LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em meio eletrônico
Correio da Roça, de Julia Lopes de Almeida
Obra de Referência
Biblioteca Virtual de Literatura
ÍNDICE
Faze florir pelo esforço do teu trabalho e pelo influxo do teu amor a terra que pitas e conhecerás a felicidade.
Não jazer nada é a melhor maneira de se sentir a gente envelhecer, morrer!
O campo brasileiro será eternamente triste se a mulher educada que o habita não se interessar pela sua fartura e a sua poesia...
Que mundo de ideias e de sentimentos o trabalho e a natureza despertam em nós!
QUERIDA FERNANDA.
Quando parti do Rio de Janeiro para o degredo da roça, ainda não tinhas regressado da Europa, e por isso ignoras o que de mais intimamente se passou comigo e as minhas quatro filhas durante a tua ausência. Recebendo agora o teu telegrama não posso sufocar o desejo de comunicar-te tudo.
Nos seis meses que estiveste longe a minha existência mudou completamente. A morte de meu marido revelou-me uma verdade que eu estava longe de imaginar — a de sermos pobres.
Nem sei como ele se podia mover no meio da complicação dos negócios em que se enredava. Logo depois da sua morte apareceram-nos credores, cuja existência eu ignorava e tive de chamar um advogado, que me aconselhou a vender a minha casa de Botafogo e as chácaras da Tijuca para contentar esses senhores e partir com as meninas para estas terras de serra acima, onde nos enterramos até ao nariz na mais estúpida, na mais fastidiosa insipidez.
A única propriedade que nos ficou livre, para refúgio da nossa dignidade, foi esta melancólica fazenda do Remanso, há muito tempo abandonada por meu marido, que aqui vinha raríssimas vezes.
Não calculas o horror desta solidão e destes povos dos arredores. As terras do Remanso, que é, como te deves lembrar, o nome da fazenda, está agora adicionado o sítio da Tapera, herança de meu pai, que por sua vez também o tinha de há muito abandonado. Aqui vivemos sem humilhação, é verdade, mas com uma enorme tristeza e curtos haveres. Minhas filhas, coitadas, passam o dia bocejando e desaprendendo o que estudaram no colégio.
De que lhes valerão agora as prendas com que se ornaram para brilhar na sociedade? O imenso casarão em que moramos tem ares de convento velho no meio de um terreiro crido e melancólico. Durante o dia, o sol castiga a terra nua num grande círculo ao redor das nossas quatro paredes silenciosas; à noite coaxam os sapos na solidão como a única orquestra para a satisfação dos nossos gostos musicais.
É um horror. Não sabemos em que empregar as horas, que se arrastam lentas e dolorosas. Surpreendemo-nos muitas vezes a dizer:
— A estas horas, se estivéssemos no Rio, estaríamos passeando na Avenida; ou entrando em tal ou tal teatro ou recepção... E aqui que fazemos? Nada!
Não fazer nada é a melhor maneira de se sentir a gente envelhecer, morrer! De mais a mais faltam-nos os meios, mesmo aqui, para certos confortos a que o trabalho ativo de meu marido nos tinha habituado. Não sei onde isto irá parar, mas sinto-me num despenhadeiro!
Escrever-te-ei depois com mais calma.
Tua
MARIA.
P. S. Inculca-nos um bom jornal de modas parisienses, que terá pelo menos o dom de distrair as pequenas, que se entreterão seguindo de longe elegâncias que não podem acompanhar de perto!
MARIA.
MINHA MARIA.
Queixas-te de que enviuvaste, ficando com poucos haveres e quatro filhas moças, educadas para a cidade e que te vês obrigada a confinar, por economia, dentro da tua velha fazenda do Remanso, a que adicionaste o sítio ainda mais velho da Tapera, agora herdado de teu pai.
Acho que estás muito bem.
É com certeza por modéstia que te lamentas da escassez de meios, tendo a rodear-te quatro cabeças inteligentes, oito braços fortes e à tua disposição não sei quantos quilômetros de terras, planas umas, montanhosas outras e todas localizadas a não muito grande distância da estrada de ferro.
A tua vida nova interessa-me muito para que eu perca, e te faça a ti perder tempo, relatando-te o que vi de maravilhoso e de banal nas terras estrangeiras onde meu filho permanece completando estudos da sua especialidade. O principal é que voltamos, meu marido e eu, com excelente saúde.
