LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

O livro derradeiro – Primeiros escritos, de Cruz e Sousa


Texto-fonte:

 

 João da Cruz e Sousa, Poesia Completa, org. de Zahidé Muzart,

Florianópolis: FCC / Fundação Banco do Brasil, 1993.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ÍNDICE

 

Cambiantes

Extremos

Supremo anseio

Após o noivado

Dormindo

Nerah

Amor

Escravocratas

Da senzala

Dilema

À revolta

Escárnio perfumado

Filetes

Outros sonetos

[Senhor de nobre]

[Da mundana lida]

[De Meyseder gentil]

[Dois zoilus]

[Minh’alma está]

[Rompeu-se o denso véu]

[Deixai que deste álbum]

[Alçando o livro]

O desembarque de Julieta dos Santos

Na mazurka

O final do guarani

Ideia-mãe

O seu boné

[É um pensar]

Oiseaux de passage

Colar de pérolas

Satanismo

Metamorfose

Auréola equatorial

[Anda-me a alma]

[Quando eu partir]

Sempre e... sempre

Noiva e triste

Mãe e filho

Natureza

Surdinas

Irradiações

Ambos

Plenilúnio

Os dois

Triste

Celeste

[Estas risadas]

Aos mortos

Luar

Mocidade

[Vão-se de todo]

Na fonte

[A fonte]

Cega

A Ermida

Água-forte

Alma que chora

Chuva de ouro

Primeira a fora

25 de março

Ninho abandono

Crença

Cristo e a adúltera

Êxtase de mármore

Inverno

Falando ao céu

Gloriosa

O chalé

Delírio do som

Ilusões mortas

O sonho do astrólogo

Cristo

Frutas de maio

Eterno sonho

Risadas

Ave! Maria...

Impassível

Verônica

Símiles

Exilada

Sonetos

Decadentes

Olavo Bilac

Doente

Lirial

To sleep, to dream

No campo

Visão medieva

Roma pagã

Espiritualismo

Plangência da tarde

Alma antiga

Vanda

Êxtase

Luar

Celeste

A partida

Canção de abril

O mar

Manhã

Rir!

Ideal comum

Aspiração

Sensibilidade

Glórias antigas

Pássaro marinho

A freira morta

Claro e escuro

Magnólia dos trópicos

Hóstias

Boca imortal

Psicologia humana

Os mortos

Floripes

O cego do Harmonium

Horas de sombra

Aleluia! Aleluia!

Rosa negra

Vozinha

No Egito

Ocasos

Repouso

Resquiescat...

Doce abismo

Harpas eternas

Dupla Via-Láctea

Titãs negros

Entre chamas...

O anjo da redenção

Salve! Rainha!...

[Brancas aspirações]

Violinos

Guerra Junqueiro

[Deus esculturou-te]

Aspiração

Abstração

Asas de ouro

Jesus

Trompa de Roldão

À pátria livre

O rio

Joia

A volta

Balada matinal

Recordação

Lágrimas

Filosofando

Aos pobres

[Deixe-nos ficar...]

Bom dia

Frutas e flores

A piedade

As ondas

O cão do fidalgo

Mães

Libertas

Águia do ideal

Campesinas

Ao ar livre

Nos campos

A borboleta azul

Renascimento

Abelhas

Besouros...

Papoula

Campesinas

No campo santo

Na vila

Os risonhos

Dispersas

Away!

Poesia

Saudação

A imprensa

Versos

Ao decênio de Castro Alves

Entre a luz e sombra

Sete de setembro

Três pensamentos

Paranaguadas

Questão Brocardo

Sempre

Beijos

Questão Brocardo

[Pinto, Pinta]

Piruetas

As devotas

[De claque]

[Meus esplêndidos...]

[Nunca se cala]

[Estoure como]

[Parece um céu]

[Levantem esta bandeira]

Olhares

[Nas explosões]

[Preso ao trapézio]

Grito de guerra

[Da lua aos raios]

[Teus belos olhos]

Adalziza

[Teus olhos]

Ser pássaro

O Botão da rosa

[Ó Adalziza]

[Enquanto este sangue]

[Como um cisne]

[Merece o bom]

Zulmira

Deixai

[Quando ela]

[Ó cintilante quiquia]

[Olhos pretos]

[Se estala a estrofe]

Amor!!!...

[Ó flora]

[Morena dos olhos pretos]

[Embora]

[Ó Alzira]

[Aos relâmpagos]

[À sombra espessa]

Rosa

[Quando estás]

[Da ideia]

[Como um assombro]

[Como fortes]

[Da bruma]

[Epitáfio]

Saudação

Frêmitos

Gusla da saudade

Smorzando

Giulietta Dionesi

Filetes

Versos à infância

Triste

Fonte de amor

Naufrágios

[Em maio]

Arte

Arte

O duque

A espada

Imutável

O sol e o coração

Sapo humano

Diante do mar

Brumosa

Sganarelo

Desmoronamento

Clarões apagados

Mendigos

Asas perdidas

Anjo Gabriel

Crianças negras

Velho vento

Marche aux flambeaux

O órgão

Rosa

História gentil

Ritmos

Recordações

Sombra adorada

Light and Shade

Idealizações

Confidências

À que está morta

Feia

Bandolim do luar

Verão

Fuzis

Flowers

Tédio e riso

Cabelos e olhos

Auréolas

Trovas

Aos professores do Liceu de Artes e Ofícios do Desterro

“Porque o amor uma vez interrompido”

Sob as árvores

Tramway-coração

O pomar

“Que venha o duque normando”

Clarim!

Versos à Dorvalina

Castelã

Serenata & outros poemas

Num baile

Ignota Dea

[A alma de Juvêncio]

Alvorada da indústria

Alma do pensamento

Cantiga da miséria

O que é o inferno

Asas de ouro

Flores de maio

Flor espiritual

À Giulietta Dionesi

Willis

Lágrimas

Serenata

Julieta dos Santos

A ideia ao infinito

[Ao estrídulo]

[Dizem que a arte]

[Um dia]

[É delicada]

[Imaginai]

[Parece que]

[Quando apareces]

[Lágrimas da aurora]

Julieta dos Santos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cambiantes

 

 

 

 

Extremos

 

 

À minha doce mãe que desses trilhos vastos

Da vida racional, tem sido o meu bom guia.

Dedico, preso à garra atroz da nostalgia,

O meu bouquet de versos, d’entrem uns beijos castos.

 

A ela, que orgulhosa, impávida resplende,

Seu filho, dá-lhe a alma inteira nos olhares,

A ela que aprimora as curvas singulares

Do amor que unicamente a mãe só compreende.

 

A ela, que dos sonhos flavos que eu adoro,

É sempre esse ideal querido e mais sonoro

Mais alvo que o luar, mais brando que os arminhos.

 

Embora sob cúpula azúlea de outros espaços

Dedico os versos meu — atiro-os ao regaço

Assim como punhado imenso de carinhos.

 

 

 

Supremo anseio

 

 

Esta profunda e intérmina esperança
Na qual eu tenho o espírito seguro,
A tão profunda imensidade avança
Como é profunda a ideia do futuro.

 

Abre-se em mim esse clarão, mais puro
Que o céu preclaro em matinal bonança:
Esse clarão, em que eu melhor fulguro,
Em que esta vida uma outra vida alcança.

 

Sim! Inda espero que no fim da estrada
Desta existência de ilusões cravada
Eu veja sempre refulgir bem perto

 

Esse clarão esplendoroso e louro
Do amor de mãe — que é como um fruto de ouro,
Da alma de um filho no eternal deserto.

 

 

           Após o noivado

 

 

Em flácido divã ela resvala
Na alcova — bem feliz, alegremente,
E o fresco penteador alvinitente,
De nardo e benjoim o aroma exala.

 

E o noivo todo amor, assim lhe fala,
Por entre vibrações do olhar ardente:
Pertences-me afinal, pomba dormente
Parece que a razão de gozo, estala.

 

Mas eis — corre-se então nívea cortina:
E a plácida, a ideal, a branca lua
Derrama nos vergéis a luz divina...

Depois... Oh! Musa audaz, ousada, e nua,
Não rompas esse véu de gaze fina
Que encerra um madrigal — Vamos... recua!...

 

 

 

Dormindo

 

 

Pálida, bela, escultural, clorótica
Sobre o divã suavíssimo deitada,
Ela lembrava — a pálpebra cerrada —
Uma ilusão esplendida de ótica.

 

A peregrina carnação das formas,
— o sensual e límpido contorno,
Tinham esse quê de avérnico e de morno,
Davam a Zola as mais corretas normas!...

 

Ela dormia como a Vênus casta
E a negra coma aveludada e basta
Lhe resvalava sobre o doce flanco...

Enquanto o luar — pela janela aberta —
— como um vago exclamação — incerto ·Entrava a flux — cascateado — branco!!...

 

 

 

Nerah

(Inspirado no elegante conto de Virgílio Várzea)

 

 A Vítor Lobato

 

 

Nerah não brinca mais, não dança mais. — E agora
Que vão-se apropinquando os tempos invernosos,
Nerah traz uns receios tímidos, nervosos,
De quem teme mudar-se em noite, sendo aurora.

 

Seus sonhos de cristal, translúcidos, antigos
Se vão embora, embora à vinda dos invernos,
Seguindo em debandada os úmidos galernos —
— Lembrando um roto bando informe de mendigos.

 

Não canta o sabiá que triste na gaiola,
Parece, com o olhar, pedir-lhe a casta esmola
De um riso — aquela flor que esvai-se, branca e fria.

 

Em tudo a fina seta aguda de aflições!
Na própria atmosfera um caos de interjeições!
Em tudo uma mortalha, em tudo uma agonia.

 

 

Amor

 

 

Nas largas mutações perpétuas do universo
O amor é sempre o vinho enérgico, irritante...
Um lago de luar nervoso e palpitante...
Um sol dentro de tudo altivamente imerso.

 

Não há para o amor ridículos preâmbulos,
Nem mesmo as convenções as mais superiores;
E vamos pela vida assim como os noctâmbulos
À fresca exalação salúbrica das flores...

 

E somos uns completos, célebres artistas
Na obra racional do amor — na heroicidade,
Com essa intrepidez dos sábios transformistas.

 

Cumprimos uma lei que a seiva nos dirige
E amamos com vigor e com vitalidade,
A cor, os tons, a luz que a natureza exige!...

 

 

Escravocratas

 

 

Oh! Trânsfugas do bem que sob o manto régio
Manhosos, agachados — bem como um crocodilo,

Viveis sensualmente à luz dum privilégio
Na pose bestial dum cágado tranquilo.

 

Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas
Ardentes do olhar — formando uma vergasta
Dos raios mil do sol, das iras dos poetas,
E vibro-vos a espinha — enquanto o grande basta

 

O basta gigantesco, imenso, extraordinário —
Da branca consciência — o rútilo sacrário
No tímpano do ouvido — audaz me não soar.

Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
Vermelho, colossal, d'estrépito, gongórico,
Castrar-vos como um touro — ouvindo-vos urrar!

 

 

 

Da senzala

 

 

De dentro da senzala escura e lamacenta

Aonde o infeliz

De lágrimas em fel, de ódio se alimenta

Tornando meretriz

 

A alma que ele tinha, ovante, imaculada

Alegre e sem rancor,

Porém que foi aos poucos sendo transformada

Aos vivos do estertor...

 

De dentro da senzala

Aonde o crime é rei, e a dor — crânios abala

Em ímpeto ferino;

 

Não pode sair, não,

Um homem de trabalho, um senso, uma razão...

E sim um assassino!

 

 

 

Dilema
 

Ao cons. Luís Álvares dos Santos

 

 

Vai-se acentuando,

Senhores da justiça — heróis da humanidade,
O verbo tricolor da confraternidade...

E quando, em breve, quando

 

Raiar o grande dia

Dos largos arrebóis — batendo o preconceito...
O dia da razão, da luz e do direito

— Solene trilogia —

 

Quando a escravatura

Surgir da negra treva — em ondas singulares

De luz serena e pura;

 

Quando um poder novo

Nas almas derramar os místicos luares,

Então seremos povo!

 

 

 

À revolta

A Cassiano César

 

 

O Séc’lo é de revolta — do alto transformismo,
De Darwin, de Littré, de Spencer, de Laffite —
Quem fala, quem dá leis é o rubro niilismo
Que traz como divisa a bala-dinamite!...

 

Se é força, se é preciso erguer-se um evangelho,
Mais reto, que instrua — estético — mais novo
Esmaguem-se do trono os dogmas de um Velho
E lance-se outro sangue aos músculos do povo!...

 

O vício azinhavrado e os cérebros raquíticos,

É pô-los ao olhar dos sérios analíticos,
Na ampla, social e esplêndida vitrine!...

 

À frente!... — Trabalhar a luz da ideia nova!...
— Pois bem! Seja a ideia, quem lance o vício à cova,
— Pois bem! — Seja a ideia, quem gere e quem fulmine!...

 

Escárnio perfumado

 

 

Quando no enleio
De receber umas notícias tuas,
Vou-me ao correio,
Que é lá no fim da mais cruel das ruas,

 

Vendo tão fartas,
D'uma fartura que ninguém colige,
As mãos dos outros, de jornais e cartas
E as minhas, nuas — isso dói, me aflige...

 

E em tom de mofa,
Julgo que tudo me escarnece, apoda,
Ri, me apostrofa,

 

Pois fico só e cabisbaixo, inerme,
A noite andar-me na cabeça, em roda,
Mais humilhado que um mendigo, um verme...

 

 

 

Filetes

 

De cravos, de rosas,
De lírios, perfumes,
De beijos, ciúmes,
De coisas formosas;

 

De cantos suaves
De músicas, vinhos
De aromas, arminhos
Dos trinos das aves;

 

Das cismas radiadas,
De esperanças aladas
Por vagos escombros,

 

São feitos, são feitos
Teus olhos perfeitos,
Repletos de assombros.

 

 

 Outros sonetos

 

 

[Senhor de nobre]

 

 (Oferecido e dedicado ao llmo. Sr. M. Bernardino A. Varela pelo autor.)

 Vir bonus dicendi peritus laudandum est.

 

 

Senhor de nobre alma, tão
D’entre os sábios conhecido,

De pais excelsos nascido,
Aceitai a minha canção.

 

Probo pai, bom cidadão,

Sois dos seres melhor ser
Por saber tão profundo ter,
Sois ilustre qual Catão.

 

Recebei esta prova mesquinha
De penhor e de oração,
Produto da pena minha.

 

Perdoai, mui digno varão,
Se na mente eu pobre tinha
Cometer-vos indiscrição.

 

 

 

[Da mundana lida]

 “Minha vida é um montão de ruínas em árido deserto

Um abismo de ais e de suspiros.”

 

 

Da mundana lida, eis que cansado,

Co’a lira toda espedaçada,
A alma de suspiros retalhada,
Cumpre o infeliz seu triste fado.

 

Ai! que viver mais desgraçado!...
Que sorte tão crua e desazada!...
Quem assim tem a vida amargurada
Antes já morrer, ser sepultado.

 

Só eu triste padeço feras dores,
Imensas e de fel, sem terem fim,
Envolto no véu dos dissabores.

 

Oh! Cristo eu não sei se só a mim
Deste essa vida d’amargores,
Pois que é demais sofrer-se assim!

 

 

 

[De Meyseder gentil]

 (24 dez. 1880)
 

Dieu a fait la mer, les oiseaux, les cieux,

toute la nature enfin; mais les hommes ont découvert les sciences,

 les arts et les lettres qui les élèvent jusqu'à même Dieu.

 

 

De Mayseder gentil o vulto ingente
De Corelli, de Spohr e de Nardini,
De Ole Bull supernal, de Veracini
Inspirados por Deus c'o plectro ardente;

 

Dessa lira febril, áurea, potente
Do artista sem par, de Paganini;
De Viotti dinal, do herói Tardini,
De Lafont, de Baillot, Eck e Laurenti:

 

Sois rival feliz! e nesse crânio
Há em jorros, oh céus! extravasando
O ardor musical, o ardor titâneo...

 

Já bem cedo, veloz, ides galgando
Lá da glória os degraus, o supedâneo
Sobre um trono de luz rindo e cantando.

 

 

[Dois zoilus]

  

“Diatribe”

 

 

Dois zoilos mui completos deste mundo,
Dois zoilos há terríveis e zelosos,
Que estando sem fazer, mui ociosos
Só tratam dum falar nauseabundo.

 

Eu sei mui bem seus nomes — não confundo
Com esses bem sensatos, talentosos,
Com esses lidadores mui briosos
Que têm estudo imenso e bem profundo!

 

Mas ah! pra que tempo hei-de gastar
Com quem só vive imerso na caligem
D’inveja torpe e vil a esbravejar!

 

Isto, meus amigos, é impigem
Que quanto se procura mais coçar
Tanto e tanto mais só dá prurigem!

 

 

 

[Minh’alma está]

Por ocasião dos festejos em homenagem ao sexagésimo primeiro aniversário natalício do eloquentíssimo tribuno sagrado, Joaquim Gomes d'Oliveira Paiva.

 

 

Há vultos tamanhos que não
Cabendo no globo, vão quedos
Mas solenes, refugiar-se na campa.
D'aí embuçam-se n'um manto infinito
De glórias?...

 

Minh’alma está agora penetrando
Lá na etérea plaga, cristalina!
Que música meu Deus febril, divina
Nos páramos azuis vai retumbando!

 

Além, d’áureo dossel se está rasgando
Custosa, de primor, esmeraldina

Diáfana, sutil, longa cortina
Enquanto céus se vão duplando!

 

Em grande pedestal marmorizado
De Paiva se divisa o busto enorme
Soberbo como o sol, de luz croado

 

De um lado o porvir — Anteu disforme
Dos lábios faz soltar pujante brado
Hosanas! não morreu! apenas dorme.

 

 

[Rompeu-se o denso véu]

 

Por ocasião da comemoração do sexagésimo primeiro aniversário natalício do ilustre pregador catarinense Joaquim Comes d'Oliveira Paiva.

 

 

Rompeu-se o denso véu do atroz marasmo
E como por fatal, negro hebetismo
De antro sepulcral, de fundo abismo
O povo ressurgiu com entusiasmo!

 

O Zoilo mazorral se queda pasmo
Supõe quimera ser, ser cataclismo
Roga, já por dobrez, por ceticismo
De néscio, vil truão solta o sarcasmo.

 

Perdão, Filho da Luz, minh'alma exora,
Porém, a pátria diz, somente agora
Os grilhões biparti de atroz moleza!

 

E ele, o nosso herói já redivivo
De pé, sem se curvar, sereno, altivo
Co'as raias do porvir mede a grandeza!

 

 

 

[Deixai que deste álbum]

(5 dez. 1882)

 

Embeberam-me a pena em fel!


 Antônio (Mendes Leal)

 

 

Deixai que deste álbum na folha delicada
Eu venha difundir meus rudes pensamentos
Deixai que as pobres rimas, uns nadas poeirentos
Eu possa transudar da mente entrenublada!...

 

Deixai que de minh’alma na fibra espedaçada
Eu busque inda vibrar uns cantos tardos, lentos!...
Bem cedo os vendavais, aspérrimos, cruentos
Ai! Tudo arrojarão à campa amargurada!

 

Porém qu’importa isso! dos mares desta vida
Nos pávidos, estranhos, enormes escarcéus
Se alguma coisa val, és tu, ó luz querida!...

 

Rasguemos do porvir os áditos, os véus!...
Riamos sem cessar, embora em dor sentida!...
Também as nuvens negras conglobam-se nos céus!!...

 

 

 

[Alçando o livro]

(28 nov. 1882)

 A mocidade é a alavanca do templo da ciência, no futuro; só ela tem o direito de ser a forçamotriz dos fenômenos intelectuais das grandes revoluções do pensamento.


(Do Autor)

 

 

Alçando o livro colossal ardente
Traças no crânio um sulco luminoso,
E vais seguindo o remontar garboso
Do sol fagueiro lá no espaço ingente!

 

Ergues a fronte juvenil potente
Já como herói ou lutador famoso
E c’uma forma de pensar honroso
Fazes-te esperança da brasílea gente!

 

Seis vezes astro de maior grandeza
Enfim lá surges nos exames belos
Enfim triunfas na brilhante empresa!

Seis vezes quebras da ignorância os elos,
Seis vezes vives com mais sã firmeza,
Gemem seis vezes a louvar-te os prelos!...

 

 

 

O desembarque de Julieta dos Santos

 

 

Chegou enfim, e o desembarque dela
Causou-me logo uma impressão divina!
É meiga, pura como sã bonina,
Nos olhos vivos doce luz revela!

 

É graciosa, sacudida e bela,
Não tem os gestos de qualquer menina:
Parece um gênio que seduz, fascina,
Tão atraente, singular é ela!

 

Chegou, enfim! eu murmurei contente!
Fez-se em minh’alma purpurina aurora,
O entusiasmo me brotou fervente!

 

Vimos-lhe apenas a construção sonora,
Vimos a larva, nada mais, somente
Falta-nos ver a borboleta agora!

 

 

 

Na mazurka

 

 

Morava num palácio — estranha Babilônia

De arcadas colossais, de impávidos zimbórios,
Alcovas de damasco e torreões marmóreos,
Volutas primorais de arquitetura jônia.

 

Assim, quando surgia em meio aos peristilos
Descendo, qual mulher de Séfora, vaidosa,
Envolta em ouropéis, em sedas, luxuosa,
Cercam-na do belo os místicos sigilos!

 

E quando nos saraus, assim como um rainúnculo,
O lábio lhe tremia e o olhar, vivo carbúnculo,
Vibrava nos salões, como uma adaga turca,

 

Ou como o sol em cheio e rubro sobre o Bósforo,
— nos crânios os Homens sentiam ter mais fósforo...
Ao vê-la escultural no passo da Mazurka...

 

 

O final do guarani

 

(Santos, 15 jul. 1883)

 

 

Ceci — é a virgem loira das brancas harmonias,
A doce-flor-azul dos sonhos cor-de-rosa,
Peri — o índio ousado das bruscas fantasias,
O tigre dos sertões — de alma luminosa.

 

Amam-se com o amor indômito e latente
Que nunca foi traçado nem pode ser descrito.
Com esse amor selvagem que anda no infinito.
E brinca nos juncais, — ao lado da serpente.

 

Porém... no lance extremo, o lance pavoroso,
Assim por entre a morte e os tons de um puro gozo,
Dos leques da palmeira a note musical...

 

Vão ambos a sorrir, às águas arrojados,
Mansos como a luz, tranquilos, enlaçados
E perdem-se na noite serena do ideal!...

 

 

Ideia-mãe

 

Laborare dignus est operarius mercede sua.
(AFORISMO LATINO)

 

 

Ergueis ousadamente o templo das ideias
Assim como uns heróis, por sobre os vossos ombros
E ides através de um negro mar d’escombros,
Traçando pelo ar as loiras epopeias.

 

A luz tem para vós os filtros magnéticos
Que andam pela flor e brincam pela estrela.
E vós amais a luz, gostais sempre de vê-la
Em amplo cintilar — nuns êxtases patéticos.

 

É esse o aspirar do séc'lo que deslumbra,
Que rasga da ciência a tétrica penumbra
E gera Vítor Hugo, Haeckel e Littré.

 

É esse o grande — Fiat — que rola no infinito!...
É esse o palpitar, homérico e bendito,
De todo o ser que vive, estuda, pensa e lê!!...

 

 

O seu boné

(Corte, out. 1883)

 

À atriz Adelina Castro

 

 

É um boné ideal, de feltros e de plumas,
Que ela usa agora, assim como um turbante
Turco, aveludado, doce como algumas
Nuvens matinais que rolam no levante.

 

Lembro quando ao vê-lo a rubra marselhesa,
Lembro sensações e cousas de prodígio
E penso que ele tem a máscula grandeza
Desse sedutor, vital barrete frígio!...

 

Às vezes meu olhar medindo-lhe o contorno
E a flácida plumagem que serve-lhe d’adorno,
— Satânico, voraz, esplêndido de fé!

 

Exclama num idílio cândido e singelo,
Por entre as convulsões artísticas do Belo; —
Oh! tem coração e alma, esse boné!...

 

 

[É um pensar]

 

(Desterro, 13 jan. 1883)

 

A Moreira de Vasconcelos

 

Na luta dos impossíveis,

do espírito e da matéria,

tu és a águia sidérea

dos pensamentos terríveis!

 

(Do Autor)

 

 

É um pensar flamejador, dardânico
Uma explosão de rápidas ideias,
Que como um mar de estranhas odisseias
Saem-lhe do crânio escultural, titânico!...

 

Parece haver um cataclismo enorme
Lá dentro, em ânsia, a rebentar, fremente!...
Parece haver a convulsão potente,
Dos rubros astros num fragor disforme!...

 

Hão de ruir na transfusão dos mundos
Os monumentos colossais profundos,
As cousas vãs da brasileira história!

 

Mas o seu vulto, sobre a luz alçado,
Oh! há de erguer-se de arrebóis c’roado,
Como Atalaia nos umbrais da glória!!...

