade e segurança ele vai até o ponto de gastar contos de réis na transformação de grandes edifícios públicos, como o antigo hospital do Andaraí, em “cabeça de porco”.

 

Pai amantíssimo!

 

Correio da Noite, Rio, 23-1-1915.

 

 

 

A VOLTA

 

 

 

O governo resolveu fornecer passagens, terras, instrumentos aratórios, auxílio por alguns meses às pessoas e famí­lias que se quiserem instalar em núcleos coloniais nos Estados de Minas e Rio de Janeiro.

 

Os jornais já publicaram fotografias edificantes dos primeiros que foram procurar passagens na chefatura de polícia.

 

É duro entrar naquele lugar. Há um tal aspecto de sujidade moral, de indiferença pela sorte do próximo, de opressão, de desprezo por todas as leis, de ligeirezas em deter, em prender, em humilhar, que eu, que lá entrei como louco, devido à inépcia de um delegado idiota, como louco, isto é, sagrado, diante da fotografia que estampam os jornais, enchi-me de uma imensa piedade por aqueles que lá foram como pobres, como miseráveis, pedir, humilhar-se diante desse Es­tado que os embrulhou.

 

Porque o senhor Rio Branco, o primeiro brasileiro, como aí dizem, cismou que havia de fazer do Brasil grande potên­cia, que devia torná-lo conhecido na Europa, que lhe devia dar um grande exército, uma grande esquadra, de elefantes paralíticos, de dotar a sua capital de avenidas, de boulevards, elegâncias bem idiotamente binoculares e toca a gastar dinheiro, toca a fazer empréstimos; e a pobre gente que moureja­va lá fora, entre a febre palustre e a seca implacável, pensou que aqui fosse o Eldorado e lá deixou as suas choupanas, o seu sapé, o seu aipim, o seu porco, correndo ao Rio de Janeiro a apanhar algumas moedas da cornucópia inesgotável.

 

Ninguém os viu lá, ninguém quis melhorar a sua sorte no lugar que o sangue dos seus avós regou o eito. Fascina­ram-nos para a cidade e eles agora voltam, voltam pela mão da policia como reles vagabundos.

 

É assim o governo: seduz, corrompe e depois ... uma semicadeia.

 

A obsessão de Buenos Aires sempre nos perturbou o jul­gamento das coisas.

 

A grande cidade do Prata tem um milhão de habitantes; a capital argentina tem longas ruas retas; a capital argentina não tem pretos; portanto, meus senhores, o Rio de Janeiro, cortado de montanhas, deve ter largas ruas retas; o Rio de Janeiro, num país de três ou quatro grandes cidades, precisa ter um milhão; o Rio de Janeiro, capital de um país que recebeu durante quase três séculos milhões de pretos, não deve ter pretos.

 

E com semelhantes raciocínios foram perturbar a vida da pobre gente que vivia a sua medíocre vida aí por fora, para satisfazer obsoletas concepções sociais, tolas competições pa­trióticas, transformando-lhe os horizontes e dando-lhe inexe­quíveis esperanças.

 

Voltam agora; voltam, um a um, aos casais, às famílias, para a terra, para a roça, donde nunca deviam ter vindo para atender tolas vaidades de taumaturgos políticos e encher de misérias uma cidade cercada de terras abandonadas que nenhum dos nossos consumados estadistas soube ainda torná-las produtivas e úteis.

 

O Rio civiliza-se!

 

Correio da Noite, Rio, 26-1-1915.

 

 

 

NÃO AS MATEM

 

 

 

Esse rapaz que, em Deodoro, quis matar a ex-noiva e suicidou-se em seguida, é um sintoma da revivescência de um sentimento que parecia ter morrido no coração dos ho­mens: o domínio, quand même, sobre a mulher.

 

O caso não é único. Não há muito tempo, em dias de carnaval, um rapaz atirou sobre a ex-noiva, lá pelas bandas do Estácio, matando-se em seguida. A moça com a bala na espinha, veio morrer, dias após, entre sofrimentos atrozes.

 

Um outro, também, pelo carnaval, ali pelas bandas do ex-futuro Hotel Monumental, que substituiu com montões de pedras o vetusto convento da Ajuda, alvejou a sua ex-noiva e matou-a.

 

Todos esses senhores parece que não sabem o que é a vontade dos outros.

 

Eles se julgam com o direito de impor o seu amor ou o seu desejo a quem não os quer. Não sei se se julgam muito diferentes dos ladrões à mão armada; mas o certo é que estes não nos arrebatam senão o dinheiro, enquanto esses tais noivos assassinos querem tudo que é de mais sagrado em outro ente, de pistola na mão.

 

O ladrão ainda nos deixa com vida, se lhe passamos o dinheiro; os tais passionais, porém, nem estabelecem a alternativa: a bolsa ou a vida. eles, não; matam logo.

 

Nós já tínhamos os maridos que matavam as esposas adúlteras; agora temos os noivos que matam as ex-noivas.

 

De resto, semelhantes cidadãos são idiotas. É de supor que, quem quer casar, deseje que a sua futura mulher venha para o tálamo conjugal com a máxima liberdade, com a melhor boa-vontade, sem coação de espécie alguma, com ardor até, com ânsia e grandes desejos; como é então que se castigam as moças que confessam não sentir mais pelos namorados amor ou coisa equivalente?

 

Todas as considerações que se possam fazer, tendentes a convencer os homens de que eles não tem sobre as mulheres domínio outro que não aquele que venha da afeição, não devem ser desprezadas.

 

Esse obsoleto domínio à valentona, do homem sobre a mulher, é coisa tão horrorosa, que enche de indignação.

 

O esquecimento de que elas são, como todos nós, sujeitas, a influências varias que fazem flutuar as suas inclinações, as suas amizades, os seus gostos, os seus amores, é coisa tão estúpida, que, só entre selvagens deve ter existido.

 

Todos os experimentadores e observadores dos fatos morais têm mostrado a insanidade de generalizar a eternidade do amor. Pode existir, existe, mas, excepcionalmente; e exigi-la nas leis ou a cano de revólver, é um absurdo tão grande como querer impedir que o Sol varie a hora do seu nasci­mento.

 

Deixem as mulheres amar à vontade.

 

Não as matem, pelo amor de Deus!

 

Correia da Noite, Rio, 27-1-1915.

 

 

 

NÃO É POSSÍVEL

 

 

 

Deve ser muito agradável um cidadão não se meter em política; por isso eu pasmei quando soube que Carlos Maul estava metido nesse embrulho do Estado do Rio.

 

Para um poeta, para um artista, um homem de sonho, como é Maul, andar nessas atrapalhações tão baixas, tão vis, tão indecentes de negócios políticos, em que os textos mais claros são truncados, as verdades mais evidentes são nega­das, não deve ser fonte de êxtase e emoção poética.

 

Imagino bem que Maul não tomou este ou aquele partido para ganhar sensações, para acumular impressões, no intuito de criar mais um poema que viesse figurar ao lado dos que já tem composto para exaltação de todos nós.

 

Sei bem que tem havido muitos artistas políticos, mas quando se fazem ministros, deputados, deixam de ser artistas ou, se continuam a sê-lo, são medíocres homens de Estado.

 

Chateaubriand tinha a mania de rivalizar com Napoleão como homem de Estado; a verdade, porém, é que de Cha­teaubriand só se sabe geralmente que escreveu Atala, René e outros livros magníficos.

 

A política, diz lá o Bossuet, tem por fim fazer os povos felizes. Terá Maul esse propósito?

 

Creio que não. Maul é moço, ilustrado, fez leituras avançadas, meditou e não há de acreditar que as mezinhas do governo curem mal de que sofre a nossa pobre humanidade.

 

O governo já deu o que tinha de dar; agora, é um agonizante, breve um cadáver a enterrar no panteão das nossas concepções.

 

Não direi que quem não acredita no Estado seja desonesto quando se propõe a tomar parte nas suas altas funções.

 

Não digo, porque sei de excelentes sacerdotes que continuam a cultuar os seus deuses, depois de perderem a fé neles. É que precisamos viver; e é difícil mudar de pro­fissão de uma hora para outra.

 

Essa incursão de Maul na política não será duradoura e não ficaremos, certamente, privados do poeta, do magnífico poeta do Canto primaveril, para termos mais um energúmeno eleitoral das mesas do Jeremias.

 

Correio da Noite, Rio, 28-1-1915.

 

 

 

UM CONSELHO

 

 

 

Os nossos patriotas voltam a incomodar-se com as caricaturas que os jornais do Rio da Prata publicam, criticando coisas do Brasil.

 

A histeria patriótica se zanga com a coisa, expectora desaforos, brame e o Zé Povo pensa logo em agarrar as mausers da Intendência da Guerra, marchar sobre Buenos Aires e puxar as orelhas do desenhista.

 

Não sei porque semelhante aborrecimento; é verdade que o patriotismo é intolerante, por isso não pode permitir a mais ligeira crítica às coisas do seu culto ou um julgamento mais azedo.

 

Se lá aparecem desenhos em que o Brasil figure com pretos, os sábios cá de casa vociferam que aqui não há pretos.

 

Os diplomatas encarregam-se até de mandar os desenhos tidos como ofensivos para o Itamarati e a Secretaria do Exterior, pressurosa, envia-os aos jornais.

 

Eu trabalhava no Fon-Fon quando, com grande espanto meu, vi chegar um emissário do senhor Rio Branco, trazendo um desenho que quase desencadeou em guerra entre o Brasil e a Argentina.

 

É pueril semelhante estado de espírito. Não só porque uma caricatura representa um julgamento individual, como também as mais das vezes esse julgamento é certo.

 

As amabilidades que os principais países se trocam em caricaturas, estão a mostrar que o nosso modo de encarar essas coisas de desenhos jocosos deve ser muito outro.

 

Só podem ver injúria em tais clichés quem for obcecado pelo patriotismo a ponto de não pesar a verdade das suas críticas.

 

De resto os acontecimentos a que eles se referem, são públicos e toda a gente pode sobre eles expender os julga­mentos que quiser.

 

Haveria um meio de impedir que tal se desse; era não permitir que os sucessos nacionais passassem as fronteiras.

 

Não seria má a medida que já deu excelentes resultados no Paraguai, na China e não sei se também no Afeganistão.

 

Era caso de experimentar, já que os exemplos acima mostram à sociedade o caminho a seguir, para evitar as irreverências dos caricaturistas estrangeiros.

 

Correio da Noite, Rio, 29-1-1915.

 

 

 

AS MANGUINHAS DE FORA...

 

 

 

O que se está passando com o doutor Mário Valverde, comissário de higiene, e os padres redentoristas e crentes católicos, merece alguns reparos daqueles que, não sendo fun­cionários da higiene municipal e conscritos da religião ro­mana, podem falar com alguma isenção de ânimo.

 

É o caso que o doutor Valverde, pessoa muito conhecida nos meios intelectuais, como médico de alta cultura, como agraciada de outras atividades de espírito, delicado, tolerante, bondoso, no exercício de suas funções, visitou uma igreja, fazendo as exigências das leis municipais, de que ele é zela­dor, e de cuja execução é fiscal, e quis, ao mesmo tempo, visitar um convento, em obediência aos deveres de seu cargo.

 

Os religiosos, esquecidos de que atualmente estão debaixo da lei comum, receberam-no mal, debicaram-no e chegaram até a impedir-lhe a entrada no monastério.

 

O doutor Valverde é moço, não crê que possa haver privilégios no nosso regime, revoltou-se; e, como revoltado, naturalmente excedeu-se no artigo em que revidou os deboches pouco mansuetos dos padres redentoristas e mais religiosos das cercanias destes.

 

Agora, o Centro Católico, esse Centro Católico das mesinhas de chá, dos namoros, dos casamentos chiques, arranja uma malta de vinte ou mais tipos e quer obter do doutor Val­verde, à força, uma carta de retratação.

 

Mas, que é que pensam os católicos, desta choldra em que estamos?

 

Porventura, eles têm nas mãos poderes extraordinários para obrigar alguém a fazer ou deixar de fazer alguma coisa, sem ser em virtude de lei?

 

Por que cargas d’água semelhantes cavalheiros da mais aparente virtude e damas da mais austera aparência se julgam no direito de pedir a demissão de um funcionário vita­lício, como é o doutor Valverde?

 

Então, por acaso, o governo deve demitir este ou aquele funcionário porque injuriou esta ou aquela religião, esta ou aquela seita?

 

É boa, meus senhores!

 

Se há no artigo do doutor Valverde injúria ou calúnia, os padres, com esse teólogo curioso que é Padre Júlio Ma­ria, à frente, devem processá-lo de acordo com os artigos do código; mas estarem a ameaçá-lo, a pedir-lhe a demissão, exorbitam e promovem um escândalo maior que é o de se julgarem um Estado em outro Estado.

 

Eu sou inteiramente tolerante, digo, ao finalizar, e nunca me fiz anticlerical.

 

Estão pondo as manguinhas de fora.

 

Correio da Noite, Rio, 11-2-1915.

 

 

 

OS EXAMES

 

 

 

O Jornal do Comércio conta hoje uma trapalhada de exa­mes acontecida na nossa Escola Normal, que as moças confundem com a Escola Normal de França.

 

Sei perfeitamente dessas coisas de exames; eu os fiz muitos e a única vez que consegui tirar distinção, foi quando fiz exame com uma moça, na mesma mesa, no mesmo dia, por capricho e esforço de vontade.

 

As moças são habilíssimas nessas coisas de fazer exames; elas sempre têm a matéria na ponta da língua, elas não se preocupam de achar o nexo entre as noções científicas que absorvem o mundo.

 

A ciência, o saber, a arte, são adornos e enfeites para as suas pessoas naturalmente necessitadas de casamento.

 

Este caso da Escola Normal, passado entre moças, por demais capazes de atravessarem essas coisas de exame, vem mais uma vez provar que, atualmente, nós vivemos apegados a tolas superstições.

 

O exame é uma delas, é resto da escolástica, é resto do ensino do grande jesuíta Laynez Swift. O grande e imenso Swift, quando certa vez fazia exame de lógica, sujo, maltra­pilho, mas orgulhoso dele mesmo, os examinadores pergunta­ram-lhe:

 

– Como é que o senhor raciocina sem a sábia lógica?

 

– Meu caro senhor, respondeu Jonathan, eu raciocino perfeitamente.

 

Os exames, os doutores, bacharéis, os médicos, toda essa nobreza doutoral que nos domina e apóia os negocistas, é o maior flagelo desta terra que os utopistas querem seja o pa­raíso terrestre.

 

Correio da Noite, Rio, 6-3-1915.

 

 

 

UM FATO

 

 

 

A morte de Marcelo Gama, que todos nós contristou, foi evidentemente um fato denunciador da nossa falta de cultura, de adiantamento intelectual.

 

Marcelo Gama, cuja inteligência, cujo saber e amor ao trabalho eram por demais conhecidos, nunca pôde viver de sua atividade literária, nunca pôde tirar de sua pena o pão nosso de cada dia.

 

Casado e pai de filhos, como todos nós desejamos ser, teve sempre que viver em outra ocupação, que não aquela de seu gosto e do seu amor.

 

Longe de mim estar a desejar que os homens de letras façam a fortuna dos judeus agiotas, que se disfarçam em cristãos.

 

O que todos nós desejamos, o que todos nós queremos, é tirar da nossa vocação aquilo com que viver. Seria contradição nossa pedir a fortuna, a riqueza, a abundância dos Carnegies, dos Rockefellers, ou mesmo, do senhor Afrânio Peixoto.

 

Todo o nosso desejo é viver de acordo com a nossa cons­ciência, com as nossas inclinações; e, quando se sonha desde menino semelhante ideal, tudo quanto o não sirva, nos constrange, nos aborrece, nos mata e aniquila.

 

Marcelo foi assim, e sofreu, e sofreu, apesar de ter ao seu lado uma companheira bondosa, piedosa, amante – coisa que não é dado a toda gente.

 

O dique oposto aos seus desejos, ao seu sonho, à sua vontade de viver concorde com o seu temperamento, levou-o à desgraça do Engenho Novo.

 

No Brasil, quem é, de fato, escritor, literato, ama às letras pelas letras, há de sofrer impiedosamente e subir o seu Calvário de glória e de amor. Pobre Marcelo!

 

Correio da Noite, Rio, 9-3-1915.

 

 

 

A INSTRUÇÃO PÚBLICA

 

 

 

Fala-se novamente na reforma da instrução pública e os jornais se preocupam em pedir aos poderes públicos que a façam de forma a evitar os doutores.

 

No Brasil, o doutor (e olhem que eu escapei de ser doutor), é um flagelo, porque se transformou em nobreza e aos poucos foi açambarcando posições, fazendo criar coisas novas para eles, arrendando com o preconceito doutoral as atividades e as competências.

 

Ainda não há muito, foi anunciado que os comissários de polícia seriam unicamente os bacharéis em direito; na Estrada de Ferro Central, aos poucos, foram extinguindo, nas oficinas, escritórios e demais serviços técnicos, o acesso daqueles que se vinham fazendo pela prática e pela experiência, para dar os lugares aos doutores engenheiros das nossas escolas poli­técnicas.

 

A tendência vai se firmando, de constituir-se, entre nós uma espécie de teocracia doutoral.

 

Os costumes, o pouco respeito do povo, estão levando as coisas para isso.

 

O doutor, se é ignorante, o é; mas, sabe; o doutor, se é preto, o é, mas... é branco.

 

As famílias, os pais, querem casar as filhas com os doutores; e, se estes não têm emprego, lá correm à Câmara, ao Senado, às secretarias, pedindo, e põem em jogo a influên­cia dos parentes e aderentes.

 

Então, o orçamento aparece com autorizações de reformas e o bacharelete está empregado, repimpado como diretor, cônsul, enviado extraordinário e diz para nós outros: “Eu venci”.

 

Nem os jornais escapam a essa superstição. Antigamente, os autores eram conhecidos pelos seus simples nomes; agora, eles aparecem sempre citados com o seu título universitário.

 

Na burocracia, a coisa é a mesma. Um empregado é mais competente do que outro, na matéria de montepio, porque aquele é engenheiro de minas e o outro não é nada.

 

À proporção que tal fato se vai dando, o nível da instrução vai baixando.

 

Não é nesta nem naquela escola; é em todas.

 

Essa página de doutor, dá panos para as mangas.

 

Se o governo quisesse extirpar o mal, não deveria manter absolutamente esses cursos seriados.

 

No que toca à instrução secundária, ainda poderia manter liceus, nos bairros, e, prover, de fato, a instrução secundária, no distrito, sem esquecer que o deve fazer também para as moças.

 

A instrução superior não devia ter seriação alguma.

 

O governo subvencionaria lentes, ajudantes, laboratórios, etc., sem prometer, ao fim do curso, que o estudante seria isto ou aquilo: bacharel ou dentista; engenheiro ou médico.

 

O estudante faria mesmo a escolha das matérias que precisasse, para exercer tal ou qual profissão.

 

Hoje, as profissões liberais se entrelaçam de tal modo e se dividem de tal forma, que, prender uma cabeça em um curso, é obrigá-la a estudar o que não precisa estudar e não aprender o que precisa aprender.

 

No mais, a mais livre concorrência...

 

Correio da Noite, Rio, 11-3-1915.

 

 

 

CONTINUO...

 

 

 

Disse anteontem alguma coisa sobre a instrução e não me julgo satisfeito.

 

O governo do Brasil, tanto imperial como republicano, tem sido madrasta a esse respeito.

 

No que toca a instrução primária generalizada, coisa em que não tenho fé alguma, toda a gente sabe o que tem sido.

 

No tocante a instrução secundária, limitaram-se, os governos, a criar liceus nas capitais e aqui, no Rio, o Colégio Pedro II e o Militar. Todos eles são instituições fechadas, requisitando para a matricula de alunos nos mesmos, exigências tais, que, se fosse no tempo de Luís XV, Napoleão não se teria feito na Escola Real de Brienne.

 

Ambos, e, sobretudo, o Colégio Militar, custam os olhos da cara e o dinheiro gasto com eles dava para mais três ou quatro colégios de instrução secundária neste distrito.

 

Acresce ainda que o governo sempre se esqueceu o dever de dar instrução secundária às moças: um esquecimento de lamentar, porquanto toda a gente sabe de que forma a influência de uma educação superior da mulher iria influir nas gerações.

 

Toda a instrução secundária das moças está limitada à Escola Normal, também estabelecimento fechado em que se entra com as maiores dificuldades.

 

Se há alguma coisa a fazer em instrução que não seja a de fabricar doutores, é extinguir. todos os colégios milita­res e o Pedro II, criando por todo o Rio de Janeiro liceus, ao jeito dos franceses, para moças e rapazes, de forma que os favores do Estado alcancem todos.

 

Os colégios militares são sobremodo um atentado ao nosso regime democrático; é preciso extingui-los e aproveitar os respectivos professores e material, na instrução da maioria.

 

Pelo menos, a República devia fazer isso.

 

Correio da Noite, Rio, 13-3-1915

 

 

 

A FILOMENA

 

 

 

Desde o carnaval, que as crianças, as moças, os barbados, as velhas de todas as condições sociais, não falam senão na Filomena.

 

Tivemos ocasião de ir ouvir tão conspícua pessoa que nos recebeu prazenteiramente, em sua choça lá pelas bandas de Campo Grande.

 

Filomena, apesar do que toda a gente pode julgar, não é lá muito velha, não conheceu d. João VI, nem Pedro I; e, conquanto seja preta, nunca foi escrava.

 

– Que me diz, da. Filomena, dessas cantigas que andam por aí com o seu nome?

 

– Tenho ouvido falar nelas, meu filho; mas nada tenho a ver com Dudu; não sou íntima dele, não o conheço quase. Meu marido foi soldado e certa vez, quando ele era ministro, fui procurá-lo, mas ele, não deixou que eu entrasse no salão de espera.

 

– Mas a que atribui essa mistura de seu nome com as coisas dele?

 

– Ouve, meu filho; quero crer que seja devido ao fato de já ter sido empregada da rainha-mãe; mas, quando o fui, não conhecia bem ele, conhecia-lhe a concunhada e os cunha­dos e com eles me dei muito bem.

 

– Pretende protestar?

 

– Qual, meu filho! Eu não protesto. Não digo nada. Estou até colecionando as cantigas para publicar um volume.

 

– Não tem medo do Bicudo?

 

– Quem é esse homem?

