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	<teiHeader>
		<fileDesc>
			<titleStmt>
				<title>Algas e musgos</title>
				<author>Luiz Delfino</author>
				<respStmt>
					<resp>Codificado por</resp>
					<name xml:id="BGD">Bruna Gomes Dias</name>
				</respStmt>
			</titleStmt>
			<publicationStmt>
				<p>Obra disponível em formato TEI</p>
			</publicationStmt>
			<sourceDesc>
				<bibl>
					<title>Algas e musgos</title> de <hi rend="italic">Luiz Delfino</hi>
					Texto-fonte: Luiz Delfino dos Santos, Poesia Completa, org. de Lauro Junkes,<name type="place">Florianópolis</name>: ACL, 2001, 2 v.
				</bibl>
			</sourceDesc>
		</fileDesc>
	</teiHeader>
	<text xml:lang="pt" aoidos:poet="Luiz Delfino">
		<body>
			<div aoidos:unit="y">
				<head>Algas e musgos</head>
				<lg>
					<l>Não prima esta obra de ourivesaria</l>
					<l>Por leve, caprichosa e delicada,</l>
					<l>Como devera ser, como pedia</l>
					<l>Pequena tela de oiro trabalhada...</l>
				</lg>
				<lg>
					<l>Nem de ouro sempre: a lâmina talhada</l>
					<l>Foi do metal que às mãos acaso havia,</l>
					<l>Logo que me soava uma harmonia</l>
					<l>E eu via a frase em mole dança enleada.</l>
				</lg>
				<lg>
					<l>Casando o ritmo ao frêmito das cores,</l>
					<l>Vergéis em vale estreito enchi de flores,</l>
					<l>Sob a cúpula azul de um céu ardente:</l>
				</lg>
				<lg>
					<l>E indo gravar as mais triunfantes gemas,</l>
					<l>Para as pôr dando luz em meus poemas,</l>
					<l>Algas e Musgos burilei somente.</l>
				</lg>
			</div>
			<div type="part">
				<head>Conchas e pérolas</head>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Ombreira</head>
					<lg>
						<l>Vagas cheirando a brisas das balseiras</l>
						<l>Que vêm do oceano, num suspiro apenas,</l>
						<l>E trazem conchas de oiro e de açucenas,</l>
						<l>À flor da areia, expondo-as em fileiras,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Grutas soltas de nácar: mais não queiras</l>
						<l>Nestes poemas ter; — são vãs falenas,</l>
						<l>Que, para ir iludindo algumas penas,</l>
						<l>Ato às asas da noite, e aí vão ligeiras.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Verás algumas pérolas, se fores,</l>
						<l>Quando as ondas não crespas vão rolando,</l>
						<l>Quando da tarde a luz cambiando as cores,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E ora azul e ora verde o mar baixando,</l>
						<l>Têm nas escamas trêmulos fulgores,</l>
						<l>E abrem-se às praias num bocejo brando...</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1897</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O perfume de um hino</head>
					<lg>
						<l>Se alguém me vir perenemente moço,</l>
						<l>Ou como um deus de Hesíodo ou de Homero,</l>
						<l>Alta a cabeça, o olhar radiante e fero,</l>
						<l>É que eu em toda parte a vejo, e a ouço;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Que em vê-la, e ouvi-la, eu sinto-me um colosso,</l>
						<l>Pois tenho nela tudo quanto quero;</l>
						<l>Nem temo a inveja a uivar, como um mar grosso,</l>
						<l>Dizer que minto, que não sou sincero.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Nela eu vejo a mais nova irmã da Aurora,</l>
						<l>Ela em mim o irmão gêmeo da Harmonia;</l>
						<l>Não precisamos de mais nada agora.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Nossos filhos, o Sonho, o outro a Alegria,</l>
						<l>Como eu os amo, a mãe como os adora!</l>
						<l>E ambos são para nós a luz do dia...</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1897</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Pigmalião</head>
					<lg>
						<l>Sinto-me todo em ti, tendo-te perto;</l>
						<l>Prendes-te a mim num forte e estranho laço;</l>
						<l>Vamos: quem acha o paraíso aberto,</l>
						<l>Faz o que fazes tu, faz o que eu faço.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E enquanto o corpo teu osculo, e abraço,</l>
						<l>Novos sóis anda um deus a urdir decerto;</l>
						<l>E ouvem-se, a um pólen vasto enchendo o espaço,</l>
						<l>Édens florir, cantando, em nu deserto.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>É a ventura triunfal do malho,</l>
						<l>Que bate o bloco, e o embebe, e o anima, e a ideia</l>
						<l>Lhe põe, mordendo-o todo, a talho e talho:</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E é do amor, que o buril fecunda e ateia,</l>
						<l>Que entre gritos do mármore em trabalho,</l>
						<l>Nasce Vênus, ou nasce Galateia.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Tela apagada</head>
					<opener>
						<epigraph>
							<cit>
								<quote>
									<l rend="indent3">
										<q rend="italic">Tecum vivere amem</q>
									</l>
								</quote>
								<bibl rend="indent5">Horácio</bibl>
							</cit>
						</epigraph>
					</opener>
					<lg>
						<l>Como isto aqui mudou!... Agosto, o ano passado,</l>
						<l>Tinha mais sol, mais luz, mais calor, menos frio;</l>
						<l>Mas tudo o mais é o mesmo: a água do mesmo rio,</l>
						<l>A ponte de madeira, as mangueiras, ao lado,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Velhas, grandes, em flor, o lanço esburacado</l>
						<l>Do muro, e o líquen nele, e a avenca, e o luzidio</l>
						<l>Lacrau, que salta, e vira, e já volta ao desvio;</l>
						<l>O cão ganindo; e a um canto, à esquerda, ao longe, o prado;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Bambus em renque, em meio o caminho, e no espaço,</l>
						<l>Longe do morro, ao fundo, a casa; e no terraço</l>
						<l>Sobre o jardim, talhando o ar cintilante, a imagem</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>De um anjo, — um áureo nimbo à coma, o olhar humano</l>
						<l>Como jamais pintou Corregio ou Ticiano:</l>
						<l>Quem, levando-a, apagou a esplêndida paisagem!...</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1886</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head rend="italic">Palida victrix</head>
					<lg>
						<l>A fronte cheia de uma dor sonora</l>
						<l>Na mão aberta tristemente pousas,</l>
						<l>E a estrela de uma lágrima demora</l>
						<l>Sobre um dos cílios... mas chorar não ousas...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Pasmas às triviais, pequenas cousas!</l>
						<l>Vês manchando de larga sombra agora</l>
						<l>A luz do céu, e pelo campo em fora,</l>
						<l>Um bando azul de lindas mariposas.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Acaso abres o leque, e lentamente</l>
						<l>Olhas sem ver dois calmos chins à beira</l>
						<l>Dum rio argênteo; a rútila corrente</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Mete-se em pontes de oiro, a luz a empoeira...</l>
						<l>Que dor faz pois mais pálido e doente</l>
						<l>Teu belo rosto pálido de cera?</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1887</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Num turbilhão de estátuas</head>
					<opener>
						<epigraph>
							<cit>
								<quote>
									<l rend="indent3">
										<q rend="italic">At the mid hour of night, when stars are weeping...</q>
									</l>
								</quote>
								<bibl rend="indent5">T. Moore - Irish melodies</bibl>
							</cit>
						</epigraph>
					</opener>
					<lg>
						<l>Quando os formosos mármores de Atenas,</l>
						<l>Brancos, como os luares transparentes</l>
						<l>Desmanchando seu feixe de açucenas</l>
						<l>Na limpidez sonora das correntes,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Murmuram suas doces cantilenas</l>
						<l>Pelas suaves curvas esplendentes,</l>
						<l>Mas como um sonho, um vago sonho apenas,</l>
						<l>Que embala a noite em páramos silentes...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Numa ebriez de luz, turbado e incerto,</l>
						<l>Entre o alarido de rosais desperto,</l>
						<l>Via erguer-se, surgir... ficar só tu.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Do turbilhão de estátuas fugidias</l>
						<l>Restavam só as formas luzidias</l>
						<l>Do teu corpo orgulhosamente nu.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Vênus marinha</head>
					<lg>
						<l>Quem és tu? — Serás tu o que pareces?</l>
						<l>Mármore duro, opaco, e resistente</l>
						<l>Mármore vivo, cuja voz tremente</l>
						<l>Vem de uns lábios, que sempre imploram preces,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Onde começas tu, onde feneces?</l>
						<l>Onde pode a ti mesmo achar-te a gente?</l>
						<l>Bela esfinge terrível, que mais cresces</l>
						<l>Quanto mais desço em ti profundamente.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>És uma imagem sob um véu de bruma:</l>
						<l>Tu tens os grandes gestos de rainha,</l>
						<l>E não sei de tua alma cousa alguma.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Tortura-me esta grande angústia minha;</l>
						<l>Deusa, e pombas, e concha, e mar, e espuma...</l>
						<l>Nada mais vejo em ti, Vênus marinha...</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1897</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Nudaque vera</head>
					<lg>
						<l>Por quê?... Bem vejo o gosto, o esmero, o tino</l>
						<l>Com que no escrínio luxuoso fechas,</l>
						<l>Ora a nuvem das rútilas madeixas,</l>
						<l>Ora do corpo o mármore divino.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Cinzelo, lavro, junto, ato, combino</l>
						<l>Frase e frase, e engrinaldo-te de endechas:</l>
						<l>Como és formosa assim!... Mas imagino</l>
						<l>Abismos, céus... os céus que ver não deixas...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Oh! nua!... nua é que te quero!... nua...</l>
						<l>Igual à rosa, ao lírio, à estrela, à lua,</l>
						<l>No brilho astral dos monólitos nus!</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Em rico estofo um corpo não escondas,</l>
						<l>Onde por linhas ideais, redondas,</l>
						<l>Cantam os sóis a Ilíada da luz.</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1887</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Carros que se entrecruzam</head>
					<lg>
						<l>Como serpente enorme, então a natureza</l>
						<l>Enroscava-se ao meu espírito abatido:</l>
						<l>Assobiava o sul no céu, como um bandido</l>
						<l>Em caverna onde há sombra, ar úmido e tristeza.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E enquanto o frio, como um ferro agudo e buído,</l>
						<l>Perfurava-me a carne, a mente inquieta e acesa</l>
						<l>Arranjava uma alcova, um fogo, um livro lido</l>
						<l>Na intimidade ideal de uma gravura inglesa.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Eis que perto de mim surge, irrompe, fulgura</l>
						<l>Como fugida a um quadro, uma branca figura,</l>
						<l>Como só Greuze e Holbein as sabiam pintar.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>A cabeça gentil punha apenas de fora...</l>
						<l>O seu carro voava arrebatando a aurora:</l>
						<l>Um furacão de luz levava-a pelo ar...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head rend="italic">Ad astra</head>
					<opener>
						<epigraph>
							<cit>
								<quote>
									<lg>
										<l rend="indent5">
											<q rend="italic">... tu pudica, tu proba</q>
										</l>
										<l rend="indent5">
											<q rend="italic">Perambulabis astra sidus aureum</q>
										</l>
									</lg>
								</quote>
								<bibl rend="indent5">Horácio</bibl>
							</cit>
						</epigraph>
					</opener>
					<lg>
						<l>Estes anões são vis, são pó: — deixá-los.</l>
						<l>Vem tu comigo acima, alma divina;</l>
						<l>Era demais, deusa do bem, odiá-los;</l>
						<l>Tu, a quem só o amor do bem domina,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Vem. — Eu já lanço os rápidos cavalos</l>
						<l>Pelo meio da estrada cristalina,</l>
						<l>E em cada sol, que ao ver-me a fronte inclina,</l>
						<l>Tens o meu povo de oiro, e os teus vassalos.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>A cada beijo, hemos de ouvir cantando</l>
						<l>Os deuses logo, as deusas logo, em bando,</l>
						<l>Cada um de nós em rútila curul.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Lá tu serás a minha loura Circe</l>
						<l>Dentro em meu colo a rir-se, a rir-se, a rir-se,</l>
						<l>Como uma estrela na lagoa azul.</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1886</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Acordo</head>
					<lg>
						<l>Dizes que te não dê este amor, que é meu gozo,</l>
						<l>E é o abismo estrelado em cujas bordas piso,</l>
						<l>Que vive do clarão sonoro do teu riso,</l>
						<l>E da luz que enluara o rosto teu formoso;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Este amor, que vê sempre aberto um paraíso</l>
						<l>Em qualquer parte do teu corpo astral e ondeoso,</l>
						<l>Que, como o vento ao mar, não me deixa em repouso,</l>
						<l>Do qual, para o meu céu ser céu, ter sóis, preciso:</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Este  amor não to dou. — Os astros resplendentes,</l>
						<l>Um mar preso a outro mar, ilhas e continentes,</l>
						<l>O espaço, e o que ele tem, o que é, e o que inda for.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Deuses, e turbilhões fantásticos... pudera!...</l>
						<l>Dera-te tudo, tudo, oh! tudo!... e não te dera</l>
						<l>Este amor, este amor, este meu louco amor!...</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1887</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Pauca</head>
					<lg>
						<l>Oh! triunfar, dar corpo a ideais mais caros,</l>
						<l>Haréns possuir, como um Sardanapalo;</l>
						<l>Pôr no mármore o gesto e alevantá-lo,</l>
						<l>Bem como um Pigmalião dando alma ao Paros;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Dormir nos ostros dos triclínios raros;</l>
						<l>Prender o mundo à cauda de um cavalo,</l>
						<l>Ou, como Orfeu, à lira de oiro atá-lo,</l>
						<l>Que importa?  Uns bens tão vãos, eu do alto encaro-os.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Mesmo, se isto é ventura, e isto preferes,</l>
						<l>Num turbilhão de esplêndidas mulheres</l>
						<l>Ir pela vida inteira arrebatado,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Vive assim, morre assim; eu cá desejo</l>
						<l>Ao colo de uma só viver num beijo,</l>
						<l>De uma ao colo morrer num beijo, e amado.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A valsa</head>
					<lg>
						<l>Move-se, treme, anseia, empalidece,</l>
						<l>Cai, agoniza; acaba-lhe nos braços:</l>
						<l>Resfolga, arqueja, torna, reaparece,</l>
						<l>Solda-lhe o seio, a boca, as mãos, os passos...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Gira, volta, circula... Os olhos lassos</l>
						<l>Têm langue, mole, voluptuosa prece:</l>
						<l>A fronte branca ao colo dele esquece...</l>
						<l>Atam-lhe as carnes invisíveis laços...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Na sala, a um vão, inquieto a vejo... e o vejo!</l>
						<l>Sofrer?!... não sei... mas toma-me um desejo,</l>
						<l>Ao ver um só nos dois, o grupo enleado...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Rojar-me ao chão, à terra de repente,</l>
						<l>E nas voltas daquela valsa ardente</l>
						<l>Morrer embaixo de seus pés calcado!</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A vida e a morte</head>
					<lg>
						<l>Para que serve a vida? — me disseste:</l>
						<l>Tremi, como haste ao vento, assim te ouvindo,</l>
						<l>Mas pela sombra do teu rosto lindo</l>
						<l>Vi pranteando o teu olhar celeste.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>A vida é isto, o beijo, que me deste,</l>
						<l>Que a impregnou toda de um olor infindo:</l>
						<l>E a morte, o incêndio de um silvado agreste,</l>
						<l>Onde há ninhos e pássaros dormindo.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Do ninho em breve os pássaros cantando</l>
						<l>Surgem de asas e de oiro enchendo a esfera,</l>
						<l>Brincam flores ao sol, no vale, em bando.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E a morte diz à vida extinta: — Espera!</l>
						<l>E em carro azul irrompe, inda chorando,</l>
						<l>O Riso e o Amor puxando a Primavera...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head rend="italic">Sacra fames</head>
					<lg>
						<l>Como um falerno, és tu, rubro e sublime,</l>
						<l>Espumaroso e quente, que conserva</l>
						<l>A áscua da lava, o verde aroma da erva,</l>
						<l>E o ardor, que a terra em fogo, e a arfar, lhe imprime,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Que mal se bebe um gole ou dois, deprime,</l>
						<l>Endoida, cansa, ensonolenta, enerva...</l>
						<l>— Quisera ver, perto de ti, Minerva</l>
						<l>Pura sair do meu divino crime.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E tens talvez no escrínio inda áureo pomo...</l>
						<l>Que fome grande eu sinto dele... como</l>
						<l>Enche-me todo este desejo, e o quero...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Foi desta angústia e deste amor, criatura,</l>
						<l>Que a Grécia viu o gênio e a formosura,</l>
						<l>Vênus na vaga, e ao pé da vaga, Homero...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head rend="italic">Surgit stella</head>
					<lg>
						<l>Chegou? Mas em que concha a deusa veio?</l>
						<l>Que onda azul a deitou na fina areia?</l>
						<l>Que branca ondina, que ao luar vagueia,</l>
						<l>Disse-lhe adeus do mar num doce enleio?</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>De mole brisa o perfumado seio</l>
						<l>Ela abandona, e dele, enfim, se apeia,</l>
						<l>Como da concha desce Citereia</l>
						<l>Contendo as pombas com delgado freio.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Milhões de olhos de luz na sala, — ao vê-la,</l>
						<l>Abrem os candelabros, desatando</l>
						<l>Rolos de oiro sutil, para envolvê-la.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Nos quícios riem as portas recuando;</l>
						<l>E deixa um rastro luminoso a estrela,</l>
						<l>No etéreo azul da alcova enfim baixando.</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1882</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Ângela - Sirena</head>
					<lg>
						<l>Tinha doze anos; chego; de repente</l>
						<l>Enlaça-me com força: vou fugi-la;</l>
						<l>Aperta-me inda mais, feroz, tranquila,</l>
						<l>Como uma fera angélica e inocente.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Quase achei-me sem mim no atrito quente;</l>
						<l>E ao ver-lhe o azul da límpida pupila</l>
						<l>Molhar-se todo de um vapor luzente,</l>
						<l>E uma inquieta tristeza enfim cobri-la,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Lento e lento arranquei-me dela, e a custo,</l>
						<l>E sem que disso ideia exata forme,</l>
						<l>Logo um pouco a tremer, num vago susto,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Como cansada de um trabalho enorme,</l>
						<l>Sobre o meu colo reclinando o busto,</l>
						<l>A face em fogo, e soluçando, — dorme.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A mulher</head>
					<opener>
						<salute>A Guimarães Passos</salute>
						<epigraph>
							<cit rend="italic">
								<quote>
									<l rend="indent3">She was false as water.</l>
								</quote>
								<bibl rend="indent5">Shakespeare - Othelo</bibl>
							</cit>
						</epigraph>
					</opener>
					<lg>
						<l>Amo a mulher, que o etéreo fogo ateia</l>
						<l>Em Fídias, <choice><orig>Sanzio, Gluck e Donatello</orig><seg type="apo">Sânzio, Gluque e Donatelo</seg></choice>,</l>
						<l>Porque em si tem o filtro, o encanto, o elo,</l>
						<l>Que o céu aos seus dois pés prende e encadeia.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Anda-me a vida do seu culto cheia;</l>
						<l>E inda na morte em meu sepulcro, anelo</l>
						<l>Vênus, filha do mar, como a sereia,</l>
						<l>Em Serravezza ou Paros do mais belo.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Não que indo, como aos sóis vai a andorinha,</l>
						<l>Desse acaso com uma, que seria</l>
						<l>A parte da alma que faltou à minha:</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Pôde encontrá-la alguém?  Não sei: diria,</l>
						<l>Achando-a, achar a pérola marinha,</l>
						<l>Mas, — como toda pérola, vazia.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Apontamentos</head>
					<lg>
						<l>Quarto azul como o céu; uma janela,</l>
						<l>Uma porta; alto, grande, longo, estreito;</l>
						<l>Dois espaçosos quadros, mesa, leito,</l>
						<l>Pequeno espelho, e a um canto uma aquarela.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Tapete pérsio, a lâmpada singela,</l>
						<l>Divã de um róseo-negro; em meu conceito,</l>
						<l>É quanto basta; e procurar o efeito</l>
						<l>Deixando encher-se o mais, tão só com ela.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Para lhe dar um toque ainda, eu ouso</l>
						<l>Lembrar que o sol não entre aí; seria</l>
						<l>Perder do luar, que o envolve, o estranho gozo.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>A sombra quente; a luz um pouco fria...</l>
						<l>Eu sei, como seu corpo esplendoroso</l>
						<l>Melhor se enquadra, e nu melhor radia.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Epitalâmio</head>
					<lg>
						<l>Deixa lançar-te ao colo o meu hálito quente,</l>
						<l>Derreter-lhe com o lábio em fogo, e em torno, a neve.</l>
						<l>O tempo, que nos dão, é curto, é pouco, é breve,</l>
						<l>É nosso o instante só, e lá vai de repente.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Quem este epitalâmio, amor, cantar se atreve?</l>
						<l>Como o vento demora e arrasta a asa fremente!</l>
						<l>Como é alegre a luz mesmo do sol ao poente!</l>
						<l>Como a noite aparece alta, estrelada, leve!...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Depois que minha boca encontrou tua boca,</l>
						<l>Depois que eu fiquei louco, e tu ficaste louca,</l>
						<l>Os grupos de ilusões, mandemo-los embora....</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Pede cousa melhor ao universo; — e ei-lo mudo:</l>
						<l>Olha: este último beijo é tudo, é tudo, é tudo!...</l>
						<l>Qualquer deus não tem mais, não tem mais outra aurora!</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Ariana sobre a pantera</head>
					<lg>
						<l>Vejo-a de um ponto, e vai numa brilhante esfera,</l>
						<l>Como num plaustro de oiro imperatriz romana;</l>
						<l>E doutro, reclinada, augusta e soberana,</l>
						<l>Voa no dorso nu de terrível pantera.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Dizem que um fresco achado em Pompeia assim era:</l>
						<l>Nereida conduzida ao dorso de uma fera;</l>
						<l>De <choice><orig>Dannecker</orig><seg type="apo">Dâneca</seg></choice> também a marmórea Ariana</l>
						<l>De um monstro faz o seu palanquim de sultana.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>És sempre a mesma filha amada do meu sonho,</l>
						<l>Ou vás no monstro, que é o olvido, a que me votas,</l>
						<l>Ou na estrela do amor, por céus em que te ponho.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Mas eu sou o coral perdido em fundas grotas,</l>
						<l>E enche o abismo em que vivo, imenso, atro, medonho,</l>
						<l>O marulho de um mar de lágrimas ignotas...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Idílio à mesa</head>
					<lg>
						<l>Lembras-te? O idílio? Escrevo ao pé de ti, à mesa.</l>
						<l>Falas: suspendo a pena, e respondo-te. — Jura?</l>
						<l>Tornas. — Ergo a cabeça,  olho, e rio. — A ventura...</l>
						<l>Interrompo-te: Está entre nós. — Tem certeza?</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Calo-me. Enquanto a renda anda a cantar na alvura</l>
						<l>Da luz: há drama; há cena: a sua mão acesa</l>
						<l>De estranhos sóis corusca, e agarrando (surpresa!)</l>
						<l>Prende o luar que há no linho ao charão da costura.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Pausa. Abrupto: — Ao entrar escrevias: eu vejo</l>
						<l>O papel, olha... — Estava há muito tempo escrito.</l>
						<l>Leio o fim de uma linha: O céu tenho em teu beijo...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Isto é meu. Mas por que choras?... Estranho mito!...</l>
						<l>Deuses, para apanhar-lhe as pérolas, desejo,</l>
						<l>Quero, dai-me, trazei-me o escrínio do infinito...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head rend="italic">Nuda puella</head>
					<lg>
						<l>Soltas de leve as roupas, uma e uma</l>
						<l>Caem-lhe: assim a camélia se desfolha;</l>
						<l>E quando na água o belo corpo molha,</l>
						<l>A água soluça, e o enleia, e geme, e espuma.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Logo que ela no banho, que perfuma,</l>
						<l>Como ao luar um cacto, desabrolha,</l>
						<l>Envolve-a o céu radiante, e a luz em suma</l>
						<l>Põe-lhe o véu de oiro em cima, e a afaga, e a olha.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Ao sair, molemente em ondas frouxas</l>
						<l>À nuca, à espádua, às nádegas, às coxas</l>
						<l>Vão rolando os cabelos abundantes:</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Cobrem-lhe um pouco o rosto, o seio, o flanco...</l>
						<l>E ei-la, bem como à sombra um lírio branco,</l>
						<l>No orgulho astral das deusas deslumbrantes!...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head rend="italic">Après le ballet</head>
					<lg>
						<l>Vi. — Um deslumbramento, que irradia,</l>
						<l>Fulgura, luz, cintila, arde, flameja,</l>
						<l>Ora a cachoeira de ouro fugidia,</l>