Entremos agora no teu assunto:
Vejo que as tuas filhas te preocupam, estiolando-se nesse clima magnífico pela mórbida cultura de saudades dos nossos saraus e das nossas avenidas... Antes cultivassem batatas, filha. Para que se não indignem, faze-lhes notar que esta opinião nada tem de ofensiva. As batatas nacionais, sobretudo as que no nosso mercado têm a denominação de — batatas rim — são incomparavelmente superiores a quaisquer das outras estrangeiras que importamos de França ou de Portugal, da Nova Zelândia ou do Chile. Por mim afirmo-te que os meus fornecedores têm ordem de não proverem com outras a minha despensa, a não ser quando elas em absoluto nos faltem na praça, o que é frequente. E por que faltam? porque são cultivadas em pequena quantidade e todas se esgotam mal aparecem no mercado. Dizem que as batatas nacionais se estragam mais depressa do que as estrangeiras, porque os seus cultivadores ainda não as sabem resguardar convenientemente na sua remoção do campo para as cidades, nem procuram conservá-las em celeiro das estações de fartura para as de penúria. Não sei, nunca indaguei nada a tal respeito; mas presto-te um serviço chamando para esse assunto a tua atenção e lembrando-te que, se incumbisses uma das tuas filhas de estudar e fazer pôr em prática sob a sua administração essa espécie de cultura nas terras abandonadas da Tapera, essa das tuas filhas não teria tempo de se estiolar, como uma monja num convento, com ideias inúteis, e pouco a pouco se interessaria pelo sítio em que vive e que a sua atividade tornará cada vez mais lindo e mais prospero.
Assim, em vez de acoroçoar a melancolia das tuas pequenas, suspirando por alegrias extintas e assinando-lhes jornais de modas que elas não podem seguir nessas paragens benignas, assina de preferência revistas agrícolas, instrutivas, alegres, que lhes deem noções aproveitáveis de indústrias campestres e as induzam a um trabalho propicio e benéfico em favor da sua linda propriedade, esse frondoso — Remanso — em que as aguas cantam entre as lajes brancas, as aves voam em revoadas e os altos pinheiros nodosos estrelam de verde negro a limpidez azul do espaço imenso.
Acredita que o campo brasileiro será eternamente triste, se a mulher educada que o habita não se interessar pela sua fartura, a sua poesia, dando ao pessoal inculto que a rodeia exemplos de carinho, de atividade, de amor à natureza, levando-o assim na esteira da sua inteligência para um futuro melhor. As tuas quatro filhas, educadas no colégio de Sion só com destino às salas ou às sacristias, veem-se dentro das grossas paredes desse velho casarão do Remanso, como freiras em um convento (expressão tua), em que apenas é permitida a entrada do folhetim romance e nada mais. É pouco. Estudam ainda o seu piano, bordam, ajudam-te nos misteres caseiros, revezam-se na confecção de doces e de biscoitos e suspiram pela rua do Ouvidor, que mal chegaram a gozar, entre a saída do colégio e a morte do papai.
E tu consentes que tal programa de vida se realize, tu, que na plena maturação dos teus belos quarenta anos e em pleno gozo das tuas faculdades mentais, te lastimas de possuir muitas terras incultas e apenas o dinheiro suficiente para as manter.
Mas, minha tontinha, escuta: já não digo para fazeres fortuna, porque não tenho pratica que me autorize a certos conselhos, ou antes ponderações: mas para higiene dessas queridas alminhas que te rodeiam tudo te indica a obrigação de mudar de tática. Impõe a cada uma das tuas filhas uma tarefa diferente, que a agite, que a obrigue a andar ao sol, ao vento, a chuva; observa que elas entrem para o seu trabalho com o corpo e a alma; que tenham os seus livros de assentos bem organizados, que saibam dirigir com energia e bondade os empregados que puseres à sua disposição — e verás como no fim de alguns meses se acendem rosas de saúde nas suas faces e como nas planícies da Tapera, agora cobertas de sapé e barba de bode, florirão alegremente os vastos campos dos cereais...
Ainda há bem poucos dias li uma notícia interessante a respeito da criação de galinhas e o negócio de ovos numa das mais alpestres regiões da Rússia, onde os meios de transporte para os mercados são ainda mais penosos do que os nossos.
O lucro que a exportação de aves e ovos dá a essa localidade, antes miserável e agora florescente e risonha, é verdadeiramente fenomenal! Graças aos patos, marrecos, galinhas e perus e às centenas de dúzias de ovos remetidos para Londres, esse recanto ignorado da santa Rússia, em que o abandono e a ignorância isolavam os seus raros habitantes em casinholas disseminadas de pedra rústica, se transmudou numa vila asseada, com escolas, com estradas de comunicação fácil, com as doçuras do conforto e da alegria. E tudo isso foi feito pelo influxo de um só espírito, o de um homem, alemão ou suíço, já não me lembro bem.