 

– Aquele senador da roça que, em São Paulo, prendeu um vendedor das Últimas d’Ele.

 

– Não conheço; mas agora os tempos são outros e nos aproveitam.

 

– Deve fazer umas quadrinhas novas... Porque não faz?

 

– Fiz já.

 

– Pode recitar?

 

– Pois não.

 

– Diga lá.

 

– Lá vai:

 

                       Ai, Filomena

 

Se eu fosse como tu,

 

Punha uma máscara

 

                      Na cara do Dudu.

 

– Está bem.

 

Despedimo-nos, agradecendo muito.

 

Careta, Rio, 10-4-1915.

 

 

 

CARTA DE UM PAI DE FAMÍLIA AO DOUTOR CHEFE DE POLÍCIA

 

 

 

Senhor doutor chefe de Polícia. Permita vossa excelência que um elho chefe de família, pai de três filhas moças e dois rapazes, se dirija a vossa excelência, no intuito de esclarecer o espírito de vossa excelência que parece só ver as coisas por uma face só.

 

“Moro excelentíssimo doutor, há quase trinta anos na Rua Joaquim Silva, aí nas fraldas de Santa Teresa, rua plácida, sossegada, que vossa excelência talvez não conheça como bom chefe de polícia que é do Rio de Janeiro, mas natural da Bahia.

 

“Não digo tal coisa para censurar vossa excelência, mas simplesmente para lembrar que os antigos chefes de polícia da minha leal e heróica cidade conheciam todos os seus meandros, becos, bibocas, etc. Os antecessores de vossa excelência, como o Vidigal, o dos granadeiros, e o Aragão, o do sino de recolher honestas, conheciam o Rio como qualquer malandro; mas, desde que inventaram a polícia científica, por sinal que fez aumentar os crimes misteriosos, desde en­tão, dizia eu, os chefes ficaram dispensados de conhecer o Rio de Janeiro, inclusive vossa excelência.

 

“Moro, ia dizendo, na Rua Joaquim Silva há mais de vinte anos, com minha família, em casa própria, que foi a do pai de minha mulher e é agora nossa. Confesso a vossa excelência que me casei, contando (é preciso não esquecer a mulher) com a casa, pois naquele tempo era amanuense e sem a casa não poderia constituir família. De uma casa dessas, boa, sólida, ampla, arejada, cheia de recordações de família, a gente, há de concordar vossa excelência, não se muda assim. Ela faz parte da família, se não é a própria família. vossa excelência que é lido em direito, será certamente lido em sociólogos e sabe perfeitamente que quase todos cogitam na posse normal do domicílio familiar, coisa que consegui graças à minha prudência e às economias do madeireiro português, pai da minha mulher. Não posso, nem me devo mudar, isto diante de todas as leis que não são votadas pelo congresso.

 

“Acontece excelência, que de uns dias a esta parte vie­ram para a minha vizinhança umas ‘moças’ que não são bem parecidas com as minhas filhas nem com as primas delas. Eu conheço mal essas coisas da vida do Rio, e nem por isso quero ser chefe de polícia; e andei indagando de que pessoas se tratava e soube que eram ‘meninas’, moradoras nas ruas novas, que a polícia estava tocando de lá, por causa das fa­mílias.

 

“Mas, doutor, eu não tenho também família? Porque é que só as famílias daquelas ruas não podem ter semelhante vizinhança e eu posso?

 

“Doutor: eu não tenho nenhuma ojeriza a essas ‘senhoras’, embora nunca me tivesse metido nessas coisas. Casei-me cedo e tenho sempre labutado para a família, desde amanuense até agora que sou chefe de seção; mas não compreendo que a polícia e a justiça persigam certos entes por crime que não está em lei. De resto, se há crime, há pena e a pena não pode ser essa de domicílio coacto ou de interdição de residência que não estão no Código.

 

“A polícia na lei conhece ladrão, gatuno, cáften, assas­sino, mas não conhece semelhantes senhoras.

 

“Não quero discutir com vossa excelência tais coisas. Sei que vossa excelência é o doctor angelicus das escolas da Bahia; mas falo sempre como Sancho Pança e julgo como ele na ilha da Baratária.

 

“Se as famílias da Rua Mem de Sá, não podem ter por vizinhas tais ‘meninas’, muito menos as da Rua Joaquim Silva.

 

“Demais, quando se fez a referida avenida, elas logo tomaram lugar. Há a favor delas o tal uti possidetis, o que não acontece com a minha triste rua. Vossa excelência deve meditar bem sobre o assunto, para não classificar as famílias da Rua Joaquim Silva abaixo das de Mem de Sá. Não há hierarquia familiar na nossa sociedade. Não é doutor? De vossa excelência etc. Augusto Soromenho Albernaz, chefe de seção da Secretaria do Fomento.

 

“P. S. – Quando acabava de escrever esta a vossa excelência vieram oferecer-me 500$000 de aluguel pela minha casa. Está aí em que deu o ato de vossa excelência: valo­rizou as casas da Rua Joaquim Silva e naturalmente desva­lorizou as da Avenida Mem de Sá. Não aceitei e espero que os tribunais superiores dêem a todos o direito de morar onde bem lhes parecer conveniente. O mesmo”.

 

Conforme o original.

 

Careta, Rio, 24-4-1915.

 

 

 

QUASE DOUTOR

 

 

 

A nossa instrução pública cada vez que é reformada, re­serva para o observador surpresas admiráveis. Não há oito dias, fui apresentado a um moço, aí dos seus vinte e poucos anos, bem posto em roupas, anéis, gravatas, bengalas, etc. O meu amigo Seráfico Falcote, estudante, disse-me o amigo co­mum que nos pôs em relações mútuas.

 

O senhor Falcote logo nos convidou a tomar qualquer coisa e fomos os três a uma confeitaria. Ao sentar-se, assim falou o anfitrião:

 

Caxero traz aí quarqué cosa de bebê e comê.

 

Pensei de mim para mim: esse moço foi criado na roça, por isso adquiriu esse modo feio de falar. Vieram as bebidas e ele disse ao nosso amigo:

 

Não sabe Cunugunde: o véio tá i.

 

O nosso amigo comum respondeu:

 

– Deves então andar bem de dinheiros.

 

Quá ele tá i nós não arranja nada. Quando escrevo é aquela certeza. De boca, não se cava... O véio óia, óia e dá o fora.

 

Continuamos a beber e a comer alguns camarões e em­padas. A conversa veio a cair sobre a guerra européia. O estudante era alemão dos quatro costados.

 

Alamão, disse ele, vai vencer por uma força. Tão aqui, tão em Londres.

 

– Qual!

 

– Pois óie: eles toma Paris, atravessa o Sena e é um dia inguelês.

 

Fiquei surpreendido com tão furioso tipo de estudante.

 

Ele olhou a garrafa de vermouth e observou: Francês tem muita parte... Escreve de um jeito e fala de outro.

 

– Como?

 

Óie aqui: não está vermouth, como é que se diz “vermute”? Pra que tanta parte?

 

Continuei estuporado e o meu amigo, ou antes, o nosso amigo parecia não ter qualquer surpresa com tão famigerado estudante.

 

Sabe, disse este, quase que fui com o dôtô Lauro.

 

– Porque não foi? perguntei.

 

Não posso andá por terra.

 

– Tem medo?

 

Não. Mas óie que ele vai por Mato Grosso e não gosto de andá pelo mato.

 

Esse estudante era a coisa mais preciosa que tinha encontrado na minha vida. Como era ilustrado! Como falava bem! Que magnífico deputado não iria dar? Um figurão para o partido do Rapadura.

 

O nosso amigo indagou dele em certo momento:

 

– Quando te formas?

 

No ano que vem.

 

Caí das nuvens. Este homem já tinha passado tantos exames e falava daquela forma e tinha tão firmes conheci­mentos!

 

O nosso amigo indagou ainda:

 

– Tens tido boas notas?

 

Tudo. Espero tirá a medaia.

 

 

 

Careta, Rio, 8-5-1915.

 

 

 

UM ENTENDIDO

 

 

 

O recente legislador Serapião Stromberg era, em uma das pequenas capitais do Norte, o moço mais chique, mais elegante, mais entendido em artes e letras de todo o Estado, por isso foi eleito deputado pelo governador.

 

Não havia ninguém como ele para exigir do alfaiate o corte irrepreensível do fraque; e aquele com que veio pleitear o seu reconhecimento, foi muito admirado e toda a gente achou-o de um talhe semelhante às fardas dos soldados de infantaria francesa que os jornais reproduzem em zincografia. Não falemos nos seus “panamás”, nas suas calças a balão, e nas suas botinas inteiriças – tudo isso ele usa do mais requin­tado chique.

 

Reconhecido sem contestação, o seu primeiro cuidado foi apresentar-se nos salões do Rio. Lá, no Norte, fala-se muito mal deles; e Serapião que pretendia fazer algumas economias, tratou de procurá-los.

 

Uma tarde destas, mme Sylvá teve a bondade de convidá-lo e Stronberg não faltou. Vestiu o seu célebre fraque, amarrou bem uma gravata de duas cores e ei-lo em direção às Laranjeiras, onde residia mme Sylvá, evaporando pelo ca­minho toda a sua importância de deputado anônimo.

 

Ele tinha torcido com infinito cuidado as guias do bigode; mas, assim mesmo, levou-as a torcer insistentemente pelo bon­de afora.

 

Não havia dúvida que ia fazer uma grande figura, não só por causa de seu todo apolíneo, como também pelo seu saber em matéria de arte e letras clássicas e legais, coisas que os moços do Rio de Janeiro ignoram completamente. Uns fúteis ...

 

O bonde corria e, vendo entrar uma dama, Stromberg esqueceu os bigodes, deixou cair a clássica bengala de castão de ouro e encalistrou matutamente.

 

Chegou afinal à casa de mmc Sylvá, não tardou em entrar e ficou no meio de uma seleta companhia.

 

Serapião levava duas dissertações bem estudadas: uma contra o romantismo piegas, extraordinária novidade na sua terra; e outra sobre a beleza dos frescos da Capela Sixtina que ele nunca tinha visto.

 

Logo que alguém falou em um autor qualquer, Stromberg fez com um muxoxo:

 

– Não gosto; é um romântico e o romantismo...

 

Encetou a dissertação, mas os ouvintes foram escasseando e unicamente uma moça o ficara ouvindo até certo engasgo.

 

Por aí, ela perguntou:

 

– O doutor não gosta de pintura?

 

– Muito, minha senhora. Rafael...

 

– Venha ver uma curiosidade.

 

E tirou de sobre um móvel um pequeno medalhão insignificante. Stromberg olhou demoradamente e a moça, após algum tempo, perguntou:

 

– Não gosta?

 

– Gosto. mme Pompadour, não é minha senhora?

 

– Não, doutor; é uma miniatura italiana do século XIV.

 

– Ah! Logo vi que tinha alguma coisa de Luís XIV. Não me enganei de todo... é maravilhoso!

 

Careta, Rio, 15-5-1915.

 

 

 

ONTEM E HOJE

 

 

 

Como todo o Rio de Janeiro sabe, o seu centro social foi deslocado da Rua do Ouvidor para a avenida e, nesta, ele fica exatamente no ponto dos bondes da Jardim Botânico.

 

Lá se reúne tudo o que há de mais curioso na cidade. São as damas elegantes, os moços bonitos, os namoradores, os amantes, os badauds, os camelots e os sem esperança.

 

Acrescem para dar animação ao local, as cervejarias que há por lá, e um enorme hotel que diz comportar não sei quantos milheiros de hóspedes.

 

Nele moram vários parlamentares, alguns conhecidos e muitos desconhecidos. Entre aqueles está um famoso pela virulência dos seus ataques, pela sua barba nazarena, pelo seu pince-nez e, agora, pelo luxuoso automóvel, um dos mais chics da cidade.

 

Há cerca de quatro meses, um observador que lá se postasse, veria com espanto o ajuntamento que causava a en­trada e a saída desse parlamentar.

 

De toda a parte, corria gente a falar com ele, a abraçá-lo, a fazer-lhe festas. Eram homens de todas as condições, de todas as roupas, de todas as raças. Vinham os encartolados, os abrilhantados, e também os pobres, os mal vestidos, os necessitados de emprego.

 

Certa vez a aglomeração de povo foi tal que o guarda civil de ronda compareceu, mas logo afastou-se dizendo:

 

É o nosso homem.

 

Bem; isto é história antiga. Vejamos agora a moderna. Atualmente, o mesmo observador que lá parar, a fim de guardar fisionomias belas ou feias, alegres ou tristes e registrar gestos e atitudes, fica surpreendido com a estranha dife­rença que há com aspecto da chegada do mesmo deputado. Chega o seu automóvel, um automóvel de muitos contos de réis, iluminado eletricamente, motorista de fardeta, todo o veículo reluzente e orgulhoso. O homem salta. Pára um pouco, olha desconfiado para um lado e para outro, levanta a cabeça para equilibrar o pince-nez no nariz e segue para a escusa entrada do hotel.

 

Ninguém lhe fala, ninguém lhe pede nada, ninguém o abraça – porque?

 

Porque não mais aquele ajuntamento, aquele fervedouro de gente de há quatro meses passados?

 

Se ele sai e põe-se no passeio à espera do seu rico auto­móvel, fica isolado, sem um admirador ao lado, sem um cor­religionário, sem um assecla sequer. Porque? Não sabemos, mas talvez o guarda civil pudesse dizer:

 

– Ele não é mais o nosso homem.

 

Careta, Rio, 26-6-1915.

 

 

 

HISTÓRIA MACABRA

 

 

 

Logo que soube da morte de meu amigo Florêncio da Costa, tratei de habilitar-me a ir ao seu enterro. Florêncio morava no Engenho Novo e o seu enterramento seria feito no cemitério de Inhaúma.

 

Ajustei bem no corpo a minha melhor roupa preta e se­gui para a residência do falecido amigo, cheio de compunção.

 

Dei os pêsames de praxe à família, notei bem a desolação da mulher e saí a alugar na redondeza uma meia-caleça dessas lamentavelmente tristes que acompanham os nossos en­terros.

 

Conhecia mal os subúrbios de modo que não adivinhei os tormentos por que ia passar e também o meu amigo morto.

 

Na hora aprazada, por entre prantos e ataques, com a assistência curiosa da vizinhança, o caixão foi saindo, acompanhado das grinaldas que amigos carregavam. As inscrições nas fitas das coroas eram longas e, em uma delas, pude ler: “Ao competentíssimo chefe de seção da Repartição de Terras, Mangues, Pauis e Atoleiros, os seus colegas da mesma – Rio, 6-5-14”.

 

As outras eram do mesmo teor, O enterro seguiu e nunca vi carro que balançasse mais nas molas do que o meu. Fomos indo. Tínhamos que atravessar a linha da Estrada de Ferro Central.

 

A cancela estava aberta; o carro mortuário passou e alguns do cortejo; mas o resto ficou do lado de cá, pois a tranqueira foi fechada para dar livre trânsito aos comboios vertiginosos.

 

Passou S P 5 célebre e ficou-se à espera de um outro S qualquer. Este veio e atracou à estação com a locomotiva diante da porteira. Mas não havia meio de partir; e o coche com o cadáver de meu amigo esperava o resto do cortejo, que fora cindido em dois pelas inflexíveis linhas de aço. Porque não partia o trem? Houvera um desarranjo no “su­búrbio” que o antecedera e a linha estava impedida.

 

Após uma demora de vinte minutos, conseguimos que as autoridades competentes fizessem recuar um pouco o comboio.

 

Seguimos e eis-nos na Rua José Bonifácio, em Todos os Santos. Esta rua há vinte anos que foi calçada; e, desde essa longínqua data, o seu calçamento não tem recebido o menor reparo. Os buracos nele são abismos e o cocheiro do coche fúnebre, ao desviar-se de um bonde, caiu em um deles, o caixão foi ao chão, o cadáver saltou de dentro deste e o meu amigo, ainda mesmo depois de morto, ficou machucado.

 

Piedosamente concertamos o defunto e o caixão, seguindo enfim o nosso caminho.

 

Na entrada da Estrada Real, no canto da Rua José Bonifácio, graças a um buraco que a Light deixa entre os seus trilhos, uma caleça partiu o eixo e, dos seus passageiros, um quebrou uma das pernas.

 

Houve outras peripécias e, tão emocionantes foram, que o defunto ressuscitou.

 

Ainda bem que ele não se alistou no partido do senhor Vasconcelos.

 

Careta, Rio, 17-7-1915.

 

 

 

PAÍS RICO

 

 

 

Meu amigo e colega Juvenal Calheiros é um pai exemplar que cuida com toda a solicitude da educação dos filhos.

 

Procura bons colégios, informa-se dos professores, segue as lições dos meninos – isto tudo sem o menor desfalecimento.

 

De resto, ele é um patriota, crente na grandeza do Brasil, nas suas riquezas e no seu futuro; põe, portanto, todo o seu esforço em instilar no espírito dos seus pimpolhos essa sua forte e virtuosa crença.

 

Damo-nos muito, desde o colégio primário, e frequento-lhe a casa, vivo na intimidade de sua família, o que me dá grande gosto, pois, não tendo propriamente família, aprecio muito a família dos outros.

 

Não sendo rico, tem Juvenal alguma coisa e vive com certa abastança, em uma boa casa lá das bandas de Vila Isabel.

 

Domingo, não tendo onde ir, nem mesmo às festanças da Quinta da Boa Vista, cujos recantos, cuja placidez, cuja majestade de parque principesco me encantam muito, quis ver o meu amigo.

 

É preciso que eu lhes diga que não fui à quinta, porque não vou a lugares públicos quando se paga. Julgo que, po­dendo eu ir sem pagar a certo lugar, não vou gastar dinheiro para lá ir. Nesse ponto, não sou como o resto do Rio de Janeiro.

 

Continuo a narração. Tomei o bonde conveniente e parti para a casa do meu amigo, apreciando o domingo, cheio de rapazes endomingados, de damas de laçarotes, de automóveis pejados de gente, de jogadores de football, de amadores de corridas, – gente feliz por ter um dia em que não faz nada.

 

Cheguei em boa hora à casa do meu amigo que conversava na chácara com a família. Ainda liam, ele e os fi­lhos, os jornais.

 

Não quis interromper-lhes a leitura e acertei um jornal para, relendo-o, não impedir a leitura deles.

 

A dona da casa estava no interior tratando de negócios caseiros.

 

Num dado momento, um dos filhos do meu amigo, descansando os jornais, perguntou ao pai:

 

– Papai, o Brasil não é um país muito rico?

 

– É.

 

– Tem ferro?

 

– Tem.

 

– Tem cobre?

 

– Tem.

 

– Tem zinco?

 

– Tem. Porque tu perguntas isso?

 

– É que vejo os jornais muito indignados porque querem exportar ferro velho, cobre, etc. Se nós temos ferro, cobre na terra, porque tal zanga?

 

A dona da casa veio convidar-nos para o almoço.

 

Careta, Rio, 31-7-1915.

 

 

 

UM JANTAR NO JÚRI

 

 

 

A função de jurado é uma das mais nobres da nossa sociedade. A lei exige mais pureza de vida para o ser do que para receber o subsídio de deputado. Nenhum processo por tais e quais crimes e infrações, nem mesmo que seja neles absolvido.

 

Os sábios gabam muito a Inglaterra por ter instituído semelhante espécie de julgamento e doutores em leis clamam contra a intervenção dos leigos nos seus domínios, por intermédio da famosa criação jurídica inglesa.

 

Certo dia recebi na minha repartição a intimação para ser jurado.

 

Fiquei contente, porque ia desempenhar uma alta função social.

 

No dia aprazado, para lá fui e, indagando onde era o tribunal, quase fui recebido à pedrada pelos meirinhos, escrivães e mais gente da justiça. Curiosa maneira de receber um ilustre juiz de fato!

 

Sentei-me em uma cadeira e esperei o juiz pacientemente. A sessão foi aberta com todas as formalidades e fui sorteado para fazer parte do conselho de sentença.

 

O promotor falou e, depois, o advogado da defesa fez a sua falação. Que curioso advogado! Tinha uma voz de sino e uma grande consideração pelos conhecimentos dos jurados. Em dado momento, explicou:

 

Meus senhores, o réu é um benemérito. Como vigia da estrada de ferro retirou da linha um calhau. Calhau, meus senhores, é uma pedra grande.

 

Os debates ainda não tinham terminado às cinco horas e os meus colegas de júri reclamaram jantar, porque a máxima preocupação dos jurados é comer à custa do governo.

 

Veio o jantar e eu, escolhido presidente, me sentei à cabeceira da mesa. Era o mais moço.

 

Após a sopa, nós nos servimos de peixe à brasileira.

 

Um dos do fim da mesa, tendo comido algumas garfa­das, exclamou:

 

Achei uma barata.

 

Ao ouvir este senhor tão bem educado, um outro jurado disse:

 

– Mas está muito bom.

 

Careta, Rio, 21-8-1915.

 

 

 

A GRATIDÃO DO ASSÍRIO

 

 

 

Meu caro senhor Assírio, eu lhe tinha a perguntar se de fato está satisfeito com a vida.

 

Nós nos havíamos introduzido no elegante porão do Municipal e falávamos ao restaurante chic com água na boca. Este não tardou em responder:

 

– Estou, meu caro senhor; estou, imagine que não há dia em que não me veja abarbado com um banquete.

 

– É assim?

 

Pois não, meu digno senhor. Um poeta publica um livro e logo encomendam-me um banquete com todos os “ff’ e rr ; os jornais publicam a lista dos convidados, ao dia se­guinte, e o meu nome se espalha por este país todo. Se acontece alguém escrever uma crônica feliz, zás, banquete, retrato e nome nos jornais. Se, por acaso...

 

– Notamos, interrompi eu, que nas suas festanças não há mulheres.

 

– Já observei isto aos dilettanti de banquetes e, até, lhes ofereci organizar um quadro de convidadas.

 

– Que eles disseram?

 

Penso que eles não querem rivalidades femininas. Já as têm em bom número masculinas.

 

E as flores?

 

Com isso não me preocupo, porque, às vezes, elas me servem para meia dúzia de banquetes. Os rapazes não re­param nisso.

 

– E as iguarias?

 

– Oh! Isso? Também não vale nada. Basta uns nomes arrevesados, para que os nossos Lúculos comam gato por lebre.

 

Mas a minha maior gratidão é...

 

Por quem?