						<l>Ora a iriante agulha de uma igreja;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Ora um salão luxuoso, em que dardeja</l>
						<l>A orquestra doida, a triunfante orgia</l>
						<l>Dos sons, enquanto voa, ala-se, adeja</l>
						<l>A turba astral, que a dança enrola e ebria.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E antes quisera uma palavra tua,</l>
						<l>Um riso, um gesto, ou num silêncio apenas</l>
						<l>Ver-te a andar pela alcova, a espádua nua,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Aos beijos só das lúridas melenas,</l>
						<l>E eu a olhar como haver o sol e a lua</l>
						<l>Para encher deles tuas mãos pequenas.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Na alcova</head>
					<lg>
						<l>Na alcova pequenina e carinhosa</l>
						<l>Cabia um leito; o leito era gentil;</l>
						<l>E eu falava com ela, — a descuidosa!</l>
						<l>Em nada, o que sei eu? e em cousas mil...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Estava deitada, e o rosto de perfil</l>
						<l>Enterrava-o na fronha cor de rosa,</l>
						<l>Numa espuma abundante e deleitosa</l>
						<l>De rendas brancas de um lavor sutil.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Era-lhe o olhar inquieto e voluptuoso,</l>
						<l>Guardando-o à fronte uma severa prega,</l>
						<l>Como num nicho à argola um cão raivoso,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Que uiva, cai, late, investe, e não sossega:</l>
						<l>Porém o lábio trêmulo e queixoso,</l>
						<l>Vencida e inerme, ao meu desejo a entrega...</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1901/1902</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Pólen de um beijo</head>
					<lg>
						<l>Não; eu não sei se lhe furtei um beijo,</l>
						<l>Ou se ela a boca me entregou, enquanto</l>
						<l>Vacilava entre a dúvida e o desejo.</l>
						<l>Vi-lhe nos olhos constelar-se o pranto,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Toldar-lhe o rosto a palidez do pejo,</l>
						<l>Torcer-lhe o corpo um lânguido quebranto,</l>
						<l>E, como Ofélia à margem da corrente,</l>
						<l>Cantar, chorar, sorrir, sem voz, sem cor;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Sofre, senhora? — eu disse — então que sente?</l>
						<l>E ela me respondeu: — Estranha dor,</l>
						<l>Pela qual o maldigo eternamente,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Porque de um beijo rápido e traidor,</l>
						<l>Sinto que em mim gerou-se de repente</l>
						<l>Um monstro grande, como o céu e o amor...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Mito</head>
					<lg>
						<l>Sejas quem fores, doce criatura,</l>
						<l>Nume casto, a quem sigo em azul profundo</l>
						<l>Como um diamante que encontrei no mundo,</l>
						<l>E que meu canto em céu triunfal pendura,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Taça em que bebo líquida a ventura,</l>
						<l>De ti me vem à luz, de que me inundo,</l>
						<l>Mar virgem, que de longe olho e circundo,</l>
						<l>Sem lhe tocar na vaga imberbe e pura:</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Deste-me, para ir ao imo oceano, o alento,</l>
						<l>Pérolas mil colhendo ao pensamento,</l>
						<l>Para delas encher-te as mãos ideais.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Ficarão, sabes, nus todos os mares,</l>
						<l>Se um só desses teus límpidos olhares</l>
						<l>Disser: — São poucas, vê, quero inda mais...</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1898</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Alma viúva</head>
					<lg>
						<l>És uma alma viúva e perturbada:</l>
						<l>Foi-te a paixão um vento de passagem,</l>
						<l>Que, indo, lançou do céu na tua imagem</l>
						<l>Luxos da noite e joias da alvorada.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>A flor de amor, macia e perfumada,</l>
						<l>Não foi de oásis, foi de uma miragem;</l>
						<l>Anda por ti, como um rumor de aragem</l>
						<l>A um rosal, que deu rosas, pendurada.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Teu negro olhar... o teu olhar esconde</l>
						<l>Lasciva flauta de dois tubos, onde</l>
						<l>Pã tocara, cantando a selva em coro:</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Dentro, o desejo, como instável onda,</l>
						<l>Dorme fremindo, quando alguém o sonda,</l>
						<l>Como um leão ao sol nas garras de ouro.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Contrariedade</head>
					<lg>
						<l>Pois sai do banho agora? Então vim cedo.</l>
						<l>Crê bem inopinada esta visita!...</l>
						<l>Encontrá-la com menos uma fita,</l>
						<l>Na rosa de ontem ler-lhe algum segredo...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Julga vossa excelência infame e tredo...</l>
						<l>Mas... vê?... nesse abandono é mais bonita:</l>
						<l>Deu-lhe um toque de deusa que tem medo;</l>
						<l>E animou-me o terror com que me fita.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Por que de longe aquele espelho sonda,</l>
						<l>E cora, e empalidece, e enfim se enleia,</l>
						<l>Buscando uma asa, um raio, em que se esconda?</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Como se acaso alguém achasse feia</l>
						<l>A pérola arrancada, há pouco, à onda,</l>
						<l>Inda molhada, inda atirada à areia!...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Banho ao luar</head>
					<lg>
						<l>Foi uma noite à límpida lagoa,</l>
						<l>Que para recebê-la se enfeitara:</l>
						<l>Não é que o Olimpo inda hoje se esboroa,</l>
						<l>E dele cai um deus, que lá ficara?</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E ao saber que ela iria ao banho, voa,</l>
						<l>E forra o lago, e acende-o, como uma ara;</l>
						<l>Azuis lá dentro, e os astros arranjara,</l>
						<l>E clarões moles, que por selvas coa.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Ela nas margens deixa a roupa: nua,</l>
						<l>Como quem entra numa festa lauta,</l>
						<l>Lasciva, entre o tinir dos sóis, flutua,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Com um e outro correndo inerme e incauta;</l>
						<l>Cai-lhe aos pés Pã, lacera-a a unha da lua,</l>
						<l>E há uns ais pelo céu de sons de flauta...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A Vênus misteriosa</head>
					<lg>
						<l>Onde se perde aquela gente toda?</l>
						<l>Agarrados às suas longas tranças</l>
						<l>Andam velhos, arrastam-se crianças,</l>
						<l>E a mocidade rola ebriada e doida.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Do céu descem-lhe pássaros em boda,</l>
						<l>Cantam, metendo-a em luxuriantes danças:</l>
						<l>E mudas, baixas, tímidas e mansas</l>
						<l>O chão as feras lambem-lhe de roda.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Não há carne que em nós não chore e grite</l>
						<l>Por seu corpo, onde estão sempre em festejo</l>
						<l>Bocas de auroras, rubras de apetite.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Vênus mais Vênus, sem mostrar mais pejo,</l>
						<l>Dá-nos a fome, acende-a, e não permite</l>
						<l>Pôr no pó, que ergue aos pés, fugindo, um beijo!...</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1898</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O eterno engano</head>
					<lg>
						<l>Quantas vezes passar fremindo apanho</l>
						<l>De um ser, que não se vê, a voz ardente,</l>
						<l>Como o vento carrega uma semente,</l>
						<l>Que há de florir bem cedo, achando amanho:</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Ouve-a também teu coração contente;</l>
						<l>Corre em teu sangue um murmúrio estranho;</l>
						<l>Metes teu corpo em luz do céu num banho;</l>
						<l>Tua alma a sombra dela ao perto sente</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Envolver-te num beijo. — A flor que cheira,</l>
						<l>Pelo perfume é que se denuncia;</l>
						<l>Tu colhes, sem mais ver, logo a primeira;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Era a primeira que no vale abria;</l>
						<l>A mais branca, a melhor guarda-a a balseira,</l>
						<l>Lírio igual a ti mesma, e igual ao dia...</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1900</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>To wish</head>
					<lg>
						<l>Minha tristeza é como a noite funda</l>
						<l>Lançada sobre os astros turbulentos,</l>
						<l>Com que o céu todo se enche, alastra, inunda</l>
						<l>Ao murmúrio lúbrico dos ventos,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Como sobre esperança moribunda,</l>
						<l>O lençol, que se atira aos lazarentos,</l>
						<l>Como em muros de velhos monumentos</l>
						<l>Do tempo o musgo e a sombra vagabunda.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E essa dor vaga, amplíssima, infinita,</l>
						<l>Dentro de mim, fora de mim se agita,</l>
						<l>Como um mar sobre trevas recostado.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Que sol erguido pelo espaço infindo</l>
						<l>Dera-me a luz... a luz de um rosto lindo...</l>
						<l>Melhor do que isso, a luz de um rosto amado?...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Latona</head>
					<lg>
						<l>A mãe tem medo: ouve-se distante</l>
						<l>O perlar argentino da voz sua;</l>
						<l>E olho da sala vagamente a rua,</l>
						<l>Enquanto a sinto longe alegre e errante.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Manda-me os filhos um a um adiante:</l>
						<l>Depois vem ela: voa? anda? flutua?</l>
						<l>Não sei. — Vem bela, pálida, radiante,</l>
						<l>Como depois que a noite se acentua,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E o oiro o céu vermicula em vasta zona,</l>
						<l>Que o azul em tons mais lânguidos desmaia...</l>
						<l>E no meio da luz, que ri, Latona</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Frisa o monte, inflamando o mar e a praia...</l>
						<l>Assim vem ela, assim vem a Madona,</l>
						<l>Bem como a luz entre as estrelas raia...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Pela tarde</head>
					<opener>
						<epigraph>
							<cit rend="italic">
								<quote>
									<l rend="indent3">... quoedam flere voluptas...</l>
								</quote>
								<bibl rend="indent5">Ovídio</bibl>
							</cit>
						</epigraph>
					</opener>
					<lg>
						<l>Num assento de mármore, que doura</l>
						<l>O tempo, e o sol, que vai passando, olhá-la</l>
						<l>É ver a tarde triste e cismadora</l>
						<l>Diante de um verde, que flutua e a embala.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Velho raio de luz desce a animá-la:</l>
						<l>É a brancura numa sombra loura,</l>
						<l>Como num quadro, cujo fundo fora</l>
						<l>Pensado adrede por quem quer pintá-la.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Arfa o silêncio no seu rosto lindo,</l>
						<l>Enquanto os olhos seus pairam pregados</l>
						<l>No azul, mais forte sempre, o céu tingindo.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E ao barulho dos leques espalmados,</l>
						<l>Vê, sem ver, os pavões, que vão subindo</l>
						<l>Dois a dois, beira a beira dos telhados...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O madrigal das rosas</head>
					<lg>
						<l>Quando em grupo, enlaçada, e de joelhos</l>
						<l>A chusma triunfal das rosas toma</l>
						<l>Ares de quem à luz quer dar conselhos,</l>
						<l>Num barulho sem fim de cor e aroma</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Salta sobre os minúsculos artelhos,</l>
						<l>E com a fronte a arder da acesa coma,</l>
						<l>Cobrindo rostos bons, gentis, vermelhos,</l>
						<l>Dos varandins pela esmeralda assoma:</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Dizem todas ao sol com dor, com pejo,</l>
						<l>Num madrigal, que o amor delas resume,</l>
						<l>Que ele lhes leva a vida e o olor num beijo;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Meio a rir, meio em iras de ciúme,</l>
						<l>Responde o sol, golpeado de um desejo:</l>
						<l>— Dou-lhes o beijo, e negam-me o perfume?...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>No leito</head>
					<lg>
						<l>Como estátua de mármore, na cama</l>
						<l>Feita de linho, e sobre o nevoeiro</l>
						<l>De rendas, em que rola o travesseiro,</l>
						<l>Que luar doce o corpo teu derrama.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Azula-o brandamente etérea chama,</l>
						<l>Molha-o a luz do teu olhar fagueiro;</l>
						<l>E o sol, nos teus dois sóis prisioneiro,</l>
						<l>Embalde ir para o céu forceja e clama.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Deixa-o ir. — Fica tu serena e casta</l>
						<l>No calor desta alcova pequenina,</l>
						<l>Que a imensa curva azul talvez mais vasta.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Deixa-me após na luz que me fascina,</l>
						<l>Deste céu em que estás, e que me basta,</l>
						<l>Cair morto aos teus pés, mulher divina.</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1882</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Uma princesa antiga</head>
					<lg>
						<l>Tem a grandeza antiga e peregrina</l>
						<l>Das mulheres da Bíblia, e da Odisseia:</l>
						<l>Anda, fala, aparece... e se imagina</l>
						<l>Ou Palas ou Judite ou Diana ou Réa.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Mas quando ao campo os passos seus destina,</l>
						<l>Sua estatura avulta: — então é Déa:</l>
						<l>Jove, para a espiar da azul cortina,</l>
						<l>Deixa os deuses no Olimpo em assembleia.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Juno descora... E ela no cercado,</l>
						<l>Numa das mãos erguendo os seus vestidos,</l>
						<l>Com outra lança às aves pão cortado,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E vê longe, entre os capins crescidos,</l>
						<l>O velho boi de Homero, um boi malhado,</l>
						<l>De passo tardo e chifres retorcidos.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Ouvindo-a</head>
					<lg>
						<l>Tu movendo a cabeça, a boca, o braço,</l>
						<l>Como a vidente de um antigo rito,</l>
						<l>Dizes que mundos luminosos faço...</l>
						<l>E então nos olhos teus meus olhos fito.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Do pasmo, com que em ti me prendo e enlaço,</l>
						<l>Zombas com gesto irônico, esquisito,</l>
						<l>E sinto que por ti me foge o espaço,</l>
						<l>E rolam sóis, e cava-se o infinito.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E enquanto arranjas essa melopeia,</l>
						<l>Enfiando uma ideia noutra ideia,</l>
						<l>Enquanto esses castelos de ouro arrumas,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Eu vou boiando em tua voz sonora,</l>
						<l>Como nau, pano ao vento, azuis em fora,</l>
						<l>Entre as flores de prata das espumas.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head rend="italic">Sicut serpens</head>
					<lg>
						<l>Tens da virgem cristã a graça e o pejo,</l>
						<l>Que de um certo desgarre não te exime;</l>
						<l>E uma tristeza de mulher sublime,</l>
						<l>Junto à lascívia dum brutal desejo.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>És bela... e pura, creio-te, se vejo</l>
						<l>Teu rosto aonde a palidez se imprime;</l>
						<l>E o teu corpo, que dobra, como um vime,</l>
						<l>Que dobra mesmo ao hálito de um beijo...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>És pura, se te vejo de repente,</l>
						<l>Se não me vem de súbito a lembrança</l>
						<l>Da luz dos olhos teus molhada e quente,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Que como serpe, sai do ninho, e avança,</l>
						<l>E em roscas de oiro luminoso — a gente</l>
						<l>Enrola no teu corpo de criança.</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1881</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Natureza interrogada</head>
					<lg>
						<l>Rosas, jasmins, bons dias; açucenas,</l>
						<l>Festas e sóis; rir, minhas feiticeiras!</l>
						<l>Rolai, brincai, voejai... mas vede... asneiras</l>
						<l>Em cima delas, não, gentis falenas.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Alegres todas, rancho de pequenas!...</l>
						<l>Margaridas, corimbos das balseiras,</l>
						<l>Grotais do bosque, relva das clareiras,</l>
						<l>Luz perfumada das manhãs serenas,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Sombra doce do trêmulo arvoredo,</l>
						<l>Rio a cantar às costas do fraguedo,</l>
						<l>Veiga e céu, ninhos, pássaros, rosais...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Rosais, pássaros, ninhos, céus e veiga,</l>
						<l>Sede-me bons, falai: quando ela chega,</l>
						<l>Que faz ela? que diz?... que diz? que faz?</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Perdão aos deuses</head>
					<lg>
						<l>Castas brancuras virginais que cria</l>
						<l>A terra, e que a mulher, o lírio e a rosa</l>
						<l>Têm em si, são a sombra gloriosa</l>
						<l>Do clarão que é teu peplo, e em ti radia...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Se a luz coalhasse, como tu seria</l>
						<l>Quente, rija, brilhante e cetinosa:</l>
						<l>Se de um bloco de luz branca e cheirosa</l>
						<l>Deus te não fez... então não te fazia.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Perdoo a esse, e aos mais, o esquecimento</l>
						<l>De terem feito um céu sem pensamento...</l>
						<l>Se algum respeito mesmo inda revelo</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>É que o último golpe de martelo,</l>
						<l>Que tinha de acabar o firmamento,</l>
						<l>Pôde só acabar teu rosto belo.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Amazona</head>
					<lg>
						<l>Oh! Era uma amazona verdadeira,</l>
						<l>Quando montava o seu gentil cavalo:</l>
						<l>Vinha-lhe em luz ao rosto o fundo abalo,</l>
						<l>Que ia beber na rápida carreira!</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Chapéu preto emplumado; a cabeleira</l>
						<l>Lá dentro, como um sol dentro de um valo:</l>
						<l>Um chicotinho só para guiá-lo...</l>
						<l>Antes raio de luz na mão faceira.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Buscava ao longe as veigas mais secretas:</l>
						<l>Acordava ao galope a gruta rouca,</l>
						<l>Olhavam-na as estrelas inquietas...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E ela voava assim como uma louca,</l>
						<l>Dentro dos olhos carregando as setas,</l>
						<l>Levando o arco atravessado à boca.</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1884</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Um cinzelador</head>
					<lg>
						<l>Há, gentil criatura, um poeta que cinzela</l>
						<l>A frase como um velho ourives florentino,</l>
						<l>Que torce o oiro, e mistura a prata, e que martela</l>
						<l>De um golpe, o vaso iriante, adamascado e fino.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Eu queria-lhe o gênio; amara-lhe o destino;</l>
						<l>Lavrara com carícia a estrofe, e punha nela</l>
						<l>Asas, sóis, muito aroma, o alarido de um hino,</l>
						<l>E o azul... todo esse azul que o infinito apainela.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Para o rico ideal tenho a matéria-prima:</l>
						<l>Obedece-me a luz, domestiquei a rima,</l>
						<l>Guardo a música presa aos metros rugidores.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Neste trabalho a mão pode bem ser que trema...</l>
						<l>Mas se tu queres, se desejas um diadema,</l>
						<l>Vais ter em mim já um desses cinzeladores.</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1886</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Grupo</head>
					<opener>
						<salute>A Manuel de Mello</salute>
					</opener>
					<lg>
						<l>Figura graciosa e encantadora</l>
						<l>De uma criança ao caulim talhada,</l>
						<l>Vedes nos braços de gentil senhora</l>
						<l>Ali no banco do jardim sentada.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Como a cabeça é grande comparada</l>
						<l>Com todo o corpo!... e que cabelo a doura!</l>
						<l>Rasga-lhe a fronte cristalina estrada,</l>
						<l>Onde brinca em nudez a manhã loura.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Na atitude, da mãe e na do filho,</l>
						<l>Desce do sol, que vai morrendo, um brilho,</l>
						<l>Que enche de um riso tímido o vergel.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Parece o grupo esplêndido e tranquilo</l>
						<l>Feito de uma das Virgens de Murillo,</l>
						<l>Tendo ao colo um Jesus de Rafael.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Ofélia</head>
					<lg>
						<l>É duma palidez que deslumbra e fascina:</l>
						<l>Tem nos olhos clarões da chama que arde, enquanto</l>
						<l>Rui, no ocidente aceso, a última Alhambra em ruína:</l>
						<l>Se canta, os rouxinóis calam-se ao ouvir seu canto.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Sai do centro de um lírio; anda à roda, à surdina,</l>
						<l>De olor suave embalando-a; arrasta, impondo espanto,</l>
						<l>Trapos de luz nos pés, restos de sóis no pranto;</l>
						<l>E o céu é um vasto nimbo azul, que ela ilumina.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Enlouqueceu? Que ser estranho a leva e a enleia?</l>
						<l>Não é mais leve na água e mais bela a sereia.</l>
						<l>Quem é? Quem vai como ela em tão longo noivado?</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Ofélia, és tu, ideal do amor, que eternamente,</l>
						<l>Solto o auroral cabelo, e às ervas enrolado,</l>
						<l>Vemos fugir, cantando, a fio da corrente.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O melhor cantinho</head>
					<lg>
						<l>Boiava como em ondas de perfume,</l>
						<l>Movendo os braços nus e os pés pequenos;</l>
						<l>E a voz sutil de pérfidos venenos</l>
						<l>Vinha do quadro, que envolvia o nume.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>No grande leito a alcova se resume,</l>
						<l>E era a concha em que andava aquela Vênus:</l>
						<l>As sedas por ali cantavam trenos</l>
						<l>Tão meigos como o arrulho de um queixume.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>O trêmulo fulgir do branco linho,</l>
						<l>A renda que alfaiava o travesseiro,</l>
						<l>O cortinado um pouco em desalinho;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>A cama, o espelho amplíssimo fronteiro...</l>
						<l>E ela dentro, tornava aquele ninho</l>
						<l>O cantinho melhor do mundo inteiro...</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1886</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Vênus e Madona</head>
					<lg>
						<l>Tens no teu corpo o azul, que esta hora explica,</l>
						<l>Na brancura, que o artista ama e imagina,</l>
						<l>Quando aos liriais quinze anos da menina</l>
						<l>Na mulher, que ela encerra, os sóis salpica.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>És a Virgem que Sanzio santifica,</l>
						<l>— Ao colo o filho, — esplêndida e divina,</l>
						<l>Cheia de graça, de modéstia rica,</l>
						<l>Mas cópia fiel da amante, a Fornarina.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>A luz, que a estrela mescla à noite escura</l>
						<l>É como a luz da humana felicidade;</l>
						<l>É na sombra que canta a luz mais pura.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E tu tens o que a vida ideal procura,</l>
						<l>Tens da Madona a eterna castidade,</l>
						<l>Tens da Vênus a eterna formosura.</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1902</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Entre a calma e a tempestade</head>
					<lg>
						<l>Por que me destes olhos, para vê-la,</l>
						<l>E me destes ouvidos, para ouvi-la,</l>
						<l>Deuses, se junto a mim não posso tê-la,</l>
						<l>Se não posso de longe enfim segui-la?</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Sem ela a vida fora-me tranquila,</l>
						<l>Mas em meu céu lançada aquela estrela,</l>
						<l>Que tão meiga e suave em mim cintila,</l>
						<l>Não pude mais, não quis de então perdê-la.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Acho melhor a inquietação que sinto</l>
						<l>Dentro de mim, que meu sossego extinto:</l>
						<l>Faz-me bem, há delícia inda em tal dor;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Sofrer por ela a todo instante é gozo;</l>
						<l>Prefiro a luta a intérmino repouso,</l>
						<l>Prefiro à eterna paz o eterno amor.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A virgem</head>
					<opener>
						<epigraph>
							<cit rend="italic">
								<quote>
									<l rend="indent3">La verginella è simile alla rosa.</l>
								</quote>
								<bibl rend="indent5">Ariosto</bibl>
							</cit>
						</epigraph>
					</opener>
					<lg>
						<l>É toda virgem lírio branco, ou rosa,</l>
						<l>Que entre espinhos nasceu, e anda guardada,</l>
						<l>Que é vestida de fulva luz radiosa,</l>
						<l>Da terra, e céu, e sol enamorada;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E um nicho de perfume habita, e agrada</l>
						<l>Como flor; mas abelha sequiosa</l>
						<l>Teima com o inseto e a douda passarada</l>
						<l>A ver quem mimos seus primeiro goza.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Se conserva inocente e intacto o seio,</l>
						<l>É sempre bela: é bela enquanto é pura;</l>
						<l>Mas se alguém arrancá-la ao encanto veio,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Desmaia logo a sua formosura,</l>
						<l>E o amor, que tanto a ebriou, e lhe era enleio,</l>
						<l>O amor noutros vergéis amor procura.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Carlota</head>
					<lg>