 

 

Oiseaux de passage

 

 

Les rêves, les grands rêves que moi toujours adore,
Les rêves couleur rose, les rêves éclatants;
Ainsi que les colombes un autre ciel cherchants
J’ai vu les ailes ouvertes, si belles que l’aurore.

 

Autour de la nature, autour de la profonde
Et merveilleuse mère des fleurs, des harmonies,
Les rêves éblouissants, remplis d’amour et vie,
Trouvaient de l’espoir le plus doré des mondes.

 

Hélas!... — mais maintenant, par des chagrins, secrets,
L’amour, les étoiles et tout ce qu’il nous est
Chéri — le beau soleil, la lune et les nuages;

 

Tout fut plongé d'abord’ plongé dans le mystère,

Avec de mon coeur la douce lumière,
Les rêves de mon âme — uns* oiseaux de passage!...

 

 

Colar de pérolas

Ao feliz consórcio dos estimáveis colegas, D. Jesuína Leal e Francisco de Castro.

 

 

A F’licidade é um colar de pérolas,
Pérolas caras, de valor pujante,
Belas estrofes de Petrarca e Dante
Mais cintilantes que as manhãs mais cérulas.

 

Para que enfim esse colar bendito,
Perdure sempre, inteiramente egrégio,
Como uma tela do pintor Correggio,
Sem resvalar no lodaçal maldito;

 

Faz-se preciso umas paixões bem retas,
Cheias de uns tons de muito sol — completas...
Faz-se preciso que do amor na febre,

 

Nos grandes lances de vigor preclaro,
Desse colar esplendoroso e raro,
Nem uma pérola, uma só se quebre!...

 

 

Satanismo

 

 

Não me olhes assim, branca Arethusa,
Peregrina inspiração dos meus cantares;
Não me deixes a razão vagar confusa
Ao relâmpago ideal de teus olhares.

 

Não me olhes, oh! não, porquanto eu penso
Envolvido no luar das minhas cismas,
Que o olhar que me dardejas — doido, imenso
Tem a rápida explosão dos aneurismas.

 

Não me olhes. Oh! não, que o próprio inferno
Problemático, fatal, cálido, eterno,
Nos teus olhos, mulher, se foi cravar!...

 

Não me olhes, oh! não, que m'entolece
Tanta luz, tanto sol — e até parece
Que tens músicas cruéis dentro do olhar!...

 

 

Metamorfose

A Carlos Ferreira

 

 

O sol em fogo pelo ocaso explode
Nesse estertor, que os crânios assoberba.
Vivo, o clarão, nuns frocos exacerba
Dos ideais a original nevrose.

 

Da natureza os anafis mouriscos
Ante o cariz da atmosfera muda,
Soam queixosos, numa nota aguda,
Da luz que esvai-se aos derradeiros discos.

 

O pensamento que flameja e luta
Nos ares rasga aprofundado sulco...
A sombra desce nos lisins da gruta;

 

E a lua nova — a peregrina Onfale,
Como em um plaustro luminoso, hiulco,
Surge através dos pinheirais do vale.

 

 

Auréola equatorial

 

A Teodoreto Souto

 

 

Fundi em bronze a estrofe augusta dos prodígios,
Poetas do Equador, artísticos Barnaves;
Que o facho — Abolição — rasgando as nuvens graves
De raios e bulcões — triunfa nos litígios!

 

— O rei Mamoud, o Sol, vibrou p'raquelas bandas
do Norte — a grande luz — elétrico, explodindo,
Assim como quem vai, intrépido, subindo
À luz da idade nova — em claras propagandas.

 

— Os pássaros titãs nos seus conciliábulos,
— Chilreiam, vão cantando em místicos vocábulos,
Alargam-se os pulmões nevrálgicos das zonas;

 

Abri alas, abri! — Que em túnica de assombros,
Irá passar por vós, com a Liberdade aos ombros,
Como um colosso enorme o impávido Amazonas!

 

 

[Anda-me a alma]

 

 

Anda-me a alma inteira de tal sorte,
Meus gozos, meu pesar, nos dela unidos
Que os dela são também os meus sentidos,
Que o meu é também dela o mesmo norte.

 

Unidos corpo a corpo — um elo forte
Nos prende eternamente — e nos ouvidos
Sentimos sons iguais. Vemos floridos
Os sons do porvir, em azul coorte...

 

O mesmo diapasão musicaliza
Os seres de nos dois — um sol irisa
Os nossos corações — dá luz, constela...

 

Anda esta vida, espiritualizada
Por este amor — anda-me assim — ligada
A minha sombra com a sombra dela.

 

 

[Quando eu partir]

 

 

Quando eu partir, que eterna e que infinita
Há de crescer-me a dor de tu ficares;
Quanto pesar e mesmo que pesares,
Que comoção dentro desta alma aflita.

 

Por nossa vida toda sol, bonita,
Que sentimento, grande como os mares,
Que sombra e luto pelos teus olhares
Onde o carinho mais feliz palpita...

 

Nesse teu rosto da maior bondade
Quanta saudade mais, que atroz saudade...
Quanta tristeza por nós ambos, quanta,

 

Quando eu tiver já de uma vez partido,
Ó meu amor, ó meu muito querido
Amor, meu bem, meu tudo, ó minha santa!

 

 

Sempre e... sempre

A M. B. Augusto Varela

Sempre se amando, sempre se querendo.


(Oliveira Paiva)

 

De longe ou perto, juntas, separadas,
Olhando sempre os mesmos horizontes,
Presas, unidas nossas duas fontes
Gêmeas, ardentes, novas, inspiradas;

 

Vendo cair as lágrimas prateadas,
Sentindo o coro harmônico das fontes,
Sempre fitando a cúspide dos montes
E o rosicler das frescas alvoradas;

 

Sempre embebendo os límpidos olhares
Na claridão dos humildes luares,
No loiro sol das crenças se embebendo,

 

Vão nossas almas brancas e floridas
Pelo futuro azul das nossas vidas,
Sempre se amando, sempre se querendo.

 

 

Noiva e triste

 

 

Rola da luz do céu, solta e desfralda
Sobre ti mesma o pavilhão das crenças,
Constele o teu olhar essas imensas
Vagas do amor que no teu peito escalda.

 

A primorosa e límpida grinalda
Há de enflorar-te as amplidões extensas
Do teu pesar — há de rasgar-te as densas
Sombras — o véu sobre a luzente espalda...

 

Inda não ri esse teu lábio rubro
Hoje — inda n'alma, nesse azul delubro
Não fulge o brilho que as paixões enastra;

 

Mas, amanhã, no sorridor noivado,
A vida triste por que tens passado,
De madressilvas e jasmins se alastra.

 

 

Mãe e filho

 

Às Mães Desamparadas

 

Jesus, meu filho, o encanto das crianças,
Quando na cruz, de angustia espedaçado,
Em sangue casto e límpido banhado,
Manso, tão manso como as pombas mansas;

 

Embora as duras e afiadas lanças
Com que os judeus, tinham, de lado a lado,
Seu coração puríssimo varado,
Inda no olhar raiavam-lhe esperanças.

 

Por isso, ó filho, ó meu amor — se a esmola
De algum conforto essencial não rola
Por nós — é forca conduzir a cruz!...

 

Mas, volta ó filho, pesaroso e triste.
Se a nossa vida só na dor consiste,
Ah! minha mãe, por que morreu Jesus?...

 

 

Natureza

 

Aos Poetas

 

 

Tudo por ti resplende e se constela,
Tudo por ti, suavíssimo, flameja;
És o pulmão da racional peleja,
Sempre viril, consoladora e bela.

 

Teu coração de pérolas se estrela,
E o bom falerno dás a quem deseja
Vigor, saúde a crença que floreja,
Que as expansões do cérebro revela.

 

Toda essa luz que bebe-se de um hausto
Nos livros sãos, todo esse enorme fausto
Vem das verduras brandas que reluzem!

 

Esse da ideia esplêndido eletrismo,
O forte, o grande, audaz psicologismo,
Os organismos naturais produzem...

 

 

Surdinas

 

Às Raparigas Tristes

 

 

Vais partir, vais partir que eu bem te vejo
Na branca face os gélidos suores,
Vais procurar as musicas melhores
Do sol, da glória e do celeste beijo.

 

Dentro de ti harpas do desejo
Não vibram mais — embora que tu chores —
Nem pelas tuas aflições maiores
Se escuta um vago e enfraquecido arpejo...

 

Bem! vais partir, vais demandar esferas
Amplas de luz, feitas de primaveras,
Paisagens novas e amplidão florida...

 

Mas ao chegar-te a lágrima infinita,
Lembra-te ainda, ó pálida bonita
De que houve alguém que te adorou na vida.

 

 

Irradiações

 

Às Crianças

 

 

Qual da amplidão fantástica e serena
À luz vermelha e rútila da aurora
Cai, gota a gota, o orvalho que avigora
A imaculada e cândida açucena.

 

Como na cruz, da triste Madalena
Aos pés de Cristo, a lágrima sonora
Caia, rolou, qual bálsamo que irrora
A negra mágoa, a indefinida pena...

 

Caia por vós, esplêndidas crianças
Bando feliz de castas esperanças,
Sonhos da estrela no infinito imersos;

 

Caia por vós, as músicas formosas,
Como um dilúvio matinal de rosas,
Todo o luar benéfico dos versos!

 

 

Ambos

 

 

Vão pela estrada, à margem dos caminhos
Arenosos, compridos, salutares,
Por onde, a noite, os límpidos luares
Dão às verduras leves tons de arminhos.

 

Nuvens alegres como os alvos linhos
Cortam a doce compridão dos ares,
Dentre as canções e os tropos singulares
Dos inefáveis, meigos passarinhos.

 

Do céu feliz na branda curvidade,
A luz expande a inteira alacridade,
O mais supremo e encantador afago.

 

E com o olhar vibrante de desejos
Vão decifrando os trêmulos arpejos,
E as reticências que produz o vago.

 

 

Plenilúnio

 

 

Vês este céu tão límpido e constelado
E este luar que em fúlgida cascata,
Cai, rola, cai, nuns borbotões de prata...
Vês este céu de mármore azulado...

 

Vês este campo intérmino, encharcado
Da luz que a lua aos páramos desata...
Vês este véu que branco se dilata
Pelo verdor do campo iluminado...

Vês estes rios, tão fosforescentes,
Cheios duns tons, duns prismas reluzentes,

 

Vês estes rios cheios de ardentias...

Vês esta mole e transparente gaze...
Pois é, como isso me parecem quase
Iguais, assim, às nossas alegrias!

 

    

 

Os dois

 

Aos Pobres

 

 

— Minha mãe, minha mãe, quanta grandeza
Nesses plácidos, quanta majestade;
Como essa gente há de viver, como há de
Ser grande sempre na feliz riqueza.

 

Nem uma lágrima sequer — e à mesa
D’entre as baixelas, d’entre a imensidade
Da prata e do ouro — a azul felicidade
Dos bons manjares de ótima surpresa.

 

Nem um instante os olhos rasos d’água,
Nem a ligeira oscilação da mágoa
Na vida farta de prazer, sonora.

 

— Como o teu louco pensamento expandes
Filho — a ventura não é só dos grandes
Porque, olha, o mar também é grande e... chore!

 

 

Triste

 

 

Vai-se extinguindo a viva labareda
Que te abrasava o coração ridente...
Passas magoada pela rua e a gente
Umas converses funerais segreda.

 

Não tens no olhar o sangue q’embebeda,
Foram-se as rosas do viver contente...
Segues, agora, pobre flor — somente
Da sepultura a essencial vereda.

 

E vem chegando o tenebroso inverno...
Mas nesse mal devorador e eterno,
Teu organismo já não mais resiste

 

Às punhaladas da estação de gelo...
E acabará como eu nem sei dizê-lo,
Triste, bem triste, pesarosa, triste!

 

 

Celeste

Aos Corações Ideais

 

 

Lembra-me ainda — ao lado de um repuxo,
Pela brancura de um luar de agosto,
O teu maninho, um loiro pequerrucho
Brincava, rindo, te afagando o rosto...

 

Lembra-me ainda — as sombras do sol posto,
Numa saleta sem brasões de luxo,
De alguns bordados de fineza e gosto
Delineavas o gentil debuxo...

 

E o gás que forte e cintilante ardia,
Te iluminava, te alagava... ria...
Da luz ficavas no imponente abrigo.

 

E agora... deixa que ao cair da noite,
Esta lembrança dentro de mim se acoite,
Como a andorinha no telhado amigo!

 

 

[Estas risadas]

 

 

Estas risadas límpidas e frescas
Que Pan trauteia em cálamos maviosos
Nesta amplidão dos campos verdurosos,
Nestas paisagens flóreas, pitorescas;

 

Toda esta pompa e gala principescas
Destas searas, destes altanosos
Montes e várzeas, prados vigorosos,
Louros — talvez como as visões tudescas;

 

Este luxuoso e rico paramento,
Feito de luz e de deslumbramento
— Do grande altar da natureza imensa.

 

Aguarda o poeta sacerdote augusto,
Para cantar no seu missal robusto,
A nova Missa da razão que pensa...

 

 

Aos mortos

 

 

Oh! não é bom rir-se de um morto — brusca
Pois deve ser a sensação que aumenta
Desoladora, vagarosa, lenta
Da negra morte tétrica velhusca...

 

Tudo que em vida, como um sol, corusca,
Que nos aquece, que nos acalenta,
Tudo que a dor e a lágrima afugenta,
O olhar da morte nos apaga e ofusca...

Nunca se deve desprezar os mortos...
Nos regelados e sombrios portos,
Onde a matéria se transforma e urge

 

Exuberar na planturosa leiva,
Vivem os mortos no vigor da seiva,
Porque dão vida ao que da vida surge!...

 

 

Luar

 

 

Pelas esferas, nuvens peregrinas,
Brandas de toques, encaracoladas,
Passam de longe, tímidas, nevadas,
Cruzando o azul sereno das colinas.

 

Sombras da tarde, sombras vespertinas
Como escumilhas leves, delicadas,
Caem da serra oblonga nas quebradas,
Vão penumbrando as coisas cristalinas.

 

Rasga o silêncio a nota chã, plangente,
Da Ave-Maria, — e então, nervosamente,
Nuns inefáveis, espontâneos jorros

 

Esbate o luar, de forma admirável,
Claro, bondoso, elétrico, saudável,
Na curvilínea compridão dos mortos.

 

 

Mocidade

 

 

Ah! esta mocidade! — Quem é moço
Sente vibrar a febre enlouquecida
Das ilusões, da crença mais florida
Na muscular artéria de Colosso...

 

Das incertezas nunca mede o poço...
Asas abertas — na amplidão da vida,
Páramo a dentro — de cabeça erguida,
Vê do futuro o mais alegre esboço...

 

Chega a velhice, a neve das idades
E quem foi moço, volve, com saudades,
Do azul passado, o fulgido compêndio...

 

Ai! esta mocidade palpitante,
Lembra um inseto de ouro, rutilante,
Em derredor das chamas de um incêndio!

 

 

[Vão-se de todo]

 

 

Vão-se de todo os pardacentos nimbos...
Chovem da luz as nítidas faíscas
E no esplendor de irradiações mouriscas,
Abrem-se as flores em gentis corimbos.

 

Muito mais lestas do que amigos fimbos,
Do Azul cortando as bordaduras priscas,
Pombas do mato esvoaçando, ariscas,
Do céu se perdem nos profundos limbos.

 

A natureza pulsa como a forja...
Pássaros vibram no clarim da gorja,
As retumbantes, fortes clarinadas.

 

A grande artéria dos assombros pula...
E do oxigênio, a força que regula
Enche os pulmões a largas baforadas.

 

 

Na fonte

 

(1ª versão)

 

 

Bem ao lado da gruta a fonte corre
Trepidamente, as águas encrespando,
Em murmúrios crebos, levantando
Uns chamalotes prateados — morre

 

No monte o sol que a luz no oceano escorre
E ainda eu vejo, as sombras afrontando,
Uma mulher que lava, mesmo quando
O sol mais rubro, mais vermelho jorre.

 

— É num sítio afastado, um sítio ermo...
Pássaros cortam vastidões sem termo,
Borboletas azuis roçam nas águas.

 

— E a mulher lava, enrubescida a face;
Lava, cantando, como se lavasse
As suas tristes e profundas mágoas.

 

 

[A fonte]

 

(Versão definitiva)

 

 

A fonte de águas cristalinas corre
Chamalotes de prata levantando,
E através de arvoredos murmurando,
Entre arvoredos murmurando morre...

 

No ocaso, o sol, a luz no oceano escorre
E sempre vejo, as sombras afrontando,
Uma mulher que canta e ri, lavando,
Mesmo que o sol muito abrasado jorre.

 

É verde o campo, deleitável e ermo.
Pássaros cortam vastidões sem termo,
Borboletas azuis roçam nas águas.

 

E cantando, a mulher, a rir a face,
Lava cantando como se lavasse
As suas grandes e profundas mágoas.

 

 

Cega

 

 

Parece-me que a luz imaculada
Que vem do teu olhar, todo doçuras,
Não verte no meu ser aquelas puras
Delícias de outra era já passada.

 

Eu creio que essa pálpebra adorada
Não mais um flóreo empíreo de venturas
Descobre-me — na noite de amarguras,
De dúvidas intérminas cortada.

 

Não olhas como olhavas, rindo, outrora,
Não abres a pupila, como a aurora
Nascendo, abre, feliz, radiosa e calma.

 

A sombra, nos teus olhos, funda, existe!...
Tu'alma deve ser bem negra e triste
Se os olhos são, decerto, o espelho d’alma.

 

 

A Ermida

 

 

Lá onde a calma e a placidez existe,
Sobre as colinas que o vergel encobre,
Aquela ermida como está tão pobre,
Aquela ermida como está tão triste.

 

A minha musa, sem falar, assiste,
Do meio-dia ante o aspecto nobre,
O vago, estranho e murmurante dobre
Daquela ermida que aos trovões resiste

 

E as gargalhadas funéreas, sombrias,
Dos crus invernos e das ventanias,
Do temporal desolador e forte.

 

Daquela triste esbranquiçada ermida,
Que me recorda, me parece a vida
Jogada às magoas e ilusões da sorte.

 

 

Água-forte

 

 

Do firmamento azul e curvilíneo
Cai, fecundando as trêmulas raízes
Dos laranjais, dos pâmpanos, das lizes,
A luz do sol procriador, sanguíneo.

 

Pelo caminho agreste e retilíneo,
Da tarde aos brandos, triunfais matizes,
A criançada, a chusma dos felizes,
Esse de auroras perfumado escrínio,

 

Volta da escola, rindo muito, aos saltos,
Trepando, em bulha, aos árvoredos altos
Enquanto o sol desce os outeiros longos...

 

Vai dentre alados madrigais risonhos,
Do abecedário juvenil dos sonhos,
A soletrar os principais ditongos.

 

 

Alma que chora

A João Saldanha

 

 

Em vão do Cristo aos olhos dulçurosos
Onde há o sol do bem e da verdade,
Cheios da luz eterna de saudade,
Como dois mansos corações piedosos,

 

Em vão do Cristo os olhos lacrimosos
E aquela doce e pura suavidade
Do seu semblante, casto, de bondade,
Cor do luar dos sonhos venturosos,

 

Servem de exemplo a dor escruciante
Que te apunhala e fere a cada instante,
A punhaladas ríspidas, austeras!

 

Viste partir a tua irmã, se, viste,
Como num céu enevoado e triste
O bando azul das fúlgidas quimeras...

 

 

Chuva de ouro

 

 

A Rainha desceu do Capitólio
Agora mesmo — vede-lhe o regaço...
Como tem flores, como traz o braço
Farto de joias, como pisa o sólio

 

Triunfantemente, numa unção, num óleo
Mais santo e doce que essa luz do espaço...
E como desce com bravura de aço...
Pois se a Rainha, como um rico espólio,

 

O seu brioso coração foi dando
Aos pobrezinhos, que inda estão gozando
Bênçãos mais puras qu'os clarões diurnos,

 

Por certo que há de vir descendo a escada
Do Capitólio da virtude — olhada
Pelos Albergues infantis, noturnos!

 

 

Primeira a fora

 

 

Escute, excelentíssima: — Que aragens
Traz do árvoredo a fresca romaria;
Como este sol é rubro de alegria,
Que tons de luz nas límpidas paisagens.

 

Pois beba este ar e goze estas viagens
Das brancas aves, sinta esta harmonia
Da natureza e deste alegre dia
Que resplandece e ri-se nas ervagens.

 

Deixe lá fora estrangular-se o mundo...
Encare o céu e veja este fecundo
Chão que produz e que germina as flores.

 

Vamos, senhora, o braço à primavera,
E numa doce música sincera,
Cante a balada eterna dos amores...

 

 

25 de março

(Recife, 1885)

 

 

 

EM PERNAMBUCO PARA O CEARÁ

 

A província do Ceará sendo o berço de Alencar e Francisco Nascimento — o dragão do mar — é consequentemente a mãe da literatura e a mãe da humanidade.

 

Bem como uma cabeça inteiramente nua
De sonhos e pensar, de arroubos e de luzes,
O sol de surpreso esconde-se, recua,
Na órbita traçada — de fogo dos obuses.

 

Da enérgica batalha estoica do Direito
Desaba a escravatura — a lei cujos fossos
Se ergue a consciência — e a onda em mil destroços
Resvala e tomba e cai o branco preconceito.

 

E o Novo Continente, ao largo e grande esforço
De gerações de heróis — presentes pelo dorso
À rubra luz da glória — enquanto voa e zumbe.

 

O inseto do terror, a treva que amortalha,
As lágrimas do Rei e os bravos da canalha,
O velho escravagismo estéril que sucumbe.

 

 

Ninho abandono

À distinta família Simas, pela morte de seu chefe, o Ilmo. Sr. João da Silva Simas.

 

 

O vosso lar harmônico e tranquilo
Era um ninho de luz e de esperanças
Que como abelhas iriadas, mansas,
Nos vossos corações tinham asilo.

 

Havia lá por dentro tanta crença
E tanto amor puríssimo, cantando,
Que parecia um largo sol faiscando
Por majestosa catedral imensa.

 

Agora o ninho está desamparado!
Sumiu-se dele o pássaro adorado,
O mais ideal dos pássaros do ninho.

 

Não se ouve mais a música sonora
Da sua voz — dentro do ninho, agora,
Paira a saudade como um bom carinho.

 

 

Crença

 

 

Filha do céu, a pura crença é isto
Que eu vejo em ti, na vastidão das cousas,
Nessa mudez castíssima das lousas,
No belo rosto sonhador do Cristo.

 

A crença é tudo quanto tenho visto
Nos olhos teus, quando a cabeça pousas
Sobre o meu colo e que dizer não ousas
Todo esse amor que eu venço e que conquisto.

 

A crença é ter os peregrinos olhos
Abertos sempre aos ríspidos escolhos;
Tê-los à frente de qualquer farol

 

E conservá-los, simplesmente acesos
Como dois fachos — engastados, presos
Nas radiações prismáticas do sol!

 

 

Cristo e a adúltera

(Grupo de Bernardelli)

 

 

Sente-se a extrema comoção do artista
No grupo ideal de plácida candura,
Nesse esplendor tão fino da escultura
Para onde a luz de todo o olhar enrista.

 

Que campo, ali, de rútila conquista
Deve rasgar, do mármore na alvura,
O estatuário — que amplidão segura
Tem — de alma e braço, de razão e vista!

 

Vê-se a mulher que implora, ajoelhada,
A mais serena compaixão sagrada
De um Cristo feito a largos tons gloriosos.

 

De um Nazareno compassivo e terno,
D'olhos que lembram, cheios de falerno,
Dois inefáveis corações piedosos!

 

 

Êxtase de mármore

À grande atriz Apolônia.

 

 

O mármore profundo e cinzelado
De uma estátua viril, deliciosa;
Essa pedra que geme, anseia e goza

Num misticismo altíssimo e calado;

Essa pedra imortal — campo rasgado
A comoção mais íntima e nervosa
Da alma do artista, de um frescor-de-rosa,
Feita do azul de um céu muito azulado;

 

Se te visse o clarão que pelos ombros
Teus, rola, cai, nos múltiplos assombros
Da Arte sonora, plena de harmonia;

 

O mármore feliz que é muito artista
Também — como tu és — à tua vista
De humildade e ciúme, coraria!

 

 

Inverno

 

 

Amanheceu — no topo da colina
Um céu de madrepérola se arqueia
Limpo, lavado, reluzindo — ondeia
O perfume da selva esmeraldina.

 

Uma luz virginal e cristalina,
Como de um rio a transbordante cheia,
Alaga as terras culturais e arreia
De pingos d'ouro os verdes da campina.

 

Um sol pagão, de um louro gema d'ovo,
Já tão antigo e quase sempre novo
Surge na frígida estação do inverno.

