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      <titleStmt>
        <title>Praias de Minha Terra</title>
        <title type="short">Praias</title>
        <author>Araújo Figueredo</author>
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          <resp>Encoded by</resp>
          <name xml:id="AM">Adiel Mittmann</name>
        </respStmt>
      </titleStmt>
      <publicationStmt>
        <distributor>Stichotheque</distributor>
        <availability status="free">
          <p>Domínio público.</p>
        </availability>
      </publicationStmt>
      <notesStmt>
        <note>Este documento foi codificado a partir da edição do <ref target="#nupill">NUPILL</ref> no decorrer do meu doutorado.</note>
        <note>A edição do NUPILL veio do livro <ref target="#poesias">Poesias</ref>.  O livro impresso está disponível na BU da UFSC; usei-o extensivamente para fazer correções e conferências.</note>
        <note>Os arquivos aqui estão enumerados de acordo com a ordem em que aparecem no livro.  As partes da edição do NUPILL estão indicadas na <ref target="#nupill">referência</ref>.</note>
        <note>A informação que existe é que de fato este livro foi publicado originalmente em 1927.</note>
      </notesStmt>
      <sourceDesc>
        <bibl xml:id="nupill">
          <title>Poesias</title>
          <author>Araújo Figueredo</author>
          <publisher>NUPILL</publisher>
          <biblScope unit="part">4</biblScope>
          <date>2016</date>
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        </bibl>
        <bibl xml:id="poesias">
          <title>Poesias</title>
          <author>Juvêncio de Araujo Figueredo</author>
          <date>1966</date>
          <publisher>Academia Catarinense de Letras</publisher>
          <pubPlace>Florianópolis</pubPlace>
          <ref target="http://search.ebscohost.com/login.aspx?direct=true&amp;db=cat07205a&amp;AN=uls.12233&amp;lang=pt-br&amp;site=eds-live&amp;scope=site"/>
        </bibl>
      </sourceDesc>
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  <text aoidos:poet="Araújo Figueredo" xml:lang="pt" st:duplicates="ok">
    <body>
      <milestone edRef="#poesias" n="9" unit="page"/>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Ressurgidos</head>
        <div type="section">
          <head>I</head>
          <lg>
            <l>Veladamente o sol vestiu todo o sudário</l>
            <l>De quem vai para a sombra esguia dos ciprestes...</l>
            <l>E sobe da planície, aos espaços celestes,</l>
            <l>O réquiem de um velho e triste campanário.</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Desce, saudoso o sol, antes extraordinário</l>
            <l>De luxúrias de luz; mas, agora, com vestes</l>
            <l>Roxas de monge; e mãos por sobre o peito, prestes</l>
            <l>A se esconder, além, num campo solitário.</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>E descerá, assim, (Caminheiro do Mundo),</l>
            <l>Por um ocaso triste, em silêncio profundo,</l>
            <l>A uma cova gelada, um coração vencido...</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Mas, no afago, no enleio e na calma da noite,</l>
            <l>Durma tranquilamente e entre sonhos acoite</l>
            <l>A crença de se ver, mais tarde, ressurgido.</l>
          </lg>
        </div>
        <div type="section">
          <head>II</head>
          <lg>
            <l>Manhã clara! Manhã de púrpuras franjadas</l>
            <l>De ouro e álacres rubis luminosos sangrando...</l>
            <l>Alvoroça-se a terra, ao correr das quebradas,</l>
            <l>E sobre o mar se estende um clarão doce e brando.</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Ao terreal que esvoaça há velas enfunadas:</l>
            <l>Umas indo... outras vindo... outras se preparando...</l>
            <l>Chia, zine a cigarra entre as verdes ramadas,</l>
            <l>E as águas de cristal das fontes vão cantando...</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>É que o sol ressurgiu. Assim, também, um dia,</l>
            <l>Há de o meu coração ressurgir, na harmonia</l>
            <l>Das horas que tiver de cantar com fervor.</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>E cada hora virá com mais deslumbramentos,</l>
            <l>Com mais luz, com mais fibra e mais fortes alentos.</l>
            <l>E mais seiva de vida e mais sonhos de amor.</l>
          </lg>
        </div>
        <div type="section">
          <head>III</head>
          <lg>
            <l>Sim, há de ressurgir, feito da mesma lama,</l>
            <l>Feito do mesmo pó, dessa eterna argamassa</l>
            <l>Da qual tudo se faz e na vida se inflama,</l>
            <l>Ora no tédio amargo, ora na luz da graça.</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Ressurgirá num lírio aberto ou numa chama;</l>
            <l>Num divino clarão; ou no verme que passa,</l>
            <l>Oculto, a rastejar no veludo da grama</l>
            <l>Da sepultura e sobe e aos ciprestes se abraça.</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Ou será borboleta em chamalotes de ouro,</l>
            <l>Ou ave cantadeira; ou rútilo besouro;</l>
            <l>Ou poeira de cristal, para qualquer efeito.</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Mas, depois disso tudo, há de ser o que fora</l>
            <l>Nos segredos do amor e na dor rugidora...</l>
            <l>— Há de ser coração, para pulsar num peito.</l>
          </lg>
        </div>
        <div type="section">
          <head>IV</head>
          <lg>
            <l>Por esse tempo o teu, depois de transformado,</l>
            <l>Depois de haver sentido igual transformação,</l>
            <l>Que é dada, neste mundo, ao humano coração,</l>
            <l>Seja ao de um peito bom, seja ao de um desgraçado;</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Por esse tempo o teu há de ser encontrado</l>
            <l>Pelo meu, minha amada; e, com justa razão,</l>
            <l>Os dois, num laço só, numa mesma união,</l>
            <l>Hão de ter certamente um destino abençoado.</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>E nele ficarão, para, de novo unidos,</l>
            <l>Sob o flavo esplendor dos amplos céus tranquilos,</l>
            <l>Sobre esse mesmo mar, através das distâncias,</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>No mesmo sonho ideal viver a mesma lida,</l>
            <l>Na conquista do pão e da fonte da vida,</l>
            <l>Soluce, embora, a voz do carrilhão das ânsias!</l>
          </lg>
        </div>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Ilha de Santa Catarina</head>
        <lg>
          <l>Ilhéu que sou, que graça e que contentamento</l>
          <l>Sinto eu, quando te vejo e te percorro, ó Ilha!</l>
          <l>És, dos mares do sul, a eterna maravilha;</l>
          <l>E parece que tens um certo movimento!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Embalam-te, num gozo, as carícias do vento;</l>
          <l>E outras vezes o vento os teus mares fervilha...</l>
          <l>Pelos teus campos toda a luz do sol rastilha;</l>
          <l>Dá-lhes todo o vigor dum puríssimo alento!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Como eu te quero bem, ilha dos meus amores!</l>
          <l>Com os teus laranjais, tuas vinhas e flores;</l>
          <l>Teus riachos de prata, abraçados em nastros...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E tuas praias são esteiras de alvo linho,</l>
          <l>Que se estendem a um solde inefável carinho,</l>
          <l>Palpitantes de luz, de proas e de mastros!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Lenços de saudade</head>
        <lg>
          <l>As praias onde vive e dorme e sonha o mar!</l>
          <l>Praias de minha terra, elas são uns regaços</l>
          <l>Aos quais a gente atira, ansiosamente, os braços,</l>
          <l>Com desejos febris de neles descansar...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ébrio do resplendor que se derrama no ar,</l>
          <l>Nesses longes sem fim, nos profundos espaços,</l>
          <l>E vem como um amparo a todos os cansaços,</l>
          <l>Eu junto às praias, sinto a alma sempre a cantar.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Pelas praias vivi e delas ainda guardo</l>
          <l>Muitas recordações de amores em que ardo,</l>
          <l>Quando as cobre da tarde o áureo fulgor do manto...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ah! numa tarde assim, eu te abracei, amada!</l>
          <l>À hora do ocaso, à hora suave, à hora calada,</l>
          <l>Com lenços de saudade alagados de pranto.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Na ilha dos noivos</head>
        <lg>
          <l>Amavam-se, através de uma existência radiosa,</l>
          <l>Esses dois corações, firmes, ardentemente...</l>
          <l>E, ei-los em pleno abril, na luz de luar e rosa</l>
          <l>De um noivado... Porém, que destino inclemente!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vinham de se casar. E que hora deliciosa</l>
          <l aoidos:meter="ignore">De perfumes e canção. Mas, o mar, num repente,</l>
          <l>Começou a rugir com veemência raivosa...</l>
          <l>E a lancha naufragou... E os noivos? Na torrente</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Das ondas, sob um vento horrível, se afundaram.</l>
          <l>Mas ainda lá está a encantadora ermida</l>
          <l>Onde os dois, para o mundo, alegres se casaram.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E ainda lá está a ilha, aromada e florida,</l>
          <l>De onde os dois para a vida eterna se evolaram,</l>
          <l>E subiram do céu a estrada indefinida.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Na ventura do sonho</head>
        <lg>
          <l>Valésia, um bem me dá ao coração e à alma</l>
          <l>Esta nesga de praia, assim iluminada</l>
          <l>Por esse rosicler! Que deliciosa calma!</l>
          <l>Como me sinto bem, ó minha doce amada!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Jesus, por certo, andou por esta praia e a palma</l>
          <l>Verde do seu condão deixou aqui plantada...</l>
          <l>Valésia, tudo é lindo e tudo alegre; e espalma</l>
          <l>Por tudo, a primavera, uma força abençoada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Em cada grão de areia eu vejo a miniatura</l>
          <l>De um mundo... Mas, na vaga, a bater no rochedo,</l>
          <l>Vejo a eterna paixão, a profunda amargura</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Dos que não têm, Valésia, a alma no olivedo</l>
          <l>Do amor, como nós dois, que vemos na ventura</l>
          <l>Do sonho a própria vida e o seu próprio segredo!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Recordando</head>
        <lg>
          <l>Recordas? Esta praia é a mesma onde viveste</l>
          <l>Longos anos comigo. É a mesma na brancura,</l>
          <l>A mesma na alegria, a mesma na frescura;</l>
          <l>E se espelha no mar o mesmo azul celeste.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Os versos virginais que sempre lhe fizeste,</l>
          <l>E os que eu também lhe fiz, rimados de doçura,</l>
          <l>Correm por esse mar, pela imensa planura:</l>
          <l>São perfumes sutis de um roseiral agreste.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Recordas? Esta praia é sempre a mesma praia,</l>
          <l>E quando morre o sol, e quando a luz desmaia,</l>
          <l>Continua a embalar, entre os ventos dispersos,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Esse anseio de amor, que sonhamos outrora,</l>
          <l>E que palpita e vibra, e que renasce e chora,</l>
          <l>E vive a soluçar nos meus e nos teus versos.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Crente</head>
        <lg>
          <l>Luz doce, a desse sol: — trigo em pó, peneirado</l>
          <l>Sobre os campos em flor e sobre o mar... Bendito</l>
          <l>Trigo da eterna mó do moinho sagrado,</l>
          <l>Para alento de quem na fome vive aflito.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E é todo um vinho bom, um vinho perfumado,</l>
          <l>A água verde do mar; e a que sobre o granito</l>
          <l>Dos morros corre, à sombra; ou sobre o descampado,</l>
          <l>Na harmonia suprema e eterna do infinito.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Com tanto trigo em pó e tanto vinho claro,</l>
          <l>Só se alegram, no entanto, em pleno mundo avaro,</l>
          <l>Os simples corações dos humildes, dos justos,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que na praia, ou no campo, alegremente vejo</l>
          <l>Cheios de amor e crença e cheios do desejo</l>
          <l>De subirem, depois, aos altos céus vetustos.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Se eu voltar</head>
        <lg>
          <l>Querido amor! Que eu vá e volte, para, um dia,</l>
          <l>De novo recordar as praias marulhosas,</l>
          <l>Por onde andei e por onde ando, na alegria</l>
          <l>Do sol e desse luar, pelas noites saudosas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E volte para ouvir as aves na arcaria</l>
          <l>Dos verdes angelins, e ouvir fontes cheirosas...</l>
          <l>E se ainda existir, na antiga freguesia,</l>
          <l>A casa onde nasci, sob um tendal de rosas,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>(Mas hoje cheia de hera e bastante arruinada)</l>
          <l>Que eu veja nela o abrir de uma outra madrugada;</l>
          <l>E encontre, ao renascer, nesse solar risonho,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O teu corpo também renascido e formoso:</l>
          <l>— Lírio de sangue e luz, para sempre ditoso;</l>
          <l>E a tua alma a cantar dentro do mesmo sonho.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Abrigo</head>
        <lg>
          <l>Sim, fiquemos aqui. Olha as ilhas tão belas,</l>
          <l>Cujas praias o mar, serenamente, beija...</l>
          <l>Lá longe, no horizonte, as alvacentas velas,</l>
          <l>Umas vão, outras vêm... E aquela outra bordeja...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Na Ilha das Vinhas há pinturas amarelas</l>
          <l>Que parecem alfaia às portas de uma igreja,</l>
          <l>E, em filas, lá por baixo, as casinhas singelas</l>
          <l>Lembram riscos de giz num pano verde. Adeja</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Dentro do céu que é todo uma imensa turquesa,</l>
          <l>A gaivota bizarra, asa aberta à beleza</l>
          <l>Da luz que se transforma em seda, nos espaços...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Sim, que a tarde recorda aquela em que eu contigo,</l>
          <l>Nesta praia, aqui mesmo, encontramos o abrigo</l>
          <l>Dos flóreos laranjais, para os nossos abraços.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Conselho amigo</head>
        <lg>
          <l>Não lastimes a vida, ó meu querido amigo!</l>
          <l>Pois se comes um pão, rega-o Jesus, de vinho.</l>
          <l>Ele anda todo o dia e de noite contigo;</l>
          <l>Na tua casa humilde e no mesmo caminho...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Se te achares com fome, Ele te dará trigo;</l>
          <l>Se lhe pedires água, Ele virá, sozinho,</l>
          <l>E água fresca terás, sob o bendito abrigo</l>
          <l>Do seu amor, do seu olhar, do seu carinho.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E vai ao mar, embora o grande mar te seja</l>
          <l>Tristíssimo e cruel! Que Jesus te proteja</l>
          <l>Como bem me protege, em todos os momentos...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Pois vivo a soluçar como esse mar soluça,</l>
          <l>E me debruço como esse mar se debruça,</l>
          <l>Tendo aos ombros a cruz de todos os tormentos!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Rezando por mim</head>
        <lg>
          <l>Tarde contemplativa. O azul é flor nas águas</l>
          <l>Do mar, que lembra um lago enorme, adormecido.</l>
          <l>Não fervilha a maré, nem se arrepela em fráguas</l>
          <l>Num rochedo que está entre as algas metido.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quantas recordações! Dentro do peito trago-as</l>
          <l>Como dentro de um cofre um tesouro escondido.</l>
          <l>Quantas recordações, exiladas das mágoas...</l>
          <l>Sem um ai... sem um grito... um soluço... um gemido.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Por uma tarde, assim, de turquesa e damascos,</l>
          <l>De topázios de fogo e cristal nos penhascos</l>
          <l>Do alto do Cambirela, é que te ouvi rezar...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E rezavas por quem? Valésia, tu rezavas</l>
          <l>Por mim, pois há que tempo, ansiosa, me esperavas,</l>
          <l>Clamando a Deus, clamando ao céu, clamando ao mar!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Mães</head>
        <lg>
          <l>Perto do filho, morto à bala, na emboscada</l>
          <l>Que lhe fizera, à noite, o filho da Galdina,</l>
          <l>Quando descia à praia, a alma martirizada</l>
          <l>De Maria soluça e em pranto se amofina.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, sob a luz do luar, suavíssima e nevada,</l>
          <l>Que se estende no mar, na serra e na campina,</l>
          <l>Uma sombra torneia as árvores da estrada:</l>
          <l>Desce, chorando, a mãe daquela alma assassina.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Uma chora o que vai para a cova sombria;</l>
          <l>E a outra, o que desceu às grades da enxovia,</l>
          <l>Ambas da mesma dor no sangrento rastilho...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, como mães que são, uma diz soluçando:</l>
          <l>— “Maria, que o teu filho aos céus suba cantando”,</l>
          <l>A outra, absorta, responde: “E eu perdoo o teu filho!”</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Procissão das almas</head>
        <lg>
          <l>Meia noite. Silêncio. O relógio da igreja.</l>
          <l>Martela devagar, no triste campanário,</l>
          <l>E a sua voz parece a de uma ave que adeja</l>
          <l>E sobe, misteriosa, ao espaço solitário.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Silêncio de pavor. Nem mesmo o ar arqueja;</l>
          <l>Nem fulgura, no céu, o branco relicário</l>
          <l>De um astro! Nem no campo o alvo lírio branqueja!</l>
          <l>Nem se enrolam, talvez, as contas de um rosário!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tudo dorme, na noite, em trágico mistério...</l>
          <l>Menos na solidão daquele cemitério,</l>
          <l>Os ciprestes que ao céu erguem as verdes palmas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E ossadas, ao luar, rolam de lado a lado;</l>
          <l>E em cada cova ruge o cantochão magoado</l>
          <l>Da eterna procissão tradicional das almas.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Aliança </head>
        <lg>
          <l>Vieste da linda Itália, em cujas praias treme</l>
          <l>Um mar dentro do qual há céus sempre azulados,</l>
          <l>E de lá me trouxeste uns sonhos adorados,</l>
          <l>Ó meu amor! Ó meu amor! Querido amor!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Toda a voz desse mar, quando o teu peito freme</l>
          <l>De desejos febris, escuto com cuidados.</l>
          <l>Tua boca é uma concha; e os teus lábios, rosados,</l>
          <l>Fazem lembrar corais que não mudam de cor.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E se na Itália é doce o luar sobre as ondas;</l>
          <l>E é doce o sol na rica abastança das mondas</l>
          <l>Do trigo, e nos vinhais de pródigas raízes;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Meu amor! Meu amor! Nos teus olhos, com calma,</l>
          <l>O luar bate em cheio; e o sol te bate na alma,</l>
          <l>Na aliança eternal de dois peitos felizes.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Destino</head>
        <lg>
          <l>— “Bebo para matar a mágoa que me invade</l>
          <l>E me tortura a alma. E bebo sem cessar.</l>
          <l>E se o vinho acabasse, eu beberia o mar,</l>
          <l>Sempre assim, sempre assim, cheio desta ansiedade:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O que ele repetia a pura verdade...</l>
          <l>E continuando, ao balcão, os copos a emborcar,</l>
          <l>Ao sol, à chuva, em noite escura, à luz do luar,</l>
          <l>De blasfêmias enchia o azul da imensidade.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tropeçando, uma noite, em que a poeira do gelo</l>
          <l>Retalhava-lhe os pés, as faces, o cabelo,</l>
          <l>Ei-lo do velho engenho em meio da lareira.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ressurgida a manhã, fomos ver o Isaltino...</l>
          <l>E a sua mãe nos disse: — “Aqui está o destino</l>
          <l>De quem lhe vê fugir, num dia, a companheira”!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Diante do mar</head>
        <lg>
          <l>O mar! E sempre o mar! Vejo-o todos os dias,</l>
          <l>E me embalo nos seus feiticeiros encantos!</l>
          <l>O mistério do mar! Que soluços e prantos</l>
          <l>Às vezes ele encerra. E, às vezes, que alegrias!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Cinge-o o crepe augurai das densas invernias.</l>
          <l>Mas, ei-lo agora, o mar, coberto de áureos mantos...</l>
          <l>Certas vezes entoa alucinantes cantos;</l>
          <l>Mas, às vezes, derrama as lágrimas mais frias!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E vai, de vaga em vaga, às praias e aos rochedos;</l>
          <l>E conta-lhes do sonho os íntimos segredos;</l>
          <l>E fala-lhes, talvez, dum sofrimento insano...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>É lago e, ao mesmo tempo, é temeroso abismo;</l>
          <l>É um recuo de medo e, ao mesmo tempo, heroísmo...</l>
          <l>Ó coração do mar! Ó coração humano!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>O mais feliz</head>
        <lg>
          <l>Repica alacremente o sino da capela,</l>
          <l>Numa torre de pau, a um ferro pendurado.</l>
          <l>Sobe a estrada do morro o vigário, apressado,</l>
          <l>No seu carro de mola ao qual um burro atrela.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Dobra o pontal da barra uma canoa, à vela.</l>
          <l>Chega o filho do João, para ser batizado,</l>
          <l>Sob o esplendor do sol, sob o clarão doirado</l>
          <l>Do sol no ocaso, além do altivo Cambirela.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Entretanto lá vai, por essa mesma estrada,</l>
          <l>Em procura da paz, numa cova isolada,</l>
          <l>Um velho que morreu na ramada, entre os bois.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mudada embora, a voz do sino, de repente,</l>
          <l>O filho do João vem descendo contente...</l>
          <l>Mas, qual será, Maria, o mais feliz dos dois?</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Página antiga</head>
        <lg>
          <l>A Maria da Praia humildemente vive</l>
          <l>Ainda no engenho, ao pé daqueles dois outeiros.</l>
          <l>Ontem, pela manhã, no velho engenho estive,</l>
          <l>Em companhia de uns saudosos marinheiros.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Não há no sítio quem com mais graça cative</l>
          <l>Os nossos corações! Ainda são tão brejeiros</l>
          <l>Os seus olhos azuis! E eu com ela entretive</l>
          <l>Longas recordações do amaino dos salgueiros.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A Maria da Praia é cada vez mais moça...</l>
          <l>E ao recordar-se bem dos fandangos na roça,</l>
          <l>Muito falou em ti, desse tempo querido...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E os seus olhos então ficaram rasos de água...</l>
          <l>É que nunca esqueceu a desolante mágoa</l>
          <l>Do seu amor por ti jamais correspondido.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>O coração do mar</head>
        <lg>
          <l>Que amarga provação, a minha, agora! E, quando</l>
          <l>Eu nisso penso, sinto a alma toda assaltada</l>
          <l>De sombras, como as de uma ermida abandonada...</l>
          <l>De sombras que eu não sei como irão me deixando!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Amarga provação de tristezas! Gozando</l>
          <l aoidos:meter="ignore">Por acaso andarei, neste mundo, a ambicionada</l>
          <l>Messe de florescência azul, iluminada,</l>
          <l>Dos trigais da Esperança? Eu pelas sombras ando...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, mesmo assim, não sou infeliz, entretanto.</l>
          <l>Moro neste casebre, entre rosas, num canto</l>
          <l>De praia amiga, de onde, à luz meiga do luar,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Meu pobre coração muitas vezes se aquece</l>
          <l>De piedade por quem grandes ânsias padece,</l>
          <l>Como esse coração misterioso do Mar!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Antônio nobre</head>
        <lg>
          <l>Antônio, a tua terra, além-mar, que formosa</l>
          <l>Terra de amores! Quem pudesse visitá-la,</l>
          <l>Por uma tarde toda azul e perfumosa,</l>
          <l>Descida sobre o Tejo, em praias cor de opala.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quem fosse a tua terra e ouvisse a murmurosa</l>
          <l>Água do Tejo! Quem corresse a contemplá-la!</l>
          <l>Também, da Estrela-d’alva a luz maravilhosa!</l>
          <l>E quem pudesse, ainda, entre sonhos, gozá-la!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Eu, que te quero tanto, Antônio, passearia</l>
          <l>Contigo, entre os trigais e as vinhas, na alegria</l>
          <l>De te escutar, ao fado, à sombra de um carvalho...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E virias, depois, à hora em que desmaia</l>