Obriga as tuas filhas a lerem os jornais todos os dias, sem desprezo por certas notícias que se não relacionem com o nosso meio e perceberás que terão muito a lucrar com isso. Essa história da criação das aves poderia entreter uma outra das tuas filhas, e entretê-la com segurança de bom êxito.
Sem ser proprietária rural, só pelo mero capricho da curiosidade, assino uma revista brasileira — Chácaras e Quintais — que me dá algumas informações preciosas, as quais, se aceitares o meu plano, te irei transmitindo nas minhas cartas, a pouco e pouco.
E agora ainda te direi que para estimular o ânimo das tuas filhas não será mal teceres com elas planos de futuro, baseados nos lucros das suas novas culturas, feitas pouco a pouco, com a prudência dos que não dispõem de grandes capitais. Lembra a uma que as sacas das suas batatas poderão fazer-vos um dia construir um palácio no Flamengo, e a outra que as suas galinhas proporcionar-lhe-ão o prazer de frequentar diariamente e de carro as grandes avenidas cariocas...
A ambição do dinheiro é a manivela que, inconscientemente ou conscientemente, nos faz dançar a todos; aproveita essa circunstância em favor da outra, a de veres tuas filhas interessadas pelo progresso e a redenção das terras abandonadas em que vivem e pela civilização dessa gente do povo que lhes rodeia a fazenda e que vegeta sinais do que vive, sem proveito nem glória para o Brasil nem para si.
Espana as teias de aranha do cérebro das tuas filhas, obriga-as suavemente a amarem o campo, a natureza e o trabalho, e assim verás que dentro de poucos anos tanto o Remanso como a Tapera estarão ligados à estação da estrada de ferro do povoado por belos caminhos que os vossos automóveis de carga e de passeio transporão com rapidez, facilitando-vos o comércio com os grandes centros do país. E prevejo tudo isto porque sei de que milagres é capaz a inteligência e a energia das mulheres obrigadas a atuarem por si.
Responde-me. Eu abraço-te.
FERNANDA.
FERNANDA.
Quando ontem o Salustiano...não sei se te lembras do Salustiano, um mulato de pescoço comprido, que várias vezes mandei, aí no Rio, a tua casa, com recados meus, e que exerce aqui agora as funções de correio, indo três vezes por semana ao povoado procurar a minha correspondência e comprar-nos pão, carne e mais uma ou outra coisa a que a civilização da capital nos habituou; pois quando esse rapaz assomou ontem à porta de casa, ainda salpicado da lama das estradas e com o saquinho da correspondência a estalar de cheio, as minhas filhas correram para ele clamando pela tua carta, na ânsia de saberem alguma coisa dessa sociedade em que desejam viver. Mas tu foste cruel: em vez de nos descreveres o que te cerca e embeleza a vida, entretiveste-te a falar-nos desta roça monótona, em que as horas se arrastam como velhas trôpegas por um caminho sem curvas, sem imprevistos e sem interesse... A ti parece-te que se pôde viver muito bem longe do bulício e da alegria da cidade, mesmo quando se lenha vinte anos, que é a idade da minha filha mais velha, a Cecília; e dezoito, que é a idade da Cordélia; e dezesseis, que é a idade da Joaninha; e quatorze, que é a da Clara, certamente a mais conformada com as agruras desta solidão.
E o que te afirmo é que os meus quarenta sentem duplicadamente o exilio a que a nossa má fortuna nos condenou, o que bem se explica, visto que, afinal de contas, ter quarenta anos é ter-se duas vezes vinte ... Passemos uma esponja sobre este assunto melancólico e discutamos a tua carta. Como de costume, li-a alto, rodeada pelas meninas, que se faziam todos ouvidos, na ânsia de saber ...Talvez te risses se pudesses imaginar a expressão de desapontamento que se lhes pintava no rosto ao ouvirem as tuas frases incitando-as ao papel, perdoa-me que te diga, quase ridículo, de plantarem batatas e criarem galinhas, como se fossem velhas aldeãs analfabetas e grosseiras. Eu mesma pergunto: valeria a pena, para chegar a esse resultado, ter eu gastado tanto dinheiro com a sua educação e ter sofrido uma separação tão longa durante todo o tempo em que estiveram de pensionistas no colégio? Para se plantar batatas e criarem-se aves domesticas não é absolutamente necessário aprender-se francês, inglês, piano e desenho...