 

— Chilreiam muito em árvores frondosas
Pássaros — fulge o orvalho pelas rosas
Como o vigor no espírito moderno.

 

 

Falando ao céu

 

 

Falas ao Céu, Amor! Em vão tu falas!
Mas o céu, esse é velho, esse é velhinho,
Todo ele é branco, faz lembrar o linho
Dos leitos alvos onde tu te embalas.

 

A alma do céu é como velhas salas
Sem ar, sem luz, como lares sem vinho
Sem água e pão, sem fogo e sem carinho,
Sem as mais toscas, as mais simples galas.

 

Sempre surdo, hoje o céu é mudo, é cego...
Jamais o coração ao céu entrego,
Eu que tão cego vou por entre abrolhos.

 

Mas se queres tornar jovem e louro
Dá-lhe o bordão do teu amor um pouco
Fala e vista, com a vida dos teus olhos...

 

 

Gloriosa

A Araújo Figueiredo

 

 

Pomba! dos céus me dizes que vieste,
Toda c’roada de astros e de rosas,
Mas há regiões mais que essas luminosas.
Não, tu não vens da região celeste

 

Há um outro esplendor em tua veste,
Uma outra luz nas tranças primorosas,
Outra harmonia em teu olhar — maviosas
Cousas em ti que tu nunca tiveste.

 

Não, tu não vens das célicas planuras,
Do Éden que ri e canta nas alturas
Como essa voz que dos teus lábios tomba.

 

Vens de mais longe, vens doutras paragens,
Vens doutros céus de místicas celagens,
Sim, vens de sóis e das auroras, pomba.

 

 

O chalé

 

 

É um chalé luzido e aristocrático,
De fulgurantes, ricos arabescos,
Janelas livres para os ares frescos,
Galante, raro, encantador, simpático.

 

O sol que vibra em rubro tom prismático,
No resplendor dos luxos principescos,
Dá-lhe uns alegres tiques romanescos,
Um colorido ideal silforimático.

 

Há um jardim de rosas singulares,
Lírios joviais e rosas não vulgares,
Brancas e azuis e roxas purpúreas.

 

E a luz do luar caindo em brilhos vagos,
Na placidez de adormecidos lagos
Abre esquisitas radiações sulfúreas.

 

 

Delírio do som

 

 

O Boabdil mais doce que um carinho,
O teu piano ebúrneo soluçava,
E cada nota, amor, que ele vibrava,
Era-me n’alma um sol desfeito em vinho.

 

Me parecia a música do arminho,
O perfume do lírio que cantava,
A estrela-d’alva que nos céus entoava
Uma canção dulcíssima baixinho.

 

Incomparável, teu piano — e eu cria
Ver-te no espaço, em fluidos de harmonia,
Bela, serena, vaporosa e nua;

 

Como as visões olímpicas do Reno,
Cantando ao ar um delicioso treno
Vago e dolente, com uns tons de lua.

 

 

Ilusões mortas

A Virgílio Várzea

 

 

Os meus amores vão-se mar em fora,
E vão-se mar em fora os meus amores,
A murchar, a murchar, como essas flores
Sem mais orvalho e a doce luz da aurora.

 

E os meus amores não virão agora,
Não baterão as asas multicores,
Como as aves mansas — dentre os esplendores
Do meu prazer, do meu prazer de outrora.

 

Tudo emigrou, rasgando a esfera branca
Das ilusões, — tudo em revoada franca
Partiu — deixando um bem-estar saudoso

 

No fundo ideal de toda a minha vida,
Qual numa taça a gota indefinida
De um bom licor antigo e saboroso.

 

 

O sonho do astrólogo

 

 

As fulgurosas, rútilas estrelas
Como mundos de mundos seculares,
Formando uns arquipélagos, uns mares
De luz — como eu deslumbro o olhar ao vê-las.

 

Ah! se como eu sei compreendê-las,
Sentir-lhes os seus filtros salutares,
Pudesse, da amplidão fria dos ares
Arrancá-las, na mão sempre trazê-las;

 

Que vagalhões de assombros palpitantes
Não me viriam perpassar, faiscantes,
Dentro do ser, nuns doutros murmúrios.

 

Eu saberia muito mais a causa
Da evolução que nunca teve pausa,
Que é uma audácia transbordando em rios.

 

 

 

Cristo

 

 

Cristo morreu, ó tristes criaturas,
Era matéria como vós, morreu;
E quando a noite sepulcral desceu
Gelou com ele o oceano das ternuras.

 

Nunca outro sol de irradiações mais puras
Subiu tão alto e tanto resplendeu,
Nunca ninguém tão firme combateu
Da humanidade todas as torturas.

 

Morreu, que se ele, o Deus, ressuscitasse,
Limpa de sangue e lágrimas a face,
Os seus olhos tranquilos, virginais,

 

Dons inefáveis, corações piedosos,
Tinham de abrir-se muito dolorosos,
Também chorando quando vós chorais!

 

 

Frutas de maio

 

 

Maio chegou — alegre e transparente
Cheio de brilho e música nos ares,
De cristalinos risos salutares,
Frio, porém, ó gota alvinitente.

 

Corre um fluido suave e odorescente
Das laranjeiras, como dos altares
O incenso — e, como a gaze azul dos mares,
Leve — há por tudo um beijo, docemente.

 

Isto bem cedo, de manhã — adiante
Pela tarde um sol calmo, agonizante,
Põe no horizonte resplendentes franjas.

 

Há carinhos, da luz em cada raio,
Filha — e eu que adoro este frescor de maio
Muito, mas muito — trago-te laranjas.

 

 

Eterno sonho

Quelle est donc cette femme?

Je ne comprendrai pas.


Félix Arvers

 

 

Talvez alguém estes meus versos lendo
Não entenda que amor neles palpita,
Nem que saudade trágica, infinita
Por dentro dele sempre está vivendo.

 

Talvez que ela não fique percebendo
A paixão que me enleva e que me agita,
Como de uma alma dolorosa, aflita
Que um sentimento vai desfalecendo.

 

E talvez que ela ao ler-me, com piedade,
Diga, a sorrir, num pouco de amizade,
Boa, gentil e carinhosa e franca:

 

— Ah! bem conheço o teu afeto triste...
E se em minha alma o mesmo não existe,
É que tens essa cor e é que eu sou branca!

 

 

Risadas

Às Criaturas Alegres

 

 

Fantasia, ó fantasia, tropo ardente
Da aurora alegre undiflavando as bandas
Do adamascado e rúbido oriente,
Ó fantasia, águia das asas pandas.

 

Tu que os clarins do sonho mais fulgente
Das Julietas, feres, nas varandas,
Ó fantasia dos Romeus, ó crente,
Por que países meridionais tu andas?!

 

Vem das esferas, entre os sons que vibras.
Vem, que desejo emocionar as fibras,
Quero sentir como este sangue impulsas.

 

Noiva do sol que os sóis preclaros gozas
Para rimar umas canções de rosas,
Como risadas de cristal, avulsas...

 

 

Ave! Maria...  

 

 

Ave! Maria das Estrelas, Ave!
Cheia de graça do luar, Maria!
Harmonia de cântico suave,
Das harpas celestiais branda harmonia...

 

Nuvem d'incensos através da nave
Quando o templo de pompas irradia
E em prantos o órgão vai plangendo grave
A profunda e gemente litania...

 

Seja bendito o fruto do teu ventre,
Jesus, mais belo dentre os astros e entre
As mulheres judaicas mais amado...

 

Ó Luz! Eucaristia da beleza,
Chama sagrada no Evangelho acesa,
Maravilha do Amor e do Pecado!

 

 

Impassível

 

 

Teu coração de mármore não ama
Nem um dia sequer, nem um só dia.
Essa inclemente natureza fria
Jamais na luz dos astros se derrama.

 

Mares e céus, a imensidade clama
Por esse olhar d'estrelas e harmonia,
Sem uma névoa de melancolia,
Do amor nas pompas e na vida chama.

 

A Imensidade nunca mais quer vê-lo,
Indiferente às comoções, de gelo
Ao mar, ao sol, aos roseirais de aromas.

 

Ama com o teu olhar, que a tudo encantas,
Ou se antes de pedra, como as santas,
Mudas e tristes dentro das redomas.

 

 

Verônica

 

 

Não a face do Cristo, a macilenta
Face do Cristo, a dolorosa face...
O martírio da Cruz passou fugace
E este Martírio, esta Paixão é lenta.

 

Um vivo sangue a face te ensanguenta,
Mais vivo que se o Deus o derramasse;
Porque esta vã paixão, para que passe,
É mister dos Titãs a luta incruenta.

 

Se tu, Visão da Luz, Visão sagrada
Queres ser a Verônica sonhada,
Consoladora dessa dor sombria

 

Impressa ficara no teu sudário
Não a face do Cristo do Calvário
Mas a face convulsa da Agonia!

 

 

Símiles

(Desterro)

 

 

Pedro traiu a fé do Apostolado.
Madalena chorou de arrependida;
E nessa mágoa triste e indefinida
Havia ainda uns laivos de pecado.

 

Tudo que a Bíblia tinha decretado,
Tudo o que a lenda humilde e dolorida
De Jesus Cristo apregoou na vida,
Cumpriu-se à risca, foi executado.

 

O filho-Deus da cândida Maria,
Da flor de Jericó, na cruz sombria
Os seus dias amáveis terminou.

 

Pedro traiu a fé dos companheiros.
Madalena chorou sob os olmeiros
Jesus Cristo sofreu e... perdoou.

 

 

Exilada

 

 

Bela viajante dos países frios
Não te seduzam nunca estes aspectos
Destas paisagens tropicais — secretos,
— Os teus receios devem ser sombrios.

 

És branca e és loura e tens os amavios
Os incógnitos filtros prediletos
Que podem produzir ondas de afetos
Nos mais sensíveis corações doentios.

 

Loura Visão, Ofélia desmaiada,
Deixa esta febre de ouro, a febre ansiada
Que nos venenos deste sol consiste.

 

Emigra destes cálidos países,
Foge de amargas, fundas cicatrizes,
Das alucinações de um vinho triste...

 

 

Sonetos

 

 

Do som, da luz entre os joviais duetos,
Como uma chusma alada de gaivotas,
Vindos das largas amplidões remotas,
Batem as asas todos os sonetos.

 

Vão — por estradas, por difíceis rotas,
Quatorze versos — entre dois quartetos
E duas belas e luzidas frotas
Rijas, seguras, de mais dois tercetos.

 

Com a brunida lâmina da lima,
Vão céus radiosos, horizontes acima,
Pelas paragens límpidas, gentis,

 

Atravessando o campo das quimeras,
Aberto ao sol das flóreas primaveras,
Todo estrelado de áureos colibris.

 

 

Decadentes

 

 

Richepin, Rollinat! gritos sangrentos
Da carne alvoroçada de desejos,
Mosto de risos, lágrimas e beijos,
Estertores de abutres famulentos.

 

Desesperado frêmito dos ventos,
De harpas, sutis, fantásticos harpejos,
Clarins de guerra, e cânticos e adejos
De aves — todos os vivos elementos.

 

Tudo flameja e nas estrofes canta,
Estruge, zune, em borbotões levanta
Noites, luares, fulgurantes dias.

 

Mas nessa ideal temperatura forte
Tudo isso é triste como a flor da morte
Que brota dentro das caveiras frias...

 

 

 

Olavo Bilac

 

Vim afinal para o solar dos astros,
De irradiações puríssimas e belas,
Numa viagem de alterosos mastros,
Numa viagem de saudosas velas...

Das alegrias nos febris enastros
Que as almas prendem para percebê-las,
Vim cantando e feliz, fugindo aos rastros
Da terra de onde vi e ouvi estrelas.

E por aqui, nas lúcidas paisagens,
Vestido das mais fluídicas roupagens
Tecido de ouro, nos clarões imersos...

Ando a gozar, entre lauréis e palmas,
O que cantei na terra, junto às almas,
Na eterna florescência dos meus versos.

 

 

Doente

 

 

As unhas perigosas da bronquite
Nas tuas carnes sensuais e moles
Não deixarão que o teu amor palpite
Nem que os olhares pelos astros roles.

 

É fatal a moléstia. Só permite
Que te acabes por fim e que te estioles.
Sem que em teu peito o coração se agite,
Sem que te animes, sem que te consoles.

 

Vai se extinguindo a polpa dessas faces...
Mas se ainda hoje em mim acreditasses,
Como no tempo virginal de outrora,

 

Tu curar-te-ias com pequeno esforço
Das serranias através do dorso,
Pela saúde dos vergéis afora.

 

 

Lirial

 

 

Vens com uns tons de searas,

De prados enflorescidos
E trazes os coloridos
Das frescas auroras claras.

 

E tens as nuances raras
Dos bons prazeres servidos
Nos rostos enlourecidos
Das parisienses preclaras.

 

Chapéu das finas elites,
De roses e clematites,
Chapéu Pierrette — entre o sol

 

Passando, esbelta e rosada,
Pareces uma encantada

Canção azul do Tirol.

 

 

To sleep, to dream

 

 

Dormir, sonhar — o poeta inglês o disse...
Ah! Mas se a gente nunca mais sonhasse
Ah! Mas se a gente nunca mais dormisse
E a ilusões não mais acalentasse?

 

E o que importava que o futuro risse
De um visionário que tal cousa ideasse;
Se não seria o único que abrisse
Uma exceção da vida humana à face?...

 

Se os imortais filósofos modernos
Que derrubaram todos os infernos,
Que destruíram toda a teogonia.

 

Orientando a triste humanidade,
Deixaram, mais e mais, a piedade
Inteiramente desolada e fria?

 

 

No campo

 

 

Acordo de manhã cedo
Da luz aos doces carinhos:
Que rosas pelos caminhos!
Que rumor pelo árvoredo!

 

Para o azul radioso e ledo
Sobe, de dentro dos ninhos,
O canto dos passarinhos
Cheio de amor e segredo.

 

Dentre moitas de verdura
Voam as pombas nevadas,
Imaculadas de alvura.

 

Pelas margens das estradas
Que penetrante frescura
Que femininas risadas!

 

 

Visão medieva

 

 

Quando em outras remotas primaveras,
Na idade-média, sob fuscos tetos,
Dois amantes passavam, mil aspectos
Tinham aquelas medievais quimeras.

 

Nas armaduras rígidas e austeras,
Na aérea perspectiva dos objetos
Andavam sonhos e visões, diletos
Segredos mortos nas extintas eras.

 

O fantasma do amor pelos castelos
Mudo vagava entre os luares belos,
Dos corredores nas paredes frias.

 

Não raro se escutava um som de passos,
Rumor de beijos, frêmito de abraços
Pelas caladas, fundas galerias.

 

 

 

Roma pagã

 

 

Na antiga Roma, quando a saturnal fremente
Exerceu sobre tudo o báquico domínio,
Não era raro ver nos gozos do triclínio
A nudez feminina imperiosa e quente.

 

O corpo de alabastro, olímpico e fulgente,
Lascivamente nu, correto e retilíneo,
Num doce tom de cor, esplêndido e sanguíneo,
Tinha o assombro da carne e a forma da serpente.

 

A luz atravessava em frocos d’oiro e rosa
Pela fresca epiderme, ebúrnea e cetinosa,
Macia, da maciez dulcíssima de arminhos.

 

Menos raro, porém, do que a nudez romana
Era ver borbulhar, em férvida espadana
A púrpura do sangue e a púrpura dos vinhos.

 

 

 

Espiritualismo

 

 

Ontem, à tarde, alguns trabalhadores,
Habitantes de além, de sobre a serra,
Cavavam, revolviam toda a terra,
Do sol entre os metálicos fulgores.

 

Cada um deles ali tinha os ardores
De febre de lutar, a luz que encerra
Toda a nobreza do trabalho e — que erra
Só na cabeça dos conspiradores,

 

Desses obscuros revolucionários
Do bem fecundo e cultural das leivas
Que são da Vida os maternais sacrários.

 

E pareceu-me que do chão estuante
Vi porejar um bálsamo de seivas
Geradoras de um mundo mais pensante.

 

 

 

Plangência da tarde

 

 

Quando do campo as prófugas ovelhas
Voltam a tarde, lépidas, balando
Com elas o pastor volta cantando
E fulge o ocaso em convulsões vermelhas.

 

Nos beirados das casas, sobre as telhas
Das andorinhas esvoaça o bando...
E o mar, tranquilo, fica cintilando
Do sol que morre as últimas centelhas.

 

O azul dos montes vago na distância...
No bosque, no ar, a cândida fragrância
Dos aromas vitais que a tarde exala.

 

Às vezes, longe, solta, na esplanada,
A ovelha errante, tonta e desgarrada,
Perdida e triste pelos ermos bala...

 

 

 

Alma antiga

 

 

Põe a tua alma francamente aberta
Ao sol que pelos páramos faísca,
Que o sol para a tua alma velha e prisca
Deve de ser como um clarim de alerta.

 

Desperta, pois, por entre o sol, desperta
Como de um ninho a pomba quente e arisca
À luz da aurora que dos altos risca
De listrões d’ouro a vastidão deserta.

 

Vai por abril em flores gorjeando
Como pássaro exul as canções leves
Que os ventos vão nas árvores deixando.

 

E tira da tua alma, ó doce amiga,
Almas serenas, puras como a neve,
Almas mais novas que a tua alma antiga!

 

 

Vanda

 

 

Vanda! Vanda do amor, formosa Vanda,
Macuana gentil, de aspecto triste,
Deixe que o coração que tu poluíste
Um dia, se abra e revivesça e expanda.

 

Nesse teu lábio sem calor onde anda
A sombra vã de amores que sentiste
Outrora, acende risos que não viste
Nunca e as tristezas para longe manda.

 

Esquece a dor, a lúbrica serpente
Que, embora esmaguem-lhe a cabeça ardente,
Agita sempre a cauda venenosa.

 

Deixa pousar na seara dos teus dias
A caravana irial das alegrias
Como as abelhas pousam numa rosa.

 

 

Êxtase

 

 

Quando vens para mim, abrindo os braços
Numa carícia lânguida e quebrada,
Sinto o esplendor de cantos de alvorada
Na amorosa fremência dos teus passos.

 

Partindo os duros e terrestres laços,
A alma tonta, em delírio, alvoroçada,
Sobe dos astros a radiosa escada
Atravessando a curva dos espaços.

 

Vens, enquanto que eu, perplexo d’espanto,
Mal te posso abraçar, gozar-te o encanto
Dos seios, dentre esses rendados folhos.

 

Nem um beijo te dou! abstrato e mudo
Diante de ti, sinto-te, absorto em tudo,
Uns rumores de pássaros nos olhos.

 

 

Luar

 

 

Ao longo das louríssimas searas
Caiu a noite taciturna e fria...
Cessou no espaço a límpida harmonia
Das infinitas perspectivas claras.

 

As estrelas no céu, puras e raras,
Como um cristal que nítido radia,
Abrem da noite na mudez sombria
O cofre ideal de pedrarias caras.

 

Mas uma luz aos poucos vai subindo
Como do largo mar ao firmamento — abrindo
Largo clarão em flocos d’escumilha.

 

Vai subindo, subindo o firmamento!
E branca e doce e nívea, lento e lento,
A lua cheia pelos campos brilha...

 

 

Celeste

 

 

Vi-te crescer! tu eras a criança
Mais linda, mais gentil, mais delicada:
Tinhas no rosto as cores da alvorada
E o sol disperso pela loira trança.

 

Asas tinhas também, as da esperança...
E de tal sorte eras sutil e alada
Que parecias ave arrebatada
Na luz do Espaço onde a razão descansa!

 

Depois, então, fizeste-te menina,
Visão de amor, puríssima, divina,
Perante a qual ainda hoje me ajoelho.

 

Cresceste mais! És bela e moça agora...
Mas eu, que acompanhei toda essa aurora,
Sinto bem quanto estou ficando velho.

 

 

A partida

 

 

Partimos muito cedo — A madrugada
Clara, serena, vaporosa e fresca,
Tinha as nuances de mulher tudesca
De fina carne esplêndida e rosada.

 

Seguimos sempre afora pela estrada
Franca, poeirenta, alegre e pitoresca,
Dentre o frescor e a luz madrigalesca
Da natureza aos poucos acordada.

 

Depois, no fim, lá de algum tempo — quando
Chegamos nós ao termo da viagem,
Ambos joviais, a rir, cantarolando,

 

Da mesma parte do levante, de onde
Saímos, pois, faiscava na paisagem
O sol, radioso e altivo como um conde.

 

 

Canção de abril

 

 

Vejo-te, enfim, alegre e satisfeita.
Ora bem, ora bem! — Vamos embora
Por estes campos e rosais afora
De onde a tribo das aves nos espreita.

 

Deixa que eu faça a matinal colheita
Dos teus sonhos azuis em cada aurora,
Agora que este abril nos canta, agora,
A florida canção que nos deleita.

 

Solta essa fulva cabeleira de ouro
E vem, subjuga com teu busto louro
O sol que os mundos vai radiando e abrindo.

 

E verás, ao raiar dessa beleza,
Nesse esplendor da virgem natureza,
Astros e flores palpitando e rindo.

 

 

O mar

 

 

Que nostalgia vem das tuas vagas,
Ó velho mar, ó lutador Oceano!
Tu de saudades íntimas alagas
O mais profundo coração humano.

 

Sim! Do teu choro enorme e soberano,
Do teu gemer nas desoladas plagas
Sai o quer que é, rude sultão ufano,
Que abre nos peitos verdadeiras chagas.

 

Ó mar! ó mar! embora esse eletrismo,
Tu tens em ti o gérmen do lirismo,
És um poeta lírico demais.

 

E eu para rir com humor das tuas
Nevroses colossais, bastam-me as luas
Quando fazem luzir os seus metais...

 

 

Manhã

 

 

Alta alvorada. — Os últimos nevoeiros
A luz que nasce levemente espalha;
Move-se o bosque, a selva que farfalha
Cheia da vida dos clarões primeiros.

 

Da passarada os voos condoreiros,
Os cantos e o ar que as árvores ramalha
Lembram combate, estrídula batalha
De elementos contrários e altaneiros.

 

Vozes, trinados, vibrações, rumores
Crescem, vão se fundindo aos esplendores
Da luz que jorra de invisível taça.

 

E como um rei num galeão do Oriente
O sol põe-se a tocar bizarramente
Fanfarras marciais, trompas de caça.

 

 

Rir!

 

 

Rir! Não parece ao século presente
Que o rir traduza, sempre, uma alegria...
Rir! Mas não rir como essa pobre gente
Que ri sem arte e sem filosofia.

 

Rir! Mas com o rir atroz, o rir tremente,
Com que André Gil eternamente ria.
Rir! Mas com o rir demolidor e quente
Duma profunda e trágica ironia.

 

Antes chorar! Mais fácil nos parece.
Porque o chorar nos ilumina e nos aquece
Nesta noite gelada do existir.

 

Antes chorar que rir de modo triste...
Pois que o difícil do rir bem consiste
Só em saber como Henri Heine rir!...

 

 

 

Ideal comum

(Soneto a quatro mãos)

 

 

Dos cheirosos, silvestres ananases
De casca rubra e polpa acidulosa,
Tens na carne fremente, voluptuosa,
Os aromas recônditos, vivazes.

 

Lembras lírios, papoulas e lilases;
A tua boca exala a trevo e a rosa,
Resplande essa cabeça primorosa
E o dia e a noite nos teus olhos trazes.

 

Astros, jardins, relâmpagos e luares
Inundam-te os fantásticos cismares,
Cheios de amor e estranhos calafrios;

 

E teus seios, olímpicos, morenos,
Propinando-me trágicos venenos,
São como em brumas, solitários rios.

 

 

 

Aspiração

 

 

Quisera ser a serpe astuciosa
Que te dá medo e faz-te pesadelos
Para esconder-me, ó flor luxuriosa,
Na floresta ideal dos teus cabelos.

 

Quisera ser a serpe venenosa
Para enroscar-me em múltiplos novelos,
Para saltar-te aos seios cor-de-rosa.
E bajulá-los e depois mordê-los.

 

Talvez que o sangue impuro e rutilante
Do teu divino corpo de bacante,
Sangue febril como um licor do Reno

 

Completamente se purificasse
Pois que um veneno orgânico e vorace
Para ser morto é bom outro veneno.

 

 

Sensibilidade

 

 

Como os audazes, ruivos argonautas,
Intrépidos, viris e corajosos
Que voltam dos orientes fantasiosos,
Dos países de Núbios e Aranautas.

 

Como esses bravos, que por naus incautas,
Regressam dos oceanos borrascosos,
Indo encontrar nos lares harmoniosos
De luz, vinho e alegria as mesas lautas.

 

Tal o meu coração, quando aparece
A tua imagem, canta e resplandece,
Sem lutas, sem paixões, livre de abrolhos.

 

A meu pesar, louco de ver-te, louco,
As lágrimas me correm pouco a pouco,
Como o champanhe virginal dos olhos...

 

 

Glórias antigas

 

 

Rubras como gauleses arruivados,
Voltam da guerra as hostes triunfantes,
Trazem nas lanças d’aço lampejantes,
Os louros das batalhas pendurados.