						<l>Desatas o corpete, e abres o seio,</l>
						<l>Como a cecém a virginal corola,</l>
						<l>Depois o teu olhar, cantando, rola,</l>
						<l>Dando as voltas sublimes de um gorjeio,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Num ritornello, num suave enleio,</l>
						<l>Que em doidas festas teu filhinho enrola,</l>
						<l>E cais num largo e fundo devaneio,</l>
						<l>Que te unindo a ele só, do mais te isola.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Como ao vento, que passa, a luz de um círio,</l>
						<l>Vendo o teu rosto, que um luar desbota,</l>
						<l>Teus peitos brancos, como o cacto ou o lírio,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Treme minha alma de emoção ignota,</l>
						<l>E então compreendo Werther em delírio</l>
						<l>Ante a imagem serena de Carlota...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O anjo da fé</head>
					<opener>
						<epigraph>
							<cit rend="italic">
								<quote rend="indent3">
									<l>Primeiro hão de correr</l>
									<l>Pera traz rios e mar,</l>
									<l>Nas cousas discórdia haver,</l>
									<l>Que a mim me falecer</l>
									<l>Desejo de inda a gozar.</l>
								</quote>
								<bibl rend="indent5">Bernardim Ribeiro – Églogas</bibl>
							</cit>
						</epigraph>
					</opener>
					<lg>
						<l>Sonho de amor, estrela peregrina</l>
						<l>Por céus onde se azula a primavera,</l>
						<l>Rosa ideal de um éden, que imagina</l>
						<l>Quem se refoge na mais alta esfera,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Sombra de luz que me segreda: Espera.</l>
						<l>Mão que atravessa abismos, e se inclina,</l>
						<l>Trazendo a transbordar cheia a cratera</l>
						<l>De uma bebida cálida e divina;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Cimos que busco, cimos, que não vejo,</l>
						<l>Eu para vós adejo... adejo... adejo...</l>
						<l>Sois tão longe, eu bem sei; tão longe! embora:</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>O Anjo da Fé murmura-me: Caminha...</l>
						<l>E eu digo: — Vem, ó tu, que hás de ser minha:</l>
						<l>Por que tardas assim? — Que te demora?...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head rend="italic">La poverina</head>
					<lg>
						<l>Vi num quadro, talvez cópia de Tintoretto,</l>
						<l>Uma gentil fanciulla, errante e poverina,</l>
						<l>Que eu guardara na glória em fogo de um soneto,</l>
						<l>Como num áureo escrínio a pérola mais fina.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Como o fundo, em que estava, era estranha ruína;</l>
						<l>Magra, entretanto forte, um mármore perfeito,</l>
						<l>E acesa de clarões, como um diamante preto,</l>
						<l>Tempestua-lhe à espádua a grenha leonina.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>A dor fulva do luar toda a pintura exala.</l>
						<l>Nero no Coliseu, nas Termas Caracala,</l>
						<l>Crê-se que inda lá dentro em longa orgia estão.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Roma arranjando a ossada às púrpuras da lua,</l>
						<l>Olha, sem levantar-se, a bela deusa nua,</l>
						<l>E o templo e o altar da deusa em pedras pelo chão...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A gota d’água</head>
					<lg>
						<l>Não há pedra que a água não consuma;</l>
						<l>Sem ferir-se, a água fere a pedra dura;</l>
						<l>Quer tempo: e gota e gota, uma após uma,</l>
						<l>A beija, a encanta, a enlaça, a envolve, a fura.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Caminha mais: rendilha-se de espuma;</l>
						<l>E enquanto existe rocha, e a gota dura,</l>
						<l>A água trabalha, até que enfim murmura,</l>
						<l>Sem ter, sob os seus pés, mais rocha alguma.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Fez dela um berço, em que anos mil porfia,</l>
						<l>Agora ao sol, agora à luz da lua,</l>
						<l>Para urdir nesse berço a penedia!...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Hoje, nele espreguiça-se e flutua;</l>
						<l>E ri de um fauno astuto e vil, que espia</l>
						<l>Náiade ao colo seu dormida e nua...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Sonhar!</head>
					<opener>
						<epigraph>
							<cit rend="italic">
								<quote>
									<l rend="indent3">t’was like a sweet dream...</l>
								</quote>
								<bibl rend="indent5">T. Moore - Lolla Rookh</bibl>
							</cit>
						</epigraph>
					</opener>
					<lg>
						<l>Sonho às vezes... levando-a desta fria</l>
						<l>Estância a um paço em zonas levantinas,</l>
						<l>Num lago, em cujas margens haveria</l>
						<l>Cactos, rotins, bambus e casuarinas,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Onde em junco pintado de harmonia</l>
						<l>Com o céu, e o verde d’água, e a cor das finas</l>
						<l>Porcelanas, que o sol inflama, iria</l>
						<l>Ela beirando a fímbria das colinas.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Das grandes aves do Oriente as penas</l>
						<l>De oiro e esmeraldas, prasios e turquezas</l>
						<l>Dar-lhe-iam sombra ao lácteo rosto apenas.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E em honra à flor mais branca das devesas,</l>
						<l>Lhe entornaria a noite nas melenas</l>
						<l>O escrínio azul das pérolas acesas.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Nuvem</head>
					<lg>
						<l>Criança de olhar límpido e tranquilo,</l>
						<l>Esculturada, como lavro as odes,</l>
						<l>Quando de espaço e olímpico as burilo,</l>
						<l>Cheias de canto e luz, como os pagodes:</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Tu só entendes, tu somente podes,</l>
						<l>Lendo, ouvir o que em si tem de sigilo:</l>
						<l>E o oiro delas, — e é só o escrínio abri-lo,</l>
						<l>Como aos astros nos céus faz Deus, sacodes.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Ouves ondear na estrofe o teu perfume;</l>
						<l>Vês o universo, que uma voz resume;</l>
						<l>Há loureiros nuns sons, há sóis, e mais...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E não têm conta as pérolas que arranca</l>
						<l>Teu dedo à espuma, que as envolve, ó branca...</l>
						<l>Branca nuvem de uns brancos ideais!...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Mulher triste</head>
					<lg>
						<l>Quando ela passa como um sol ou luz,</l>
						<l>Rasgando o fundo azul ao firmamento,</l>
						<l>Sinto em torno de mim o irradiamento</l>
						<l>De alguma cousa leve que flutua...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Um leve estremecer de carne nua...</l>
						<l>Um ruído de vida sonolento...</l>
						<l>Um barulho de rosas... e o contento</l>
						<l>Dos lírios brancos pela espádua sua.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E o ambiente de aroma em que ela nada!?</l>
						<l>E a nesga azul na pálpebra pousada</l>
						<l>A espremer-lhe no olhar clarões de aurora!?</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Mas tudo, tudo, imerso em funda mágoa...</l>
						<l>Parece, como a estrela dentro da água,</l>
						<l>Que é dentro de uma lágrima que mora...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A mãe</head>
					<lg>
						<l>Tinha uma graça infinda... uma estranheza</l>
						<l>Na cor do rosto fina e desmaiada;</l>
						<l>Um toque de oiro na imortal beleza...</l>
						<l>E a noite, enfim, dos olhos estrelada!</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Uma gorda criança pendurada</l>
						<l>À mama chupa em langue morbideza,</l>
						<l>E, entre a opala e o rubor de aurora acesa,</l>
						<l>Sai-lhe o bico da boca entrecerrada.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Uma das mãos já túmida e vermelha</l>
						<l>Suspende e abraça o filho; a outra semelha</l>
						<l>Na brancura, que um leve azul tempera,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Obra de arte, que um chim pintasse em louça,</l>
						<l>Enquanto dentro, — em cada olhar da moça, —</l>
						<l>Nada em luz, canta e ri uma Quimera.</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1884</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head rend="italic">Farewell</head>
					<lg>
						<l>É noite. — Pela curva azul celeste</l>
						<l>Fervem astros no enorme firmamento:</l>
						<l>Coração, alma, e sangue, e pensamento</l>
						<l>O pélago do céu profundo investe.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Ó sóis, quem essas clâmides vos veste?</l>
						<l>Ó nebulosas, quem vos roja ao vento?</l>
						<l>Ó abismo pesado e sonolento,</l>
						<l>Quem te abriu? ou tu mesmo te fizeste?...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Ilhas de oiro, serenas, luzidias,</l>
						<l>Que alvo procura o vosso eterno adejo?</l>
						<l>Para quem são as vossas harmonias?</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Sois belas... sois... Mas até logo... Vejo</l>
						<l>Que falta às vossas músicas sombrias</l>
						<l>O murmúrio do seu casto beijo.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>De menina a moça</head>
					<lg>
						<l>Que é isso então? Que incógnita tristeza</l>
						<l>A um estranho prazer se lhe mistura?</l>
						<l>Revolve em torno, dentro em si procura</l>
						<l>De um tal enigma ter qualquer certeza.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Tem-na em seus fios novo encanto presa;</l>
						<l>Doce, como a serpente da escritura,</l>
						<l>Embala-a o amor na voz da formosura,</l>
						<l>Luxuosa chega e o afirma a natureza.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Andava alegre e andava atormentada,</l>
						<l>Vendo num largo céu azul, que abria,</l>
						<l>A alva, que aí vem, e deuses de emboscada...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Calhandra perto lhe apontava o dia,</l>
						<l>E já manhã, mas inda em névoa enleada,</l>
						<l>Tudo nela cantava e tudo ria...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head rend="italic">Ignota dea</head>
					<opener>
						<argument>
							<p>Pelo Azul</p>
						</argument>
					</opener>
					<lg>
						<l>Se houver na terra quem entenda este meu canto,</l>
						<l>Um anjo, um Eloá, espírito de luz,</l>
						<l>Que escadas de cetim faz de escadas de pranto,</l>
						<l>E muda em raios de oiro os cravos duma cruz;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E acolhe um aleijão da sorte sem espanto,</l>
						<l>Sem asco, sem terror, com seus dois braços nus,</l>
						<l>Que estenda sobre mim as dobras do seu manto,</l>
						<l>Que me leve consigo onde o céu o conduz;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Consigo se quiser levar-me ao paraíso,</l>
						<l>Basta só que me acolha à sombra do seu riso</l>
						<l>E abra, e arqueie, e me estenda um cantinho da mão:</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E fazendo baixar até mim sua imagem,</l>
						<l>Murmure entre aflição e esperança: — Coragem,</l>
						<l>Sempre algum coração quer outro coração...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Às portas de Alhambra</head>
					<lg>
						<l>A tristeza, que os olhos teus inunda,</l>
						<l>Sobe-te da alma, à espessa treva presa:</l>
						<l>E tudo que ela encerra, e nela abunda,</l>
						<l>Se esconde nessa nuvem de tristeza.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Vejo-te assim, fantástica princesa,</l>
						<l>Mendiga à noite, pálida, errabunda,</l>
						<l>Como a miséria lúgubre e profunda,</l>
						<l>Às portas duma Alhambra em festa acesa.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Nasceste gêmea com a Aurora, e és filha</l>
						<l>Da luz; e a luz do céu em ti rebrilha:</l>
						<l>Fez-te rainha a formosura, ó flor.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Porém teu pobre coração vazio</l>
						<l>Faz-te morrer de fome, e sede, e frio</l>
						<l>Às portas de oiro dessa Alhambra, o Amor.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Cadáver de virgem</head>
					<lg>
						<l>Estava no caixão como num leito,</l>
						<l>Palidamente fria e adormecida;</l>
						<l>As mãos cruzadas sobre o casto peito,</l>
						<l>E em cada olhar sem luz um sol sem vida.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Pés atados com fita em nó perfeito,</l>
						<l>De roupas alvas de cetim vestida,</l>
						<l>O torso duro, rígido, direito,</l>
						<l>A face calma, lânguida, abatida...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>O diadema das virgens sobre a testa,</l>
						<l>Níveo lírio entre as mãos, toda enfeitada,</l>
						<l>Mas como noiva que cansou da festa...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Por seis cavalos brancos arrancada,</l>
						<l>Onde vais tu dormir a longa sesta</l>
						<l>Na mole cama em que te vi deitada?</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A eterna Vênus</head>
					<lg>
						<l>Quando, nos ricos panteões, procuras</l>
						<l>Mármores vivos de mulher, ao vê-los,</l>
						<l>Não sentes inda o susto de perdê-los,</l>
						<l>Oh! mágoa! nas catástrofes futuras?</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>O que Atenas legou de ideais modelos,</l>
						<l>Tipo de raça, em grandes formosuras,</l>
						<l>Quando nos dava as suas criaturas,</l>
						<l>Envoltas só no véu dos seus cabelos!...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>O gênio grego límpido e quieto,</l>
						<l>Como o céu e o seu mar, guarda no menos</l>
						<l>Trabalhado pedaço o mais completo</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Que a arte tem em pentélicos serenos;</l>
						<l>E a flor nos deu das filhas de Japeto,</l>
						<l>Perfeita, eterna, e imaculada em Vênus...</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1898</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Traquinas</head>
					<lg>
						<l>Com vestido de branca musselina,</l>
						<l>A farta trança negra derreada,</l>
						<l>Sem uma joia, ou brinco, ou flor, sem nada,</l>
						<l>Era de uma riqueza peregrina.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Tinha a idade da aurora essa menina,</l>
						<l>Magra e forte, serena e descuidada;</l>
						<l>Cada pé numa concha nacarada...</l>
						<l>Creras, ao vê-la débil e franzina.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Na fronte riam desmaiadas cores;</l>
						<l>Dava de um anjo a tímida lembrança...</l>
						<l>Das asas dela ouviam-se rumores.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Como uma borboleta que não cansa,</l>
						<l>Tornava a casa num vergel de flores...</l>
						<l>Lembrava ainda a virginal criança.</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1883</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head rend="italic">Sunt animae rerum</head>
					<lg>
						<l>Estrelas, que loucura e garridice</l>
						<l>As vossas danças esta noite têm?!...</l>
						<l>E quem, há muito tempo, se não risse,</l>
						<l>Vendo-vos rir, deitara a rir também.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Arroios desgrenhados de doidice,</l>
						<l>Por entre seixos, que buscais além?</l>
						<l>Beijam-se os velhos troncos!... E há quem visse</l>
						<l>Fremindo um lírio ao pé de uma cecém!...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>A noite é um ninho; o amor uma doçura;</l>
						<l>E quando a brisa pelo azul murmura,</l>
						<l>Soluça o bosque... e há beijos pelo val!...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Deuses e deusas turbulentamente</l>
						<l>Passam a rir no laranjal florente...</l>
						<l>Ou chora... ouvis?... ou chora o laranjal?...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Que vos daria?...</head>
					<lg>
						<l>Se tiverdes, um dia, um capricho, Senhora,</l>
						<l>Um capricho, um delírio, uma vontade, enfim,</l>
						<l>Não exijais o carro azul, que monta a aurora,</l>
						<l>Nem da estrela da tarde o plaustro de marfim.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Nem o mar, que murmura e aí vai por mar em fora,</l>
						<l>Nem o céu doutros céus, elo de céus sem fim;</l>
						<l>Que se isto fosse meu, já vosso há muito fora,</l>
						<l>Fora vosso o que é grande e anda em torno de mim...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Mostrasse num só gesto ingênuo um só desejo...</l>
						<l>O universo, que vejo, e os outros, que não vejo,</l>
						<l>Sofreriam por vós vosso último desdém.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Que faríeis dos sóis, grãos vis de areias de ouro?</l>
						<l>Mulher, pede-me um beijo e verás o tesouro</l>
						<l>Que um beijo encerra e o amor que um coração contém.</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1898</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head rend="italic">Quand même</head>
					<lg>
						<l>Minha alma anda a voar pelo ambiente</l>
						<l>Com o adejo sem fim da mariposa,</l>
						<l>Que a flor do paraíso em torno sente,</l>
						<l>Mas roubar um aroma à flor não ousa.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Ela quer... quer, anseia, e não repousa,</l>
						<l>Sem saber uma vez, uma somente,</l>
						<l>Que tu entendes seu amor ardente,</l>
						<l>E que dele te orgulhas qualquer cousa.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Podem outros, que não te entendem tanto,</l>
						<l>Julgar que não mereces o meu canto,</l>
						<l>Que é demais ver-te sol doirando azuis,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Que é meu amor o equívoco de uma hora:</l>
						<l>Que importa? Eu vejo em ti meu céu, embora</l>
						<l>Creiam-te o lume errante dos pauis...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Iluminação interior</head>
					<lg>
						<l>Fitas de ouro bordando o morro e a encosta!...</l>
						<l>Veio argênteo que a cinge, e ondula e bolha!...</l>
						<l>Ígneas rosas que o céu sobre ele esfolha!...</l>
						<l>E ante isso a alcova, a um claro-escuro exposta.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Tens medo? O amor deste silêncio gosta...</l>
						<l>Que suor frio a tua fronte molha!...</l>
						<l>Encosta a boca à minha boca, encosta...</l>
						<l>Oh! que o beijo murmure apenas, olha...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Baixo, carícias; ouvem-nos fazê-las:</l>
						<l>Põe o dedo de rosa ao lábio, aurora;</l>
						<l>Deuses e sóis, passai, passai, sem vê-las.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Luz, fica à porta, espera-nos lá fora:</l>
						<l>Rolai ao fundo de minha alma, estrelas,</l>
						<l>Onde ela está, onde a festejo agora.</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1886</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Escrínio</head>
					<lg>
						<l>Eu imagino pérolas perfeitas,</l>
						<l>Que inda dormem nos mares do Oriente,</l>
						<l>E diamantes de esplêndidas facetas</l>
						<l>A rir nos seios do Brasil ardente.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Veludo cróceo, deslumbrante, quente,</l>
						<l>Cheio da alma odorosa das violetas;</l>
						<l>Ouro, piropo, e as rútilas palhetas</l>
						<l>De artista raro, grande, onipotente...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Cinzel de Fídias, tinta de Murillo</l>
						<l>Para uma joia lúcida e sonora,</l>
						<l>Para um escrínio de divino estilo,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Onde a guardasse, onde, entre pasmo e assombro,</l>
						<l>Ninguém a visse um dia pôr de fora</l>
						<l>A asa que eu lhe conheço em cada ombro.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Via smarrita</head>
					<opener>
						<epigraph>
							<cit rend="italic">
								<quote>
									<l rend="indent3">Che la diritta via era smarrita</l>
								</quote>
								<bibl rend="indent3">Dante - Inferno</bibl>
							</cit>
						</epigraph>
					</opener>
					<lg>
						<l>Ela vendo-se só comigo, teve medo.</l>
						<l>Estávamos num bosque à noite: o escuro intenso,</l>
						<l>Apesar do luar belíssimo, o arvoredo</l>
						<l>Lançava em torno, — um muro em ruínas suspenso.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Na relva aberta, aos pés, havia o olho de um tredo,</l>
						<l>Um carreiro assassino, a iludir-nos propenso:</l>
						<l>Atrás da serra o sol caía então mais cedo;</l>
						<l>Ao meu lado tremia a folha, ou ela, eu penso.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Vinham três ébrios dando urros, enchendo o espaço</l>
						<l>De gritos; os perfis de quem foge à procela,</l>
						<l>Que ruma; uma mulher bufando de cansaço.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>O vento uivando: — ao longe, ao menos à janela</l>
						<l>Da casa, a luz a rir?  não ria: e ela ao meu braço</l>
						<l>A ter terror de mim!... e eu a ter terror dela...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O mal da vida</head>
					<lg>
						<l>Amor, pois, é a esplêndida loucura,</l>
						<l>E a miséria de um sol que nos invade?</l>
						<l>Caiu alguém aos pés da formosura</l>
						<l>Que lhe não deixe aos pés razão, vontade?</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Este delírio vem da eternidade,</l>
						<l>Vem de mais longe, eu sei: — quem o procura</l>
						<l>Acha-o mais velho do que Deus: quem há de</l>
						<l>Fugir do mal da vida por ventura?</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E o amor é o mal que acaba em paraíso;</l>
						<l>E para dar-nos céus num só lampejo</l>
						<l>Basta-lhe um pouco, um nada é-lhe preciso:</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>De sonhos de oiro e luz calça o desejo:</l>
						<l>E então, de dia, em rosa abre o seu riso,</l>
						<l>E em ampla estrela, à noite, abre o seu beijo...</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1897/1909</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Triunfo</head>
					<lg>
						<l>Deixo as torcidas, hórridas carrancas</l>
						<l>Da inveja e do ódio, — um vesgo, outra impotente, —</l>
						<l>E encontro ao ver-te (ó deuses bons!) em frente</l>
						<l>Abertos, como largas asas brancas,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Teu santo olhar, o teu sorrir clemente:</l>
						<l>À sombra deles que alegria franca!</l>
						<l>E à mão, como ave tímida e fremente,</l>
						<l>Meu pobre coração à dor arrancas.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Bebo o céu com seus sóis em ti num beijo;</l>
						<l>Eu acho em ti o que amo e o que desejo;</l>
						<l>Tu achas tudo quanto em mim esperas...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E em minha audácia, em meu orgulho dantes,</l>
						<l>Após meus grandes sonhos triunfantes,</l>
						<l>Marcho ao hino das rútilas quimeras.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A investidura</head>
					<lg>
						<l>Quando o grupo invencível dos gigantes,</l>
						<l>Ao som da lira harmônica tangida</l>
						<l>Movendo os rubros, triunfais descantes,</l>
						<l>Parou na minha incógnita guarida,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E a púrpura de estrelas guarnecida,</l>
						<l>E laços de oiro, e rendas deslumbrantes,</l>
						<l>Me fez vestir... tremi e a minha vida,</l>
						<l>Não maior, não mais calma a vi, que dantes.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Então roncaram por meus pés as setas;</l>
						<l>E ouvindo urrar aos hinos de vitória</l>
						<l>A plebe vil das ambições inquietas,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Eu sopesava as páginas da história,</l>
						<l>Rijas, de bronze, e lendo a vida aos poetas,</l>
						<l>Ia-os seguindo à apoteose e à glória.</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1887</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head rend="italic">In fide</head>
					<lg>
						<l>O lindo barco da gentil rainha,</l>
						<l>De estrelas a granel colmado e ufano,</l>
						<l>As sonorosas vagas do oceano</l>
						<l>Com proa de oiro retalhando vinha,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E, como um lírio, à flor d’água marinha</l>
						<l>Abria as vastas pétalas de pano:</l>
						<l>De Nereidas azuis um grupo insano</l>
						<l>Em torno dele canta e redemoinha.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Como em tela de artista, a recortada</l>
						<l>Montanha, envolta em luz do sol mais puro,</l>
						<l>Enchia o fundo, túmida, aprumada.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E eu a esperava em terra... e tão seguro!...</l>
						<l>Ai! e ainda te espero (e em vão!) amada</l>
						<l>Rainha, ó Glória, ó Ânsia do futuro...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Em pleno azul</head>
					<lg>
						<l>Voa, meu galeão fantástico; galeras</l>
						<l>Companheiras, abri as deslumbrantes velas;</l>
						<l>Rumo ao país azul e ideal das quimeras,</l>
						<l>Temporais, vede-os ir; vede-os ir, ó procelas.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Praias de jalde, e de oiro, e nácar tendes belas</l>
						<l>Ilhas, que vejo ao longe!... E eu quero-vos deveras;</l>
						<l>Aproaremos a uma onde as doidas querelas</l>
						<l>Rujam dos Imortais, repartindo as esferas.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Deixo-te, terra, velha eivada de pesares,</l>
						<l>Que a invisível bordão já trêmula se arrima;</l>
						<l>Alga podre do céu, morta estrela dos ares;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Destroço vão de um mundo, o teu fim se aproxima:</l>
						<l>Nutriste vermes só aos seios seculares...</l>
						<l>Foge, meu galeão; acima, acima, acima...</l>
					</lg>
				</div>
			</div>
			<div type="part">
				<head>Gravuras</head>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Primeira missa no Brasil</head>
					<opener>
						<salute>A Victor Meirelles</salute>