Sem essa norma de educação plantei ideais na imaginação das minhas pobres criaturas, não te parece muito justo que eu agora as defende de trabalhos rudes e as acompanhe no desejo de realizarem o que têm no seu sonho? A tua carta, que indignou as pequenas, exceto Joaninha, que abria grandes olhos meditativos às tuas considerações, fez-me sorrir a mim. Fez-me sorrir e pensar que o mato, como o mar, é muito lindo para quem o vê de fora... A ti, no teu conforto da cidade, tudo parece fácil; imaginas que se cultiva um campo com o mesmo deleite com que se borda uma almofada e que basta o influxo da nossa vontade para que os pomares frutifiquem e os pássaros venham cantem rente às nossas janelas! Que ilusão, amiga! O nosso mato é híspido, é tristonho, é gerador de tédio; não há poesia, não há versos de descantes, não há música, não há dança, não há mocidade, e não há risos no povo que o habita, e com o qual somos obrigadas a conviver. Depois de ter lido a tua carta, reagindo contra a nossa inércia e também com o fito de te dar razão aos olhos das minhas filhas, decidi que iriamos ontem à tarde à Tapera, que ainda não tínhamos visitado, um pouco por desleixo, um pouco por medo... de... de não sei quê. Para ser completamente franca, dir-te-ei que a minha caçula, a Clara, foi a única a manifestar contentamento por essa resolução, rogando-me logo que a deixasse ir a cavalo, o que permiti com certo receio, por serem os nossos animais magros, trotões o de nenhuma confiança.
As mais velhas relutaram em acompanhar-me e talvez não saíssem de casa se Joaninha não lhes tivesse comunicado um certo interesse e curiosidade por conhecer a velha propriedade de meu pai, há muito tempo administrada por um casal de caboclos, cujos merecimentos sempre supus maiores... A Tapera fica a meia légua da residência principal do Remanso.
A distância, como vês, é relativamente curta, mas o caminho tão bravio, tão atravancado de troncos de árvores e de pedras, e tão cortado de valas e de barrancos, que levamos um tempo infinito a lá chegar. Para que compreendas bem a nossa situação, sabe que parte da família ia de troly e outra parte a cavalo.
Quando chegamos ao pobre sítio abandonado queixamo-nos todos de dores de rins e isso fez passarem despercebidas a minhas filhas duas lagrimazinhas que a muito custo retive nos olhos, entristecidos e saudosos de outros tempos, em que a Tapera verdejava esperançosamente nos largos mantos dos canaviais e em que eu corria pelo terreiro, animada pela voz alta e alegre de meu pai. Que diferença, filha! A casa desmorona-se. Há buracos pelas paredes, por onde entram o vento e a chuva, sem que o tal casal de caboclos se tivesse lembrado de entupi-los com uma passada de barro, ao menos... Corri ao laranjal! Onde estaria?
A erva de passarinho comera-o todo. O cafezal está em mato. Os canaviais extintos.
Dentro de casa — nudez completa: os caboclos nem ao menos uma das camas soubera guardar para seu uso...De louça... nem um pires.
Quiseram dar-nos café numa caneca de folha. Perguntei, lembrando-me das tuas noções românticas, em que poderiam eles consumir o tempo.
Responderam-me que tratando dos animais...
— Mas que animais? perguntei eu espantada. — Agora morreram... responderam-me eles, com a melhor e a mais genuína candura... Quando saíamos veio abrir-nos a cancela do terreiro um caboclinho esperto, de olhos travessos, neto do casal, encarregado pelos avós de guiar-nos à casa de um vizinho, onde deveríamos comprar algumas dúzias de ovos, que faltam absolutamente tanto no Remanso como na Tapera. O pequeno, lesto e engraçado, seguiu a pé, até que o mandei subir para o troly; contou-me, em resposta às minhas perguntas, que era órfão de pais, que não sabe ler e passa os dias a caçar passarinhos. Joaninha condoeu-se das aves e rogou-lhe que as poupasse. Comprados os ovos, em quantidade deficiente, num rancho de taipa e sapê, desabrigado e sombrio, de uma caipira velha, o caboclinho voltou para a Tapera e nós tomamos pela estrada grande da vila, sujeitando-nos a dar uma volta enorme para escaparmos ao suplício do caminho percorrido horas antes... Mas, ah, fatalidade! a menos de trezentos metros um lamaçal tremendo ia nos engolindo a todos: tivemos de retroceder e embarafustar por um atalho tão rochoso e selvagem que nele se quebrou uma das molas do meu trole, que eu supunha mais rijas que os músculos de Hercules! Que fazer? seguir a pé, guiadas pelo Salustiano, que por felicidade tínhamos levado para auxiliar as amazonas ou o cocheiro do troly em caso de perigo. Eram oito horas quando entramos cm casa, arfando de cansadas e cheias de carrapatos.