 

Os escudos e arneses dos soldados
Rutilam como lascas de diamantes
E na armadura os músculos vibrantes,
Rijos, palpitam, batem nervurados.

 

Dentre estandartes, flâmulas de cores,
Trazem dos olhos rufos de tambores,
Ruídos de alegria estranha e louca.

 

Chegam por fim, à pátria vitoriosa...
E então, da ardente glória belicosa,
Há um grito vermelho em cada boca!

 

 

Pássaro marinho

 

 

Manhã de maio, rosas pelo prado,
Gorjeios, pelas matas verdurosas
E a luz cantando o idílio de um noivado
Por entre as matas e por entre as rosas.

 

Uma toilette matinal que o alado
Corpo te enflora em graças vaporosas,
Mergulhas, como um pássaro rosado,
Nas cristalinas águas murmurosas.

 

Dás o bom dia ao Mar nesse mergulho
E das águas salgadas ao marulho
Sais, no esplendor dos límpidos espaços.

 

Trazes na carne um reflorir de vinhas,
Auroras, virgens músicas marinhas,
Acres aromas de algas e sargaços!

 

 

A freira morta

(Desterro)

 

 

Muda, espectral, entrando as arcarias
Da cripta onde ela jaz eternamente
No austero claustro silencioso — a gente
Desce com as impressões das cinzas frias...

 

Pelas negras abóbadas sombrias
Donde pende uma lâmpada fulgente,
Por entre a frouxa luz triste e dormente
Sobem do claustro as sacras sinfonias.

 

Uma paz de sepulcro após se estende...
E no luar da lâmpada que pende
Brilham clarões de amores condenados...

 

Como que vem do túmulo da morta
Um gemido de dor que os ares corta,
Atravessando os mármores sagrados!

 

 

 

Claro e escuro

 

 

Dentro — os cristais dos tempos fulgurantes,
Músicas, pompas, fartos esplendores,
Luzes, radiando em prismas multicores,
Jarras formosas, lustres coruscantes,

 

Púrpuras ricas, galas flamejantes,
Cintilações e cânticos e flores;
Promiscuamente férvidos odores,
Mórbidos, quentes, finos, penetrantes.

 

Por entre o incenso, em límpida cascata,
Dos siderais turíbulos de prata,
Das sedas raras das mulheres nobres;

 

Clara explosão fantástica de aurora,
Deslumbramentos, nos altares! — Fora,
Uma falange intérmina de pobres.

 

 

Magnólia dos trópicos

A Araújo Figueiredo

 

 

Com as rosas e o luar, os sonhos e as neblinas,
Ó magnólia de luz, cotovia dos mares,
Formaram-te talvez os brancos nenúfares
Da tua carne ideal, de correções felinas.

 

O teu colo pagão de virgens curvas finas
É o mais imaculado e flóreo dos altares,
Donde eu vejo elevar-se eternamente aos ares
Viáticos de amor e preces diamantinas.

 

Abre, pois, para mim os teus braços de seda
E do verso através a límpida alameda
Onde há frescura e sombra e sol e murmurejo;

 

Vem! com a asa de um beijo a boca palpitando,
No alvoroço febril de um pássaro cantando,
Vem dar-me a extrema-unção do teu amor num beijo.

 

 

Hóstias

A Emílio de Menezes

 

 

Nos arminhos das nuvens do infinito
Vamos noivar por entre os esplendores,
Como aves soltas em vergéis de flores,
Ou penitentes de um estranho rito.

 

Que seja nosso amor — sidério mito! —
O límpido turíbulo das dores,
Derramando o incenso dos amores
Por sobre o humano coração aflito.

 

Como num templo, numa clara igreja,
Que o sonho nupcial gozado seja,
Que eu durma e sonhe nos teus níveos flancos.

 

Contigo aos astros fúlgidos alado,
Que sejam hóstias para o meu noivado
As flores virgens dos teus seios brancos!

 

 

Boca imortal

 

 

Abre a boca mordaz num riso convulsivo
Ó fera sensual, luxuriosa fera!
Que essa boca nervosa, em riso de pantera,
Quando ri para mim lembra um capro lascivo.

 

Teu olhar dá-me febre e dá-me um brusco e vivo
Tremor as carnes, que eu, se ele em mim reverbera,
Fico aceso no horror da paixão que ele gera,
Inflamada, fatal, dum sangue rubro e ativo.

 

Mas a boca produz tais sensações de morte,
O teu riso, afinal, é tão profundo e forte
E tem de tanta dor tantas negras raízes;

 

Rigolboche do tom, ó flor pompadouresca!
Que és, para mim, no mundo, a trágica e dantesca
Imperatriz da Dor, entre as imperatrizes!

 

 

Psicologia humana

A Santos Lostada

 

 

Por trás de uns vidros d’óculos opacos
Muita vez um leão e um tigre rugem,
E como um surdo temporal estrugem
Os ódios dos covardes e dos fracos.

 

Partir pudesses, ó poeta, em cacos,
Vidros que ocultam almas de ferrugem,
Que espumam de ira, tenebrosas mugem,
Mugem como de dentro de uns buracos.

 

Que essas sombrias, dúbias almas foscas
Que parecem, no entanto, como moscas,
Inofensivas, babam como as lesmas.

 

Mas tu, em vão, tais vidros partirias,
Pois que no mundo, eternamente, as frias
Almas humanas serão sempre as mesmas!

 

 

Os mortos

 

 

Ao menos junto dos mortos pode a gente
Crer e esperar n’alguma suavidade:
Crer no doce consolo da saudade
E esperar do descanso eternamente.

 

Junto aos mortos, por certo, a fé ardente
Não perde a sua viva claridade;
Cantam as aves do céu na intimidade
Do coração o mais indiferente.

 

Os mortos dão-nos paz imensa à vida,
Dão a lembrança vaga, indefinida
Dos seus feitos gentis, nobres, altivos.

 

Nas lutas vãs do tenebroso mundo
Os mortos são ainda o bem profundo
Que nos faz esquecer o horror dos vivos.

 

 

Floripes

 

 

Fazes lembrar as mouras dos castelos,
As errantes visões abandonadas
Que pelo alto das torres encantadas
Suspiravam de trêmulos anelos.

 

Traços ligeiros, tímidos, singelos
Acordam-te nas formas delicadas
Saudades mortas de regiões sagradas,
Carinhos, beijos, lágrimas, desvelos.

 

Um requinte de graça e fantasia
Dá-te segredos de melancolia,
Da Lua todo o lânguido abandono...

 

Desejos vagos, olvidadas queixas
Vão morrer no calor dessas madeixas,
Nas virgens florescências do teu sono.

 

 

O cego do Harmonium

 

 

Esse cego do harmonium me atormenta
E atormentando me seduz, fascina.
A minh’alma para ele vai sedenta
Por falar com a sua alma peregrina.

 

O seu cantar nostálgico adormenta
Como um luar de mórbida neblina.
O harmonium geme certa queixa lenta,
Certa esquisita e lânguida surdina.

 

Os seus olhos parecem dois desejos
Mortos em flor, dois luminosos beijos
Fanados, apagados, esquecidos...

 

Ah! eu não sei o sentimento vário
Que prende-me a esse cego solitário,
De olhos aflitos como vãos gemidos!

 

 

Horas de sombra

 

 

Horas de sombra, de silêncio amigo
Quando há em tudo o encanto da humildade
E que o anjo branco e belo da saudade
Roga por nós o seu perfil antigo.

 

Horas que o coração não vê perigo
De gozar, de sentir com liberdade...
Horas da asa imortal da Eternidade
Aberta sobre tumular jazigo.

 

Horas da compaixão e da clemência,
Dos segredos sagrados da existência,
De sombras de perdão sempre benditas.

 

Horas fecundas, de mistério casto,
Quando dos céus desce, profundo e vasto,
O repouso das almas infinitas.

 

 

Aleluia! Aleluia!  

 

 

Dentre um cortejo de harpas e alaúdes
Ó Arcanjo sereno, Arcanjo níveo,
Baixas-te à terra, ao mundanal convívio...
Pois que a terra te ajude, e tu me ajudes.

 

Que tu me alentes nas batalhas rudes,
Que me tragas a flor de um doce alívio
Aos báratros, às brenhas, ao declívio
Deste caminho de ânsias e ataúdes...

 

Já que desceste das regiões celestes,
Nesse clarão flamívomo das vestes,
Através dos troféus da Eternidade

 

Traz-me a Luz, traz-me a Paz, traz-me a Esperança
Para a minh’alma que de angústias cansa,
Errando pelos claustros da Saudade!

 

 

Rosa negra

 

 

Nervosa Flor, carnívora, suprema,
Flor dos sonhos da Morte, Flor sombria,
Nos labirintos da tu’alma fria
Deixa que eu sofra, me debata e gema.

 

Do Dante o atroz, o tenebroso lema
Do Inferno a porta em trágica ironia,
Eu vejo, com terrível agonia,
Sobre o teu coração, torvo problema.

 

Flor do delírio, flor do sangue estuoso
Que explode, porejando, caudaloso,
Das volúpias da carne nos gemidos.

 

Rosa negra da treva, Flor do nada,
Dá-me essa boca acídula, rasgada,
Que vale mais que os corações proibidos!

 

 

Vozinha

 

 

Velha, velhinha, da doçura boa
De uma pomba nevada, etérea, mansa.
Alma que se ilumina e se balança
Dentre as redes da Fé que nos perdoa.

 

Cabeça branca de serena leoa,
Carinho, amor, meiguice que não cansa,
Coração nobre sempre como a lança
Que não vergue, não fira e que não doa.

 

Olhos e voz de castidades vivas,
Pão ázimo das Páscoas afetivas,
Simples, tranquila, dadivosa, franca.

 

Morreu tal qual vivera, mansamente,
Na alvura doce de uma luz algente,
Como que morta de uma morte branca.

 

 

No Egito

 

 

Sob os ardentes sóis do fulvo Egito
De areia estuosa, de candente argila,
Dos sonhos da alma o turbilhão desfila,
Abre as asas no páramo infinito.

 

O Egito é sempre o amigo, o velho rito
Onde um mistério singular se asila
E onde, talvez mais calma, mais tranquila
A alma descansa do sofrer prescrito.

 

Sobre as ruínas d’ouro do passado,
No céu cavo, remoto, ermo e sagrado,
Torva morte espectral pairou ufana...

 

E no aspecto de tudo em torno, em tudo,
Árido, pétreo, silencioso, mudo,
Parece morta a própria dor humana!

 

 

Ocasos

 

 

Morrem no Azul saudades infinitas
Mistérios e segredos inefáveis...
Ah! Vagas ilusões imponderáveis,
Esperanças acerbas e benditas.

 

Ânsias das horas místicas e aflitas,
De horas amargas das intermináveis
Cogitações e agruras insondáveis
De febres tredas, trágicas, malditas.

 

Cogitações de horas de assombro e espanto
Quando das almas num relevo santo
Fulgem de outrora os sonhos apagados.

 

E os braços brancos e tentaculosos
Da Morte, frios, álgidos, nervosos,
Abrem-se pare mim torporizados.

 

 

Repouso

 

 

A cabeça pendida docemente
Em sonhos, sonha o sonhador inquieto,
Repousa e nesse repousar discreto
É sempre o sonho o seu bordão clemente.

 

Cego desta Prisão impenitente
Da Terra e cego do profundo Afeto,
O sonho é sempre o seu bordão secreto
O seu guia divino e refulgente.

 

Nem no repouso encontra a paz que espera,
Para lhe adormecer toda a quimera,
Os círculos fatais do seu Inferno.

 

Entre a calma aparente, a estranha calma,
O seu repouso é sempre a febre d’alma,
O seu repouso é sonho, e sonho eterno.

 

 

Resquiescat...

 

 

Grande, grande Ilusão morta no espaço,
Perdida nos abismos da memória,
Dorme tranquila no esplendor da glória,
Longe das amarguras do cansaço...

 

Ilusão, Flor do sol, do morno e lasso
Sonho da noite tropical e flórea,
Quando as visões da névoa transitória
Penetram na alma, num lascivo abraço...

 

Ó Ilusão! Estranha caravana
de águias, soberbas, de cabeça ufana,
De asas abertas no clarão do Oriente.

 

Não me persiga o teu mistério enorme!
Pelas saudades que me aterram, dorme,
Dorme nos astros infinitamente...

 

 

Doce abismo

 

 

Coração, coração! a suavidade,
Toda a doçura do teu nome santo
É como um cálix de falerno e pranto,
De sangue, de luar e de saudade.

 

Como um beijo de mágoa e de ansiedade,
Como um terno crepúsculo d’encanto,
Como uma sombra de celeste manto,
Um soluço subindo a Eternidade.

 

Como um sudário de Jesus magoado,
Lividamente morto, desolado,
Nas auréolas das flores da amargura.

 

Coração, coração! onda chorosa,
Sinfonia gemente, dolorosa,
Acerba e melancólica doçura.

 

 

Harpas eternas

 

 

Hordas de Anjos titânicos e altivos,
Serenos, colossais, flamipotentes,
De grandes asas vívidas, frementes,
De formas e de aspectos expressivos.

 

Passam, nos sóis da Glória redivivos,
Vibrando as de ouro e de Marfim dolentes,
Finas harpas celestes, refulgentes,
Da luz nos altos resplendores vivos

 

E as harpas enchem todo o imenso espaço
De um cântico pagão, lascivo, lasso,
Original, pecaminoso e brando...

 

E fica no ar, eterna, perpetuada
A lânguida harmonia delicada
Das harpas, todo o espaço avassalando.

 

 

Dupla Via-Láctea

 

 

Sonhei! Sempre sonhar! No ar ondulavam
Os vultos vagos, vaporosos, lentos,
As formas alvas, os perfis nevoentos
Dos Anjos que no Espaço desfilavam.

 

E alas voavam de Anjos brancos, voavam
Por entre hosanas e chamejamentos...
Claros sussurros de celestes ventos
Dos Anjos longas vestes agitavam.

 

E tu, já livre dos terrestres lodos,
Vestida do esplendor dos astros todos,
Nas auréolas dos céus engrinaldada

 

Dentre as zonas de luz flamo-radiante,
Na cruz da Via-Láctea palpitante
Apareceste então crucificada!

 

 

Titãs negros

 

 

Hirtas de Dor, nos áridos desertos
Formidáveis fantasmas das Legendas,
Marcham além, sinistras e tremendas,
As caravanas, dentre os céus abertos...

 

Negros e nus, negros Titãs, cobertos
Das bocas vis das chagas vis e horrendas,
Marcham, caminham por estranhas sendas,
Passos vagos, sonâmbulos, incertos...

 

Passos incertos e os olhares tredos,
Na convulsão de trágicos segredos,
De agonias mortais, febres vorazes...

 

Têm o aspecto fatal das feras bravas
E o rir pungente das legiões escravas,
De dantescos e torvos Satanases!...

 

 

Entre chamas...

 

 

Sonhei que de astros no Infinito presa
Vagavas, brandamente adormecida,
Nas chamas siderais resplandecida,
A carne, em chamas, no Infinito, acesa...

 

E eu pasmava de encanto e de surpresa
Vendo a constelação indefinida
Da tua carne flamejando vida,
Dentre os íris radiantes da beleza...

 

E o teu corpo, nas chamas palpitando,
Os astros em redor maravilhando,
Por entre a auréola dos clarões cantava...

 

Então, de sonho em sonho, absorto, mudo,
Eu senti alastrar, vibrar por tudo
Toda a infinita sensação da lava!...

 

 

O anjo da redenção

 

 

Soberbo, branco, etereamente puro,
Na mão de neve um grande facho aceso,
Nas nevroses astrais dos sóis surpreso,
Das trevas deslumbrando o caos escuro.

 

Portas de bronze e pedra, o horrendo muro
Da masmorra mortal onde estás preso
Desce, penetra o Arcanjo branco, ileso
Do ódio bifronte, torso, torvo e duro.

 

Maravilhas nos olhos e prodígios
Nos olhos, chega dos azuis litígios
Desce à tua caverna de bandido.

 

E sereno, agitando o estranho facho,
Põe-te aos pés e a cabeça, de alto a baixo,
Auréolas imortais de Redimido!

 

 

Salve! Rainha!...

 

 

Ó sempre virgem Maria, concebida sem pecado original,

desde o primeiro instante do teu ser...

 

Mãe de Misericórdia, sem pecado
Original, desde o primeiro instante!
Salve! Rainha da Mansão radiante,
Virgem do Firmamento constelado...

 

Teu coração de espadas lacerado,
Sangrando sangue e fel martirizante,
Escute a minha Dor, a torturante,
A Dor do meu soluço eternizado.

 

A minha Dor, a minha Dor suprema,
A Dor estranha que me prende, algema
Neste Vale de lágrimas profundo...

 

Salve! Rainha! por quem brado e clamo
E brado e brado e com angústia chamo,
Chamo, através das convulsões do mundo!...

 

 

[Brancas aspirações]

 

 

Brancas Aparições, Visões renanas,
Imagens dos Ascetas peregrinos,
Hinos nevoentos, neblinosos hinos
Das brumosas igrejas luteranas.

 

Vago mistério das regiões indianas,
Sonhos do Azul dos astros cristalinos,
Coros de Arcanjos, claros sons divinos
Dos Arcanjos, nas tiorbas soberanas.

 

Tudo ressurge na minh’alma e vaga
Num fluido ideal que me arrebata e alaga,
No abandono mais lânguido mais lasso...

 

Quando lá nos sacrários do Cruzeiro
A lua rasga o trêmulo nevoeiro,
Magoada de vigílias e cansaço...

 

 

Violinos

 

 

Pelas bizarras, góticas janelas
De um tempo medieval o sol ondula:
Nunca os vitrais viram visões mais belas
Quando, no ocaso, o sol os doura e oscula...

 

Doces, multicores aquarelas
Sobre um saudoso céu que além se azula...
Calma, serena, divinal, entre eras,
A pomba ideal dos Ângelus arrula...

 

Rezam de joelhos anjos de mãos postas
Através dos vitrais, e nas encostas
Dos montes sobe a claridade ondeando...

 

É a lua de Deus, que as curves meigas
Foi ondular pelos vergéis e veigas
Magnólias e lírios desfolhando...

 

 

Guerra Junqueiro

 

 

Quando ele do Universo o largo supedâneo
Galgou como os clarões — quebrando o que não serve,
Fazendo que explodissem os astros de seu crânio,
As gemas da razão e os músculos da verve;

 

Quando ele esfuziou nos páramos as trompas,
As trompas marciais — as liras do estupendo,
Pejadas de prodígios, assombros e de pompas,
Crescendo em proporções, crescendo e recrescendo;

 

Quando ele retesou os nervos e as artérias
Do verso orbicular — rasgando das misérias
O ventre do Ideal na forte hematemese.

 

Clamando — é minha a luz, que o século propague-a,
Quando ele avassalou os píncaros da águia
E o sol do Equador vibrou-lhe aquelas teses!

 

 

 

[Deus esculturou-te]

 

À grandiosa atrizinha brasileira Julieta dos Santos,

homenagem no dia do seu benefício.

 

 

Isto pensava, isto escrevo;

Isto tinha n’alma, isto vai no papel,

Que d’outro modo não sei escrever.

(Alm. Garrett)

 

Deus esculturou-te no molde das auroras

Ó misto de prodígio, herdeira dos assombros

E soube colocar-te por sobre os débeis ombros

Dos mundos do ideal, as músicas sonoras!

 

Cravou-te nessa fronte o gênio que fulmina.

Dos astros fez-te os olhos, os risos de alvoradas

E deu-te o vaporoso das grandes matinadas

A maga compleição talmática, divina!

 

E disse-te: ao tablado!... eleva-te, arrebata

A alma de granito suplanta-a, dilata...

Reergue-te na luz, exalta-te, deslumbra!...

 

E mostra as mil falanges de bravos, hodiernas

As tuas criações quais mágicas lanternas

Deixando todo o orbe envolto na penumbra.

17 de janeiro de 1883.

 

 

 

Aspiração

 

 

Tu és a estrela e eu sou o inseto triste!

Vives no Azul, em cima nas esferas,

No centro das risonhas primaveras

Onde por certo o amor eterno existe.

 

E nem de leve a glória vã me assiste

De erguer o voo às olímpicas quimeras

Do teu brilho ideal, lá onde imperas

Nesse esplendor a que ninguém resiste.

 

Enquanto te fulgires nas alturas

Eu errarei nas densas espessuras,

Da terra sobre a rigidez de asfalto.

 

Embalde o teu clarão me enleva e clama!

Mas como a ti voarei, se senti a chama,

Sou tão epqueno e o céu tão alto?

 

 

 

Abstração

 

 

Cava, investiga a fonte dos instintos,

Da grande Ciência prodigiosa e viva...

Busca na escura Idade primitiva,

Desce aos antigos, fundos labirintos.

 

Que nunca mais como apertados cintos

De aço, tu tragas a razão cativa;

Que sintas cada vez mais expressiva

A luz, e os erros para sempre extintos.

 

Porém por mais que tanto te aprofundes

Que a humanidade, os séculos inundes

Com toda a ciência que o teu crênio encerra;

 

Sempre terás, homem moderno, a mágoa

Do princípio de tudo – como o da água

Que livre sai do coração da terra.

 

 

 

Asas de ouro

 

(Aos anos de Horácio de Carvalho)

 

 

Oh! vinte anos enfim! – Chegaste ao cume

Da glória e mais do amor – desses carinhos

Que a alma recebe no frescor dos ninhos,

Nos roseirais abertos em perfume.

 

Que te estrele de sonhos em cardume

Essa cabeça doce como arminhos,

E te gorjeiem muitos passarinhos

Dos teus olhos leais no vivo lume.

 

Bom dia! jovem rei! noivo aloirado

Da primavera que auroresce o prado,

Noivo da mocidade e da alegria.

 

Uma chusma de trêmulos canários

Flavos, trinantes, vindos de céus vários

Vá ao teu quarto gorjear: Bom dia!

 

1887

 

 

 

Jesus

 

 

Jesus que amava as mães e as criancinhas,

E que nasceu tão cândido e risonho,

Tendo no olhar a placidez de um sonho

Mais leve do que um sonho de andorinhas;

 

Esse Jesus que o orgulho das rainhas

Abate e quebra com um ar tristonho

Na cruz – ante esse séquito medonho

De sombras que entristece as criaturinhas;

 

Quando com seus apóstolos ceava,

Jesus, que os bons e os fracos adorava,

Quando bebia gota a gota o vinho;

 

Não sabia, por certo, o Jesus casto

Que neste mundo enganador e vasto

Só há bem poucas gotas de carinho.

 

 

 

Trompa de Roldão

 

 

Rude e membrudo deus peludo, hirsuto,

Convulso como um torvo Laocoonte,

Em que mundo, em que céu, em que horizonte

Foste gerado assim horrendo e bruto?

 

Que fruto podre, que maldito fruto

Envenenado, d’algum pétreo monte

Tragaste – que só tens no olhar, na fronte

E dentro d’alma o mais tremendo luto?

 

Que devastadas e longínquas terras,

Que sociedades, religiões e guerras

Deram-te à Dor o aspecto assim profundo?

 

Quem és, ó deus peludo, ó deus nefando?...

Ah! és o homem, bem sei, e vens calçando

A pata de Satã por sobre o mundo!

 

 

 

À pátria livre

 

 

Nem mais escravos e nem mais senhores!

Jesus desceu as regiões celestes,

Fez das sagradas, perfumosas vestes

Um sudário de luz pra tantas dores.

 

A terra toda rebentou em flores!

E onde havia só cardos e ciprestes,

Onde eram tristes solidões agrestes

Brotou a vida cheia de esplendores.

 

Então Jesus que sempre em todo mundo

Quis ver o amor ser nobre e ser profundo,

Falou depois a escravas gerações:

 

— Homens! A natureza é apenas uma...

Se não existe distinção alguma

Por que não se hão de unir os corações?!

 

1888

 

 

 

O rio

 

 

O rio em turbilhões ei-lo crescendo...

E no seu leito as largas forças vivas

Das profundas correntes impulsivas

Como o sangue na artéria vão fervendo.

 

No arrebatado cachoeirar tremendo

Florestas de hera, tinhorões, esquivas

Plantas e troncos de árvores altivas

Vão sobre o rio desaparecendo.

 

Tudo o rio consigo arroja e arrasta

E a natureza vegetal devasta

Nos explosivos borbotões das águas.

 

Tal os meus sonhos límpidos e amados

Rio abaixo também foram levados

Pela corrente indômita das mágoas.

 

 

 

Joia

 

 

Humilde como Ester, eu não conheço

Ninguém, nem conheci pessoa alguma

Que fosse joia tal e de tal preço,

Mais casta e muito mais do que uma espuma.

 

Nem quero que haja igual —  pois eu nem desço

A mais definições – porque isto, em suma,

A gente deve até, num manto espesso

De emoções encobrir, num véu de bruma.