					</opener>
					<lg>
						<l>Céu transparente, azul, profundo, luminoso;</l>
						<l>Montanhas longe, encima, à esquerda, empoeiradas</l>
						<l>De luz úmida e branca; o oceano majestoso</l>
						<l>À direita, em miniatura; as vagas aniladas</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Coalham naus de Cabral; mexem-se inda ancoradas;</l>
						<l>A praia encurva o colo ardente e gracioso;</l>
						<l>Fulge a concha na areia a cintilar; grupadas</l>
						<l>As piteiras em flor dão ao quadro um repouso.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Serpeja a liana a rir; a mata se condensa,</l>
						<l>Cai no meio da tela: um povo estranho a eriça;</l>
						<l>Sobre o altar tosco pau ergue-se em cruz imensa.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Da armada a gente se ajoelha; a luz golfa maciça</l>
						<l>Sobre a clareira; e um frade, ao ar, que a selva incensa,</l>
						<l>Nas terras do Brasil reza a primeira missa.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A crisálida</head>
					<opener>
						<salute>A Capistrano de Abreu</salute>
					</opener>
					<lg>
						<l>Cai das pedras a fonte: iria o chamalote</l>
						<l>D’água arrufada ao sol — a joia do seu manto;</l>
						<l>E uma mulher, quebrando o belo talhe, entanto</l>
						<l>Parece que procura apanhá-lo num pote.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>A atitude em que está levanta-lhe o saiote,</l>
						<l>E desce-lhe o corpete; é vê-la assim um encanto;</l>
						<l>Tem a moleza e o ardor da barra de oiro, enquanto</l>
						<l>Coalha na lingoteira o fúlvido lingote.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>São amplos os quadris; os dois pequenos peitos</l>
						<l>Têm brancuras e azuis, são duros e perfeitos;</l>
						<l>Sai do colo o fulgor da porcelana fina.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Crisálida ideal, donde irrompe a Frineia,</l>
						<l>Tem a força que doma, a graça que fascina...</l>
						<l>E na carne a rugir panteras de alcateia...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Sanguínea</head>
					<opener>
						<salute>A Alberto de Oliveira</salute>
					</opener>
					<lg>
						<l>Longe... vasto horizonte retalhado</l>
						<l>De serras cor de um glauco-azul, distantes;</l>
						<l>Brumas por cima, como véus flutuantes;</l>
						<l>Perto... o fragor das músicas do prado.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>O acre, o intenso bálsamo exalado</l>
						<l>Da mata, onde andam Faunos, como dantes;</l>
						<l>Rochedos ideais, e as espumantes</l>
						<l>Águas do rio às cristas pendurado.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Um cheiro bom das cousas, que embriaga;</l>
						<l>A luz que sobe, sobe, embebe, alaga</l>
						<l>O azul enorme; a gárrula manhã,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Correndo a oiro e pérolas as nuvens...</l>
						<l>Ora!... Deus plagiando um quadro a Rubens?!...</l>
						<l>Quando isto vir, o que dirá <choice><orig>Rembrandt</orig><seg type="apo">Rembrâ</seg></choice>?!</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1884</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Gravura misteriosa</head>
					<lg>
						<l>Por quê? Não sei: mas tu entras nesta gravura.</l>
						<l>Olha. — Um torso auroral de deusa, o oval nitente</l>
						<l>Da alva barriga, o incêndio, o alarido, a fartura</l>
						<l>Da trança, em que ela esconde o que tem de serpente.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Há na tela, em cada ângulo, o esboço inteligente</l>
						<l>De um sileno, os dois pés de cabra, a catadura</l>
						<l>Impossível, grotesca e austera, impertinente</l>
						<l>E lasciva, obliquando o olhar à formosura.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Mato; anões; grifos maus entre enigmas; orgias</l>
						<l>De quimeras floreando uma banalidade;</l>
						<l>O infinito a fugir por baixo de arcarias</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Finas, atorçalando o vago e a obscuridade...</l>
						<l>E eu quantas vezes vi que tu dali saías,</l>
						<l>Como um silfo atravessa o aranhol de uma grade!</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1887</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A fonte que extasia</head>
					<opener>
						<salute>A Arthur Azevedo</salute>
					</opener>
					<lg>
						<l>Por soberbos degraus de mármore luzente</l>
						<l>Sobe-se ao chafariz de bronze; e despenhada</l>
						<l>Em pérolas sutis e em grãos de ouro a corrente</l>
						<l>D’água cai como gaza apenas arrufada.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>De um lado a embebe, a doira, a iria o sol cadente,</l>
						<l>E doutro a fere a sombra aérea e desmaiada,</l>
						<l>Que vem de uns véus de opala, em que anda envolto o ambiente...</l>
						<l>Afoga-se em silêncio a abóbada azulada.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Duas pombas irmãs na nítida brancura,</l>
						<l>Tendo os pés cor-de-rosa à borda da bacia,</l>
						<l>Bebem, rugando o colo: — enquanto a água murmura,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E um Amor de metal, que encima o aquário, espia...</l>
						<l>Uma linda mulher, que a jarra encher procura,</l>
						<l>Deixa que ela transborde e ante o Amor se extasia.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Paisagem nos Alpes</head>
					<opener>
						<salute>A Garcia Redondo</salute>
					</opener>
					<lg>
						<l>É noite. — Invade a tela a luz azinhavrada.</l>
						<l>Água larga, folheada em mica iriante e aço,</l>
						<l>Vem de longe: após lambe astrágalos da arcada,</l>
						<l>Que uma ponte romana ergue aos ombros no espaço.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>A lua, como uma ave imensa depenada,</l>
						<l>Paira sobre a torrente; em monte enterra o braço</l>
						<l>Na água, que foge, espuma, urra, ulula entalada,</l>
						<l>Enquanto a um tempo a envolve em sombra de espinhaço.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>O leito é abrupto, vasto, os ângulos cosidos</l>
						<l>De raquítica relva, e o vento, que murmura,</l>
						<l>Anda no pinheiral, vê-se aos ramos torcidos.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Sobre a ponte um chalé das rochas se pendura,</l>
						<l>E ouve-se um grande cão enchendo o ar de ladridos,</l>
						<l>E um lobo a uivar, que surge a meio da espessura.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Cão da terra nova</head>
					<lg>
						<l>O pai saiu: a mãe sai, e o filhinho deixa</l>
						<l>No berço, um anjo rubro em céu do Espanholeto;</l>
						<l>E vai serena e forte, e vai sem uma queixa,</l>
						<l>Com seu amor, que é de ódio e de ternura feito.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>A um Terra-Nova escuro, um cão à casa afeito,</l>
						<l>Fia a flor dessa carne, e o ouro dessa madeixa:</l>
						<l>Ai! de quem nesse lírio, o seu tesoiro, mexa;</l>
						<l>Ai! de quem se aproxime, estranho e alheio, ao leito!</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E enquanto dorme e ri, e ri e dorme a criança,</l>
						<l>Como em torno de um barco o mar as vagas lança,</l>
						<l>Cerca-a do seu olhar, e interroga-a... O que quer?...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E o paternal carinho o engrandece e ilumina,</l>
						<l>Como auréola ardente em cabeça divina,</l>
						<l>Como em virgem, que sonha, um sonho de mulher...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Um tigre ao luar</head>
					<opener>
						<salute>A Felix Ferreira</salute>
					</opener>
					<lg>
						<l>Cai no bosque o luar... Como o luar é lindo!...</l>
						<l>A abóbada do céu tem os leites da opala.</l>
						<l>Um cheiro penetrante e doce a mata exala,</l>
						<l>Nuns fantásticos véus os ombros encobrindo.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>No silêncio, em que jaz, contudo está-se ouvindo</l>
						<l>A meiga voz, a voz de amor, com que ela fala;</l>
						<l>A sombra, que soluça, a luz num beijo embala...</l>
						<l>Desce um vago tremor do firmamento infindo.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Como numa aquarela, escoam-se os caminhos...</l>
						<l>Há passos no moital... há barulho nos ninhos...</l>
						<l>Há Dríades na relva... há Deuses pelo ar...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Um sabiá rompe o canto à beira da floresta,</l>
						<l>Enquanto um tigre vem solenemente à festa,</l>
						<l>E escuta-o sob o pálio aberto do luar...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Rubens</head>
					<lg>
						<l>Um conde italiano, moço e airoso,</l>
						<l>Enfim suspende o toque da guitarra;</l>
						<l>E inda retalha a esplêndida fanfarra</l>
						<l>O ambiente morno, lúbrico, cheiroso.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Um negro esbelto, fino e musculoso,</l>
						<l>Vermiculada de oiro argêntea jarra</l>
						<l>Sustém na salva; impertinente gozo</l>
						<l>Lança ao vestido da duquesa a garra.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Pinta Rubens a eleita: — aí vem, aí passa;</l>
						<l>Olha-a, erguido o pincel; passou; — mistura</l>
						<l>Nova tinta; compõe: a doma, a enlaça.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Palmas ao mestre; a triunfal pintura</l>
						<l>Venceu: de hoje em diante à eterna graça</l>
						<l>Junta o poema da cor a formosura.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Van-Dyck</head>
					<opener>
						<salute>A Arthur Barreiros</salute>
					</opener>
					<lg>
						<l>Tintinam taças dos cristais mais finos</l>
						<l>Da Boêmia no mármore da mesa;</l>
						<l>Fervem ainda os vinhos purpurinos</l>
						<l>Das jarras de ouro; a sala esplende acesa.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Principescos senhores, femininos</l>
						<l>Rostos, que fulgem de ideal beleza,</l>
						<l>Juntos, e em vários grupos peregrinos,</l>
						<l>Conversam: canta entanto uma duquesa.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Enquanto mãos de artista e de fidalgo</l>
						<l>Tiram de um cravo a música escolhida,</l>
						<l>Brincam sobre o tapete um negro e um galgo.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>A sala é um céu, um firmamento a vida...</l>
						<l>E entre eles, — grave a pálida figura, —</l>
						<l><choice><orig>Van-Dyck</orig><seg type="apo">Vãm Dique</seg></choice> estuda uns toques de pintura.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Alberto Dürer</head>
					<lg>
						<l>Mas... por que Dürer dava a eternidade</l>
						<l>Do seu nome imortal, com tanto esmero,</l>
						<l>Para salvar do olvido a fealdade,</l>
						<l>Como que diz: eu devo, eu posso, eu quero?</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Dele se ouvia: — O tempo é meu, quem há de</l>
						<l>Erguer o tempo contra mim? — E o Homero,</l>
						<l>E o Hesíodo da cor, tremendo e fero,</l>
						<l>Enchia o monstruoso de verdade.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E viva horrivelmente a natureza</l>
						<l>Se estorcia na tela e na gravura</l>
						<l>Do grande artista, a um fogo enorme acesa.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Quem nos explica pois essa loucura,</l>
						<l>E a causa dessa intérmina tristeza?</l>
						<l>Que mal lhe fez, um dia, a formosura?...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Ovídio</head>
					<lg>
						<l>Com que dor tu deixaste Roma, e em Roma</l>
						<l>O coração, que em ti foi tudo, ó poeta!</l>
						<l>A glória ia a embalar-te a vida inquieta,</l>
						<l>E um belo sol de amor, que a doira, a soma.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Teu plectro a Orfeu os sons mais doces toma;</l>
						<l>Tem o teu surto incircunscrita meta;</l>
						<l>A inveja, um cão sem asas, jamais doma</l>
						<l>A uma águia o voo, a um gênio obra que enceta.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Ao exílio embora o ódio te sagra, o exílio</l>
						<l>Dá mais doçura ao hexâmetro latino;</l>
						<l>Há todo um campo em flor num teu idílio.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Na dor, que em ti pranteia, alvora um hino;</l>
						<l>Fulge a lágrima dele em cílio e cílio;</l>
						<l>Cantar, sofrer, ser deus, foi teu destino.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Dante</head>
					<opener>
						<argument>
							<p>(Gravura de Botticelli)</p>
						</argument>
						<salute>A Luiz Murat</salute>
					</opener>
					<lg>
						<l>Sobe de um vão tonilho ao estrondear de vozes,</l>
						<l>Que urram, rangem mordendo a lôbrega floresta:</l>
						<l>Na clâmide romana, e sob os louros resta</l>
						<l>Parado o mantuano ante as bestas ferozes.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>A púrpura, que rola até aos pés, empresta</l>
						<l>Uma austera tristeza ao companheiro; atrozes</l>
						<l>Gritos golpeando o ar, que a noite em pranto infesta,</l>
						<l>Dão-lhes ao rosto a cor das lívidas cloroses.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Pragueja, ulula o horror do desesperado eterno:</l>
						<l>Sombras em multidões regougam, rugem... O inferno</l>
						<l>Entornou sobre a tela o escopro de um gigante.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Embalde!... A tela, a pedra, o bronze não aguenta</l>
						<l>Os sóis negros chispando em meio da tormenta,</l>
						<l>Em que andam gênio, amor, e as cóleras de Dante...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Núpcias de Artaxerxes</head>
					<opener>
						<salute>A Valentim Magalhães</salute>
					</opener>
					<lg>
						<l>O sândalo, que enerva, o nardo, que embriaga,</l>
						<l>Nas caçoulas queimado em fumo se desata,</l>
						<l>Que se enrosca em festões na vasta colunata;</l>
						<l>A harpa curva estremece à fina mão que a afaga.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Dentre as colunas vê-se o azul, que em luz se alaga,</l>
						<l>Tamareiras gentis, nopais de sombra grata:</l>
						<l>O alto estrado real de mármore e de prata</l>
						<l>Mancha um jorro de sol, como uma enorme chaga.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Artaxerxes de pé ao lado da judia</l>
						<l>Tem o prazer da fera, — uma calma sombria. —</l>
						<l>Dá tons de sangue a luz à festa nupcial.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Da África e da Ásia a força e o orgulho aos pés avista:</l>
						<l>E o seu olhar, que lambe a esplêndida conquista,</l>
						<l>Darda em torno a algidez aguda do punhal.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Um Cristo alemão</head>
					<lg>
						<l>Há um Cristo alemão de um cunho peregrino:</l>
						<l>Fronte espaçosa sob uma cabeça loura,</l>
						<l>Escrínio que o ideal puríssimo entesoura,</l>
						<l>Barba bem penteada, e rosto feminino,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Longo cílio, que adoça a luz do olhar divino,</l>
						<l>Pele branca, que o sol do Oriente apenas doura,</l>
						<l>Uma boca gentil, que para o beijo fora,</l>
						<l>Se ela não fora para outro melhor destino.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Nada altera esse gesto eterno de bondade;</l>
						<l>Guarda ainda a beleza, a graça, a majestade,</l>
						<l>Entre dois homens vis, nu, em sangue, na cruz.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Gosto deste ideal: a dor mais o levanta.</l>
						<l>Por seu suplício, por sua obra grande e santa...</l>
						<l>Merecia ser Deus o pálido Jesus.</l>
					</lg>
				</div>
			</div>
			<div type="part">
				<head>Marinhas</head>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A apanhadeira de conchas</head>
					<lg>
						<l>Fantástica explosão de oiro e pedrarias!...</l>
						<l>Rendilhados Kremlins em chama... O sol declina...</l>
						<l>Soprando torto búzio, impa o vento, e na fina</l>
						<l>Areia arrasta à dança as nereidas bravias.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Recortam-se num fundo azul as serranias,</l>
						<l>E os navios aquém arfam, e os ilumina,</l>
						<l>Esculpindo-os no ar, a tarde purpurina,</l>
						<l>Na nota escura das ígneas oleografias.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Pobre mulher na praia, acaso, neste instante,</l>
						<l>Colhendo conchas, só, — ouvindo a cantilena</l>
						<l>Das vagas, com um sorriso agarrado ao semblante,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Como a alga ao seixo, alvar, vil, mesquinha, pequena,</l>
						<l>Pelo oceano estendendo a sombra de um gigante,</l>
						<l>Dava um toque de vida humana à vasta cena.</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1887</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Efeitos de lua</head>
					<opener>
						<salute>Ao paisagista Decio Freire</salute>
					</opener>
					<lg>
						<l>Há nas serras, em arco, a forma da moldura</l>
						<l>Que fecha em roda a vasta e límpida aquarela:</l>
						<l>O claro-escuro é bom; tem perspectiva a tela;</l>
						<l>Vibram toques de luz no céu de tal doçura</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Que a mesma noite ri e aos astros se mistura;</l>
						<l>Dorme-lhe o oceano aos pés, como o leão da novela;</l>
						<l>Ao terral, que chegou, a água apenas murmura;</l>
						<l>Duas barcas de pesca arfam por cima dela.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Da indolência em que a vaga embala-se e flutua;</l>
						<l>Como um corcel do mar, que o dorso de repente</l>
						<l>Dardo em chama feriu — salta, avança, recua...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Do alto viso do monte, entre árvores, em frente,</l>
						<l>Fisga-lhe as flechas de oiro a caçadora nua,</l>
						<l>E ao largo-verde flanco as torce lentamente...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Gaivotas</head>
					<lg>
						<l>Do crespo mar azul brancas gaivotas</l>
						<l>Voam — de leite e neve o céu manchando,</l>
						<l>E vão abrindo às regiões remotas</l>
						<l>As asas, em silêncio, à tarde, e em bando.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Depois se perdem pelo espaço ignotas,</l>
						<l>O ninho das estrelas procurando:</l>
						<l>Cerras os cílios, com teu dedo notas</l>
						<l>Que elas vêm outra vez o azul furando.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Uma na vaga buliçosa dorme,</l>
						<l>Uma revoa em cima, outra mais baixo...</l>
						<l>E ronca o abismo do oceano enorme...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Cai o sol, como já queimado facho...</l>
						<l>Do lado oposto espia a noite informe...</l>
						<l>Tu me perguntas se isto é belo?... e eu acho...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Surpresa</head>
					<lg>
						<l>Dorme a cidade. A noite à fronte dela assenta</l>
						<l>O áureo resplendor de estrelas, com que c’roa</l>
						<l>Os mártires também; a brisa sonolenta</l>
						<l>Perpassa, e ouve-se quase o cair da garoa.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>À pesca. — Enche a maré ruflando: esta hora é boa.</l>
						<l>A vaga oscila, vem, cai, soluça, rebenta,</l>
						<l>Como um beijo de amor na areia, em doce e lenta</l>
						<l>Carícia: a água festeja a alígera canoa.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>O pescador então, fincando o remo, lança</l>
						<l>O pássaro marinho à vaga azul, que range,</l>
						<l>Ferve: canta-lhe após a rir uma esperança.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Mas súbito pegão, que as asas foscas tange,</l>
						<l>Nos anéis de uma serpe invisível, que avança,</l>
						<l>Vibra-lhe a lua, como ensanguentado alfanje...</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1887</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Pintura a fresco</head>
					<lg>
						<l>Como um cisne pousado na lagoa,</l>
						<l>Por onde as asas cor de neve estende,</l>
						<l>E que, se ao fundo azul do céu não voa,</l>
						<l>O fundo azul das mansas águas fende...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Assim a fina, a quérula canoa,</l>
						<l>Que lado a lado as duas velas prende,</l>
						<l>Talha, como estilete, o mar com a proa,</l>
						<l>Que todo em oiro e pérolas se acende.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Sentado ao leme o canoeiro aspira</l>
						<l>A acre aragem, que vem como uma lira</l>
						<l>Cantar-lhe à marcha doce e preguiçosa.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Fundem morros e céus num arabesco...</l>
						<l>E o quadro assim ao sol parece um fresco</l>
						<l>Que um Rubens pinta ouvindo um Cimarosa.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A canoa</head>
					<lg>
						<l>Ela notava então... (e com que graça</l>
						<l>Ela notava com seu lindo dedo!...)</l>
						<l>A vaga azul do mar lambendo a medo</l>
						<l>Leve canoa, que oscilando passa.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>É quase do tamanho de uma taça...</l>
						<l>Vai rente e rente à beira do rochedo...</l>
						<l>Ai!  se a asa, em que vai, se lhe embaraça,</l>
						<l>Morre a ave marinha ali bem cedo!...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Isto dizendo, tristemente ria,</l>
						<l>Porque seu casto riso de alegria</l>
						<l>Tem de outro riso a eterna viuvez.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Mas os ricos tesouros de Golconda,</l>
						<l>Que ela mostrava no sorriso à onda,</l>
						<l>Tinham mais brilho e mais valor talvez.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Cousas da tarde</head>
					<lg>
						<l>Era o disco do sol, no poente, um forno</l>
						<l>Aberto, a chama calma, e cor-de-rosa:</l>
						<l>E a lua, uma camélia branca, adorno</l>
						<l>Que tinha a tarde azul na trança ondosa.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Criara o amor o acaso, e a voluptuosa</l>
						<l>Hora, e o lugar, e o monte escuso, em torno</l>
						<l>Do qual as vagas, num marulho morno,</l>
						<l>Gemiam, como quem ou sofre ou goza.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Profundamente um cheiro glauco e amargo</l>
						<l>Aspirávamos nós, num beijo insano...</l>
						<l>Num beijo insano, demorado, largo.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Fugia ao longe um barco a todo pano...</l>
						<l>E era uma dor sumir-se... sem embargo</l>
						<l>De quanta verde luz enchia o oceano...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Pela praia</head>
					<lg>
						<l>Vão mais depressa... Deixa-os. — Dá-me o braço;</l>
						<l>Vem das sombras do monte, em roda, o escuro;</l>
						<l>Há muita tarde; o medo é prematuro;</l>
						<l>Não temas: vá, mais devagar o passo.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Mais devagar... assim. Esse cansaço</l>
						<l>Cura-se, haurindo lentamente ar puro;</l>
						<l>Não receies; teu corpo ao meu seguro,</l>
						<l>Encostado, é mais leve, encurta o espaço.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Olha os teus pés; levanta um pouco a saia,</l>
						<l>Qué-los beijar o mar, os quer, e afaga:</l>
						<l>Cai a noite? — Que tem que a noite caia?</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Com que delícias o terror nos paga,</l>
						<l>Quando vamos tão bem a sós na praia,</l>
						<l>Ouvindo a flauta ao vento, e o búzio à vaga!...</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1898</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Dança de Tritões</head>
					<lg>
						<l>Vasquejava o oceano indômito defronte:</l>
						<l>Como corola agreste, a choupana de pinho</l>
						<l>Abria-se por sobre o dorso hirto do monte,</l>
						<l>Entre o álacre esplendor do mato em flor, vizinho.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Como aranhol de festa, a lua no horizonte</l>
						<l>Alumiava o areal e as curvas do caminho;</l>
						<l>Na praia, negro, horrendo, a coma em desalinho,</l>
						<l>Parecia o penedo aspérrimo Caronte.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Nele atada uma lancha: a lancha arfando inquieta...</l>
						<l>E ele rijo, de pé, nessa inflexível reta;</l>
						<l>Pela grama descia um carreirinho ao mar;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E mulheres enchendo-o, e um grupo de crianças</l>
						<l>Riam, vendo na praia a cadência das danças</l>
						<l>De espadaúdos Tritões, búzios soprando ao luar.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A farsa dos mortos</head>
					<lg>
						<l>Quando a Aurora ao surgir ia ensopando o espaço</l>
						<l>De aromas bons, parou: — que fez parar a Aurora?</l>
						<l>Fugiram-lhe, em remoinho, as pombas do regaço,</l>
						<l>Caíram-lhe do cinto as rosas de ouro em fora.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Os pássaros, que prende à tenda, que decora,</l>
						<l>Poisavam-lhe, cantando, à coma, ao ombro, ao braço;</l>
						<l>E em pé, de um lírio viu, a nau que o mar devora</l>
						<l>Há três dias, rosnando ante astrágalos de aço.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E onda a onda entoava uma odisseia ignota;</l>
						<l>E os cadáveres rindo um riso alvar de idiota,</l>
						<l>Mostrando os dentes e movendo os olhos tortos,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Rolavam numa dança insana e persistente:</l>
						<l>E o velho oceano os via, e zombava igualmente</l>
						<l>Da ironia dos céus e da farsa dos mortos...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head rend="italic">Nocte oceanus</head>
					<lg>
						<l>Como um milhar de leões — disse-me o Oceano — eu rujo!</l>
						<l>Pois bem: à tarde, em pé, eu vi do tombadilho</l>
						<l>Do barco em que ia, entrar no oceano o Sol, por cujo</l>