A esta última delícia é que não aludiste, como também não aludiste aos famosos bichinhos de pé...
Em paga da minuciosidade desta carta, dize-nos se sabes se é verdade que o Rocha se divorciou da mulher; se o Aníbal continua a frequentar a casa da Simões e se afinal de contas casa ou não casa a Lemos!
Tua Maria.
MARIA.
Eu não te escreveria esta semana se não tivesse lido num jornal alguma coisa que nos interessa a ambas.
E não te escreveria, não só porque cada uma das tuas cartas contém matéria para dez ou doze, obrigando-me a uma certa meditação antes de responder-te, o que não posso agora fazer, como também porque tenho uma data de assuntos a cuja atenção eu destinara hoje o meu dia. Enfim eles não perderão grande coisa em esperar que eu lhes consagre mais tarde os meus cuidados, e vou servir a minha impaciência escrevendo-te à última hora estas mal alinhavadas regras, conforme reza o velho estilo epistolar.
Antes, porém, de entrar na verdadeira causa desta carta, responderei a alguns tópicos da tua, o que posso fazer de relance, porque sublinho nas tuas cartas todas as frases que me surge com uma resposta ou uma interrogação. Isto é uma questão de método, que metem dado bons resultados. Respondendo ao meu conselho de interessar tuas filhas pela agricultura e avicultura, dizes tu: para se plantar batatas e criarem-se aves domésticas não é absolutamente necessário aprender-se francês, inglês, piano e desenho...
Confesso que nunca imaginei poder ouvir irromper do teu peito educado um grito de tão mesquinha significação. Em caso nenhum da vida os pais se devem arrepender de terem gasto com a educação dos filhos o melhor dos seus bens; assim como não há profissão nenhuma que não possa ser exercida tão melhormente quão melhormente é instruída a pessoa que a exerce. O que te deve entristecer é que às matérias citadas não juntasses a nomenclatura das ciências naturais, por exemplo. Crê, entretanto, na minha palavra: tuas filhas teriam menos necessidade de instrução se vivessem de valsa em valsa nos salões da nossa capital, do que morando num meio inculto, e onde a influência da sua instrução se pode fazer sentir de um modo radical e perfeito. Do que aprenderam nada fica inútil. O inglês e o francês servir-lhes-ão para leituras de revistas, livros, jornais e para se entenderem com os colonos desfias línguas, se por acaso alguns forem ter a essas paragens; a música fá-las-á compreender com redobrado sentimento toda a doçura dos sons, dispersos, mas concordantes, na harmonia da natureza; o desenho habilita-las-á a apreciação visual das coisas e a execução dos planos e mapas de que tenham necessidade para a formação dos seus campos de cultura, dos seus pomares ou dos seus jardins. Estou certa de que tuas filhas não aprenderam de mais, antes de menos, para o cumprimento da tarefa que têm diante de si.
O segundo tópico sublinhado na tua carta é o referente ao péssimo estado das estradas, em uma das quais as molas rijas do teu trole estalaram como cordas de viola nas mãos de um tocador inábil.
É mais uma despesa com que não contavas, ficando ainda por cima por alguns dias privada de condução. Conheço essa tragédia e o que ela me inspira não pode ser dito em meia dúzia de linhas. Prometo-te uma longa palestra a respeito das estradas, precisando ouvir antes disso a opinião de alguns amigos, tais como o Clemente, que é fazendeiro em S. Paulo, e o d’alma cio, que o é no Estado do Rio. Ha outras frases sublinhadas na tua carta, a que não posso responder já, porque estou ansiosa por beijar os lindos olhos de Joaninha, que se abriam meditativos, segundo me informas, às minhas observações, enquanto que os das suas irmãs se cerravam ao peso do aborrecimento.
Está escrito desde Almeida Garrett que não há olhos como os de Joaninha, e com certeza o poeta adivinhou os da tua filha quando descreveu os da sua menina dos rouxinóis, embora os dela fossem verdes e os da tua morena sejam castanhos, trespassados de mel e de sol. Pois aos lindos olhos de Joaninha envio por este mesmo correio, cem pés de roseiras, quatro pés de caquis e doze laranjeiras da melhor qualidade. Lembrei-me que o velho Thomaz, o negro cabinda de carapinha branca, de quem teu mando me falou tanta vez, poderá ajudá-la a fazer um jardim ao lado da casa, à nascente, entre as águas do córrego e o bosque das jabuticabeiras, que mais de uma vez me descreveram também, nos antigos tempos de Botafogo.