          <l>O sol da minha terra, a esta florida praia,</l>
          <l>Onde vibro a viola e canto o sarrabalho.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Resignado</head>
        <lg>
          <l>Junho. Que frio atroz! Que noite de tormento</l>
          <l>Para quem da velhice os estragos possui!</l>
          <l>Que frio atroz, lá fora! E, às lufadas do vento,</l>
          <l>Para maior frieza, o gelo se dilui...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E me ocorre, nesta hora, à luz do pensamento,</l>
          <l>Um casebre, na praia, onde uma vez eu fui.</l>
          <l>Nele mora o Joaquim, um corpo sem alento,</l>
          <l>Que nem leito, nem pão, nem fresca água possui.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, nunca se rebela o Joaquim, nas noites</l>
          <l>Em que os ventos bramindo e as chuvas são açoites</l>
          <l>De encontro ao seu telhado e aos furos da parede.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O Joaquim é bom, humilde e resignado...</l>
          <l>E vemo-lo, ao romper das manhãs, levantado,</l>
          <l>Tomando sol na praia e consertando a rede.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>A umbela</head>
        <lg>
          <l>O antigo marinheiro está quase morrendo</l>
          <l>No seu rancho de palha. Ai! pobre do velhinho!</l>
          <l>Setenta anos já fez. E viveu percorrendo</l>
          <l>Das tristes ilusões o infindável caminho.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E agora, à luz do sol, que se vai distendendo</l>
          <l aoidos:meter="ignore">Pelas praias e campos, existe um burburinho</l><!-- no original “borborinho” -->
          <l>De povo que o deplora. E o povo vai correndo</l>
          <l>Para a morte assistir do seu melhor vizinho.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Numa lancha que dobra, então, toda a enseada,</l>
          <l>Velas brancas ao vento, aos beijos da nortada,</l>
          <l>Cinge o vigário ao peito a sua linda estola.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, logo, pela praia encantadora e bela,</l>
          <l>Numa voz de oração, o povo segue, a Umbela,</l>
          <l>— Flor de sangue entreabrindo a rútila corola.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Oração ao meio-dia</head>
        <lg>
          <l>Casa de tábua, casa humilde. E o sol, a pino,</l>
          <l>Baixa fulgurações de metais. Pelas parras</l>
          <l>Chiam, rusticamente, as rútilas cigarras;</l>
          <l>E a passarada entoa as músicas de um hino.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Perto, um rio parece um manto diamantino</l>
          <l>Estendido num fundo azul. Flores bizarras</l>
          <l>Abrem corolas de ouro, encantadoras, raras,</l>
          <l>Nos veludos da relva. E o mar fulge, divino.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Cheguei. Então escuto um retinir de louça...</l>
          <l>E, de mim para mim, ao vento que balouça</l>
          <l>As árvores, indago a hora do jantar...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, chegado que fui à porta da varanda,</l>
          <l>Vejo um pão sobre a mesa... E a velhinha Fernanda,</l>
          <l>de mãos postas ao céu, começava a rezar.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Na pescaria</head>
        <lg>
          <l>Tempo de pescaria. A praia do mar-grosso</l>
          <l>É uma concha de prata, à luz suave da tarde</l>
          <l>Que, entre sedas em fogo e áureos veludos, arde...</l>
          <l>E corre pela praia um bizarro alvoroço.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Já retiradas são do amoroso balouço</l>
          <l>As redes dos varais, que o tempo frio encarde.</l>
          <l>E ali mais adiante, a lancha Deus te Guarde</l>
          <l>Beija as ondas que, então, formam na costa um poço.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Deitados na alva areia, os rudes pescadores</l>
          <l>Contam, tranquilamente, os seus sonhos de amores,</l>
          <l>E olham, de quando em quando, o sinal do vigia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, quando no alto morro o sinal aparece,</l>
          <l>Descem todos ao mar e vão colher a messe</l>
          <l>Que enche as mesas de paz e límpida alegria.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Alma de Jó</head>
        <lg>
          <l>Dormias nessa praia, assim, como ninguém</l>
          <l>Dorme em brancos lençóis cheirando a cardamomo.</l>
          <l>Ora, quanto carinho e quanto afago tem</l>
          <l>A praia, quando o luar surge num vivo assomo!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E sonhavas talvez, sem fadigas e sem</l>
          <l>Tristes lamentações. Sempre sonhavas como</l>
          <l>Todo aquele que espalha as sementes do bem,</l>
          <l>E colhe desse bem o prometido pomo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O teu leito era a praia; e o travesseiro, a espuma;</l>
          <l>E o teu fresco lençol, a escumilha da bruma;</l>
          <l>E o teu teto bendito, a curva dos espaços...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E agora, que morreste, ainda estarás dormindo?</l>
          <l>Aonde estarás sonhando? E aonde estará florindo</l><!-- sic na impressa -->
          <l>A tua alma de Jó, tão cheia de cansaços?</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Olhando um barco</head>
        <lg>
          <l>Todo o céu recordava um nelumbo poeirado</l>
          <l>De pólen de ouro; e a lua, uma rosa nevada...</l>
          <l>Estávamos na praia. O mar, iluminado,</l>
          <l>Deixava ver, ao longe, uma sombra velada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Era o vulto de um barco há tempo naufragado,</l>
          <l>De um barco que, na fúria horrível da lestada,</l>
          <l>Fora contra o pontal bruscamente atirado,</l>
          <l>Sem uma vela branca, alvíssima e tufada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tremeste ao vê-lo; e à flor dessa boca tiveste</l>
          <l>Uma interrogação, porque afinal soubeste</l>
          <l>As vezes que esse barco, alçando as grandes velas,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Sobre vagas de azeite ou sobre um mar fremente,</l>
          <l>Navegara bem como a alma de tanta gente</l>
          <l>Navega, quando sonha, em busca das estrelas.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Pomba!</head>
        <lg>
          <l>Morreria? Não creio. Ela fugiu apenas</l>
          <l>Por uns dias, talvez... Mas para onde iria</l>
          <l>A nossa filha amada? A que plagas serenas,</l>
          <l>Ela toda de branco e alegre, subiria</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Seu corpo ao frio chão, coberto de açucenas,</l>
          <l>Entretanto desceu... Era ao findar do dia.</l>
          <l>Cruzavam pelo espaço as aves e as falenas;</l>
          <l>E de mantos de prata o campo se cobria.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Emigrada do mundo, ela subiu, por certo,</l>
          <l>A um outro mais feliz, entre os mundos, aberto,</l>
          <l>Que os há por esse céu que tanta luz espalma...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, para nos matar do peito as grandes ânsias,</l>
          <l>Nossa filha não mede as longínquas distâncias</l>
          <l>E desce, pomba branca, ao pombal da nossa alma.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Rica...</head>
        <lg>
          <l>Como és rica! No entanto andas a propalar</l>
          <l>Uma pobreza austera! E quantas vezes dizes</l>
          <l>Não serem neste mundo os teus filhos felizes,</l>
          <l>Por não terem nem pão, nem mantos no seu lar!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, à noite, onde está o divino luar</l>
          <l aoidos:meter="ignore">Senão perto de ti, com seus matizes?</l>
          <l>E o teu amor não tem tão profundas raízes?</l>
          <l>E a tua alma não sabe o que é sofrer e amar?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Há dias o teu filho, o mais pecurruchinho</l>
          <l>Bateu asas, morreu, bem como um passarinho,</l>
          <l>E lhe beijaste, a olhar o céu, as mãos tão belas...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Pois eu perfeitamente ouvi dizer à porta:</l>
          <l>— Como é rica uma mãe que humílima suporta</l>
          <l>A partida de um filho à mansão das Estrelas!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>De longe</head>
        <lg>
          <l>Quando eu parti de casa era a nossa filhinha</l>
          <l>Tão tenra como um lírio e era da mesma altura</l>
          <l>De uma garoa marinha, uma garça marinha,</l>
          <l>Dessas que têm do arminho a imaculada alvura.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Hoje por certo está muito mais taludinha,</l>
          <l>Pois já sabe pular na esteira de verdura,</l>
          <l>Pelas mãos de quem é a sua vida e a minha,</l>
          <l>E para quem eu sou o trigal da ventura.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, como a vida é fel para quem vive ausente!</l>
          <l>E eu me vejo sozinho, ante o mar inclemente,</l>
          <l>Sozinho nesta praia, a olhar o espaço, em vão...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ah! visse eu essa filha eternamente amada,</l>
          <l>E tê-la-ia então contra o peito, abraçada,</l>
          <l>Como a ovelhinha humilde à cruz de São João.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Lágrimas</head>
        <lg>
          <l>Não te vejo, porém te sinto e é quanto basta...</l>
          <l>E, ao te sentir, recordo o teu sereno vulto,</l>
          <l>Às vezes muito claro e outras vezes oculto</l>
          <l>Entre as sombras nas quais a morte nos arrasta.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>É que a tua alma, embora imaculada e casta,</l>
          <l>Das glórias imortais no supremo tumulto,</l>
          <l>Desce à gleba do mundo atroz, do mundo inculto,</l>
          <l>Que das asas do amor, tão trágico, se afasta.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Acompanho-a, no entanto, aos campos enflorados,</l>
          <l>Aos bosques, aos vergéis, às florestas, aos prados;</l>
          <l>E dos morros azuis aos caminhos mais planos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E compreendo, então, quando os ombros me voltas,</l>
          <l>Que em tudo, neste mundo, há lágrimas revoltas,</l>
          <l>De tédio e de amargura enchendo os oceanos!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Antes morrer</head>
        <lg>
          <l>Que a paz dos altos céus estrelados te venha</l>
          <l>A alma aflita buscar, é o meu maior desejo...</l>
          <l>A alma dentro da qual a mágoa se desenha</l>
          <l>Como na escuridão a nódoa de um lampejo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Trezentos e sessenta e seis degraus da Penha</l>
          <l>São os dias por ti sempre contados! Vejo</l>
          <l>Sem pão a tua mesa; e o teu fogão sem lenha,</l>
          <l>Enquanto muitos pães no mundo há de sobejo!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Desde o dia em que o mar, que é sempre austero e forte,</l>
          <l>Chamou o teu marido aos mistérios da morte,</l>
          <l>Tua vida tem sido uma eterna invernia...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E o que responde o luar, quando triste lhe falas?</l>
          <l>“Nada, nada responde”. E quando então te calas?</l>
          <l>“Sacode ao meu silêncio uns risos de ironia”</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Pranto amargo</head>
        <lg>
          <l>Mulher, há quanto tempo humildemente lavas</l>
          <l>Nas pedras dessa fonte! És uma pobre viúva,</l>
          <l>E, para teres pão, lavas ao sol e à chuva,</l>
          <l>Tu que o lótus do amor no peito acariciavas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Moça, pelas manhãs de sol, como cantavas!</l>
          <l>Eras linda e feliz. Frescas doçuras de uva</l>
          <l>Possuías na boca. E o teu corpo, da luva</l>
          <l>Possuía a maciez... E quando me abraçavas?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, foi-se a tua branca e alegre mocidade</l>
          <l>No torvelinho atroz da negra tempestade</l>
          <l>De uns ciúmes de amor, nos profundos abrolhos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Velha, vives, agora, a lutar nessa fonte</l>
          <l>Que não parece vir das entranhas do monte,</l>
          <l>E sim do pranto amargo e triste dos teus olhos.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Nossa senhora</head>
        <lg>
          <l>A noite faz lembrar a abóbada sagrada</l>
          <l>De um templo em cujo altar, diante do lampadário</l>
          <l>Aceso, e todo de ouro, a Virgem do Rosário</l>
          <l>Suas contas desfia e reza concentrada...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que silêncio profundo e emotivo na arcada</l>
          <l>Nave de onde rutila, ao triste mundo vário,</l>
          <l>Cada estrela de prata. E a porta do sacrário</l>
          <l>E essa lua saudosa, espiritualizada...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E o campo em flor, o campo imenso, o campo largo,</l>
          <l>E o rio e o vasto mar, que, num fundo letargo,</l>
          <l>Pareciam morrer, reviveram nesta hora...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E tudo ajoelhado está, na noite calma:</l>
          <l>O campo, o rio e o mar — porque tudo tem alma</l>
          <l>Para ouvir, em silêncio, orar Nossa Senhora!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Paisagem</head>
        <lg>
          <l>Meu amor! meu amor! os canários, nas telhas</l>
          <l>Da nossa casa, são alados guizos de ouro;</l>
          <l>E, sempre num concerto, as rútilas abelhas</l>
          <l>Vibram pelos rosais seus anafis, em coro.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tremem junto de nós, pelas nossas orelhas,</l>
          <l>As antenas de prata e fio, de um besouro.</l>
          <l>E balam, docemente, as humildes ovelhas</l>
          <l>Que nos dão do alvo leite o saboroso soro.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Gozemos, desta casa, os frescores da tarde</l>
          <l>Que entre pompas de luz, e ondas de aromas arde...</l>
          <l>E, pela praia acima, o mar que vibra e freme;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Esse mar nos dará sonhos alvissareiros</l>
          <l>Debruçado que está junto aos altos coqueiros</l>
          <l>De palmas de esmeralda e cachos cor de creme.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Prevendo a morte</head>
        <lg>
          <l>Que bruscas convulsões, que gestos, que estertores</l>
          <l>No enregelado peito e músculos do Armando!</l>
          <l>E o seu olhar torcido era a expressão das dores</l>
          <l>Que lhe cavavam na alma uns ais, de vez em quando.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Suas faces, à luz dos ricos esplendores</l>
          <l>Da tarde, num céu largo e lindamente brando,</l>
          <l>Pareciam iguais às desoladas flores</l>
          <l>Que se vão, pelo outono fora, desfolhando...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Não queria morrer! Mas, aos poucos, sua alma</l>
          <l>Desprendia-se, assim como da verde palma</l>
          <l>De Santa Rita, a cor se desprende, no altar...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Não queria morrer tão moço (ele dizia),</l>
          <l>Deixando quem o amava e tanto o estremecia,</l>
          <l>A chorar como chora, aflitamente, o mar.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>As duas</head>
        <lg>
          <l>Flora amava o José com enternecimento;</l>
          <l>E o rapaz, de feliz, era um dia de sol.</l>
          <l>Trazia a rapariga atada ao pensamento,</l>
          <l>Como a uma ramada os fios do aranhol.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, chegada que foi Andrésia, num momento,</l>
          <l>E ao ver-lhe do cabelo o fulvo caracol,</l>
          <l>E os olhos de um contínuo e doce movimento,</l>
          <l>Eis o rapaz lembrando um peixe num anzol.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Alma toda ideal, alma-flâmula branca,</l>
          <l>Aberta, desfraldada e eternamente franca,</l>
          <l>Estendeu, a cantar, a curva dos seus braços;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E às duas foi mostrando, alegre, satisfeito,</l>
          <l>O segredo do amor, guardado no seu peito,</l>
          <l>Onde o seu coração se abrira em dois pedaços!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Olhando o passado</head>
        <lg>
          <l>Olho o passado e como a vida me parece</l>
          <l>Formosamente azul! Vejo-a em redor de mim</l>
          <l>Com a mesma pureza. O sol é o mesmo. Desce</l>
          <l>Sobre a minha cabeça um manto de cetim.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A lua encantadora é flor que não fenece</l>
          <l>No meu peito infantil. E, ao recordar, assim,</l>
          <l>Toda a infância feliz, a minh’alma se aquece</l>
          <l>De um prazer que não sei se um dia terá fim.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Recordo a nossa casa (hoje toda arruinada)</l>
          <l>De porta aberta para o mar e para a estrada...</l>
          <l>Mas a recordação que no meu sonho cai,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vem das tardes em que eu rezava a ladainha</l>
          <l>Perto de minha mãe, uma humilde velhinha,</l>
          <l>E sob o firme olhar piedoso de meu pai.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>A melhor riqueza</head>
        <lg>
          <l>Ora, a melhor riqueza, é, por certo, a saúde...</l>
          <l>E é por isso que eu vim morar muito juntinho</l>
          <l>Do teu casebre. E, agora, a noite inteira, pude</l>
          <l>Dormir, como se fosse entre os frouxéis de um ninho.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Dizem que o mar nos dá um sentimento rude,</l>
          <l>E nos transforma o peito em áspero cadinho...</l>
          <l>Mas eu penso o contrário. E a crença que me ajude</l>
          <l>A ficar por aqui, perto do teu carinho.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Foi o mar quem te deu saúde à cor trigueira;</l>
          <l>E aos lábios o frescor do fruto da aroeira;</l>
          <l>E te doirou a trança, essa que ao colo arrumas...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E o suave clarão dos teus olhos castanhos</l>
          <l>Tomou, deste lugar, os encantos estranhos;</l>
          <l>E os teus seios em flor o sabor das espumas.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Nós dois</head>
        <lg>
          <l aoidos:meter="ignore">Aos meus braços encostas o teu peito, Maria,</l>
          <l>E vamos até lá que o mar está tão lindo,</l>
          <l>Que parece um altar feito da pedraria</l>
          <l>Do ocaso que se vai, entre pompas, abrindo...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E o mar, sempre ao cair da tarde, ao fim do dia,</l>
          <l>Tem cousas a contar à gente! Estás sorrindo?</l>
          <l>Ele está a dizer que nesta freguesia,</l>
          <l>Dois peitos num só laço existem, reflorindo...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vamos ouvir o mar que não está tão longe...</l>
          <l>E lhe diremos, flor, como ao mais velho monge</l>
          <l>Do Convento do Amor, no Adro da Imensidade,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tudo quanto palpita em redor de nós ambos.</l>
          <l>De nós dois, que apesar dos nossos passos bambos,</l>
          <l>Ainda nutrimos na alma a mesma mocidade!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Devassa</head>
        <lg>
          <l>Que mais linda mulher possui o encanto e a graça</l>
          <l>De uma ave que no mar gorjeia, iluminada?</l>
          <l>Dessa forma é que Hortência, o meu amor, me passa</l>
          <l>Pela frente da casa e abre clarões na estrada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Houve por esse sítio uma grande devassa,</l>
          <l>Desde o morro ao pontal, para ver, na esfolhada</l>
          <l>Do milho, quem faria e ainda agora faça</l>
          <l>Andar tonta de amor toda a rapaziada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E aconteceu que fora o seu nome apontado:</l>
          <l>— O primeiro capaz de trazer arrastado</l>
          <l>Um homem, como o pó pelo brusco favônio!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E quando Hortência está no rol das raparigas,</l>
          <l>Perde o encanto a guiné, da qual se fazem figas,</l>
          <l>E até não nos socorre o próprio Santo Antônio!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Cemitério em ruínas</head>
        <lg>
          <l>Na praia triste, triste, um cemitério em ruínas.</l>
          <l>Aqui, cruzes ao chão, caídas de cansaços;</l>
          <l>E até, cruzes erguendo ao céu os frágeis braços,</l>
          <l>Servindo-lhes de manto as frígidas neblinas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>À sombra do verdor das altas casuarinas,</l>
          <l>E às vezes, pela luz dos mórbidos mormaços,</l>
          <l>Rola a caveira branca; e, em largos estilhaços,</l>
          <l>Bolam pela poeira as vértebras franzinas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Plena desolação no antigo cemitério!</l>
          <l>E o mocho cujo olhar é um fúnebre mistério,</l>
          <l>Nem mora ali! Nem vai, ali, ninguém rezar!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ah! triste esquecimento! Ah! triste esquecimento!</l>
          <l>Entre as cruzes, porém, ouço rezar o vento,</l>
          <l>E ouço rezar, na praia, a alma verde do mar!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Por São Pedro</head>
        <lg>
          <l>O rude som de um búzio erra de praia em praia</l>
          <l>Ao doirado clarão da tarde. Evocativa,</l>
          <l>Para além da montanha azul, a luz desmaia;</l>
          <l>E faz-se, de rosais, no mar, florida estiva...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Como acossada por uns dardos de azagaia,</l>
          <l>Passa uma ave pelo ar, medrosa e fugitiva,</l>
          <l>E se esconde através da sombra, onde a atalaia</l>
          <l>Traz na torre de pedra a flâmula cativa...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Corre a lancha que vem transbordada de peixe.</l>
          <l>Muita gente da aldeia... E antes que o Paulo deixe</l>
          <l>Bicar a embarcação de altos bordos de cedro,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Lindas moças estão já de longe gritando:</l>
          <l>— Ó rapazes do mar, passaremos dançando,</l>
          <l>Em redor da fogueira, a noite de São Pedro!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Jura eterna</head>
        <lg>
          <l>“Pela estrela do mar, pela Nossa Senhora,</l>
          <l>Que me conduzirá ao fim desta viagem,</l>
          <l>Juro que serei teu, por toda a vida fora;</l>
          <l>E levarei no olhar a tua linda imagem”.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Assim disse o Florêncio. E, à rubra luz da aurora</l>
          <l>Um barco fez-se ao mar, aos beijos da bafagem</l>
          <l>Do almejado terral, que levemente enflora</l>
          <l>As ondas, de uma cor doirada, de miragem...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E eu serei sempre tua, eternamente tua”.</l>
          <l>Diz-lhe a noiva formosa, em cujo olhar flutua</l>
          <l>A divina expressão do amor e da saudade.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Jamais voltou, porém, quem tal jura fizera:</l>
          <l>Tragara-o o mar, tragara-o a vaga rude e austera...</l>
          <l>Mas a jura dos dois vive na eternidade...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Alma penada</head>
        <lg>
          <l>“Quando eu morrer, dizia a pobre velha Armanda,</l>
          <l>O meu desejo é ter o meu corpo enterrado</l>
          <l>Na sepultura em que meu filho muito amado</l>
          <l>Dorme, na Ilha do Largo, ali, naquela banda”:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Os dias foram vindo... E a pobre velha Armanda,</l>
          <l>Numa flórea manhã de céu imaculado.</l>
          <l>Fechou, para este mundo, o seu olhar cansado...</l>
          <l>Mas não foi enterrada ali naquela banda.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Por isso, nessa praia em curva, toda a gente</l>
          <l>Vive cheia de horror... É que, na praia, rente</l>
          <l>Aos sulcos das marés de lua, desolada,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Do silêncio da noite entre as neblinas frias,</l>
          <l>Nos chamalotes de ouro em pó das ardentias,</l>
          <l>Passa, como uma sombra, aquela alma penada...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Feliz!</head>
        <lg>
          <l>Encontrei-a de laço azul nas tranças de ouro,</l>
          <l>E uma rosa vermelha à boca e outra no seio.</l>
          <l>E era, à luz cristalina, a sua trança um louro.</l>
          <l>Sazonado trigal, para o meu devaneio.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Chegara de escutar, no fundo ancoradouro,</l>
          <l>As ondas, cuja voz inspirava receio,</l>
          <l>Prometera a Jesus umas preces, em coro;</l>
          <l>— Salva-o meu adorado! em ti creio! em ti creio!”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, como o vendaval aos poucos amainasse,</l>
          <l>E o noivo, são e salvo, a enseada alcançasse,</l>
          <l>Cumprira o que, em dor e angústia, prometera.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Pela tarde que se despetala em fulgores,</l>
          <l>Lá vai ela, feliz, entre risos e flores,</l>
          <l>À capela levar uma vela de cera.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Valésia</head>
        <lg>
          <l>Todo o horizonte escuro e as montanhas escuras...</l>
          <l>Rolos de escuridão vêm do espaço caindo.</l>
          <l>E a floração astral onde estará luzindo?</l>