						<l>Antro ainda lançava ao longe ígneo rastilho;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E a Noite vir, trepar, subir, como um marujo,</l>
						<l>Por mastros e brandais cheios de asas, e brilho</l>
						<l>De anéis de aço e de bronze areados, — num sarilho,</l>
						<l>Manchando tudo em torno ao pulso enorme e sujo...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E eu surpreendi embaixo o mar numa humilhada</l>
						<l>Atitude ante o Céu calmo, estrelado e frio:</l>
						<l>E essa água assim escura, ondeante e fatigada,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Parecia-me então um polvo luzidio</l>
						<l>Que pelo dorso imundo e visguento, agarrada,</l>
						<l>Arrastava na sombra a concha do Navio!</l>
					</lg>
				</div>
			</div>
			<div type="part">
				<head>Levantinas</head>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Arco</head>
					<lg>
						<l>Viajo agora ebriado o velho Oriente...</l>
						<l>E eu que sei o esplendor das formas tuas,</l>
						<l>Que és branca, como o luar das noites suas,</l>
						<l>Que és, como o aroma dos seus bosques, quente,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Tendo-te sempre em meu pensar presente,</l>
						<l>Lagoa funda e quieta em que flutuas,</l>
						<l>E que a beijar-te as doces carnes nuas,</l>
						<l>Nunca sinto fartar-me e estar contente:</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Em chão sáfaro mesmo, ou mau, que piso,</l>
						<l>Rasgo, estendo, armo, enfloro um paraíso,</l>
						<l>Granizo sóis e o solo é deles cheio.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Mas das rútilas cousas que imagino,</l>
						<l>Tu só me deste, ó puro ser divino,</l>
						<l>Lâmpada de oiro eterna em céus que arqueio...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A sede de Padixá</head>
					<lg>
						<l>À noite o Padixá raríssimos instantes</l>
						<l>Furta ao labor imperial: dorme sob o crescente,</l>
						<l>Na verdura, Istambul; arfa a aragem do oriente...</l>
						<l>Voa à vela o caíque em ondas de diamantes.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Leva só velho eunuco, e a escrava adolescente,</l>
						<l>Nua... quase em nudez, as formas deslumbrantes,</l>
						<l>Cantando à harpa tricorde uma canção dolente,</l>
						<l>Que faz ver, como um sonho, as mesquitas distantes.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Num descuido de harém, numa graça felina,</l>
						<l>— Ouves? quero beber o céu, Abdul dizia;</l>
						<l>— Ouço: e estendendo a mão branca, comprida e fina,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Ela, por não lhe dar o que no olhar lhe ria,</l>
						<l>Perfidamente meiga, em taça bizantina</l>
						<l>Dava-lhe o céu, que em fogo o Bósforo acendia...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Palácio de verão</head>
					<opener>
						<salute>A Mucio Teixeira</salute>
					</opener>
					<lg>
						<l>Tremem beijos do sol na fina porcelana</l>
						<l>Do palácio imperial, redondo e torreado,</l>
						<l>Sobre os cristais do rio Amarelo pousado,</l>
						<l>Onde passa o verão a gentil soberana.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Ela, — as horas, que vão morosamente, — engana,</l>
						<l>Por entre as grades pondo o rosto cinzelado,</l>
						<l>Como um vaso de cobre em Pequim trabalhado;</l>
						<l>E o olhar molhado em luz, que sussurra e espadana,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Solta-o pela corrente abaixo, ao longe... e espera,</l>
						<l>Como outro sol, luzindo à popa da galera,</l>
						<l>Entre os seus mandarins, o belo imperador;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Vê-se entre o ferro as mãos, louras como manteiga,</l>
						<l>E as unhas de coral, e a expressão vaga e meiga</l>
						<l>Da mulher quando oscila entre a saudade o amor.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>À conquista do sol</head>
					<lg>
						<l>O guarda-sol de seda à mão longa e alourada,</l>
						<l>Como o bronze que luz nas jarras de Pequim,</l>
						<l>E o leque noutra mão, cuja folha espalmada</l>
						<l>De penas de pavão abre sobre marfim,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Andando sobre os pés, como uma ave pousada,</l>
						<l>Curtos pés em prisão dentro dum borzeguim,</l>
						<l>Que a levam, como a vaga oscilando, embalada</l>
						<l>Pelas brisas do mar no verde mar sem fim,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Sobre campos de chá, cuja flor branca alveja,</l>
						<l>Entre bambus em moita e rotins verde-escuro,</l>
						<l>À cuja sombra o quiosque ao céu azul adeja,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Torres de porcelana e de caulim mais puro...</l>
						<l>Ela vai esperar que o imperador a veja...</l>
						<l>Põe no filho do sol o sol do seu futuro.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O-Hana</head>
					<lg>
						<l>Não tinha O-Hana a cor amarelada</l>
						<l>Das pinturas da louça japonesa;</l>
						<l>Mas... era branca, e de uma tal fineza,</l>
						<l>Como a da neve aos fogos da alvorada.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>De estirpe régia e antiga, era princesa</l>
						<l>Com todos os prestígios de uma fada:</l>
						<l>Nada faltava à oriental beleza</l>
						<l>Dessa mulher encantadora... nada.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>De um camicém seu nome era a harmonia,</l>
						<l>E, quando alguém O-Hana repetia,</l>
						<l>O céu, a rir-se, o festejava ao ouvi-lo.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Amava o chá, as flores e os diamantes:</l>
						<l>E seus olhos de raios crepitantes</l>
						<l>Brilhavam, como sóis num mar tranquilo...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Pérola querida</head>
					<lg>
						<l>Pérola azul de esplêndido horizonte,</l>
						<l>Onde a aurora encontrou eterno asilo,</l>
						<l>Pois te auréola tanta luz a fronte,</l>
						<l>Como a luz com que o sol alaga o Nilo,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Pérola em cima do mais alto monte,</l>
						<l>Como a lua de olhar doce e tranquilo,</l>
						<l>Desejo, diz Abdul, não sei se o conte,</l>
						<l>E, se contando, tu rirás de ouvi-lo...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Rica joia do Cairo, eu desejava</l>
						<l>Ser o pórfiro branco, em que se lava</l>
						<l>Teu rosto, e as mãos fulgindo entre os anéis,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Mas sobretudo, ó pérola divina,</l>
						<l>Quisera ser a fonte cristalina</l>
						<l>Em que te banhas da cabeça aos pés...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Feliz - infeliz</head>
					<lg>
						<l>Fi lhe dizia: — A tua boca, que arde,</l>
						<l>É como a luz, que chega e enche o caminho.</l>
						<l>Na alva a calhandra, o rouxinol à tarde</l>
						<l>Cantam ao colo teu branco de arminho.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Quem uma vez sofreu o teu carinho,</l>
						<l>Quem foi só, por mais só enfim que seja,</l>
						<l>Atrás não volta, e nem voltar deseja:</l>
						<l>Anda, e não sabe mais andar sozinho.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Leva de ti a sombra, o brilho, e o aroma;</l>
						<l>E um ar de deus vencido, que se anula,</l>
						<l>O desgraçado para sempre toma.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Em ti o sol lhe nasce, a ave modula,</l>
						<l>E sabe que beijando a mão, que o doma,</l>
						<l>Outro a beijou, e em breve um outro a oscula...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Nascer do sol</head>
					<lg>
						<l>Acorda, como emir voluptuoso,</l>
						<l>Na cálida ebriez de essências puras,</l>
						<l>E traz a enorme cicatriz do gozo</l>
						<l>O sol, trajando as largas vestiduras.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>À noite, que de esplêndidas loucuras,</l>
						<l>Beijando uris em raivas de amoroso!</l>
						<l>E o divã, — entre nítidas brancuras, —</l>
						<l>Guarda mal o segredo duvidoso.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Veem-se amarelos sândalos na cama,</l>
						<l>Lençóis esparsos, véus da cor da chama,</l>
						<l>Laca vermelha, cintas e corais,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Sandálias de esmeralda, ramalhetes,</l>
						<l>Argolas de oiro, fulvos braceletes,</l>
						<l>E o acre rubor de carnes ideais!</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O felá</head>
					<lg>
						<l>Guarda o sultão Ramsés um diamante,</l>
						<l>Um rubi, uma pérola Moabita,</l>
						<l>Que era do seu harém a favorita,</l>
						<l>De um belo olhar de ferro chamejante.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>O raio doce, trêmulo, iriante,</l>
						<l>Dava a luz dum punhal, que ao sol se agita:</l>
						<l>Mas tinha um gesto às vezes suplicante</l>
						<l>De estrela que de um lago azul nos fita.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Um felá, que uma vez a viu somente,</l>
						<l>Ficou doido e dizia a toda a gente:</l>
						<l>— Não hão de ser os meus desejos vãos</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Quando vir que por ela eu choro tanto...</l>
						<l>Virá com beijos recolher meu pranto</l>
						<l>Às taças brancas das marmóreas mãos.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A festa do Rajá</head>
					<lg>
						<l><choice><orig>Rajá Nallá-Tambyr-Modelear</orig><seg type="apo">Rajá Nalá tambir modelear</seg></choice> stá sentado</l>
						<l>Num coxim, um primor da Pérsia, numa sala</l>
						<l>Que forra o vetiver com arte entrelaçado,</l>
						<l>E que, ao pancá que passa, o morno odor exala.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Medrosa a luz por entre as esteiras resvala</l>
						<l>— Odalisca a pasmar num serralho fechado, ―</l>
						<l>E o ardente hucá, que entrança um filó perfumado,</l>
						<l>Numa sombra discreta o fulvo ambiente embala.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Por colunas, que têm a graça das palmeiras,</l>
						<l>Da varanda, que em torno o doce éden rodeia,</l>
						<l>Adivinha-se a acácia, os bambus, as figueiras...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Escoam-se os chocrás... a música escasseia...</l>
						<l>Morre... e logo depois ouve-se a sala cheia</l>
						<l>Dos beijos de Nalá... dos ais das bailadeiras...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Ocasos</head>
					<lg>
						<l>Thou Fou pensava: — Ó Fchitrá, queria</l>
						<l>Dar-te a beber em vaso primoroso,</l>
						<l>Do caulim, que não há mais hoje em dia,</l>
						<l>O pranto meu, que já conter não ouso.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Junto a ti gole e gole, e gozo e gozo,</l>
						<l>Haurindo o aroma, que de ti viria,</l>
						<l>E um chá cor do teu corpo saboroso,</l>
						<l>Eu lentamente, e quase alegre, iria.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Na pintura da taça, enfim, teu brando</l>
						<l>Olhar, um rio ao vento a arfar, percorre,</l>
						<l>Vendo um cisne, e um golfinho atrás, nadando,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Enquanto a luz prateada e mole escorre</l>
						<l>D’água azul, machucada, em pregas, quando</l>
						<l>Frio o sol, e o amor teu mais frio, morre.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O aduar</head>
					<lg>
						<l>No aduar serpenteia a fila de elefantes:</l>
						<l>Têm brilhos de iatagã os recurvados dentes,</l>
						<l>E por sobre os <choice><orig>faquir’s</orig><seg type="apo">faquíris</seg></choice> austeros e indolentes</l>
						<l>Torcem, ao sol que os morde, as caudas palpitantes.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>O cansado cornaca, à sombra dos gigantes,</l>
						<l>Dorme na areia: ao sul há miragens ridentes;</l>
						<l>Passam trombas ao norte, e beduínos distantes:</l>
						<l>A alma do mar rodando em todo o areal presentes.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>O junco verde e esguio, o rotim em soqueira</l>
						<l>Emergem d’água, que dentre as uranias mana;</l>
						<l>Do cardo olha o chacal; o tigre o ambiente cheira;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Na tenda o pancá freme; a música espadana;</l>
						<l>Bate os pés, gira, salta, ondeia a bailadeira;</l>
						<l>E o emir, que ela inebria, esquece a caravana...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O minuto de Mei-Bi</head>
					<lg>
						<l>Mei-Bi à tarde, em hora cismadora,</l>
						<l>E Yuan consigo, trêmulo, indeciso,</l>
						<l>Olhava ao largo e ao longe o negro friso</l>
						<l>D’água, como um cabelo que o sol doura:</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E dizia-lhe Bi: “Se o instante fora</l>
						<l>Eterno, eterno fora o paraíso,</l>
						<l>À sombra acesa e boa do teu riso,</l>
						<l>Na minha a tua mão cavada e loura;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Num grande fogo, em púrpura o ocidente,</l>
						<l>O bangalô entre os rotins metido,</l>
						<l>Na areia fulva, à margem da corrente;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>O vento a amarrotar o teu vestido,</l>
						<l>E a levantá-lo mesmo de repente,</l>
						<l>Num beijo curto, curto e irrefletido...”</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O riso de Bahvany</head>
					<lg>
						<l>Assim dizia Abdul a Bahvany: — Deitado</l>
						<l>Tens à boca de aurora um riso em flor, que ebria,</l>
						<l>Como um faquir repousa ao sol do meio-dia</l>
						<l>Sobre um tigre de dorso escuro e acetinado.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Tem o humilde animal o fundo olhar velado:</l>
						<l>É uma cama doce, elétrica, macia;</l>
						<l>E abre indolentemente a fauce, onde à porfia</l>
						<l>Há marfim, há coral róseo ao mar arrancado.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Morde o sono o faquir, o domador da fera:</l>
						<l>Esta, mau grado a calma intensa, inquieta espera,</l>
						<l>Lambendo as garras de aço e afiando-as ao chão.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Rosa fulva também sobre os teus lábios dorme:</l>
						<l>Jaz teu riso, o faquir, enquanto o tigre enorme</l>
						<l>Ouve nele o rumor das maltas do Indostão...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O universo de Alim</head>
					<lg>
						<l>No esplêndido al-maraje e na indolência</l>
						<l>Que pede o Oriente tépido e cheiroso,</l>
						<l>Maharajá — flor e joia de opulência, —</l>
						<l>Ouvia ao poeta Abdul, grave e em repouso.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E Abdul cantava: — Alim, a uma inocência</l>
						<l>— Um loto branco em vaso melindroso, —</l>
						<l>Amava tão sem calma, e sem prudência,</l>
						<l>Que a fazia chorar para seu gozo.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Na doce luz da lágrima chorada,</l>
						<l>Como o lago em que um cisne corta e nada,</l>
						<l>Banhava-se cantando um rouxinol.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Era Alim: — E o universo, ele dizia,</l>
						<l>De novo nos seus olhos se fazia...</l>
						<l>E era esse orvalho... o seu primeiro sol.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O faquir e o sultão</head>
					<lg>
						<l>Tinha o faquir um sestro, uma cegueira:</l>
						<l>Amava a filha do sultão Mohamede;</l>
						<l>Vê-la, e beijar-lhe as mãos, é quanto pede;</l>
						<l>E leva nisso sua vida inteira.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Soube o sultão, e disse-lhe: — Esterqueira,</l>
						<l>Que come arroz de Mangalor e fede,</l>
						<l>Põe o Corão à tua cabeceira,</l>
						<l>E que do meu caminho Alá te arrede.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Senhor, diz-lhe o faquir: — Sou um cachorro;</l>
						<l>Mas... que quereis?... por vossa filha morro,</l>
						<l>Sofrendo alegre o criz que me ferir.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Quando os meus olhos nas estrelas cravo,</l>
						<l>Têm elas que temer do pobre escravo?</l>
						<l>Que mal lhes faz o mísero faquir?...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O Kun e o Nun</head>
					<lg>
						<l>Contam: — De Cachemira um rei antigo,</l>
						<l>Que ao das Índias negava vassalagem,</l>
						<l>Andava langue, fraco e sem coragem,</l>
						<l>Tudo ocultando ao seu melhor amigo.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Fala um dia ao vizir: — Virás comigo.</l>
						<l>E foi com ele à esplêndida paragem:</l>
						<l>Parecia que o odor da própria aragem</l>
						<l>Dobrava-o, como à branca flor do trigo.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E às montanhas azuis erguia os dedos:</l>
						<l>Desenhavam-se o Kun e o Nun ao fundo</l>
						<l>Do céu sereno, esplêndidos rochedos.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E diz: — Que longo amor, que amor profundo!</l>
						<l>Pois só as pedras sabem-lhe os segredos?</l>
						<l>Não há dois corações iguais no mundo...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Thou-Fou</head>
					<lg>
						<l>Thou-Fou prendeu, em folha que escolhera,</l>
						<l>Mundos de oiro de uns olhos luminosos,</l>
						<l>Rubis de argola, prasios de pulseira,</l>
						<l>Da fulva seda os poemas capitosos,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Joias da boca, que à baunilha cheira,</l>
						<l>Dos pés de ave que oscila os tons radiosos,</l>
						<l>O azeviche da trança, e, ondeada e inteira,</l>
						<l>A forma rota, antemostrando gozos,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Em bronze esborcinado as mãos pequenas,</l>
						<l>E essas, que voam no seu ninho apenas,</l>
						<l>Duas pombas em que ninguém tocou:</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E quando veio o vento do levante,</l>
						<l>Leva, diz, dando-a ao vento, à minha amante;</l>
						<l>Vendo-a, dirá: vem dele; é de Thou-Fou.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A sultana</head>
					<lg>
						<l>Foi festa, e grande, em toda Cachemira</l>
						<l>Quando chegou, montada no elefante...</l>
						<l>Viu-se em leve sandália de safira</l>
						<l>O seu pé de uma alvura deslumbrante;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Colhendo as sedas, sua mão ferira</l>
						<l>Com luz nevada a multidão, diante</l>
						<l>Da qual o rosto apenas descobrira</l>
						<l>Na sombra do riquíssimo turbante;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Mas quando viram seus nevados seios,</l>
						<l>Brancos, riscados de azulados veios,</l>
						<l>C’roados de uma auréola de cabelos,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>— Tênues fios de estrela que irradia...</l>
						<l>Para não ofendê-la à luz do dia</l>
						<l>Fugiram dela ao trote dos camelos.</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1901</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Um drama no deserto</head>
					<lg>
						<l>Tu ias sobre o dorso do elefante,</l>
						<l>Já perto das ruínas de Balbeque,</l>
						<l>Aromando o teu rosto de diamante</l>
						<l>Com sândalos do teu flexível leque.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Tu vales Cachemira deslumbrante,</l>
						<l>Vales Mafoma e Alá, inda que eu peque;</l>
						<l>Por isso eu ia à sombra do gigante,</l>
						<l>Lamentando não ser um grande xeque.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Quando o simum soprando de improviso,</l>
						<l>Muda em nagas de areia o paraíso,</l>
						<l>Em que ias tu, ó flor de madavi!...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Eis que te salvo em meu robusto braço...</l>
						<l>E quando o sol furou de novo o espaço,</l>
						<l>Teu doce olhar a me morder senti!...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Capricho de Sardanapalo</head>
					<lg>
						<l>“Não dormi toda a noite! A vida exalo</l>
						<l>Numa agonia indômita e cruel!</l>
						<l>Ergue-te, ó Radamés, ó meu vassalo!</l>
						<l>Faço-te agora amigo meu fiel...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Deixa o leito de sândalo... A cavalo!</l>
						<l>Falta-me alguém no meu real docel...</l>
						<l>Ouves, escravo, o rei Sardanapalo?</l>
						<l>Engole o espaço! É raio o meu corcel!</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Não quero que igual noite hoje em mim caia...</l>
						<l>Vai, Radamés, remonta-te ao Himalaia,</l>
						<l>Ao sol, à lua... voa, Radamés,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Que, enquanto a branca Assíria aos meus pés acho,</l>
						<l>Quero dormir também, feliz, debaixo</l>
						<l>Das duas curvas dos seus brancos pés!...”</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A núbia</head>
					<lg>
						<l>Alegre, fresco, límpido, cantando,</l>
						<l>Na eterna mocidade das torrentes,</l>
						<l>Passa pelos destroços esplendentes</l>
						<l>De um povo grande, agora miserando,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>O velho rio, o manto desdobrando,</l>
						<l>Riscada à noite pelos sóis ridentes:</l>
						<l>Da boca azul os cristalinos dentes</l>
						<l>Vão os restos dos templos triturando.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Aí contudo o Nilo — enorme espelho —</l>
						<l>E em sua tenda o negro esbelto e rude,</l>
						<l>E o alígero corcel, e o tigre e o leão,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E o dromedário, e o céu, e o Mar Vermelho</l>
						<l>Têm inda o viço, as cores e a atitude</l>
						<l>Das paisagens da Bíblia e do Alcorão.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Mênfis</head>
					<lg>
						<l>Amon-Rá lança esplêndidas zagaias,</l>
						<l>E veste o Nilo azul de oiro e diamantes:</l>
						<l>E os loureiros em flor, das curvas praias</l>
						<l>Olham, manchando-o, as velas palpitantes.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Maio embandeira: os bandos doudejantes</l>
						<l>De pardais e bulbuis cantam nas faias:</l>
						<l>Fila de acácias, renque de gigantes</l>
						<l>Cedros circundam da cidade as raias.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Entre estátuas graníticas do Siena</l>
						<l>Levanta a fronte rútila e serena</l>
						<l>Mênfis, que doiram rindo eternos sóis.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Dizem dela: — As estrelas serão mortas:</l>
						<l>Mas dentro a mole de esculpidas portas</l>
						<l>Hão de sempre reinar os Faraós...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Ecbatana</head>
					<lg>
						<l>Das espáduas graníticas do Oronte</l>
						<l>Ergue, como um cocar de penas de ouro,</l>
						<l>Seus templos grandes, vastos, como um monte.</l>
						<l>Roja-lhe o mundo o universal tesouro.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Rugem leões; panteras rugem. — Louro,</l>
						<l>Nopal, acácia enfloram-lhe o horizonte;</l>
						<l>O sol pousa-lhe a garra à altiva fronte;</l>
						<l>Cantam vagas do Cáspio ao longe em coro.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Relutam, ruem às portas da cidade,</l>
						<l>De sedas, joias, ouro e cheiro alteados,</l>
						<l>Mil elefantes; ri-se a mocidade.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E clamam, vendo-a os hóspedes chegados:</l>
						<l>“Sultana da Ásia, tens na eternidade</l>
						<l>A pérola em que pões teus pés dourados”.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O Deus do silêncio</head>
					<lg>
						<l>Não sei por quê; porque dizer não ouso:</l>
						<l>Seguindo estância e estância o antigo rito,</l>
						<l>No templo de Ísis, adorava o Egito</l>
						<l>O deus sem voz, o deus misterioso.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Milhões de olhos de um vago olhar aflito</l>
						<l>Cobrem-lhe o corpo; e em lânguido repouso,</l>
						<l>Guardando um gesto altivo e desdenhoso,</l>
						<l>Poisava à boca um dedo de granito.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E como um olho só, tudo isso olhava</l>
						<l>Do fundo de uma orelha, que o envolvia:</l>
						<l>E aos seus pés vendo a turba imbele e escrava,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>O mudo olhar inquieto ardia em lava...</l>
						<l>Porém... quanto mais via, e mais ouvia,</l>
						<l>Menos falava o deus que não falava...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O Brâmane</head>
					<div type="section">
						<head>I – Rainadjata</head>
						<lg>
							<l>Outros sofrem, diz Fi, desta tortura,</l>
							<l>E achar devem na taça a mesma lia:</l>
							<l>Bebe-se o amargo e o doce de mistura;</l>
							<l>Se o mesmo vale o cardo e o lírio cria!...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Rolar no loto em flor da formosura,</l>
							<l>Enquanto um outro espera e ansiado espia?!...</l>
							<l>Sombra igual abre o céu por noite escura,</l>
							<l>Luz igual abre o céu por claro dia.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ouvi-la, é ouvir a lira de Nãrada;</l>
							<l>Mas como a estranha voz que diz serpente,</l>
							<l>Ou diz colar de pérolas, quem brada</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Nunca sei; — em que frase ela não mente...</l>
							<l>Mas quando a beijo, e em mim a sinto enleada,</l>
							<l>Creio-a minha... Oh! ser minha eternamente...</l>
						</lg>
					</div>
					<div type="section">
						<head>II - Miçrakéçi</head>
						<lg>
							<l>Disse o Brâmane em casa: — Estão brincando?</l>
							<l>Miçrakéçi morreu, não é?  Que importa?...</l>
							<l>Como a andorinha o azul do céu recorta,</l>
							<l>E atrás duma vem outra, e outra, e um bando,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Uma cabeça apareceu à porta,</l>
							<l>Deitou a medo oblíquo olhar, recuando...</l>