Quem desdenha a cultura das batatas e a criação das galinhas, desdenhará, pelos mesmos motivos, o plantio da laranjeira, árvore simbólica da castidade e do amor? Eu preferiria ter desmanchado a minha gratidão aos olhos de Joaninha, enviando-lhes umas cinquenta árvores frutíferas de diferentes espécies, que lhes permitissem fazer um pequeno ensaio de pomologia; mas o artigo do Jornal a que aludi no princípio desta carta, e a que tão suavemente cheguei agora, me fez mudar de resolução, pelo modo porque se refere aos lucros que tem dado à América do Norte os laranjais da Califórnia.
Só no ano de 1907 esses benéficos laranjais mandaram para mercados estrangeiros nada menos de 413.696 toneladas de frutas, que encheram 81.640 vagões das vias férreas!
É alguma coisa.
Mas não só a Califórnia cultiva laranjais para comércio. Também a Itália o faz e o fazem com lucro Portugal e Espanha.
Sem vaidade, com tudo, deixem-me perguntar: em que parte do mundo a laranja será melhor que a nossa? Posso afirmar que em nenhuma. Nem tão boa.
Essas mesmas da Califórnia, que se desmancham em dólares para os seus donos e que são filhas das nossas, sou capaz de jurar que não conservaram no país de adoção a doçura nativa.
Como talvez ainda não tivesses lido, deixa-me dizer-te que as primeiras laranjeiras da Califórnia são de origem baiana. Mandadas do Brasil algumas mudas em 1830, por um americano inteligente, foram nos primeiros anos cultivadas na estufa de um jardim público da América do Norte, até que uma mulher (repara nesta circunstância), a Sra. Tibbetts, conseguiu obter duas dessas plantas, que levou para uma vila da Califórnia, onde morava.
É provável que essa senhora fosse instruída, que pelo menos soubesse, como as tuas filhas, francês, música e desenho... Estas curiosidades e este interesse só os têm pessoas de certo gosto e educação.
Acredita que se a Sra. Tibbetts fosse analfabeta nem visitaria a estufa do Capitólio, onde estavam as laranjeiras brasileiras, nem, se o fizesse, se importaria com elas. Assim, que aconteceu? tratadas com mimo, essas árvores cresceram, frutificaram e multiplicaram-se tão assombrosamente que constituem hoje uma riqueza do país.
É triste pensar que se a Bahia tivesse querido, essa fortuna seria dela.
Mas a Bahia preferiu e prefere engolfar-se no seio mole e pérfido da política, mexer panelas de eleições, entregar-se de corpo e alma ao palavreado dos seus homens de Estado, a baixar o olhar para a terra prometedora e fértil em que os seus filhos põem os pés ... Tanto pior para ela — e para todos nós.
Há ainda uma concorrência mais tenebrosa a ensombrar o nosso futuro: a dos plantadores da árvore da borracha nas ilhas Malásias, que, instruídos por companhias inglesas, cultivam em grandes extensões de terra plantas idas do Brasil, e que ali se desenvolvem maravilhosamente... Não fossem esses ingleses instruídos e perspicazes, e essa enorme fortuna seria só nossa... Nós, entretanto, nem sequer cultivamos a planta da borracha, nascida ao acaso, para a escravidão de milhares de almas que vivem sob o jugo de uma tirania indigna e estúpida, nas trágicas regiões do Inferno Verde! Enquanto no Brasil toda a gente pensar como tu, isto é, que o lavrador não precisa de inteligência nem de educação* o nosso campo servirá apenas de fonte de riquezas— para os outros. E nada de invejas: não podemos ter senão elogios, não só para os cultivadores dos laranjais californianos, como também para os plantadores ingleses da nossa borracha nas Malásias...