 

Pela Secretaria do Exterior. Um cidadão é promovido de segundo secretário a primeiro, banquete; um outro passa de amanuense a segundo secretário, banquete... Herança do Rio Branco!... Outro dia, como o Serapião passasse de servente a contínuo, logo lhe ofereceram um banquete.

 

– Os serventes?

 

Não; todos os empregados. Que gente boa, meu caro senhor.

 

Deixamos o senhor Assírio cheio de uma terna beatitude agradecida por tão bela gente que se banqueteia.

 

Careta, Rio, 11-9-1915.

 

 

 

EX-HOMEM

 

 

 

Não há nada mais vulgar que um popular dizer para o seu ídolo: “Este é o meu homem”.

 

Tem havido muitos que o sejam assim tratados e, na república, todos nós sabemos que Floriano, Pinheiro e o Senhor Irineu Machado têm sido assim tratados.

 

Acontece, pois, que certos desses homens dessa forma assim tratados, de uma hora para outra mudam de orientação, avacalham-se, como se diz vulgarmente, e passam de um extremo a outro, sem nenhuma explicação.

 

Vejam o caso desse senhor, cujo nome não cito.

 

Ele era o paladino dos desejos do povo; ele era o seu defensor extremado; ele era o demagogo, no bom sentido da palavra. De um instante para outro, passa a ser justamente o contrário.

 

Interesses, satisfações à sua vaidade, vontade de agradar a alguma beldade, exigências do automóvel, fazem-no escravo dos poderosos.

 

Este homem que vivia cercado, animado, cheio de pedidos e dedicações; este homem que até toda a gente tinha prazer em morder, hoje, ninguém o morde, hoje ninguém o procura, hoje ninguém quer saber dele; entretanto, ele hoje está mais rico e mais poderoso.

 

Os pobres, os ricos, os turcos, os chineses, os árabes e coptas, todos que o procuravam, não o procuram mais.

 

Aquele ajuntamento que se fazia nas arcadas do jardim, próximo do Hotel Avenida, atualmente não se verifica mais.

 

É uma desolação de abandono, quando ele passa.

 

Há dias eu conversava com um velho correligionário de semelhante homem e perguntei:

 

Por que I. anda tão abandonado?

 

Você não sabe o motivo?

 

– Não.

 

Pois é simples. O povo gosta de homens independentes, daqueles que podem dizer a verdade com todas as letras. Ele já não pode dize-la. Hoje, está cheio de interesses, de cavações, porque gasta o que não ganha.

 

– De modo que ele é?

 

– Ele?

 

Que é?

 

– Ele, hoje, não é mais homem; hoje, ele é ex-homem.

 

Careta, Rio, 25-9-1915.

 

FUTURA NOTÍCIA

 

 

 

Os jornais, dentro em breve, hão de noticiar o seguinte, com grandes títulos e subtítulos:

 

“Ontem, pelas primeiras horas da manhã, a casa de detenção foi abalada pela explosão de uma bomba de dinamite. A surpresa que causou, tão inesperado acontecimento, não impediu que o seu pessoal superior não desse imediatamente as necessárias providências.

 

“Tratando-se de averiguar onde tivera lugar o fato, soube-se logo que se dera a explosão no cubículo em que está alojado, Francisco Manso de Paiva Coimbra, o célebre assassino do general.

 

“Como é sabido de todos, esse desgraçado rapaz, em 8 de novembro do ano último, na ocasião em que o general Pinheiro penetrava no Hotel dos Estrangeiros, assassinou-o fria e covardemente pelas costas.

 

‘Preso em flagrante, foi convenientemente processado e aguardava o julgamento que devia ter lugar proximamente.

 

“O pessoal da detenção não sabe explicar como o criminoso conseguiu ter em seu poder uma bomba de dinamite.

 

“Há várias versões, mas todas elas nada explicam, antes complicam a situação dos funcionários daquele presídio.

 

“É ocasião de recordar que não é a primeira vez que tal fato se dá.

 

“Há tempos, durante o longo sítio que o marechal Hermes decretou, o cabo Ramos, recolhido à Detenção, por ser acusado de ter tentado contra a vida do referido general, então ministro da Guerra, suicidou-se misteriosamente, com o auxílio de uma bomba de dinamite, que ele fez explodir no cubículo em que estava recolhido.

 

“Até hoje, como agora com o caso de Paiva Coimbra, o fato não foi satisfatoriamente explicado e o seu mistério tem resistido a todas as investigações.

 

“É de esperar que, daqui em diante, tais acontecimentos não se repitam e esperamos que o pessoal da detenção não permita que os detentos tenham nas suas prisões laboratórios de pirotécnica, de modo a permitir-lhes o fabrico de explosivos violentos.”

 

Pela adivinhação.

 

Careta, Rio, 25-9-1915

 

 

 

EXEMPLO A IMITAR

 

 

 

Os conselhos municipais de São Paulo e Belo Horizonte acabam de legislar sobre a obrigatoriedade de serem redigidas em língua vernácula as inscrições de placas, tabuletas, emblemas, rótulos ou denominações de casas comerciais, de diversões, etc.

 

Os nossos jornais, os daqui, pedem que, à vista de semelhante exemplo, o nosso conselho faça o mesmo e vá até o ponto de exigir que tais emblemas, etc, quando não sejam estritamente sintáticos ou tenham erros ortográficos, mereçam multas e outras punições.

 

Não há dúvida que a medida merece louvores, mas a nossa língua é tão indisciplinada, que não sei bem como os agentes e guardas fiscais se vão haver para executar a postura.

 

Supondo mesmo que eles tenham instrução para corrigir ou julgar dos erros das tabuletas, é bem de ver que, à vista dos casos controversos, no que toca ao nosso idioma, eles se vejam em palpos de aranha, para resolver certos casos.

 

Por exemplo: a Light põe “Larangeiras” com g , mas há quem admita que “Laranjeiras” se deve escrever com “j”. Se a gente for dessa última opinião, pode multar a companhia canadense?

 

Outra coisa: um ferrador põe na placa o seguinte letreiro: “Ferra-se burros”. Está certo? Está errado? Para uns está, para outros não. Como se há de resolver a multa?

 

O projeto chama uma comissão de gramáticos e esta é uma espécie de gente que não se entende.

 

Mas ainda: uma casa de modas escreve na tabuleta: “modas e confecções”. Todos sabem que esta última palavra é um crasso galicismo, mas por ser crasso é que é usual.

 

Como há de ser imposta a multa? Nova comissão de gramáticos e grossa descompostura, entre todos os especialistas no gênero.

 

Estou a ver uma barulharia infernal só por causa de uma inovante postura municipal.

 

Careta, Rio, 9-10-1915.

 

 

 

UMA LEMBRANÇA

 

 

 

Com toda a pompa oficial, na presença de altas autoridades, inclusive sua excelência, o senhor ministro do Interior, a Diretoria de Saúde Pública, em dias da semana passada, inaugurou uma Escola Prática de Enfermeiros.

 

Consta do seu programa de ensino várias disciplinas da mais alta importância para enfermeiros práticos, como sejam: física, química, anatomia, fisiologia, terapêutica, etc.

 

A muita gente um tal programa se afigurou pomposo e inútil para formar enfermeiros práticos no seu ofício. Outros viram no propósito a idéia de substituir as academias de sessenta mil-réis que tanta celeuma causaram e foram, ao que parece, extintas, ou vão ser, com a recente reforma do en­sino público.

 

Não sei ao certo quais os intuitos dos criadores da Escola, pondo no seu programa tão altas disciplinas; mas peço vênia para lembrar que, se eles querem fabricar bons enfermeiros práticos, não devem seguir tal programa. Modéstia à parte, eu possuo um muito melhor e digo isto por dois motivos:

 

a) não sou médico.

 

b) nunca fui enfermeiro.

 

Mas, como curioso, leio essas coisas de enfermaria e conheço algumas escolas dessa profissão da sábia Alemanha, pela leitura de revistas, certamente.

 

Há uma em Munique muito afamada, cujo programa é o seguinte:

 

1º ano 1ª cadeira: geometria analítica e cálculo diferencial e integral; 2ª cadeira: literatura comparada.

 

2º ano 1ª cadeira: máquinas motrizes e operatrizes; 2ª cadeira: economia política.

 

A outra escola de que tenho lembrança é a que existe em Dresden. O seu programa é mais simples:

 

1º ano 1ª cadeira: direito romano; 2ª cadeira: histó­ria das religiões.

 

ano 1ª cadeira: termodinâmica; 2ª cadeira: hidráulica ou jogo de xadrez.

 

Ambas, ao que dizem, têm dado os melhores resultados e não há motivos para que não as imitemos.

 

Aí fica a lembrança.

 

Careta, Rio. 16-10-1915.

 

 

 

DE FORMA QUE...

 

 

 

– Quando o meu primo Augusto me disse que os redatores das seções elegantes dos jornais do Rio eram muito apreciados e amimados pelas moças da alta roda cario­ca, eu não tive outro pensamento senão fazer-me redator de uma seção dessas para ter tão doces e ternas homenagens do belo sexo. Já andara metido nos jornais da capital da minha província; e, no intuito de adquirir prática, dias depois, criei no jornal de xxx, folha de grande circulação da minha cidade natal, uma seção mundana a que dei o título “A vida chic”. Essa minha cidade natal não tinha casa de chá, nem Rua do Ouvidor, nem banquetes no Assírio, pois lhe faltava uma Secretaria do Interior para manter um luxuoso restaurant igual ao do porão do Teatro Municipal, de modo que me via, em certas ocasiões, abarbado para encher a seção. Corria aos jornais de modas e aos do Rio e dava conselhos sobre a elegância feminina. Tão estranho era eu a semelhante matéria que, obedecendo aos meus pre­ceitos, as moças da minha cidade vieram a vestir-se do modo mais horroroso possível, porque, é conveniente dizer, para disfarçar a pilhagem que eu fazia nos colegas, embrulhava figurinos e casava mal as cores dos vestuários. O meu su­cesso foi, porém, grande; e, animado por ele, parti para aqui. Consegui arranjar um lugar no O Furo – jornal da tarde que se acabava de fundar. Durante dois meses redigi a seção elegante – “A vida chic” – e fiz necrotério, Santa Casa e outras reportagens pouco alegres e smarts. Não recebi carta feminina alguma e não vi nem um ceitil, pois o di­nheiro que o jornal rendia, ou o que dava o capitalista comanditário, era pouco para sustentar os vários lares que o gerente mantinha. Bom pai de família... Estava já quase sem dinheiro, quando o distribuidor do O Furo – o Mercadante – convidou-me para redigir o seu jornal do “bicho”, intitulado O Palpite. Ganhava 50$000 por semana e ele mos pagou sempre pontualmente. Acertava sempre no grupo, pois o jornal, nesta e naquela seção, acabava dando, diariamente, todos os vinte e cinco animais da loteria popular. Cartas choviam e certo dia recebi uma, perfumada, em papel de linho, na qual me era pedido um palpite na certeza, dado na seção mais estimada. Dei-o e acertei. Ao dia seguinte, recebi da mesma pessoa um curto bilhete.

 

– Que dizia?

 

“Obrigado. Não sabes de que me salvaste. Amo-te muito. Vem amanhã. Na rua etc., etc.”

 

De forma que?...

 

De forma que com o palpite no bicho consegui o que não tinha obtido com a seção elegante: um amor.

 

Careta, Rio, 6-11-1915.

 

 

 

OS OUTROS

 

 

 

Não há prazer maior do que se ouvir pelas ruas, pelos bondes, pelos cafés, as conversas de dois conhecidos.

 

Tenho um camarada cuja curiosidade pelo pensamento dos estranhos é tal que não há papel caído na rua, contendo algumas linhas escritas que ele não guarde, recomponha, a fim de dar pasto a esse seu vício mental.

 

Tem no seu museu coisas maravilhosas. Muita vez os missivistas pensam em ter inutilizado uma cartinha amorosa, um bilhete de “facada” e vai um indiscreto como este meu amigo e descobre que em tal dia F. “mordeu” X. em 50$000 ou Z. está apaixonado por H.

 

Na rua, porém, as coisas se passam mais ao vivo e as pontas de conversa merecem ser registradas, às vezes, por disparatadas, em outras, por profundamente sentenciosas, em outras ainda, por serem excessivamente divertidas.

 

Em um dia destes que fui levar um amigo até à esta­ção de Maruí, pude ouvir este pedaço de conversa entre dois redondos coronéis roceiros:

 

Como deixaste o rapaz?

 

Bem.

 

Estuda?

 

Estuda, mas esses estudos agora estão muito puxados. Imagina tu que ele tem de estudar, decorar um livro enor­me, cheio de números e, ainda por cima, em francês.

 

– Como se chama?

 

– Não sei. Tem um nome difícil. O autor é um tal Calle ou coisa que valha.

 

Tratava-se das Tábuas de Callet que tinham inspirado a piedade do pobre matuto pela vadiação do filho.

 

As conversas de trem são quase sempre interessantes. A mania dos suburbanos é discutir o merecimento deste subúrbio em face daquele. Um morador do Riachuelo não pode ad­mitir que se o confunda com um do Encantado e muito menos com qualquer do Engenho de Dentro.

 

Os habitantes de Todos os Santos julgam a sua estação excelente por ser pacata e sossegada, mas os do Méier acu­sam os de Todos os Santos de irem para o seu bairro ti­rar-lhe o sossego.

 

Uma senhora dizia à outra, no trem:

 

Jacarepaguá é muito bom. Gosto muito.

 

– Mas tem um defeito.

 

Qual é?

 

Não tem iluminação à noite.

 

Você diz bem que é só à noite, pois de dia tem o Sol.

 

As duas riram-se e, como nenhuma delas tivesse preten­sões intelectuais, não houve zanga alguma entre elas.

 

Os hábitos de sociedade, parece, ainda não estão cientificamente estabelecidos entre nós.

 

Julgo que se fossem analisar muitos deles à luz da metafísica, da teologia dogmática e da teoria dos raios catódicos, muitos deles seriam condenados.

 

Lembro-me mesmo de um caso elucidativo que um meu amigo me contou. Um outro amigo dele encontrou-o na rua e apresentou-o à mulher, ali mesmo.

 

Havia o movimento habitual da via pública, capaz de distrair, o mais atento. Para conversar qualquer coisa, o meu amigo narrou uma história de um acidente de bonde de que ia sendo vítima.

 

Imaginem que quase morri.

 

Nisto a esposa do camarada do meu amigo voltou-se, pois estava olhando para um dos lados, e perguntou naturalmente:

 

– Não morreu?

 

Careta, Rio, 11-12-1915.

 

 

 

MAIS UMA

 

 

 

Temos agora, neste nosso extraordinário Brasil, mais uma academia de letras: a da Bahia.

 

A primeira coisa que logo chama a atenção de quem lê a lista dos seus membros e respectivos patronos, é o ar de família que apresenta a novel instituição sábia.

 

Monizes de Aragão há lá quatro, quase a décima parte da academia efetiva, além de dois outros Monizes, mas não de Aragão, que devem ser primos dos primeiros.

 

Isto unicamente entre os membros; não falamos aqui nos patronos.

 

Castro Rebelos, há dois, o Afonso e o Frederico; e assim por diante.

 

Se fosse no Ceará, com o exemplo político dos senhores Accióli ou Barroso, a coisa estaria explicada; mas em São Salvador, não se sabe bem onde foram os baianos buscar pa­drão para semelhante oligarquia.

 

Os patronos são em grande número completamente estranhos a coisas de letras. O senhor Teodoro Sampaio tomou para epônimo André Rebouças. Estamos a apostar que, se Rebouças, com o seu caráter e honestidade intelectual, pudesse falar de lá da Eternidade, havia de protestar, asseverando que era engenheiro, pura e simplesmente, e não literato de qualquer espécie.

 

A Bahia, terra de tantas inteligências e tão brilhantes tradições literárias, não podia consentir que tivessse sido ou seja governada senão por intelectuais e literatos.

 

Entre os membros da sua academia, estão o senhor Seabra, o J. J., o senhor Severino Vieira, antigos governadores, e o atual.

 

Noblesse oblige.

 

Notamos a falta do senhor José Marcelino e do senhor Araújo Pinho.

 

Quanto aos patronos, há descobertas surpreendentes. Por exemplo: os senhores alguma vez ouviram dizer que o conselheiro Zacarias fosse homem de letras? Pois saibam agora que a academia da Bahia diz que foi; e até está servindo de patrono ao senhor Seabra, na imortalidade baiana.

 

Está certo.

 

E o barão de Cotegipe? E o Manuel Vitorino? E o Fernandes da Cunha?

 

Escapou, entre os heróis epônimos da academia, com certeza por inadvertência, o conselheiro Saraiva. É de admirar, pois reza a tradição que ele lia com especial agrado a Revue des Deux Mondes...

 

O senhor Miguel Calmon esqueceu-se um pouco do seu avoengo, visconde de Turenne, e tomou como patrono um outro mais próximo: o marquês de Abrantes.

 

O antigo ministro da Viação e atual escrivão dos expostos da Santa Casa anda sempre a duas amarras. Quando se trata de coisas da Bahia, tem como antepassado o nosso conhecido marquês de Abrantes; mas, em se tratando de informações de sua genealogia que tenham repercussão lá fora, é de Tour d’Auvergne, da casa dos duques de Bouillon, de que ele descende.

 

O diabo é que não sabemos onde fica a literatura do marquês de Abrantes.

 

O senhor Almáquio Dinis é também imortal na Bahia. Ainda bem que ele, de alguma forma, realizou o seu sonho dourado. Parabéns, doutor!

 

O livreiro Jacinto é que está desanimado...

 

Gostava muito mais de ver o senhor Afrânio tomar para orago o senhor Deiró.

 

Para um homem do mundo, como o senhor Afrânio constitui, ao que nos disseram, uma boa recomendação.

 

O mais original da novata academia de Salvador é que ela não se contentou com quarenta membros.

 

Criou mais um, como contrapeso ou como se chama, em linguagem de varejista ou quitandeiro: “quebra”.

 

E, para esse fauteuil “de quebra”, a academia da Bahia escolheu o senhor Arlindo Fragoso, cujo patrono é Manuel Alves Branco.

 

E preciso observar que não foi o senhor Arlindo quem escolheu o padrinho; foi-lhe imposto.

 

A Academia Brasileira começou com escritores, por patronos, também escritores; e vai morrendo suavemente em cenáculo de diplomatas chics, de potentados do “silêncio é ouro”, de médicos afreguesados e juízes tout à fait.

 

A da Bahia, vindo depois, não quis percorrer as etapas da sua antecessora. Começou logo com um sarapatel de todos os diabos e... esqueceu-se de Caetano Lopes de Moura, o primeiro editor do Cancioneiro do Vaticano ou D’El Rey Dom Denis, como ele batizou o códice da biblioteca papalina.

 

Cozinha baiana...

 

A.B.C., Rio, 31-3-1917.

 

 

 

CARTA FECHADA – MEU MARAVILHOSO SENHOR ZÉ RUFINO

 

 

 

Eu lhe escrevo esta carta, com muito desgosto, pois interrompo a série de impressões que vinha escrevendo sobre o país da Bruzundanga. Mas vossa excelência merece semelhante interrupção. Vossa Excelência é

 

o mais cínico dos sujeitos que se fizeram ministro de Estado. Nem o Calmon, que se fez agora cadete, para ver se arranja um lugar de ministro de qualquer coisa, é igual a vossa excelência.

 

Ministro, meu caro e excelentíssimo senhor Zé Rufino ou Chico Caiana, é um cidadão investido de certas e grandes autoridades para prever as necessidades públicas; ministro, Rufino, não é um reles especulador!; ministro, Chico da Novilha, é alguma coisa mais do que um simples agiota.

 

Agora você (mudo de tratamento), fez-se ministro para ser caixeiro de um reles sindicato de judeus belgas e mais ou menos franceses, para esfomear o Brasil e ganhar dinheiro.

 

É muito justo que vocês queiram ganhar dinheiro; é muito justa essa torpe ânsia burguesa de ajuntar níqueis; mas o que não é justo, é que nós, todo o povo do Brasil, dê prestígio a você, ministro e secretário de Estado, para nos matar de fome.

 

O Amaral, aliás diretor, como está no cabeçalho, ali do Correio da Manhã, com o seu receituário enciclopédico, já disse que você trata de coisas práticas. É a mesma coisa que um ladrão, meu amigo, disse-me uma vez! “Só trato de coisas práticas.”

 

Não preciso, portanto, ter a grande ciência do Amaral, a sua estadia na Europa, o seu saber em inglês e arte de fórmulas, para dizer que o Zé Rufino é a primeira coisa deste mundo.

 

Nasci sem dinheiro, mulato e livre; mas se nascesse com dinheiro, livre e mesmo mulato, fazia o Zé Rufino meu feitor da fazenda.

 

Não há destino que lhe caiba mais; vai-lhe como uma luva do Formosinho.

 

Bezerra, alvar, mais do que ignorante, autoritário, babosão, um lugar desses lhe vinha a calhar.

 

A República do Brasil não podia ter ministro mais repre­sentativo.

 

Um secretário de Estado, um auxiliar do seu presidente, cuja única cogitação é auxiliar a judiaria dos falsos produtores do açúcar para empobrecer o seu povo, só deve merecer medalhas e recompensas.

 

O Amaral naturalmente vem com algarismos e negócios de economia política, para afirmar que o Rufino tem direito a fazer semelhante coisa quando ministro de Estado.

 

Eu, porém, não tenho medo nem dos algarismos nem dos negócios do Amaral; e, se o Azevedo quiser, estou disposto a responder-lhe em qualquer terreno.

 

Amaral estudou essas coisas de sociologia, não como médico, mas como boticário. O que ele sabe não é anatomia, não é patologia, não é terapêutica, não é botânica, não é química. Ele sabe o formulário; e, como tal, acha o Ru­fino um homem extraordinário, prático, tão prático que está achando meios e modos de matar a nossa gente pobre de fome.

 

O açúcar, produção nacional, a mais nacional que há, que é vendida aos estrangeiros por 6$000 à arroba, é vendida aos retalhistas brasileiros por mais de 1O$000.

 

Sabem quem é o chefe de semelhante bandalheira? É o Zé Rufino Bezerra Cavalcanti – Cavalcanti, com “i”, porque ele não é mulato – graças a Deus!

 

Semelhante tipo, semelhante ministro de Estado, de mãos dadas com belgas e outros vagabundos mais ou menos fran­ceses, é que merece a admiração enternecida do Amaral e do seu amigo Edmundo ou, como chamam lá os seus cria­dos, doutor Edmundo.