							<l>Mas alguém, que a palpou, num gesto brando,</l>
							<l>Murmura: — Sim, caiu... mas não stá morta.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Para Fi era entanto um corpo extinto:</l>
							<l>Rolara do seu culto de repente,</l>
							<l>Como uma estátua que escapou de um plinto.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>— Morreu; ela morreu? se inda está quente...</l>
							<l>Lhe respondiam; Fi tornava: — Eu minto?!...</l>
							<l>Então, stá morta para mim somente...</l>
						</lg>
					</div>
					<div type="section">
						<head>III - O Brâmane vivo</head>
						<lg>
							<l>Eis o sagrado Brâmane que habita</l>
							<l>Aquele canto da floresta indiana,</l>
							<l>Olhos fitos na abóbada infinita,</l>
							<l>Toda a alma cheia de uma ideia insana.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Imóvel, mudo, nada mais o agita;</l>
							<l>Sustenta-o só a caridade humana;</l>
							<l>E a passarada gárrula se engana,</l>
							<l>Põe-lhe o ninho à cabeça, e às mãos dormita.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>A faia, a tamareira, o aloés selvagem,</l>
							<l>A umbela cada qual dos ramos lança</l>
							<l>Naquela doce e veneranda imagem.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E a sombra, que aos pés dele oscila e dança</l>
							<l>Ao som do quim da perfumosa aragem,</l>
							<l>Fá-lo rir, como estólida criança!</l>
						</lg>
						<closer>
							<dateline>1886</dateline>
						</closer>
					</div>
					<div type="section">
						<head>IV - O suplício do Brâmane</head>
						<lg>
							<l>Deixou oiros e mármores de Elora,</l>
							<l>Por não mentir ao seu divino Brahma,</l>
							<l>E foi na selva, onde o silêncio mora,</l>
							<l>Furtar-se ao encanto da mulher: é fama.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>O amor também santos varões devora,</l>
							<l>Com sua intensa e voluptuosa chama;</l>
							<l>E o Ganges muitas vezes não derrama</l>
							<l>Tanta água como quem tais males chora.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Hoje vegetação luxuosa medra</l>
							<l>Em torno dele, que parece pedra,</l>
							<l>E envolve-o no seu verde turbilhão;</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Cantam-lhe em cima os rouxinóis em bando;</l>
							<l>E quem passa parece ouvir cantando</l>
							<l>A alma do monge a eterna dor em vão!...</l>
						</lg>
					</div>
					<div type="section">
						<head>V - O Brâmane morto</head>
						<lg>
							<l>Como rocais de matizada escama</l>
							<l>Brincam-lhe ao colo as serpes enroscadas;</l>
							<l>São quedas d’água a reluzir à chama</l>
							<l>Das longas cãs as ondas arrufadas.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>O olhar já lume interno não derrama;</l>
							<l>Trepam-lhe ao dorso as relvas enfloradas;</l>
							<l>E há um faceiro e pequenino drama</l>
							<l>De lírios rindo em órbitas furadas.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Num ombro à tarde o rouxinol gorjeia;</l>
							<l>Saltam lacraus da fenda dos artelhos;</l>
							<l>Stá do aroma do santo a selva cheia.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Quem o vê põe por terra os dous joelhos:</l>
							<l>E ouvireis, quando ao vento a mata ondeia,</l>
							<l>O Brâmane inda a murmurar conselhos!...</l>
						</lg>
						<closer>
							<dateline>1886</dateline>
						</closer>
					</div>
					<div type="section">
						<head>VI -O Brâmane morto, a rir</head>
						<lg>
							<l>As lianas em flor, dos pés à fronte</l>
							<l>Subindo, e os nós do corpo sujeitando,</l>
							<l>Guardam, depois de morto, ao venerando</l>
							<l>Brâmane o gesto em que viveu no monte.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E o leão, e o tigre mosqueado, e o insonte</l>
							<l>Pássaro, e a aurora, e o sol, e o luar brando,</l>
							<l>E as estrelas que fervem no horizonte,</l>
							<l>Há séculos, que o veem a rir, passando.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Junto dele ri tudo, e a tamareira,</l>
							<l>E a acácia, e o cedro, e a fonte que marulha,</l>
							<l>E a luz do céu e o disco da clareira...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Os grandes dentes brancos da caveira</l>
							<l>Têm no seu rir descomunal tal bulha,</l>
							<l>Que arranca igual risada a selva inteira!</l>
						</lg>
						<closer>
							<dateline>1886</dateline>
						</closer>
					</div>
					<div type="section">
						<head>VII - O Brâmane e as Almeias</head>
						<lg>
							<l>Quem entra o bosque? — As rútilas Almeias:</l>
							<l>Têm de bronze polido o corpo fino;</l>
							<l>Vêm em bando; entrelaçam-se em coreias</l>
							<l>Bailando aos pés do Brâmane divino.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Fazem rir; ri a mata à dança e ao hino:</l>
							<l>Pensam elas que o santo monge, em vendo-as,</l>
							<l>Há de sentir das lúbricas amêndoas</l>
							<l>Dos olhos seus o dardo cristalino,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E hão de acordar o secular dormente:</l>
							<l>As mamas bolem, chispam-lhe centelhas</l>
							<l>Das mãos, dos pés, em saltos de serpente;</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>As faces brilham úmidas, vermelhas;</l>
							<l>E do arcabouço veem golfar somente</l>
							<l>Falenas de oiro, turbilhões de abelhas...</l>
						</lg>
						<closer>
							<dateline>1886</dateline>
						</closer>
					</div>
				</div>
			</div>
			<div type="part">
				<head>Mosaicos</head>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O verso</head>
					<lg>
						<l>Juntai bem, e num grupo, cousas belas,</l>
						<l>Cousas viris, ideais, em sons diversos,</l>
						<l>Com frases de oiro, azuis, rubro-amarelas;</l>
						<l>Dai-lhes o ritmo e a luz dos universos:</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E da arte grande, donas e donzelas</l>
						<l>Riam-se, e os parvos, rústicos, perversos...</l>
						<l>Só sobre o tempo ficarão aquelas</l>
						<l>Que o poeta salve em sonorosos versos.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Quando ninguém tiver mais na memória</l>
						<l>De um rei a fama, um campo de batalha,</l>
						<l>Algum retalho esplêndido de história:</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Quando um império, enfim, já nada valha,</l>
						<l>Nem deixe data, ou busto, ou vil medalha,</l>
						<l>Pode um verso guardar-te o nome e a glória.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Num carro de bois</head>
					<opener>
						<epigraph>
							<cit rend="italic">
								<quote>
									<l rend="indent3">Cum sol oceano subest.</l>
								</quote>
								<bibl rend="indent5">Horácio</bibl>
							</cit>
						</epigraph>
					</opener>
					<lg>
						<l>Desde a infância, imortais, vós sonhadores sois!...</l>
						<l>Vós, ó poetas, só vós, ouvis a sinfonia</l>
						<l>Que espalhavam na estrada, ao declinar do dia,</l>
						<l>Um velho, um carro tosco e dois morosos bois!...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Que véu de opala e de oiro em pó fino os cobria...</l>
						<l>Como, a se entrerroçar, inclinavam-se os dois!...</l>
						<l>Pelas cercas à flor a luz inda sorria,</l>
						<l>Dulias de aroma à luz cantava a flor depois!...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Quando, a aguilhada ao ombro, o carreiro indolente,</l>
						<l>Deixava-me ir na caixa, agarrado aos fueiros,</l>
						<l>De lá eu via a sol descer pisando, ao poente,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Espáduas colossais de deuses prisioneiros;</l>
						<l>Enquanto ouvia já passar furtivamente</l>
						<l>As Dríades no vale, os Silfos nos outeiros...</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1885</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A pequena Divina Comédia</head>
					<lg>
						<l>Belo dia de campo!... A noite inteira</l>
						<l>Choveu: o fio d’água da torrente</l>
						<l>Aumenta, engrossa; a ponte de madeira</l>
						<l>Resiste mal à cheia recrescente.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Vem, rio abaixo, ilhota florescente,</l>
						<l>E traz num galho um ninho, de maneira</l>
						<l>Que parece afundar-se, tão à beira</l>
						<l>Vai da vaga ululante, hirta, iminente.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>O ninho tem três pássaros arfando,</l>
						<l>De olhos grandes, cerrados, nus, sem penas...</l>
						<l>Da borda em cima a triste mãe piando,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Voa mais alto, e volta, e louca apenas</l>
						<l>Busca salvar o grupo miserando</l>
						<l>Nas pobres asas, úmidas, pequenas...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Lutas</head>
					<lg>
						<l>Vens para me perder. Desces à arena</l>
						<l>Disposta já para a batalha rude,</l>
						<l>Caída ao colo em ondas a melena,</l>
						<l>E branca, como Ofélia no ataúde.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>A orelha nua, o nimbo da virtude</l>
						<l>C’roa-te a fronte plácida e serena;</l>
						<l>Simples no gesto, casta na atitude...</l>
						<l>A sala compreendendo-te... pequena,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Muda, cheia de enleio, e quase escura,</l>
						<l>Para melhor fazer, como em moldura,</l>
						<l>Brilhar a neve do teu rosto... então</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Chego-me a ti com medo, a voz tardia,</l>
						<l>O passo incerto, a mão molhada e fria...</l>
						<l>E acho mais fria a tua própria mão!...</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1884</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head rend="italic">Pendant...</head>
					<lg>
						<l>Daqui a uns anos mais, que mais esperas?</l>
						<l>Há de incender-se o céu de estrelas de oiro,</l>
						<l>Pelas curvas azuis as primaveras</l>
						<l>Espalharão o seu cabelo louro...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>As covas se abrirão como crateras,</l>
						<l>Berços e ninhos se encherão de choro,</l>
						<l>E hão de fugir nas asas das quimeras</l>
						<l>Os sorrisos e as lágrimas em coro...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Os dias, esfolhando as ígneas rosas,</l>
						<l>Bem como um bando de águias luminosas,</l>
						<l>Varrerão a amplidão dos céus risonhos...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E Deus, no entanto, sonolento, calmo,</l>
						<l>Verá surgir a treva, palmo e palmo,</l>
						<l>Sobre a nossa existência e os nossos sonhos!...</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1884</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Ódio estéril</head>
					<lg>
						<l>Gosta de ver a multidão rendida</l>
						<l>Esta mulher, mais velha irmã da aurora,</l>
						<l>Que, há muito tempo, do botão da vida</l>
						<l>Toda nova, a áurea fronte pôs de fora.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Contudo a luz da tarde amortecida</l>
						<l>Doira-lhe a tez da cor triunfal de outrora,</l>
						<l>E inda conta, sorrindo, hora por hora</l>
						<l>Muita cabeça aos seus dois pés caída;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Seu poder, cheio de desdéns, não cansa:</l>
						<l>E o alfanje rubro, o seu rir voluptuoso,</l>
						<l>Abate a quantos enche de esperança.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Mas eu... por lhe não dar estranho gozo,</l>
						<l>Dou-lhe o meu ódio... e sei que esta vingança</l>
						<l>É um lobo a uivar por seu luar formoso!...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Deus omnipotens</head>
					<lg>
						<l>Sabem? O amor é o deus onipotente,</l>
						<l>Que fecunda o universo, e o traz suspenso:</l>
						<l>A ouvir-se um largo beijo (ouvi-lo eu penso)</l>
						<l>A luz multiplicar-se em luz se sente.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>O seio, que arfa, e ascende, e desce, o ardente</l>
						<l>Astro acusa em si mesmo: é fogo denso;</l>
						<l>Eu, como o argueiro e o espaço, ao sol pertenço;</l>
						<l>Há pedaços de sol em nós somente.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Têm-se contado já num grão de areia</l>
						<l>Muitas mil existências: por ventura</l>
						<l>Há céus, que amor em seus abismos creia?...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Ver mais mundos aí, será loucura?</l>
						<l>Do amor, que aos sóis dá vida, a vida é cheia:</l>
						<l>Vermes, deuses, e sóis amor mistura.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O amor do mendigo</head>
					<lg>
						<l>Gosto de todas: amo-as loucamente...</l>
						<l>Uma, em que palpo o escultural contorno,</l>
						<l>Dispo, tiro-lhe até o último adorno:</l>
						<l>E ouço a forma cantar num corpo quente.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Fremindo o coração, em fogo a mente,</l>
						<l>Chispa, cintila, como aceso forno;</l>
						<l>E o meu olhar, vulcão sangrento e morno,</l>
						<l>Dardeja-lhe punhais, que ela não sente...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Mendigo, em descalcez, roto, esgrouviado,</l>
						<l>Tendo-a nua ao meu seio, amor ensaio...</l>
						<l>Abre-me o sol um leito aveludado:</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Aureola-me a fronte, em deus, com um raio</l>
						<l>De um sonho róseo ao fundo, ela a meu lado...</l>
						<l>Sob a umbela do céu azul desmaio.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A dream</head>
					<lg>
						<l>Da paz maciça dos anacoretas,</l>
						<l>Embebidos nas límpidas esferas,</l>
						<l>Eram também as minhas horas feitas,</l>
						<l>Quando era eu teu e minha então tu eras.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>De ti em torno, como as borboletas,</l>
						<l>Na verde luz das tuas primaveras,</l>
						<l>Queimando as asas de oiro e das quimeras,</l>
						<l>Mal, um dia, as abri, estavam pretas.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>No fogo dos teus olhos que devora</l>
						<l>O branco aroma às brancas açucenas,</l>
						<l>Cria haver toda em corpo e em alma a aurora,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Enchendo o céu de amplas manhãs serenas,</l>
						<l>Um céu sem fim, um céu pelo céu fora...</l>
						<l>E isso tudo... era um largo sonho apenas...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>As naus</head>
					<lg>
						<l>Sobre as asas pairando, as naus entram, na lenta</l>
						<l>Marcha de aves do mar, que chegam fatigadas:</l>
						<l>E, enquanto aos pés em flor uma vaga rebenta,</l>
						<l>Outras cantam solaus, rindo em torno grupadas.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Parecem catedrais marmóreas, torreadas,</l>
						<l>Fugindo a um velho mundo, e fugindo à tormenta,</l>
						<l>Que entre nichos de pedra, e agulhas lanceoladas,</l>
						<l>Rolam pesadamente a mole corpulenta.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Dromedários do mar — intérmino Saara —</l>
						<l>Ó naus, vós afrontais os ciclones, o grito</l>
						<l>Negro, que sai do abismo, e uracões, cara a cara:</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Sois mais que esses troféus lendários de granito,</l>
						<l>No seu panejamento enorme de Carrara...</l>
						<l>Vós, cuja base é o oceano e a cúpula o infinito.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Os grandes anônimos</head>
					<lg>
						<l>Esboço rude dos <choice><orig>Rembrandts</orig><seg type="apo">Rembrâns</seg></choice> infantes,</l>
						<l>Alma que pelos sóis com deuses priva,</l>
						<l>Raça frustrada de titãs errantes,</l>
						<l>Quem te foi mestre em obra assim tão viva?</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Que o ar, a sombra, a luz, em tudo plantes,</l>
						<l>Dando ao conjunto estranha perspectiva!...</l>
						<l>Assim o poeta às odes deslumbrantes</l>
						<l>Ritmo, e harmonia, e graça, e ardor cativa.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Morangos, figos, pêssegos, amoras,</l>
						<l>Maçãs, laranjas, mangas, ananases,</l>
						<l>O que é desenho e cor embalde ignoras;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Mestre sublime, com teus frutos fazes</l>
						<l>Quadro em que rufa um triunfal de auroras,</l>
						<l>E ecoara o hino de pincéis audazes...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Mirabeau e o canto do cisne</head>
					<lg>
						<l>Luz divina e pagã, vem tu em meu socorro,</l>
						<l>Vinde, flores com ela, e com ela a alegria</l>
						<l>De um pedaço de sol, de um pedaço de dia,</l>
						<l>De um pedaço de céu, onde o azul golfe a jorro.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Perfumes siderais, chamais-me? Eu vou; eu corro;</l>
						<l>Por tarde o rouxinol, pela alva a cotovia,</l>
						<l>Quem os pudera ouvir cantar, como os ouvia:</l>
						<l>Mulheres, como é bom viver convosco, e eu morro.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Orquestrizai, clarins: — tempo, ebria-te, ó louco;</l>
						<l>Amor, canta um idílio, e entre eu nele inda um pouco;</l>
						<l>Glória, açula-me a carne, e acende-me aos teus sóis!</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Atleta, estás de pé: ousa alguém desarmar-te?</l>
						<l>Se é preciso partir, vai; é cedo, mas parte:</l>
						<l>Deuses, vós conheceis os deuses e os heróis...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Doudo sublime</head>
					<opener>
						<argument>
							<p>Ante o quadro de Driendl, representando Ferreira Vianna</p>
						</argument>
					</opener>
					<lg>
						<l>Da idade média esplêndida figura</l>
						<l>À geração moderna transplantada;</l>
						<l>Tem de um nimbo de santo a fronte orlada,</l>
						<l>Azul, do muito céu que lhe mistura.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Foi o Pedro Eremita da Cruzada,</l>
						<l>E, como Conde ou Rei, a sepultura</l>
						<l>Buscou de Cristo, a arder na fé mais pura,</l>
						<l>Reluzindo-lhe às mãos tremenda espada.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>A doce cor do rosto macilento</l>
						<l>Acusa o asceta ao fundo de um convento,</l>
						<l>Crendo em visões, melhor sabendo vê-las.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Saiu do horror das lutas de um Sínodo,</l>
						<l>Ébrio de luz, sublimemente doudo,</l>
						<l>Bom para andar num cárcere de estrelas.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Drama esquílico</head>
					<lg>
						<l>À tarde. — A casa à praia. — A brisa harmoniosa.</l>
						<l>Movendo a juba de oiro, amarelo, de lei,</l>
						<l>O mar era o leão de forma fabulosa;</l>
						<l>Lentamente a estendia ao sol, o velho rei.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E as crianças riam, quando a mestra corajosa</l>
						<l>Lhes disse, a rir também: — Aos vossos pais dizei</l>
						<l>Que o colégio acabou, e que eu mesmo acabei...</l>
						<l>E para sempre — adeus, anjinhos cor-de-rosa.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>— Ó mãe, clama a família então, — findou a escola?...</l>
						<l>Mãe... ó mãe, amanhã pediremos esmola!!...</l>
						<l>Aquela voz, que ulula, e acusa, — a ré, a ouvi-la,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Ergueu-se, e o peito em chaga aos filhos mostra... e os sonda...</l>
						<l>O céu se abria atrás da úlcera hedionda:</l>
						<l>E a úlcera era uma estrela em radiação tranquila!...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Sub parva lucerna</head>
					<opener>
						<argument>
							<p rend="italic">Pauperis somni aula</p>
						</argument>
					</opener>
					<lg>
						<l>Sobre a cômoda antiga o oratório domina:</l>
						<l>Tem ele um Cristo velho e mau, à cruz pregado</l>
						<l>Ao centro: a um lado um santo, a Virgem de outro lado...</l>
						<l>Anda lá fora, ao luar, um pássaro que trina.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Pelas fisgas da porta entra o vento. — Franzina</l>
						<l>Criatura, formosa e alegre, destrançado</l>
						<l>O comprido cabelo ao colo, inda se inclina</l>
						<l>Sobre o berço de um louro anjinho entreacordado.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Ela só alvoroça em festa o pobre asilo;</l>
						<l>Um atleta, ao rir bom do seu olhar tranquilo,</l>
						<l>Dorme assim como o mar, que ronca num escolho.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E esse impalpável corvo, a escuridão, de um canto,</l>
						<l>Busca a alcova meter sob as asas, enquanto</l>
						<l>A tênue luz de longe a fita, como um olho.</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1885</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Renvoi</head>
					<opener>
						<salute>A Valentim Magalhães</salute>
					</opener>
					<lg>
						<l>Salta-te em casa a aurora peregrina,</l>
						<l>Num berço de oiro, num alegre espanto:</l>
						<l>Eis que a ouves cantar, e o próprio canto</l>
						<l>Faz-te sofrer de embriaguez divina.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Teu astro tem frescura matutina</l>
						<l>Em vítreo azul cheiroso e calmo, e entanto</l>
						<l>Pensas que ele do meio ao ocaso inclina:</l>
						<l>Ébrio de luz, é de prazer teu pranto.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Pois não veem?!... Porque chilram passarinhos</l>
						<l>Entre os verdes palmares dos caminhos,</l>
						<l>Porque te entrou mais um do aéreo bando,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Porque tens mais um coração a amar-te,</l>
						<l>Ficas todo a chorar, e dás-nos parte</l>
						<l>Que tens no lar um novo sol cantando!...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Aos cem dias de um jornal</head>
					<lg>
						<l>Quando, cheias as velas, a galera</l>
						<l>Ia zarpar às Índias Orientais,</l>
						<l>Na praia havia muita gente à espera,</l>
						<l>Toldavam pavilhões os arsenais.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Via-se a mole triunfante e fera</l>
						<l>Ante os mares dos Gamas e Cabrais,</l>
						<l>Certo, que se não faz a volta a esfera,</l>
						<l>Sem calma agora, agora temporais.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Tu, pequenina nau do ipê mais duro,</l>
						<l>Há cem dias navegas a bom vento,</l>
						<l>Alerta ao leme um sábio palinuro.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Cavando o oceano após o pensamento,</l>
						<l>Vais buscando as ideias do futuro,</l>
						<l>Forte na fé do teu descobrimento...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Votos</head>
					<opener>
						<argument>
							<p>Num aniversário</p>
						</argument>
					</opener>
					<lg>
						<l>Criança, a quem na alegre festa brindo,</l>
						<l>Bebendo este áureo, espumaroso vinho,</l>
						<l>Auroras brancas forrem-te o caminho,</l>
						<l>Doire-te a vida a luz do sol mais lindo;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Beijem-te as faces primaveras rindo,</l>
						<l>Deem-te flores o aroma, e não o espinho,</l>
						<l>Vias-lácteas de opala, e prasio, e arminho</l>
						<l>Deixem-te os ombros seus pisar subindo.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>De carícias, amor, enche-lhe a cama,</l>
						<l>Segui-o em bando, deusas da memória,</l>
						<l>Do ideal do belo, natureza, o inflama;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Dá-lhe uma folha do teu livro, história,</l>
						<l>Epopeias, prendei-lhe o nome e a fama,</l>
						<l>Amplas portas do templo abre-lhe, ó glória...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Cristo numa medalha</head>
					<lg>
						<l>Foi com amor igual ao do que inda arde e ateia</l>
						<l>Ximenes, Becerril, Arfe, que estoutro inventa,</l>
						<l>Com desejo infinito, e paciência lenta,</l>
						<l>Esmaltar um metal, a que um Cristo encadeia;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>De um fundo flavo e quente a cabeça rebenta,</l>
						<l>Como uma flor que inclina o sopro de uma ideia,</l>
						<l>E o Salvador do mundo, o filho da Judeia,</l>
						<l>Stá na criança já, que o mundo à mão sustenta.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>O seu olhar é doce, é calmo, é transparente;</l>
						<l>Subir da alma e transpor céus em fora se sente;</l>
						<l>Há sobre tudo um pó de amortecida luz.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Como de uma caçoula, edênico perfume</l>
						<l>Sai do manto, que faz já dele estranho nume,</l>
						<l>E um nimbo de oiro à fronte encima este Jesus.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Um Cristo de registro</head>
					<lg>
						<l>Num quarto de papel comum, com quatro pregos</l>
						<l>Sustentado à parede esboroada e escura,</l>
						<l>Um Jesus Cristo à cruz, sangrento, se pendura:</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>A cabeça caída ao peito, os olhos cegos</l>
						<l>Pelo frio da morte; o corpo na postura</l>
						<l>De um cadáver que já força alguma segura...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>A candeia apagou-se em um supremo arranco,</l>
						<l>Vermiculando de fumo e centelhas tudo:</l>
						<l>E o Grande Morto jaz imóvel, grave, mudo,</l>
						<l>Sem que a luz o acoberte em seu velario branco...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Dormem por perto. O ar, que se respira, é quente:</l>
						<l>E um besoiro, que vem, que vai, sem que alguém veja,</l>
						<l>Como um órgão de sons enchendo alguma igreja,</l>
						<l>Mete uma nota austera e rouca em todo o ambiente...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Um Cristo no Tirol</head>
					<lg>
						<l>Quando a terra de Dante e de Petrarca, a amiga</l>
						<l>Itália Heine pisou, o sol no azul radiava,</l>