Devo parecer-te hoje soberanamente enfadonha. Voltemos ao nosso interesse: por certo não pensarás que envio doze laranjeiras à nossa Joaninha para que ela comece a atirar para os boulevards de Paris e para os squares de Londres os seus frutos magníficos; tanto mais que eles ainda tardarão um pouco a vir... Acredita apenas que essa dadiva é feita como a celebração de uma data feliz... para a terra brasileira. Eu adoro os laranjais. O perfume da sua flor evoca não sei que horas da minha mocidade, que revivem no meu peito sempre que o sinto. Há certas noites de luar que me produzem o mesmo efeito, e quando estas duas circunstancias se reúnem, o poder da ilusão é completo. Dize, pois, a tua Joaninha que não plante unicamente essas doze laranjeiras, que espero se desmancharão em flores para o seu noivado, mas que semeie muitas mais, muitíssimas mais, sem a preocupação de o fazer só em terreno cercado e para uso exclusivo da família. Do Remanso à Tapera, pelos zig-zags dos carreadores, aqui e acolá, que a sua mão generosa e moça plante a árvore que mais do que todas saberá atrair à hora do poente os sabiás cantadores e dará um dia frutos à pequenada pobre dos colonos, que tanto mais se prenderão à terra em que estiverem quanto mais a acharem abundante e maternal. Trata de engrandecer e poetizar pôr os modos a tua propriedade agrícola e não penses nos cancans da nossa sociedade, cada vez mais enredadora e maligna. Para que desejarás saber se o Rocha se divorciou e se a Lemos casa ou não casa, se, afinal, se o Rocha se divorciar é para tornar a casar-se, embora com outra, e se a Lemos se casar será para se divorciar pouco tempo depois? Deixa-nos sufocar nas cinzas deste borralho imenso — e tu respira, respira livremente esse bom ar da serra!...
FERNANDA.
De Joaninha a Fernanda.
MINHA SENHORA.
Farei o que me manda. Plantarei árvores frutíferas para nós, para os nossos amigos, para os colonos e para os passarinhos! As suas roseiras chegaram bem, mas sem nome, pendendo enforcados dos seus galhos curtos simples algarismos de catálogos, que não lhes bastam para batismo. O negro Thomaz está contentíssimo com as suas novas atribuições.
Hoje estive trabalhando no jardim com ele, até a hora do almoço, que devorei com um apetite ainda desconhecido por mim. Mamãe disse que nunca me viu tão corada! Mal sabia a minha mãezinha em que eu estava pensando! Pensava em pedir à minha boa amiga D. Fernanda que me ensine a cultivar violetas, que sempre foram, a sua flor predileta, e cujos ramos brilharão nas grandes e velhas salas do Remanso, como joias em escrínios esfolados... Vou lhe dizer uma coisa grave: a Clara ficou com a sua pontinha de inveja pelo presente que eu recebi e já muito particularmente me confidenciou que se acha também com ânimo para fazer algo pela glória do Remanso.
Se ela criasse pombos? Que lhe parece? Vacilo entre pombos e coelhos, desses todos brancos que se enovelam como grandes pompons de pó de arroz... Dizem que há coelhos azuis. Será verdade? Quanto as galinhas têm muitos inconvenientes: o piolho, a peste, a gosma, as boubas, o diabo! ah, perdão! lá se me escapou da pena o nome do inimigo. Ainda bem que já não estou no colégio, porque seria certo o castigo; assim, se eu tivesse tempo, rasgaria esta carta e começaria outra; mas o Salustiano está aqui em pé diante de mim, só à espera deste papel, para partir.
Aconselhe-me, perdoe-me e receba em um beijo toda a alma da sua grata
JOANINHA.
MARIA.
Acabo de ler uma carta da tua Joanna, a quem responderei dentro de poucos dias, e um bilhete postal em que a tua letra, bem conhecida, traçou unicamente estas palavras: — E as estradas?
Presumo que tenhas tido por causa delas algum novo aborrecimento. Ter-se-ia quebrado outra mola do trole, ou desaparecido nas ignoradas profundezas de algum lamaçal o teu melhor burro cargueiro, ou o próprio Salustiano?! Pobre amiga! Pois escuta. A propósito do pouco interesse que nós aqui no Brasil ligamos às estradas, falei eu há dias, não com as duas pessoas cujos nomes te citei em uma das minhas cartas, mas com um amigo muito mais culto, muito mais inteligente e que tem ainda sobre os outros a vantagem de conhecer o Brasil do Sul e do Norte, do litoral aos sertões, por ser engenheiro, afeito a comissões de estradas de ferro. Ora, vê tu como o destino nos protegeu. Disse-me ele o que te vou repetir aqui:
Cabe ao lavrador, em seu próprio benefício, não só manter, conservando-as, as estradas ou caminhos que dão acesso à sua propriedade, como empenhar-se na construção de outras novas, conforme a necessidade de mais francamente estabelecer meios de transporte para os centros de mercado a que envie os seus produtos agrícolas. Em geral as estradas, cortando um só município com os caracteres de logradouros públicos, são estabelecidas pelas municipalidades, com ou sem auxílio dos poderes federais ou estaduais. As que põem em comunicação mais de um município, são feitas ou pela União, ou pelo Estado, ou ainda de comum acordo entre as municipalidades. Para facilitar a construção de estradas em um só município há ainda a iniciativa dos munícipes, auxiliados sempre, direta ou indiretamente, pelo poder municipal. Mas o que particularmente nos interessa agora são os caminhos rurais, que ligam entre si pequenos núcleos produtores aos centros de comercio e de exportação. Sozinho, o pequeno produtor particular não poderá construir tais caminhos; mas se todos os ocupantes de lotes de uma só fazenda, ou os seus vizinhos mais próximos se associarem para tal fim, a despesa será relativamente insignificante para cada um, e o benefício será enorme para todos.