 

Amaral, tu és notável, tu tens talento, tu és doutor, tu possuis tudo para ser um grande homem. Não sei se tu tens vícios; eu os tenho; mas tu não tens – é sinceridade.

 

Falta-te essa coisa que é o amor pelos outros, o pensa­mento dos outros, a dedicação para enfrentar com a vida na sua majestosa grandeza de miséria e de força.

 

Quanto aos teus algarismos, vai te catar que não tenho medo deles; e, quanto a mim, diga ao Rufino que sou ter­ceiro oficial da Secretaria da Guerra, há quinze anos. Ele que arranje, se for capaz, a minha demissão. Não garanto, mas, talvez, seja possível que eu lhe fique agradecido. Até logo.

 

A.B.C., Rio, 12-5-1917.

 

 

 

SOBRE O DESASTRE

 

 

 

Viveu uma semana a cidade sob a impressão do desastre da Rua da Carioca. A impressão foi tão grande, alagou-se por todas as camadas, que temo não ter sido de tal modo profunda, pois imagino que, quando saírem à luz estas linhas, ela já se tenha apagado de todos os espíritos.

 

Todos procuraram explicar os motivos do desastre. Os técnicos e os profanos, os médicos e os boticários, os burocratas e os merceeiros, os motorneiros e os quitandeiros, todos tiveram uma opinião sobre a causa da tremenda catástrofe.

 

Uma coisa, porém, ninguém se lembrou de ver no desastre: foi a sua significação moral, ou antes, social.

 

Nesse atropelo em que vivemos, neste fantástico turbilhão de preocupações subalternas, poucos têm visto de que modo nós nos vamos afastando da medida, do relativo, do equili­brado, para nos atirarmos ao monstruoso, ao brutal.

 

O nosso gosto que sempre teve um estalão equivalente à nossa própria pessoa, está querendo passar, sem um módulo conveniente, para o do gigante Golias ou outro qualquer de sua raça.

 

A brutalidade dos Estados Unidos, a sua grosseria mercantil, a sua desonestidade administrativa e o seu amor ao apressado estão nos fascinando e tirando de nós aquele pouco que nos era próprio e nos fazia bons.

 

O Rio é uma cidade de grande área e de população pouco densa; e, de tal modo o é, que se ir do Méier à Copacabana, é uma verdadeira viagem, sem que, entretanto, não se saia da zona urbana.

 

De resto, a valorização dos terrenos não se há feito, a não ser em certas ruas e assim mesmo em certos trechos delas, não se há feito, dizia, de um modo tão tirânico que exigisse a construção em nesgas de chão de sky-scrapers.

 

Porque os fazem então?

 

E por imitação, por má e sórdida imitação dos Estados Unidos, naquilo que têm de mais estúpido – a brutalidade. Entra também um pouco de ganância, mas esta é a acora­çoada pela filosofia oficial corrente que nos ensina a imitar aquele poderoso país.

 

Longe de mim censurar a imitação, pois sei bem de que maneira ela é fator da civilização e do aperfeiçoamento indi­vidual, mas aprová-la quand même, é que não posso fazer.

 

O Rio de Janeiro não tem necessidade de semelhantes “ca­beças-de-porco”, dessas torres babilônicas que irão enfeá-lo, e perturbar os seus lindos horizontes. Se é necessário construir algum, que só seja permitido em certas ruas com a área de chão convenientemente proporcional.

 

Nós não estamos como a maior parte dos senhores de Nova York, apertados, em uma pequena ilha; nós nos podemos desenvolver para muitos quadrantes. Para que esta ambição então? Para que perturbar a majestade da nossa natureza, com a plebéia brutalidade de monstruosas construções?

 

Abandonemos essa vassalagem aos americanos e fiquemos nós mesmos com as nossas casas de dois ou três andares, construídas lentamente, mas que raramente matavam os seus hu­mildes construtores.

 

Os inconvenientes dessas almanjarras são patentes. Além de não poderem possuir a mínima beleza, em caso de desastre, de incêndio, por exemplo, não podendo os elevadores dar va­zão à sua população, as mortes hão de se multiplicar. Acresce ainda a circunstância que, sendo habitada, por perto de meio a um milhar de pessoas, verdadeiras vilas, a não ser que haja uma polícia especial, elas hão de, em breve favorecer a perpetração de crimes misteriosos.

 

Imploremos aos senhores capitalistas para que abandonem essas imensas construções, que irão, multiplicadas, impedir de vermos os nossos purpurinos crepúsculos do verão e os nossos profundos céus negros do inverno. As modas dos “americanos” que lá fiquem com eles; fiquemos nós com as nossas que matam menos e não ofendem muito à beleza e à natureza.

 

Sei bem que essas considerações são inatuais. Vou contra a corrente geral, mas creiam, que isso não me amedronta. Admiro muito o imperador Juliano e, como ele, gostaria de dizer, ao morrer: “Venceste Galileu.”

 

Revista da Época, Rio, 20-7-1917.

 

 

 

A VAGA DA ACADEMIA

 

 

 

Em matéria de eleições, parece que há quem queira em­parelhar a nossa Academia de Letras com os politiqueiros de Campo Grande ou Santa Cruz.

 

Foi ontem que morreu o barão Homem de Melo e, ao que parece, a academia ainda não declarou oficialmente que há uma vaga aberta em seu seio.

 

Entretanto, já apareceu um candidato – o que é extraordinário. Torna-o, porém, esquisito o fato de ser anunciado com tais e quais votos.

 

Não sabemos se tal coisa é verdade. Mas, lemos a notícia em um jornal de São Paulo, A Capital, de 12 do cor­rente mês. Ei-la:

 

“Academia Brasileira de Letras – Rio. 12 – Afirma-se aqui, que, para a vaga do saudoso Barão Homem de Meio na Academia Brasileira de Letras, será eleito o Senhor Veiga Miranda, redator-chefe da edição paulista do Jornal do Co­mércio e festejado autor de Pássaros que fogem, Redenção e Mau Olhado.

 

“Dizem que o ilustre escritor, cujas obras já mereceram a crítica entusiástica de acadêmicos como Oliveira Lima, José Veríssimo, Mário de Alencar e João Ribeiro, terá os votos dos Senhores Félix Pacheco, Alcindo Guanabara, Afrânio Peí­xoto, Pedro Lessa, Coelho Neto, Luís Murat, Emilio de Me­neses, Magalhães Azeredo, Augusto de Lima, Ataulfo de Paiva, Antônio Austregésio, Oliveira Lima, Mário de Alencar, João Ribeiro, Silva Ramos, Afonso Celso, além de outros. Segundo cálculos aqui feitos, o Senhor Veiga Miranda terá mais de 25 votos, contando-se dentre eles o do Senhor Conselheiro Rui Barbosa.”

 

Não pomos em dúvida os méritos do prematuro candidato. Contudo tomamos a liberdade de lembrar que o Brasil é bem grande, possui muitos escritores, talvez demais para os leitores efetivos.

 

Sendo assim, pode aparecer, até que se dê a eleição, um candidato com tantos méritos ou mais do que os do senhor Veiga Miranda.

 

É de crer que os imortais da Praia da Lapa, ao serem chamados para escolher um novo colega, levem em conta os títulos intrinsecamente literários dos postulantes e não quais­quer outras razões sentimentais, sociais ou políticas.

 

Julgando que se tenha dado isso sempre no ânimo dos membros da ilustre companhia, não queremos crer que desde já tantos nomes respeitáveis tenham hipotecado os seus votos a um certo e determinado candidato, sem conhecer os outros.

 

É preciso lembrar que há entre tais nomes o do senhor Ataulfo de Paiva, que além de ser um curioso escritor da mais apurada elegância, é juiz de carreira, desembargador atualmente, devendo ter naturalmente um perfeito hábito de julgar.

 

Não nos é lícito acreditar, portanto, no telegrama do nosso colega de São Paulo.

 

Os imortais citados no telegrama do vespertino paulista, como juizes que vão ser, esperarão os outros candidatos para então se pronunciarem com toda a honestidade a respeito.

 

As tradições de virtude, de austeridade e independência da academia são a mais perfeita garantia de que a nossa suposição não é sem base.

 

Lanterna, Rio, 17-1-1918.

 

 

 

O QUE É ENTÃO?

 

 

 

Conheço de nome, o senhor Múcio da Paixão, há muitos anos. Não há revista de teatro, daqui e dos Estados, onde não se encontre sempre alguma coisa dele...

 

Habituei-me a estimá-lo por esse profundo e constante amor as coisas da ribalta. Gosto dos homens de uma única paixão. Não é pois, de estranhar que tivesse lido, há dias na Gazeta do Povo, de Campos, com todo o interesse um artigo seu sobre uma troupe sertaneja que andou por aqui, estando na ocasião naquela cidade. Li-o com tanto interesse quanto a leitura de um outro jornal da rainha da Paraíba me havia deixado uma desagradável impressão. É o caso que A Notícia de lá anunciava o furto de 1:500$000 feito a uma quitandeira espanhola, com o título “Um grande roubo”. Imaginei logo a bela cidade do açúcar dos ministeriais Meireles Zamiths & Cia, muito pobre a ponto de classificar tão pomposamente um modestíssimo ataque a propriedade alheia. Abandonando a A Noticia, e encontrando no então jornal cam­pista, o artigo do senhor Múcio, apressei-me em lê-lo para esquecer o julgamento desfavorável que fizera antes.

 

O senhor Múcio gabara muito a troupe, tinha palavras carinhosas para os sertanejos de todas as partes do Brasil, mesmo para aqueles da turma em espetáculos na cidade, que tocavam nas violas a Cavalaria Rusticana e a Carmen. Só ao tratar da cidade do Rio de Janeiro, é que o senhor Múcio foi áspero. Classificou-a de – a menos brasileira das nossas cidades. Eu quisera bem que o escritor campista me dissesse as razões de tal julgamento. Será pela população? Creio que não...

 

O último recenseamento desta cidade, feita pelo Prefeito Passos, em 1890, acusava para ela a população total de 811.443 habitantes, dos quais 600.928 eram brasileiros e os restantes 210.515, estrangeiros. Não se pode, creio eu, dizer que uma cidade não é brasileira quando mais de dois terços de sua população o são. Convém ainda reparar que, no número dos estrangeiros, estão incluídos 133.393 portugueses, mais da metade do total de forasteiros, fato de notar, pois os lusitanos muito pouco influem para a modificação dos costumes e da língua.

 

Se não é na população que o senhor Múcio foi buscar base para a sua asserção, onde foi então? Nos costumes? Mas que costumes queria o senhor Múcio que o Rio de Ja­neiro tivesse? Os de Campos? Os da Bahia? Os de São Ga­briel?

 

Julgo que o confrade das margens do Paraíba tem bastante bom senso para ver que o Rio de Janeiro só pode ter os costumes do Rio de Janeiro.

 

E sou levado a pensar assim porque, nesse mesmo artigo seu, o ilustre colega afirma que cada terra cria a sua poesia popular, etc, etc.

 

O meu Rio a tem também e, se o estimado publicista lembrar-se dos trabalhos dos estudiosos dessas coisas de folclore, como os senhores João Ribeiro e Sílvio Romero, por exemplo, verão que eles têm registrado muitos cantos, muitas quadras populares próprias ao Rio de Janeiro.

 

Poucas informações tenho do esforçado escritor campista, mas imagino que ele conhece muito mal o Rio de Janeiro. Quando vem por aqui adivinho, anda pela Rua do Ouvidor, Avenida, Praia de Botafogo, por todos esses lugares que as grandes cidades possuem para gáudio dos seus visitantes; mas o que constitui a alma, a substância da cidade, o senhor Múcio não conhece e dá provas disso em sua afirmação.

 

O Rio de Janeiro é brasileiro a seu modo, como Campos é, como São Paulo é, como Manaus é, etc. Nesta região, preponderaram tais elementos; naquela, houve uma influência predominante, naquela outra, apagaram-se certas tradições e avivaram-se outras; e assim por diante. Mas, um brasileiro de condição média quando vai daqui para ali, compreende perfeitamente tais usanças locais, sejam as do Rio Grande do Sul para as do Pará ou vice-versa. O nosso fundo comum é milagrosamente inalterável e basta para nos entendermos uns aos outros.

 

Se o Brasil não é o Rio de Janeiro, meu caro senhor Múcio da Paixão, o Rio de Janeiro também não é a Rua do Ouvidor. Não se deve, portanto, julgá-lo pela sua tradicional via pública.

 

E, se quiser ver, como isto é verdade, venha no mês que vem, assistir o carnaval. Não só o senhor verá que o Rio tem muita coisa de seu, má ou boa como também espontaneamente soube resumir as tradições e cantares plebeus do Brasil todo – o que se vê durante os dias consagrados a Momo.

 

Um observador como o senhor é, não há de admitir que só sejam brasileiros a sua “mana-chica”, e o seu “carabas” de Campos e não seja o “cateretê” de São Paulo, se é esse o nome que ali é dado aos saraus de sua gente pobre e rús­tica.

 

O Rio de Janeiro é cidade bem brasileira, senão, o que é então? Diga-me, o senhor Múcio da Paixão.

 

Lanterna, Rio, 22-1-1918.

 

 

 

ESTUDOS BRASILEIROS

 

 

 

De quando em quando os jornais anunciam certos acontecimentos para breve, e ao chegar a ocasião de se realizarem, eles não se verificam sem que as folhas volantes se preocupem em justificar o motivo de tal. Assim, por exemplo o senhor Miguel Calmon, professor de cálculos na Bahia e cadete de linha de tiro aqui, devido as profundas provas que deu, de saber cultivar batatas em quintais burgueses, foi escolhido para professor da Universidade de Lisboa da cadeira de Estudos Brasileiros. A escolha foi feita pela Academia de Letras que, como se sabe, primou sempre nas suas escolhas.

 

O jovem Calmon devia partir em novembro, mais patriota, porém, do que o grácil Hélio Lobo, vulgo, secretário da presidência, ficou, para não abandonar o Brasil, privá-lo dos seus esforços e das suas luzes quando deles muito precisa o país nesses transes de uma guerra universal.

 

Eu avancei o motivo, mas não estou certo de que fosse este. Entretanto, até aqui, jornal algum quis dize-lo claramente e os quotidianos deviam faze-lo, para ciência de todos nós, tanto mais que não há dia em que não falem do jovem descendente de Turenne, por isto ou por aquilo...

 

Acredito, portanto que fosse aquele o motivo de não ter o senhor Calmon ido assumir em Lisboa, a sua cadeira, porque, auxiliando à pátria e ao governo, eu o vi a 15 de novembro último, muito garboso, de cáqui e carabina, nas fileiras do Tiro nº 7. Isto foi um instante, no campo do São Cristovão; mas, minutos depois muito reúnamente vestido, vi o atirador na sua limousine, e como a tarde tivesse um ar guerreiro, eu a supus a princípio, uma espécie de tanque, de invenção de algum patriota nacional. Lembrei-me do doutor Ribas Cadaval...

 

Motivo fosse qual fosse, o certo é que o senhor Miguel du Pin não partiu. A academia para ser gentil com a sua colega de Lisboa, devia oficiar-lhe, explicando as razões por que o seu legado não foi.

 

Podia mesmo ter dado logo um substituto ao guerreiro do Tiro 7 e do tank-limousine; e tendo anteriormente escolhido este, porque entendia de pragas egípcias do algodão e do plantio do café em Java para a citada cadeira de Estudos Brasileiros, a nossa ilustre companhia devia aperfeiçoar mais a sua eleição, designando alguém que bem entendesse das culturas da Groenlândia e da literatura esquimó.

 

Imagino que uma sabedoria destas não é muito comum em Lisboa, e, com ela, o embaixador da academia iria em­basbacar o público lusitano. Não perca a respeitável institui­ção mais esse ensejo de fazer a prova da nossa cultura no estrangeiro e mande para lá alguém nas condições indicadas. Podia ser o Hélio. Bastava-lhe um caixote de aspas.

 

Convidem-no que ele topa.

 

Lanterna, Rio, 26-1-1918.

 

 

 

LAVAR A HONRA, MATANDO?

 

 

 

Dentre as muitas coisas engraçadas que me têm acontecido, uma delas é ter sido jurado, e mais de uma vez. Da venerável instituição, eu tenho notas que me animo qualificá-las de judiciosas e um dia, desta ou daquela maneira, hei de publicá-las. Antes de tudo, declaro que não tenho sobre o júri a opinião dos jornalistas honestíssimos, nem tampouco a dos bacharéis pedantes. Sou de opinião que ela deve ser mantida, ou por outra, voltar ao que foi. A lei, pela sua generosidade mesmo, não pode prever tais e quais casos, os aspectos particulares de tais e quais crimes; e só um tribu­nal como o júri, sem peias de praxistas, de autoridades jurídicas, etc., pode julgar com o critério muito racional e concreto da vida que nós vivemos todos os dias, desprezando o rigor abstracto da lei e os preconceitos dos juristas.

 

A massa dos jurados é de uma mediocridade intelectual pasmosa, mas isto não depõe contra o júri, pois nós sabemos de que força mental são a maioria dos nossos juizes togados.

 

A burrice nacional julga que deviam ser os formados a compor unicamente o júri. Há nisso somente burrice, e às toneladas. Nas muitas vezes em que servi no tribunal popu­lar, tive como companheiros doutores de todos os matizes. Com raras exceções, todos eles eram excepcionalmente idiotas e os mais perfeitos eram os formados em direito.

 

Todos eles estavam no mesmo nível mental, que o senhor Ramalho, oficial da Secretaria da Viação; que o senhor Sá, escriturário da Intendência; que o senhor Guedes, contramestre do Arsenal de Guerra. Podem objectar que esses doutores todos exerciam cargos burocráticos. É um engano. Ha­via-os que ganhavam o seu pão dentro das habilidades forne­cidas pelo canudo e eram bem tapados.

 

Não há país algum em que, tirando-se à sorte os nomes de doze homens, se encontrem dez de inteligentes; e o Brasil que tem os seus expoentes intelectuais no Aluísio de Castro e no Miguel Calmon, não pode fazer exceção à regra.

 

O júri porém não é negócio de inteligência. O que se exige de inteligência é muito pouco, está ao alcance de qual­quer. O que se exige lá é força de sentimento e firmeza de caráter, e isto não há lata doutoral, que dê. Essas consi­derações vêm ao bico da pena, ao ler que o júri mais uma vez absolveu um marido que matou a mulher, sobre o pretexto de ser ela adúltera.

 

Eu julguei um crime destes e foi das primeiras vezes que fui sorteado e aceito. O promotor era o doutor Cesário Alvim, que já é juiz de direito. O senhor Cesário Alvim fez uma acusação das mais veementes e perfeitas que eu assisti no meu curso de jurado. O senhor Evaristo de Morais defendeu, empregando o seu processo predileto de autores, cujos livros ele leva para o tribunal, e referir-se a documentos particulares que, da tribuna mostra aos jurados. A mediocridade de instrução e inteligência dos jurados fica sempre impressio­nada com as coisas do livro; e o doutor Evaristo sabe bem disto e nunca deixa de recorrer ao seu predileto processo de defesa.

 

Mas... Eu julguei. um uxoricida. Entrei no júri com reiterados pedidos de sua própria mãe, que me foi procurar por toda a parte. A minha firme opinião era condenar o tal matador conjugal. Entretanto a mãe... Durante a acusação, fiquei determinado a mandá-lo para o xilindró ... Entretanto a mãe... A defesa do doutor Evaristo de Morais não me abalou... Entretanto a mãe... Indo para a sala secreta, tomar café, o desprezo que um certo Rodrigues, campeão de réu, demonstrava por mim, mais alicerçou a minha convicção de que devia condenar aquele estúpido marido... Entretanto a mãe... Acabando os debates, Rodrigues queria lavrar a ata, sem proceder a votação dos quesitos. Protestei e disse que não a assinaria se assim procedessem. Rodrigues ficou atônito, os outros confabularam com ele. Um veio ter a mim, indagou se eu era casado, disse-lhe que não e ele concluiu: “É por isso. O senhor não sabe o que são essas coisas. Tomem nota desta.. .” Afinal cedi... A mãe... Absolvi o imbecil marido que lavou a sua honra, matando uma pobre mulher que tinha todo o direito de não amá-lo, se o amou, algum dia, e amar um outro qualquer... Eu me arrependo profundamente.

 

Lanterna, Rio, 28-1-1918.

 

 

 

NO CAMPO DE AGRAMANTE

 

 

 

Este charivari do Tiro 5, em que entraram o João do Norte, o senhor Denis Júnior e o tenente Nei merece alguns comentários. Os tiros, especialmente o 7 e o 5, eram tidos como o mais eficaz meio de semear em todos nós o gosto pelas coisas militares, o hábito da obediência, o sentimento de hierarquia, etc.

 

Calmon, que havia sido ministro e queria ser mais uma vez, não teve dúvidas em assentar praça num deles, marcha pelas ruas com o seu tank-limousine à vista, fazendo tudo o que compete a um soldado.

 

Os seus companheiros que têm o sentimento da hierarquia, viram logo que um antigo deputado, um ex-ministro, um lente que não dá aulas, um agricultor incansável nos discursos, um felizardo que tem limousines, um senhor assim não podia ser uma simples praça. Fizeram-no coronel, isto é, presidente do tiro.

 

No Tiro 5, nós tínhamos João do Norte e Denis Júnior, ambos literatos ou escritores. O primeiro já publicou alguns livros e o segundo já arranjou um bom emprego e comprou roupas. Aí, neste tiro, havia dessa forma mais estas dificul­dades no restabelecimento da hierarquia. Demais... Conti­nuemos: Denis, lançado pelo Binóculo não podia comparecer em frente de nossas damas binoculares, fardado de simples soldado.

 

A Barroso (J. do Norte), deputado, não ficava bem a blusa de praça.

 

Daí a necessidade urgentíssima, muito democrática de ambos se fazerem oficiais.

 

Barroso foi, Denis também; mas apareceu o ministro da Guerra e não quis mais esta guarda nacional. Acabou com os tais oficiais atiradores e tanto Barroso como o Denis volta­ram para a fileira.