						<l>E aos sons d’água a correr um tirolês cantava</l>
						<l>Ora um hino guerreiro, ora velha cantiga.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Sentada no poial, graciosa rapariga</l>
						<l>À porta do palazzo, em ruínas já, fiava,</l>
						<l>Como grega rainha, ou como grega escrava,</l>
						<l>No belo ideal de Homero. — a Penélope antiga.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Um Cristo no jardim, obra de antepassados,</l>
						<l>Fronteiro à mole imensa, e a vedá-la, existia:</l>
						<l>Perto o pombal, mais longe os montes azulados.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Como as crianças outrora, as pombas recebia</l>
						<l>Nos seus dois braços nus, à cruz inda pregados,</l>
						<l>Bom sempre, inda que triste, o filho de Maria...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O Cristo romano</head>
					<lg>
						<l>Eis o rei triunfador, que aclama a populaça,</l>
						<l>Em cujas faces ri em cheio a mocidade;</l>
						<l>O que une o céu à terra, a terra ao céu abraça,</l>
						<l>E abre, pelo sepulcro, édens à humanidade.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Tem nos gritos da cor a voz da tempestade:</l>
						<l>A chama, a luz, o ostro é multidão que passa</l>
						<l>Pontuando o manto azul, roubando a austeridade</l>
						<l>Do Jesus do evangelho amor, bondade e graça.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Um grande coração, que o fogo purpureja,</l>
						<l>Brilha, em pleno, ante o peito; e um dedo longo e fino</l>
						<l>Do próprio Cristo o aponta: a auréola dardeja</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Raios em torno à fronte; arde o olhar sibilino...</l>
						<l>Mas este Deus só quer salvar a sua igreja,</l>
						<l>E não o mundo ao erro e à cruz do seu destino...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Tela achada</head>
					<lg>
						<l>Essa rosa que fulge ali no vale,</l>
						<l>Entre outras, olha, vê, é a mais rosa:</l>
						<l>Porém não sabe o que é, nem quanto vale,</l>
						<l>E a apanha a mão primeira e descuidosa.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>É como tu: quem há que a ti se iguale?</l>
						<l>Sabes o brilho, e o aroma, e a primorosa</l>
						<l>Cor que te veste a pele cetinosa?</l>
						<l>Ninguém te disse o que és? não há quem fale?</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Mas o tempo reduz tudo à ruína:</l>
						<l>Não te sentes cair, mulher divina?</l>
						<l>Mesmo assim, quem te beija, Amor, te goza.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>És como tela de pintor de fama,</l>
						<l>Perdida e achada soterrada em lama,</l>
						<l>Rota no centro, rica, e inda formosa...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Partida de uma andorinha</head>
					<lg>
						<l>Podeis ir, sóis de amor, não mais vos fecho</l>
						<l>Às mãos; — parti, rolai noutras esferas:</l>
						<l>Céu azul de minha alma, isto é deveras?</l>
						<l>Este era pois o lúgubre desfecho?</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Que veiga toda a abrir-se em flores deixo!</l>
						<l>Vale cheio de sombra e de quimeras,</l>
						<l>Meu confidente e o dela há pouco inda eras!...</l>
						<l>Deuses, não, não de vós, de mim me queixo.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Nela um cálido raio de oiro eu tinha</l>
						<l>Daquele olhar divinamente terno,</l>
						<l>Idílio bom, que embala a quem caminha.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E eu, que julgava este meu sonho eterno,</l>
						<l>Busco inda o voo à última andorinha.</l>
						<l>Mas donde vem assim tão cedo o inverno?...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Altar sem Deus</head>
					<lg>
						<l>Inda não voltas? — Como a vida salta</l>
						<l>Destes quadros de esplêndidas molduras:</l>
						<l>Mulheres nuas, raras formosuras...</l>
						<l>Só a tua nudez entre elas falta...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Pede-te o espelho de armação tão alta,</l>
						<l>Onde revias tuas formas puras;</l>
						<l>Pedem-te as cegas, lúbricas alvuras</l>
						<l>Do linho, que a paixão no leito exalta.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Pedem-te os vasos cheios de perfume,</l>
						<l>Os dunquerques, as mesas, as cortinas,</l>
						<l>Tudo quanto a mulher de bom resume,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Escolhido por suas mãos divinas...</l>
						<l>E sai do teu altar vazio, ó nume,</l>
						<l>A tristeza indizível das ruínas...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head rend="italic">Ignotus!</head>
					<lg>
						<l>Há Deus, se alguém de um Deus a prova exata der-me.</l>
						<l>Não vale Paganini um pássaro no ninho;</l>
						<l>De <choice><orig>Theard</orig><seg type="apo">târdi</seg></choice> ou de <choice><orig>Wurtz</orig><seg type="apo">Vurtes</seg></choice> o opulento cadinho</l>
						<l>Não dará nunca ao mundo o óvulo de um verme.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Que prova? — Isso mais nada. E eterna, muda, inerme,</l>
						<l>A esfinge!... A esfinge sempre em meio do caminho:</l>
						<l>Um céu findando noutro, os céus em torvelinho,</l>
						<l>E num giro fatal o esterquilínio e o germe!...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Como uma sombra informe atravessando um muro,</l>
						<l>Pelo fundo do abismo azul um vulto escuro</l>
						<l>Passa às vezes — Quem foi? O esquema de um de nós</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Loucamente buscando a mão que enflora o monte,</l>
						<l>Ou quem esculpe a noite, e lhe circula à fronte</l>
						<l>A tiara de oiro, a tiara enlhamada de sóis!...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Sobre o Pégaso</head>
					<lg>
						<l>Upa, ginete, aos céus, em marcha. — Espora às ancas,</l>
						<l>Rédeas presas às mãos, a velha estrada mudo...</l>
						<l>Rasguemos regiões mais límpidas, mais francas,</l>
						<l>Quero ver se esta eterna dor da vida iludo.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Vamos. Sinto-me alado, e firme, e ereto, e mudo;</l>
						<l>Amor, nem mesmo tu destes azuis me arrancas:</l>
						<l>Voo como envolvido em duas asas brancas,</l>
						<l>Que são a minha guarda e a minha força em tudo.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Aqui de longe, aqui, por uma esfera vasta,</l>
						<l>Tendo sob os meus pés o globo, que se arrasta,</l>
						<l>O dardo ao flanco, ao passo o tédio do cansaço;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Vendo o orgulho com que vão nele os homens todos,</l>
						<l>Num alarido, como um turbilhão de doudos.</l>
						<l>Upa! grito ao ginete, em marcha, espaço... espaço!...</l>
					</lg>
				</div>
			</div>
			<div type="part">
				<head>Camoneana</head>
				<opener>
					<argument>
						<p>Glorificação brasileira a Luís de Camões no terceiro centenário da morte do poeta</p>
					</argument>
					<dateline>(10 de Junho de 1880)</dateline>
				</opener>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A Luís de Camões</head>
					<div type="section">
						<head>I - A Luís de Camões - leão alado</head>
						<lg>
							<l>Como um leão, que volta, e vem do firmamento,</l>
							<l>Tinta a boca de luz dos astros imortais,</l>
							<l>E que na fulva garra — ousado e famulento, —</l>
							<l>Arranca ao céu azul pedaços colossais...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E sacudindo a crina e as asas de oiro ao vento,</l>
							<l>Como às girafas dos seus pátrios areais,</l>
							<l>Das estrelas no colo — indômito e violento, —</l>
							<l>Mete o dente... e revoa em procura de mais...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Seu gênio assim — Leão alado da harmonia, —</l>
							<l>Roubava as ideais estrelas da poesia,</l>
							<l>Pendurando-as da pátria aos múltiplos florões...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Quem não ouve o fremir dos mundos fulgurosos,</l>
							<l>Nos ombros carregando os versos sonorosos</l>
							<l>Do canto secular que nos legou Camões?!</l>
						</lg>
					</div>
					<div type="section">
						<head>II - A Luís de Camões</head>
						<lg>
							<l>Dai-me o vosso rumor, indiânicos mares,</l>
							<l>Vosso aroma e verdor, matas orientais,</l>
							<l>Vossa voz, ó leões, vossa sombra, ó palmares,</l>
							<l>Ó céus, o vosso azul, e os sóis, com que brilhais;</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Fragrâncias de Ceilão, que volitais nos ares,</l>
							<l>Macau em cuja gruta inda ecoam seus ais,</l>
							<l>Eu desejo somente encher-lhe os seus altares</l>
							<l>Da luz, da voz, do amor com que inda o festejais.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ó rei, maior que os reis da nação que cantaste,</l>
							<l>E que de eterna luz a cova alumiaste</l>
							<l>Da terra onde estendeste as estreladas mãos...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ergueste o sólio augusto em penhas de Calvário,</l>
							<l>Ó poeta imortal, três vezes centenário,</l>
							<l>Mendigo que tiveste os sóis por teus irmãos.</l>
						</lg>
					</div>
					<div type="section">
						<head>III - A Luís de Camões</head>
						<lg>
							<l>Enquanto ao fogo intenso, em que o peito te ardia,</l>
							<l>Do teu grande padrão fundias o metal,</l>
							<l>Enquanto o eterno molde a tua fantasia</l>
							<l>Riscava do poema enorme e colossal...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Enquanto o monumento acabado saía</l>
							<l>Selado por teu gênio olímpico e imortal,</l>
							<l>Enquanto a eternidade a tua obra envolvia,</l>
							<l>E punhas ante Homero o seu maior rival...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Enquanto se ebriava a terra a ler teus versos,</l>
							<l>E vinham do horizonte ouvir povos diversos</l>
							<l>A epopéia do mar e da navegação...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ó Luís de Camões, ó grande sombra morta,</l>
							<l>Nas ruas de Lisboa um jau de porta em porta</l>
							<l>Para seu amo esmola um pedaço de pão.</l>
						</lg>
					</div>
					<div type="section">
						<head>IV - A Luís de Camões</head>
						<lg>
							<l>Devias ter colhido estrelas luminosas</l>
							<l>Para fazer o fogo enorme e criador,</l>
							<l>E o bronze preparar das formas grandiosas</l>
							<l>Da estátua do feroz e horrendo Adamastor.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Devias ter bebido às curvas graciosas</l>
							<l>Do céu o leite doce e cheio de vigor,</l>
							<l>Que sai dos seios nus das cintilantes rosas,</l>
							<l>Para pintar Inês — a pérola do amor.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Devias ter sorvido as lágrimas da aurora,</l>
							<l>Para a Vênus gentil pintar, quando ela chora</l>
							<l>Perturbando no Olimpo os deuses imortais.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mas para encher de sóis teu canto imorredoiro</l>
							<l>Devias ter roubado ao Deus a pena de oiro,</l>
							<l>Com que ele pinta o azul a traços colossais.</l>
						</lg>
					</div>
					<div type="section">
						<head>V - A Luís de Camões - a voz da sombra</head>
						<lg>
							<l>E para responder, a sombra despertando,</l>
							<l>Quando lhe foram lá por ele perguntar,</l>
							<l>Dos braços nus terror e anos gotejando,</l>
							<l>A fronte levantou da pedra tumular.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Tinha terrenas cãs, o aspecto venerando,</l>
							<l>Maciça noite de três séculos no olhar,</l>
							<l>Estrelas nos rasgões do fato miserando,</l>
							<l>E o silêncio que canta em noites de luar.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E disse: — Quando o Eterno ergueu o firmamento,</l>
							<l>Nos sóis e turbilhões fixou seu pensamento,</l>
							<l>E escondeu-se detrás de sua obra imortal.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Por que buscais Camões num túmulo sombrio?</l>
							<l>Jesus também deixou seu túmulo vazio,</l>
							<l>E o túmulo de um Deus é a alma universal.</l>
						</lg>
					</div>
				</div>
			</div>
			<div type="part">
				<head>Nuvens e raios</head>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Veritas veritatum</head>
					<lg>
						<l>É mais louco talvez quem mais estuda!</l>
						<l>Dizer que a luz se extingue e tudo alaga,</l>
						<l>Que aquilo que morreu, não morre, muda...</l>
						<l>Morre e não morre, apaga e não apaga!...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>A vaga treme, expira, e é sempre vaga!</l>
						<l>A morte vive em cada cousa muda;</l>
						<l>A dor que morre, qual! não morre, e ajuda</l>
						<l>A dor que canta no seu ninho — a chaga.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Alma feita de lutas e procelas,</l>
						<l>Na espumarada vã das cousas mansas</l>
						<l>Rolam mortas milhões de cousas belas,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Boiam milhões de mortas esperanças;</l>
						<l>E, tu, minh’alma, morta em cima delas,</l>
						<l>Morta... vives ainda, e não descansas!...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Wish</head>
					<lg>
						<l>És a corrente, eu sou a barca apenas:</l>
						<l>Tu vais, eu vou singrando ao sol, que a doura;</l>
						<l>E quando venha a noite sonhadora</l>
						<l>Encher-te o seio azul de cantilenas,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Enquanto o céu a fronte de açucenas</l>
						<l>Cinge, como se negra noiva fora,</l>
						<l>E banha as vagas límpidas, serenas</l>
						<l>De quanta branca pérola entesoura,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>És a corrente, eu vou: vais ao infinito?</l>
						<l>Irei também: caminho, e não reflito:</l>
						<l>Não há contigo para mim mau porto.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Mas... se um dia lançar-me uma onda à sirte,</l>
						<l>Que inda assim cante o escolho, e o escolho a rir-te,</l>
						<l>Mostre na água dançando alegre e morto...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Terror do paraíso</head>
					<lg>
						<l>Eu que tenho vulcões jorrando fogo e lava,</l>
						<l>Eu, que os ouço bramir, e lacerar-te em chama:</l>
						<l>E em que manhã brutal de um céu feroz derrama</l>
						<l>Punhais de oiro e de luz, que nos meus seios crava:</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Eu, que ouço o temporal, que hórridas pugnas trava,</l>
						<l>Que ruge, ulula, raiva, estoira, morde, brama,</l>
						<l>Sendo minh’alma o palco em que se move o drama</l>
						<l>Colossal, como em bronze Ésquilo os moldurava...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Que ouço em meu sangue ruir os sopros da procela,</l>
						<l>Só em vê-la, a sonhar, somente em pensar nela,</l>
						<l>Quando a vejo em nudez iluminada, a sós.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Quando o meu coração ao seu conchego, absorto</l>
						<l>Empalideço, tremo, e caio, como um morto</l>
						<l>Hirto, frio, sem ar, sem luz, sem cor, sem voz...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head rend="italic">Via crucis</head>
					<lg>
						<l>Aquele mente; aquele ali não só me nega,</l>
						<l>Como me ultraja; este outro engrandece-me, e odeia!...</l>
						<l>E nunca ilusionou-me o canto da sereia;</l>
						<l>E vi sempre que a glória aos Cáucasos nos leva!...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Passai, Proteus, passai, na indômita refrega,</l>
						<l>Que arranca o rio ao leito, e muda em lodo a areia:</l>
						<l>A torrente, que arrasta o furacão, é cega;</l>
						<l>E eu amo a calma, a paz, a luz, que vem da ideia.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Sinto em mim novo ser, um ser novo e divino,</l>
						<l>Quando um caluniador of’rece-me o destino,</l>
						<l>Para poder ser bom, perdoando-lhe o mal.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Infame e vil, não quero a folha de um loureiro;</l>
						<l>Imaculado, e puro, e intemerato obreiro,</l>
						<l>Prefiro ser o sangue a ter sido o punhal.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A pedra</head>
					<lg>
						<l>E então a rocha dura da montanha,</l>
						<l>Grande, como um pedaço do infinito,</l>
						<l>Lá por dentro em seu torso de granito,</l>
						<l>Não é à mágoa universal estranha?</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Quando uma a outra, em largo amplexo, apanha,</l>
						<l>Pela fatalidade desse atrito,</l>
						<l>A voz humana acusa, e trai num grito,</l>
						<l>E vê-se o fogo que elas têm na entranha.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Consolo à dor também ninguém lhe oponha,</l>
						<l>Quando enfim dos latíbulos de um cofre,</l>
						<l>No rumor largo da expansão medonha,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Saem-lhe do seio lágrimas de chofre...</l>
						<l>A pedra pensa, e porque pensa, sonha;</l>
						<l>A pedra vive, e porque vive, sofre...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A Bíblia de Alcalá de Henares</head>
					<lg>
						<l>O sábio cardeal Ximenes, já bem velho,</l>
						<l>Arcebispo e ministro ao lado de Fernando</l>
						<l>E Isabel, ambos reis, um dia desejando</l>
						<l>Dar na vulgata, e em mais de uma língua, o Evangelho,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Fez imprimir a Bíblia, esse polido espelho</l>
						<l>Das tradições cristãs, sacrário venerando</l>
						<l>De poesia e de história, em Alcalá; e ao mando</l>
						<l>Juntou para Brocário, o editor, o conselho.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Tudo que em arte é bem, rico em tipografia,</l>
						<l>O velino, a vinheta, a estampa, a iluminura</l>
						<l>Em volatas de cor e em rubro espasmo ardia.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E quando creu assim ter preso um povo, — o cura</l>
						<l>Não viu Deus, que atacava aí dentro a ditadura,</l>
						<l>E à liberdade e à luz a alma da Espanha abria!...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Sono</head>
					<opener>
						<epigraph>
							<cit>
								<quote>
									<lg rend="indent3">
										<l>Dormindo nós, o espírito tem olhos.</l>
										<l>É um cego, não vê, quando acordamos.</l>
									</lg>
								</quote>
								<bibl rend="indent5">Ésquilo</bibl>
							</cit>
						</epigraph>
					</opener>
					<lg>
						<l>Não, Ésquilo, não creio no que dizes:</l>
						<l>Quando se dorme, o espírito então vela?!</l>
						<l>Quando se dorme são os infelizes,</l>
						<l>Que, em carro de oiro, a providência atrela.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Nenhum tormento aspérrimo os flagela:</l>
						<l>Nem têm da luz aos nítidos matizes</l>
						<l>Amor, ou ambição, que os torça, e nela</l>
						<l>Não sofre uma alma as navalhadas crises.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>O sono é doce bálsamo nas chagas,</l>
						<l>E faz parar as lágrimas vertidas,</l>
						<l>Como a pesca das pérolas nas vagas.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Ah! que seriam de milhões de vidas,</l>
						<l>Sem dar-lhes, noite, a morte, com que apagas</l>
						<l>A dor que grita o fundo das feridas?...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A fraqueza de um momento</head>
					<lg>
						<l>Veio. — De um jato só do mundo americano</l>
						<l>Vasto império arrancou, aos reis domesticado;</l>
						<l>E entregou sem fragor ao velho e augusto oceano</l>
						<l>Um velho e augusto rei num trono espedaçado.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Ter um novo país de pronto alevantado,</l>
						<l>Sem pranto de ninguém, sem traição, crime ou dano,</l>
						<l>Reformador feliz, mais feliz que o soldado,</l>
						<l>Não houve a um grande esforço um maior prêmio humano.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Mas chegou de improviso um formidável dia,</l>
						<l>E o povo em torno dele, alheado e absorto, via</l>
						<l>Desprender-se, oscilar, ruir de um céu azul</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Do seu destino imenso a enorme estrela acesa:</l>
						<l>Foi sua audácia — olvido; o olvido — uma fraqueza...</l>
						<l>Certo fora, sem ela, o Washington do Sul...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>No eclipse da liberdade</head>
					<lg>
						<l>Quando ela veio, com a grande calma</l>
						<l>Da força que triunfa, e que perdoa,</l>
						<l>Entre estrelas andava, e era tão boa,</l>
						<l>Que o chão em palmas foi-lhe uma só palma.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Chegou, enchendo tudo de sua alma...</l>
						<l>Que faz? onde erra agora? em que céus voa?</l>
						<l>Por vale e monte o nome seu não soa:</l>
						<l>Que crime à garra adunca a tem, a empalma?</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>O infortúnio do tempo, um dia, achou-o;</l>
						<l>Viu no monstro a beleza de Antinoo,</l>
						<l>No traidor viu o espírito do forte;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E de então, como à flor a gota d’água,</l>
						<l>Sinto que dobra a minha fronte mágoa,</l>
						<l>Que ódio não turva, ou medo ao exílio e à morte...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Os evangelizadores</head>
					<lg>
						<l>Homens de bem, mentis; mas eu vos compreendo:</l>
						<l>Vós não fazeis a Deus este cobarde insulto</l>
						<l>De diminuir-lhe o grande, o misterioso vulto...</l>
						<l>Tomo como virtude o vosso crime horrendo.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Quase que vos perdoo, e este preito vos rendo,</l>
						<l>Que vós sabeis o que há de ridículo e estulto</l>
						<l>Nessa história de sangue, e nesse imenso culto</l>
						<l>Que nasceu de Jesus, no Gólgota morrendo...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Pode espalhar mais sóis sobre o nosso caminho,</l>
						<l>Aos espinhos da vida arrancar um espinho,</l>
						<l>Ser Prometeu, e ao céu ir roubar a verdade...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Sendo tudo quimera, excetuando as dores,</l>
						<l>Por que não lhe deixar um sonho...  Ó sonhadores,</l>
						<l>Prendeis assim a um sonho eterno a humanidade...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Ocultismo</head>
					<opener>
						<salute>A Medeiros e Albuquerque</salute>
					</opener>
					<lg>
						<l>Quando à noite sozinho, alheado e mudo,</l>
						<l>Passam por mim, num turbilhão medonho,</l>
						<l>Mundos que palpo, e que não são contudo:</l>
						<l>Busco em vão quem os fez e os leva, e ponho</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>A olhar-me: existo? quem sou eu? e estudo</l>
						<l>Se isto, que vejo inda acordado, é sonho...</l>
						<l>Há dentro em nós recordações trazidas</l>
						<l>De outras terras e céus, num vago enleio:</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Lembranças de sofrer jamais perdidas,</l>
						<l>Sofrer que unir-se às nossas mágoas veio?</l>
						<l>Num deus... deus que agoniza, há muito, eu creio,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Que a não ser, jovens mães estremecidas,</l>
						<l>Nunca irrompera mais do vosso seio</l>
						<l>A dor com toda dor das outras vidas...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Profundidades desconhecidas</head>
					<lg>
						<l>Por uma escada feita de diamantes,</l>
						<l>Obra de rara e incógnita estrutura,</l>
						<l>Vou subindo, subindo ao céu, à altura</l>
						<l>Dos olhos seus, esferas rutilantes.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>De cima deles desço, alguns instantes,</l>
						<l>Aos abismos em que sua alma pura</l>
						<l>Deve estar em nudez: lá stá; fulgura;</l>
						<l>Encontro-a; é ela; e volto, como dantes;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Sim: é ela: Lá stá de esplendor cheia;</l>
						<l>Ebria-me, seduz, prende-me, enleia;</l>
						<l>Mas saber o que quero a empresa é vã.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Aí fulgem só imagens escolhidas,</l>
						<l>Reais no fundo, em luz e em cor mentidas,</l>
						<l>Como a Ronda Noturna de <choice><orig>Rembrandt</orig><seg type="apo">Rembrã</seg></choice>.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O conselho de Hamleto</head>
					<lg>
						<l>Trazes um coração dentro do peito,</l>
						<l>Um casto ideal, um forte pensamento,</l>
						<l>Tu és honesto?  Vai para o convento,</l>
						<l>Como à Ofélia mandou um dia Hamleto.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Quem à virtude só der o seu preito,</l>
						<l>Para encontrar no sono a calma e o alento,</l>
						<l>Busque o sepulcro, não procure o leito:</l>
						<l>Se viver, viverá do seu tormento.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Vida é delírio: vê rosais, escuta</l>
						<l>Canções, com que alma embala a mente insana;</l>
						<l>Se a razão volta, o quadro então permuta,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Vem de novo o sofrer, que a febre engana:</l>
						<l>À mesa, em que se senta a escória em luta,</l>
						<l>Não tem lugar a flor da raça humana.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head rend="italic">Prolificus dolor</head>
					<lg>
						<l>Esta infinita Sede do infinito,</l>
						<l>Não a contenta e farta cousa alguma:</l>
						<l>Vê só de todo o mar em cima a espuma;</l>
						<l>E não vê senão forma, ou culto, ou rito.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Acha que o espaço é uma boca, e o grito</l>
						<l>Que a síntese da vida enfim resuma,</l>
						<l>Que sai dela, é de um sofrimento escrito</l>