 

E faz-me recordar um tipo exato

De estranha irradiação – sim, que eu, de fato

Lhe disse, de uma vez, que pareciam

 

Seus olhos musicais e nazarenos,

Duas brilhantes gotas dos serenos

Que desse azul dos páramos caíam.

 

 

 

A volta

 

 

Voltamos juntos pela mesma estrada

Tu em caminho rias doidamente;

E a tua fresca e musical risada

Era a canção mais doce e mais nitente.

 

Foi bem longe o passeio, a caminhada

Certo que havia de ficar ardente

A luz do teu olhar de pomba amada

Que voa pelo azul resplandecente.

 

Palpitava-te o seio alabastrino,

Arfava-te, de manso, como um hino

De puro amor, entre os rendados jolhos.

 

E embora a tua carne assim cansasse

Oh! podes rir! – Por mais que eu só te olhasse

Não se cansavam de te olhar meus olhos.

 

 

 

Balada matinal

 

 

Cantam agora os pássaros nos ramos

Dos verdejantes, flébeis arvoredos...
E que adoráveis, íntimos segredos

Eles dirão, que nós não deciframos...

 

Coleiros, sabiás e gaturamos

Cantam felizes, joviais e ledos,

Na densa mata verde dos silvedos

Profundos como os sonhos que adoramos.

 

Vem tu agora, ó dríade dos campos,

Vem comigo colher os frutos lampos

Do casto amor com que a tu’alma abrasas,

 

Que enquanto assim os pássaros cantarem

E pela mata flórida voarem,

O meu amor te estenderá as asas.

 

 

 

Recordação

 

 

Foi por aqui, sob estes arvoredos,

Sob este doce e plácido horizonte,

Junto da clara e pequenina fonte,

Que murmura lá baixo os seus segredos...

 

Recordo bem todos os cantos ledos

Da passarada – e lembro-me da ponte

Por sobre a qual via-se além, de fronte,

O mar vinil batendo nos rochedos.

 

Sinto a impressão ainda da paisagem,

Do tom muito tocante da folhagem,

Das culturas rurais, do sítio agreste.

 

A luz do dia vinha então morrendo...

Foi por aqui que eu pude ficar crendo

O quanto pode o teu olhar celeste.

 

1887

 

 

 

Lágrimas

 

 

Lágrimas tu! mulher encantadora!

Não te bastara então essa pobreza,

Era mister pagar à natureza

O tributo da dor esmagadora?

 

Era preciso à luta vencedora

Dar um quinhão de sangue de pureza

Cristalizado em lágrimas, na acesa

Voragem de uma vida aterradora?

 

Sim, todos nós andamos por calvários,

Deixando as almas, castos relicários,

Entre as brumas chorosas do desgostos.

 

Chora! e que eu beba, humílimo de rastros,

As lágrimas que choras, como uns astros,

Como estrelas no céu desse teu rosto.

 

1888

 

 

 

Filosofando

 

 

Ontem à tarde, alguns trabalhadores,

Habitantes de além, de serra a serra,

Cavando e revolvendo a dura terra,

Do sol entre os prismáticos fulgores,

 

Estavam – cada qual tinha os ardores

Da febre de lutar, à luz que encerra

Toda a nobreza do trabalho – e que erra

Só na cabeça dos conspiradores.

 

E dos obscuros revolucionários

Do bem fecundo e cultural das leivas

Que são da vida os maternais sacrários.

 

E pareceu-me que do chão estuante

Vem porejar um bálsamo de seivas

Geradoras de um mundo mais pensante.

 

 

 

Aos pobres

 

 

— Minha mãe, minha mãe, quanta grandeza

Nesses palácios, quanta majestade;

Como essa gente há de viver, como há de

Ser grande sempre na feliz riqueza.

 

Nem uma lágrima sequer —  e à mesa

Dentre as baixelas, dentre a imensidade

Da prata e do ouro – a azul felicidade

Dos bons manjares de ótima surpresa.

 

Nem um instante os olhos rasos d’água,

Nem a ligeira oscilação da mágoa,

Na vida farta de prazer, sonora.

 

— Como o teu louco pensamento expandes!

Filho, a ventura não é só dos grandes;

O mar também é grande e quanto chora!

 

 

 

[Deixe-nos ficar...]

 

 

Deixemo-nos ficar pelo menos apenas

Um momento ao frescor das verdes arueiras

Pintalgadas de sangue. Hão de vir as serenas

Aves de Abril cantar nos leques das palmeiras.

 

Todo este mar recorda um tendal de açucenas

A luz do sol descendo as altas cordilheiras...

E essa voz musical é a voz das cantilenas

Dos que vêm a remar nas célebres baleeiras.

 

Neste lindo lugar, se existe a f’licidade,

Sentimo-na no peito, em plena alacridade.

E, portanto, Maria, a hora que nós passamos

 

Nesta Ilha tão formosa, é um bem que me parece

Nunca mais acabar! Ah! quem morar pudesse

Não numa casa, mas na frescura dos ramos...

 

 

 

Bom dia

 

 

Muito bom dia. Vejo-a incomparável

Com seus ares radiosos de Madona;

Quer parecer-me que esta nossa zona

Meridional tornou-a bem saudável.

 

Gosto de ver a cor tão adorável,

Essa onda de sol que funciona

No rosto mais grácil de quem é dona

Como a senhora, dum olhar amável.

 

Lindos campos em fora sei que habita,

No ninho dum chalé por entre flores,

Cheio de graça lírica, infinita.

 

Pois muito bem. Saúdo-a com ardores!

E agora que já está forte e bonita,

Diga-me lá, como se vai de amores?

 

 

 

Frutas e flores

 

(Presente de festa)

 

 

Laranjas e morangos — quanto às frutas,
Quanto às flores, porém, ah! quanto às flores,
Trago-te dálias rubras, d'essas cores
Das brilhantes auroras impolutas.

 

Venho de ouvir as misteriosas lutas
Do mar chorando lágrimas de amores;
Isto é, venho de estar entre os verdores
De um sítio cheio de asperezas brutas,

 

Mas onde as almas — pássaros que voam —
Vivem sorrindo às músicas que ecoam
Dos campos livres na rural pobreza.

 

Trago-te frutas, flores, só apenas,
Porque não pude, irmã das açucenas,
Trazer-te o mar e toda a natureza!

 

1887

 

 

 

A piedade

 

 

Ah! Mal de ti, ó Deus das Escrituras,

Se do Calvário no sinistro drama

Não houvesse sentido aquela chama

De amor que se alastrou nas almas puras.

 

Não! Não te fora o cálix de armaguras

Tão doloroso, tão cruel se o trama

Urdido por Judá contra quem ama

Não existisse de entre as criaturas.

 

Sim! inda temos um Judá – ainda

Quem ama o bem, a luz, a crença linda,

Sofre contigo, em prol da humanidade.

 

Ficaste, é certo, inanimado e exangue,

Morreste Deus – mas do teu belo sangue

Nasceu a branca flor da piedade.

 

1887

 

 

 

As ondas

 

 

Ação e reação, as ondas representam,

No movimento insano, divergente

Ação e reação da vida consciente,

No sistema das lutas que sustentam.

 

Elementos contrários que se enfrentam,

Que se propulsam muito heroicamente;

Embate singular e transcendente

De ideias, de paixões que em nós rebentam.

 

Ondas do mar, ondas prodigiosas

Às quais em francas vibrações nervosas

Os pensamentos descem como as sondas.

 

Ondas azuis e verdes e cor de ouro,

Sois para mim como um fetiche mouro.

Por isso eu tiro o meu chapéu às ondas.

 

 

 

O cão do fidalgo

 

 

Quando eu o vejo no salão radioso,

Cabeça aberta, sacudindo os guisos,

Deitado às vezes nos tapetes lisos,

Como um paxá no harém voluptuoso;

 

Todo embebido no luar de um gozo

Que vem de azuis e estranhos paraísos,

Como que um brilho especial de risos

Doces, leais, no olhar vitorioso;

 

Lembro essa triste humanidade, aquela

Que dentro em si traz uivo de procela

Com rugidoras fúrias de trovão.

 

Pasmo e me assombro da ironia ardente

Porque bem sei que existe muita gente

Menos feliz até do que esse cão.

 

1887

 

 

 

Mães

 

 

Mães! Sim, as mães são somente aquelas

Que atravessam da vida o mar chorando,

Que vão desamparadas caminhando

Pelo triste calvário das procelas.

 

Mães! sejam tranquilas, sejam elas

As mães do amor universal e brando,

Tenham o sentimento venerando

Da fé, da crença, celestiais e belas;

 

Desfraldem elas como um estandarte,

Aqui, ali, além, por toda a parte,

A esperança vital, com todo o brilho;

 

Que as mães serão as mães da heroicidade

E hão de provar a toda a humanidade

Que só as mães tornam herói um filho!

 

1888

 

 

 

Libertas

 

Ao insigne dramaturgo e notável publicista Arthur Rocha

 

 

Em face da história, em face do direito,

Em face deste séc’lo que banha-se de luz,

Eu venho, recordando-vos o prólogo da cruz

Trazer-vos a odisseia qu’irrompe-me do peito.

 

É feita de sorrisos, de prantos de crianças,

De cânticos de amor, de brandas alvoradas,

De cousas alvo-azuis, de nuvens iriadas,

De pérolas de luz, de rubras esperanças.

 

É feita de perfumes e brandos magnetismos,

De raios de luar e cândidos lirismos,

De auroras, de harmonias, de sol e de poder!

 

É feita de justiça, virtude e consciência,

De sãs convicções na máxima eminência:

Chama-se liberdade e é filha do dever!

 

In: Artista (Rio Grande do Sul) e datado: “Rio Grande, 2 de junho de 83”.

 

 

 

Águia do ideal

 

A Julieta dos Santos

 

 

A arte!?... a arte?!... O sentimento, a estética,

Todo o conjunto de paixões estoicas,

— Sérias paixões – originais, heroicas

E acentuadas pela luz elétrica;

 

Esse vigor alevantado e novo,

Forma o brasão de quem trabalha e gera

No seu talento em claro sol que impera...

— Sol triunfante que deslumbra o povo!

 

E tu que és, excepcional criança,

D’um porvir belo a delicada esp’rança,

A estrela d’alva de arrebóis cingida;

 

Do palco, em meio, a genial coorte,

Segues na vida sem pensar na Morte...

Foges da morte... procurando a Vida!...

 

Cambiantes

In: Julieta dos Santos

(Typ. Industrial, 80p. Pernambuco, 1884.)

 

 

 

 

Campesinas

 

 

 

 

Ao ar livre

A Virgílio Várzea

 

 

Tu trazes agora o peito
Como essas urnas sagradas,
Repleto de gargalhadas,
Sonoro, bom, satisfeito.

 

Por dentro cantam assombros
E causas esplendorosas
Como latadas de rosas
Dos muros entre os escombros.

 

Quando o ideal nos alaga,
Embora as lutas do mundo,

Levanta-se um sol fecundo
Do peito em cada uma chaga.

 

Voltou-se a seiva de outrora,
De outro, mais forte e destro,

Iluminado maestro,
Das harmonias da aurora.

 

Fulgurem por isso as musas,
As belas musas, por isso...
Voltou-te o passado viço,
Foram-se as mágoas, confusas.

 

Agora, quando eu dirijo
Meus passos, à tua porta,
Sinto-te um bem que conforta,
Vejo-te alegre e mais rijo.

 

Porque afinal pela vida
Nem tudo se desmorona
Quando se vaga na zona
Da mocidade florida.

 

Gostas de ver pelos ramos
Das verdes árvores novas,
A chocalhar umas trovas,
Coleiros e gaturamos.

 

Já podes bem comer frutas,
Os teus simpáticos jambos,
E ouvir alguns ditirambos
Da natureza nas grutas.

 

Podes olhar as esferas,
Com ar direito e seguro,
De frente para o futuro,
De lado para as quimeras.

 

Não tenhas cofres avaros
De santos — na luz te afoga,
E a alma arremessa e joga
Por esses páramos claros.

 

Reúne os sonhos dispersos
Como andorinhas vivaces
E o colorido das faces
Ao coberto dos versos.

 

Como uns lábaros vermelhos,
Contente como os lilases,
As crenças dos bons rapazes
Tem prismas como os espelhos.

 

 

 

Nos campos

 

 

Por entre campos de seara loura
De alegre sol puríssimo batidos,
Passam carros chiantes de lavoura
E raparigas sãs, de coloridos

 

Que a luz solar que as ilumina e doura
Lembram pomares e jardins floridos,
Por entre campos de seara loura.

 

A Natureza inteira reverdece
Pelos montes e vales e colinas;
E o luar que freme, anseia e resplandece,
Movido por aragens vespertinas,
Parece a alma dos tempos que floresce...
Enquanto que por prados e campinas
A Natureza inteira reverdece.

 

A paz das coisas desce sobre tudo!
E no verde sereno d’espessuras,
No doce e meigo e cândido veludo,
Tremem cintilações como armaduras
Ou como o aço brunido dum escudo;
Enquanto que das límpidas alturas
A paz das coisas desce sobre tudo!

 

A casa, a rude tenda construída,
Onde habitam as mães e as crianças
Promiscuamente, nessa mesma vida
De perfume lirial das esperanças,
Como é feliz, dos astros aquecida!
Aquecida do Amor nas asas mansas
A casa, a rude tenda construída.

 

As bocas impolutas e cheirosas
Das raparigas, pródigas belezas
De finos lábios púrpuros de rosas,
Abrem, cheias de angélicas purezas,
As cristalinas fontes murmurosas
De risos, refrescando em correntezas
As bocas impolutas e cheirosas.

 

Da vida aurora rica do seu sangue
Flameja a carne em báquicas vertigens!
E quem tiver uma epiderme exangue
Para ficar com essas faces virgens,
Para não ser mais pálida nem langue,
Tem de beber das cálidas origens
Da viva aurora rica do seu sangue.

 

Lindas ceifeiras percorrendo searas
Nos campos, ó bizarras raparigas,
Pelas manhãs e pelas tardes claras
Vós desfolhais sorrisos e cantigas
Que deixam ver as pérolas mais raras
Dos dentes brancos, frescos como estrigas...
Lindas ceifeiras percorrendo searas!

 

 

 

A borboleta azul

 

 

No alegre sol de então
De uma manhã de amor,
A borboleta solta no fulgor
Da luz, lembrava um leve coração.

 

Ia e vinha e a voar
Gentil e trêfega, azul,
Sonoramente a percorrer pelo ar,
Como um silfo tenuíssimo e taful.

 

Sobre os frescos rosais
Pousava débil, sutil,
Doirando tudo de um risonho abril
Feito de beijos e de madrigais.

 

Que doce embriaguez
O voo assim seguir
Da borboleta azul, correndo, a vir
Do espaço pela Etérea candidez!

 

Fazendo, tal e qual,
O mesmo giro assim,
O mesmo voo límpido, sem fim,
Nos mundos virgens de qualquer ideal.

 

Ir como ela também
Em busca das loucas
E tropicais e fulgidas manhãs
Cheias de colibris e sol, além...

 

Ir com ela na luz
De mundos através,
Sem abrolhos nas mãos, cardos nos pés,

 

Ó alma, minha, que alegria a flux!...

No alegre sol de então
De uma manhã de amor
A borboleta solta no fulgor
Da luz, lembrava um leve coração.

 

 

 

Renascimento

 

 

Canta ao sol, como as cigarras
A tua nova alegria.
No Azul ressoam fanfarra
Da grande vida sadia.

 

Alerta, um clarim de alerta
Àquela antiga saúde:
— À clara janela aberta
Para o mar salgado e rude.

 

Que volte, ruidosa, agora,
Como um pássaro marinho,
A tua saúde, a aurora
Do teu sangue, estranho vinho.

 

E como espiga madura
Floresce outra vez a vida,
Resplandece à formosura,
Ó torre de ouro florida!

 

Quero-te em rosas festivas
A polpa das carnes brancas.
E rindo-te às forças vivas
Com rubras risadas francas.

 

Formosa, soberba e nua,
Nesse olhar que tudo abrange,
Na fronte um diadema, em lua
Num talhe curvo de alfanje;

 

Vem! o sol é teu amante!
Ah! vem mergulhar nos braços
Do flavo sultão radiante
Do harém azul dos espaços.

 

 

 

Abelhas

 

 

Gotas de luz e perfume,
Leves, tênues, delicadas,
Acesas no doce lume

De purpúreas alvoradas.

 

Pingos de ouro cristalinos
Alados na esfera, ondeando,
Dispersos por entre os hinos,
Da natureza vibrando.

 

Sorrisos aéreos, soltos,

Flavas asas radiantes,
Que levam consigo envoltos
Da aurora os sóis fecundantes.

 

Da aurora que a primavera
Faz cantar, brota no peito
E floresce em folhas de hera
O coração satisfeito.

 

Essa aurora produtiva
Do amor soberano e eterno,

Que é nas almas força viva
E nas abelhas falerno.

 

Nas doudejantes abelhas
Que dentre flores volitam
E do sol entre as centelhas
Resplendem, fulgem, palpitam.

 

Zumbem, fervem nas colmeias
E rumorejam no enxame
Pelas flóridas aleias
Onde um prado se derrame.

 

Assim mesmo pequeninas
E quase invisíveis, quase,
Com as suas asitas finas,
De etérea de fluida gaze.

 

Ah! quanto são adoráveis
Os favos que elas fabricam!
Com que graças inefáveis
Se geram, se multiplicam.

 

Nos afãs industriosos
Que enlevo, que encanto vê-las
Com seus corpos luminosos
D'iriante brilho d'estrelas.

 

E nas ondas murmurosas
Dos peregrinos adejos
Vão dar ao lábio das rosas
O mel doirado dos beijos.

 

 

 

Besouros...

 

 

Marche, marche, marche a verve!
Bandeiras, clarins, tambores,
Marchar!

 

À poncheira ideal, que ferve,

Sons, aromas, chamas, cores!
Cantar!

 

Que este diabo vem, saudoso,
Das profundezas do arcano,
Viver!

 

O vinho maravilhoso
Da forma raro e renano,
Beber!

 

Vem beber o vinho iriado,
O Falerno, claro e quente,
Haurir!

 

Num paladar requintado,
Todo inflamado e fremente
Sentir!

 

Que o sangue da verve vibre
Raja, raja, raja, raja,
Taful!

 

E a alma do sol se equilibre
Para que mais sonhos haja
No azul!...

 

Mas este diabo tão fino,
Que de tudo dá o acorde
Genial!

 

Este caproide genuíno,
Verde, verde, morde, morde,

Fatal.

 

 

 

Papoula

A Oscar Rosas

 

 

Assim loura és mais formosa
Do que se fosses trigueira:
Corpo de eflúvios de rosa
Com esbeltez de palmeira.

 

Vestida de cor da aurora
Leve dos fluidos da graça,

És uma estrela sonora
Que, em sonhos, pelo éter passe.

 

Resplandece em teu cabelo
Um fulgor de sol dourado,
Que só de senti-lo e vê-lo
Fica tudo iluminado.

 

Do teu branco leque aberto
Que lembra uma asa de garça,
Aspiro um perfume incerto,
Talvez a tua alma esparsa.

 

Num resplendor de madona
E altivez de corça arisca
Surges da luz entre a zona
Com quebrantos de odalisca.

 

Que venha o duque normando
De castelos escoceses
Com seu ar bizarro e brando
Amar-te os olhos ingleses.

 

E entre aromas e frescores
E revoadas de abelhas,
Como num campo de flores
Que esse olhar vibre centelhas.

 

Que cantem na tua boca
As alegrias radiadas,
Numa ideal rajada louca
De voos de passaradas.

 

Que como os astros no espaço,
Teu encanto resplandeça...
Com pelúcias no regaço
E asas de ave na cabeça.

 

E que os teus dois seios puros
Que o amor fecundando beija
Fiquem cheios e maduros
Com dois bicos de cereja.

 

 

 

Campesinas

 

 

I

Camponesa, camponesa,
Ah! quem contigo vivesse
Dia e noite e amanhecesse
Ao sol da tua beleza.

 

Quem livre, na natureza,
Pelos campos se perdesse
E apenas em ti só cresse
E em nada mais, camponesa.

 

Quem contigo andasse à toa
Nas margens duma lagoa,
Por vergéis e por desertos,

 

Beijando-te o corpo airoso,
Tão fresco e tão perfumoso,

Cheirando a figos abertos.

 

 

II

De cabelos desmanchados,

Tu, teus olhos luminosos
Recordam-me uns saborosos
E raros frutos de prados.

 

Assim negros e quebrados,
Profundos, grandes, formosos,
Contêm fluidos vaporosos
São como campos mondados.

 

Quando soltas os cabelos
Repletos de pesadelos
E de perfumes de ervagens;

 

Teus olhos, flor das violetas,
Lembram certas uvas pretas
Metidas entre folhagens.

 

 

III

As papoulas da saúde
Trouxeram-te um ar mais novo,
Ó bela filha do povo,
Rosa aberta de virtude.

 

Do campo viçoso e rude
Regressas, como um renovo,
E eu ao ver-te, os olhos movo
De um modo que nunca pude.

 

Bravo ao campo e bravo a seara
Que deram-te à pele clara
São rubores de alvorada.

 

Que esses teus beijos agora
Tenham sabores de amora
E de romã estalada.

 

 

IV

 

Através das romãzeiras
E dos pomares floridos
Ouvem-se as vezes ruídos
E bater d’asas ligeiras.

 

São as aves forasteiras
Que dos seus ninhos queridos
Vêm dar ali os gemidos
Das ilusões passageiras.

 

Vêm sonhar leves quimeras,
Idílios de primaveras,
Contar os risos e os males.

 

Vêm chorar um seio de ave
Perdida pela suave
Carícia verde dos vales.

 

 

V

 

De manhã tu vais ao gado
A cantar entre as giestas,
Com tuas graças modestas,
Correndo e saltando o prado.

 

E a veiga e o rio e o valado
Que todos dormem as sestas
Acordam-se ante as honestas
Canções desse peito amado.

 

As aves nos ares gozam,
Entre abraços se desposam,
No mais amoroso enlace.

 

E as abelhas matutinas
Que regressam das boninas
Voam-te em torno da face.

 

 

VI

 

As uvas pretas em— cachos
Dão agora nas latadas...
Que lindo tom de alvoradas
Na vinha, junto aos riachos.

 

Este ano arados e sachos
Deixaram terras lavradas,
À espera das inflamadas
Ondas do sol, como fachos.

 

Veio o sol e fecundou-as,
Deu-lhes vigor, enseivou-as,
Tornou-as férteis de amor.

 

Eis que as vinhas rebentaram
E as uvas amaduraram,
Sanguíneas, com sol na cor.

 

 

VII

 

Engrinaldada de rosas,
Surge a manhã pitoresca...
Que linda aquarela fresca
Nas veigas deliciosas!

 

Que bom gosto e perfumosas
Frutas traz, madrigalesca
A rapariga tudesca
Que vem das searas cheirosas!

 

Como os rios vão cantando,
Em sons de prata, ondulando,
Abaixo pelos marnéis!

 

Que carícia nas verduras,
Que vigor pelas culturas,
Que de ouro pelos vergéis!

 

 

VIII

 

Orgulho das raparigas,
Encanto ideal dos rapazes,
Acendes crenças vivazes
Com tuas belas cantigas.

 

No louro ondear das espigas,
Boca cheirosa a lilases,
Carne em polpa de ananases
Lembras baladas antigas.

 

Tens uns tons enevoados
De castelos apagados
Nas eras medievais.

 

Falta-te o pajem na ameia
Dedilhando, a lua cheia,
O bandolim dos seus ais!

 

 

IX

 

No campo santo

 

 

Morreste no campo um dia,
Como uma flor desprezada.
Clareava a madrugada,

Azul, vaporosa e fria.

 

Sobre a agreste serrania,
Numa ermida branqueada
Por uma manhã doirada
Um sino repercutia.

 

Teu caixão, de camponesas
E camponeses seguido,
Desceu abaixo às devesas.

 

Ganhou o atalho comprido
De casas em correntezas
E entrou num campo florido.

 

 

X

 

Pelos vales e colinas

Os bandos das pombas voam...

E as latadas das boninas

As rentes cercas coroam.

 

Entre o rumor das campinas

Os carros de bois ressoam...

E nas névoas matutinas

Já os raios do sol coam.

 

Que aurora flor das auroras!

Nas frescas águas sonoras

Boiam ilhas de verdura.

 

E na fita dos caminhos

Onde trinam passarinhos

Vens vindo a rir, formosa.

 

 

XI

 

Fostes à fonte buscar água

E tinha secado a fonte...

Pobre flor do monte

Tiveste a primeira mágoa.

 

Porém se uma alma na frágua

Das dores, sem horizonte,

Queres ver, sentir defronte

Dos olhos, manda, que eu trago-a.

 

Vou t’a levar à presença

Para que vejas a imensa

Mágoa atroz que a devorou.

 

E saibas, o sol das flores,

Que a fonte dos seus amores

Eternamente secou.