 

No domingo passado, eles, os do Tiro 5, iam fazer uma passeata pela cidade. O instrutor viria a cavalo, com um aju­dante ao lado; Denis, que é solteiro e premedita, certamente, arranjar um bom casamento, para o que está inteiramente ta­lhado, teceu as coisas de modo que foi escolhido para aju­dante, e apareceria, na cidade, em cima de um bucéfalo policial, empunhando a espada nua e faiscante.

 

O sucesso de Denis seria incomparável. As damas vê-lo-iam logo de elmo e penacho, braçais, lanças, cota de malha e a divisa das armas esquarteladas no escudo: “Por ela e só!” Pleno torneio!

 

Esta “ela” podia ser uma qualquer, desde que satisfizesse certas condições monetárias suficientemente razoáveis.

 

Denis ficaria transfigurado e, com toda a razão cavaria o casamento rico. Ele tem obtido coisas mais difíceis, como ser inspector escolar, porque não conseguiria uma pequena com um bom dote? João do Norte não viu bem a coisa do cavalo. Bolas! Ele, deputado, autor de dois ou três livros, boa e bela figura, sabendo ler e escrever corretamente, tinha que ir a pé, enquanto o Denis iria a cavalo? Fez um es­tardalhaço e acabou-se a passeata do tiro.

 

Denis adiou o negócio do casamento; mas na próxima vez, ele não perderá a ocasião, pois as coisas se passarão de outra forma.

 

Tudo virá a cavalo e não haverá discórdia.

 

Lanterna, Rio, 29-1-1918.

 

 

 

ATÉ QUE AFINAL!...

 

 

 

Seria preciso consultar todos os curiosos sabedores das coisas desta cidade, para ao certo se avaliar desde quando esta vasta e heróica São Sebastião clama e chora por melhoramentos, higiene, água, calçamento, etc., etc. Porquanto, aferindo pelo que temos ouvido durante a nossa curta existência, esses queixumes e lamentos devem datar dos seus inícios, mesmo talvez desde quando ali, pelas bandas do Pão de Açúcar, ela surgiu incipiente e tosca.

 

Julgamos até, pois tão forte é essa nossa suposição que, ao transferir dali para o morro de São Januário, o núcleo da cidade real, Mem de Sá solene e honesto, houvesse mandado pôr nos finais das sesmarias que ia concedendo, algumas to­cantes palavras de súplica à Nossa Senhora e ao Menino Jesus, implorando-lhes a graça e a ajuda para aqueles que viessem povoar os brejos que ele via se estender pela baixada afora e pra longe e muito longe.

 

De resto, ao depois dele, os outros que lhe sucederam – boa, leal e heróica gente portuguesa – andaram por estas terras a rezar a Deus-Todo-Poderoso para que ele desse aos homens bons da cidade, a doce esmola de alguns quartilhos d’água, a alentadora dádiva de duas ou três estradas razoá­veis, por onde pudessem vir as abóboras da Fazenda dos Pa­dres e os camarões de Iguaçu.

 

E assim foi por tão longo trato de tempo que faz crer que isso mais não fosse senão aquela lamurienta semente de Mem de Sá que germinou, cresceu e frutificou. Frutificando, frutificou bem, pois embora, por vezes, pela cidade e recôncavo além, lavrassem a bexiga, as sezões, a “carneirada” e o cólera, eles, os antigos, e nós, os modernos, continuamos em face de tais flagelos a rogar pacientemente a Deus, com alguma fé, e a pedir humildemente aos reis, com muito cepticismo, socorros e providências.

 

Mas, não é em vão que a água mole e plástica bate incessante no rochedo duro e forte: ela cai uma, duas, dez, mil vezes, amolga aqui, arranha ali, por fim.., fura. E, também, furou a indiferença dos deuses e dos reis, o nosso melífluo queixar de três séculos e meio. Deus e o Congresso Nacional nos deram o Conselho Municipal.

 

Ao dizermos que nos deram o Conselho Municipal – bem parece equivaler a afiançar que íamos receber água, cal­çamento, luz e o mais em abundância.

 

Se houver acaso quem tenha dúvidas, pese bem os relevantes serviços que esse conselho, cujo mandato começou já, vai prestando a esta cidade.

 

Ele trata com fervoroso carinho a nossa heróica metrópole, tanto assim que lhe impôs novos tributos; ele a estima tanto que quer provocar a sua decadência comercial e indus­trial; ele a ama tanto que só trata de despovoá-la com as suas posturas draconianas; ele adora tanto o povo da cidade que só se preocupa em encarecer-lhe a vida...

 

Todos vós que amastes esta cidade, Sá, Mem e Estácio, Vaía Monteiro – o Onça, Bobadela, Passos e outros – exultai porque afinal ela tem o que precisa: um Conselho Municipal que quer o seu total aniquilamento.

 

Para isso ser obtido, foi preciso que fossem procurar os seus vereadores em todo o Brasil, menos no Rio de Janeiro.

 

A.B.C., Rio, 2-2-1918.

 

 

 

CADA RAÇA TEM UM CALINO

 

 

 

O doutor Amaro Cavalcanti que atualmente exerce as funções de prefeito desta cidade, foi, no governo do senhor Prudente de Morais, ministro da Justiça. Como quase todos os ministros do Interior, ele mereceu a honra de ser biografado pelo senhor Pelino Guedes. Por sua vez, a obra deste mereceu comentários de um sábio alemão e de que publicamos abaixo uma síntese.

 

*****

 

Convinha, disse ele, que precedendo estes meus comentários justificasse como eu, modesto privat docent de uma universidade alemã, atrevi-me a comentar obras de autor desse longínquo Brasil. Desde moço, pois tenho meus quarenta e cinco anos de idade, dediquei-me ao estudo do grotesco e do ridículo sobretudo, e essa face das coisas humanas levou-me a pesquisas dos seus tipos mais notáveis os quais com consciência observei e analisei.

 

Num ensaio que publiquei – Do Ridículo, aventei a teoria, que para cada povo e raça havia um Calino especial.

 

Assim foi que, após ter determinado os tipos de tolice para cada povo europeu, passei a determiná-los para os povos exóticos da América e Ásia.

 

Os motivos determinantes desse meu atual trabalho não são outros que os que possa ter um interessado nesses abs­trusos estudos.

 

Aproveito o ensejo para acusar o recebimento de outro “trabalhinho” do doutor Pelino – a biografia do doutor Sabino Barroso, ex-ministro, e essa obra é sobremodo notável, pois encerra nesta modesta frase o maximum da inteligência do seu autor: – “A biografia é a história da vida de um ho­mem”.

 

*****

 

Comentemos a biografia do senhor Amaro.

 

A Biografia do senhor Amaro é um grosso volume de 56 páginas, destas, oito em branco ou simplesmente com o título da obra; duas ocupam-se com a dedicatória ao próprio biografado, seis são destinadas a dedicatória (quanta dedica­tória!), à escola – e que escola! – à Escola Nacional do Caráter.... pro pudor!

 

Das 40 que ficam, temos que subtrair oito destinadas às notas finais (cópia de relatórios, de decretos, etc.); ficaram pois 32 que formam a biografia.

 

Estas 32 páginas têm 986 linhas, das quais 531 são ou parecem ser da lavra do autor, e as outras 495 são constituí­das por citações do Smiles e de outros autores, apud Smiles.

 

Desse modo o que nos resta são algumas frases, que recomendam muito o talento do autor.

 

Vejamos:

 

“As dívidas oriundas da gratidão devem ser pagas à boca do cofre e eu não disponho de outros recursos para satisfazer a que contraí, senão pelo modo que o fiz.”

 

Singular teoria! De tal modo que se o senhor Pelino fizer justiça (ele diz que foi isso que o senhor Amaro lhe fez) a um negociante de arreios, esse pobre homem não dis­pondo de outros recursos para pagar aquela “dívida oriunda da gratidão” deverá pagar com arreios? Com freios? Não; porque sabemos que tais coisas de nada servem ao senhor Pelino, mas como o negociante não dispõe de outros recursos para pagar tal dívida... naturalmente abrirá falência.

 

Vejam só o que são teorias!

 

“A idéia de Deus não é incompatível com o amor da pátria.”

 

O autor desta sentença, além de só “pensar o pensado”, tem a singular mania de descobrir verdades profundas como aquela acima e esta:

 

“Há mais de um exemplo do soçobro dos direitos e prerrogativas do cidadão na vida dos povos.”

 

“É só do povo, diz ele, que depende a sorte dos seus governos.”

 

Será verdade do doutor Pelino?

 

Adiante:

 

“Imaginai uma paisagem que, pouco a pouco, vai sendo iluminada pelo Sol. (Bonito) – Estende-se além a vastidão do deserto, (naturalmente atrás da paisagem... Como enxerga o cíclope do Largo do Rossio!) em cujo seio flutua a sombra de um vulto solitário! – É a sombra do meu herói!”...

 

Naturalmente este trecho poético mede forças com aquele verso “a Polinésia é um coreto onde o mar toca piston...”

 

Ainda mais:

 

“Tendo-o diante dos olhos, eu procurarei em largos traços, porém distintos, desenhar-lhe a imagem, sem omitir uma só linha, nem uma sombra; de modo a poder com fidelidade, fotografar-lhe a personalidade não de perfil, mas de fronte voltada para o Céu.”

 

Lendo as obras do senhor Felino observa-se a sua tendência para fotógrafo ao qual, talvez, por essa sua vocação sopeada, atribui gênio; mas o interessante, e que se conclui do trecho acima, é que pretenda fotografar os seus clientes de fronte para o Céu!

 

Naturalmente, penso eu, é vocação para fotógrafo de necrotério.

 

Temos ainda: a única omissão que aí noto é a ‘origem genealógica”...

 

Risum teneatis, amici!

 

E saibam que a tal “origem genealógica” consta unicamente dos nomes do respeitável pai e da augusta mãe do bio­grafado!

 

Aprenderam?

 

Agora esta “amostrazinha”:

 

“O doutor Amaro tem a tez morena e olhar cintilante dos filhos do Norte. (Ex.: os da família Accióli). Dicção correta e voz metálica. E amigo leal e dedicado. Fala francês. Monta cavalo.

 

“Habitamos, algum tempo, a mesma casa (Notável detalhe). Fez-me lembrar, muitas vezes, os solitários da Tebaida. (Coitado!). Pagava as visitas que lhe faziam. Toma banho frio todos os dias. Parece que tinha lido o conde de Camors.

 

“Quando estava comigo queixava-se da solidão. (Pudera!).”

 

Puro estilo telegrama – não há dúvida!

 

Temos mais:

 

“As suas ações (as do doutor Amaro) nada têm de he­róicas.”

 

“O meu herói distinguiu-se em outro cenário diverso; na vasta e tempestuosa arena da luta pela existência.”

 

Extraordinário esse senhor Pelino! Descobre aquele “paradoxo”: “a biografia”, etc. Depois tem “um herói” sem “ações heróicas”, que se distingue – não na guerra, não nas artes, não na ciência – mas onde, Santo Deus? – na arena da luta pela existência! Acredita com certeza que possa haver quem se celebrize na arena da luta... pela morte!

 

Macabra idéia!

 

“Sei, diz o doutor Pelino, que escrevo esta obra para escola.”

 

Com toda certeza para “sua” Escola Nacional do Caráter...

 

“O doutor Amaro é a personificação da luta pela exis­tência.”

 

Esta “história” de luta pela existência atrapalha a inteli­gência “paradoxal” do senhor Pelino. “Personificação da luta pela existência!” É demais!

 

Outrazinha:

 

“O trabalho e o estudo simbolizam para o doutor Amaro a sua – Delenda Carthago.

 

Símbolo extraordinário! Vai tal símbolo, naturalmente com vistas aos nossos simbolistas.

 

Simbolizam delenda Carthago!

 

Sem comentários. Safa!

 

Terminando diz o Calinópedes: “Se a intenção foi pura e a obra não sai perfeita, a culpa não é do autor.”

 

Nem minha, senhor Pelino.

 

Enfim, a obra do senhor Pelino é sem dúvida das mais curiosas e dignas de leitura que conheço. Nela, se não fossem os documentos que possuo da existência do senhor Pelino e outros motivos que saltam aos olhos de todos, poder-se-ia afirmar que haviam colaborado Calino, La Palisse, Acácio, Pa­checo, Prudhomme e mais outros de igual jaez. Feliz país que possui um Pelino!

 

Adolfo von Schulze.

 

Da Universidade de Freiburg.

 

Tradução de Lima Barreto.

 

A.B.C., Rio, 23-2-1918.

 

 

 

OS MATADORES DE MULHERES

 

 

 

Preocupações de outras ordens, não me têm permitido escrever sobre coisas diárias; mas este caso de Niterói, caso do Filadelfo Rocha, fez-me voltar de novo à imprensa quoti­diana.

 

Eu não me cansarei nunca de protestar e de acusar esses vagabundos matadores de mulheres, sobretudo, como no caso presente, quando não têm nem a coragem do seu crime.

 

Eu conheço este Filadelfo desde tenente. Sou funcio­nário da Secretaria da Guerra há quinze anos. Ele nunca passou de um tarimbeiro vulgar, feito pelo Floriano oficial. De bajulação em bajulação, foi subindo, até que, com a sua máxima bajulação ao senhor Hermes da Fonseca foi levado a ser comandante da polícia de Niterói.

 

Ele é quase analfabeto, sem nenhuma inteligência, nunca fez o mínimo esforço mental; entretanto, agora, coberto pelo opróbrio de um assassinato, insinua que o fez porque o seu rival era um simples funileiro. Mas onde foi Filadelfo en­contrar superioridade suficiente para julgar-se mais do que o tal bombeiro? Este Filadelfo ignorante, bajulador, que eu via pelo corredores de Ministério da Guerra a pegar na casaca deste ou daquele graúdo, para não comandar as suas praças, é, por acaso, alguma coisa?

 

Com essa tatuagem de galões, eles querem fazer das suas, matando as mulheres a torto e a direito. Eu me refiro simplesmente a semelhantes sujeitos. E digo isso, não por covardia, mas em atenção a verdade.

 

Por exemplo: este senhor Faceiro que, ontem ou anteontem, matou a mulher, porque teve a franca, a franca franqueza orgulhosa de dizer que a sua gravidez era do seu amor e não dele, não me merece a mínima piedade; mas há tantos outros que eu estimo... Adiante.

 

A mulher não é propriedade nossa e ela está no seu pleno direito de dizer donde lhe vêm os filhos.

 

Mas a questão não é esta. Eu falava do Filadelfo, do pequenino Filadelfo, a quem eu queria dizer simplesmente que nem ao menos ele teve ou tem coragem do seu crime. Espécie de Mendes Tavares!

 

Basta.

 

Lanterna, Rio, 18-3- 1918

 

 

 

PADRES E FRADES

 

 

 

Eu não me canso nunca de protestar.

 

Minha vida há de ser um protesto eterno contra todas as injustiças.

 

Li agora, nos jornais que o senhor Venceslau Brás, que dizem ser presidente da república, consentiu que padres católicos embarcassem nos navios de guerra nossos, que vão ficar a serviço da Inglaterra. Protesto!

 

Eu creio (vejam que gosto sempre de falar na primeira pessoa) eu creio que o senhor Venceslau Brás deve saber a Constituição; e, se ele não sabe, muito menos eu e tenho, portanto, o direito de fazer o que quiser. Mas, sei porque a li agora. Vejamos, senhor Venceslau Brás, o Art. 72, Seção II, “Declarações de Direitos”, parág. 7: “Nenhum culto ou igreja gozará de subvenção oficial, nem terá relações de dependência, ou aliança com o Governo da União, ou dos Es­tados”.

 

Onde foi, portanto, vossa excelência que é assessorado pela grande inteligência do Hélio Lobo, vulgo secretário da presidência, buscar autoridade para consentir que, nos navios de guerra do Brasil, embarquem padres?

 

Se vossa excelência julga que isso é uma simples assistência espiritual, tomo a liberdade de dizer a vossa excelência que lá tenho um parente que é simplesmente espiritista, e como tal tem direito a essa assistência, só sendo ela regular­mente feita por um médium vidente da minha amizade.

 

Outro amigo meu, descendente de uma família hanoveriana, é luterano; eu peço que Vossa Excelência consinta no embarque de um padre luterano. Deixa vossa excelência embarcá-lo?

 

Um oficial da Marinha, das minhas relações de colégio, é positivista enragé. Deixa vossa excelência embarcar um sa­cerdote positivista?

 

Eu, senhor doutor Venceslau Brás, sou budista, e, quando embarcar, quero um bonzo ao meu lado, mesmo que seja o Pelino Guedes. O que esses padres querem é solidificar a burguesia, à custa de fingir caridade e piedade.

 

Mas eu fico aqui sempre com os meus protestos.

 

Lanterna, 23-3-1918

 

 

 

AS FORMIGAS E O PREFEITO

 

 

 

Esse negócio de saúvas preocupa-me desde menino, quando o meu velho amigo Policarpo Quaresma narrou à minha infância curiosa os suplícios que elas o fizeram sofrer, ao         tempo em que se improvisou agricultor.

 

Já narrei alguns dos episódios da sua luta com elas, em um modesto livro onde expus grande parte de sua vida e descrevi o seu triste fim.

 

De uns tempos a esta parte, toda gente, especialmente os agricultores da administração, deu em se preocupar com tão daninhos e inteligentes insectos; e, se Policarpo vivesse, ficaria exuberantemente satisfeito com isso.

 

O senhor prefeito, em boa hora, deitou um regulamento, que cogita desse assunto, sobremodo importante para todas espécies de cultura.

 

Não li todo o regulamento, mas os jornais deram extratos e, por eles soube que sua excelência por artigo do mesmo, manda o proprietário, o arrendatário ou o locatário extinguir os formigueiros que houver nas respectivas propriedades.

 

Sem ser versado em leis, julgo que já existia uma velha postura municipal nos mesmos termos. Creio que foi Policarpo Quaresma quem me informou isso.

 

Essa velha postura nunca produziu efeito, como o artigo do regulamento do senhor Amaro nada adiantará, e isto pelo simples fato de não determinar precisamente quem deve ma­tar as formigas.

 

A lei cita três espécies de tenentes do terreno, mas não diz claramente qual deles é o responsável, de modo a estar sempre disposto o locatário a empurrar a bucha para o proprietário, e este para aquele; e, durante esse jogo de empurra, as formigas vão ficando em paz e devastando hortas, jardins, pomares e outras plantações.

 

Nada entendo de leis, nem quero entender. Sou radicalmente contra elas, pois me julgo de algum jeito maximalista; mas estou disposto a transigir a esse respeito, algumas vezes. Vou ceder agora, neste caso...

 

O senhor Amaro, que entende delas e foi o alto juiz, pode bem dar mais precisão ao artigo, indicando precisamente quem tem o dever de matar as saúvas que ocupam tal ou qual terreno.

 

Podia o senhor doutor prefeito fazer ainda mais. Organizar uma brigada – não precisava brigadas: bastava um re­gimento de homens afeitos ao mister de extinguir formiguei­ros, acantoná-los em determinadas zonas e oferecer os servi­ços deles mediante módico pagamento, aos que tivessem a obrigação legal de exterminar dos seus terrenos os depredadores himenópteros.

 

Não se faz e se fez isso com os mosquitos?

 

Poder-se-ia, penso eu realizar modestamente o mesmo para guerrear as formigas.

 

Então, desde que o regimento ou a brigada estivesse organizada e cantonada nas zonas que necessitam dos seus serviços, o governo municipal devia perseguir os refratários com todo o rigor da lei.

 

Julgo tudo isso prático, porque, morando em pequena chácara, em Todos os Santos e tendo o porão da casa cheio de formigueiros, não os extermino por dois motivos: 1º) não as sei matar e não conheço quem saiba; 2 ª) mesmo que soubesse matar saúvas muito humanamente, em face da lei dúbia, es­tava disposto a empurrar a bucha para o proprietário que pode mais do que eu. Eis aí.

 

Lanterna, Rio, 4-5-1918.

 

 

 

O FRANCO

 

 

 

O ninho de malvados açambarcadores que é a Associação Comercial do Rio de Janeiro, acaba, pela voz de um senhor Franco, sócio da firma Zamith, Meireles & Cia, de atacar de modo desabrido não só o Alto Comissariado de Alimentação Pública, como todos aqueles que não se querem enriquecer com a miséria dos outros.

 

Para este Franco, todo aquele que se não entregar ao “alívio” do açúcar, isto é, vender para a República Argentina, para a Itália ou para o México, esse produto por menos da metade do que ele e seus sócios vendem aqui, é mandrião, vagabundo ou coisa que valha.

 

A sua ironia de “açucareiro” sem cultura vai ao ponto de chamar todos os que se opõem à ladroeira de semelhantes salteadores da pobreza do Brasil, desse modo.

 

Esse senhor Franco, em vez de estar pensando em enriquecer de apodrecer, devia imaginar que enquanto a nossa sociedade atual, pedir serviços, como os do médico, os do ad­vogado, os do motorneiro, os de empregados públicos, todos eles não são vagabundos, todos eles trabalham a seu modo para a manutenção dessa própria sociedade.

 

Mesmo aqueles que o senhor Franco julga que são vadios, os poetas, os escritores, os filósofos, eles são úteis.

 

Se não fossem eles, o senhor Franco estaria na gleba de Portugal ou alhures e eu na escravidão.

 

A vida não é feita nem constituída de negócio de açúcar, como pensa o sócio do Pereira Lima, agente por demais sabido de vários trusts açucareiros.

 

A vida é complexa, pede muitas atividades, pede muito pensamento.

 

Se o senhor enriquece ou enriqueceu com açúcar, não sabe quanta dor, quanto sofrimento, quanto sangue, custaram os maquinismos com que o açúcar é fabricado nas suas usinas.

 

Se não fossem semelhantes vagabundos que tinham em vista unicamente o bem da humanidade, o senhor não falaria com essa empáfia na Associação Comercial do Rio de Janeiro.

 

As firmas de São Paulo, Matarazzo e outros, Martinelli, aqui, e várias mais que eu não quero citar, têm tido lucros fabulosos, sem que isso tenha vindo em melhoria dos operá­rios que a elas servem.

 

Diz esse senhor Franco que, se houver a regulamentação da exportação, dezenas de milhares de indivíduos, irão para a miséria. Pergunto eu agora; o que eles têm lucrado com os dividendos fabulosos que vocês têm tido?

 

Os salários não aumentaram, enquanto todas as utilidades necessárias à vida sobem sempre de preço.

 

Se o Franco da Associação Comercial conhecesse alguma coisa, tivesse estudos, eu discutiria com ele a questão da propriedade.