          <l>Seria para sempre extinta nas alturas?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Aonde estarão também as límpidas alvuras</l>
          <l>Das garças dos mangais? Foram-se difundindo</l>
          <l>Nas trevas desse mar que se encrespa, rugindo,</l>
          <l>Abalando de chofre a alma das criaturas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tremo de medo. A fé em meu peito se apaga...</l>
          <l>Esta noite medonha, aflitiva e pressaga,</l>
          <l>Leva-me o coração, que na angústia estremece...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas entro, sem rumor, na tua casa e vejo,</l>
          <l>Da candeia de folha ao mortiço lampejo.</l>
          <l>Os teus dedos desfiando um rosário de preces.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>A tia Madalena</head>
        <lg>
          <l>Sonambúlica e triste e cheia de pesar,</l>
          <l>A tia Madalena, arrastando a passada,</l>
          <l>Todas as tardes vai às carícias do mar,</l>
          <l>Pelo crivo de luz das árvores da estrada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ela que irá fazer? Dizem que vai rezar,</l>
          <l>Porque de dores sente a alma toda atulhada.</l>
          <l>Essa velhinha tem ladainhas no olhar...</l>
          <l>Mas o seu peito lembra uma ermida fechada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Desce e vai ao sopé de uma cruz, num rochedo,</l>
          <l>Onde soluça o mar, num profundo segredo,</l>
          <l>Aspergindo rosais e ondulações de luz...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E a tia Madalena, entre lágrimas, reza...</l>
          <l>Vive ao noivo, que é morto, há muitos anos, presa,</l>
          <l>Num amor como alguém já tivera a Jesus!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>À nossa espera</head>
        <lg>
          <l>Da tua casa humilde, onde ao beiral trinavam</l>
          <l>Canários de asas de ouro, ainda sinto saudade!</l>
          <l>Que aromas os rosais das cercas evolavam!</l>
          <l>Que formosas manhãs! Que sol! Que alacridade!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ali, dois corações no mesmo amor sonhavam.</l>
          <l>Duas almas, ali, cheias de virgindade,</l>
          <l>Viviam para o bem e todo o bem gozavam...</l>
          <l>E não há bem maior do que a mocidade!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas hoje, a tua casa, amor, já não existe;</l>
          <l>Tudo, tudo por terra... E o campo, morto e triste!</l>
          <l>Menos o laranjal, que em plena primavera,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Na alva fita da praia, em flor, de lado a lado,</l>
          <l>Nos sorri benfazejo, evocando o passado,</l>
          <l>Como um leito feliz, Maria, à nossa espera!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Desanimada</head>
        <lg>
          <l>De olhos quase sem luz e lábios macilentos,</l>
          <l>E mãos como as de quem as regelou a morte,</l>
          <l>Vejo num carro, pelo escabroso recorte</l>
          <l>De um caminho que a tarde enche de tons nevoentos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Amortalhada jaz nos desfalecimentos</l>
          <l>De uma moléstia atroz, sem confiar na sorte</l>
          <l>De afastar do seu peito a funesta coorte</l>
          <l>De tanta dor, ansiando em tristes pensamentos...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Estendida, depois, numa velha canoa</l>
          <l>Ruma ao velho hospital, envolta na garoa</l>
          <l>Que se alastra, gelada, às campinas agrestes!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Pensa num filho e encharca as pálpebras de pranto,</l>
          <l>No pavor que lhe dá, de longe, o Campo Santo,</l>
          <l>Com brancuras de ossada à sombra dos ciprestes.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Atração</head>
        <lg>
          <l>A tua boca rubra e o teu olhar tão belo!</l>
          <l>A tua boca mordo e em teu olhar me inflamo,</l>
          <l>Cheio de ânsias, febril, alma eivada de zelo,</l>
          <l>Porque te quero, assim, e te desejo e te amo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>É noite de veludo o teu lindo cabelo.</l>
          <l>Que de beijos estrelo e, abrasado, reclamo,</l>
          <l>Às vezes a sentir as torturas de Otelo,</l>
          <l>E outras vezes tão bom, que de ovelha me chamo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E dessas mãos de jaspe os delicados dedos</l>
          <l>São as chaves leais dos múltiplos segredos</l>
          <l>Que guardo no meu peito, a formidáveis cunhas...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E em cada dedo tens a atração misteriosa</l>
          <l>De uma lua a crescer nas linhas cor de rosa</l>
          <l>Das conchas sensuais e brunidas das unhas</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Vida feliz</head>
        <lg>
          <l>Ó Ilha! Ó minha mãe! Campo do meu trabalho!</l>
          <l>Como eu te quero bem, pelo rolar dos dias!</l>
          <l>Sinto que vêm de ti todas as energias,</l>
          <l>E o melhor e o mais santo e divino agasalho!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ó Ilha amada! És tu quem o bendito orvalho</l>
          <l>Derramas nos rosais das minhas alegrias!</l>
          <l>E quando triste estou, nas belas sinfonias</l>
          <l>Da tua luz sublime, as tristezas espalho...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vim de ti e de ti veio a mulher querida,</l>
          <l>Que é linda flor de trigo e flor de minha vida;</l>
          <l>E vieram de ti meus filhos e meus netos</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quem mais feliz do que eu, Ilha verde e aromada,</l>
          <l>Se uma tenda construí, numa praia abençoada,</l>
          <l>Lendo ao mar inebriante os meus poemas diletos?</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Crepuscular</head>
        <lg>
          <l>Ouro em barra, cristais, sardônicas, berilos,</l>
          <l>Nas orgias da luz... Eis a tarde que desce</l>
          <l>Por sobre a nitidez dos riachos tranquilos</l>
          <l>E por sobre a esplanada, onde a relva floresce.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>À sombra do arvoredo, ouvem-se alegres trilos</l>
          <l>De aves, dessas que o ninho empenujado aquece.</l>
          <l>O vagalume esvoaça; e despertam-se os grilos...</l>
          <l>Tange o sino da ermida, evocando uma prece.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E a tarde vem descendo, amorosa, amorosa,</l>
          <l>Como se fosse uma asa enorme e silenciosa,</l>
          <l>Para tudo abranger, desde os campos ao mar,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, piedosa, envolver as almas dos eleitos,</l>
          <l>Que se esquecem da luta e vivem satisfeitos</l>
          <l>Na glorificação da luz crepuscular!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Na pobreza</head>
        <lg>
          <l>Pelos furos que havia ao correr do telhado</l>
          <l>De urna casa de estuque, é que a lua espiava</l>
          <l>Para dentro do quarto onde há dias se achava,</l>
          <l>Numa cama sem colcha, o meu filho adorado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E nessa cama pobre, o meu filho, assaltado</l>
          <l>De um ataque febril, quase de morte, ansiava...</l>
          <l>Nem candeia de azeite uma luz projetava;</l>
          <l>Nem vela de vintém, para eu vê-lo, coitado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E se não fosse o branco e acariciante brilho</l>
          <l>Dessa luz piedosa, ó meu querido filho,</l>
          <l>Eu, que te via assim ante a minha alma louca,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nem pudesse levar, talvez, cheio de tédio,</l>
          <l>De momento em momento, as gotas de um remédio</l>
          <l>À rosa ainda em botão da tua linda boca.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Desvairado</head>
        <lg>
          <l>Chego de percorrer tristíssimas estradas;</l>
          <l>Ergástulos a prumo e trágicas montanhas;</l>
          <l>Praias de areia ardente, imensas, desoladas;</l>
          <l>E mares que nos dão verdadeiras campanhas...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, como um desvairado, entre sombras pesadas,</l>
          <l>Desci da própria terra às flamantes entranhas;</l>
          <l>E percorri, depois, as plagas consteladas;</l>
          <l>Da Via-láctea de ouro as devesas estranhas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, de todo esse andar, perdido nas distâncias,</l>
          <l>Pude apenas trazer amaríssimas ânsias,</l>
          <l>Pude apenas trazer fundos desolamentos...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Entretanto encontrei, na curva dos teus braços,</l>
          <l>Toda a paz para os meus formidáveis cansaços,</l>
          <l>Toda a consolação para os meus sofrimentos...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Ironia</head>
        <lg>
          <l>Por que razão o Alfredo é de todo inclemente</l>
          <l>Diante dos seus bois, de olhares compassivos,</l>
          <l>Se eles lhe são, no carro, os seus fiéis cativos,</l>
          <l>Se lhe dão do trigal a pródiga semente?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E não é, desses bois a força permanente</l>
          <l>Que lhe traz, da manhã à tarde, os emotivos</l>
          <l>Prazeres do conforto, ora à sombra tremente</l>
          <l>Dos ramos, ora ao sol de abrasamentos vivos?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O rapaz dá-lhes toda a espécie de torturas.</l>
          <l>Fisgando-lhes o dorso, e os faz puxar alturas</l>
          <l>Formidáveis de lenha, ou de pedra ou de barro.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas como uma ironia às silenciosas dores</l>
          <l>Dos pobres animais, na relva, aberta em flores,</l>
          <l>Cantam bizarramente as chavetas do carro!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>A rendeira</head>
        <lg>
          <l>Que lindas rendas faz a saudosa rendeira,</l>
          <l>Que horas passa sentada ao correr do portal,</l>
          <l>De onde escuta a carriça a chilrear na lareira,</l>
          <l>E o canário a chilrear no flóreo laranjal!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Aprecio-lhe o gosto e a sublime maneira</l>
          <l>Com que faz tanta renda, assim, para o enxoval.</l>
          <l>Vai casar-se na ermida alegre da ladeira,</l>
          <l>E fez, duma camisa, um lírio original.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>No momento em que a vi, a tarde feiticeira</l>
          <l>Era uns veios de luz piedosa, espiritual...</l>
          <l>E chegava da pesca uma leve baleeira.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Houve, então, um rumor de beijos no quintal...</l>
          <l>E em cada humilde e bom olhar dessa rendeira</l>
          <l>Cantava a rima azul de um sonho virginal.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>A coberta d’alma</head>
        <lg>
          <l>— Eis o emotivo fim de uma pequena história:</l>
          <l>O Agostinho, ao morrer de febre de sezões,</l>
          <l>Disse à pobre mulher: — “Não percas da memória</l>
          <l>O que vou te pedir, nas minhas orações.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Se desejas que eu vá para a suprema glória,</l>
          <l>Dá a minha coberta ao Paulo dos Lanchões;</l>
          <l>E uma vela de cera à Virgem da Vitória,</l>
          <l>Prometida num dia inteiro de aflições”.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas como o Paulo fosse um mísero sujeito,</l>
          <l>E nunca fosse à igreja orar, por tal respeito</l>
          <l>Deram toda a coberta ao rapaz das Sabinas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E está nisso a razão que faz o Paulo, agora,</l>
          <l>Errar por essa estiada e pelo mar afora,</l>
          <l>Ocultando a nudez na gaze das neblinas.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Pelos engenhos</head>
        <lg>
          <l>Percorro ainda saudoso os engenhos ruidosos,</l>
          <l>Com resignados bois à canga da almanjarra</l>
          <l>E a do carro, que lembra uma enorme cigarra,</l>
          <l>A chiar, quando desce os morros argilosos...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Do que me pertenceu, em tempos trabalhosos,</l>
          <l>Ainda vejo no mar, no aconchego da barra,</l>
          <l>Os barcos em balouço, entre os laços da amarra,</l>
          <l>Com saudades, talvez, de outros portos ditosos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E ainda me associo aos capotes nos montes</l>
          <l>De mandioca, e bebo a água fresca das fontes;</l>
          <l>E os largos tipitins são por mim sobraçados...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, à noite, junto ao forno onde a farinha estala,</l>
          <l>À lembrança me vêm os seios cor de opala</l>
          <l>De quem fora a primeira a encher-mede pecados.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Ilusão</head>
        <lg>
          <l>Sopra rijo o nordeste. Anselmo vem à popa</l>
          <l>De um leve batelão. Vem, contente, a cantar...</l>
          <l>Nem se lembra que está sobre as ondas do mar;</l>
          <l>E, destemido, d’água o largo pano ensopa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A leve embarcação embaraços não topa,</l>
          <l>Metida a quilha ao vento... É um pássaro a voar...</l>
          <l>Rumo da praia irá, num seio descansar,</l>
          <l>De bojo para cima, embutido de estopa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, junto ao Cambirela, onde há um precipício</l>
          <l>Que a tanta gente dá o eterno sacrifício</l>
          <l>Da morte, ei-la emborcada, a leve embarcação.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E nunca mais ninguém viu o pobre do Anselmo;</l>
          <l>Menos quem tanto o amou, e, na luz do santelmo,</l>
          <l>Parece vê-lo sempre... E crê nessa ilusão!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Suicida</head>
        <lg>
          <l>De bordo do lanchão pôs-se a fitar o espaço,</l>
          <l>Que tão cheio de luz se achava! Quantos astros,</l>
          <l>Quantos mundos rolando, enlaçados em nastros,</l>
          <l>Da eterna vibração, no infinito compasso!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quis estender ao céu o seu pequeno braço,</l>
          <l>Mas recuou porque, muito distante, os rastros</l>
          <l>Desses mundos de luz lhe dariam cansaços;</l>
          <l>E eles não são, por certo, os santelmos nos mastros...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— Quem pudesse morrer! (Disse ele) e, nesse instante,</l>
          <l>Olha as águas do mar e vê um céu faiscante;</l>
          <l>E dentro desse céu, a gôndola da lua...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Arroja-se de chofre, então, ao mar e morre.</l>
          <l>Mas, por toda a enseada, uma lenda ainda corre:</l>
          <l>Dizem que a alma do Zé nas ânsias continua...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Laço de amor</head>
        <lg>
          <l>Que mais desejarei, no mundo, se me vejo</l>
          <l>Tão querido por ti, por ti sempre abraçado,</l>
          <l>A ouvir, seguidamente, o marulho de um beijo,</l>
          <l>Ora na tua boca, ora na minha, alado?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que mais desejarei? Que mais forte desejo</l>
          <l>Poderá se alentar no meu peito, amparado</l>
          <l>Pelo teu, que é por certo o grande e benfazejo</l>
          <l>Abrigo que encontrei, e jamais igualado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nada mais, nada mais desejarei no mundo</l>
          <l>Senão, do amor eterno, esse laço profundo</l>
          <l>Que nos prende a nós dois, nos mesmos sentimentos,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que não se apagam como as nuvens pelos ares;</l>
          <l>Nem como os roseirais das espumas dos mares;</l>
          <l>Nem como o soluçar das ondas e dos ventos...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>O mar e o barco</head>
        <lg>
          <l>Agora como está o fiar! Parece um lago</l>
          <l>Por onde nem sequer uma aragem rasteja,</l>
          <l>A encrespá-lo, toldá-lo e tirá-lo do afago</l>
          <l>Do céu, nesta manhã que a luz do sol alveja...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O mar recorda, agora, a Estrada de Santiago,</l>
          <l>Tão poeirado está de cristais. Da peleja</l>
          <l>Das ânsias sossegou, fez-se tranquilo, mago,</l>
          <l>E corre um barco ao mar... E que Deus o proteja,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Porque nele viaja um coração que, um dia,</l>
          <l>Tornou-se humilde e bom, banhado da alegria</l>
          <l>De um sonho benfazejo, em procura de um porto...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E esse barco, nesta hora, é o sonho de quem sente</l>
          <l>A verdadeira fé e a esperança latente</l>
          <l>De encontrar noutra praia o mais amplo conforto!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Voltando à terra</head>
        <lg>
          <l>Dize, por que razão me vens bater à porta,</l>
          <l>Altas horas da noite, assim, de olhar tão triste,</l>
          <l>Que não sei como, ao vê-lo, a minha alma o suporta,</l>
          <l>Se há muito tempo já da terra te sumiste?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E o que desejas tu, se há muito tempo és morta,</l>
          <l>Se, com certeza, ao lindo e largo céu subiste</l>
          <l>Como uma águia de luz, que as amplidões recorta,</l>
          <l>E sobe, e por lá fica, e à paz do céu assiste?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E ela, os olhos volvendo, as mãos alevantando,</l>
          <l>E abrindo a boca em flor e a cabeça meneando,</l>
          <l>Pôs-se, então, a falar da nossa mocidade...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Disse que à terra vinha, unicamente, apenas,</l>
          <l>Para as suas unir as minhas grandes penas,</l>
          <l>No consolo bendito e humano da saudade.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>O Judas na praia</head>
        <div type="section">
          <head>I</head>
          <lg>
            <l>Num galho de figueira, aberto sobre a estrada</l>
            <l>Que esse sábado enchia, estivava de luz,</l>
            <l>Bizarramente, toda a alegre meninada</l>
            <l>Via a imagem de quem atraiçoara Jesus.</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Era um Judas de pano. A cara mal pintada,</l>
            <l>E a cabeça, metida em nojento capuz,</l>
            <l>Davam toda a expressão de uma alma abandonada,</l>
            <l>Como a de um mocho sobre os braços de uma cruz.</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>E, quando a luz do sol desceu do espaço, a pino,</l>
            <l>E, álacre, repicou na alva capela o sino,</l>
            <l>Toda essa meninada, esquecendo o perdão,</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Tratou de apedrejá-lo e arrastá-lo e queimá-lo,</l>
            <l>Sem, no entanto, pensar que devemos amá-lo,</l>
            <l>Porque Judas, na terra, é também nosso irmão.</l>
          </lg>
        </div>
        <div type="section">
          <head>II</head>
          <lg>
            <l>Assim pensava a tia Eufrásia, uma velhinha</l>
            <l>Da cabeça da qual a neve não caía,</l>
            <l>Servindo-lhe de touca, a noite inteira e ao dia.</l>
            <l>Mesmo rente ao calor do fogo, na cozinha.</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>E acrescentava, a orar: — “Em toda a vida minha</l>
            <l>Nunca pude saber a razão da alegria,</l>
            <l>Do Judas se malhar, dessa forma daninha,</l>
            <l>E reduzi-lo a gente a pó de cinza fria...</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>É que o amado, o querido, o inefável Jesus.</l>
            <l>Ao morrer, como nós sabemos, numa cruz,</l>
            <l>A todos perdoou, de olhos fitos na altura.</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>E, se a todos perdoou, porque eles não souberam</l>
            <l>O que, cheios de fel e vinganças fizeram,</l>
            <l>Judas viu-se na luz dessa mesma ternura...</l>
          </lg>
        </div>
        <div type="section">
          <head>III</head>
          <lg>
            <l>E quando a tarde veio e o alto sino da ermida</l>
            <l>De novo repicou, e a sua voz dolente</l>
            <l>Fez-se ouvir até longe, além duma comprida</l>
            <l>Estrada pela qual descia muita gente...</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>E, quando junto ao altar de toalha guarnecida</l>
            <l>De cravos e jasmins, à luz resplandecente,</l>
            <l>O vigário cantou uma prece sentida</l>
            <l>Nos arroubos da fé, e ouviu-se um coro ardente...</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Nessa hora abençoada e límpida, nessa hora,</l>
            <l>Entre luzes, no altar, clara, Nossa Senhora,</l>
            <l>Tinha no doce olhar os mais suaves brilhos...</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>E, parecendo abrir os braços, balbuciava:</l>
            <l>— Eu sou do amor a força, e ao mesmo tempo, a escrava,</l>
            <l>E, pelo amor perdoo a todos os meus filhos.</l>
          </lg>
        </div>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Zombando da morte</head>
        <lg>
          <l>Nuvens... flocos de linho... escumilha... fumaça...</l>
          <l>No alto do Cambirela há nuvens cor de lodo,</l>
          <l>É o pampeiro que desce e bruscamente passa</l>
          <l>Bramindo, em convulsões... Esse pampeiro é um rodo:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Leva diante de si, como uma enorme massa,</l>
          <l>O mar que eriça o colo e espuma e cospe e todo</l>
          <l>O espaço faz tremer. E aonde está a barcaça?</l>
          <l>Levou-a o vento sul, como o melhor engodo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E lá vai a barcaça, aos trancos, emborcada...</l>
          <l>Corre à mercê do mar, no Pontal da Enseada,</l>
          <l>Nas ondas que se vão, em derrota, do norte.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas não há que temer do quadro extraordinário:</l>
          <l>A barcaça parece um grande dromedário</l>
          <l>Eu cujo dorso o André zomba da própria morte!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>O primeiro segredo</head>
        <lg>
          <l>Saudoso, vim te ver e de novo gozar</l>
          <l>Os aromas sutis dos teus seios morenos:</l>
          <l>E ouvir, neste casebre, aqui, à beira-mar,</l>
          <l>Da tua boca fresca os suavíssimos trenos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nas léguas de distância, eu me punha a cismar,</l>
          <l>No entanto desta praia e nos dias amenos</l>
          <l>Que passei, minha prenda, à luz do teu olhar,</l>
          <l>Tão bela como a luz dos páramos serenos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E o teu casebre é o mesmo, ainda todo aromado</l>
          <l>De floridos rosais na curva do telhado;</l>
          <l>E canta-lhe o canário à sombra do arvoredo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que ninho, o teu casebre, onde nos encontramos</l>
          <l>Pela primeira vez e felizes sonhamos,</l>
          <l>Junto do altar em flor do primeiro segredo!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>O boi na vara</head>
        <lg>
          <l>Tarde tradicional. A safira do espaço</l>
          <l>Espelha-se no mar, nas ondas cor de chumbo</l>
          <l>Que na encosta da pedra estouram, num retumbo</l>
          <l>De pandeiros nas mãos nervosas de um palhaço.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E o sol se ostenta rubro, em rutilâncias de aço,</l>
          <l>Ao fundo do horizonte azul, como um nelumbo.</l>
          <l>Entretanto, no tédio, eu sinto que sucumbo...</l>
          <l>E nem posso me erguer, nem levantar o braço.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>É que eu vejo num campo em flor, em pleno maio.</l>
          <l>Um soberbo animal, um bonito garraio,</l>
          <l>Quase morto, de língua inchada de tormentos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>No suplício da vara, em meio de rapazes</l>
          <l>Sem alma e coração, certamente incapazes</l>
          <l>De serem, como os bois, tão bons e pachorrentos.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Num sonho</head>
        <lg>
          <l>— Lá vai, velas ao vento, o brigue Flor das Águas;</l>
          <l>Lá vai, garbosamente, em procura do Norte.</l>
          <l>E alegre chegará? Quem sabe lá das mágoas</l>
          <l>Da sua gente? E quem já lhe notou a sorte?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mágoas! Quem nunca as teve? Eu, pelo menos trago-as</l>
          <l>Desde o dia fatal em que, olhando a morte,</l>
          <l aoidos:meter="ignore">O meu noivo vagara aflito, envolvido nas fráguas,</l>
          <l>Dos bruscos vagalhões em terrível coorte:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Assim falava Rosa às queridas amigas...</l>
          <l>E dentre o lindo rol das meigas raparigas,</l>
          <l>Rita pôs-se a cismar na vida do Lourenço.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vira-o no mar profundo e revolto de um sonho,</l>
          <l>Nas angústias fatais de um naufrágio medonho,</l>
          <l>A gritar e a acenar convulsamente um lenço.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Restos de incêndio</head>
        <lg>
          <l>Praia de Itaguaçu... Pedras em montoeiras;</l>
          <l>Umas altas, ao pé do mar; outras na estrada;</l>
          <l>E mais outras à sombra esquiva das figueiras,</l>
          <l>Sobre as quais noiva e canta a linda passarada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Cercados de cipós de álacres trepadeiras,</l>
          <l>A margem de um riacho... E, na verde esplanada</l>