 

 

XII

 

A pomba o voo descerra

Para além dos infinitos,

Deixando todos os ritos

Das religiões cá da terra.

 

Ganha o mar e ganha a serra

Em busca de novos mitos

Desses bíblicos Egitos

Da Fé, que vagueia e que erra...

 

Quem tem sede de carinhos

Faz como pomba, procura

Corações que sejam ninhos.

 

Vai em busca da ventura,

Da paz dispersa em caminhos

Que vão dar à sepultura.

 

 

XIII

 

Fui aos morangos do prado

E nunca os vi tão formosos...

Que perfume delicado,

Que cores, que tons preciosos.

 

Cor de sangue atravessado

De acesos sóis radiosos

Num rubro ocaso doirado,

Por horizontes calmosos;

 

Através da luz da aurora

Vivaz e fresca e sonora,

Num resplendor nunca visto;

 

Pareceram-me umas gotas

De sangue das carnes rotas

Das mãos e dos pés de Cristo.

 

 

XIV

 

Os olhos das adoradas

São como os campos festivos

Cheios dos brilhos mais vivos

Das alegres madrugadas.

 

Como as frescas alvoradas

Há pelos campos estivos

Lindos cantos expressivos

De camponesas medradas;

 

Nos olhos das que adoramos

Há aves cantando e ramos

Noivados do nosso amor.

 

Perspectivas radiantes

Só vistas pelos amantes

De almas abertas em flor!

 

 

XV

 

De manhã cedo os rebanhos

Saltam, galgam montanhosos

Alcantis esplendorosos,

Cheios de brilhos estranhos.

 

E quando após os amanhos

Dos terrenos vigorosos

Os lavradores sequiosos

Regressam de afãs tamanhos;

 

Quando o sol no ocaso em chamas

Veste as árvores de lhamas

E luminosos veludos;

Entre as trêmulas guitarras

Das nostálgicas cigarras

Quedam-se os gados lanzudos.

 

 

XVI

 

São tantas as sementeiras

Como as estrelas são tantas...

Ah! que virgens bebedeiras

Vêm dos aromas das plantas.

 

Nas terras alvissareiras

De novas colheitas santas,

Que brotos de trepadeiras,

Que vinhas quantas e quantas.

 

Como a seiva e o viço estoura

Pelos campos da lavoura,

Num frenesi de novilho...

 

Só tu, infecunda e triste,

De gelo, nunca sentiste

Os vivos germens de um filho!

 

 

XVII

 

Por estas manhãs sonoras

Em tudo a luz vibra e salta

E arroios, várzeas esmalta

De deslumbrantes auroras.

 

São mais alegres as horas,

Nem o humor às almas falta

E de uma força mais alta

Fecundam-se as virgens floras.

 

Os aspectos da verdura

Recebem formas serenas

D’encantos e de frescura.

 

Ah! que ruflados de penas

Na luz que canta na altura,

Nas folhagens de açucenas!

 

1889

 

 

 

Na vila

 

 

Nos ervaçais vibrou o sol agora,
Nas fitas verdes dos canaviais...
Como rompesse loura e fresca a aurora
Agora o sol vibrou nos ervaçais.

 

Murmurejam de alegres os caminhos
Que até parecem, límpidos, cantar
Na música melódica dos ninhos
Que vai nos ares se cristalizar.

 

Floresce tudo, em toda parte flores
Neste maio feliz, e tão feliz
Que as plantas exuberam de vigores
Desde a profunda, pródiga raiz.

 

Noivam as aves junto dos riachos
No seu alado alvorecer de amor;
E o coqueiral, com os amarelos cachos,
Pompeia de riquíssimo verdor.

 

Fluem na sombra meigas fontes claras
Sob o frondente e vasto laranjal
E para além magníficas searas
Se estendem como um leito virginal.

 

Na serena paz vegetativa
Faz docemente tudo adormecer
Mas num sono de luz doirada e viva,
Quase a dormência de quem vai morrer...

 

Ah! que o silêncio, a solidão dos ermos,
Das agrestes paragens do sertão
Se dão saúdes a espíritos enfermos
Também supremas nostalgias dão!

 

A volúpia letal do meio-dia,
Nas horas encalmadas, sob a luz,
Dá duma campa a atroz melancolia
Assinalada numa simples cruz.

 

Depois o campo na mudez da vila,
Aquela eterna e soberana paz
Da imensa vastidão sempre tranquila
Como que punge e que entristece mais!

 

 

 

Os risonhos

 

 

Pastores e camponesas
De rudes almas esquivas
Passam entre as candidezas
Das estrelas fugitivas.

 

Parece que nada os punge,
Nada os punge e sobressalta.
A lua que os campos unge
No firmamento vai alta.

 

E eles passam sob a lua,
De queixas desafogados,
A cabeça livre e nua,
Na florescência dos prados.

 

Seres meigos e singelos,
Mulheres de lindo rosto,
Lábios cálidos e belos,
Do quente sabor do mosto.

 

Pastores de tez morena,
Queimados ao sol adusto:

Claridade bem serena
No fundo do olhar bem justo.

 

Neles tudo é riso e festa,
Neles tudo é festa e riso,

Frescuras brandas de giesta
E graças de Paraíso.

 

Simples, toscas e felizes,
Sem ter um laivo de mágoa:

Almas das verdes raízes,
Limpidez de gota d'água.

 

Neles tudo é paz de aldeia
E ri com os risos mais frescos...
O céu inteiro gorjeia
Idílios madrigalescos.

 

Seduzido por miragens
Caminha o bando risonho
Dessas virentes paragens,
Levado na asa de um sonho.

 

Nele tudo ri sem ânsia
E com doçura secreta;
E como uma nova infância
Cantantemente irrequieta.

 

Encantos de mocidade,
Saúde, fulgor, vigores,
Dão-lhe a doce suavidade
Maravilhosa das flores.

 

Os corações, florescentes,
Vão nesses peitos cantando
E rindo em festins ardentes
E dentre os risos sonhando.

 

Ri na boca, ri nos olhos,
Nas faces o bando, rindo
O bom riso sem abrolhos,
Que lembra um campo florindo.

 

Rindo em sonoras risadas,
Rindo em frêmitos vivazes,
Rindo em risos de alvoradas,
Rindo em risos de lilases.

 

Os campos entontecidos
Nos vinhos da lua clara
Ficam bizarros, garridos,
De vitalidade rara.

 

As águas claras das fontes
Vibram lânguidas sonatas
E as nuvens vestem os montes
Das visões mais timoratas.

 

Na copa dos arvoredos,
Nas orvalhadas verduras
Há sonâmbulos segredos
E murmuradas ternuras.

 

E o bando festivo passa
Rindo, alegre, casto e suave,
Iluminado de graça,
Mais leve que um voo de ave.

 

Podeis rir, almas ditosas,
Almas novas como frutos
De vinhas miraculosas
De pomares impolutos.

 

Podeis rir, almas eleitas
Que os anjos percebem tanto
Lá das esferas perfeitas
Nas harmonias do Encanto.

 

Almas brancas, Páscoas leves,
Alvos pães de áureos altares,
De mais candidez que as neves
E a madrugada nos mares.

 

Almas sem sombras ferozes
Nem espasmos delirantes.
Eco das bíblicas vozes,
Caminhos reverdejantes.

 

O vosso riso é bendito,
Os vossos sonhos são castos,
O estrelamento infinito
De mundos claros e vastos.

 

Podeis rir, peitos ufanos,

Belas almas feiticeiras,
Vós tendes nos risos lhanos
O trigo das vossas eiras.

 

A vossa vida é planície,
Não tem declives funestos:
Sois torres que a superfície
Assenta nos dons modestos.

 

A vossa vida é bem rasa,
Preso à terra o vosso esforço;
Nem mesmo um frêmito de asa
Vos faz agitar o dorso...

 

Sois como plantas vencidas
Conquistadas pela terra,
Dando à terra muitas vidas
E tudo que a Vida encerra.

 

É do vosso sangue moço
Que na terra se derrama,
Que sobe o rubro alvoroço
De ocasos de sóis em chama.

 

Manchas, ao certo, não tendes
E nem trágico flagício,
Almas isentas de duendes,
Lavadas no Sacrifício.

 

Das pedras, nos vossos ombros,
A rigidez não carrega.
Em jardins tornam-se escombros
E em luz a crença que é cega.

 

Desses perfis adoráveis,
Na curva casta dos flancos
Brotam viços inefáveis
Dos florescimentos brancos.

 

Podeis rir! ó benfazeja
Bondade de nobre essência,
Deus vos chama e vos deseja
Na estrelada florescência.

 

Um anjo vos acompanha
Nessa estrada matutina
E convosco a ideal montanha
Sobe da graça divina.

 

O flagelo deste mundo,
Nesses corações não pesa.
Enquanto o Horror vai profundo
Vossa alma tranquila reza.

 

Contritos e de mãos postas,
Humildemente de joelhos,
O Demônio, pelas costas,
Não vem vos dar maus conselhos.

 

Vós sois as sagradas reses
Votadas ao azul Sacrário.
Deus vos olha muitas vezes
Com o seu olhar visionário.

 

Mas quando, como as estrelas,
Adormecerdes um dia,
Voando mais perto a vê-las
Na Paragem fugidia.

 

Quando na excelsa Bonança
Afinal adormecerdes,
Nos olhos toda a esperança
Levando dos prados verdes.

 

Quando lá fordes, subindo
Para as límpidas Alturas,
Profundamente dormindo,
Em busca das almas puras.

 

Praza aos céus que nos caminhos
Da eterna Glória, das palmas,
Mais brancas que os claros linhos
Possais encontrar as almas!

 

 

 

 

Dispersas

 

 

 

 

Away!

 

A meu distinto amigo e talentoso jovem José Arthur Boiteux

 

O livro, esse audaz guerreiro,

Que conquista o mundo inteiro,

Sem nunca ter Waterloo!...

 

                                                                 (Castro Alves)

 

 

Avante, sempre nessa luz serena,
Empunha a pena, sem temor, com fé!...
Eleva as turbas as ideias d’ouro,
Que um tesouro tua fronte é!...

 

Eia, caminha nessa senda nobre
Na pátria pobre, no teu berço aqui!...
Prossegue altivo, sem parar, constante,
Faz-te gigante, diz depois: Venci!...

 

Ala-te à glória num voar titânio,

Burila o crânio de fulgor sem fim!...
E entre o livro d’imortais perfumes
Calca os ciúmes d’imbecil Caim!

 

Imita os grandes, incansáveis vultos
Que lá sepultos no pó negro estão!...
Anda, romeiro dos vergéis divinos,
Mergulha em hinos a gentil razão!

 

Estás na quadra radiante e linda,
É cedo ainda para enfim descrer!
És jovem... pensas... és portanto um bravo
Ser ignavo... é sucumbir... morrer!

 

Vamos, caminha, mesmo embora exangue
Da fronte o sangue vá rolar-te aos pés!
Agita a alma qual febris as vagas,
Que dessas chagas brotarão lauréis!

 

Além do livro, colossal, enorme,
Que nunca dorme perscrutando os céus!.
Acima dele supernal, potente
Está somente, tão-somente Deus!

 

Vai! ... vai rasgando, percorrendo os ares,
Novos palmares, meu gentil condor!
Depois de teres pedestal seguro
Lá do futuro te erguerás senhor!...

 

Qual Ney ousado que, ao vibrar da lança,
Nutre esperança de ganhar, vencer,
Assim co’a ideia vai lutar, trabalha,
Vence a batalha do dinal saber.

 

Eia que sempre na brasílea história
De alta glória colherás o jus!...
O livro augusto do porvir descerra,
Sê desta terra precursor da luz!!!

 

 

 

Poesia

 

 C'est la musique la poésie de l’âme;
 et la gloire est Dieu, ce sont les
 deux choses les plus charmantes, les
 plus belles, les plus grandes de la vie!


(Do Autor)

 

 

Da música escutando preclaras harmonias
Vendo em cada lábio brilhar ledo sorriso
Vendo luz e flores e tanto entusiasmo

Julguei-me transportado ao célico Paraíso!

 

Foi sonho na verdade — mas hoje realizado
Vos dá, distintos sócios, venturas mais de mil,
A vós que à frente tendo Penedo, grande, forte,
Subis, alistridente, qual ave mais gazil!

 

E quando executais as vossas belas peças
As notas quais gemidos vagam n’amplidão
Parece que o infinito derrama sobre vós
Centelhas sublimadas só d’inspiração!

 

Da arte de Mozart vós sois grandes romeiros
Lutais como nas vagas o triste palinuro,
Os olhos tendes fitos na glória que dá brilho
No livro tricolor e ovante do futuro!

 

Hoje que os sorrisos assomam em vossos lábios
Que da “Guarani” alçais áureo pendão,
Eu humilde e fraco — com flores inodoras
Somente aqui vos venho fazer uma ovação!

 

Quando há só coragem, força, intrepidez
Quando se alimenta no peito divo ardor,
O homem não recua, caminha p’ro progresso
Co’a fronte sempre erguida, sem ter menor temor,

 

Sem ter algum trabalho jamais s’alcança trono
Sem ter valor e força jamais se tem lauréis
P’ra vossa grande glória, além do grã futuro
Deus já tem eretos milhares de docéis!

 

Mas dentre vós vulto sereno se destaca
Qual Rodes portentoso, imenso, verdadeiro
Que nunca recuou sequer um só momento
Que sempre em trabalhar foi pronto companheiro!

 

É este vosso sócio, digno diretor
Que forte não pensou jamais em recuar!

É José Gonçalves — águia valorosa
A quem, altivamente, eu ouso aqui louvar!

 

Vencendo mil tropeços, altiva os derribando
A bela “Guarani” se mostra triunfante
Foi como esses heróis — na mão sustenta o gládio
— O gládio da vitória serena e radiante!

 

Portanto erguei ridente a fronte ao infinito!
Erguei ó grandes bravos a fronte toda luz!
Eis, a senda é bela, sublime, é grandiosa
Avante pois ness’arte, avante, avante, sus!

 

E agora concluindo palavras pobrezinhas
Que eu pronunciar humilde vim aqui,
Saúdo fervoroso — do imo de minh’alma
A essa tão gentil, simpática “Guarani”!

 

 

 

Saudação

(Desterro, 14 nov. 1880)

 

Qual o que não exulta ao ler uma epopeia!
Qual o que a ver dor não lhe estremece o crânio,
Em confusões cruéis?! Qual o que tem fresca, sublime, pronta a ideia,
E do altar da caridade no supedâneo,
Não deixa alguns lauréis?!


(Do Autor)

 

 

Ontem, grande desgraça
Que o povo se abraça
D’Itajaí em geral!
Ontem, o cetro divino
Que se tornando ferino
Tudo esmaga afinal!

 

Ontem, prantos e dor...
Grandes gritos d'horror...
A fatal confusão!
Ontem, lampas perdidas
De centenas de vidas,
Que nas águas lá vão!

 

Ontem, negras as vagas,
Os belos céus, essas plagas,
— Onde existe o Senhor!
Ontem, — fatalidade!
A pobrezinha cidade

Toda envolta em negror!

Hoje, oh! Deus sempiterno!
— O teu gládio superno
De bonança a irradir,
Veio ao povo esmagado
Ao tredo peso do fado
Fazer do caos ressurgir!

 

Hoje, o íris brilhante
Lá nos céus, radiante,
Já se faz divulgar!
E todo o povo prostrado
Te agradece arroubado
Mas ainda a chorar!

 

E corações caridosos
Farão a dar pressurosos
Os seus globos gentis!
Dai! é doce a esmola!
Ela aos pobres consola,
Torna-os ledos, gazis!

 

A miséria chorava
Em delírio bradava
Por um pouco de pão!
E eles foram dizendo
— Ide, pois vos mantendo,
Aqui tendes a mão!

 

E vós — lá no tablado,
O mor rasgo, elevado,
De fazer acabais!
E um rasgo de glória
De brilhante memória
Pros vindouros anais!

 

Vós fazeis do cenário
Um dinal santuário
Trabalhando p’ra pobres!
Mostrais bem que nas almas
Possuís celsas palmas
De ações muito nobres!

 

P’ra louvar amadores,
Tantas lutas, labores,
Tanta excelsa virtude!
Ah! me falta uma lira
Que um poema desfira...
Ai! me falta alaúde!

 

Só Deus pode dar louros

De mil glórias, tesouros,
Como vós mereceis!
Pois que feitos são divos,
Tão imensos, altivos
Só d’heróis ou de reis!

 

Amadores briosos!
Vós sois tão valorosos
Qual os bravos na guerra!
Sois os nautas valentes

Socorrendo ridentes

Quem cá gema na terra!

 

Amor, Deus, Caridade
— E a sublime trindade
Radiante de Luz!
Donde vós, amadores,
Lá colheis os fulgores,
De mil graças a flux!

 

 

 

A imprensa

(Desterro, 21 nov. 1880)

 

A Imprensa e brilhante como o meteoro,
sublime como os arrebóis do cerúleo
infinito!

 
(Do Autor)

 

A lâmpada gigantesca
Das glórias do porvir,
Turíbulo majestoso
No mundo a irradir,
É a imprensa tesouro
E c'roa de verde louro
A fronte do escritor!
E centelha sublimada
Que vem do céu arrojada
A treva dando fulgor!

 

— O homem nasceu pequeno
Mas com as letras cresceu
Foi como o vulto de Rodes
Que lá tão alto s’ergueu!
Foi preciso — estudando
Co’a própria ideia lutando
Mergulhar-se na luz!
Foi preciso ter glória,
Brilhante, leda memória,
Colher renomes a flux!

 

Foi preciso mil lutas
Mil labores insanos
P'ra descobrir nesses mundos
Da diva luz os arcanos!
Foi preciso que um bravo
Não mostrando-se ignavo
Mas inspirado por Deus!
A pedra bruta talhasse
E a luz então derramasse
Qual seiva santa dos Céus!

 

Foi preciso os séculos
Ainda um pouco nas trevas
Erguessem as frontes bem alto
E devastassem mil selvas!
Foi preciso que o mundo
Sentisse abalo profundo
Ao desvendar— se o saber!
Foi preciso que os entes
Ou se erguessem potentes
Ou tombassem a morrer!

 

Mas não! — o homem ergueu-se,
Quase, quase com Deus
Tirou a fronte da treva
E só pregou-a nos Céus!
Viu o futuro de louros
E quis colher os tesouros
Que dão renome sem fim!
Sonhou, sonhou co’a vitória

E o gládio teve da glória
Qual o grão Bernardim!

 

O homem, gênio sublime,
Caminha, com seu bordão
Até achar o brilhante
A luz, a luz da razão!
Tropeça um pouco, se tomba
Ergue-se, voa qual pomba
E indo a luz descobrir,
Busca ouvir no infinito
Do eco ao longe este grito:
Trabalha para o porvir!

 

Quando os povos modernos,
Sentirem no coração
Uma ardente centelha
Que caia lá d'amplidão!
Deixarão esses vícios,
Insanos, negros, fictícios
Que dão só noite ao viver!
E irão curvados a ela

Depor-lhe verde capela

Farão então por crescer!

 

Camões, Milton, Abreu,
Já da vida sem lampas,
Erguei-vos crânios altivos
Espedaçai essas campas!
Dizei — se o homem caminha
Se na treva definha
A quem se deve louvar?!...
S’as letras seguem ovantes
Dizei ó nobres gigantes
A quem se ergue alcaçar?!!...

 

E Guttemberg esse herói,
Essa vergôntea dinal,
Que co'escopro na destra!
Foi das letras fanal!
Ao descobrir a imprensa
Essa epopeia imensa
Para toda a nação,
Com glória ingente sonhava
Na luz por certo nadava
Já tinha os louros na mão!

 

 

 

Versos

 

(Desterro, 9 abr., 1881)

  

Admirai Carrara, Canova, Rafael, Murillo, Mozart e Verdi e tereis as sublimes, mais que sublimes, as divinas encarnações da arte!

 

(Do Autor)   

 

 

Bravo, prole bendita
Pois à glória infinita
O lutar vos conduz!
É assim — trabalhando
Sempre e sempre estudando
Que se alcança mais luz!

 

Contemplai estas flores
Estes tantos lavores

Contemplai o painel!
Repetindo orgulhosos
Estes feitos briosos
São dum belo pincel!

 

Eia, jovens, avante!
Ser artista é brilhante,
Trabalhar é uma lei!
Não são só os c’roados
Que merecem em brados
Ter as honras de rei!

 

O artista qu'é pobre
É tão rico, é tão nobre
Qual potente césar!
E a glória bem cedo
Lhe murmura o segredo
— És artista — és sem par!

 

Não temais os pampeiros
Sois gentis brasileiros
Deveis pois progredir!
Quem vos traça na história

Vossa augusta memória
É um deus — O Porvir!

 

Levantai-vos potentes
Altanados, ingentes
E fazei-vos Criseus!
Só quem pode vergar-vos
E pensar obumbrar-vos
Mais ninguém — é só Deus!

 

Não fiqueis ignavos
Que o futuro dá bravos
Vos dizendo — estudai!
Sois humanos — portanto
Se há de trevas um manto

Apressai-vos, rasgai!

 

Nossa pátria querida
Necessita mais vida,
Necessita crescer!
É preciso contudo
Que tenhais como escudo
Quem vos mostra o saber!

 

E de obreiros altivos,
Que sereis redivivos
Que sereis imortais,
Achareis vossos nomes
Vossos grandes renomes
Nas mansões divinais!

 

Perdoai-me estas flores
Que tão murchas, sem cores
Nada podem valer!
São ofertas sinceras
Arrancadas deveras
Para vir vos trazer!

 

Palinuros — à frente
Esse trilho é ridente
Dás-vos honra, louvor!
Quem o braço vos guia
Nunca, nunca entibia —
— É artista... e pintor!

 

É a vós a quem falo
E se hoje eu não calo
Estas vãs expressões!
É que a louca alegria
Em minh'alma irradia
Com fulgentes clarões!

 

O trabalho enobrece
Glorifica, engrandece
Aos artistas quais vós!
Que zombando da sorte
Têm a tela por norte
Os pincéis por faróis!

 

Eia! nessa carreira
Qual a nau sobranceira
Indo o mar a fender!
Quando há negros abrolhos,
Mil cachopos, escolhos
É mais belo o vencer!

 

Se o lutar é dos grandes
Que são gêmeos dos Andes
Que não sabem tombar!
Colhereis uma glória
Mais suprema memória,
Trabalhando, a lutar!

 

Deus, o Deus sublimado
Disse ao homem num brado,
Da sidérea mansão!
— Vai depressa arrimar-te
Aos arcanos da arte,
Que terás um bordão!

 

Onde há braços d’artista
E seu ponto de vista
Decepar escarcéus!
E seu gládio seguro
Vai cavar o futuro
Vai rasgar negros véus!

 

E lá quando os vindouros
Vos c'roarem de louros
Vos erguerem docel!
Bradarão altaneiros:
— Exultai brasileiros,
Ressurgiu Rafael!

 

Não temais os insanos,
Insensatos humanos
Bajulantes e maus!
Trabalhai muito embora!
Há de vir uma aurora

P’ra arrancá-los do caos!

 

....................

 

Away, estudantes
Sois vergônteas pujantes
A lauréis tendes jus!
Caminhai com coragem,
Qu’esta é a romagem
Dos apóstolos da luz!!!...

 

 

 

Ao decênio de Castro Alves

Quem sempre vence e o porvir!

 

 

No espadanar das espumas
Que vão à praia saltar!
Nos ecos das tempestades
Da bela aurora ao raiar,
Um brado enorme, profundo,
Que faz tremer todo o mundo
Se deixa logo sentir!
E como o brado solene,
Ingente, celso, perene,
É como o brado: — Porvir!

 

Pergunta a onda: — Quem é?...
Responde o brado: — Sou eu!
Eu sou a Fama, que venho
C’roar o vate, o Criseu!
Dormi, meu Deus, por dez anos
E da natura os arcanos
Não posso todos saber!
Mas como ouvisse louvores
De glória, gritos, clamores,
Também vim louros trazer.

 

Fatalidade! — Desgraça!
Fatalidade, meu Deus!
Passou-se um gênio tão cedo,
Sumiu-se um astro nos céus!
As catadupas d’ideias,
De pensamento epopeias
Rolaram todas no chão!
Saindo a alma pra glória
Bradou pra pátria — vitória!
Já sou de vultos irmão!

 

Foi Deus que disse: — Poeta,
Vem decantar a meus pés.
Na eternidade há mais luz,
Dão mais valor ao que és.
Se lá na terra tens louros,
Receberás cá tesouros
De muitas glórias até!
Terás a lira adorada
C’o divo plectro afinado
De Dante, Tasso e Garret!

 

Então na terra sentiu-se
Um grande acorde final!
O belo vate brasílio
Pendeu a fronte imortal!
O negro espaço rasgou-se
E aquele gênio internou-se
Na sempiterna mansão.
A sua fronte brilhava
E o áureo livro apertava

Sereno e ledo na mão...