 

Mas, ao que parece, Franco só conhece a propriedade do açúcar; e eu ainda não sou “judeu” do açúcar.

 

Franco fala mal de Leroy-Beaulieu; mas, se o tivesse lido, e também o Bastiat, todos os dois iriam a seu favor.

 

Eu não quero ensinar coisas a Franco que me quer matar à fome, nem mesmo ao Pereira Lima, que quase é meu colega.

 

Desejo simplesmente dizer-lhes que tomem cuidado; que não é possível estar a abusar da paciência de nós todos, não é só dos operários aos quais não adulo, mas dos pequenos burgueses como eu, que receberam mais instrução do que to­dos os “francos” e não admitem esses insultos de tirano, tirano do comércio, da agiotagem, da pirataria com que vocês querem saquear o mundo.

 

Brás Cubas, Rio, 4-7-1918.

 

 

 

O CLUBE DE ENGENHARIA

 

 

 

Quem passa na Avenida, à tarde, ali, no canto dela com a Rua Sete de Setembro, encontra um portão largo, que, em arquitetura, tem um nome especial e duro, cheio de velhos gamenhos, derretidos em sorrisos para as mulheres que passam. Esses velhos aos quais se juntam alguns moços, ainda mais gamenhos, são engenheiros ou coisa parecida, e o lugar, a casa, o portão – tudo isso é o Clube de Engenharia.

 

É uma instituição ainda pior do que a Associação Comercial. E nela que se fazem, se ultimam, se homologam as maiores vergonhas administrativas do Brasil.

 

Não há judeu, cavador internacional que não lhe receba o       patrocínio.

 

Têm eles sempre a seu dispor o prestígio do clube para dizer que a concessão que pedem, é maravilhosa, para o progresso do Brasil; que o nosso país vai ganhar muito com isto e que nós devemos fomentar a indústria particular. Mas, os favores que recebem, os privilégios, as apólices de juro-ouro, tudo o que pode onerar à totalidade da nação, não diz o clube. Precisamos recompensar o capital do... proteger os judeus.

 

O Teixeira Soares fala; o elegante Carlos Sampaio, que, de professor de Perspectiva e Sombras, passou a ser sabido no Renleaux da Mecánica Aplicada, deita um discurso com ares literários; o Galvão, um soneto bem idiota e o hebreu re­cebe a concessão e eles... nada.

 

Conheço bem esse pessoal de engenheiros. Eles são completamente indignos de semelhante titulo. São puros niveladores e levantadores de plantas – agrimensores.

 

O primeiro cuidado que têm os hábeis, é se fazerem antes da Escola Politécnica, disto ou daquilo. Há lá lugares para todos os gostos e a questão é escolher. Depois de len­tes, com o prestígio que lhes dá a posição oficial, se mancomunam com a judiaria internacional e ei-los cheios de brilho, de dinheiro e de valor.

 

Um professor de Química Industrial, é logo feito diretor de banco e erra bravamente na comparação e frações ordinárias, quando se trata de saber se o cambio deve ficar mais baixo ou mais alto. Posso citar o nome...

 

Um outro de Zootecnia é feito presidente da companhia de obras de um porto de Mar de Espanha, e logo que vê um escafandro, assusta-se.

 

Mas eles todos, graças à Cabala crematística do clube, vão adquirindo fortuna, posições, sem que entendam nada daquilo que dirigem ou fingem presidir.

 

O clube, como todos os clubes, foi feito para isto; e não há idiota que se forme em engenharia e disponha de algum dinheiro que não entre para ele imediatamente.

 

A nossa época não é das grandes e fortes iniciativas indi­viduais; a nossa época é das associações, dos clubes, dos tí­tulos, das subscrições entre medíocres para se valorizarem.

 

Ninguém quer se fazer por si, ninguém quer se bater em pessoa; todos querem um ... Clube de Engenharia.

 

Se pudessem saber o mal que semelhante associação tem feito ao Brasil; se soubessem de quantos crimes de lesa-comunhão ela é responsável, todos iriam à porta daquele casarão e correriam aqueles velhos gamenhos à batata. Basta dizer que foi ela quem aconselhou o Governo a encampar a antiga “Melhoramentos”, hoje “Auxiliar”, por não sei quantos mil contos, sob o pretexto de que ia fazer concorrência à Central.

 

Há anos que ela é a Central; e, apesar de estarem sob a mesma direção, uma não auxilia em nada à outra. Não podia, portanto, fazer concorrência...

 

A “Central” continua a ser a Central; e a antiga “Melhoramentos”, uma estradinha muito vagabunda. Era-o mais quando o governo a encampou e há a esse respeito uma reportagem excelente, no Jornal do Comércio, que o senhor Frontin foi obrigado a contestar. Tenho as duas coisas.

 

Possuo no Clube de Engenharia, amigos; mas, sempre hei de protestar contra essa mania de clubes, de academias e associações, de inteligência. As opiniões sobre toda a matéria intelectual, não podem ser coletivas. A opinião é individual. É por isso que escrevo isto. E quando aqueles velhos ga­menhos da porta do Clube de Engenharia, dessa engenharia de que eles fazem parte e com a qual conseguiram fazer desabar-lhes o edifício duas ou mais vezes, lerem isto e ri­rem-se, eu lhes direi que: Rira mieux qui rira le dernier.

 

N.B. – O autor atende todas as respostas.

 

Brás Cubas, Rio, 11-7-1918.

 

 

 

SOBRE O FOOTBALL

 

 

 

Nunca foi do meu gosto o que chamam sport, esporte ou desporto; mas quando passo longos dias em casa, dá-me na cisma, devido, certamente à reclusão a que me imponho volun­tariamente, ler as notícias esportivas, pois leio os jornais de cabo a rabo.

 

Nestes últimos dias, todas as notícias sobre um encontro entre jogadores de football daqui e de São Paulo, não me escaparam. Em começo, quando toparam meus olhos com os títulos espalhafatosos, sorri de mim para mim, pensando: estes meninos fazem tanto barulho por tão pouca coisa? Much ado about nothing... Mas, logo ao começo da leitura tive o espanto de dar com este solene período:

 

“As acusações levantadas, então, por certa parte da imprensa paulista – manifestações que estamos já agora dispostos a esquecer, mas que não podemos deixar de rememorar – contra a competência e a honestidade do árbitro que ser­viu naquela partida, atribuindo à obra sua a vitória alcançada por nós, preparou o espírito popular na ânsia de uma prova provada de que, com este ou aquele juiz, os jogadores cariocas estão à altura dos seus valorosos êmulos paulistas e são capazes de vencê-los.”

 

Diabo! A coisa é assim tão séria? Pois um puro divertimento é capaz de inspirar um período tão gravemente apai­xonado a um escritor?

 

Eu sabia, entretanto, pela leitura de Jules Huret, que o famoso match anual entre as universidades de Harvard e Yale, nos Estados Unidos, é uma verdadeira batalha, em que não faltam, no séquito das duas equipes, médicos e ambulâncias, tendo havido, por vezes, mortos, e, sempre, feridos. Sabia, porém, por sua vez, o que é o ginásio da primeira, verdadeiro sanatório de torturas físicas; que o jogo de lá é dife­rente do usado aqui, mais brutal, por exigir o temperamento já de si brutal do americano em divertimentos ainda mais brutais do que eles são. Mas nós?...

 

Reatei a leitura, dizendo cá com os meus botões: isto é exceção, pois não acredito que um jogo de bola e, sobretudo jogado com os pés, seja capaz de inspirar paixões e ódios. Mas, não senhor! A coisa era a sério e o narrador da partida, mais adiante, já falava em armas. Puro front! Vejam só este período:

 

“As nossas armas, neste momento, são, pois, as da defesa, e da defesa mais legítima, respeitável, mais nobre possível porque ela assenta numa demonstração pública, esperada com cerca de trinta dias de paciência.”

 

Não conheço os antecedentes da questão; não quero mesmo conhece-lo; mas não vá acontecer que simples disputas de um inocente divertimento causem tamanhas desinteligên­cias entre as partes que venham a envolver os neutros ou mesmo os indiferentes, como eu, que sou carioca, mas não entendo de football. Acabei a leitura da cabeça e fiquei mais satisfeito. Tinha ela um tom menos apaixonado; tinha o ar dos finais das clássicas discussões jornalísticas sobre arrendamentos ou concessões de estradas de ferro e outras medidas da mais pura honestidade administrativa. Falava na “dura e bem merecida lição para certos jornalistas que não compreendem o espírito que deve mover as suas penas que malbaratam a honra alheia”, etc., etc.

 

Continuei a ler a descrição do jogo, mas não entendi nada. Parecia-me todo aquilo escrito em inglês e não estava disposto a ir à estante, tirar o Valdez e voltar aos meus doces tempos dos “significados”. Eram só backs, forwards, kicks, corners; mas havia um “chutada”, que eu achei engraçado. Está aí uma palavra anglo-lusa. Não é de admirar, pois, desde muito, Portugal anda amarrado à sorte da Inglaterra; e até já lhe deu muitas palavras, sobretudo termos de marinha: revolver vem de “revolver”, português, e commodoro de “comandante”.

 

Passei o dia, pensando que a coisa ficasse nisso; mas, no dia seguinte, ao abrir o mesmo jornal e ler as notícias esportivas, vi que não. A disputa continuava, não no ground; mas nas colunas jornalísticas.

 

O órgão de São Paulo, se bem me lembro, dizia que os cariocas não eram “cariocas”, eram hebreus, curdos, anamitas; enquanto os paulistas eram “paulistas”. Deus do céu! exclamei eu. Posso ser rebolo (minha bisavó era), cabinda, congo, moçambique, mas judeu – nunca! Nem com dois milhões de contos!

 

Esta minha mania de seguir coisas de football estava a fornecer-me tão estranhas sensações que resolvi abandoná-la. Deixei de ler as seções esportivas e passei para as mundanas e para as notícias de aniversário. Mas, parece, que havia algum gênio mau que queria, com as histórias de football, dar-me tenebrosas apreensões.

 

Há dias, graças à obsequiosidade de Benedito de Andrade, o valente redator do Parafuso e não menos valente diretor da A Rolha, mandou-me uma coleção deste último semanário, pelo que já lhe agradeci do fundo d’alma.

 

Todos os dois magazines são de São Paulo, como sabem. Uma noite destas, relendo o número de 14 de julho, da Rolha, fui dar com a sua seção “esportiva”.

 

Tinha jurado não ler mais nada que tratasse de tais assuntos; mas a isso fui obrigado naquele número da Rolha porque vi o título da crônica – “Rio versus São Paulo”. Admirei-me! Pois se o encontro de que já tratei, foi nos pri­meiros dias deste mês, como é que o Baby já o noticia quase um mês antes? Li e vi tratar-se de outro de que nem ti­vera notícias, e isso é tanto assim de notar que o autor da crônica deixa entender que todos nós tínhamos os olhos vol­tados para ele. Leiam isto:

 

“Rio versus São Paulo – A Capital Federal está em festas. De vinte em vinte e quatro horas as fortalezas salvam, as bandas de música executam hinos festivos e nas diferentes sedes esportivas o champagne corre a rodo como se estivésse­mos festejando o último dia de guerra. Nas avenidas, praças, ruas e becos, homens já na casa dos cinquenta, matronas escondendo a primavera dos sessenta e crianças ainda mal de­sabituadas dos cueiros, só falam no grande acontecimento que encheu de júbilo um milhão e pouco de almas nascidas e domiciliadas na encantadora Sebastianópolis: a vitória do scratch carioca... Nas redações, os cronistas esportivos já não dormem há uma semana: são os cumprimentos, as telefonadas, os telegramas, os convites, para almoços e para jantares. Tudo isso... porque depois de dezoito anos de lutas o famoso scratch da Metropolitana conseguiu a sua terceira vitória.”

 

Meu caro Baby: isto deve ser Bizâncio, no tempo de Justiniano, em que uma partida de circo, com os seus azuis e verdes”, punha em perigo o império; mas não o Rio de Janeiro. Se assim fosse, se as partidas de football entre vocês de lá e nós daqui, apaixonassem tanto um lado como o outro, o que podia haver era uma guerra civil; mas, se vier, felizmente, será só nos jornais e, nos jornais, nas seções esportivas, que só são lidas pelos próprios jogadores de bola adeptos de outros divertimentos brutais, mas quase infantis e sem al­cance, graças a Deus; dessa maneira, estamos livres de uma formidável guerra de secessão, por causa do football!

 

Brás Cubas, Rio, 15-8-1918.

 

 

 

VELHO APEDIDOS E VELHOS ANÚNCIOS

 

 

 

É sempre de interesse achar-se, por este ou aquele modo, um velho Jornal do Comércio, mesmo um retalho velho dele. Imagino como o Félix Pacheco, que lhe está escrevendo a história, há de ter tido, com a sua paciência, a sua sagacidade e a sua penetração de artista e historiador, deliciosos momentos ao encontrar tal ou qual artigo, notícias ou mesmo um simples anúncio! Espero bem viver até 1921, para ler a história do velho órgão que o seu atual diretor está escre­vendo. Pelo que mostrou o ano passado, pelo que disse das origens do quase centenário quotidiano, nós podemos calcular que coisa interessante não vai ser a vida passada do Jornal narrada por Félix Pacheco.

 

Acudiu-me isso, porque, há meses, um bom velho da minha vizinhança, apaixonado pela leitura de jornais, deu-me uma porção de retalhos de vários jornais e de épocas diversas. Entre eles, havia muitos folhetins do Jornal que conta­vam quarenta anos e mais.

 

Esse bom velho, “Seu” Chiquinho, como era conhecido familiarmente, parece que me deu tais relíquias em testamento, pois veio a morrer pouco depois, no Hospital da Ordem Terceira, isolado dos seus, no meio de enfermeiras indiferen­tes e, sem, ao menos, ter a presença dos seus queridos fo­lhetins e retalhos de jornais que ele colecionava a mais de quarenta anos

 

Não pude descobrir quem eram os autores dos folhetins que ele me ofertou, pois estavam todos assinados com pseudônimos. Naquele tempo, conforme sei, bem ou mal, pela tradição pouco autorizada, os homens mais da moda nesse ne­gócio de folhetins eram: Augusto de Castro, Zaluar, César Muzzio e, creio, o próprio velho Luís de Castro.

 

Tentei ler os que recebi, mas não pude. Não há nada que envelheça tão depressa como o que chamamos ainda nos jornais – humorismo, leveza, graça, etc. Todos os retalhos que recebi deviam ter no seu tempo essas pretensões e como tal serem estimados, mas eu os achei soporíferos. Não sei o que tem o tal gênero folhetim de tão estritamente atual, do momento, do minuto em que é escrito que, passado esse fugace instante, rançam logo e perdem todo o sabor. Considerem que eu já fiz, faço e farei folhetins... Mas...

 

É gênero que procura sempre o fato ou o acontecimento mais em voga, aquele que mais interessa a futilidade de todos e deve ser cheio de alusões às pessoas e coisas efêmeras, para que o sucesso o bafeje. Não podem os rodapés prescin­dir do vulgar dia a dia, não se podem alçar para mais adiante, nem para mais atrás. É ali! É o elefante do Franck Brown ou a chegada da missão do reino de Sião.

 

Quem, daqui a trinta anos, se lembrará do tal elefante do grande Hu- Hep-Tu, embaixador de um reino da Indochina? Ninguém terá mais interesse por tais curiosidades e muito menos pelas reflexões que eles procuram neste ou naquele.

 

Ainda quando os seus autores vivem, nós insensivelmente ligamos os folhetins a eles e podemos lê-los; mas, mortos como estavam os autores daqueles que me deram, e quase esquecidos, os rodapés de há quarenta anos não tinham mais nenhuma sedução e eram impenetráveis.

 

Entretanto, a dádiva do velho “Seu” Chiquinho não deixou de dar-me prazer. E sabem onde o fui encontrar? Nos apedidos e anúncios que havia nas costas dos humorados, dos velhos e famosos jornalistas daqueles anos.

 

Sempre gostei dos apedidos. Dizem ser coisa peculiar ao Brasil, especialmente ao Rio de Janeiro. Seja usança boa ou má, o certo é que é coisa original, por isso gosto deles.

 

Desejei muito encontrar nos retalhos de que venho tratando, algum do famoso “Mal das Vinhas” ou do não menos famoso Príncipe Ubá II, d’África.

 

Quisera muito ver um deste último, porquanto, segundo me contaram, não se pode imaginar coisa mais sem sentido e estapafúrdia. O seu processo de publicá-los é digno de lembrança e registro. Ele, o Príncipe Ubá, escrevia tiras sobre tiras e, depois, colocava-as uma em seguida à outra. Fazia uma espécie de bobina e levava o rolo ao balcão do Jornal. “Quanto é?” perguntava. O empregado calculava e respondia, suponhamos: “Quarenta mil réis”. O príncipe que não tinha esse dinheiro nas algibeiras, tratava de diminuir a “extensão” do artigo. Pedia uma tesoura, cortava uma boa parte, assi­nava de novo e de novo perguntava: “Quando é?” “Vinte e cinco mil-réis”, respondiam. Não possuindo o fidalgo africano semelhante quantia, amputava a “tripa” mais outra vez, uma outra terceira, até o preço do “a pedido” chegar aos quatro ou cinco mil-réis que tinha nos bolsos. Apunha a assinatura, sem se incomodar com o sentido, com a conclusão a que queria chegar com o seu escrito, e lá se ia para o Largo da Sé contar prosas às pretas minas que o respeitavam e veneravam, sempre de bengala e chapéu-de-chuva e solenemente coberto com a sua cartola cor de cinza.

 

Não encontrei nenhum fragmento desses dois afamados colaboradores da original seção do Jornal; mas deparei – alguma coisa interessante.

 

Na edição de 11 de julho de 1879, há um apedido que tem esse sugestivo título: “Uma excelentíssima touca”. Na gíria do tempo, “touca” era bebedeira. Começava assim:

 

“Sábado, à noite, já por tarde, entrou pela confeitaria de a Rua Gonçalves Dias, alguém que possui a ‘rara virtude’ de andar abrigado nestes tempos de inverno.”

 

Dizia mais adiante, referindo-se a esse alguém: “... o caixeiro esquivou-se a servir o ‘potentado’. Levando-o à porta, que logo cuidadosamente fechou sobre os excelentíssimos calcanhares do ‘alegre’ vulto da situação.”

 

Terminando pedia o imperador carregasse mais o seu luto e assinava: “A nação envergonhada”.

 

Quem seria o da “touca”? Em todo o caso pode-se dizer que, se de todo os costumes não mudaram, hoje não haveria quem se lembrasse dos apedidos, para tratar de semelhante coisa. Ainda bem...

 

Há um outro apedido que tem por título – “Um camas”. E de 12 de outubro do mesmo ano que o antecedente.

 

O início é este:

 

“Só anda cícero e miserável que pela segunda vez vem com o seu debique”, etc., etc.

 

Este é do gênero feroz e acaba com o seguinte desafio bem “guaiamu”: “Eu estou defronte de Santa Efigênia, já vistes, caveira.”

 

Bem juntinho a esse apedido, “nagoa” ou “santa-rita”, desse “solicitador” capoeira, há este outro cheio de delicadeza e blandícia. Ironia da paginação... Vejam só:

 

“As experiências com o curare. – Acreditando na imparcialidade do Senhor doutor Nuno de Andrade, julgo que a melhor e mais proveitosa maneira de discutir é com os fatos em presença; por isso convido Sua Senhoria para vir ao museu verificá-los e discuti-los, certo de que achará o mais cordial acolhimento da minha parte e do doutor Jobert. Doutor Lacerda Filho.”

 

Abre isto, disse eu cá com os meus botões; este doutor Nuno de Andrade tem tido muitos “avatares”! Sabia-o financeiro, economista; em 1878, ele se dava a discussões toxico­lógicas ou coisas semelhante; quem sabe se ele não é mesmo médico?

 

Procurei Os Fastos do Museu Nacional, do doutor J. B. de Lacerda, para ver se me punha ao par da questão; mas nada encontrei; a não ser que o doutor Jobert era um boê­mio. Isto diz tanta coisa que...

 

Contudo, neles, vem narrada uma anedota muito curiosa que, apesar de nada ter com o caso, não me escuso ao prazer de repeti-la aqui. Agassiz, em 1864, com a presença do imperador, fez uma conferência, tendo tido uma assistência imensa e até de damas de sociedade que, naquele tempo, se in­teressavam pela glaciação, pelos blocos erráticos e as moraines alpinas. Terminada a conferência, o grande naturalista pediu aos circunstantes que indicassem as suas dúvidas, pois ele as explanaria.

 

Nisto levanta-se um doutor Carvalho, professor de terapêutica da Faculdade de Medicina, e, desabridamente, começa a dizer que aquilo tudo eram velharias; ele sabia todas aque­las coisas, etc., etc.

 

O imperador retira-se e é seguido pelos outros convidados. Carvalho, porém, continua a esbravejar.

 

Diz o senhor doutor Lacerda que o terapeuta Carvalho pregava do alto de sua cátedra que o Pão de Açúcar tinha um sistema nervoso ganglionário, também impressões e senti­mentos que ele não podia externar; e outras coisas mais curiosas.

 

Ao que parece, este doutor Carvalho nunca empregou nos outros a terapêutica que ele ensinava. É bem de crer que, em um ano se o fizesse, ele teria despovoado o Rio de Ja­neiro...

 

E se são assim cômicos e sugestivos os apedidos que encontrei nos retalhos do Jornal que me foram dados, não são muito menos os anúncios que neles achei.

 

Guardei os que tratavam de escravos. Vejamos. Secundino da Cunha, um leiloeiro do tempo, devidamente autori­zado, em 20 de janeiro de 1868, anunciava vender, além de móveis, piano, jóias e trem de cozinha, quinze escravos “de ambos os sexos, todos boas peças”.

 

Chamava especialmente “a atenção para os escravos, por ser esta uma ocasião que raras vezes aparece, e mesmo sendo reconhecida a probidade de todos os escravos do Senhor Freitas, é a razão por que são recomendados, em todos eles tem mucamas prendadas, cozinheiras, oficiais de oficio e ganha­dores”.