          <l>Tapetes de mentrasto; e mádidas roseiras,</l>
          <l>Cuja flor faz lembrar a neve derramada...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, como o sol faiscante, entre púrpura desce</l>
          <l>E desce entre rubis, Itaguaçu parece</l>
          <l>Mergulhar-se de todo em chamas luzidias...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas quando a noite vier, surgirá, apagado,</l>
          <l>Só deixando rolar no escuro mar velado,</l>
          <l>Como uns restos de incêndio, as fulvas ardentias.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Para ter coragem</head>
        <lg>
          <l>Esgueirado na sombra escura dos pinheiros,</l>
          <l>O Francisco desceu ao velho dormidouro,</l>
          <l>Onde deitado estava, a ruminar, um touro</l>
          <l>De olhares de ametista e altos chifres franqueiros.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Chegou e aos pontapés sobre os quartos traseiros</l>
          <l>Desse humilde animal, de aveludado couro,</l>
          <l>Fê-lo erguer-se do chão, num terrível estouro,</l>
          <l>E no chão esfregou os seus braços mateiros.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vinha ao touro pedir, dos músculos de guaxo</l>
          <l>A rigidez, para jamais viver por baixo,</l>
          <l>Para jamais recuar de façanhas audazes...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, já pela manhã e nas sombras da tarde,</l>
          <l>O Francisco, que, até então, era um covarde,</l>
          <l>Ficou sendo o terror de todos os rapazes.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Aos meus filhos</head>
        <lg>
          <l>Bem velhinho que estou, meus filhos, bem velhinho,</l>
          <l>De cabeça nevada e passos vacilantes...</l>
          <l>Mas a minha alma ainda é a mesma, no caminho</l>
          <l>Da vida, sobre o qual há sombras torturantes...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Como outrora bebi, bebo seguido o vinho</l>
          <l>Da alegria feliz e dos emocionantes</l>
          <l>Sonhos que, em derredor de mim, são o carinho,</l>
          <l>O afago, o bem estar e as bênçãos palpitantes.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Como outrora, a minha alma ainda vibra e se veste</l>
          <l>Dos resedás em flor de um largo campo agreste;</l>
          <l>E ainda canta, porque, dos sóis e do luar,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Deus aos ombros lhe estende a doçura de um manto,</l>
          <l>E lhe dá, todo o instante, o fulgor sacrossanto</l>
          <l>Das rimas a rolar na harpa verde do mar.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Amor materno</head>
        <lg>
          <l>Nesse recanto agreste, onde foi sepultado</l>
          <l>O corpo de teu filho, o que virá nascer?</l>
          <l>Nascerá, certamente, um salgueiro aromado,</l>
          <l>A cuja sombra o teu amor há de viver...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Jamais esquecerás esse lugar sagrado,</l>
          <l>E ali, teu coração há de sempre bater,</l>
          <l>Porque no amor não há um coração parado,</l>
          <l>A dormir sem sonhar, ou sem mágoas sofrer.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O amor de que te falo é o grande amor materno,</l>
          <l>Que, quando necessário, até ao próprio inferno</l>
          <l>Vai, em busca dum filho, em todos os momentos...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quanto mais, quanto mais nessa praia saudosa,</l>
          <l>Onde vives clamando, onde vives chorosa,</l>
          <l>Mas confiando na paz dos altos firmamentos!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Amigos</head>
        <lg>
          <l>Morto de fome, embora, um negro cão felpudo,</l>
          <l>Era, do velho Antônio, a melhor companhia.</l>
          <l>Dava-lhe o cão amigo afagos de veludo,</l>
          <l>E os espirituais eflúvios da alegria.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quando a tarde formosa espalhava por tudo</l>
          <l>A floração da luz, numa perene orgia,</l>
          <l>Num destino fatal, o magro cão, sisudo,</l>
          <l>Unido ao velho, a estrada inteira percorria.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Na taverna da praia, o velho se embriagava</l>
          <l>De urna maneira tal, que junto ao mar ficava,</l>
          <l>Ao comprido na areia, ao comprido no chão...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E a noite chegou, coberta de lestada.</l>
          <l>Em que o velho, ao morrer, nessa praia isolada,</l>
          <l>Viu ungi-lo de afago o carinhoso cão.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>No mistério das ânsias</head>
        <lg>
          <l>Deixa que o mar, de encontro aos rústicos rochedos,</l>
          <l>Convulsamente ruja e, pelas praias, ruja,</l>
          <l>Com toda a sua força hercúlea, nos enredos</l>
          <l>De urna dor sobre a qual estremece a maruja.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Deixa que o mar, nos mais temíveis arremedos,</l>
          <l>Busque galgar o céu maravilhoso, em cuja</l>
          <l>Curva existe o fulgor dos astros, nos segredos</l>
          <l>Do Divino Poder que as almas sobrepuja.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O mar que geme, o mar que brame e que soluce,</l>
          <l>E, em blasfêmias, em pé se ponha ou se debruce;</l>
          <l>Ou se alastre, a fremir, por todas as distâncias,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Deixando para trás a linha das montanhas...</l>
          <l>É que esse mar possui as sensações estranhas</l>
          <l>De um revel coração, no mistério das ânsias.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>A vida</head>
        <lg>
          <l>Tudo neste lugar agreste é puro e santo.</l>
          <l>De maneira que tu achas na própria terra</l>
          <l>Toda a consolação que não conhece o pranto,</l>
          <l>E não conhece a dor, a grande dor que aterra...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Toda a tua alma afeita às emoções, encerra</l>
          <l>A luz, o aroma e o som, num mágico quebranto,</l>
          <l>Desde as praias do mar às florestas da serra,</l>
          <l>Desse céu de cristal sob o bendito manto.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nunca fugiste à vida, antes buscas senti-la</l>
          <l>Porque na vida vês a luz meiga e tranquila</l>
          <l>De um divino farol na praia da esperança.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E soltas, mar a fora, o bergantim dos sonhos.</l>
          <l>E vais, por esse mar, em busca dos risonhos</l>
          <l>Dias de sol, na unção do azeite da bonança.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Loucura de amor</head>
        <lg>
          <l>Num funéreo caixão vejo-a em paz, sossegada...</l>
          <l>E o seu vestido branco é leve como a pluma</l>
          <l>De uma garça que vem, na tarde perfumada.</l>
          <l>Rever, saudosamente, o espírito na espuma.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Das moças do lugar era a mais delicada!</l>
          <l>Que boca virginal! E olhos assim, nenhuma</l>
          <l>Outra moça possuía! Era a flor na esfolhada</l>
          <l>Do milho e era, na praia, em maio, a graça, em suma.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“De todo esse redor, chamavam-na bondade”,</l>
          <l>Exclamou um rapaz, em cujo olhar pairava</l>
          <l>Uma funda expressão de dor e de saudade.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, momentos depois, ao largo mar calado,</l>
          <l>Desesperadamente, o Antônio se atirava...</l>
          <l>E o céu, aberto em luz, floria, constelado!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Cena real</head>
        <lg>
          <l>Rita fora tirar mariscos ao mar-grosso,</l>
          <l>Para dar de comer aos pequeninos filhos</l>
          <l>Que eram, do seu amor, os mais fortes cadilhos</l>
          <l>Numa pobreza atroz, de sombras de arcabouço.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Prendeu um samburá à curva do pescoço,</l>
          <l>E buscou do rochedo os últimos rastilhos,</l>
          <l>Temendo o grande mar que, em cada vaga, trilhos</l>
          <l>Abre a cada momento. E cada vaga é um poço.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas uma vaga veio; e mais outras... Montanhas</l>
          <l>De água vieram... E treme o seu peito de estranhas,</l>
          <l>Profundas emoções! Ei-la, agora, rolando</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Por esse mar revolto! (Ah! tristíssima cena!)</l>
          <l>Com um trapo da saia ela, cheia de pena,</l>
          <l>Diz aos filhos adeus, e estes choram, gritando!...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Última vontade</head>
        <lg>
          <l>Quando eu para este mundo os meus olhos fechar,</l>
          <l>Que os feche para o pó, num frio esquecimento.</l>
          <l>Menos para o esplendor dos campos e do mar,</l>
          <l>Para não ter, na morte, um grande sofrimento.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Eu desejo morrer numa noite de luar...</l>
          <l>(E o luar para mim é um florescimento)</l>
          <l>Aberta a porta irei, todo em ânsias, pelo ar,</l>
          <l>Para a sublime paz azul do firmamento.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E o divino luar, que tanto eflúvio espalha,</l>
          <l>Seja-me a branca e leve e sagrada mortalha;</l>
          <l>E sejam minha unção os perfumes agrestes...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E se existir quem reze antífonas e salmos,</l>
          <l>Quero lhe ouvir rezar sobre os meus sete-palmos,</l>
          <l>Uma oração de amor, na ermida dos ciprestes!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Por São João</head>
        <div type="section">
          <head>I</head>
          <lg>
            <l>Com a humilde ovelhinha entre os braços cativa,</l>
            <l>Eis sorrindo, no altar, São João do deserto.</l>
            <l>E o fundo de cristal da noite evocativa</l>
            <l>Parece, no horizonte um neorama aberto...</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Corre, vagas afora, uma encantada estiva</l>
            <l>De bergantins... E um coração, a descoberto,</l>
            <l>Em cada um a cantar, numa esperança viva...</l>
            <l>Mas, ai do que tiver um rumo vago e incerto!</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Pequeninos clarões, brancas luzes acesas,</l>
            <l>Vão pelo mar afora, ao léu das correntezas...</l>
            <l>É uma frota veleira, em busca de outras plagas.</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Quem de tantos clarões contempla a quantidade,</l>
            <l>Do alto do morro, sente uma grande ansiedade</l>
            <l>De acompanhá-la sobre a ondulação das vagas.</l>
          </lg>
        </div>
        <div type="section">
          <head>II</head>
          <lg>
            <l>Desci do alto do morro, e, célere, apressado,</l>
            <l>Fui falar a Valésia, onde ela me esperava.</l>
            <l>Ai! seio morno! Ai! seio em flor! Ai! seio amado!</l>
            <l>E era um favo de mel a boca que eu beijava...</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Fomos depois à praia... E a praia do povoado,</l>
            <l>De alegres corações, toda repleta estava!</l>
            <l>E o luar parecia um óleo derramado</l>
            <l>Sobre o espelho do mar que os astros retratava.</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Viam-se em plena esteira azul das vagas mansas</l>
            <l>Uns barcos de papel... Ah! quantas esperanças,</l>
            <l>Da praia virginal no amoroso recorte...</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Calçadas de ardentia, as belas raparigas</l>
            <l>Pareciam visões legendárias, antigas...</l>
            <l>E os rapazes, então, riam da própria sorte.</l>
          </lg>
        </div>
        <div type="section">
          <head>III</head>
          <lg>
            <l>E Valésia me disse: “O meu pequeno barco,</l>
            <l>Feito de casca de laranja tangerina,</l>
            <l>Vejo-o também no mar, pois ele se destina</l>
            <l>A procurar na vida o mais seguro marco”.</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>E o leve bergantim, de esvelta proa em arco,</l>
            <l>Tendo por bujarrona uma luz cristalina,</l>
            <l>Desceu e fez-se ao mar, nessa noite divina...</l>
            <l>E aonde se achava o meu? Aonde estava o meu barco?</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>O meu, bem junto ao dela, ei-lo tranquilamente,</l>
            <l>Pelas vagas afora... (E uma porção de gente,</l>
            <l>Ao vê-lo assim, mordia indiscretas perguntas...)</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Mas, todo o nosso olhar não via senão uma</l>
            <l>Luz, muito distante... ao longe... além... na bruma...</l>
            <l>Eram, no mesmo sonho, as nossas almas juntas!...</l>
          </lg>
        </div>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Aquarela</head>
        <lg>
          <l>Olá gente da praia! Olá! gente da salga</l>
          <l>Do peixe que reluz na areia!... Que folia</l>
          <l>Anda pelo Pontal, e os altos morros galga,</l>
          <l>E contorna, ao clarão do céu, a freguesia!...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Lá vem, caminho abaixo, e um burrico cavalga,</l>
          <l>Todo bamboleante, o filho da Luzia.</l>
          <l>Vem uns peixes comprar, para pô-los à malga,</l>
          <l>Com rodas de cebola e salsa, ao fim do dia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E o sol, nessa manhã inefável e bela,</l>
          <l>Punha em toda a extensão das linhas da aquarela,</l>
          <l>Fulgidíssimos tons de lumaréus sangrentos...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, no tostão da praia, as vagas rumorosas,</l>
          <l>Abriam-se de quando em quando, em grandes rosas,</l>
          <l>Sob as asas sutis e céleres dos ventos.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Riso da morta</head>
        <lg>
          <l>Morta que está, no seu caixão de pano preto,</l>
          <l>Vejo-lhe um lenço ao queixo; as mãos hirtas, cruzadas</l>
          <l>Por sobre a rigidez desolante do peito,</l>
          <l>Onde alguém desfolhara umas rosas nevadas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Adormeceu, enfim, nesse funéreo leito,</l>
          <l>Para não despertar! As pupilas, fechadas,</l>
          <l>De azuis que eram, lhe são, agora, de outro jeito:</l>
          <l>Muito tristes, assim como as monjas veladas...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, parece que ri! Vejo-a rir! Vejo-a rindo!</l>
          <l>E, então, não há de rir quem se encontra dormindo</l>
          <l>Entre rosas, de pés voltados para a rua.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Prestes a viajar para o descanso eterno,</l>
          <l>Fechadas, de uma vez, as pupilas ao inferno</l>
          <l>Da fome cruel, da sede atroz, da carne nua?</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>A promessa</head>
        <lg>
          <l>Meu pai e minha mãe passam pelo caminho...</l>
          <l>É uma touca de neve a cabecinha dela!</l>
          <l>E a dele também é! Talvez não haja linho</l>
          <l>Mais alvo numa fonte, enxaguado em barrela.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Lembra um vime a tremer, o corpo do velhinho</l>
          <l>E o dela também treme... Ambos vão à capela</l>
          <l>Do Senhor do Bonfim levar, devagarinho,</l>
          <l>Um coração de massa e uma bonita vela.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Eles querem morrer tranquilos, sossegados;</l>
          <l>Não querem ser, na paz da morte, despertados</l>
          <l>Por dívida qualquer, que lhes ensombre a sorte.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Pois toda alma que deve anda de cruz aos ombros,</l>
          <l>Nos abismos fatais, nos rústicos escombros</l>
          <l>Do caminho da vida, ou no da própria morte.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Predição</head>
        <lg>
          <l>Entram pela janela uma luz outoniça</l>
          <l>E o perfume da relva orvalhada. Na sala,</l>
          <l>Junto à porta, chilreia uma alegre carriça,</l>
          <l>Cuja asa aberta, em leque, em plena luz estala.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A saúde no olhar da Anselma é luz mortiça,</l>
          <l>E as suas lindas mãos já têm a cor da opala...</l>
          <l>Mas, de formosa que é, no passeio ou na missa,</l>
          <l>Não há moça com quem a gente compará-la.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nesta hora em que ela está sentada ao pé da porta,</l>
          <l>E uns xadrezes de crivo ao bastidor recorta,</l>
          <l>Para o seu enxoval, mal percebe, no entanto,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O que Raquel nos diz, quando as cartas espalha:</l>
          <l>“É mais uma a coser sua própria mortalha.</l>
          <l>Para cedo dormir na paz do campo santo”.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>A prece</head>
        <lg>
          <l>Cada vaga coleava a laia de serpente</l>
          <l>De áurea escama, a luzir nos flancos do rochedo,</l>
          <l>Na imensa praia triste! E o sol, topázio ardente,</l>
          <l>Desenhava clarões nas folhas do arvoredo!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E eu corria num barco, afoito e sorridente:</l>
          <l>Alma aberta, sem susto, afastada do medo;</l>
          <l>Eis quando uma rajada, um látego veemente,</l>
          <l>Me atira desse mar ao trágico segredo!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas só tu, meu amor, nessa hora, me amparaste,</l>
          <l>No fundo desse mar e de lá me arrancaste...</l>
          <l>Pois ali quanta gente à morte não se esquiva!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Pude então ver no teu olhar que tudo aquece</l>
          <l>Quanto vale o ter fé nas asas de uma prece</l>
          <l>Que assim me socorreu nessa luta aflitiva...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Embriagado</head>
        <lg>
          <l>Todos os dias vivo em sonhos embriagado...</l>
          <l>E mais vinho desejo a cada hora que chega.</l>
          <l>Bebo o vinho do sol e bebo o imaculado</l>
          <l>Vinho da luz que vem dos lagares de vega.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas o vinho melhor é o que bebo a teu lado.</l>
          <l>Numa misteriosa e puríssima adega:</l>
          <l>Bebo o teu olhar santíssimo e adorado;</l>
          <l>Bebo-o cheio do amor que as almas puras rega.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E se a nuca te beijo avidamente e beijo</l>
          <l>O teu seio macio, em cujos traços vejo</l>
          <l>Um bonito casal de pombos amorosos,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Muito maior porção de um outro vinho trago,</l>
          <l>Aos goles, lentamente, entre sonhos e afago,</l>
          <l>Na taça aberta em flor dos teus lábios cheirosos.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Impressionada</head>
        <lg>
          <l>Eia não quis ficar na casa onde morava,</l>
          <l>Nessa casa que o estio enfeitava de flores,</l>
          <l>Para não ver o mar que apenas lhe ofertava</l>
          <l>Nostalgias cruéis, e lágrimas e dores...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Olhando a praia branca, ah! só nela encontrava</l>
          <l>À luz flava do sol e aos fluídicos palores</l>
          <l>Da lua, uma tristeza atroz, que a dominava</l>
          <l>E dominava a flor dos seus lindos amores.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Como ficar ali, nessa casa isolada,</l>
          <l>Se a sua alma não era a mesma, iluminada</l>
          <l>Como dantes, ao tempo em que, nesse lugar,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Não existia a cruz tristíssima e sombria,</l>
          <l>Que lhe marcava, agora, a cova onde dormia</l>
          <l>O sono eterno, o seu amor, junto do mar?</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Batismo de ânsias</head>
        <lg>
          <l>Carlos, como me vem à idéia o que sofreste,</l>
          <l>Na praia da amargura aspérrima da vida,</l>
          <l>Desde a quadra infantil, em que só mereceste</l>
          <l>Como prova da sorte, a terra ressequida...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Carlos, vêm desde a infância, as urzes que colheste...</l>
          <l>E, pela mocidade, em vez de embevecida</l>
          <l>De sonhos, a tua alma andou (e não tremeste!)</l>
          <l>Desvairada, a chorar, quase louca e perdida!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Eu me lembro de ti, Carlos, seguidamente,</l>
          <l>Porque comigo andaste e em minh’alma somente</l>
          <l>Vias, como num lago, os teus sonhos imersos...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Os mesmos que ainda vês, nas horas em que cismo</l>
          <l>No nosso atormentado e sinistro batismo</l>
          <l>De ânsias, pela tortura artística dos versos!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Seio amigo</head>
        <lg>
          <l>Ele vinha da pesca e ao sair da tormenta,</l>
          <l>Que, em novelos, rolava em rumo da enseada,</l>
          <l>Virou lá no Pontal. Envolveu-o a cinzenta</l>
          <l>Gaze da cerração, sob a rija lestada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Noite de ânsias e de ais, na procela agourenta</l>
          <l>Da fria lua nova, uma lua nevada.</l>
          <l>E o corpo do rapaz, já matéria visguenta,</l>
          <l>Boiava, agora, sobre a vaga encapelada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, a praia que é sempre um venturoso abrigo,</l>
          <l>Um seio sempre aberto, um grande seio amigo,</l>
          <l>Ao vê-lo de roldão, disse ao mar que o trouxesse...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E uma vaga foi vindo... e mais uma... e mais uma...</l>
          <l>E estendeu-se um colchão alvíssimo, de espuma,</l>
          <l>Sobre o qual o rapaz para sempre adormece...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Na vila</head>
        <lg>
          <l>Tarde de procissão da Virgem do Rosário.</l>
          <l>E, como o sol faiscasse, a vila parecia</l>
          <l>Todo o vivo esplendor de uma ourivesaria</l>
          <l>De um preço nunca visto, excelso, extraordinário.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Rebimbalhava alegre, o velho campanário;</l>
          <l>E o povo, em derredor da imagem de Maria,</l>
          <l>Como contente estava, em perene alegria,</l>
          <l>Sem se lembrar talvez do triste mundo vário.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, nos olhos leais, puríssimos, da imagem,</l>
          <l>Que violetas de dor! E que amarga linguagem</l>
          <l>Na sua boca em flor, impregnada de aroma!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Chora a imagem porque, desde os passados anos,</l>
          <l>A vila é sempre a mesma; e os corações humanos</l>
          <l>Os mesmos, como outrora, há séculos, em Roma!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Numa tarde hibernal</head>
        <lg>
          <l>Cor de cimento, o mar! E o céu, cor de cimento!</l>
          <l>Mar e céu, céu e mar se confundem na cor</l>
          <l>De um túmulo fechado, onde houvesse um clamor</l>
          <l>De almas a soluçar, de momento em momento.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E eu, que desejo vê-la, o meu soluço aumento;</l>
          <l>E faz-se ave molhada, a minha própria dor,</l>
          <l>Longe do manso olhar, do místico esplendor</l>
          <l>Dos seus olhos que são todo o meu pensamento.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E o mar e o céu, assim, continuam fechados...</l>
          <l>E a chuva torrencial não cessa, nos telhados,</l>
          <l>De correr, de correr, lentas horas a fio.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E cai, continuamente, a chuva impiedosa,</l>
          <l>Sem que uma vela surja, a balouçar-se, airosa,</l>
          <l>Para me transportar quase morto de frio!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Tomado da lua</head>
        <lg>
          <l>Minha querida, o nosso adorado filhinho</l>
          <l>Está que já não pode os braços levantar!</l>
          <l>E era tão forte como o inquieto cabritinho</l>
          <l>Que assim que nasce pula e se alegra em pular...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas nem lhe serve, agora, o teu colo, de ninho,</l>
          <l>Porque ele vive assim, a gritar... a gritar...</l>
          <l>E como diminui! Como está tão magrinho!</l>
          <l>Que roxos tons de dor possui no próprio olhar!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Certo, tomou-o a lua, ao ver-lhe as camisinhas</l>
          <l>De rendas e cetim, e as fraldas, e as touquinhas...</l>
          <l>Mas isso passará, se disseres ao luar</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Dessa lua de abril, de tão suave brilho:</l>
          <l>“O luar! O luar! vem ver este meu filho,</l>
          <l>Que tão doente está, e mo ajuda a criar!”</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>O medroso</head>
        <lg>
          <l>Caminho escuro, aberto à sombra de espinheiros</l>
          <l>Rugidores ao vento a uivar como um cachorro...</l>
          <l>E o André tinha que vir dos engenhos no morro,</l>
          <l>Deixando para trás, na safra, os companheiros.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E desceu, o rapaz, ora a passos ligeiros,</l>
          <l>Ora com lentidão. Noite alta. Nem um jorro</l>
          <l>De luz pela amplidão... E o André, metido o gorro</l>
          <l>Ao sovaco direito, alou, galgando outeiros...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas afinal, parou, na encruzilhada, a custo...</l>