						<l>No céu, na terra, além por tudo em suma.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Andar nisto um mistério atroz se sente!...</l>
						<l>Quando um beijo arfa ao encontro de outro beijo,</l>
						<l>Trai a gozo um gemido ali presente.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Será por isso então que o amor nos mente?</l>
						<l>Pois que o amor, sob o impulso do desejo,</l>
						<l>É a dor que fecunda a dor somente.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head rend="italic">Struggle for life</head>
					<lg>
						<l>Fui-me viver nas sombras da floresta,</l>
						<l>Viver aí só, aí só buscar repouso,</l>
						<l>E a serena alegria, e o íntimo gozo</l>
						<l>Do céu cheio de luz, da terra em festa.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Pois olhem, nada disto achei, e ouso</l>
						<l>Crer que ninguém a paz haurira nesta</l>
						<l>Mentida calma: um véu delicioso</l>
						<l>Cobre o ódio, a traição, que o campo infesta.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Fura o bisso da túnica impoluta</l>
						<l>Do lírio a larva imunda e o inseto: — e ouço</l>
						<l>O rumor surdo de áspera disputa</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Do berço à flor, do pranto em grito ao fosso:</l>
						<l>E dão o amor da vida e o horror da luta</l>
						<l>Armas ao verme, espantos ao colosso...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O espaço limitado</head>
					<lg>
						<l>Quando eu julgava e cria intérmino este espaço,</l>
						<l>Jamais pude entendê-lo, e andava mais contente:</l>
						<l>Hoje que dizem ter um fim, acho-me em frente</l>
						<l>Ao maior, mais profundo e lúgubre embaraço.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Tem um limite então provado? Ergue-se o braço,</l>
						<l>E não achando mais o vácuo eternamente</l>
						<l>Encontra um muro, um muro enorme de repente:</l>
						<l>Que de hipóteses vãs, que me enleiam, não faço!...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Para isto tudo!... E além? Por mais que a razão torça,</l>
						<l>Não compreendo o céu e não entendo a força!</l>
						<l>Procuro: é o universo um coxo, um cego, um mudo?</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Eu noto só que a morte em vida se renova,</l>
						<l>Que ao mesmo tempo a cova é berço e é berço a cova,</l>
						<l>E que tudo anda em nós, como Deus anda em tudo.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head rend="italic">Implacabilis dea</head>
					<lg>
						<l>Do amor a áscua fatal eternamente acesa</l>
						<l>O homem nivela ao verme, e a um universo o iguala;</l>
						<l>Mas traiu, o que a deu, nada perdendo em dá-la;</l>
						<l>Parece força; ilude: — é apenas fraqueza.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Nela se banha, e inova, e enflora a natureza;</l>
						<l>A alma branca do lírio o aroma branco exala.</l>
						<l>Sem pudor, como um cão, quem arma esta surpresa,</l>
						<l>Uiva à dor pela boca esquálida da vala.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Como os cisnes, em grupo, espraiam-se nos lagos,</l>
						<l>Deuses vão pelo espaço, em bando, a rir do aflito</l>
						<l>Lutar, em que imos nós, presas de uns sonhos vagos.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Que lhes importa?  Sempre o gozo ultima um grito:</l>
						<l>E a morte há de sair de um beijo e dois afagos</l>
						<l>E dar mais luz aos céus, e mais céus ao infinito.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Blasfêmia</head>
					<lg>
						<l>Pôr sobre a vasta dor humana um sol tranquilo,</l>
						<l>Como ao gorjal de um cão um vil guiso amarelo!</l>
						<l>Porém que obreiro ousou pensar somente aquilo?</l>
						<l>E feito, e posto ali, quem ousou achar belo?</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Sei que o esboço escondeu, sei que guarda o sigilo:</l>
						<l>Como o meu nome é cepo, o seu nome é cutelo:</l>
						<l>Quero vê-lo, e não vem; chamo-o, e não há de ouvi-lo;</l>
						<l>Mas embora: ao seu ódio o meu ódio nivelo.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>É um tormento o amor, maior tormento a vida.</l>
						<l>Desce à cova o universo, escorralha caída</l>
						<l>Dum em outro mistério e um grito em torno disto;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E disto em cima um Deus imenso, eterno, infindo,</l>
						<l>Surdo, pacato, bom, farto, contente, rindo</l>
						<l>De Prometeu um dia, e outro dia de Cristo...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A dor</head>
					<lg>
						<l>E a dor sentada à porta, à chuva, ao vento, espera;</l>
						<l>Sabe que ela há de entrar; sabe que há de ter hora:</l>
						<l>Deixem contente o lar a rir, que logo chora;</l>
						<l>Só pela voz da flor gorjeia a primavera.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Antes deste universo arfar a dor não era:</l>
						<l>Sair de si a dor, a dor não pode agora,</l>
						<l>É dor, mau grado seu, como a aurora é da aurora,</l>
						<l>Como a rosa é da veiga, e o fogo é da cratera.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Fatal, como é a sombra, ela se arrasta e inclina:</l>
						<l>Preferira cantar, como um pássaro trina,</l>
						<l>Ser a alegria em vez de ser a dor... mais nada.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Lágrima eterna presa a um soluço infinito</l>
						<l>Sou eu, és tu, a terra, o mar, o céu, num grito</l>
						<l>De dor, que a própria dor solta aterrorizada...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Cras...</head>
					<lg>
						<l>Dizem que é bom sofrer, que a dor descerra a porta</l>
						<l>Das esferas azuis, onde oiro e jalde é tudo:</l>
						<l>Mas estando o sepulcro eternamente mudo,</l>
						<l>Mudo todo universo, — o crer num céu, que importa?</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Ir num mesmo caixão uma esperança morta</l>
						<l>De um morto sonho ao lado!... ó deuses, não me iludo.</l>
						<l>Do infinito aos seus dois pontos, quem vai? E o agudo</l>
						<l>Grito da terra muito em baixo o espaço corta...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Deixa, eterna miséria, o eterno horror do obscuro:</l>
						<l>Por que sou? deste mal a causa em vão procuro;</l>
						<l>Para explicá-lo só um crime enorme resta.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Vamos. Erga-se altar à deusa da alegria:</l>
						<l>Quem, na ebriez do cantar, notará dia a dia</l>
						<l>Que por um que faltou canta um outro na festa?...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A cega</head>
					<lg>
						<l>A vida... quem a fez, fez a dor: punhalada;</l>
						<l>Fez-se o mar, pôs-se nele um crime: a tempestade;</l>
						<l>Inventou-se o terror servindo à crueldade;</l>
						<l>Fez-se a flor, nela dorme o veneno: emboscada.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Fez-se a rosa, o que é bom, para o espinho: cilada;</l>
						<l>Fez-se o céu, um abismo; outro, o inferno: maldade;</l>
						<l>Fez-se o verme, um horror, torpe inutilidade;</l>
						<l>Enfim o homem fez Deus: Deus fez isto, e mais nada.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Deus não ama a ninguém, como a ninguém odeia;</l>
						<l>Do seu nome, isto só, toda a terra está cheia;</l>
						<l>Como nós, qualquer vício ele em si mesmo traz.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>A força será sempre essa louca, essa cega</l>
						<l>Que tudo deixa, e logo em tudo outra vez pega,</l>
						<l>E, Penélope eterna, anda, faz e desfaz?...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Vanitas</head>
					<lg>
						<l>Ser César, dominar o mundo inteiro,</l>
						<l>Ser Colombo, inventar um continente,</l>
						<l>Ser Homero, brandir a lira ardente,</l>
						<l>Que vale? — É o universo um grande argueiro.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Tudo é mesquinho, e vão, e passageiro,</l>
						<l>Inútil no passado, e no presente,</l>
						<l>Sonho, oásis que ilude, e foge, e mente</l>
						<l>Na fútil obra do orgulhoso obreiro.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>É ser grande, ter isso? — Isso é ventura?</l>
						<l>Só no palhal, que à beira do caminho,</l>
						<l>Da fisga de um rochedo se pendura,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>No sítio em urzes, de árvores maninho,</l>
						<l>Há, — e quem sabe?! — uma alegria pura,</l>
						<l>Pregada à sombra, como ao galho o ninho...</l>
					</lg>
					<closer>
						<dateline>1896</dateline>
					</closer>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Obscuridade ilimitada</head>
					<lg>
						<l>Sempre o enorme ringir desse eterno problema!</l>
						<l>E o conúbio da luz de orbes pontuando a esfera!...</l>
						<l>E essa dúvida amarga, essa ânsia, que nos queima,</l>
						<l>No cairel desta vasta e lôbrega cratera.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Não há sol que não morra; estrela que não trema:</l>
						<l>E o que dizem os céus aos céus, quem assevera?</l>
						<l>Que canta em ritmo estranho o universal poema?</l>
						<l>Se Deus é Deus, enfim para ser Deus, que espera?</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Há no verme a ironia? Há no espaço uma ideia?</l>
						<l>O que fez está feito? O que disse, está disto?</l>
						<l>Por que não compõe Ele uma nova epopeia?</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Se doutros Prometeus, que hão de vir, não receia,</l>
						<l>Que quer de nós, que quer, dispondo do infinito?</l>
						<l>Por que os mundos que move entre dois grãos de areia?</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head rend="italic">Without hope</head>
					<lg>
						<l>Não te perdoo o mal que me fizeste,</l>
						<l>Ó Deus, porque me sinto humilde e escravo,</l>
						<l>Mesmo se insulto os sóis, se a pugna travo</l>
						<l>Com o vasto espaço, onde os teus sóis puseste.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Que sei? — Tu prestas? Há quem saiba, e preste?</l>
						<l>Por que geme e espumara este mar bravo</l>
						<l>De amor, que tudo assoma, inunda, investe,</l>
						<l>Em que meu corpo, irado, ou mancho ou lavo?</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Eu que desejo ou quero com certeza?</l>
						<l>Para que ponto arrasta-me a corrente,</l>
						<l>Que ora sigo, ora fujo, e volto, e, presa,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Leva-me enfim irresistivelmente,</l>
						<l>De queda em queda, aflito e sem defesa,</l>
						<l>Vencido eterno, eterno descontente?...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Culto</head>
					<lg>
						<l>A um princípio, que adeja alto em céu impoluto,</l>
						<l>Que mão alguma alcança, e império algum assusta,</l>
						<l>Curvo-me: e a consciência aplaude esta ação justa.</l>
						<l>Vença o belo: por ele eu vivo, eu sofro, eu luto.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Arma-me estranho deus um braço resoluto,</l>
						<l>A fé meteu-me bronze à espádua, e a fez robusta;</l>
						<l>Fecha-me dentro em si o bem, como um reduto,</l>
						<l>E o amor, complicação daquela ideia augusta.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Descer ao eterno abismo, — o coração — quem ousa?</l>
						<l>Da alma branca de Abel se em nós há qualquer cousa,</l>
						<l>Em Caim todos têm o mesmo sangue irmão.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>A quem pois o meu colo hei de baixar? Mostrai-o.</l>
						<l>De golpe a estátua de oiro a pó reduz o raio;</l>
						<l>Dê, se quer, o universo ao pó um culto: eu não...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Virgílio e Pascal</head>
					<lg>
						<l>Quando penso em Pascal, quando em Virgílio penso,</l>
						<l>Diante deste universo em giro eterno, diante</l>
						<l>Do fim, da causa, e autor da máquina possante,</l>
						<l>A incógnito terror o espírito suspenso;</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>O silêncio por tudo impassível; sem senso</l>
						<l>A instável criação, reviva e agonizante,</l>
						<l>Nascendo, para só morrer no mesmo instante,</l>
						<l>Todo caminho obscuro; à razão tudo infenso:</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>A ver quase arrasada essa mudez feroz,</l>
						<l>Quisera tê-los hoje entre nós, o gigante</l>
						<l>Nos números montado, e o poeta, a luz do Dante,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Bela estrela de Roma augusta à fronte acesa...</l>
						<l>Não stá cheia de Deus a grande natureza,</l>
						<l>A grande natureza está cheia de sóis...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O eterno enigma</head>
					<lg>
						<l>Na terra é grande a cólera das almas;</l>
						<l>Boas são as que só têm menos ódios;</l>
						<l>No deserto é que dão mais verdes palmas:</l>
						<l>O mar e o vento, um mesmo deus sacode-os.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>A pérola, que brilha, e esplende, e azula,</l>
						<l>É a moléstia de um molusco apenas;</l>
						<l>Do dia a ausência é que abre e vermicula</l>
						<l>De astros as noites límpidas, serenas.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Quem, louco!  tem o orgulho da verdade?</l>
						<l>Donde virão os bons ou maus conselhos?</l>
						<l>Grãos de areia, ante o espaço e a eternidade,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Valeis menos ou mais que os sóis vermelhos?</l>
						<l>Se é cheia a própria luz de escuridade,</l>
						<l>Ante quem dobrarei meus dois joelhos?!...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head rend="italic">Vanitas vanitatum</head>
					<lg>
						<l>Fluxo e refluxo enfim do indomável oceano,</l>
						<l>Leva-o neste oscilar o seu destino eterno,</l>
						<l>Gota e gota perdendo o seu sangue ano e ano,</l>
						<l>Sem édens nunca achar e sem sair do inferno.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Sobre o esqueleto nu do mar há de o galerno</l>
						<l>Soprar um dia sem ter que encher um só pano,</l>
						<l>Morta a vaga sem um grito de pelicano,</l>
						<l>E amortalhado o sol em seu lençol de inverno.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Homem, ridente luz, homem prantiosa treva,</l>
						<l>Que Adão fez revoltoso, e humilde e bom fez Eva,</l>
						<l>Que encheste a terra e o céu do pó do teu barulho,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Fazendo a cada passo o bronze ecoar da história,</l>
						<l>Ora um clamor de luto, ora um rumor de glória,</l>
						<l>Que foi de ti com todo o teu banal orgulho?...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Vitória da ciência</head>
					<lg>
						<l>Triunfará a Ciência, e os seus batalhadores</l>
						<l>Os selos quebrarão dos mitos consagrados?</l>
						<l>Se ela não triunfar, que importa? Estão lançados</l>
						<l>Os destinos da vida em moldes superiores.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>As loucas soluções de escravos e senhores,</l>
						<l>Os sonhos vãos adrede escritos e sonhados,</l>
						<l>Semelham os dobrões e os florins de oiro usados</l>
						<l>Que acabaram nas mãos de antigos possuidores.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Águia, que o céu domina, águia, que desce o abismo,</l>
						<l>Homem, há no teu pleito um eterno heroísmo;</l>
						<l>Tens a grandeza e tens a amargura dos mares.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Para o ideal da existência, e para a luta imensa,</l>
						<l>Não basta crer, quer mais o que medita e pensa:</l>
						<l>Quer provada a verdade, a que há de erguer altares.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Insídia máxima</head>
					<lg>
						<l>E quando a criação triunfante o espaço enchia,</l>
						<l>Das esferas azuis, onde oiro e jalde é tudo:</l>
						<l>Era austera verdade a sagrada alegria,</l>
						<l>E era um riso a manhã, e um sorriso era a sesta.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Disto nada ficou: disto nada nos resta.</l>
						<l>Jeová armara à vida uma insídia, e caía</l>
						<l>O homem nela: e ora em sangue um cadáver dizia</l>
						<l>Que era, já pela morte, a dádiva funesta.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Ser ignoto, amontoa as cóleras no cenho:</l>
						<l>Chame seu o Teu crime um qualquer vil conselho,</l>
						<l>De Ti, da noite eterna um vão terror não tenho.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Marca o ponto que lamba o cão do sol vermelho;</l>
						<l>Meta ao jugo o universo o teu poder ferrenho;</l>
						<l>Força, esmaga-me, és Ódio: Ódio, eu não me ajoelho.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O césar Adriano</head>
					<lg>
						<l>Não venceste, assassino; e era nobre o teu fito,</l>
						<l>No culto à Guerra e ao Belo, a arte humana e divina!</l>
						<l>E entre os grandes e os bons querendo o nome escrito,</l>
						<l>Tiraste à Tivoli a pedra travertina,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>À Ibéria a prata e o ouro, o ferro à Palestina,</l>
						<l>Os mármores à Frígia, os pórfiros ao Egito,</l>
						<l>O alvo jaspe à Lacônia, à Tessália o granito,</l>
						<l>A pérola à Golconda, à Gália a turmalina.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Semeaste a ponte, o templo, a terma em toda parte,</l>
						<l>Deu-te auréolas Minerva, e deu-te louros Marte:</l>
						<l>Em deus atravessaste o Coliseu e o Foro,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Chegaste à História, e ao Olimpo inda a chegar, um triste</l>
						<l>Ensanguentado espectro ergueu-se, olhou-te, e ouviste</l>
						<l>Bradar: — Para. — E paraste à voz de Apolodoro.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O imperador Caracala</head>
					<lg>
						<l>Fartou o povo-rei até a saciedade</l>
						<l>Com o espumante falerno e os rubis de Marsala;</l>
						<l>O César Antonino, o grande Caracala</l>
						<l>Pode por cima dele ir da Terma à cidade:</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Se lhe dá tudo, pão, festas, e liberdade,</l>
						<l>E o sangue do estrangeiro... o fétido, que exala</l>
						<l>No circo o leão e o tigre esfaimados, invade,</l>
						<l>Mas recua ante o olor dos sândalos da sala.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Na piscina ele nu entre belezas nuas,</l>
						<l>Brancas, no alvo esplendor das semicurvas luas,</l>
						<l>Dão horas ao amor, palpitando aos pedaços.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Jamais a consciência o crime lhe importuna:</l>
						<l>Quem pisa o mundo e aos pés leva Deus e a Fortuna</l>
						<l>Pode esmagar o oceano entre o anel dos dois braços...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Miragens</head>
					<lg>
						<l>Eu caminhava... Enchia o campo olente aragem:</l>
						<l>Como uma rosa enorme, há pouco, o sol nascera;</l>
						<l>E num vasto rumor de aurífera poeira</l>
						<l>Erguia-se outro sol do fundo da paisagem.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>A luz, que tem na loira aurora o loiro pajem,</l>
						<l>Que faz brotar a flor dos olhos da caveira,</l>
						<l>Que crava no deserto intérmino a miragem,</l>
						<l>E ante a qual abre o céu, como o leque a palmeira,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>De longe, aureolar um santo parecia!</l>
						<l>Quando perto cheguei, a última agonia</l>
						<l>Vi de um cão; pobre galo esgravatava o cisco</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Por entre vidros, terra, e algumas pedras toscas;</l>
						<l>Fervilhava por cima um turbilhão de moscas...</l>
						<l>E era nisso que a luz pusera o augusto disco!...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>A humilhação da vida</head>
					<lg>
						<l>O pranto sobre o pranto é necessário à vida,</l>
						<l>Como é preciso a gota em cima doutra gota,</l>
						<l>Esta de pedra sai, que tenha a entranha rota,</l>
						<l>Como aquela sai da alma esmagada e partida.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Para a viga melhor ser curvada e torcida,</l>
						<l>Dentro d’água se deita, e aí fica um tempo imota;</l>
						<l>Assim a água do seio; assim a água da grota:</l>
						<l>Não há água que corra e se suma perdida.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Arqueia o corpo e a alma humilha, isto é verdade;</l>
						<l>Mas porque a torna mole, e suprime a dureza,</l>
						<l>É que ela serve e é boa à pobre humanidade.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Da nossa frágil carne e nosso orgulho presa,</l>
						<l>O que podemos nós contra a fatalidade,</l>
						<l>Se temos contra nós a própria natureza?</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head rend="italic">Supremus dolor</head>
					<lg>
						<l>Há uma grande e lúgubre tristeza</l>
						<l>Que outra, creras maior, nem inda iguala,</l>
						<l>Que não encontra irmã na natureza:</l>
						<l>De que jamais ninguém falou, nem fala.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Não anda, ao amor, que trai, gemendo presa;</l>
						<l>Tem-nas todas a morte, e a não exala;</l>
						<l>Não sai da cova, não a cospe a vala;</l>
						<l>É sofrimento e a um tempo uma surpresa.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Não é, mau grado, a lágrima que esfria,</l>
						<l>Sem ter achado o coração preciso,</l>
						<l>Com outra ao pé de si, em companhia:</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>A dor suprema é rir, num paraíso,</l>
						<l>Rir só, sem ter o rir de outra alegria,</l>
						<l>Que é mais doce chorar que rir tal riso.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>Peleja inútil</head>
					<lg>
						<l>Quando às vezes procuro um nome que resuma</l>
						<l>O que sou? por que sou? por onde vamos indo?...</l>
						<l>Se penso, não encontro o belo em cousa alguma:</l>
						<l>Se não penso, acho mais ou menos tudo lindo...</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Um som prende outro som, cobre a espuma outra espuma</l>
						<l>De um grande sonho, como um vasto mar infindo;</l>
						<l>Se irrequieto o abandono, e outro caminho cindo,</l>
						<l>É tudo arneiro, estepe, ou rocha, ou vento, ou bruma.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Por mais que eu clame a um deus, um deus qualquer que seja,</l>
						<l>Para mudar da aranha o esquálido organismo,</l>
						<l>Que baba os fios de oiro em que o universo arqueja,</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Nada: e torno a chamar: ninguém: — indago, cismo...</l>
						<l>E largo de cansado a estúpida peleja,</l>
						<l>Tendo a um lado o mistério e doutro lado o abismo...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O ideal e o real</head>
					<lg>
						<l>Dois universos!... Um, o que dá forma e sonha</l>
						<l>Nossa mente; abre, e rasga, e arqueia, e azula, e cria;</l>
						<l>E esse outro, em que se inverna, essa cava medonha,</l>
						<l>Que guarda uma ilusão de cada extinto dia.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Um é obra gentil da vária fantasia,</l>
						<l>Cheirosa, alegre, doce, esplêndida, risonha:</l>
						<l>Outro, a fome, a miséria, a lágrima sombria,</l>
						<l>Onde escarra a traição a esquálida peçonha.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Quero o primeiro: esta alma ardente, ansiosa, aflita,</l>
						<l>Dele, para viver, dele só necessita,</l>
						<l>E tem só nele luz, céus, olimpos, que ver.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Quando a taça de fel a angústia humana traga,</l>
						<l>Não é pelo ideal, que nos faz rir e embriaga,</l>
						<l>É pela luta amarga e austera do dever.</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O mestre</head>
					<lg>
						<l>Nas tardes de janeiro, o sol no ocaso, à beira</l>
						<l>Do mar inquieto e ondeando à doce luz do poente,</l>
						<l>Parava Ele de olhar às vezes de repente,</l>
						<l>Como alguém que arfa e cai em meio da carreira.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Cego e surdo ao rumor da natureza inteira,</l>
						<l>Na palidez mortal de um mármore indif’rente,</l>
						<l>Parecia ter ido onde não vai a gente,</l>
						<l>Onde jamais chegou voo de águia altaneira.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Como quem surge após de um abismo, trazia</l>
						<l>Nesgas de alva cantante e pedaços de dia</l>
						<l>No olhar, na fronte; e um pouco em si de cinza e lava.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>E nós: — Mestre, por lá, o que de novo achaste?</l>
						<l>E ele ereto, bem como a flor em cima da haste:</l>
						<l>— Vi Prometeu no fim do céu: inda o escalava!...</l>
					</lg>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head rend="italic">Tentanda via</head>
					<lg>
						<l>Restam mundos a ver... Eia, heróis. — Nau que brilhas</l>
						<l>Dentro em mim, cai rufando à mó de irmãs galeras:</l>
						<l>Erguer âncoras, vá, alar! às maravilhas</l>
						<l>De um mar hirto de leões em fogo e estranhas feras!</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Arquipélago argênteo, esplêndidas Antilhas,</l>
						<l>Farelhões de rubis, lumaréus de crateras,</l>
						<l>Alfaquis de corais, por entre vós flotilhas</l>
						<l>De áureas palandras vão rodando como esferas.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Aproar... subir ao céu, rumo dessa obra prima:</l>
						<l>Vamos de perto olhar quem a faz, quem a ordena,</l>
						<l>Quem o abismo no abismo encrava, e o estende, e o anima.</l>
					</lg>
					<lg>
						<l>Aos deuses!... Ao chegar bradaremos: À cena...</l>
						<l>E hemos vê-los jogar os sóis abaixo e acima,</l>
						<l>Como besantes de oiro às mãos de histriões na arena!</l>
					</lg>
				</div>
			</div>
		</body>
	</text>
</TEI>