 

O grifo é meu; mas tudo, inclusive a redação, é do anúncio. Não parece que isto se passou há dois mil anos? Pois não foi. Uma tal licitação se efetuou, em 29 de 1aneiro de 1868, há cinquenta anos e meses, na cidade do Rio de Ja­neiro, quarta-feira, na residência do senhor Tomás Francisco de Freitas, à Rua dos Andradas 48, sobrado. O senhor Freitas ia para a Europa tratar de sua saúde. Deus o tenha em sua santa paz!

 

Há outro semelhante, mas o leiloeiro é um senhor A. F. Casais. No mesmo mês e ano, porém, a 21, ao correr do martelo, “venderia diversos escravos, com ofícios e prendas”, etc., etc.

 

Meses antes, em 10 de novembro do ano anterior, na Rua da Alfândega nº 100, sobrado, alguém comprava escra­vos, de dezoito a trinta e seis anos, para serem libertos e assentar praça. Estávamos em plena guerra do Paraguai; e os patriotas que não queriam ir lá morrer, davam substitutos que iam combater o Lopez, por eles.

 

O substituto era sempre encontrado em um escravo, liberto provisoriamente, o homem do anúncio fazia um estoque deles, como se faz hoje com o açúcar, o arroz, etc., e espe­rava a alta de preço... Era um peculiar profit de guerre daquela época. Cada uma tem o seu...

 

Enfim, a nossa guerra ainda libertou; mas, os americanos que declararam guerra ao México, em 1837, arrebataram-lhe o Texas, e, nele, restabeleceram a escravatura que já havia sido abolida, não será muito pior? Não espero resposta.

 

Volto para os meus papéis velhos... Até já.

 

Brás Cubas, Rio, 22-8-1918.

 

 

 

COMO BUDISTAS...

 

 

 

Tenho tanto que escrever, sobre coisas tão interessantes, que, agora, o tratar dessa notícia de polícia de São Paulo, eu me arrependo. Tinha de falar do Sol de Portugal. do José Vieira; tinha de falar desse extraordinário discurso do senhor doutor Ildefonso Albano, deputado federal.

 

Há tanta coisa tão interessante, num e noutro livro, que eu me reservo para dizer tudo o que de bom encontrei neles, mais tarde.

 

O que me absorve agora o pensamento é este caso dessa pobre moça que matou o marido em São Paulo. É essa moça que, como todas as moças, não tem experiência da vida e são levadas a julgá-la da maneira mais infame que os charlatães a receitam.

 

Ela pensou que seu marido fosse um homem; ele, quando ela o conheceu direito, não passava de um caçador de dotes.

 

Todos nós, inclusive eu, malgré tout, estamos arriscados a casar com “moça rica”; mas de que nós não estamos ameaçados é de sermos maus para essas moças.

 

O que há nisto tudo é a combinação do nosso espírito muito brasileiro de acreditar que o “doutor” é tudo e a crença universal do dinheiro.

 

Essa moça não se casaria com esse moço, se não o visse armado de um “anel”; ela não daria seu corpo se a ambiência social não dissesse que, com a tal carta, ele valia muitas coisas.

 

E ele não iria procurá-la, se não estivesse armado do que a bobagem dos jornais chama “pergaminho”.

 

Houve um mútuo engano. Ele procurou enganar a mulher com o título que o Belisário Pena diz ser científico; ela procurou enganá-lo com aquilo com que os homens enrique­cem.

 

Mas, todos os dois se esqueceram que entre mulher e marido não há furtos. Está no Código Penal.

 

Entre os dois só deve haver a máxima lealdade. Todos os dois devem entrar na sociedade conjugal com a máxima boa vontade e admiração um pelo outro. O que não pode continuar, é que se faça da mulher, escada para subir.

 

Nós temos direito de ter ambições. Eu mesmo quero morrer em Veneza, para ver se ainda lá encontro a minha grande paixão – Desdêmona. O que eu não posso compreender, é que um homem ambicioso, transforme a sua mulher, o seu maior amigo, a sua própria filha, em instrumento da sua am­bição.

 

Todos esses entes são sagrados; para todos eles, o nosso amor e a nossa piedade devem ser coisa muito pouca.

 

Quando a gente se quer bater, tem muitos homens por diante; e não precisa procurá-los em sua própria casa.

 

A vida, apesar de não poder ser uma felicidade, deve ser uma coisa heróica.

 

E não há homem que tenha esse sentimento de heroísmo que não o deseje encontrar nas mulheres escolhidas.

 

A mulher não é instrumento de ambição; a mulher é um consolo e um conforto para os nossos vícios e as nossas des­graças.

 

Já fui muitas vezes jurado; já sofri muito por causa disso; mas, se eu fosse escolhido, para o júri de da .Julieta Melilo, eu a absolveria.

 

Absolvia, minha senhora, porque não gosto desses seres cheios de títulos, que não amam a mulher a quem eles de­viam amor.

 

Como eu sou budista, o que eu quero é o esquecimento da vida; e não mais tratarei de semelhante caso.

 

A.B.C., Rio, 31-8-1918.

 

 

 

O CHEFE POLÍTICO E O SEU ELEITOR

 

 

 

Seu doutor, eu vim incomodá-lo; mas precisava muito ficar bem com minha consciência.

 

– Que há?

 

– Eu não voto no doutor Rui.

 

– Como você vai votar no Epitácio ?

 

– Nem num nem noutro.

 

– Você está ficando indisciplinado; não é mais o correligionário disciplinado de antigamente. Que diabo foi isso?

 

– Eu não tenho sido companheiro para você?

 

– Sim senhor. Devo ao doutor todos os obséquios desta vida, pelo que lhe sou muito agradecido. Foi o doutor que abaixo de Deus, salvou a Marocas, minha mulher, sem cobrar nada... Quando foi o enterro do meu filho Dodoca, o doutor me ajudou muito...

 

– Isso tudo não vem ao caso. Falemos...

 

– Não; vem sim, doutor! Quero que o senhor não pense que sou mal agradecido. Se estou empregado, devo ao dou­tor e...

 

– Se você continuasse no partido, podia subir ou nós ar­ranjávamos uma equiparação ou mesmo um aumento de venci­mentos; mas...

 

– Continuo no partido, doutor...

 

– Como? Você não vota conosco...

 

– Mas não voto no outro.

 

– É o mesmo.

 

– Não é doutor.

 

—É sim Felício! Em política, quem não é por mim é contra mim. Você sabe disso não é?

 

– É e não é. Não estou contra o senhor não senhor! É que me deu uma coisa cá dentro e eu...

 

– Que foi que deu em você?

 

– Eu me explico, tanto mais que tenho pensado muito no caso. O senhor quer me ouvir?

 

– Ouço, mas você não demora muito.

 

– Não demoro não senhor.

 

– Conte lá a história.

 

– Vou contar. Trata-se – não é verdade? – de escolher o homem que vai governar isto tudo. Quero dizer que ele vai governar todos os brasileiros, inclusive eu.

 

– Daí?

 

– Espere doutor! Pensei, então, eu cá com os meus botões: vou escolher uma pessoa que deve mandar em mim, na minha mulher, nos meus filhos, na minha casa até – pre­ciso cuidado. Não é doutor?

 

– Mais ou menos, é, pois há a lei que ...

 

– Isto de lei é história. Quem governa é ele mesmo...

 

– Vamos adiante.

 

– Um homem que vai ter tanto poder sobre mim, sobre os meus e sobre as minhas coisas para ser escolhido por mim mesmo, deve ser meu conhecido velho. Voluntariamente pela minha própria vontade, vou escolher um dono para mim, e sendo assim o meu dever é estar inteirado do sujeito que é – não acha?

 

– Sim, não há dúvida. Mas você sabe bem quem é o Rui, penso eu.

 

– Conheço. É um homem muito inteligente...

 

– A maior glória do Brasil.

 

– É um grande talento.

 

– É um gênio.

 

– Sei de tudo isto doutor. Mas daí não posso concluir que ele possa mandar-me.

 

– Porque?

 

– Pode ser caprichoso, implicante ...

 

– Ora!

 

– Quer dizer que ele nunca me enxergará, não é?

 

– Não é bem isso...

 

– Ele pode não me enxergar, mas um dia enxerga outro por ele, e lá estou eu a braços com um homem de veneta.

 

– Não digo que ele seja...

 

– E o Epitácio?

 

– Esse ouço dizer que também é inteligente, doutor, tem sido muita coisa...

 

– Mas não é o Rui.

 

– Sei, doutor. Rui Barbosa não tem igual.

 

– Mas porque você não vota nele?

 

– Não voto porque não o conheço intimamente, de perto, como já disse ao senhor. Antigamente...

 

– Você não pensava assim – não é?

 

– É verdade; mas, de uns tempos a esta parte, dei em pensar.

 

– Faz mal. O partido...

 

– Não falo mal do partido. Estou sempre com ele, mas não posso por meu próprio gosto dar sobre mim tanta força a um homem, de que eu não conheço o gênio muito bem.

 

– Mas, se é assim, você terá pouco que escolher a não ser, nós colegas e nós amigos de você.

 

– Entre esses eu não escolho, porque não vejo nenhum que tenha as luzes suficientes; mas tenho outros conhecidos, entre os quais posso procurar a pessoa para me governar, guiar e aconselhar.

 

– Quem é?

 

– É o doutor.

 

– Eu?

 

– Sim, é o senhor.

 

– Mas, eu mesmo? Ora...

 

– É a única pessoa de hoje que vejo nas condições e que conheço. O senhor é do partido, e votando no senhor, não vou contra ele.

 

– De forma que você...

 

– Voto no senhor, para presidente da república.

 

– É voto perdido...

 

– Não tem nada; mas voto de acordo com o que penso. Parece que sigo o que está no manifesto assinado pelo senhor e outros. “Guiados pela nossa consciência e obedecendo o dever de todo republicano de consultá-la”...

 

– Chega Felício.

 

– Não é isso?

 

– É mas você deve concordar que um eleitor arregimentado tem de obedecer ao chefe.

 

– Sei, mas isto é quando se trata de um deputado ou senador, mas para presidente, que tem todos os trunfos na mão, a coisa é outra. É o que penso. Demais...

 

– Você está com teorias estranhas, subversivas...

 

– Não tenho teoria alguma, doutor. Consultei a minha consciência e a minha gratidão, e voto no senhor.

 

– Mas... já sou deputado.

 

– Que tem? Sobe mais um posto, ganha mais...

 

– Não preciso, já ganho na clínica muito.

 

– Com o lugar de deputado? Então pra que quis ir para a Câmara?

 

– Para nada.

 

– Doutor, eu decididamente não compreendo nada disto. Essa política é mesmo igual aos mistérios dos padres... Passe bem.

 

O Malho, Rio, 1-4-1919.

 

 

 

QUEREIS ENCONTRAR MARIDO? – APRENDEI!...

 

 

 

A Livraria Schetino, desta cidade, há tempos, editou um pequeno opúsculo de doze páginas, tipo graúdo, entrelinhado, com este soberbo título: Quereis encontrar Mari­do? Aprendei!...

 

É autor do livro uma senhora, da . Diana D’Alteno, que, a seguir a regra geral, nunca encontrou o seu. Digo isto porque, na quase totalidade, todas as pessoas que se propõem a fornecer tal coisa ou outra aos seus semelhantes, não a possuem. Haja vista os feiticeiros, negromantes, cartomantes, adivinhos, hierofantes, que estão sempre prontos a dar fortuna aos outros, mas que, entretanto, não têm níquel, pois precisam de espórtulas e gratificações para os seus generosos serviços.

 

Da . Diana D’Alteno começa o seu interessante opúsculo assim, deste modo, que transcrevo tal e qual: “Gentis e amáveis moças solteiras. É a vós que dedico estes meus escritos. O motivo que me induz a traçar estas

 

linhas é um dos mais vitais, e quiçá dos mais graves.”

 

Depois desta invocação às suas caras leitoras, a autora entra de pronto no “argumento”.

 

Sabem qual é este argumento? Pois fale ela. Eis as suas palavras: Permiti, pois, que vos fale disso como coisa nova.

 

“Se trata do terrível dépeuplement!, a diminuição progressiva do crescimentos, que poderá um dia ser causa de tremendos conflitos entre as nações, aproveitando-se umas sobre as outras de maior a menor número de combatentes.”

 

Vejam os senhores só como esta senhora está adiantada em matéria de previsão histórica e como a sua sociologia é muito obstétrica e ginecológica.

 

O despovoamento pode ser um dia causa de tremendos conflitos, fenômeno terrível que ela qualifica mais adiante:”espada de Dâmocles suspensa sobre a cabeça de boa parte do gênero humano”

 

 A senhora D’Alteno, ao acabar de fazer tão curiosa descoberta, não fica satisfeita. Parece que o seu gênio é como a atividade catequizadora de São Francisco Xavier; quer ir mais longe, mais longe. Amplius!

 

Então toma a palavra pela segunda vez e descobre a causa. Mais uma vez passo para aqui as palavras da ilustre socióloga:

 

“Pela segunda vez, peço permissão de tomar a palavra e explicar sem ambages qual seja esse motivo: é a diminuição dos matrimônios. É o caso de dizer: ‘a pequenas causas, grandes efeitos’ e na verdade, os matrimônios se tornam cada vez mais raros e mais difíceis.”

 

Peço licença para observar à ilustre senhora coisas simples. Antes, tenho a dizer que nada entendo dessas coisas sociais, mesmo em se tratando de casamentos. Não é ativi­dade da minha seara intelectual, mas já foi dito que cada qual tem o direito de ter uma opinião e de dize-la. Eu julgo que o casamento nada tem com o despovoamento. Pode haver multiplicação da humanidade sem ele, como pode ha­ver com ele. O “crescei e multiplicai-vos” não subentende casamento algum. Há muitas espécies animais que obedecem ao preceito bíblico e prescindem de semelhante cerimônia. Por acaso entre os nossos animais domésticos que crescem e se multiplicam, apesar das pestes, das facas das cozinheiras, do choupo, etc., há pastores e sacerdotes encarregados de realizar casamentos? Não.

 

Estou bem certo que a autora não se zangará comigo, apesar do seu nome que, entretanto, não é também propício aos destinos do seu singular folheto. Mas... Afirma da . Diana que “o homem (o grifo é dela) tem medo do matri­mônio. Um sacro terror se apoderou dele a tal palavra”.

 

Ainda uma vez peço licença à ilustre autora para discordar. O “homem” não tem medo do matrimônio; o “homem” o quer sempre. A culpa é da mulher que escolhe muito. Se ela casasse com o primeiro que encontrasse, a tal história não se daria. Eu, por exemplo, atiro ao terreiro um grão de milho; se não houver um galináceo que o coma, ele germina logo. Agora, se ele quiser terra especial ou a terra quiser um grão especial, a coisa é outra. Vai ver a ilustre autora como me vai dar razão nas suas penúltimas palavras que são estas:

 

“Permanecei ‘mulher’, se quereis um dia ser mãe – a ‘Maternidade!’ é esta a maior vitória que glorifica a mulher; é esta a sua grandiosa obra.”

 

Não falaria eu com tanto calor, mas diria a mesma coisa com simplicidade, chãmente. Vossa excelência, porém, está no seu direito, apesar de Diana, de faze-lo da forma que o fez.

 

E essas suas palavras vêm a pêlo agora quando várias senhoritas se assanham para entrar para a Estrada de Ferro, para o Tesouro, como funcionárias públicas.

 

Há nisto vários erros, uns de ordem política, outros de ordem social.

 

Os de ordem política consistem em permitir que essas moças se inscrevam em concurso para aspirar um cargo públi­co, quando a lei não permite que elas o exerçam.

 

Não sou inimigo das mulheres, mas quero que a lei seja respeitada, para sentir que ela me garante.

 

Nos países em que se há permitido que as mulheres exerçam cargos públicos, os respectivos parlamentos têm votado leis especiais nesse sentido. Aqui, não. Qualquer ministro, qualquer diretor se julga no direito de decidir sobre matéria tão delicada. É um abuso contra o qual eu já protestei e protesto.

 

Quando era ministro Joaquim Murtinho – da Fazenda – é preciso saber – uma moça requereu inscrever-se em concurso para o Tesouro. Sabem o que ele fez, depois de ouvir as repartições competentes? Indeferiu o pedido, por não haver lei que tal autorizasse.

 

Nos Telégrafos e Correios, as moças têm acesso, porque os respectivos regulamentos – autorizados pelo congresso – permitem. Nas outras repartições, não; é abuso.

 

Mulher não é, no nosso direito, cidadão.

 

Está sempre em estado de menoridade. Por aí iria longe; por isso convém parar.

 

Spencer, na Introdução à Ciência Social observa que desde que o serviço militar obrigatório foi instituído em França, para todos os rapazes entre dezoito e vinte e um anos, o que obrigou as raparigas a virem a fazer os serviços que compe­tiam àqueles, as exigências de altura, talhe, etc., para os re­crutas foram pouco a pouco diminuindo; o trabalho da mulher tinha influído na geração...

 

Krafft-Ebbing diz, não sei onde, que a profissão da mulher é o casamento; por isso cumprimento da . Diana D’An­teno por ter escrito o seu interessante opúsculo: Quereis’ encontrar Marido? – Aprendei!

 

Hoje, Rio, 26-6-1919

 

 

 

A CASA ÚNICA

 

 

 

– Como foi então, a história?

 

– Ouve.

 

– Estou ouvindo.

 

– Eu me formei muito cedo, antes dos vinte e dois anos, como tu sabes. Logo que me formei, graças ao meu Lugar de praticante dos Correios e o rendimento de algumas apólices, pude alugar um escritório, comprar um anel simbólico, um guarda-chuva de castão de ouro, uma pasta de couro, enfim todo o arreamento de um grande advogado. Tive a imagem disso, antes da sensação... Passei a trabalhar nos Correios à noite; e, durante o dia, logo pelas primeiras horas vinha para a cidade, ia ao escritório, onde tinha um empre­gado de sociedade com o vizinho. Sentava-me então solenemente à secretária e esperava os clientes. Não vinham. Eu ficava uma, ou duas horas a folhear uns manuais, aborrecia-me e saía, tendo antes o cuidado de dizer ao pequeno, com muita ênfase: “Se vier alguém procurar-me, diga que fui al­moçar e já volto.”

 

– Ias almoçar mesmo?

 

– Ia mesmo. Ainda havia dinheiro, não tinha torrado as apólices. Saía com pasta, fraque, guarda-chuva, etc., e ia ao Pascoal tomar um aperitivo e...

 

– Foi pena eu não te conhecer nesse tempo!

 

– Porque?

 

– Todos os dias te esperava, para pagares-me um tam­bém.

 

– Não fizeste falta.

 

               Como!

                

– Pois eu mesmo me encarreguei de travar relações com poetas, jornalistas e literatos e não havia dia em que não levasse um de reboque. Precisava da imprensa, para os meus planos...

 

– Que não soubeste executar.

 

– Vou te dizer porque.

 

– Estou ansioso pelo desfecho.

 

– Ia ao Pascoal com o Guedes, por exemplo, que hoje tem ou vai ter, cem mil-réis por mês que o Alves lhe dá, lá da sepultura. Começávamos a conversar eu, pasta, anel e guarda-chuva de cabo de ouro e outros apetrechos forenses e desandávamos a discorrer sobre negócios de versos, jornais e outras histórias correlativas.

 

– Foste sempre dado a estas coisas?

 

– Como todo mundo... Escrevi nas revistas de estudantes, fiz o discurso da turma; mas sempre tive medo dessas coisas de literatura.

 

– Porque?

 

– Porque? Por causa dos gramáticos que nunca se en­tendem.

 

– Mas os advogados?

 

– A coisa é mais escondida; não é tão...

 

– E quando vão para os apedidos?

 

– A crítica literária não intervém... Deixa-me contar a história com os diabos!

 

– Conta.

 

– Onde eu estava mesmo?

 

– Ias almoçar e encontravas o Guedes

 

—Bem. Muitas vezes, o Guedes seguia-me até o hotel e almoçávamos juntos. Em geral, porém, eu ia só. Almoçava, vinha tomar café fora, adquiria um charuto e lá ia eu, pasta, guarda-chuva de ouro, fraque, anel, etc., pela Rua do Ouvidor abaixo até a Rua do Carmo, onde tinha o escritório. Antes de entrar, perguntava precavidamente ao rapazote: José, veio alguém? Ao que ele respondia desconsoladamente: Ninguém, seu doutor. Entrava, descansava a pasta, etc., e esperava, mas...

 

– Como é que querias que viesse alguém, se não anun­ciavas?

 

– Não. Anunciei nos grandes jornais, durante muito tempo; e foi mesmo essa história de anúncios uma das causas de eu deixar a advocacia, porque...

 

– Como?

 

– Eu te conto. Tinha um camarada do colégio que fora sempre dado a esse negócio de revistas e jornais ... Era o Fontes... Um belo dia, apareceu-me ele no escritório e dis­se-me! – Castro, estou publicando uma revista – Os Suces­sos... – Não sei se tu conheces? “Não”, disse-lhe eu. Ele, o Fontes, abriu uma pasta igual à minha, e tirou de lá três números da tal revista. Folheei-os, achei-os bonitos, bem impressos, e enquanto isso o Fontes gabava os méritos de sua publicação. Perguntei-lhe com franqueza o que queria. “Pri­meiro, disse-me ele, a tua colaboração”...

 

– Colaboraste?

 

– Ouve. “Primeiro, disse-me Fontes, a tua colaboração; e, em seguida, que tu me dês um anúncio aqui, para esta seção – Momentos dos Advogados”. Pensei um instante e per­guntei-lhe quanto era. “Pouco; cinco mil-réis por numero” , res­pondeu-me ele. Autorizei e logo que o tal anúncio no Mo­mento do Fontes, apareceu, nunca mais o meu escritório ficou às moscas. A toda hora e a todo instante, lá aparecia um diretor, um secretário, ou um gerente de revista a pedir o meu anúncio. Fui autorizando, na persuasão de que atraís­sem clientes; mas não me surgiu nenhum.

 

– Não devias ter sido tão pródigo ... Quanto te custou essa maluquice?