          <l>E, para dominar o miserável, susto,</l>
          <l>Começou a cantar, banhado de esperanças.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, chegado que foi à casa, o pai lhe disse:</l>
          <l>— Enquanto fui rapaz, nunca fiz a tolice</l>
          <l>De acordar, desse jeito, os velhos e as crianças!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Ilha!</head>
        <lg>
          <l>Olho o mar, olho o rio, olho o campo, olho a serra,</l>
          <l>E olho espiritualmente a abóbada celeste...</l>
          <l>Do que fulge no espaço e se irisa na terra</l>
          <l>Em belezas reais, a minha alma se veste.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vejo, sonhando assim, que o meu destino encerra</l>
          <l>Amplos dias de luz doirada em campo agreste...</l>
          <l>O medonho tropel das lutas não me aterra!</l>
          <l>Duma tranquila paz meu sonho se reveste.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Homem, fico, de pé, na crença de que existe</l>
          <l>Em tudo o olhar de um Deus Universal, que assiste</l>
          <l>Ao amor e do amor as flâmulas desfralda;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Deus que faz duma estrela a excelsa maravilha</l>
          <l>De um mundo, a refletir nas tuas águas, Ilha!</l>
          <l>Como num misterioso espelho de esmeralda!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Para voltar</head>
        <lg>
          <l>Praia amorosa, aquela. E, sob o céu doirado,</l>
          <l>De um maio todo em flor, em carícias desfeito,</l>
          <l>O Domingos dormia, afoito, sossegado,</l>
          <l>Como se a praia fosse o seu macio leito.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Dormia o pescador, de um velho rancho ao lado,</l>
          <l>E as suas rijas mãos, cruzadas sobre o peito,</l>
          <l>Eram como as de quem, num leve sonho alado,</l>
          <l>Reza cheio de fé profunda; satisfeito,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Chegara de arriar muitas braças de rede...</l>
          <l>E enquanto a luz do sol não subisse à parede,</l>
          <l>No aconchego da praia a dormir ficaria,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Descansando na areia, umas horas, à fresca,</l>
          <l>Para voltar de novo ao trabalho da pesca,</l>
          <l>Na conquista febril do pão de cada dia.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Apostando</head>
        <lg>
          <l>Faceira, de uma forma encantadora, a Rita</l>
          <l>Ia comigo à praia e comigo cantava...</l>
          <l>Para lhe ouvir, então, a voz clara e bonita</l>
          <l>Quanta gente na praia, em cheio, se agrupava...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>De tamancos de ourelo e vestido de chita,</l>
          <l>E tranças sobre a espádua, e uma flor que brotava</l>
          <l>Na linda boca, e aquele olhar de luz bendita,</l>
          <l>Ela, a flor singular da praia, se julgava.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ainda há quem tenha n’alma, esbatida em saudade,</l>
          <l>A noite em que ela foi, à mansa claridade</l>
          <l>Da lua, à pescaria, o peito unido ao meu...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Desprendidos, depois, de samburá às costas,</l>
          <l>Corremos pela sombra, em contínuas apostas...</l>
          <l>Mas quem ganhou, beijando-a, as apostas, fui eu.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Enterro solene</head>
        <lg>
          <l>A tarde desce, a tarde alastra-se, cortada</l>
          <l>De gaivotas voando, em contínuos rumores...</l>
          <l>As copas dos ipês são ouro velho, em flores;</l>
          <l>E a água do rio lembra uma harpa dedilhada...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Um féretro aparece e sobe a larga estrada</l>
          <l>Sobre a qual, num repente, um turbilhão de cores,</l>
          <l>Vindas do ocaso em luz, bordado de esplendores,</l>
          <l>Beija, de uma criança a face macerada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E outras, chorando, vão lhe pegando nas alças</l>
          <l>Do caixão de paninho azul, todas descalças</l>
          <l>E rotas, sem chapéu; mas num silêncio enorme,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Porque lhes vai, ao lado, o austero mestre-escola,</l>
          <l>De cuja alma, no entanto, uma prece se evola</l>
          <l>Por aquele que junto à fria morte dorme.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Reabilitado</head>
        <lg>
          <l>Eis chegados da serra os dois filhos da Iria:</l>
          <l>O mais velho, o Patrício, inda à larga cintura</l>
          <l>Traz um grande punhal, e, veemente, murmura</l>
          <l>Bruscas imprecações de trágica ironia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O mais moço, porém, o André, da alma irradia</l>
          <l>Uma serena paz de mística doçura.</l>
          <l>E a velhinha ali está, numa choupana escura,</l>
          <l>Onde não entra luar e a própria luz do dia</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, os olhos abrindo, ao clarão de uma vela,</l>
          <l>A velhinha lhe diz “Filhos, ide à capela</l>
          <l>Orar sempre por quem vos deu sérios conselhos...”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nisso, sob um silêncio afetivo e sagrado,</l>
          <l>Enquanto o André beijava as mãos do ser amado,</l>
          <l>Quebrava o outro o punhal na curva dos joelhos.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>A fé</head>
        <lg>
          <l>Feliz quem pela fé, sem vacilar, caminha,</l>
          <l>Seja-lhe o próprio mundo um deserto medonho.</l>
          <l>Temos na fé sublime a luz do nosso sonho,</l>
          <l>E nenhum coração diante dela definha...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Cresça, em redor de nós, a onda brava e daninha,</l>
          <l>Do temeroso mar das dúvidas, tristonho,</l>
          <l>E andaremos, na fé, de semblante risonho,</l>
          <l>Como quem bebe o mosto aromado da vinha.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A fé em si resume a magia suprema</l>
          <l>De nos levar, do anseio atroz da hora extrema</l>
          <l>Da vida, a um porto aberto, às regiões mais calmas...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Esvelta caravela, a fé, abrindo os panos,</l>
          <l>Através da amplidão dos largos oceanos,</l>
          <l>Busca o consolo e a paz para todas as almas.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Alma crente</head>
        <lg>
          <l>Como voltou feliz! Como voltou cantando</l>
          <l>Como uma patativa! E ela, alegre, voltou</l>
          <l>Da igreja do Rosário, onde esteve rezando,</l>
          <l>E onde, à Nossa Senhora, uma vela entregou.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Como voltou feliz, da alma crente vazando</l>
          <l>A graça que no altar de Maria encontrou,</l>
          <l>No momento em que o seu coração meigo e brando,</l>
          <l>Do rosário da crença as contas desfiou...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>De volta ao velho rancho onde morava, disse,</l>
          <l>Toda cheia de paz, de sorriso e meiguice:</l>
          <l>“Filho, a tua saúde, há de, em breve, voltar”,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E assim aconteceu. À Flava madrugada</l>
          <l>Do outro dia, saía o Paulo, da enseada</l>
          <l>Remansosa, serena, às redes no alto mar!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Caminho celeste</head>
        <lg>
          <l>Oh! Vem comigo. A praia é toda uma festança</l>
          <l>De almas cheias de sol, de almas simples e boas.</l>
          <l>Olha, depois da chuva, o arco da aliança</l>
          <l>Estendeu-se por sobre as ondas e as canoas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Enche o teu coração da mais viva esperança;</l>
          <l>Enche-o de fé robusta, e vem ouvir as loas</l>
          <l>Dessa gente feliz, que, entre sonhos, alcança</l>
          <l>Tudo, tudo na terra, e ruma como as proas</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Dos altos bergantins, ao grande mar da vida...</l>
          <l>Vem ter comigo aqui, ó alma estremecida,</l>
          <l>Que hás de me conduzir à sombra do cipreste...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Passaremos, então, de mãos dadas, Maria,</l>
          <l>Por debaixo desse arco-azul que, na harmonia</l>
          <l>Desta tarde, recorda o Caminho Celeste.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Vida na praia</head>
        <lg>
          <l>A luz do sol recorda uma teia de aranhas...</l>
          <l>Tessituras de prata estendem-se às florentes</l>
          <l>Ilhas da minha terra... E o mar se enche de estranhas</l>
          <l>Asas brancas, de garça, a esvoaçar, trementes...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Do lugar onde estou, vejo ao longe as gadanhas</l>
          <l>Ceifando a seara e vejo os riachos dormentes!</l>
          <l>Maria, como é bela a vida entre montanhas,</l>
          <l>Nestes vales em flor, junto às águas correntes!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E maio como está com fartura nas granjas!</l>
          <l>Cheira a farinha a estrada e doiram-se as laranjas;</l>
          <l>Aves descem da mata, em festivo alvoroço...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, a vida, na praia é, para mim, mais bela!</l>
          <l>Repara como vai galhardamente a vela</l>
          <l>Daquela lancha, para a pesca no mar-grosso!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Esquecimento</head>
        <lg>
          <l>Jaz de todo esquecido o filho da Constância,</l>
          <l>Que há três anos morreu nas ondas. Linda flor!</l>
          <l>Dos tanoeiros era a maior esperança,</l>
          <l>E seria, por certo, o melhor pescador.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Estivesse a baía azul, toda bonança,</l>
          <l>Ou bravia estivesse, ele, cheio de ardor,</l>
          <l>Embora fosse ainda uma simples criança,</l>
          <l>Já sabia enxaguar a vela, sem pavor.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas como? Então ninguém se lembrará, ao menos</l>
          <l>Um momento sequer, dos olhares serenos,</l>
          <l>Daquele que enfrentava a fúria dos quadrantes?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Só aquela velhinha, entretanto, soluça,</l>
          <l>E parece que até na praia se debruça,</l>
          <l>Quando rolam na areia as ondas murmurantes!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Casal feliz</head>
        <lg>
          <l>Rancho aberto, na praia. O clarão da alvorada</l>
          <l>Dá-lhe às telhas uns tons levemente sombrios...</l>
          <l>E já à porta está uma velha assentada,</l>
          <l>Sem temer da invernia os bruscos arrepios.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Cose a rede que fora, à noite, arrebentada</l>
          <l>Nas pedras onde o mar é todo corrupios.</l>
          <l>E o marido descansa a alma fatigada,</l>
          <l>E o corpo cujos pés estão murchos e frios.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O silêncio, em redor, tem eflúvios de prece...</l>
          <l>E a velha que ali cose, uma santa parece;</l>
          <l>E o homem lembra a vida inefável de um santo</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E pelo dia afora e quando chega a noite,</l>
          <l>E renasce a manhã, não há mal que os açoite,</l>
          <l>E os faça derramar uma gota de pranto.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>No aconchego da praia</head>
        <lg>
          <l>Como vivemos bem, ambos tranquilamente,</l>
          <l>No aconchego da praia em curva! Que poesia!</l>
          <l>Desde a aurora ao sol posto, o coração da gente</l>
          <l>Estremece, palpita, em constante alegria!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Descalços, pés na areia, a tarrafa pendente</l>
          <l aoidos:meter="ignore">Dos nossos braços, eis-nos na pescaria...</l>
          <l>E a tainha, na malha, é prata refulgente,</l>
          <l>Com a qual temos nós a abastança do dia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E à tarde, então? À tarde ainda a gente trabalha</l>
          <l>Para ter, à merenda, uma linda toalha,</l>
          <l>E nela um caldo fresco, à luz de suaves brilhos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E quando a noite desce e perfumes derrama,</l>
          <l>Rezamos a Jesus, ajoelhados na cama,</l>
          <l>E abençoamos, sorrindo, o rol dos nossos filhos.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Ao teu lado</head>
        <lg>
          <l>Eis minh’alma, Valésia, ajoelhada a teu lado</l>
          <l>Numa contemplação quase religiosa.</l>
          <l>Bebe minh’alma todo o aroma imaculado</l>
          <l>Da tua boca igual ao cálice da rosa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Dos teus olhos contempla o clarão abençoado;</l>
          <l>E essa cabeça altiva, esvelta e carinhosa;</l>
          <l>E nos teus seios sente a frescura de um prado,</l>
          <l>E beija as tuas mãos de opala primorosa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ora, tudo isso cabe em minh’alma; e mais tudo</l>
          <l>Que no céu resplandece, em mantos de veludo;</l>
          <l>E no mar, e no campo, e nas altas montanhas...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E minh’alma palpita, anseia, vibra e canta,</l>
          <l>O meu amor! O meu ideal! O minha santa!</l>
          <l>Quando por esta praia afora me acompanhas.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>De volta</head>
        <lg>
          <l>Volto da solidão dos campos e da serra,</l>
          <l>Volto para te ver e para te escutar...</l>
          <l>Meu pobre coração era um monte de terra,</l>
          <l>Sem lampejos de sol ou afagos de luar.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Hoje um outro ideal toda a minh’alma encerra.</l>
          <l>Bate o meu coração, de outro modo, a cantar...</l>
          <l>É que te vejo e escuto, e nada então me aterra:</l>
          <l>Durmo e acordo feliz junto de ti, ó Mar!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Perfeitamente sei, agora, que a tortura,</l>
          <l>Que a tristeza, que o fel, e talvez a loucura.</l>
          <l>Que me vinham do sonho os roseirais matar,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Era porque ninguém compreender poderia,</l>
          <l>Como tu, meu amigo, a ânsia que me envolvia...</l>
          <l>Pois só tu tens uma ânsia igual à minha, ó Mar!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Sonho feliz</head>
        <lg>
          <l>Ó minha para sempre amada feiticeira,</l>
          <l>Tem o aroma do trevo o vale dos teus seios!</l>
          <l>E o teu formoso olhar é a luz numa lareira,</l>
          <l>Que a alegria abençoa, em leves devaneios.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, para me cobrir do leito a cabeceira,</l>
          <l>Busco eu o teu cabelo, áurea noite de enleios,</l>
          <l>Que rescende, querida, à flor da laranjeira,</l>
          <l>E me desperta na alma emotivos anseios...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Faço da vida um sonho, o mais belo, o mais lindo;</l>
          <l>E, como aos poucos vou o teu corpo sentindo,</l>
          <l>Da volúpia do amor nos estremecimentos,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nesse sonho feliz, de amparos benfazejos,</l>
          <l>Subo e sobes também pelo rastro que os beijos</l>
          <l>Vão deixando no azul dos largos firmamentos!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>O tio Antônio</head>
        <lg>
          <l>Muito velhinho, o tio Antônio já nem pode</l>
          <l>Caminhar como há três anos, pelo caminho...</l>
          <l>Uma doença atroz, inclemente, lhe acode</l>
          <l>À perna esquerda e ao braço. Ai! pobre do velhinho!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, quando a tarde é calma, uma idéia o sacode,</l>
          <l>Dá-lhe o rubro vigor de uma taça de vinho.</l>
          <l>E ele, então, pachorrento, a rir, repete: “Amode</l>
          <l>Que estou melhor”. E desce à praia, num carrinho.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas o que vai fazer, na praia? Quem soubesse!</l>
          <l>Ora, imaginem só! Logo que a tarde desce,</l>
          <l>O tio Antônio vai rezar as ladainhas</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que jamais esqueceu, em sua mocidade,</l>
          <l>Quando, numa baleeira, à hora da Trindade,</l>
          <l>Saía para o mar, à pesca das tainhas...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Fugindo ao medo</head>
        <div type="section">
          <head>I</head>
          <lg>
            <l>“Ana, o que hei de fazer para fugir ao medo</l>
            <l>Que me sacode o dia inteiro, a noite inteira,</l>
            <l>Dentro de minha casa, ou à sombra do arvoredo,</l>
            <l>E mesmo à luz do sol cantando na lareira?”</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>“Ouço à concha do ouvido a toada de um segredo</l>
            <l>Horrível, como a duma alma de feiticeira...</l>
            <l>Talvez a voz da morte, a chamar-me ao degredo</l>
            <l>Da cova, nesse chão, sem luz meiga e fagueira”:</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>“Ora, deves beijar, Maria, os pés gelados</l>
            <l>De um defunto qualquer, que eles te levarão</l>
            <l>Todo o medo brutal... e viverás contente...”</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>E, três meses depois, entre prantos magoados,</l>
            <l>De joelhos, Maria, ao lado de um caixão,</l>
            <l>Beijava os pés do noivo, alucinadamente.</l>
          </lg>
        </div>
        <div type="section">
          <head>II</head>
          <lg>
            <l>Agora, vejam como a rapariga passa</l>
            <l>Tão bem, tão satisfeita, alegre, toda risos,</l>
            <l>Com o formoso olhar resplendente de graça,</l>
            <l>E a boca a tilintar como os mais leves guizos.</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Nenhum medo, nenhum, a incomoda, a embaraça;</l>
            <l>E os dois seios lhe são delicados narcisos</l>
            <l>De seiva virginal. Com modos de ricaça,</l>
            <l>Vive num campo em flor, sem passos indecisos...</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>É que vive com ela e ela a sente, extremosa,</l>
            <l>A alma feita clarão, dulcíssima e piedosa</l>
            <l>Daquele cujos pés beijara e que hoje em dia</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Procura lhe dizer as cousas mais bonitas,</l>
            <l>Encontradas no Além, nas plagas infinitas,</l>
            <l>Na eterna floração dos Campos da Alegria.</l>
          </lg>
        </div>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Alma de marujo</head>
        <lg>
          <l>Dobra o sino da ermida, e a sua voz plangente</l>
          <l>Erra, saudosamente, ao longo das quebradas.</l>
          <l>Vê-se, de lado a lado, uma porção de gente.</l>
          <l>E as aves, pelo mar, são asas assustadas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quem morreria ali? Naquele rancho, rente</l>
          <l>Ao rochedo, onde estão as canoas puxadas,</l>
          <l>Acaba de morrer o velhinho Clemente,</l>
          <l>O melhor pescador desde as eras passadas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, ao morrer, disse à esposa, à fiel companheira,</l>
          <l>Que se achava chorando à sua cabeceira:</l>
          <l>“Como me sinto bem depois de confessado!”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Confessara-se o velho (Alma límpida, franca)</l>
          <l>Ao mar, que de onda em onda, em plena praia branca,</l>
          <l>Orava ao sol, orava ao céu, sempre ajoelhado.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>O coração</head>
        <lg>
          <l>O pobre coração da humanidade canta</l>
          <l>E ao mesmo tempo chora. E, quando canta, diz:</l>
          <l>— Quem canta, neste mundo, os seus males espanta,</l>
          <l>Para bem parecer um coração feliz.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, no anseio letal que, aos poucos, o alquebranta,</l>
          <l>O pobre coração ainda de novo diz:</l>
          <l>— Quem canta, neste mundo, os seus males espanta.</l>
          <l>Mas não há coração que não seja infeliz...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Prometeu da legenda, águias negras, em bando,</l>
          <l>Em derredor de si, vai sempre contemplando.</l>
          <l>E, muitas vezes, ri, para não soluçar...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, sem pausa, soluça, ao fundo de um segredo,</l>
          <l>Como por sobre a praia, ou de encontro ao rochedo</l>
          <l>Soluça o coração tristíssimo do mar...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Em caminho da cova</head>
        <lg>
          <l>Como fosse distante o Campo Santo, os filhos</l>
          <l>Da Maria da Praia acharam que deviam</l>
          <l>Jungir ao rude carro a junta de novilhos;</l>
          <l>E brejeiros, sorrindo, os quatro repetiam:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Que fardo tão pesado!” E que medonhos trilhos,</l>
          <l>Eles e os animais atravessar teriam!</l>
          <l>Mas antes que da noite os puríssimos brilhos</l>
          <l>Viessem, eles, por certo, a vila alcançariam.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E no carro partiu, pelos altos barrancos</l>
          <l>Do alto morro vermelho, aos fatais solavancos</l>
          <l>Do rodado que abria os mais fundos rastilhos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nesse carro partiu, pela vez derradeira,</l>
          <l>Aquela que levara a triste vida inteira</l>
          <l>A lutar e a rezar por esses quatro filhos!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Louvando a Jesus</head>
        <lg>
          <l>Mar cavado, na costa... As ondas, murmurantes,</l>
          <l>Debruçam-se na praia, açoitadas do vento.</l>
          <l>Passa, por toda a gente, um brusco pensamento:</l>
          <l>Não se fossem perder barcos e tripulantes.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Os barcos? Aonde irão parar esses errantes</l>
          <l>Barcos de pescaria? Aonde irão no momento</l>
          <l>Em que mais forte esteja esse mar agourento,</l>
          <l>Caso desçam da noite as sombras torturantes?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas o vento amainou, já não sopra tão forte...</l>
          <l>E os barcos, cada qual, num majestoso porte,</l>
          <l>Correm, garbosamente, alvas velas escravas...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E as mulheres, na praia, agora, em altos gritos,</l>
          <l>Vão louvando a Jesus, ao Senhor dos Aflitos,</l>
          <l>Que, do azeite da paz cobriu as ondas bravas!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Pressentimento</head>
        <lg>
          <l>A escuna fez-se ao mar, ao clarão das seis horas</l>
          <l>De uma tarde de abril. Que o vento desejado</l>
          <l>A conduza e lhe dê fulgurantes auroras,</l>
          <l>Dias cheios de sol, noites de luar doirado!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, o que vejo aqui? Aninhas, por que choras?</l>
          <l>Que mágoa te consome o peito apaixonado?</l>
          <l>Teu noivo não falou da choupana onde moras,</l>
          <l>Não disse que seria ali o teu noivado?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Há uma idéia, porém, tremeluzindo pela</l>
          <l>Alma desiludida e triste como a estrela</l>
          <l>Que primeiro, da noite, entre as sombras brilhou...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, com efeito, à luz tíbia da madrugada,</l>
          <l>A escuna Flor do Mar era despedaçada!</l>
          <l>E o rapaz nem sequer, morto, à praia voltou!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Os cômoros</head>
        <lg>
          <l>Vejo, seguidamente, esplêndidas paisagens</l>
          <l>De praias, onde o vento antífonas entoa...</l>
          <l>E, num leve baloiço, ao léu, numa canoa,</l>
          <l>Abro o peito e os pulmões ao frescor das aragens.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Pelas manhãs de maio alegram-se as viagens,</l>
          <l>Quer haja luz fremente ou poeira garoa.</l>
          <l>Florescem de cristal as praias da Lagoa,</l>
          <l>E elas me dão à vida as mais ricas miragens.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Minha alma, por ali, de alvíssaras se alaga;</l>
          <l>Reclina-se no leito amoroso da vaga,</l>
          <l>Sentindo-lhe de perto o calor dos enleios...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E os cômoros que o vento eternamente abala.</l>
          <l aoidos:meter="ignore">Esses seios de praias, alvíssimos, de opala,</l>
          <l>Esses seios me dão saudades dos teus seios...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Amortalhada</head>
        <lg>
          <l>Ela nasceu em julho. E que frio fazia!</l>
          <l>Lá fora, o vento sul as vagas encrespava...</l>
          <l>Mas, a nossa filhinha, entre painas dormia</l>
          <l>Tranquilamente, assim... e, sorrindo, sonhava.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E com quem nossa filha amada sonharia?</l>
          <l>Sabe-o Deus, pois alguém das nuvens a espreitava,</l>
          <l>Enquanto o vento sul lá por fora bramia,</l>
          <l>E o nosso coração no seu berço cantava.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas seis meses, depois, por uma linda tarde</l>
          <l>Em que o querido sol com mais flamâncias arde,</l>
          <l>Dos olhos de Zarina os místicos fulgores</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Fugiram para sempre... E, agora, ei-la num leito,</l>
          <l>De espada ao coração e mãos em cruz no peito,</l>
          <l>A lembrar, nossa filha, a Senhora das Dores!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Alma errante</head>