 

E o mundo então sobre os eixos
Ouviu-se logo rodar!
É que ele mesmo estremece
A ver um vulto tombar.
É que na queda dos entes
Que são na vida potentes,
Que têm nas veias ardor,
Há cataclismos medonhos
Que só sentimos em sonhos
Mas que nos causam terror!...

 

E o coração s'estortega
E s'entibia a razão!
No peito o sangue enregela
E logo a história diz: — Não!
Não chore a pátria esse filho,
Se procurou outro trilho
Também mais glórias me deu!
E quando os séculos passarem
Se hão de tristes curvarem
Enquanto alegre só eu?...

 

Oh! Basta! Basta! Silêncio!
Repousa, vate, nos Céus!
Que muito além dos espaços
Os cantos subam dos teus!
Se nesta vida d'enganos
Não são bastante os humanos
Pra te render ovações!
Perdoa os fracos, ó gênio,
Que pra cantar teu decênio
Somente Elmano ou Camões!

 

 

 

Entre a luz e sombra

 

Ao dia 7 de Setembro

Libertas Lux Dei!!...

 

 

Surge enfim o grande astro
Que se chama Liberdade!...
Dos sec'los na imensidade
Eterno perdurará!...
Como as dúlias matutinas
Que reboam nas colinas,
Nas selvas esmeraldinas
Em honra ao celso Tupá!...

 

Eram só cinéreas nuvens
Os brasíleos horizontes!
Curvadas todas as frontes
Caminhavam no descrer! —
As brisas nem murmuravam...
Os bosques nem soluçavam...
Os peitos nem se arroubavam...
— Estava tudo a morrer!...

 

De repente, o sol formoso
Vai as nuvens esgarçando.
As almas vão palpitando,
Cintilam magos clarões!...
E o Índio fraco, indolente
Fazendo esforço potente
Dos pulsos quebra a corrente,
Biparte os acres grilhões!...

 

Por terra tomba gemendo
O vão, atroz servilismo...
Rui a dobrez no abismo...
Eis a verdade de pé!...
Enfim!... exclama o silvedo
Enfim!... lá diz quase a medo
Selvagem, nu Aimoré!...

 

Assim, brasílea coorte,
Falange excelsa de obreiros,
Soberbos,calmos luzeiros
De nossa gleba gentil,
Quebrai os elos d’escravos
Que vivem tristes, ignavos,
Formando delas uns bravos
— P'ra glória mais do Brasil!...

 

Lançai a luz nesses crânios
Que vão nas trevas tombando
E ide assim preparando
Uns homens mais p'ro porvir!
Fazei dos pobres aflitos
Sem crenças, lares, proscritos,
Uns entes puros, benditos
Que saibam ver e sentir!...

 

Do carro azul do progresso
Fazei girar essa mola!
Prendei-os sim, — mas à escola
Matai-os sim, — mas na luz!
E então tereis trabalhado
O negro abismo sondado
E em nossos ombros levado
Ao seu destino essa cruz!!...

 

Fazei do gládio alavanca
E tudo ireis derribando;
Dormi, co’a pátria sonhando
E tudo a flux se erguerá!
E a funda treva cobarde
Sentindo homérico alarde,
Embora mesmo que tarde
Curvada assim fugirá!...

 

Enfim!... os vales soluçam
Enfim!... os mares rebramam
Enfim!... os prados exclamam
Já somos livre nação!!...
Quebrou-se a estátua de gesso...
Enfim!... — mas não... estremeço,
Vacilo... caio, emudeço...
Enfim de tudo inda não!!...

 

 

 

Sete de setembro

 

 

Liberdade! Independência!...
Eis os brados grandiosos
Que quais raios luminosos
Fulguraram lá nos céus!...
Eis a mágica — Odisseia
Que duns lábios rebentando,
Foi o povo transformando,
Foi rompendo os negros véus!...

 

As colinas, prados, montes,
As florestas seculares
— Os sertões, os próprios mares
Exultaram com fervor!
E os brados retumbaram
Pela lúcida devesa,
Pela virgem natureza
Com homérico clangor!...

 

Qual artista consumado,
Qual um velho estatuário
Do Brasil no azul sacrário,
Essa data vos traçou,
— O triunfo mais pujante,
A eleita das ideias,
A major das epopeias
— Q'inda igual não se gerou!...

 

Mas embora, meus senhores
Se festeje a Liberdade,
A gentil Fraternidade
Não raiou de todo, não!...
E a pátria dos Andradas
Dos — Abreu, Gonçalves Dias
Inda vê nuvens sombrias,
Vê no céu fatal bulcão!...

 

Muito embora Rio Branco,
Esse cérebro profundo
Que passou por entre o mundo,
Do Brasil como um Tupã!...
Muito embora em catadupas
Derramasse o verbo augusto,
Da nação no enorme busto
Inda a mancha existe, há!...

 

É preciso com esforço,
Colossal, estranho, ingente,
Ir o cancro, de repente
Esmagar que nos corrói!...
É preciso que essa Deusa,
A excelsa Liberdade,
Raie enfim na Imensidade
Mais altiva como sói!...

 

Sai da larva a borboleta
Com as asas auriazuis
E um disco vai — de luz
A deixar onde passou!
No entanto o grande berço
Das façanhas de Cabrito
Inda espera um novo grito
Como o — Basta — de Waterloo!...

 

Eu bem sei que Guttemberg
Que esse Fulton primoroso
Faust, Kepler grandioso
Trabalharam té vencer!
Mas embora tropeçassem
Acurando os seus eventos,
Tinham sempre tais portentos
A vontade por poder!...

 

Eia! sim! — p’ra Liberdade
Irrompei qual verbo eterno,
Como o — Fiat — superno
Pelos ares a rolar!
Eia! sim! — que nossa pátria
Só precisa — mas de bravos...
E em prol desses escravos
Seu dever é trabalhar!!...

 

Somos filhos dessa gleba
Majestosa aonde o gênio
Como o astro do proscênio
Solta as asas, mui febril!
Dos selvagens Tiaraiús
E dos brônzeos Guaicurus...
Somos filhos do Brasil!...

 

Esperemos, tudo embora!...
Pois que a sã locomotiva,
Do progresso imagem viva
Não se fez a um sopro vão!.
Aguardemos o momento
Das mais altas epopeias,
Quando o gládio das ideias
Empunhar toda a nação!...

 

Esperemos mais um pouco
Q’inda há almas brasileiras
Que se lembrarão, sobranceiras,
Que é preciso progredir!...
Inda há peitos valerosos
Que combatem descobertos
Por florestas, por desertos,
Mas c'os olhos no porvir!...

 

Inda há lúcidas falanges
Lutadores denodados
Que se erguem transportados
Burilando a sã razão!...
Inda há quem se recorde
Do Egrégio Tiradentes
Que do sangue as gotas quentes
Derramou pela nação!!...

 

Já nas margens do Ipiranga
Patrióticos acentos
Vão alados como os ventos
Pelos páramos azuis!!...
Vamos! Vamos! — eia! exulta,
Jovem pátria dos renomes...
— Vibra a lira, Carlos Gomes!
Bocaiuva, espalha luz!!...

 

 

 

Três pensamentos

 

 

Nasceste no Brasil — filha d’América,
Tu sabes conservar nas débeis veias
No lúcido pulmão
O sangue efervescente e purpurino
A força de subir ao céu da história.
As lutas da razão!...

 

Nasceste no Brasil — em meio às plagas
Da grande natureza mais pujante
E cheia de arrebol!...
E sabes obumbrar os astros fulvos
E lanças raios mil por toda a parte,
Soberba como o sol!...

 

Nasceste no Brasil e o eco ovante
Das glórias sublimadas que tu colhes
Por este céu azul,
Vem férvido, viril e acentuado
Assaz repercutir com mais verdade
Aqui... aqui no sul!...

 

 

 

Paranaguadas

 

 

Que importa que tu fales
Que importa que tu files
Que importa que não cales,
Que importa que tu fales
Que importa que te rales,
Que importa-me essa bílis
Que importa que tu fales
Que importa que tu files.

[Zat.]

 

 

 

Questão Brocardo

 

 

— Pife, pufe, pafe, pefe
Pafe, pefe, pife, pufe —
A cacholeta no chefe —
— Pife, pufe, pafe, pefe
Estoure como um tabefe
E o ventre de raiva entufe —
— Pife, pufe, pafe, pefe
Pafe, pefe, pife, pufe!

[Zot.]

 

 

 

Sempre

 

 

Se é certo que o amor é um bem profundo
Se é certo que o amor é um sol ardente,
Eu hei de amar-te sempre neste mundo
E sempre, sempre, sempre — eternamente.

[Zut.]

 

 

 

Beijos

 

 

Nesta tebaida infinita
Da vida, na sombra oculto,
Eu gosto de olhar o vulto
De uma criança bonita.

 

Porque afinal as crianças,
Como eu deslumbro-me ao vê-las,
Cintilam como as estrelas,
Florescem como esperanças.

 

Dentro de mim se projeta
A luz cambiante dos prismas
E batem asas as cismas
Qual passarada irrequieta.

 

E batem asas e ruflam,
Pelas artísticas plagas,
As auras que as grandes vagas
Dos fundos mares insuflam.

 

E digo, ó mães, se uma aurora
Fosse a minh’alma sincera,
Os clarões todos eu dera
A uma criança que chora.

 

Porque se a luz fortalece
Arbustos e as andorinhas,
Também por certo às criancinhas
Conforta, avigora, aquece.

 

E eu que aplaudo e que rimo
Tudo isso que a luz se regre,
Na vibração mais alegre
As criancinhas estimo.

 

Portanto, assim, sem refolhos
Beijando a Olga, beijando
Meus sonhos vão, irradiando,
Se derramar em seus olhos!

 

 

 

Questão Brocardo

 

 

Triolé fura essa pança
Do Delegado — és um russo,
Revolução n’esta dança...
Triolé fura essa pança,
Fura, fura como a lança
Ou como no boi um chuço;
Triolé fura essa panca
Do Delegado — és um russo.

[Zat.]

 

 

 

[Pinto, Pinta]

 

 

Pinto, pinta — ponta à ponta
Tanta ponta, Pinto pinta
Que pinta se pinta a pinta
Pinto — pinta — ponta à ponta.
Pinto é ponto mas não ponta
Mas se pinta por um pinto
E já que o Pinto se pinta
Eu pinto-lhe a pinta ao Pinto.

[Zat.]

 

 

 

Piruetas

 

 

Finou-se um tal inglês
Gastrônomo e patife
Que tanto — de uma vez
Comeu, comeu e esparramou-se em bife;
Que um dia de jejum,
Pela pança rotunda e quixotesca,
Teve um parto... comum,
Um feto original... de carne fresca.

[Zat.]

 

 

 

As devotas

 

 

I

Enquanto o sino bimbalha,
Bimbalha, bimbalha e tine,
Lançai do olhar a migalha
— Enquanto o sino bimbalha —
À raça que se amortalha
No horror que não se define...
Enquanto o sino bimbalha
Bimbalha, bimbalha e tine.

 

 

II

Perto da Igreja a senzala,
O Cristo junto aos escravos
E, pois, deveis visitá-la,
Perto da Igreja, a senzala

E procurar transformá-la
Da luz às palmas, aos bravos!...
Perto da Igreja a senzala,
O Cristo junto aos escravos.

 

 

III

E tão-somente por isto
Enquanto o sino bimbalha,
Bem antes de terdes visto
— E tão-somente por isto —
Todo o martírio do Cristo,
O vosso amor que lhes valha,
E tão-somente por isto,
Enquanto o sino bimbalha.

[Zat.]

 

 

 

[De claque]

 

 

De claque, casaca e luva,
De luva, casaca e claque
Ao rendez-vous da viúva,
De claque, casaca e luva,
Tu vais — arrostas a chuva
No macadam — plaque, plaque...
De claque, casaca e luva,
De luva, casaca e claque.

[Zat.]

 

 

 

[Meus esplêndidos]

 

 

Meus esplêndidos desejos
Emigram, como beijos,
Pelo azul espaço, em curvas,
Rasgando essas brumas turvas;
Pelo sol das primaveras,
Batendo as asas brancas,
Como, batem, quimeras...
.......................
Voai, andorinhas francas!

[Coriolano Scevola]

 

 

 

[Nunca se cala]

 

 

Nunca se cala o Callado
E sempre o Callado, fala
Callado que não se cala,
Nunca se cala o Callado,
Callado sem ser calado,
Callado que é tão falado...
Nunca se cala o Callado
E sempre o Callado, fala.

[Zat.]

 

 

 

[Estoure como]

 

 

Estoure como o champagne
O triolé — pule e salte
E como os gatos arranhe,
Estoure como o champagne
E a cara dos erros lanhe
E como o sol nunca falte...
Estoure como o champagne
O triolé — pule e salte.

[Zot.]

 

 

 

[Parece um céu]

 

 

Parece um céu estrelado
Esta vida de nós dois
Depois d’aquele passado...
Parece um céu estrelado
Largo, puro, undiflavado
Depois do pesar, depois,
Parece um céu estrelado
Esta vida de nós dois.

[Zut.]

 

 

 

[Levantem esta bandeira]

 

 

Levantem esta bandeira
Da posição de farrapo;
Da terra azul brasileira
Levantem esta bandeira
Que sente o horror da esterqueira
Da escravidão — negro sapo.
Levantem esta bandeira
Da posição de farrapo.

[Zat.]

 

 

 

Olhares

 

 

Teus traquinantes olhinhos
Continhas, Ziza, parecem;
Zigzagam sempre, tontinhos
Teus traquinantes olhinhos;
Tão pretos, tão redondinhos
Olhinhos que me embevecem,
Teus traquinantes olhinhos
Continhas, Ziza, parecem.

[A.C.]

 

 

 

[Nas explosões]

 

 

Nas explosões de bons risos
Os triolés petulantes
Chocalhem, tinam, precisos
Nas explosões de bons risos,
Tilintem como mil guisos
Sonoros, raros, vibrantes
Nas explosões de bons risos,
Os triolés petulantes.

 

 

 

[Preso ao trapézio]

 

 

Triolé — pega estes zotes
E dá-lhes de baixo acima
Preso ao trapézio da rima
Na mais artística esgrima
D’estouros e piparotes,
Preso, ao trapézio da rima
Triolé — pega estes zotes.

[Zat.]

 

 

 

Grito de guerra

Aos senhores que libertam escravos.

 

 

Bem! A palavra dentro em vós escrita
Em colossais e rubros caracteres,

É valorosa, pródiga, infinita,
Tem proporções de claros rosicleres.

 

Como uma chuva olímpica de estrelas
Todas as vidas livres, fulgurosas,
Resplandecendo, — vós tereis de vê-las
Rolar, rolar nas vastidões gloriosas.

 

Basta do escravo, ao suplicante rogo,
Subindo acima das etéreas gazas,
Do sol da ideia no escaldante fogo,
Queimar, queimar as rutilantes asas.

 

Queimar nas chamas luminosas, francas
Embora o grito da matéria apague-as;
Porque afinal as consciências brancas
São imponentes como as grandes águias.

 

Basta na forja, no arsenal da ideia,
Fundir a ideia que mais bela achardes,
Como uma enorme e fulgida Odisseia
Da humanidade aos imortais alardes.

 

Quem como vós principiou na festa
Da liberdade vitoriosa e grande,
Há de sentir no coração a orquestra
Do amor que como um bom luar se expande.

 

Vamos! São horas de rasgar das frontes
Os véus sangrentos das fatais desgraças
E encher da luz dos vastos horizontes
Todos os tristes corações das raças...

 

A mocidade é uma falena de ouro,
Dela é que irrompe o sol do bem mais puro:
Vamos! Erguei vosso ideal tão louro
Para remir o universal futuro...

 

O pensamento é como o mar — rebenta,
Ferve, combate — herculeamente enorme
E como o mar na maior febre aumenta,
Trabalha, luta com furor — não dorme.

 

Abri portanto a agigantada leiva,
Quebrando a fundo os espectrais embargos,
Pois que entrareis, numa explosão de seiva,
Muito melhor nos panteões mais largos.

 

Vão desfilando como azuis coortes
De aves alegres nas esferas calmas,
Na atmosfera espiritual dos fortes,
Os aguerridos batalhões das almas.

 

Quem vai da sombra para a luz partindo
Quanta amargura foi talvez deixando
Pelas estradas da existência — rindo
Fora — mas dentro, que ilusões chorando.

 

Da treva o escuro e aprofundado abismo
Enchei, fartai de essenciais auroras,
E o americano e fértil organismo
De retumbantes vibrações sonoras.

 

Fecundos germens racionais produzam
Nessas cabeças, claridões de maios...
Cruzem-se em vós — como também se cruzam
Raios e raios na amplidão dos raios.

 

Os britadores sociais e rudes
Da luz vital às bélicas trombetas,
Hão de formar de todas as virtudes
As seculares, brônzeas picaretas.

 

Para que o mal nos antros se contorça
Ante o pensar que o sangue vos abala,
Para subir — é necessário — é força
Descer primeiro a noite da senzala.

 

 

 

[Da lua aos raios]

 

 

Da Lua aos raios prateados
Que no horizonte se espargem,
Como fulguram os prados
Da lua aos raios prateados,
Há vagos silfos alados
Do rio azul pela margem
Da lua aos raios prateados
Que no horizonte se espargem.

[Zat.]

 

 

 

[Teus belos olhos]

 

 

Teus olhos belos por dentro
De grandes colorações,
Parecem ter pelo centro
Teus olhos belos por dentro
A luz vital onde eu entro
E saio imerso em clarões...

Teus olhos belos, por dentro
De grandes colorações.

[Zot.]

 

 

 

Adalziza

 

 

Tens um olhar cintilante,
Tens uma voz dulçurosa,
Tens um pisar fascinante,
Tens um olhar cintilante
Cheio de raios, faiscante
Ó criatura formosa,
Tens um olhar cintilante,
Tens uma voz dulçurosa!...

 

 

 

[Teus olhos]

 

 

Teus olhos — esses carinhos,
Esse casal de ilusões
Tão doces como os arminhos,
Teus olhos — esses carinhos
Parecem ser os dois ninhos
Das minhas consolações,
Teus olhos — esses carinhos
Esse casal de ilusões!...

[Cruz]

 

 

 

Ser pássaro

 

 

Ah! Ser pássaro! ter toda a amplidão dos ares
Para as asas abrir, ruflantes e nervosas,
Dos parques através e dos moitais de rosas,
Nos floridos jardins, nas hortas e pomares.

 

Ser pássaro, cantar, subir, voar na altura,
Pelos bosques sem fim, perder-se nas florestas,
Das folhagens do campo em meio da espessura,
Das auroras de abril nas cristalinas festas.

 

Tecer no tronco seco ou no tronco viçoso
O quente lar do amor, o carinhoso ninho,
De onde sairá mais tarde o pipilar mavioso
De um outro mais gentil e meigo passarinho.

 

Não temer o verão e não temer o inverno
Para tudo alcançar na leve subsistência,
No contínuo lidar, no labutar eterno,
Que é talvez da alegria a mais feliz essência.

 

Viver, enfim, de luz e aromas delicados
Nascido dentre a luz, gerado dentre aromas,
Sonorizando o azul, sonorizando os prados
E dormindo da flor sob as cheirosas comas.

 

Voar, voar, voar, voar eternamente,
Extinguir-se a voar, no matinal gorjeio,
E ser pássaro, é ter em cada asa fremente
Um sol para aquecer o frio de algum seio.

 

 

 

O Botão da rosa

A uma atriz

 

 

O campo abrira o seio às expansões frementes
Das árvores senis, dos galhos viridentes.

 

Caía a tarde fresca
Loira, gentil, vivaz como a canção tudesca.
A iluminada esfera
Calma, profunda, azul como um sonhar de virgem,
Dava um brilho-cetim às verdes folhas d’hera.
No ar uma harmonia avigorada e casta,
No crânio uma vertigem
Duma ideia viril, duma eloquência vasta.

 

Tardes formosíssimas,
Ó grande livro aberto aos geniais artistas,
Como tanto alargais as crenças panteístas,
Como tanto esplendeis e como sois riquíssimas.

 

Quanta vitalidade indefinida, quanta,
Na pequenina planta,
No doce verde-mar dos trêmulos arbustos,
Que misticismo, justos,
Bebia a alma inteira ao devassar o arcano
Das árvores titãs, das árvores fecundas
Que tinham, como o oceano,
Febris palpitações intérminas, profundas.

 

Esplêndidas paisagens
Opunhas o largo campo às vistas deslumbradas.
As múrmuras ramagens,
À luz serena e terna, à luz do sol — que espadas
De fogo arremessava, em frêmitos nervosos,
Pelo côncavo azul dos céus esplendorosos,
Tinham falas de amor, segredos vacilantes
Finos como os brilhantes.

 

A música das aves
Cortava o éter calmo, em notas multiformes,
Límpidas e graves
Que estouravam no ar em convulsões enormes.
Aqui e além um rio
Serpejava na sombra, em meio de um rochedo
Áspero e sombrio.
O olhar perscrutador, o grande olhar, sem medo
E o espírito mudo,
Como um herói gigante avassalavam tudo...

 

Nuns madrigais risonhos
Abria-se o país fantástico dos sonhos.
Alavam-se os aromas
Leais, inexauríveis
Das largas e invisíveis
Selváticas redomas.

 

A seiva rebentava
Em ondas — irrompia
Na doce e maviosa e plácida alegria
De uma ave que cantava,
Dos belos roseirais
Que ostentavam a flux as rosas virginais.

 

E as jubilosas franças
Dos árvoredos altos,
Rígidos, atléticos,
Derramavam no campo uns fluidos magnéticos
Dumas vontades mansas.

 

A doce alacridade ia explosindo aos saltos.
E toda a natureza
Robusta de saúde e estrênua de grandeza
Libérrima e vital,
Erguia-se pujante, audaz e redentora,
No gérmen material da força criadora,
Dentre a vida selvagem mística, animal...

 

Dos roseirais preciosos
Nos renques primorosos,
Numa linda roseira abria castamente,
Como um sonho de luz numa cabeça ardente,
O mais belo, o mais puro entre os botões de rosa.
Tinha essa cor formosa,
Tinha essa cor da aurora,
Quando ensanguentada em rubro a vastidão sonora

 

Era um botão feliz
Sorrindo para o Azul, zombando da matéria.
Tinha o leve quebranto e a maciez etérea
Que uma estrofe não diz.
Das pétalas macias,
Das pétalas sanguíneas,
Doces como harmonias
Brandas e velutíneas
Uns perfumes sutis se espiralavam, raros,
Pela mansão do Bem, pelos espaços claros.
Perfumes excelentes,
Perfumes dos melhores,
Perfumes bons de incógnitos Orientes.

 

Matéria, não deplores
O viver natural dos vegetais alegres;
Eles são mais ditosos
Que os nababos e reis nos seus coxins pomposos;
E por mais que tu regres
Ó matéria fatal, a tua vida inteira,
No rigor da higiene;
E por mais que a maneira
Do teu grande existir, desse existir — perene
De ironias e pasmos,
Explosões de sarcasmos
Tu completes, matéria — ó humanidade ousada —
Com a ciência altanada;
E por mais que no século,
Tu mergulhes a ideia, o prodigioso espéculo,
Será sempre maior e exuberante e forte,
Ó matéria fatal,
Essa vida tão rica
Que se corporifica
Na valente coorte
Do poder vegetal.

 

Era um botão feliz,
Cuja roseira, impávida,
Ébria de aromas bons, ébria de orgulhos — ávida
De completa fragrância,
Palpitava com ânsia
Desde a própria raiz.

 

E entanto o sol tombara e triunfantemente
Como um supremo Rubens,
Jorrando à curvidade etérea do poente,
O ouro e o escarlate, aprimorando as nuvens,
Numa distribuição simpática de cores,
De tintas e de luzes
De galas e fulgores
Rubros como o estourar dos fervidos obuses.

 

O cérebro em nevrose,
No pasmo que precede a augusta apoteose
De uma excelsa visão perfeitamente bela,
De uma excelsa visão em límpidos dóceis,
Exaltava o acabado artístico da Tela
E o gosto dos pincéis.

 

Caíam da amplidão em névoas singulares
Os pálidos crepúsculos.
Os fúlgidos altares
Do homem primitivo — a relva, o prado, o campo
Onde ele ia buscar a força de uma crença
Que então lhe iluminasse a alma escura e densa
Morriam de clarões — os poderosos músculos
Da fértil mãe de tudo — a natureza ingente —
Deixavam de bater. — O olhar do pirilampo
Oscilava, tremia — azul, fosforescente.

 

As sombras vinham, vinham
Lembrando um batalhão d’espectros que caminham
E a casta nitidez sintética das cousas
Tomava a proporção das funerárias lousas.

Completara-se então o mais extraordinário,
O mais extravagante
Dos fenômenos todos:
A noite. — Enfim descera a treva do Calvário,
A treva que envolveu o Cristo agonizante.