 

– Em um ano, cerca de dois contos de réis. A minha pequena fortuna ia-se e eu não conseguia obter nem uma causa; entretanto, teimava em ser um grande advogado. Todos os dias eu, pasta, guarda-chuva de ouro, anel, fraque, etc. íamos ao fórum e nada obtínhamos. Travei no fórum conhecimento com um escrevente juramentado, o Carvalhais. Era um rapaz adamado, abrilhantado, com uns ares importantes, uma pasta igual à minha, variando de roupas todos os dias e fazendo a noce com a maior distinção. Quase sempre be­bíamos juntos e ele me dizia sempre: “Doutor, hei de lhe arranjar uma coisa boa”. “Pois bem, Carvalhais”, respondia-lhe eu. Um dia, ao chegar ao fórum, logo topei com o Carva­lhais, acompanhado de um sujeito rústico, branco, musculoso, curto, a quem me apresentou, como precisando dos meus serviços. “Pois não”, fiz eu muito contente. “Então”, respondeu o Carvalhais, “vamos todos ao tabelião”. Fomos. Lá, Carvalhais falou a um colega, que abriu um grande livro, e eu mais o cliente ficamos sentados à espera. Daí a pouco, fui chamado por Carvalhais. Assinei o tal livro, o cliente também, Carvalhais também. “Agora”, disse-me Carvalhais, “vamos até ao escritório do doutor, pois temos ainda o que fazer”. Assim fizemos. Em lá chegando, ele me deu três ou quatro papéis a assinar – o que fiz sem os ler.

 

– Homessa!

 

– Paciência filho; espera! Acabado o que, ele, o Carvalhais, me disse: “Doutor, não há serviço que não mereça paga”. Tirou do bolso seis notas de quinhentos mil-réis e me deu. Despediu-se amavelmente e foi-se com o meu cliente.

 

– Qual era a causa?

 

– Tu sabes?

 

– Não.

 

– Nem eu... No dia seguinte, fechei o escritório.

 

O Malho, Rio, 28-6-1919.

 

 

 

O EDIFÍCIO DA CRUZ VERMELHA

 

 

 

Nos últimos dias do mês passado, o Rio-Jornal deu-nos uma larga notícia sobre as coisas da Cruz Vermelha Brasileira. O começo da notícia é tão de lamúrias a ponto de pro­vocar lágrimas.

 

Diz e repete que essa sociedade humanitária “vive esque­cida, cinicamente alimentada pelo entusiasmo inarrefecível de diminuto grupo de patrícios, utopistas na condenação injustifi­cável de indivíduos acanhados no seu modo de ver.

 

“Ignorada, trabalhando em silêncio e cônscia de sua modéstia, pelo criminoso descaso que lhe votam os responsáveis, os espetaculosos promotores de festas de caridade em benefício dos infelizes europeus e quiçá a população em geral, ela, no cenário da vida da cidade, só surge nos transes difíceis e horríveis como os dolorosos e negros dias da pandemia gripal.”

 

Segundo me consta, essa história da Cruz Vermelha é destinada a socorrer feridos de guerra. Ora, o Brasil há muito tempo não se mete em guerra.

 

Sendo assim, como é então que querem que a nossa Cruz Vermelha seja conhecida? Não há de querer ela que, para se ostentar ao grande público, haja, de ano em ano, uma guerra com o Brasil. Longe, portanto, de se lastimar, a Cruz Vermelha deve exultar com a sua obscuridade!

 

Entretanto, ela não é assim tão total como diz o Rio-Jornal.

 

Há meses, houve lá uma eleição de diretoria. Dias antes, muitos mesmo, os apedidos dos jornais e outras seções vi­nham cheios dela. O eixo da disputa era ter o presidente mandado em missão ao Paraná e outros lugares uma parteira, como portadora de credenciais da associação. Sem cobras e lagartos e todos os leitores de jornais, que são o verdadeiro público do Rio de Janeiro, se não tinham notícia da “Cruz Vermelha”, vieram a tê-la com o escândalo jornalístico.

 

Eu não sei bem que utilidade pode ter uma parteira para tratar feridos de guerra. Creio bem que os ferimentos de que essas especialistas podem curar, não se adquirem na guerra, mas fora dela, em cura de partos, que por eufemismo ou outra figura de retórica, chamam de batalha, guerra de amor, os singulares combates em que os estragos redundam em trabalho para os obstetras.

 

Agora, eu me lembro – e por lealdade declaro – que, há muitos anos, li a nomeação do doutor Abel Parente para médico parteiro da Guarda Nacional. Mas, isto foi no Filhote da Gazeta. Além disto, a eleição da diretoria foi um sucesso que causou inveja ao Honório Pimentel, de Santa Cruz.

 

A notícia que traz o endemoninhado Rio-Jornal, se alonga em outras considerações; e, até, estampa um cliché do edi­fício projetado para a sede de todos os serviços que a Cruz quer prestar ao país, à cidade, na paz e na guerra.

 

É olhá-lo para se chegar logo à conclusão de que quem o projetou não é arquiteto, nem mesmo engenheiro: é um marceneiro.

 

Os senhores conhecem essas espécies de cômodas de escritório, em cujas gavetas se guardam papéis? Pois é assim a maneira do tal edifício da Cruz. Os franceses chamam a tal móvel chiffonnier, creio eu; e o edifício da sociedade é perfeitamente semelhante a ele, mas inteiramente feio, porque, além das muitas gavetas e descomunal altura, ainda tem mais torrezinhas, uma cúpula central, uns cocurutos, absurdos e con­traproducentes, que não lhe deixam totalmente ver a sua estética abracadabrante de caixão.

 

O Rio-Jornal nos informa também de várias coisas sobre esse monumento “gótico”. Diz ele: “O edifício planejado, uma vez construído, marcará o início de uma nova fase na vida da sociedade. Seu custo ficará

 

aproximadamente por 20.000:000$000.”

 

Se o “caixão” da Cruz Vermelha já era pretensioso no seu número de andares, ainda mais se mostra ser, dado que uma coisa não supusesse a outra, no custo. Qual é o edificio público do Brasil que custa isso? Nenhum. Algumas igrejas e conventos do Rio, uma ou outra, podem ser avaliados nisso; mas que tempo levaram a ser construídos? A Candelária, por exemplo, levou mais de cem anos; e verdadeiramente não está acabada.

 

Ora, Cruz Vermelha!, isto é muito para tua alma! O mesmo jornal ainda nos dá outros detalhes curiosos sobre o formidável “caixão”.

 

Ei-los:

 

“Ocupando uma área de 6.000 m2, tendo de altura, do subsolo ao último andar, 125 metros, sendo a máxima 142 metros, ele comportará vinte andares, onde ficarão instalados, de acordo com todos os preceitos das construções modernas e exigências de higiene, todo o aparelhamento necessário a um hospital de primeira ordem, desde os mais delicados gabinetes, enfermarias, quartos particulares e de observação, até um grande frigorífico para receber a carne, o peixe, aves, frutas, e legumes, destinados ao consumo de um mês.”

 

O senhor Taumaturgo de Azevedo, que disputa ao senhor Câmara o número de “crachás” universitários; que é doutor em uma porção de coisas; o senhor Taumaturgo de Azevedo devia saber, como todos sabem, que, atualmente, é aconselha­da pelos higienistas de todo o mundo a construção de hos­pitais em pavilhões nivelados. Os motivos são óbvios e estão ao alcance da mais mediana inteligência que tenha a mais mediana cultura. Como é então, que o senhor Taumaturgo (será por causa do nome?) quer fazer um hospital moderno ao jeito dos antigos?

 

Com tanto dinheiro, ele pode construir a sede propriamente da sociedade e o hospital em lugares separados, tanto mais que ele tem o frisante exemplo do Hospital Central do Exército, maravilhoso entre as nossas coisas chatas, já pela construção, já pelo pessoal, e onde estive dois meses excelentemente, do que tenho muitas saudades. De resto, essas edificações brutas e estúpidas, como quer ser a tal para a Cruz Vermelha, não devem ser consentidas na nossa cidade.

 

Há quem conteste que o tipo sky-scraper nova-iorquino nasceu de condições peculiares à grande cidade do Hudson.

 

Não foram determinados pelo subsolo granítico de New York, nem pelo encarecimento progressivo dos terrenos da ilha de Manhattan, onde se acumula toda a intensa vida da imen­sa cidade; entretanto, se não foram tais factores os principais, eles devem ser levados em linha de conta.

 

Entre nós, porém, nenhum deles pode prevalecer e não devíamos permitir a construção de semelhantes faróis cívicos, em uma cidade semeada e bordada de colinas, morros quase serras, que ainda estão mais ou menos arborizadas e que de­vem estar sempre, dando-lhe a sua beleza especial, o seu cachet de grandeza, e a sua simplicidade de horizontes, os quais nós perderemos, pobres e mesquinhas formigas humanas que somos!, se tais chatezas se vierem multiplicar.

 

O sky-scraper define o americano. É a arrogância do parvenu e a estupidez do arrivista que não sabe esperar pelo tempo e outras circunstâncias mínimas para ter personalidade. Faz o grande, o desmedido; gesticula, berra, veste-se com cores vivas, arreia-se de brilhantes e pérolas, de todas as jóias, enfim, para parecer fidalgo, poderoso e original. É um estudo a fazer.

 

Só o tempo faz o que o tempo não destrói; e seremos muito tolos se imitarmos os americanos nas suas idiotices e pretensões com o descomunal.

 

Se nós tivéssemos um Conselho Municipal, se apelaria para ele. Mas o tal conselho que temos não ama a cidade, nem é composto de gente dela. O único carioca que lá existe e pode ter algum amor pelo Rio de Janeiro, é o coronel Bran­dão; mas esse mesmo é português de nascimento. Os outros são cubanos, mexicanos, hondurenses – gente que, por bem ou pela força, tem de gravitar em torno da republica do dó­lar. É inútil esperar qualquer coisa dessa gente que, não contente de estar sob o guante americano, ainda procura nar­cótico jesuítico para se anular, e o vai impingir às crianças, nas escolas, à força do poder do Estado, julgando legítimo isso, porque sofrera também império semelhante que destruiu nela a rebeldia indispensável ao progresso humano, mas a deixou, em compensação, viver à tripa forra.

 

Estão se cevando, mas é pena que o seja inútilmente... A antropofagia já passou de moda em toda a humanidade..

 

Dessa forma, não temos nós, cariocas, que amamos o nosso lindo Rio de Janeiro, para quem apelar e o senhor Tau­maturgo poderá impunemente arranhar – só, não! – furar céu, a menos que Deus não faça, como fez com os atrevidos da torre de Babel; castigá-lo bem castigado! É ainda uma esperança...

 

Hoje, Rio, 10-7-1919.

 

 

 

NO PRIMOR DA ELEGÂNCIA

 

 

 

– Pois foi mesmo uma coisa que não sei como qualificar.

 

– Mas, nunca tinhas jogado?

 

– Tinha; mas, em família, a vinte e dez réis o tento. Assim a sério, nunca! E ainda por cima ficar devendo dois contos... Livra!

 

– Já os pagaste?

 

– Não; não foi preciso.

 

– Que diabo! Não te entendo!

 

– Queres ouvir a história tintim por tintim?

 

– Quero.

 

– Pois então ouve lá.

 

– Estou ouvindo:

 

– Andava eu muito arrebentado, devido a minha mania poética. Tinha empenhado os meus vencimentos – uma grande parte, bem entendido – a um agiota, para publicar o meu poema Luzes no Nevoeiro. Lembras-te?

 

– Lembro-me. Por sinal que...

 

– Não fez lá grande feio, até... Bem! Continuo: assim, encalacrado, o que restava dos vencimentos, era para comer e morar. Pacientemente, até com grande orgulho íntimo, por me ter heroicamente sacrificado às letras, eu ia passando me­ses, quando certo dia o meu colega de repartição, Segadas, perguntou-me: “Oh! Barcelos! Você nunca jogou no bicho?” Fiz um esforço de memória e respondi: “Uma vez, há muito tempo”. Segadas não se contentou com a minha resposta e disse-me ainda: “Escreva aí, num papel, um número de quatro algarismos, qualquer, compreendeu?’ “Para que é?” perguntei. “Ora!” fez ele rindo-se. “Você sabe bem para o que é. Querem ver que você está se fazendo de tolo comigo?” Desconfiei que fosse para isso, mas Segadas era doutor em bicho. Com­prava Mascote, Talismã e até uma revista mensal – O Mis­tério da Sorte – ele assinava. Como é que então, me vinha pedir palpite, a mim que era néscio na bicharada? Enfim... Escrevi o tal milhar; e dei-lhe o papel com ele escrito. Exa­minou, abalou a cabeça com ar de dúvida e por fim excla­mou: “Vamos ver... Dê-me aí um mil-réis – você tem?” Tinha e dei-o. Saí da repartição, sem mais me lembrar do caso. O meu espanto estava reservado para o dia seguinte. Assinei o ponto e, quando entrei na seção, ele veio ao meu encontro e fez com um ar muito expressivo, mas que eu não sei como qualificar: “Tem pêlo, Barcelos! Ganhaste três contos e pouco”, acudiu ele. Suspendi a respiração; e explicou-me então ele que eu tinha, de sociedade com os dele, distribuído aqueles dez tostões no milhar, na centena, na dezena, no grupo; e meu lucro estava ali. Passou-me a bolada.

 

– Continuaste trabalhando?

 

– Qual! Pedi licença e saí. Meditei muito no que devia fazer. Pensei em pagar o agiota, mas pagá-lo, era dar-lhe lucro, pois o desconto seria insignificante e eu pagaria quase o mesmo que devia pagar daí a um ano e tanto... Não valia a pena! Não paguei e comprei roupas novas e outros aviamentos chics. No fim de vinte dias, o meu tesouro estava quase reduzido a pouco menos de três contos, embora a minha biblioteca se houvesse enriquecido e eu andasse no primor da elegância, pela avenida, teatros, circos de esporte etc. mas, sem sorte alguma. Diabo! fiz eu de mim para mim. Ninguém é profeta em sua terra. Preciso dar um pas­seio. Tinha lido uns versos de Olegário Mariano sobre Poços de Caldas e decidi-me ir até lá passar uns tempos, isto é, um mês ou dois, se tanto. Fui. Passei em São Paulo, onde me demorei uma semana. Queria ficar mais tempo. Aquele recato de São Paulo, aquela sua decência e pudicícia faziam evolar um bouquet capitoso da taça dos seus prazeres e me inebriava. De noite, com as portas fechadas, no interior de alegres casas, era como se a linda cidade me dissesse: parecer não é ser. Mas... cumpria ir a Poços de Caldas e o fiz com esforço. Deixei a minha Cápua e lá fui para a cidade das águas de Juvência. Digo-te com franqueza que a cidade em si não me agradou. Aquele tom híbrido de roça e cidade, ainda mais acentuado com o urbano pavonear dos aquáticos, não era lá coisa de despertar-me idéias de beleza.

 

– E a paisagem?

 

– Ora! Para quem sai do Rio de Janeiro!!

 

– Em que hotel estiveste?

 

– Um bem catita e cheio de si, mas de cujo nome não me lembro. O que eu sei, é que durante a primeira semana, mal troquei cumprimentos com os outros hóspedes.

 

– Não jogaste?

 

– Não. Mas dei uma volta pela sala da roleta e observei o cavalheirismo dos banqueiros de lá, emitindo fichas mais baratas para as senhoras. É galante!

 

– Senhoras?

 

– Autênticas, filho! Lá, passa-se a linha equinocial para além da qual, como diziam os antigos, não há crimes. Em Poços, tudo joga: moças, meninas, matronas, barbadões sisudos, chefe de polícia, delegado, creio que até padres e irmãs de caridade.

 

– Não é possível?

 

– Pois vá lá, para veres só. Mas, como te dizia: não tinha até ali travado conhecimento algum, quando uma tarde após o jantar, estando sentado à varanda do hotel, um senhor bem disposto dirigiu-se a mim e disse-me prazenteiramente:

 

“Então doutor, está apreciando o crepúsculo de Poços? Com certeza é para ter saudades do Rio – não é?” Por aí fomos e travei conhecimento com o senhor coronel (da guarda na­cional) Paulo Serpente. Era um homem tratável, fino, não parecia lá muito lido, mas denotava muita convivência com pessoas instruídas. Em uma semana, ele transformou a mono­tonia do meu viver. Fui ao salão, conversei, ouvi música, fiz até uma conferência literária – Céus de Veneza – onde nunca estive, e arranjei um amor pecaminoso sem inesperadas consequências. Uma tarde, o coronel perguntou-me: “Doutor, o senhor não joga poquer?Não esperava por esta pergunta, mas respondi com franqueza: “Jogo, mas mal”. “Não importa, é só para entreter. Acedi, sem nenhuma repugnância. Após o jantar, ele me procurou e disse-me prazenteiro, mesmo à roceira: “Vamos à coisa doutor!” Indaguei: “E os parceiros?” “Já estão lá na sala.” Fomos, eu e ele. A sala de jogos de cartas ficava num pavilhão paralelo àquele em que se jogava o bacará, a roleta etc. Entre os dois uma espécie de jardim largo, mas bem maltratado e pouco iluminado. Fui apresentado ao doutor Simões Espinheiro, grande advogado no Rio; e o outro era um senhor Eufélio dos Anjos, que já co­nhecia por ser companheiro inseparável do coronel. Prepara­mos mesa, etc. e marcamos o valor da ficha. O advogado queria que fossem a dez mil-réis. E eu, para não fazer feio, concordei e Eufélio e o coronel, porém, julgaram melhor ser pela metade. Cada um de nós adquiriu cem fichas, quinhen­tos mil-réis; e começamos o jogo, hands, trincas, four... tre­pações, enfim, toda aquela complicação não havendo limite nas apostas. No fim de meia hora, tinha perdido tudo; no fim de hora e meia, só me restava o dinheiro do hotel. Quis levantar-me mas o coronel opôs-se e adiantou-me mais qui­nhentos, em fichas mas de beiço. Perdi. Pedi mais, perdi. Pedi mais e só de beiço, dois contos de reis. O tal advo­gado foi mais caipora do que eu, também era mais afoito, o bobo. Perdeu dezoito contos em cerca de três horas. En­cheu cheques sobre um banco de São Paulo, deu a cada um o que competia; e levantou-se sorridente, cheio de indiferença. Mais tarde, vim a saber que ele pusera fora toda a fortuna da mulher. Era por isso. Por minha vez saí e procurei no jardim um lugar escuro onde chorasse as minhas mágoas. Como havia de pagar aqueles dois contos? Onde arranjar aquele dinheiro? Tinha que me ir embora no dia seguinte... Nisto, surge-me o coronel Serpente que me fala: “Doutor, vamos jogar roleta?” Verdadeiramente acabrunhado, respondi-lhe: “Qual, coronel! Tenho sido tão caipora! Até não sei como...” Não acabei a frase. O coronel tirou da algibeira dois pacotes e mos deu. De espanto, eu não falava; ele, porém, disse-me com voz de amigo: “O doutor não nos deve nada. Leve o seu dinheiro. O senhor sabe que são precisos quatro parceiros, pelo menos para jogar o poquer? O doutor era-nos preciso, para depenar aquela paca, o Simões. Boa noite”.

 

O Malho, Rio, 19-7-1919.

 

 

 

MODAS FEMININAS E OUTRAS

 

 

 

De uns anos a esta parte, eu não vejo a Avenida nem a Rua do Ouvidor com os olhos de cinco anos para trás. De forma que, sendo assim, não faço reparo nos “almofadinhas”, “melindrosas”, “entupidinhas” e outras criaturas que tan­to preocupam os nossos estetas de cinema.

 

Contudo leio-lhes as crônicas e fico admirado com o desvelo que têm em tratar dessas coisas de vestuário das moças com ares de que está lançando a excomunhão maior com au­xílio da fatal Grécia.

 

Quando menino, conheci até a anquinha, o tundá; e todos falavam mal dela ou dele, como imoral; entretanto, não deixava o tal adorno ver descoberta nenhuma parte do corpo. Ao contrário. Vieram o droit-devant, a jupe-culotte e outras norteações da alma feminina e todos teimaram em encontrar nesses vestuários das damas provas de impudicícia, de des­pudor e outras coisas correlatas.

 

Eu não sei quando eles têm razão, se é quando estimam as mulheres ultradecotadas nos grandes bailes e teatros, ou se é quando acham isto indecente no meio da rua.

 

Devia-se remediar essas discrepâncias e discordâncias de modo que não fossemos apelar para o duvidoso critério das propensões dos gregos que não o tinham firme, tanto assim que há estátuas de deuses e heróis deles que possuem ate nove cabeças e outras nem oito.

 

A minha idéia era nomear uma comissão, que estabelecesse a base de um projeto sobre os comprimentos dos saiotes e dos decotes, fixando o que podia ser visto ou não.

 

Nessa comissão entrariam sacerdotes e sacerdotisas de todas as religiões, inclusive a de Vênus, estetas acadêmicos ou não, membros da Liga pela Moralidade, da Defesa Nacional e Nacionalista e, mais ainda, alguns negociantes de fazendas, fitas e bugigangas.

 

Cada um estudaria a questão no seu ponto de vista e todos apresentariam um trabalho completo ao Parlamento Na­cional.

 

O que era difícil era eles se entenderem, mas isso é lá com eles que devem esforçar-se para tal conseguir no objetivo da felicidade do país.

 

Não há uma comissão de inquérito na Câmara para o estudo da questão social que até agora tem dado os melhores resultados? Porque a Comissão de Modas Femininas não virá a dar também?

 

Tão momentoso assunto deve interessar deveras todos os bons brasileiros, por estar ele causando as mais terríveis inquietações ao bom povo de Minas, Goiás, Paraíba, inclusive Cascadura.

 

Tudo encarece e fica pela hora da morte; mas toda a nossa gente brasileira tem as vistas voltadas para as coisas do Rio, da avenida; e é preciso atendê-la quanto antes.

 

Careta, Rio, 13-9-1919.

 

 

 

A TAL HISTÓRIA DA ANIAGEM

 

 

 

Andam os jornais e a tribuna da Câmara num bate-bocas danado a propósito da diminuição dos impostos sobre as sacas de aniagem importadas.

 

As primeiras figuras do debate são o senhor doutor Jorge Street e o senhor doutor Veiga Miranda, deputado federal.

 

O primeiro é dos homens de fortuna que, pela sua inteligência, cultura e largueza de espírito, eu mais admiro.

 

Não posso negar aqui que já lhe pedi um favor, no começo da minha vida de escritor.

 

Ele leu meu primeiro livro, isto há mais de dez anos; e quis me ajudar.

 

Por intermédio do doutor Delamare que, por aqueles tempos dirigia a Fábrica Rink. eu lhe fiz um pedido, que não era de dinheiro; e, embora ele não me pudesse servir, eu lhe sou imensamente grato.

 

Conquanto atualmente eu me haja declarado inimigo irreconciliável