        <lg>
          <l>Erra, de praia em praia, entre as frias neblinas</l>
          <l>Das noites hibernais, vulto desconhecido,</l>
          <l>Cujas passadas têm, pelas areias finas,</l>
          <l>Um brusco, desolante e macabro ruído.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Treme a gente que o vê, alma errando em ruínas,</l>
          <l>Em convulsões de dor, num contínuo gemido,</l>
          <l>Blasfemando, feroz, às estrelas divinas,</l>
          <l>E às orações do amor fechando o próprio ouvido.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Pensam ser o José, que, nas praias, em fora,</l>
          <l>Jamais teve uma fé, e desespera, agora,</l>
          <l>Procurando a mulher que, certa vez, ao luar,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Numa violência atroz, horrivelmente crua,</l>
          <l>Mais branco que o cutelo impassível da lua,</l>
          <l>Atirara, enciumado, aos segredos do mar.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Páginas saudosas</head>
        <lg>
          <l>Que belo estava o céu, na tarde imaculada</l>
          <l>Que o mês de maio abria, entre rútilas franjas!</l>
          <l>E todo o laranjal, doirado de laranjas.</l>
          <l>E esses carros de bois chiando pela estrada!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que faina trabalhosa, em plena farinhada,</l>
          <l>Na abastança da sebe e das extensas granjas!</l>
          <l>E tu, ó minha flor, que tão meiga te arranjas,</l>
          <l>Como estavas bonita e toda perfumada!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nessa tarde não sei que vislumbres de vida</l>
          <l>Eu senti ao teu lado, ó Valésia querida,</l>
          <l>Principalmente quando as tuas mãos nervosas</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Se aninharam, sutis, nas minhas mãos, tremendo,</l>
          <l>Durante o tempo em que nos quedamos, relendo</l>
          <l>Do livro do passado as páginas saudosas!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Viveremos assim</head>
        <lg>
          <l>Eu te quero na curva ansiante dos meus braços,</l>
          <l>Junto do coração, e que possas ouvi-lo,</l>
          <l>Quer no momento em que ele é pássaro tranquilo,</l>
          <l>Ou um alvionador curvado de cansaços...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vacilantes, embora, eu já tenha os meus passos,</l>
          <l>Vacilante não sinto o peito, para uni-lo</l>
          <l>Ao teu peito, no qual vive o amor, no sigilo</l>
          <l>Da permanente união, através dos espaços.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Viveremos assim, nesta nesga de terra,</l>
          <l>Neste humilde lugar que as carícias encerra,</l>
          <l>Sem neblinas de inverno e anemias de outono.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E para longe, então, ficará, toda a sorte</l>
          <l>De misérias do mundo... E teremos, na morte:</l>
          <l>Para o espírito, o sonho, e para o corpo, o sono.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Rezando</head>
        <lg>
          <l>O oceano é um templo. Reza o sino da capela,</l>
          <l>Rolando a sua voz, entre as serras de além...</l>
          <l>E a lua de cristal, qual turíbulo, vem;</l>
          <l>Surge para incensar de frente o Cambirela.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E a noite desce, numa encantadora umbela</l>
          <l>Salpicada de prata. A noite é de Belém,</l>
          <l>Em que não houve sobre a terra imensa quem</l>
          <l>Não rezasse ao fitar a misteriosa Estrela...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Eu das montanhas faço os altares sagrados</l>
          <l>Aos quais sobem de vez os frementes cuidados</l>
          <l>Da minha alma emotiva, onde as ânsias se espalham...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E de onde estou rezando, humilde como um monge,</l>
          <l>Ouço rezar o vento, e o mar, que reza longe,</l>
          <l>Nesta hora em que na praia as ondas se ajoelham...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Junto do mar</head>
        <lg>
          <l>Débil como se fosse a haste verde de um lírio,</l>
          <l>O seu corpo inspirava a maior compaixão.</l>
          <l>Era-lhe neve o rosto, e o triste olhar um círio</l>
          <l>Que estivesse a chorar ao lado de um caixão.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E a tosse, pela tarde? Ah! que horrível martírio!</l>
          <l>Quem teria outro igual, dentro de uma aflição?</l>
          <l>Sua cabeça ansiava em constante delírio,</l>
          <l>E, muitas vezes, via almas em procissão...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, três meses depois, encontrei-a na estrada:</l>
          <l>— Bom dia, minha flor! Minha rosa orvalhada!</l>
          <l>De tão gorda que estás, já nem te serve a saia!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Rapariga, por que tão depressa saraste?</l>
          <l>— Sarei por que, num dia, aflito, me mandaste</l>
          <l>Morar junto do mar, nas carícias da praia...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Tuberculosa</head>
        <lg>
          <l>Suzana recordava uma garça alvadia,</l>
          <l>Das que vêm, ao sol posto, espelhar-se no mar,</l>
          <l>E ficam tristemente a cismar... a cismar,</l>
          <l>Dentro da mais pesada e atroz melancolia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Através da vidraça eu quantas vezes via</l>
          <l>A cera do seu rosto! E o seu saudoso olhar</l>
          <l>Tinha os velados tons do marfim de luar,</l>
          <l>Quando num rio a lua adormece, doentia...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E as suas brancas mãos, tão brancas, mãos de neve,</l>
          <l>E o veludo do seu cabelo ondeante e leve.</l>
          <l>E aquela boca em febre, ardendo como o estio?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Isso tudo me vem à ideia, lentamente,</l>
          <l>Se contemplo uma garça, assim, na praia albente,</l>
          <l>Ou revejo luar sobre as águas dum rio...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>À procura de abrigo</head>
        <lg>
          <l>Neste lugar, a gente esquece quase o mundo.</l>
          <l>E sente o coração num êxtase bendito!</l>
          <l>Fitando o largo mar que se arrepela, aflito.</l>
          <l>A alma foge à tristeza e ao tormento profundo!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>No mar, por mais austero e por mais iracundo,</l>
          <l>Ou calmo como um lago onde não haja um grito,</l>
          <l>Toda a nossa alma sente um sonho de infinito.</l>
          <l>Sonho cheio de luz e dessa luz fecundo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Brama a lestada ou corra o azeite da bonança,</l>
          <l>As velas sobre o mar são todas de esperança...</l>
          <l>E eu até aos faróis atentamente as sigo!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vão, assim, pelo azul de todas as distâncias,</l>
          <l>Como se vão pelo ar as nossas pobres ânsias.</l>
          <l>Para os faróis do céu, à procura de abrigo!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Caravela do sonho</head>
        <lg>
          <l>Desce, desce comigo, à praia carinhosa.</l>
          <l>Vem, que o luar é todo um manto de cetim.</l>
          <l>Gozaremos, os dois, a paz maravilhosa</l>
          <l>Desta praia que até parece não ter fim.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E que nunca se acabe a noite venturosa,</l>
          <l>Dentro da qual serás feliz, junto de mim</l>
          <l>Se a Gata Borralheira, um dia, foi ditosa,</l>
          <l>Ditosa aqui serás, num leito de marfim.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que a noite não se acabe, a noite não se acabe.</l>
          <l>E eu sei porque razão e a tua alma bem sabe...</l>
          <l>Da encantadora paz de uma praia tão bela,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Seguiremos, depois, em demanda da sorte,</l>
          <l>Para além... para além... para os faróis da morte.</l>
          <l>Do sonho na abençoada e esvelta Caravela.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Apartamento</head>
        <lg>
          <l>Por um dia de abril, fez-se ao largo um patacho,</l>
          <l>Velas brancas ao vento, às propícias rajadas...</l>
          <l>E o sol, entre rubis, no ocaso, como um facho,</l>
          <l>Entornava clarões nas amplas esplanadas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ali brilhava o mar; aqui brilhava o riacho;</l>
          <l>E o poeirento areal das compridas estradas...</l>
          <l>E a esmeralda da relva a florescer, por baixo</l>
          <l>Das cercas, que primor! Mas, nas almas caladas,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>De dois peitos que o amor unira, que tristeza!</l>
          <l>Na que partira, a luz da própria natureza</l>
          <l>Tinha uns laivos de dor e de desolamento...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E então, da que ficara ereta, a prumo, sobre</l>
          <l>A pedra do pontal, a voz lembrava um dobre</l>
          <l>De um sino no torreão sombrio de um convento...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Reencarnada</head>
        <lg>
          <l>Ainda me lembro bem da loura Rosalina,</l>
          <l>Que era, deste lugar, a linda flor agreste.</l>
          <l>Sua boca lembrava a romã purpurina,</l>
          <l>E os seus olhos o azul da abóbada celeste.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, a morte a levou. E a minha alegre sina</l>
          <l>Transfigurada foi em noite de cipreste.</l>
          <l>E vem dessa desgraça a dor que me amofina,</l>
          <l>E este luto de que minh’alma se reveste.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Hoje, no entanto, vejo entre gozos de amores,</l>
          <l>Outra boca, assim, e outros iguais fulgores</l>
          <l>De olhar... Mas que mistério encontro neste povo</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que tão crente me diz maravilhosas cousas!</l>
          <l>E passo a compreender que, da sombra das lousas,</l>
          <l>As almas podem vir para se unir de novo...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Recordar é viver</head>
        <lg>
          <l>Recordar é viver... E a mim se me parece</l>
          <l>Ver, através do tempo, esse rancho de pinho</l>
          <l>Onde, à sesta, eu dormia, o peito em desalinho.</l>
          <l>Depois de erguer ao céu os olhos e uma prece.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nada me despertava, embora, rude, houvesse</l>
          <l>O estridente clamor do mar em rodamoinho.</l>
          <l>Nem ouvia passar as águas do moinho,</l>
          <l>Pois eu dormia bem, como quem tudo esquece.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Eu dormia em teu colo, amor querido! Quantas,</l>
          <l>Quantas recordações! E à noite, às grandes mantas</l>
          <l>Das tainhas corria, agilmente a batê-las...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E ninguém mais do que eu agilmente as batia,</l>
          <l>Porque, em tudo, sempre, a minha alma te via,</l>
          <l>Sob o branco silêncio eterno das estrelas!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Trigo do luar</head>
        <lg>
          <l>Setembro. O céu esbate uns violáceos fulgores</l>
          <l>Através dos franjais das nuvens... Tons magoados,</l>
          <l>De ametista e berilo, estendem-se aos gramados,</l>
          <l>Onde os lindos ipês se engrinaldam de flores.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Fujo ao profundo anseio emocional das cores</l>
          <l>Do campo e desço, alegre, a passos apressados,</l>
          <l>Aos regaços da praia... (Ah! lugares sagrados!)</l>
          <l>Neles vejo Jesus junto aos seus pescadores.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E me atiro da areia aos cheirosos regaços,</l>
          <l>E aí descanso o peito aberto de cansaços...</l>
          <l>E quando a noite vem, eu passo, uma por uma,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A contemplar, saudoso, emocionado, as ondas</l>
          <l>Do largo mar, nas quais há também ricas mondas</l>
          <l>De alvo trigo do luar, sobre granjas de espuma.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Deixa...</head>
        <lg>
          <l>A gente sofre assim e vem depois a morte,</l>
          <l>E triste nos conduz no seu carro funéreo,</l>
          <l>Até o negro chão do augúrio cemitério,</l>
          <l>Onde em mágoas soluçam o vento sul e o norte.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A gente sofre assim, nessa medonha sorte</l>
          <l>Que este mundo amortalha em profundo mistério,</l>
          <l>Sob a fria mudez da curva azul do etéreo;</l>
          <l>E não há outro ser que mais ânsias suporte...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Antes, porém, que chegue a morte, ó minha amada,</l>
          <l>Deixa que eu sonhe e faça uns versos na abençoada</l>
          <l>Ermida do teu peito em flor, em cujo altar</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A tua alma recorda a estrela da alvorada</l>
          <l>Quando sobe, gloriosa, a montanha escarpada</l>
          <l>Daquele campo de onde a gente avista o mar.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Feliz encontro</head>
        <lg>
          <l>De onde vieste, assim medrosa, assim tremendo,</l>
          <l>Duvidando talvez do amor que em mim se inflama?</l>
          <l>No entanto, vou nos teus negros olhos revendo</l>
          <l>A ventura de quem há tantos anos ama.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Sou um grande faquir; vivo em teus olhos lendo...</l>
          <l>Sinto nas tuas mãos a tua vida em chama.</l>
          <l>Olha, vieste do Além; vieste aflita, descendo,</l>
          <l>Pois o teu corpo fora, em outros tempos, lama...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Fazes parte da eterna e sublime falange</l>
          <l>Dos seres imortais, que o céu sereno abrange.</l>
          <l>Percorreste, comigo, outrora essas alturas...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Por isso é que, de novo, aqui nos encontramos,</l>
          <l>Sem sabermos, talvez, o quanto nos beijamos</l>
          <l>Sob as asas do amor ou de negras torturas!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Garça branca</head>
        <lg>
          <l>Foi mesmo aqui. E o mar, como neste momento,</l>
          <l>Lembrava a quietação esplêndida de um lago,</l>
          <l>Sem um leve queixume, um suspiro, um lamento,</l>
          <l>Manso como se fosse o coração de um mago.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Maio chegara. O céu era um florescimento!</l>
          <l>Que rosais de cristal na estrada de Santiago!</l>
          <l>Que divino luar e que deslumbramento!</l>
          <l>Que lembranças de amor eu dessa noite trago!...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nós dois, eu e mais tu, pela praia sozinhos...</l>
          <l>Nisso uma garça branca abre o voo de arminhos,</l>
          <l>E atravessa do luar a fluídica escumilha.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Estremece-te o peito e o meu peito estremece...</l>
          <l>— Maria, nesse azul que, em maio, assim floresce,</l>
          <l>Será garça também a alma de nossa filha?</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Tempestade</head>
        <lg>
          <l>Cobriram-se de crepe as montanhas distantes...</l>
          <l>É o pampeiro que chega, em céleres rajadas...</l>
          <l>Todas as velas são por ele arrebatadas,</l>
          <l>E há, pela praia afora, almas febricitantes.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>As nuvens colossais, com riscos ondulantes</l>
          <l>De brasa viva, são rudemente abaladas...</l>
          <l>Correm, pelo ar sombrio, as aves, assustadas;</l>
          <l aoidos:meter="ignore">Uivam nas praias os cães e mugem bois, errantes...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Um momento depois, para as bandas de leste,</l>
          <l>De uma faixa escarlate o alto céu se reveste;</l>
          <l>E largas franjas de ouro erram pelos penhascos...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Faz-se um belo clarão... Mas o medo é dobrado:</l>
          <l>Vai pelo mar convulso um lanchão, naufragado,</l>
          <l>E outros mostram, na praia, o contorno dos cascos.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>O relógio da mágoa</head>
        <lg>
          <l>Graças ao céu! Voltei a nossa velha casa,</l>
          <l>Que é o ninho encantador dos nossos lindos filhos!</l>
          <l>Maria, andei com frio e hoje o calor me abrasa;</l>
          <l>Pelas trevas andei e hoje só vejo brilhos...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Sinto o calor que vem do seio dessa casa;</l>
          <l>E os brilhos que ora vejo, esses vieram dos trilhos</l>
          <l>Da mais robusta fé que as dúvidas arrasa,</l>
          <l>E das dúvidas quebra os mais fortes cadilhos!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E essa que ora me abraça, a velha Catarina,</l>
          <l>Foi quem pôde contar, ao certo, a minha sina,</l>
          <l>Quando me disse que eu bem cedo voltaria.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E voltei, lindo amor, porque de onde eu me achava,</l>
          <l>Todo o meu coração tristemente escutava</l>
          <l>O relógio da mágoa a bater, noite e dia!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Desobediente</head>
        <lg>
          <l>“Filho, não partas, olha o verde Cambirela.</l>
          <l>Cinge-o urna faixa branca, o sinal dos pampeiros”.</l>
          <l>Mas o rapaz partiu, numa canoa, à vela,</l>
          <l>Por se julgar o mais astuto dos tanoeiros.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E uns momentos depois, toda a vasta aquarela</l>
          <l>De recortes do mar, de pedras e salgueiros,</l>
          <l>Com leves tons azuis numa tinta amarela,</l>
          <l>Era riscada a fogo e cheia de aguaceiros!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E junto dos Guarás, lá se foi a canoa</l>
          <l>Por água abaixo e quilha à mostra, ao léu, à toa:</l>
          <l>E lá se foi, na morte, o rapaz resoluto.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E agora, nesta praia em curva, em pleno maio,</l>
          <l>Sob esta tempestade, ao flamejar do raio,</l>
          <l>Eis outro coração de mãe também de luto!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Na vida e na morte</head>
        <lg>
          <l>Quem recorda é feliz, principalmente quando</l>
          <l>Recorda o amor, recorda o sonho e a mocidade,</l>
          <l>E vê tudo voltar, vê de novo voltando</l>
          <l>Tudo isso, em plena luz, em plena claridade!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E eu me recordo bem de tudo... Na verdade,</l>
          <l>Nessa recordação pareço estar olhando</l>
          <l>A praia branca, o campo verde e a liberdade</l>
          <l>Dos nossos corações que viviam se amando...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E recordo, Valésia, o teu primeiro beijo,</l>
          <l>O teu primeiro abraço; e o primeiro desejo</l>
          <l>De seres minha só, nos enlaces da sorte...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E veio desse alegre e bendito momento,</l>
          <l>De todos o maior e firme juramento,</l>
          <l>Que nos prende na vida e até na própria morte.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>No alto</head>
        <lg>
          <l>Cheguei. Eis-me num astro. E vim para matar</l>
          <l>Essa saudade, mãe, que em minh’alma deixaste!</l>
          <l>Todo o meu coração, do dia em que voaste,</l>
          <l>Guarda ainda o teu brando e soluçante olhar.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Cheguei. Como é sublime e claro este lugar</l>
          <l>Que, entre festivos sóis, para sempre, buscaste!</l>
          <l>Tiveste, enfim, da Fé o céu que procuraste.</l>
          <l>Pudeste, enfim, de Deus no manto repousar.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>De onde estou vejo a Terra. É uma pequena bola.</l>
          <l>Um inseto talvez numa tulipa... E rola...</l>
          <l>Lembra urna gota d’água. E pequenina, assim.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E a Terra me parece uma lágrima triste,</l>
          <l>Solta no espaço, igual a que em minh’alma existe,</l>
          <l>Para rolar também nesse espaço sem fim!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Visão da saudade</head>
        <lg>
          <l>Noivos. Que lindo par, por todos invejado!</l>
          <l>Ela, de cor trigueira, ele da mesma cor...</l>
          <l>O olhar de Hortência tinha um resplendor sagrado,</l>
          <l>E o de Paulo possuía um igual resplendor...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E se casaram sob um céu imaculado</l>
          <l>Como o cálice de uma encantadora flor!</l>
          <l>Houve uma grande festa em todo o povoado:</l>
          <l>Cantigas à porfia e lembranças de amor.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, à noite, na enseada, à luz clara dos astros,</l>
          <l>Dos barcos a floresta ondulante dos mastros</l>
          <l>Enchera-se, também, dessa imensa alegria...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, uns dias depois, (ó triste realidade!)</l>
          <l>Hortência era, na praia, a visão da saudade!</l>
          <l>O corpo do rapaz em que praia estaria?</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>O amor</head>
        <lg>
          <l>Tua casa recorda um ninho, numa estrada</l>
          <l>Que o sol doira, através das árvores frondosas</l>
          <l>Chilreia no beiral da telha a passarada,</l>
          <l>E lhe sobe à varanda o perfume das rosas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E a tua esposa casta, alma divinizada,</l>
          <l>Ao surgir das manhãs, com orações piedosas,</l>
          <l>Abençoa-te a vida aflita e trabalhada</l>
          <l>No mar, ao sol, à chuva e em noites tormentosas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Essa casa possui o encanto da beleza...</l>
          <l>Rescendem seus lençóis à canela, e, na mesa.</l>
          <l>Há sempre trigo louro e lenha no fogão.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Limpidamente, a vida, assim, se purifica.</l>
          <l>E, para enriquecê-la, o amor cantando fica</l>
          <l>Junto de cada sonho e cada coração.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>A minha alma</head>
        <lg>
          <l>O céu tomara a cor magoada das violetas...</l>
          <l>Era de tarde. A luz do sol, entre as folhagens</l>
          <l>Das árvores tremia... Em bando, as borboletas</l>
          <l>Punham na água do rio esplêndidas miragens.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E o mar tranquilo estava, abrindo-se em palhetas</l>
          <l>De esmeraldas e prata, ao pincel das aragens.</l>
          <l>Tinham todo o rumor de alegres pandeiretas</l>
          <l>As gaivotas pelo ar, prontas para as viagens.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A praia parecia uma lua em minguante,</l>
          <l>Enorme, colossal, de ponta a ponta. Adiante,</l>
          <l>Sobre as telhas de um rancho, um canário cantava.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E Maria me disse, à porta, sorridente:</l>
          <l>— Vinhas tão longe ainda e eu te cuidava rente...</l>
          <l>A tua alma a cantar perto de mim se achava!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Gente amiga</head>
        <lg>
          <l>José não vinha a casa há muito tempo. Agora,</l>
          <l>Abraça a meiga esposa e os filhos. Os vizinhos,</l>
          <l>Para vê-lo chegar, desde o raiar da aurora,</l>
          <l>Cruzavam toda a praia e os extensos caminhos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quadra em que o pescador, venturoso, melhora</l>
          <l>De mesa, quando o mar é coberto dos linhos</l>
          <l>Das neblinas sutis, que se vão mar afora,</l>
          <l>Tocadas do terral de inefáveis carinhos...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, quando veio a noite, em chamalotes de ouro,</l>
          <l>Santo Antônio de Pádua e o seu Menino Louro,</l>
          <l>Pareciam sorrir, num quadro, na parede,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Como toda essa gente amiga, sempre a mesma,</l>
          <l>Sorria ao recordar a pesca na quaresma,</l>
          <l>Que é a que mais produz nas braçadas da rede...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Seguro na fé</head>
        <lg>
          <l>Que temporal! O céu, ainda há pouco tão lindo</l>
          <l>Como um lírio, tornou-se, agora, num momento,</l>
          <l>Da tristíssima cor pesada do cimento,</l>
          <l>E parece que vai por sobre o mar caindo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Aves voam em tropel, asas bruscas abrindo,</l>
          <l>A grasnar loucamente. E as rajadas do vento</l>
          <l>Arrastam, de roldão, num soluço agourento,</l>
          <l>Toda a massa do mar, que se enrosca, bramindo...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>No entanto, uma canoa aparece no escuro,</l>
          <l>Vela rinzada ao meio, e à popa traz, seguro</l>
          <l>Na fé que transfigura o próprio vento e o mar,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quem, nesta tarde, quando o céu surgir lavado,</l>
          <l>Na capela estará num festivo noivado,</l>
          <l>Com Teresa que é a flor mais linda do lugar.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>A mais bonita</head>
        <lg>
          <l>Noite de Santo Antônio. Ao redor da fogueira</l>
          <l>Que se alastra no chão, em meio do terraço,</l>
          <l>As netas da Merença andam de braço em braço.</l>
          <l>Cada qual mais feliz e mais alviçareira.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Rosa dá tentações! Na sua cor trigueira</l>