Coaxavam negras rãs nos charcos e nos lodos.
A abóbada espaçosa, a física amplitude,
Mostrava a profundez da angústia de ataúde
De um operário pobre,
Quando se escuta o dobre

Amplíssimo e funéreo,
Sinistro e compassado,
Rolar pela mansão gloriosa do mistério,
Assim com um soluço aflito, estrangulado.

 

Devia ser, devia
Por uma noite assim,
Como esta noite igual,
Que derramou Maria
A lágrima da dor, — que o célebre Caim
Sentiu do crânio as convulsões do Mal.

Mas o botão de rosa,
Traído pelo estranho zéfiro da sorte,
Rolou como uma cisma
Intensa e luminosa
Ardente e jovial em que a razão se abisma
E foi cair, cair no pélago da morte,
Em um dos mais raivosos,
Em um dos mais atrozes
Rios impetuosos,
Cheios de surdas vozes,
Sozinho, em desamparo, assim como um proscrito,
Em meio à placidez
Dos astros no infinito
E a mesma irracional e fúnebre mudez.

 

Depois e além de tudo,
Além do grave aspecto inteiramente mudo,
Ao tempo que morria
O cândido botão — em um dos tantos galhos
Virentes da roseira — alegre no ar se abria
Um outro que ostentava as pétalas sedosas,
As pétalas gracis de cores deliciosas,
De cores ideais.

As auras musicais
Passavam-lhe de leve,
Nos tímidos rumores,
De um ósculo mais breve

 

E dentre a exposição das delicadas flores,
Das rosas — o botão
Aberto ultimamente as cúpulas austeras,
As plagas da esperança, a irmã das primaveras,
Pendido um quase nada, esbelto na roseira,
Mostrava aquela unção,
A ínclita maneira
De quem se glorifica
Subindo ao céu azul da majestade pura,
Da eterna exuberância,
Da fonte sempre rica,
Da esplêndida fartura
Da luz imaculada — a egrégia substância
Que faz das almas claras
Pela fecundidade olímpica do amor,
Magníficas searas,
De onde se difunde a vida sempiterna,
A vida essencial, a lei que nos governa,
A ideia varonil do poeta sonhador.

 

A arte especialmente, esse prodígio, atriz,
Como o botão de rosa
Tão meigo e tão feliz,
Pode ser arrojada e brutalmente, ao pego,
Na treva silenciosa,
Onde o espírito vai, atordoado e cego,
Cair, entre soluços,
Como um colosso ideal tombado ao chão de bruços,
Ou pode equilibrar-se em admirável base
Estética e profunda,
Assim, bem como o outro, a mais radiosa altura.

 

Deves sondá-la bem nesta segunda fase.
Precisas para isso uma alma mais fecunda.
Precisas de sentir a artística loucura...

 

 

 

[Ó Adalziza]

 

 

Ó Adalziza dos sonhos;
Estrela dos firmamentos
Dos meus cantares risonhos
Ó Adalziza dos sonhos
Rasga esses véus enfadonhos
Dos teus louros pensamentos,
Ó Adalziza dos sonhos,
Estrela dos firmamentos.

[Zat.]

 

 

 

[Enquanto este sangue]

 

 

Enquanto este sangue ferve
Com força, com toda a força,
Palpite a fibra da verve
Enquanto este sangue ferve
Esmague-se o que não serve
Na treva o Mal se contorça,
Enquanto este sangue ferve,
Com força, com toda a força.

[Zot.]

 

 

 

[Como um cisne]

 

 

Como um cisne, est’alma frisa
O mar de luz de teus olhos,
Ó simpática Adalziza
Como um cisne, est’alma frisa,
Vagueia, paira, desliza
Sem naufragar nos escolhos
Como um cisne, est’alma frisa
O mar de luz de teus olhos.

[Zat.]

 

 

 

[Merece o bom]

 

 

Merece o bom do Vidal
Que é mesmo um Joca de truz,
Ter também com o seu Fiscal,
Merece o bom do Vidal
Um banquete bambual,
De cem milhões de bambus
Merece o bom do Vidal
Que é mesmo um Joca de truz!

[Zot.]

 

 

 

[Zulmira]

 

 

Zulmira dos meus amores,
Zulmira das minhas cismas,
Resplandece como as flores,
Zulmira dos meus amores
Abre os olhos sedutores
Nos quais a minh'alma abismas,
Zulmira dos meus amores,
Zulmira das minhas cismas.

[Zat.]

 

 

 

[Deixai]

 

 

Deixai que a minh'alma escassa
De luz — aos astros emigre
Como gaivota que passa
Deixai que a minh'alma escassa
De amor — na plúmbea desgraça
De atrozes garras de tigre,
Deixai que a minh'alma escassa
De luz — aos astros emigre.

[Zot.]

 

 

 

[Quando ela]

 

 

Quando ela está de colete,
Espartilhada, irradiante
Vestida de azul-ferrete
Quando ela está de colete
Em mim cruzando o florete
Do seu olhar — que elegante
Quando ela está de colete,
Espartilhada, irradiante.

[Zut.]

 

 

 

[Ó cintilante quiquia]

 

 

Ó cintilante Quiquia,
Menina dos meus olhares,
Flor azul da simpatia,
Ó cintilante Quiquia,
Rasga este céu da alegria
Dos meus risonhos cantares,
Ó cintilante Quiquia,
Menina dos meus olhares.

[Zat.]

 

 

 

[Olhos pretos]

 

 

Olhos pretos, sonhadores
Ó celeste Carolina,
Como são esmagadores
Olhos pretos sonhadores,
Como vibram dos amores
A noss'alma cristalina,
Olhos pretos, sonhadores,
Ó celeste Carolina.

[Zot.]

 

 

 

[Se estala a estrofe]

 

 

Se estala a estrofe de fogo,
Se explose a estrofe do Bem,
Como o verbo demagogo
Se estala a estrofe de fogo,
Não ceda o espírito ao rogo
Do Mal que os erros contêm,
Se estala a estrofe de fogo,
Se explose a estrofe do Bem!

 

 

 

Amor!!!...

 Oferecido à Ilma. Sra. D. Pedra como prova de imensa amizade e profundo amor que lhe consagra


O Autor.

 

 

Amor, meu anjo, é sagrada chama
Que o peito inflama na voraz paixão,
Amo-te muito eu t’o juro ainda
Deidade linda que não tem senão!

 

Virgem formosa, d’encantos bela,
Gentil donzela, meu amor é teu.
Vou consagrar-te mil afetos tantos
Puros e santos qual também Romeu!

 

Flor entre as flores, a mais linda, altiva
Qual sensitiva, só tu és, ó sim.
Esses teus olhos sedutores, belos
De mil anelos, me pedirão a mim.

 

Anjo, meu anjo, eu te adoro e amo.
Por ti eu chamo nas horas de dor.
Sem ti eu sofro; um sequer instante
De ti perante só me dás valor.

 

Meu peito em ânsias só por ti suspira
Como da lira a vibrante voz!
Te vendo eu rio e senão gemendo
Vou padecendo saudade atroz!

 

Amor ardente de meu coração
Santa paixão em todo peito forte
Eu hei de amar-te até mesmo a vida
Deixar, querida, e abraçar a morte!

 

 

 

[Ó flora]

 

 

Ó Flora, ó ninfa das rosas,
Ó frescura dos morangos,
Abre as pupilas radiosas,
Ó Flora, ó ninfa das rosas,
Dá-me as estrelas formosas
Do olhar repleto de tangos,
Ó Flora, ó ninfa das rosas,
Ó frescura dos morangos.

[Zat.]

 

 

 

[Morena dos olhos pretos]

 

 

Morena dos olhos pretos

Dos olhos pretos, morena,
Escuta os vagos duetos
Morena dos olhos pretos,

Faremos ambos, tercetos,
Com esta esfera serena,
Morena dos olhos pretos,
Dos olhos pretos, morena.

[Zot.]

 

 

 

[Embora]

 

 

Embora eu não tenha louros
Como esses grandes heróis
E nem da ideia os tesouros,
Embora eu não tenha louros,
Talvez nos tempos vindouros
Traduza o poema dos sóis,
Embora eu não tenha louros
Como esses grandes heróis.

[Zat.]

 

 

 

[Ó Alzira]

 

 

Ó Alzira, Alzira, Alzira,
Estrela resplandecente,
Resplandecente safira,
Ó Alzira, Alzira, Alzira,
As vibrações desta lira,
Acorda do sono ardente,
Ó Alzira, Alzira, Alzira,
Estrela resplandecente.

[Zot.]

 

 

 

[Aos relâmpagos]

 

 

Aos relâmpagos sulfúreos
Na esfera zigue-zagando
Como esses pobres tugúrios,
Aos relâmpagos sulfúreos
Se douram, brilham purpúreos
Fulguram de quando em quando,
Aos relâmpagos sulfúreos
Na esfera zigue-zagando.

[Zot.]

 

 

 

[À sombra espessa]

 

 

À sombra espessa de um álamo
Quando nasceu-me a paixão,
Crescendo aos beijos do tálamo
À sombra espessa de um álamo
Que de harpas senti, que cálamo
Por dentro do coração
A sombra espessa de um álamo
Quando nasceu-me a paixão.

[Zat.]

 

 

 

Rosa

 

A Moreira de Vasconcelos

 

Et, rose, elle a vécu ce que vivent les roses,
l’espace d'un matin.

 

         (Malherbe)

 

 

Rosa — chamava-se a estrela
Daquelas flóreas paragens;
Era escutá-la e era vê-la
Metida em brancas roupagens

 

Todas de pregas e tufos,
De laçarotes e rendas,
Ou mesmo ouvir-lhe os arrufos
Ou surpreender-lhe as contendas

 

Nas lindas tardes radiadas
Por cores de silforamas
E sentir logo, inspiradas
Do amor, as férvidas chamas.

Ela era um beijo fundido
Ao cintilar de uma aurora,
Um sonho eterno espargido
Nos belos sonhos de Flora.

 

E tinha uns longes sublimes
De grande força lasciva,
A transudar, como uns crimes
Do sangue, da carne altiva.

 

Contava tudo... mas tanto,
Em turbilhões, em cascata,
Que recordava esse canto
Uma garganta de prata.

 

E quando os poetas, rapazes,
A viam passar, vibrante,
Mostrando as curvas audazes,
Do corpo todo radiante,

 

Diziam de entre os primores
De estrofes mais dulçurosas:
— Tu és a gêmea das flores,
Das rosas, perfeitas rosas.

 

Convulsionado e sem regra
O coração nos palpita;
Andas alegre e se alegra
A gente quando te fita.

 

Tens umas coisas estranhas
Nas refrações da pureza...
Umas finuras tamanhas...
Uma sutil gentileza...

 

Ficas rosada se um tico
Alguém te diz, de mais franco...
Mas como fica tão rico,
Tão belo o rubro no branco,

 

Nesse grácil e tão claro,
Sereno e cândido rosto
Que é mesmo um céu puro e raro
Das alvoradas de agosto.

 

Depressa cobre-te o pejo
A face nova e adorada,
De sorte que sem desejo
És — Rosa e ficas rosada.

 

Dos risos colhes a messe
E és doce como o conforto,
És casta como uma prece
Gemida ao lado de um morto.

 

Para que a dor não te obumbre
A glória de flores junca
Tua vida e, por isso, nunca
Nas mágoas terás vislumbre.

 

Permita o bom sol que inunda
De luz os bosques — permita
Que sejas sempre fecunda
De gozo e sempre bonita.

 

........................

 

Agora, quando alguém passa
Por onde a estrela morava,
Olhando pela vidraça
Bem junto da qual bordava,

 

Repara um silêncio triste
Na sala — em crepes envolta,
Onde parece que existe
Profunda lágrima solta.

 

E sente por dentro d’alma
Aquela angústia que esmaga
Bem como em noites sem calma
A vaga esmaga outra vaga.

 

Apenas as flores lindas
Que vendo Rosa morriam
Com brejeirices infindas
De invejas que renasciam,

 

Sem mais inúteis ciúmes,
Abrem os frescos pistilos,
Jogando aos céus, em perfumes,
Os seus melhores sigilos.

 

..................

 

No entanto a luz soberana
Do amor desfilam as rimas
Dos poetas — como um hosana
A quem já goza outros climas.

 

Rosa — chama-se a estrela
Daquelas flóreas paragens;
Era escutá-la e era vê-la
Metida em brancas roupagens,

 

Para exclamar: — Dentro dela
Existe a fibra gloriosa...
Ninguém viu coisa mais bela
Nem Rosa... tão bela rosa!...

[Do Cirrus e Nimbus]

 

 

 

[Quando estás]

 

 

Quando estás de laçarotes
E de plissês e fichus,
De rendas e de decotes,
Quando estás de laçarotes,
Toilette de chamalotes,
Quanto esplendor, quanta luz,
Quando estás de laçarotes
E de plissês e fichus.

 

 

 

[Da ideia]

 

 

Da ideia nos mares jônios
A barca das tuas cismas
Soprada por bons favônios
Da ideia nos mares jônios,
Vai livre dos maus demônios,
Batida da luz dos prismas,
Da ideia nos mares jônios
A barca das tuas cismas.

 

 

 

[Como um assombro]

 

 

— Como um assombro de assombros
A rapariga — um rainúnculo,
Da serra pelos escombros
Como um assombro de assombros,
Quando vê de enxada aos ombros
O noivo — lembra um carbúnculo,
Como um assombro de assombros
A rapariga — um rainúnculo.

 

 

 

[Como fortes]

 

 

— Como fortes gargalhadas
Por um templo de cristal,
Sonoramente vibradas,
Como fortes gargalhadas,
Sinto ideias baralhadas
N’um frágil descomunal
Como fortes gargalhadas

Por um templo de cristal.

 

 

 

[Da bruma]

 

 

Da bruma pelos países
Pelos países da bruma,
Longe dos astros felizes,
Da bruma pelos países,
Tu vais perdendo os matizes
Da luz e da glória em suma,
Da bruma pelos países,
Pelos países da bruma.

 

 

 

[Epitáfio]

 

(5 out. 1885)

 

 

Alma pura e gentil, tão cedo arrebatada

Da doce mocidade aos sonhos cor-de-rosa,

Esta prova de Amor — pungente e dolorosa

Recebe lá no céu, oh! Alma idolatrada.

 

 

 

Saudação

 

 

Ao Liceu de Artes e Ofícios

 

 

Como esta luz é serena,
Como esta luz é sincera;
Como eu vejo a primavera
Num lápis e numa pena.

 

Que prismas de luz ardente,
Que prismas de luz suave;
Como eu sinto um canto de ave
Em cada boca inocente.

 

Sim! Que o estudo é como a aurora
Que nos entra pela casa,
Num vivo fulgor de brasa,
Vibrante, alegre, sonora.

 

Ele rasga a treva espessa,
Num só momento — cantando;
Vai estrelas semeando

Em cada tenra cabeça.

 

Tira os crânios do letargo
Da ignorância — pois entra
Como um sol e se concentra
Num esplendor muito largo.

 

Quem, ó Arte imaculada,
Medisse o ser da criança,
Pela alma de uma esperança
Pela alma de uma alvorada.

 

Quem aos páramos subindo,
Eternamente pudesse,
Dos astros a loura messe
Arrancar — depois abrindo

 

Os peitos das criancinhas

Jogá-los dentro e beijá-las

Cheias de pompa e das galas

Que a luz concede às rainhas!...

 

Pois que a treva entre fulgores,
É como, dentre ataúdes,
Rebentar como virtudes,
As mais simpáticas flores.

 

Ah! Ninguém sabe, por certo,
Quanto é bom, quanto é saudável,
Sentir a crença adorável
Como um clarão sempre aberto.

 

Ver os germens do futuro
No campo eterno da escola
Brilhando como a corola
De um lírio cândido e puro.

 

Ver morrer — como uns invernos
Da vida, os velhos colossos
E ver erguerem-se os moços
Como verões sempiternos.

 

Mães, ó mães tão estremosas,
Dos vossos ventres fecundos
Saem todos esses mundos
Das ideias fulgurosas.

 

Tudo isso quanto há escrito
De pensamento e crenças
Saiu das fontes imensas
De um grande amor infinito.

 

E desde a escrita a leitura
E desde um livro a uma carta,
A bondade sempre farta
Das mães — esplende e fulgura.

 

Bom dia ao mestre que é guia
Das belas crianças louras!
Bom dia às mães porvindouras,

À mocidade — Bom dia!

 

 

 

Frêmitos

 

 

I

Ó pombas luminosas
Que passais neste mundo eternamente
Só a cantar os madrigais de rosas,
Atravessados de um luar veemente,
Inundados de estrelas e esplendores,
De carinhos, de bênçãos e de amores.

 

 

II

Ó virgens peregrinas,
De meigo olhar banhado de esperanças,
Que perfumais com lírios e boninas
A aurora de cristal das louras tranças,
Que atravessais constantemente a vida
Do sol eterno, da visão florida.

 

 

III

Amadas e felizes
Gêmeas da luz das frescas alvoradas,
Vós que trazeis nas almas as raízes
Do que é são, do que é puro — ó vós amadas
Prendas gentis do paternal tesouro,
Iriados corações de fluidos de ouro.

 

 

IV

É para vós que eu quero
Engrinaldar de tropos e de rimas,
Num doce verso artístico e sincero,
Esgrimir com belíssimas esgrimas
A estrofe e dar-lhe os golpes mais seguros
Para que brilhe como uns astros puros.

 

 

V

É só a vós, apenas,
Que eu me dirijo, límpidas auroras,
Que pelas tardes plácidas, serenas,
Passais, galantes como ingênuas Floras,
Coroadas de flor de laranjeira,
Noivas, sorrindo à mocidade inteira.

 

 

VI

Porque é de vós que deve,
De vós que o sonho eterno dulcifica,
Partir o lume quando cai a neve,
Surgir a crença poderosa e rica.
Porque afinal, o que se chama crença,
Senão o amor e a caridade imensa?

 

 

VII

Os tristes e os pequenos
Em quem descansam brandamente os olhos,
Esses humildes, rotos Nazarenos
Que vivem, morrem suportando abrolhos,
Senão nos grandes entes piedosos
Que dão-lhes força aos transes dolorosos?

 

 

VIII

Oh, sim que a força eterna
Parte dos corpos rijos da saúde,
Perante a lei da vida que governa,
O nobre, o rei, o proletário rude;
Parte dos seres fartos de carinhos
Como de paz e de alegria os ninhos.

 

 

IX

Eu peço para todos
E peço a vós que sois as fortalezas
Da esperança, da fé — a vós que os lodos
Da miséria, do vício, das baixezas,
Não denegriram essas consciências
Castas e brancas como as inocências.

 

 

X

Nem se esperar devia
Que eu tentasse bater a outras portas,
Quando vós sois o exemplo de Maria;
Não andais mudas, regeladas, mortas
Pela noite voraz da sepultura
E escutareis os dramas da amargura.

 

 

XI

Não julgueis que eu vos peça,
Uma alvorada feita de um sorriso;
A minh'alma garante e vos confessa
Que se crê nas mansões do Paraíso,
É porque vós reinais por sobre a terra
E o Paraíso dentro em vós se encerra.

 

 

XII

A vós, a vós compete
A glória do dever — porque assim como
A luz do sol na lua se reflete,
Também das aflições no duro assomo,
Da pobreza refletem-se nas almas,
Vossas imagens, como auroras calmas.

 

 

XIII

Portanto, a mocidade
Vossa, terá de ser de hoje em diante,
Enquanto a esmagadora atrocidade
Da peste — nos vorar d’instante a instante,
Quem se há-de encarregar desta manobra
Do galeão da vida que sossobra.

 

 

XIV

E para isso, ó rainhas
Da juventude — tendes as quermesses
Que dão bons frutos assim como as vinhas;
As matinées de cânticos e preces,
Os cintilantes, pródigos bazares
Onde a luz salta extravasando em mares.

 

 

XV

Enquanto a mim, na arena
Da heroicidade humana que consola,
Oh, faz-me bem a vibração da pena,
Pelo amor, pelo afago, pela esmola,
Como um radiante e fulgido estilhaço
De sol febril no mármore do Espaço!

 

 

 

Gusla da saudade

 A Santos Lostada  pela morte

do seu velho pai.

 

 

Nunca mais, nunca mais esses teus olhos
Palpitarão nos olhos seus honestos
Nem hão de vê-lo em ânsias por escolhos.

 

Ele morreu, morreu — e os mais funestos
Lutos da dor feriram como abrolhos
Teu lar e os teus — serenos e modestos.

 

Que incalculável explosão de prantos
Não inundou as almas preciosas
Dos teus irmãos, da tua mãe — uns santos

 

Que peregrinam nestas lacrimosas
Sendas da vida, em mágoas, sem encantos
Como sem luz e sem orvalho as rosas.

 

Ah! formidável lei cruel da vida,
Lei da matéria, da mudez das lousas,
Da eterna noite atroz, indefinida;

 

Tens o segredo intérmino das cousas,
E nessa dura e tenebrosa lida,
Oh! nem sequer um dia só repousas.

 

Quem sabe, ó morte, ó lúgubre, quem sabe
O teu poder fatal, desapiedado
Onde se oculta e se resume e cabe.

 

Pois nem que o céu puríssimo, azulado
Cair aos pedaços, tombe e se desabe
Na profundez do abismo ilimitado

 

E a crença humana espavorida, em gritos,
Palpando o nada, esquálida, gemendo
Rasgue a amplidão de estranhos infinitos,

 

Nunca da morte saberão o horrendo
Mistério rijo e surdo dos granitos
Os corações que vivem combatendo?!...

 

Não! A Ciência penetrou, o estudo
Do pensador, abriu mais horizontes
Nesse problema silencioso e mudo.

 

O pensamento constelou as frontes,
Deu a razão o mais brunido escudo
E construiu as luminosas pontes

 

De onde se vai, com grande olhar, seguro,
Atravessar as regiões sonoras
Dos Ideais que irrompem do Futuro;

 

E sem contar dos séculos as horas,
E sem temer as mil visões do Escuro,
Alegremente ao fresco das auroras.

 

Mas entretanto, ó meu amigo, escuta,
Toda a saudade, a grande nostalgia
Nos deixa frios, mortos para a luta.
Porque, olha, a morte é sempre uma agonia!

 

 

 

Smorzando

 

 

O véu da tarde cai pelas quebradas
Das serras altaneiras;

As aves condoreiras
Rompem da mata em místicas risadas
O largo espaço intérmino cindindo.

 

A livre natureza,
Humildemente, pura, vai caindo,
Caindo de joelhos
Como esse denso véu
Cai na viril e rútila grandeza
Do sol que desce em borbotões vermelhos
Como uma mancha tropical no céu.

 

E vibra a Ave-Maria
Como um soluço, estranho, indefinido;
Talvez como um gemido
Dentre a escalvada e agreste serrania.

 

E desce e desce e desce
De toda a imensidade
A salutar carícia de uma prece,
O eflúvio da saudade
Que alaga o nosso peito heroicamente
Como o luar de um treno
Mavioso e emoliente,

Mais doce que o sorrir do Nazareno.

 

 

 

Giulietta Dionesi

 (Desterro)

Ao seu violino

 

 

Ah! Giulietta! Os sons do teu violino
Choram, suspiram, rugem como o leão

Lembram sonoro rio cristalino
E tem soluços como um coração.

 

Ó da harmonia divinal sereia!
Rosas e estrelas e canções de ninhos
Nas cordas do violino que gorjeia
Passam cantando como os passarinhos.

 

Não sei que estranho espírito sereno
Para a harmonia essa alma te inspirou
Que dentro dum violino tão pequeno
A música do espaço concentrou!

 

Ah! peregrina do país do sonho
Flor luminosa de região sonora,
No teu suave coração risonho
Vibram triunfantes os clarins da aurora.

 

Tudo dentro de ti gorjeia e trina,
Como trina e gorjeia o rouxinol
Nas paisagens silvestres da campina,
Aos esplendores siderais do sol.

 

Quem não há de chorar e rir não há de
De amor, de saudade e de esperança,
De assombro, vendo que na tenra idade
Já és tão grande, sendo uma criança?!

 

Os astros do cerúleo firmamento,
As meigas flores, o infinito mar
Que digam como tu nesse instrumento
Sabes sorrir e sabes soluçar...

 

Domadora feliz do som profundo,
Deusa imortal de ignotas harmonias,
Vai triunfar nas vastidões do mundo,
Da glória nas eternas sinfonias.

 

 

 

Filetes

 (Desterro)

 

 

I

Ó pérola nitente,
Ó pérola do amor,
Ó imã redolente
Das pétalas da flor;

 

Ó lágrima sutil,
Ó lágrima ideal,
Do côncavo de anil
Caída no cristal

 

Do lago transparente,
Harmoniosamente,
Aos flocos do luar...

Tu és como as essências,
Conheces as ciências
Ocultas... de matar!

 

 

II

Cintila a estrela-d’alva
Bem como o olhar do crente!
Perpassa no ambiente
O fresco olor da malva.