          <l>A gente vê um jambo ardendo no mormaço.</l>
          <l>Faz o pobre do Henrique estourar de cansaço,</l>
          <l>Pois caminhou, só para vê-la, a tarde inteira.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E Amélia, para o Chico, é prenda sedutora:</l>
          <l>Um sol primaveril a epiderme lhe doura:</l>
          <l>E a sua boca é a flor-da-chaga, no verão.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, para mim, das três, Vicência é a mais bonita!</l>
          <l>Quanta graça possui, de vestido de chita,</l>
          <l>E cabelos da cor da casca do pinhão!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>A louca do Itajaí</head>
        <lg>
          <l>Quando o Pedro partiu para os mares do norte,</l>
          <l>Já toda a gente via uma grande desdita...</l>
          <l>Lamentava-se, então, profundamente, a sorte</l>
          <l>Da mulher do barqueiro... e que mulher bonita!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Talvez sua alma tanta angústia não suporte!</l>
          <l>Pois a separação sempre nos precipita</l>
          <l>Numa saudade amarga, igual a que na morte</l>
          <l>Tanto nos acabrunha e tanto nos agita”.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E partiu o rapaz, depois de alguns abraços</l>
          <l>E alguns beijos de fogo, e promessas de laços</l>
          <l>De fitas a Jesus, se bem cedo voltasse...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas não voltou. Porém a mulher o procura,</l>
          <l>Quer brilhe a pino o sol, quer caia a noite escura,</l>
          <l>E lhe são um rosário as lágrimas na face.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Olhos castanhos</head>
        <lg>
          <l>Para ter sobre a mesa uma branca toalha</l>
          <l>De linho e fresco pão, que é necessário à vida,</l>
          <l>Cedo, à hora em que o céu, serenamente, orvalha</l>
          <l>O campo, eu começava a dolorosa lida...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nesta terra ninguém, que, entre espinhos, trabalha,</l>
          <l>Sentirá, ao correr uma estrada comprida,</l>
          <l>Onde a desolação, tristíssima, se espalha,</l>
          <l>O que eu, então, senti na estrada indefinida.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, ó trabalho rude, ao pé das penedias!</l>
          <l>Ó calor de abrasar! E vós, chuvas doentias!</l>
          <l>E vós, noites de inverno, em céus negros, estranhos!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Não mais éreis senão umas cousas de nada</l>
          <l>Para quem tinha toda a alma iluminada</l>
          <l>Pela bendita luz de dois olhos castanhos!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Recordando o passado</head>
        <lg>
          <l>Recordando o passado, eu creio que revejo</l>
          <l>A nossa moradia, à beira de um riacho</l>
          <l>Que ainda corre sereno e límpido por baixo</l>
          <l>De ramadas em flor, das brisas ao bafejo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Abro as portas ao mar e ao belo e benfazejo</l>
          <l>Campo cheio de sol... Pego depois o sacho...</l>
          <l>E, à noite, vou à pesca, à luz tíbia de um facho;</l>
          <l>E, no engenho, no morro, às vezes furto um beijo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Recordando, ainda sinto em teu lindo pescoço</l>
          <l>O saudoso frescor das ondas do mar-grosso;</l>
          <l>E em teus seios em flor o perfume dos lírios...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E parece que escuto os delicados trenos</l>
          <l>Da tua boca, e vejo os teus olhos serenos</l>
          <l>Concentrados nos meus tristíssimos martírios.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Ilhas do sonho</head>
        <lg>
          <l>De pé sobre o paneiro, alma franca e contente,</l>
          <l>Cabelo solto ao vento, ei-lo a caminho da Ilha.</l>
          <l>Desce, feérica, a luz do sol no grande poente.</l>
          <l>E, sob o vento sul, o mar treme e fervilha.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E a leve embarcação, por sobre o mar, tremente,</l>
          <l>Mostra de vaga em vaga, o largo bojo e a quilha.</l>
          <l>“Não devemos temer”. É o que diz toda a gente</l>
          <l>Em cujo peito a fé junto à esperança brilha...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O Armando nunca teve arrepios de medo.</l>
          <l>O valente rapaz bem parece um rochedo</l>
          <l>Batido pelo mar... porém muito mais forte.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Assim pudesses tu, meu coração tristonho,</l>
          <l>Francamente correr rumo às ilhas do sonho,</l>
          <l>Quer nos mares da vida ou nos mares da morte!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Tiranas do amor</head>
        <lg>
          <l>Quem sonha dessa forma, olhos semi-cerrados</l>
          <l>Como as ogivas de um castelo à beira-mar,</l>
          <l>Certamente revive os seus dias passados,</l>
          <l>E deixa-os docemente entre gozos passar...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E tu sonhas, assim... Passam por ti doirados</l>
          <l>Dias de sol faiscante e noites de luar;</l>
          <l>E os mares, em bonança ou então convulsionados.</l>
          <l>Todos eles te dão um contínuo sonhar...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, o sonho melhor é esse que ora a tua</l>
          <l>Alma antiga revive à luz meiga da lua,</l>
          <l>Recordada de que, ó velho pescador.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Camarada fiel, rotineiro das ondas,</l>
          <l>Muitas vezes cantaste, em vigílias e rondas,</l>
          <l>Nesse teu violão, as “Tiranas do Amor!”</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Almas entrelaçadas</head>
        <lg>
          <l>Quando, na primavera, os laranjais floriam,</l>
          <l>E ouvia-se o rumor dos ninhos nas estradas,</l>
          <l>Os pássaros joviais, cantando, apareciam,</l>
          <l>Se nos viam, na praia, almas entrelaçadas!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E os pássaros, dos teus olhos bem me diziam</l>
          <l>Palavra de mistério... E nas asas iriadas</l>
          <l>Da tua alma gentil, estes meus olhos viam</l>
          <l>O esplendor das manhãs e das tardes doiradas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quem, volvendo ao passado, à virgem mocidade,</l>
          <l>Não terá, como eu tenho, uma grande saudade</l>
          <l>Pela vida de dois corações tão felizes?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E és tu que, embora morta, andas seguidamente</l>
          <l>Desse tempo a rever a quadra florescente,</l>
          <l>E do trigal do amor a regar as raízes...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>A avozinha</head>
        <lg>
          <l>A avozinha lá vai pela Praia do Meio,</l>
          <l>Sacudindo a cabeça e as ancas sacudindo.</l>
          <l>E sacode, por certo, o coração num seio</l>
          <l>Ainda muito feliz, ainda em flores se abrindo...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Não receia do corpo o brusco bamboleio,</l>
          <l>Vá, embora, de quando em vez ao chão caindo.</l>
          <l>É que a domina um nobre e vigoroso anseio,</l>
          <l>Apesar da cabeça em neve, reluzindo...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E quando chega a casa e a um canto o xale arruma,</l>
          <l>Numa satisfação que a encanta, comovida,</l>
          <l>(E nem outra talvez maior glória resuma)</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A avozinha depara, alegre e enternecida,</l>
          <l>Com dois netos a rir, ambos à espera duma</l>
          <l>Bênção de amor, bênção feliz, bênção de vida!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>De onde ele me fala</head>
        <lg>
          <l>“Queres subir e ver de perto os mundos de ouro</l>
          <l>Principalmente aquele em que me vejo? Queres?</l>
          <l>Medita então num belo e rápido pelouro</l>
          <l>Que rompesse do espaço infindos rosicleres...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ou medita também num rútilo besouro</l>
          <l>Que, depois de voar por sobre malmequeres,</l>
          <l>Pousasse neste imenso e claro campo louro,</l>
          <l>Presidido por Flora e pela própria Ceres.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>De longe, para ti, o mundo onde me vejo,</l>
          <l>Bem parece esse inseto, ou, talvez, um lampejo</l>
          <l>Quase extinto, a rolar nas profundas distâncias...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Entretanto, é o meu lar, entre os mundos diversos,</l>
          <l>Este para o qual vim na harmonia dos versos,</l>
          <l>E nas asas febris dos pássaros das ânsias”.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>A flor das águas</head>
        <lg>
          <l>Noite de junho. O gelo é vidro em pó, roçando</l>
          <l>As mãos e os pés dos que, distendidos na areia,</l>
          <l>Tranquilamente estão o café esperando,</l>
          <l>E esperando a tainha assada para a ceia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Outros, de uma canoa as velas vão soltando,</l>
          <l>Sem perda de um momento, à luz da lua cheia,</l>
          <l>Que tão aziaga está... E as ondas vão rolando...</l>
          <l>E cada pescador, nessa labuta, anseia...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Correm todos ao mar, satisfeitos, felizes,</l>
          <l>Sem nutrirem do mal as trágicas raízes,</l>
          <l>Apenas da saudade envolvidos nas mágoas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E que funda saudade, a dessas almas francas,</l>
          <l>Sob as velas em cruz, as grandes velas brancas,</l>
          <l>Da canoa que lembra uma ave à flor das águas...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>A estátua da mágoa</head>
        <lg>
          <l>Era a Estátua da Mágoa essa linda criatura,</l>
          <l>Transfigurada assim numa dor eternal,</l>
          <l>Do rochedo fitava a infinita planura</l>
          <l>Do mar que se estendia em flores de rosal.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Aninhando no peito a triste noite escura</l>
          <l>De uma notícia atroz, para sempre fatal,</l>
          <l>Continuava Leonor na mesma compostura,</l>
          <l>Como se a inanimasse a atra sombra do mal.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nutria n’alma aflita assíduo pensamento:</l>
          <l>“Há de acalmar o mar... há de acalmar o vento...</l>
          <l>O meu filho é o melhor tanoeiro do lugar.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas o filho não veio. As ondas o tragaram.</l>
          <l>Ai! quantos corações junto ao dela choraram!</l>
          <l>Só não chorou o vento e não chorou o mar!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>As feiticeiras</head>
        <lg>
          <l>Relevos de luar através das ramagens</l>
          <l>Das árvores que a noite enchia de perfumes.</l>
          <l>Nas lagoas azuis, que límpidas miragens,</l>
          <l>Na planície do mar, que pequeninos lumes!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Sombras de muita gente: as linhas das paisagens;</l>
          <l>Estrelas sobre a terra: os ágeis vagalumes:</l>
          <l>E as nuvens colossais: alígeras imagens</l>
          <l>De elefantes descendo os alterosos cumes...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E nessa confusão de cousas assombrosas,</l>
          <l>O vento galopava, em sanhas voluptuosas,</l>
          <l>Através dos matais, dos campos, das videiras...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nessa noite também, meu cavalo murzelo</l>
          <l>Levava na garupa, a galopar, em pelo,</l>
          <l>E a lhe trançar a crina, um rol de feiticeiras!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Noivado</head>
        <lg>
          <l>Maio chegou florido. Há perfumes e cantos.</l>
          <l>E, logo à noite, irás, comigo, ó minha amada,</l>
          <l>A novena praieira. Oraremos aos santos,</l>
          <l>E à Virgem levarás urna vela enfeitada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Havemos de pedir forças contra os quebrantos,</l>
          <l>Pois nossa vida está bastante quebrantada,</l>
          <l>Quanta inveja de nós! Andas cheia de prantos,</l>
          <l>E eu corro da amargura a tenebrosa estrada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, a Virgem Maria, em maio, é sempre o amparo</l>
          <l>Dos aflitos. Por isso a nossa vida, é claro,</l>
          <l>Terá das suas mãos, tão puras e piedosas,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Todo o amparo do amor, que aos aflitos é dado.</l>
          <l>Então, no mês de maio, há de nosso noivado</l>
          <l>Realizar-se aqui, junto ao mar, entre rosas.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Ao pôr do sol</head>
        <lg>
          <l>Longe um barco aparece, entre neblinas frias</l>
          <l>De um pôr de sol de junho. E o mar recorda um rio,</l>
          <l>De tão calmo que está. Nas praias alvadias</l>
          <l>Corre um doce, um suave, um leve murmúrio.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Há fluidos de cristais por sobre as penedias...</l>
          <l>O céu, quase sem luz, se arqueia ermo e sombrio,</l>
          <l>Aves cruzam no espaço, ariscas, erradias...</l>
          <l>E o vento vem chegando em brando rodopio.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Vento, vinde trazer-me o barco mais depressa”</l>
          <l>Diz Valésia na praia. E, célere, atravessa</l>
          <l>Os cômoros, gritando, ardente de ansiedade.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E eu, que vinha chegando, em pé, no tombadilho,</l>
          <l>Pude ver que não há faróis com tanto brilho</l>
          <l>Como os olhos de quem espera com saudade.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Heroísmo</head>
        <lg>
          <l>O rude arpoador de golfins e baleias</l>
          <l>Não queria que a filha amada se casasse,</l>
          <l>Tão moça, ela lhe dava o encanto das sereias,</l>
          <l>E outra, talvez, ao seu teto jamais baixasse.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>No entanto, a rapariga, embalada nas teias</l>
          <l>Do sonho, amava a Paulo, embora o pai buscasse</l>
          <l>Dissuadi-la do amor que lhe é sangue nas veias,</l>
          <l>E nem quisesse ouvir quem no rapaz falasse.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Certa tarde, porém, vejo-os numa canoa,</l>
          <l>Ao léu de um temporal, sobre as vagas, à toa...</l>
          <l>E caíram do mar nos piores perigos...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nada o austero arpoador, para salvar a filha...</l>
          <l>Mas o Paulo, que os vê, rompe as águas da Ilha,</l>
          <l>E os leva à praia branca em seus braços amigos.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Penitência</head>
        <lg>
          <l>Há sempre, em derredor de um túmulo fechado,</l>
          <l>Mistérios e visões e lendas... Na verdade,</l>
          <l>Todo o povo da vila anda, agora, assombrado</l>
          <l>Pelo que vê da lua em plena claridade.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Uma sombra aparece, à luz do luar velado,</l>
          <l>Muito branca e sutil, na branda suavidade</l>
          <l>Dos cômoros que são, nesse imenso esplanado,</l>
          <l>Mortalhas de ilusão nas ânsias da saudade.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas lembrei-me de ti, ó meiga flor celeste,</l>
          <l>Que, nesta vida atroz, tanto me prometeste</l>
          <l>Seres minha... só minha... e jamais de ninguém!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, como não cumpriste o juramento feito,</l>
          <l>Por isso é que o teu vulto anda, assim, desse jeito,</l>
          <l>E a tua alma infeliz tal penitência tem!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Rivais</head>
        <lg>
          <l>— Meus abraços, Miguel, e meus abraços, Rita,</l>
          <l>Mil parabéns aos dois que acabam de casar,</l>
          <l>E como a tarde está lindíssima, bonita,</l>
          <l>Por esse campo afora e pelo verde mar!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— A tua alma, rapaz, anseia toda aflita!</l>
          <l>(Di-lo a viva expressão do teu ardente olhar).</l>
          <l>E a de tua mulher é alegre como a fita</l>
          <l>Deixada, há pouco, ali, na toalha do altar...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nunca vimos por esta praia um casamento</l>
          <l>Mais cheio de esplendor e de florescimento!</l>
          <l>Tudo parece rir na praia branca e calma...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Até mesmo o Tomás desce o largo caminho,</l>
          <l>Certo para abafar, nos copos de um bom vinho,</l>
          <l>O ciúme fatal que lhe devora a alma.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Enfermeira</head>
        <lg>
          <l>Só tu (e mais ninguém) sabes do que padeço;</l>
          <l>Sabes de que se veste a minha vida inteira.</l>
          <l>No meu leito de dor és a eterna enfermeira</l>
          <l>E o manto que me cobre, o teu cabelo espesso.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quando de febre intensa, escaldante, adoeço,</l>
          <l>Vejo-te sempre e sempre à minha cabeceira.</l>
          <l>E me dás leite e mel, fervidos em chaleira;</l>
          <l>E sob as tuas mãos, docemente, adormeço...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Acordado que esteja, eu te vejo assentada</l>
          <l>Ao lado do meu leito, ou te vejo ajoelhada,</l>
          <l>A olhar Nossa Senhora, em seu nicho, num canto...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, se melhoro, então, vamos os dois à praia,</l>
          <l>Bem cedo, de manhã, ou quando o sol desmaia...</l>
          <l>E toda a gente diz: — “Como se querem tanto.”</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Na hora extrema</head>
        <lg>
          <l>Ó minha Amada! Ó minha Luz! Ó meu Abrigo!</l>
          <l>Amada do meu peito e luz dos meus carinhos,</l>
          <l>Por esta praia em jaspe e por esses caminhos,</l>
          <l>Tu me dás água fresca e punhados de trigo!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Se me vejo feliz, é que tudo consigo</l>
          <l>Do teu piedoso olhar mais doce do que os vinhos!</l>
          <l>E dessas lindas mãos de veludos e arminhos,</l>
          <l>E desse seio morno e eternamente amigo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Coração, fez-se o teu para me dar socorro;</l>
          <l>Alma, a tua parece um belíssimo jorro</l>
          <l>De luz miraculosa... E os teus formosos dedos,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Esses serão, Maria, os sacrossantos selos</l>
          <l>Dos meus olhos, na morte, ao pé dos teus desvelos,</l>
          <l>Na hora em que eu te contar meus últimos segredos!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Ondas afora</head>
        <lg>
          <l>Alma triste, através de um nevoeiro denso,</l>
          <l>O meu avô paterno olha o horizonte infindo,</l>
          <l>E fica a meditar... Leva aos olhos um lenço,</l>
          <l>Que nos recorda uma asa alvíssima se abrindo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>É que lembra, por certo, o seu país tão lindo,</l>
          <l>Onde uma infância em flor, cheia de aroma intenso,</l>
          <l>Ele tanto fruiu, como hoje está fruindo</l>
          <l>Dessa recordação todo o fulgor imenso.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Perpassam-lhe, através dos olhares insontes,</l>
          <l>As vinhas e os trigais, as campinas e as fontes,</l>
          <l>E, à sombra do Mondego, o seu belo casal...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Pudesse ele voar e voaria nesta hora,</l>
          <l>Pelo oceano afora, ondas verdes afora,</l>
          <l>Por essas ondas que vão ter a Portugal!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Comparando</head>
        <lg>
          <l>Bem velhinho que estás e ainda trabalhas tanto,</l>
          <l>Com a rede pesada, às costas, noite e dia.</l>
          <l>Mas, às vezes, recorda a tua rede um manto</l>
          <l>De ouro, onde a vaga azul deixou sua ardentia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que riquezas no mar! Mas és pobre, entretanto!</l>
          <l>Tens o peito cansado, e nenhuma alegria</l>
          <l>Pela tua alma voa! E ali, naquele canto,</l>
          <l>A tua casa lembra uma velha enxovia...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tenho pena de ti, meu querido velhinho.</l>
          <l>E quando vais descendo esse austero caminho,</l>
          <l>E entras do largo mar na formidável lida,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Fico logo a cismar que bem igual a tua</l>
          <l>Pesadíssima rede é a minha cruz, na rua</l>
          <l>Dolorosa e sem fim das misérias da vida.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>A esperança</head>
        <lg>
          <l>Tarde. Vento geral. De velas enfunadas,</l>
          <l>O brigue Santa Rosa abre no chão das vagas</l>
          <l>Longos sulcos azuis, de onde brotam nevadas</l>
          <l>Rosas brancas, de espuma, a resplender nas fragas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Por semanas a fio, as céleres rajadas</l>
          <l>Do sul hão de levá-lo a sonhadoras plagas,</l>
          <l>Sob dias de sol e noites estreladas,</l>
          <l>Sem as ânsias cruéis das horas aziagas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, quem vai para o mar, quem da praia se afasta,</l>
          <l>Embora peito afoito, um sentimento arrasta:</l>
          <l>Leva no coração uns gritos de ansiedade...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E os que ficam na praia? Os que na praia ficam</l>
          <l>Choram... Mas, afinal, na dor se purificam...</l>
          <l>É que a esperança mora onde mora a saudade.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Saudoso</head>
        <lg>
          <l>Tremendo como o vime às rajadas do vento,</l>
          <l>Pois contava, talvez, uns oitenta janeiros,</l>
          <l>O Tomás da Rib’Alta acolhe ao pensamento</l>
          <l>As viagens nos seus palhabotes veleiros.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que amargura, porém, o punge no momento!</l>
          <l>A sombra larga e fria e triste dos olmeiros</l>
          <l>O Tomás da Rib’Alta escuta ainda o lamento</l>
          <l>De uma bela mulher, na Praia dos Coqueiros.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E quanto tempo faz! Entretanto, saudoso,</l>
          <l>Recorda-se do doce e belo olhar piedoso</l>
          <l>Dessa que tanto o amara, em profundos cuidados,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas solteira morrera, entre as quatro paredes</l>
          <l>De um rancho junto ao mar, onde fazia redes,</l>
          <l>Como se fossem véus para alegres noivados...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Outubro</head>
        <lg>
          <l>Mês de outubro. Essa luz é de fornalha em brasas.</l>
          <l>Alucina, estonteia, embriaga, adormece...</l>
          <l>Mesmo sob o arvoredo, o telhado das casas,</l>
          <l>À sua irradiação, cada vez mais se aquece.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Escondidas embora, as pequeninas asas</l>
          <l>Tremem continuamente. O calor entorpece.</l>
          <l>E, nas roças, no morro e nas campinas rasas</l>
          <l>Triste da seara em flor, triste da verde messe!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E enquanto esse cristal de luz assim fulgura,</l>
          <l>O gado desce à praia, a água do mar procura,</l>
          <l>Como se ali houvesse o seu melhor abrigo...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E busca ver no sol, que se retrata à tona,</l>
          <l>Uma pedra a rolar, igual a da atafona,</l>
          <l>Que à noite lhe dará louras palhas de trigo.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>A dor</head>
        <lg>
          <l>Tão doente que estás, ó minha ovelha casta!</l>
          <l>E é por isso que os meus olhos, seguidamente,</l>
          <l>Vivem roxos de mágoa, em cujo mar se arrasta</l>
          <l>Todo o meu coração tão triste e descontente!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E a causa desse mal que o teu corpo devasta</l>
          <l>Dizei-me, lindo abril! E vós, água corrente!</l>
          <l>E vós, marés de lua! Ah! mas isto não basta:</l>
          <l>Pergunto a mim também porque vives doente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ah! como tenho na alma um grande sofrimento,</l>
          <l>Mais rugidor até que um temporal violento</l>
          <l>Que passasse a varrer meu sonho multicor!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, estático fico, ante a idéia sublime</l>
          <l>De que na dor tua alma humilde se redime...</l>
          <l>Entretanto eu quisera, ó filha, a tua dor!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>A lua</head>
        <lg>
          <l>A lua será mesmo um sacrário adorado,</l>
          <l>Com portas de marfim, cheio de álacres festas</l>
          <l>Da Eucaristia, para as almas sãs, modestas,</l>
          <l>Para as que rezam sob o Pálio Constelado?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E essas almas irão, num desejo inflamado</l>
          <l>Como águias imortais a essas plagas, que arestas</l>
          <l>De luz banham, num Céu transformado em florestas,</l>
          <l>Onde em Jordãos de Amor, o sonho é batizado?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quantas vezes, porém, a branca lua assiste</l>
          <l>Indiferentemente à tragédia mais triste,</l>
          <l>Cobrindo de desdém as almas torturadas!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Sobre as ondas do mar evoquei-a, chorando...</l>
          <l>E, nessa noite, a lua era um barco viajando,</l>
          <l>Transbordante o porão de trágicas ossadas...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Ciumenta</head>
        <lg>
          <l>Que mais desejas, flor de que vive aquela alma,</l>
          <l>Se, pela tua porta, a luz entra, a cantar,</l>
          <l>Quando a rósea manhã se estende, doce e calma,</l>
          <l>Como um manto piedoso e vai da serra ao mar?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que mais desejas, flor da mais virente palma,</l>
          <l>Se, em teus alvos lençóis, como feitos de luar,</l>
          <l>O perfume do trevo e do cravo se espalma,</l>
          <l>E parece o teu corpo esvelto esculturar?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que mais desejas, flor, ó lírio azul dos vales!</l>
          <l>Se não sofres da vida os aflitivos males,</l>
          <l>Antes ouves dessa alma a dúlcida linguagem?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Deixa que o palhabote enfune as velas brancas,</l>
          <l>E vá por esse mar de alegres vagas francas,</l>
          <l>E o comande quem leva ao peito a tua imagem...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Ao velho engenho</head>
        <lg>
          <l>Sabes de onde te escrevo este simples soneto?</l>
          <l>Escrevo-te do mesmo engenho, onde Maria,</l>
          <l>Pela primeira vez, sentiu todo o seu peito</l>
          <l>Nos afagos da mais espontânea alegria.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nas eiras, lá por fora, era um cristal desfeito</l>
          <l>O claríssimo luar. E a neve que caía,</l>
          <l>Recordava a cortina alvíssima de um leito,</l>
          <l>No laranjal em flor. E que frio fazia!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Deves, pois, te lembrar desse engenho, por certo:</l>
          <l>Na farinhada, em junho, era um céu todo aberto</l>
          <l>Nos encantos da paz que a tudo estende um brilho.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Moços vinham dançar, após o árduo trabalho;</l>
          <l>E, no forno de cobre, ao calor do borralho,</l>
          <l>Faziam ternamente uns lenços de polvilho.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>No tear dos sonhos</head>
        <lg>
          <l>O largo ocaso é todo umas rosas vermelhas</l>
          <l>Desfolhadas na serra... E lá, ao longe, o rio</l>
          <l>Recorda uma serpente enorme, junto às velhas</l>
          <l>Casas da freguesia. Arfa por tudo o estio.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tremem, como do mar as ondas, as ovelhas</l>
          <l>Em rebanhos, no campo. O sol de ouro, erradio,</l>
          <l>Brilha nos laranjais. Pelo ar, quantas abelhas!</l>
          <l>E a cigarra parece a luz em murmúrio...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, o que mais me encanta, entre tudo, querida,</l>
          <l>É a casa toda branca, alegre e florescida,</l>
          <l>Banhada do clarão dos teus olhos risonhos,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Onde teces, ó minha antiga tecedeira,</l>
          <l>Véus de esperança para a nossa vida inteira,</l>
          <l>No bendito tear dos teus e dos meus sonhos.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Jardim de rosas</head>
        <lg>
          <l>Atento, contemplei este jardim de rosas!</l>
          <l>Mas, antes de morrer quem o plantou, não era</l>
          <l>Ele tão belo assim! Nem mesmo a primavera</l>
          <l>Lhe dava tanto orvalho em gotas luminosas!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E quem o plantaria? As mãos brancas, mimosas</l>
          <l>De Hortência? As mãos de Antônia? A engraçada Valésia?</l>
          <l>A encantadora Júlia? A Florença, que à espera</l>
          <l>Do noivo sempre andou, nas praias silenciosas!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quem o plantou morreu por uma tarde casta,</l>
          <l>Como um lírio que, em seu perfume, a gente arrasta,</l>
          <l>Arrasta um coração por mais emparedado...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, se tão belo está, este jardim, agora,</l>
          <l>Rega-o a linda Florença, entre os clarões da aurora,</l>
          <l>Porque foi quem morreu no dia do noivado...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Superstição</head>
        <lg>
          <l>Fria noite de agosto, envolta no sudário</l>
          <l>Melancólico de uma enregelante lua.</l>
          <l>E porque não te vais deitar, se extenua</l>
          <l>Teu peito, e meia noite ecoa o campanário!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Neste rancho de palha, a um canto, solitário,</l>
          <l>Nossa Senhora desça, a sorrir, à alma tua.</l>
          <l>Dorme, velhinha, dorme... O silêncio flutua...</l>
          <l>Não confias, então, nas contas do rosário?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O teu filho há de vir logo que a pescaria</l>
          <l>Acabe, no mar grosso... Abre o peito à alegria;</l>
          <l>Faze do coração um abrigo tranquilo...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ora, que ideia a tua! Então perdeste o sono</l>
          <l>Simplesmente porque te julgas no abandono,</l>
          <l>E ouviste, no telhado, o estrídulo de um grilo?</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>O melhor casamento</head>
        <lg>
          <l>E ela, Valésia, urdia, em grandes bastidores,</l>
          <l>Ora um peito de crivo, ora rodas de saia;</l>
          <l>E outras vezes urdia, a olhar, da porta, a praia,</l>
          <l>Toalhas para o altar da Senhora das Dores.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vinha gente da vila e de outros arredores,</l>
          <l>Para vê-la no crivo, à hora em que o sol desmaia,</l>
          <l>Flechando, em arcos de ouro, a torre da atalaia,</l>
          <l>Detrás da qual surgia o Paulo e os pescadores.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E na ermida, de noite, ei-la uma vez de joelhos,</l>
          <l>A olhar Nossa Senhora e a lhe pedir conselhos,</l>
          <l>Quando de leve ouviu uma voz soluçar:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Valésia, o mais feliz e melhor casamento,</l>
          <l>Faz-se na catedral azul do firmamento,</l>
          <l>Entre almas brancas como as praias desse mar.”</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Na noite de Natal</head>
        <lg>
          <l>Corta o grande silêncio astral da noite bela</l>
          <l>O festivo cantar estridente dos galos.</l>
          <l>E vem do mar, e vem do campo, e vem dos valos</l>
          <l>Um perfume sutil, enquanto o céu se estrela.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tilinta, vibra e canta o sino da capela,</l>
          <l>Corre, por todo o espaço, o som dos seus badalos;</l>
          <l>E desce, alegre, em festa, em contínuos regalos,</l>
          <l>Ruidoso, salta, ri, o povo tagarela.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>É noite de Natal. E, na vila, nenhuma</l>
          <l>Casa existe sem pão, sem vinhos derramados,</l>
          <l>Em toalhas da cor da mais nevada espuma.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Menos esta na qual teus olhos angustiados</l>
          <l>Choram, na imensa dor que o teu peito averruma,</l>
          <l>A atroz separação dos teus filhos amados!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Moça raptada</head>
        <lg>
          <l>É meia-noite. Canta o galo no poleiro.</l>
          <l>Ouves cantar? Cantou o galo do vizinho.</l>
          <l>E, ao raiar da manhã gloriosa, bem cedinho,</l>
          <l>Quantas exclamações por esse mundo inteiro!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>No entardecer não viste, à sombra do salgueiro,</l>
          <l>Perto dum batelão de altas velas de linho,</l>
          <l>Um rapaz que possui uns olhos cor de vinho,</l>
          <l>Cabelo em caracóis, espigado e trigueiro?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Namora loucamente, ousadamente, a filha</l>
          <l>Mais moça do Sabino, e veio ontem da Ilha</l>
          <l>Do Arvoredo, na qual viu todo o seu destino...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, na verdade, quando amanheceu, na vila</l>
          <l>Sempre boa e pagã, sempre humilde e tranquila,</l>
          <l>Ninguém mais avistou a filha do Sabino.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Estrela do mar</head>
        <lg>
          <l>Linda Estrela do Mar, Nossa Senhora, a tua</l>
          <l>Miraculosa mão, a tua mão amiga,</l>
          <l>Dos tristes corações toda a mágoa mitiga,</l>
          <l>Do destino fatal na tenebrosa rua...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Virgem Nossa Senhora, está de luto a lua,</l>
          <l>A lua nova, aziaga... E o vendaval fustiga</l>
          <l>As ondas... E não há quem satisfeito siga</l>
          <l>Por essa praia... E atrás de que, na praia nua?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A praia nua está, Virgem Nossa Senhora,</l>
          <l>Porque toda essa gente ao seu rosário chora,</l>
          <l>Nos ranchos que, ao bramir do vento, se fecharam.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, lá longe, ao redor das ilhas desoladas,</l>
          <l>Quantas ânsias e ais! Quantas quilhas viradas!</l>
          <l>Mas chegaste, Senhora, e as ondas se acalmaram...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Evocação</head>
        <lg>
          <l>Olha, porém os seus olhares são velados</l>
          <l>Como os longes nos quais fulge, de leve, o luar.</l>
          <l>Mas, mesmo assim, recorda os seus dias passados</l>
          <l>Ora por sobre a terra, ora por sobre o mar.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ele diz recordar os prazeres gozados</l>
          <l>Nas viagens em que andara a cantar... a cantar...</l>
          <l>Quer os ventos do sul erguessem fortes brados,</l>
          <l>Ou o navio se visse a correr num lagar.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>É que com ele andava, ao calor das cantigas,</l>
          <l>A jura, sempre fiel, das belas raparigas</l>
          <l>Que lhe davam do sonho as ânsias e os desejos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quando voltava à terra (Oh! felizes momentos!)</l>
          <l>Era para rever todos os juramentos</l>
          <l>Dessas bocas em flor, saturadas de beijos.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Pesadelo</head>
        <lg>
          <l>A madrugada é toda uns recamos de prata,</l>
          <l>E cada estrela lembra um branco lírio aberto,</l>
          <l>Que, nas águas do mar tranquilo, se retrata.</l>
          <l>A lua enche de luz todo o campo deserto.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Pela estrada da Barra, o aroma se desata</l>
          <l>Dos aguapés em flor. Canta, murmura, perto</l>
          <l>Da casa de Valésia a água de uma cascata.</l>
          <l>Bate-me, com violência, o coração desperto.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Chego. Ausculto a parede. Ouço vozes lá dentro.</l>
          <l>Rodeio então a casa, e, passos bambos, entro</l>
          <l>Pela porta detrás. E a derrota prossigo,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Louco, ciumento, sob a pressão do meu zelo.</l>
          <l>Mas, ó graças dos céus! Fugiu-me o pesadelo...</l>
          <l>Valésia dorme e sonha, amorosa, comigo.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Incautos desejos</head>
        <lg>
          <l>Foram-se à pescaria os barcos da enseada,</l>
          <l>Do vento brando sob as asas invisíveis...</l>
          <l>E, agora, é agitação funesta, desenfreada,</l>
          <l>O mar! O vento e o mar são dois seres terríveis!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, nos barcos que vão, às vezes, na calada</l>
          <l>Das tardes, para o largo, há peitos insensíveis,</l>
          <l>Que não creem que o mar lhes teça, na lestada,</l>
          <l>Depois, uma mortalha e túmulos horríveis!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E a tempestade veio, ululando, ululando...</l>
          <l>E quem diria, ó céus? Quantos barcos voltando,</l>
          <l>E quantos, no costão, de chofre, naufragados!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Assim são, de minha alma, os incautos desejos:</l>
          <l>Vivem sob a ilusão dos sonhos benfazejos,</l>
          <l>Mas vivem muito mais contra a dor atirados!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Sempre lembrada</head>
        <lg>
          <l>Para matar da criança o trágico quebranto</l>
          <l>Era logo chamada a minha velha tia.</l>
          <l>E ela, cheia de amor pelas crianças, ia</l>
          <l>Pelas léguas sem fim, ao último recanto...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, antes de partir de casa, orava a um santo,</l>
          <l>No oratório do quarto, e, alegre, repetia:</l>
          <l>“Seja o meigo Jesus a minha companhia,</l>
          <l>E o manto de Maria, o meu querido manto”.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Toda a criança, então, florescia de novo.</l>
          <l>Por isso, essa velhinha era amada do povo</l>
          <l>Desse humilde lugar de alvas praias cheirosas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Do povo que ainda agora, entre rezas, murmura:</l>
          <l>— Velhinha, iremos sempre à tua sepultura,</l>
          <l>Levar-te bogaris, margaridas e rosas.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Luísa</head>
        <lg>
          <l>A luz forte do sol queima como aguarrás.</l>
          <l>Mas a velhinha Luísa, à beira do riacho,</l>
          <l>A soalheira apanha... E ela, que é triste, traz</l>
          <l>O puríssimo olhar seguidamente baixo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A sua vida é toda uma chaga mordaz,</l>
          <l>Como a de uma coivara em labareda, em facho.</l>
          <l>Triste vida augural, de soluços e ais,</l>
          <l>Espelhada na luz das águas do riacho!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E continua, a pobre, a lavar desde cedo,</l>
          <l>Longe da sombra amiga e fresca do arvoredo,</l>
          <l>De joelhos em terra. Entretanto, Luísa</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nunca pôde lavar (sabe-o Deus) nessas águas</l>
          <l>O enorme turbilhão das suas tristes mágoas,</l>
          <l>Nunca pôde lavar a dor que a martiriza!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>A primeira...</head>
        <lg>
          <l>Que saudades nos faz o sino da capela</l>
          <l>Naquele morro triste! À plangência do sino</l>
          <l>É que a vimos partir, a nossa filha, aquela</l>
          <l>Que primeiro nos fez andarem desatino.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vida de nossa vida, angélica e singela,</l>
          <l>Num caixão de veludo, o seu rosto divino</l>
          <l>Tinha o branco esplendor do azul que se constela,</l>
          <l>A brilhar através do espaço cristalino.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ia nesse caixão o seu corpo estendido...</l>
          <l>E sua alma louçã em que leito florido</l>
          <l>Dormiria nessa hora? E, se acaso, pelo ar,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Voasse? Ah! talvez fosse a ave que, neste instante,</l>
          <l>Vimos ao sol, à luz da tarde agonizante,</l>
          <l>Meiga e serena, abrindo as asas sobre o mar!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Coração saudoso</head>
        <lg>
          <l>Dessa tarde recordo a profunda tristeza...</l>
          <l>E porque não? Recordo a hora da despedida.</l>
          <l>Eu te deixara só, meu sonho de beleza,</l>
          <l>Ó meu lírio da serra, ó flor estremecida!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nessa hora amargurada, a própria natureza</l>
          <l>Parecia uma noiva, entre goivos, vestida</l>
          <l>Para a morte. Do céu na límpida turquesa</l>
          <l>Uma estrela surgiu, a resplender de vida!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Entre abraços, teu peito ao meu peito apertaste.</l>
          <l>E eu para o mar parti. Mas de onde então ficaste,</l>
          <l>Um rastilho de luz branca me acompanhou...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Seria o teu amor assim transfigurado?</l>
          <l>Ou a saudade augural do teu peito magoado?</l>
          <l>E onde o meu coração tristíssimo ficou?</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Boa vida</head>
        <lg>
          <l>O velho Estêvão conta uma enfiada de anos!</l>
          <l>Mas como forte está! De calça azul e gorro.</l>
          <l>Desce ou sobe, apressado, os caminhos do morro,</l>
          <l>E nunca teve na alma os fatais desenganos...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Dos Farrapos e seus heroísmos soberanos,</l>
          <l>Conta a história cruel. Toda a sua alma é um jorro</l>
          <l>De alta clarividência. E eu aos seus braços corro</l>
          <l>Para lhe perceber os milhares de arcanos...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que vida singular, a dele! E que saúde,</l>
          <l>Quando a sorte lhe fora austeramente rude,</l>
          <l>Sobre as ondas do mar, numa eterna jornada!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, forte que ainda está! É rijo como um feixe!</l>
          <l>Rega, a tragos de pinga, o seu caldo de peixe</l>
          <l>Preparado com salsa e farinha torrada.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Em redor da fogueira</head>
        <lg>
          <l>Rodam na cana verde as filhas da Vicência,</l>
          <l>Vindas do Ribeirão, das últimas Costeiras...</l>
          <l>Belas almas febris, de rica florescência,</l>
          <l>De seios rebentando em botões de roseiras.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Do diamantino luar na espiritual diluência,</l>
          <l>Rodam como visões, graciosas e ligeiras,</l>
          <l>Rodam, de par em par, em célere cadência,</l>
          <l>Em vertigem feliz, alegres e brejeiras.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Fez-se então um rumor de remos nos toletes...</l>
          <l>É que chegam do mar uns rapazes. Foguetes</l>
          <l>Esfuziam no espaço... E vozeiam cantigas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>No terreiro do engenho a fogueira crepita...</l>
          <l>E, ao vermelho clarão que, em derredor, se agita,</l>
          <l>Mais feiticeiras são, agora, as raparigas.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Tragédia</head>
        <lg>
          <l>Testemunha ocular, vira o filho brandindo</l>
          <l>Uma adaga lavada em sangue, e, em pleno chão,</l>
          <l>Um corpo escultural, exuberante, lindo,</l>
          <l>De uma mulher que tinha em chaga o coração.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Foge” (disse-lhe o pai). E a rude porta abrindo,</l>
          <l>Na maior desventura e maior aflição,</l>
          <l>Nas quais aos poucos ia, atrozmente, caindo,</l>
          <l>Disse de novo ao filho: “Anda, busca o sertão”.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>No outro dia, porém, comparece em juízo</l>
          <l>O desolado pai, para dar o preciso</l>
          <l>Testemunho do fato... Então, frio, suspeito,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Sentiu passar-lhe na alma uma idéia sublime:</l>
          <l>— Se dissesse a verdade, era provar o crime...</l>
          <l>E, com a mesma adaga, atravessou o peito.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head>Ao partir</head>
        <lg>
          <l>Ao prendê-la nos seus braços febricitantes,</l>
          <l>Beijou-lhe a trança negra e a boca perfumada,</l>
          <l>E as mãos... (Ah! como dói às almas dos amantes</l>
          <l>Uma separação assim precipitada!)</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Caía a tarde sobre as montanhas distantes,</l>
          <l>E, na praia tão branca, alvadia e lavada,</l>
          <l>Os rendilhos da espuma abriam-se, flamantes,</l>
          <l>Sob a brusca pressão da rígida nortada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, num barco, a correr nas vagas buliçosas</l>
          <l>Partiu... Quanta amargura e lágrimas custosas,</l>
          <l>Naquele coração tristíssimo, inditoso!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>No mar alto, porém, ao resplendor dos astros,</l>
          <l>Num contínuo bailado, em derredor dos mastros,</l>
          <l>Cada gaivota branca era um lenço saudoso!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y" aoidos:meter="12" type="poem">
        <head><hi>De profundis</hi></head>
        <div type="section">
          <head>I</head>
          <lg>
            <l>Vejam que esquife azul, chamalotado de ouro,</l>
            <l>Vai pelo morro, à luz do ocaso aceso! E vejam</l>
            <l>Como o rodeiam, rindo, entre canções, em coro,</l>
            <l>Os meninos da escola e os pássaros que adejam...</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Da morte no cruel e eterno sorvedouro,</l>
            <l>Lá em cima, no morro, os mochos que o protejam!</l>
            <l>Proteja-o albente luar e sol faiscante e louro!</l>
            <l>E as orações do mar que junto dele estejam!</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Vai a enterrar-se o corpo esvelto e delicado</l>
            <l>De uma criança e leva o peito marchetado</l>
            <l>De rosas e jasmins de mádida fragrância...</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Vão levá-lo os irmãos, a fim que a terra o guarde</l>
            <l>Sob o fulvo esplendor dessa tão linda, tarde...</l>
            <l>Mas não foi tão feliz a minha pobre Infância!</l>
          </lg>
        </div>
        <div type="section">
          <head>II</head>
          <lg>
            <l>Quando morreu a minha infância, nesse dia</l>
            <l>Nem sei mesmo quem foi levá-la à sepultura.</l>
            <l>Ao seu peito caiu uma tarde sombria...</l>
            <l>E, depois, uma noite escura... escura... escura...</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>E, se alguém a levou, não sentiu alegria,</l>
            <l>Antes desolação, lancinante tortura.</l>
            <l>Nem um esquife azul, o mais simples, havia,</l>
            <l>Nem meninos de escola e pássaros na altura...</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Nem lírios e jasmins. E, agora, é que me lembro:</l>
            <l>Minha infância morreu num dia de setembro,</l>
            <l>Em que, de tarde, triste, olhando o céu e o mar,</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>De alma cheia de pranto e amargos desenganos,</l>
            <l>Pela primeira vez, no dia de meus anos,</l>
            <l>Não tive quem me desse um beijo e um terno olhar!</l>
          </lg>
        </div>
        <div type="section">
          <head>III</head>
          <lg>
            <l>Era a força, era o sangue, era a vida e a coragem,</l>
            <l>Era a glória do leão a minha mocidade;</l>
            <l>Ora sonhando sob o abrigo da folhagem,</l>
            <l>Ora escalvando o areal de uma qualquer cidade.</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Heroína, no mundo, em meio da voragem</l>
            <l>Das misérias, venceu o polvo da maldade.</l>
            <l>Aos fortes pés calcou do sofrimento a imagem;</l>
            <l>E foi sempre vencendo, em plena liberdade.</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Venceu o ódio, a inveja, a vaidade, o egoísmo,</l>
            <l>E a mentira fatal, em cujo eterno abismo</l>
            <l>As almas rolam como as lesmas pelo chão.</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>E, assim, cheia de fé, entre sonhos diversos,</l>
            <l>Começou a fazer os seus primeiros versos,</l>
            <l>E neles encerrou, cantando, o coração!</l>
          </lg>
        </div>
        <div type="section">
          <head>IV</head>
          <lg>
            <l>Mas, como tudo morre, assim também a minha</l>
            <l>Mocidade morreu, ou, então, se transformou.</l>
            <l>Morta, num campo raso há tempos se enterrou,</l>
            <l>Ou transformada foi em célere andorinha.</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Na quadra em que ela a força e os claros sonhos tinha,</l>
            <l>Ela própria, ao clarão do sol, flores plantou.</l>
            <l>E essas flores, depois, o flavo sol mirrou,</l>
            <l>O sol que sempre e sempre acariciá-las vinha!</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Morta, foi ser, na cova, o que a cova consome:</l>
            <l>Unicamente pó, sem o mais simples nome,</l>
            <l>Nos braços de urna cruz de consolo e piedade.</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Mas, transformada, é toda uma ave delicada,</l>
            <l>Que me vem ao beiral das telhas, descuidada,</l>
            <l>Trazer, de quando em quando, a mais triste saudade!</l>
          </lg>
        </div>
        <div type="section">
          <head>V</head>
          <lg>
            <l>Ah! quando ela estiver para os olhos fechar,</l>
            <l>Vendo aberto a seus pés um caixão mortuário,</l>
            <l>E já correr no espaço o som do campanário</l>
            <l>Que só foi feito para as almas evocar...</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>E, se nesse momento, o coração do mar,</l>
            <l>Que é bem igual ao meu, assim, tão solitário,</l>
            <l>Começar a rezar, — nas contas do rosário,</l>
            <l>Reze por ela toda a gente do lugar.</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Mas não chore por quem, diademada de branco.</l>
            <l>Como uma santa irá, por um caminho franco,</l>
            <l>Tendo na própria morte uns risos de meiguice...</l>
          </lg>
          <lg>
            <l>Pois não há, neste mundo, uma cousa mais bela</l>
            <l>Do que a prata que fica, a iluminar, singela,</l>
            <l>A cabeça cansada e aflita da velhice!</l>
          </lg>
        </div>
      </div>
    </body>
  </text>
</TEI>