Está claro que este sistema não se estende aos núcleos coloniais fundada pelo governo, porque esses têm recursos próprios.
Construídas tais estrada, compete aos lavradores e colonos conserva-las com o maior capricho, pelo mesmo processo de associação, de modo a garantir a prosperidade da sua lavoura, cujos produtos se escoarão por elas, sem acidentes que os demorem ou prejudiquem. Muitas vezes as condições de conservação e de construção das nossas estradas são tais que em vez de criarem ao lavrador facilidade para os seus transportes, os conduzem a insucessos facilmente evitáveis e a aumento inútil de despesas.
O principal ponto a observar é a boa orientação do traçado. Em grande número das nossas vias férreas, por exemplo, são as condições técnicas de traçado o pior entrave ao desenvolvimento da produção, devido às exorbitantes tarifas que tais condições técnicas acarretam, pelo desgasto rápido e constante do material, principalmente o rodante. É preciso não prejudicar resultados futuros em benefício de uma mal compreendida economia de momento, porque de facto, o custo do primeiro estabelecimento de uma via férrea cm condições de dar em futuro próximo tarifas mínimas e não entravar, portanto, a produção, é maior que o de outra que, tendo o mesmo comprimento real, tenha maior comprimento virtual, isto é, mais fortes rampas e curvas de raios menores.
Sempre que for possível, o traçado do Caminho deve ser feito em linha reta, apresentando em toda a sua extensão uni fraco declive que, permitindo o escoamento das águas pluviais, não dificulte o acesso das rampas, tendo se em vista que, quanto maior for a declive, maior será o gasto de materiais, carros, carroças, etc., e maiores a despesa e o esforço de tração. É bem raro conseguir-se um traçado em linha reta, pois, não obstante a sua grande vantagem, os gastos avultadíssimos que isso muitas vezes acarreta o tornam inexequível. A nossa natureza interrompe a cada passo a marcha do homem, com os seus rios profundos, as suas montanhas quase inacessíveis e os seus precipícios temerosos, obrigando-o a caminhar em linhas sinuosas.
Só depois de um estudo prévio da situação e do local, feito com o maior rigor e a maior atenção, é que se deve fazer o traçado de uma estrada, tendo-se em vista que o movimento de terra deve ser o menor possível. A observação do terreno em que desejamos fazer uma estrada, durante o tempo das chuvas permitirá reconhecer a inclinação natural para o caminho, conforme as águas se escoem ou permaneçam estagnadas. A largura depende da sua importância.
Em geral tais caminhos são construídos para dar passagem a um só carro e nestas condições bastam 3 m. 50 de largura tendo-se, porém, neste caso o cuidado de fazer de distância em distância um pequeno trecho de uns 7 metros, mais ou menos, para prevenir o caso em que dois veículos se encontrem em direções opostas.
Para evitar prejuízos advindos pelos estragos das águas, o leito das estradas deverá ser abaulado com a inclinação de seis centímetros por metro, nos casos comuns das passagens rurais feitas em terra; quando, porém, o caminho seja empedrado, bastará o declive de cinco centímetros.
Nas estradas bem construídas existem lateralmente regos para escoamento das águas pluviais; mas nos caminhos rurais empregam- se lateralmente pedras que lhes acompanham o declive, o que tem a vantagem de os não alargar, diminuindo a escavação pela exigência do maior taluda mento nos barrancos laterais. Para maior duração convém empedrar determinada extensão, no centro dos caminhos, o que os conservará e facilitará os transportes nos meses das chuvaradas. Quando se tenha de atravessar uma grota ou um riacho, a maneira mais simples e mais econômica de estabelecer uma passagem, consiste em colocar através dessa grota ou desse riacho duas ou mais vigas de madeira de lei, suficientes para resistirem ás cargas que tiverem de suportar e estabelecer em seguida um assoalho feito com paus bem unidos. Acontece algumas vezes que a direção da estrada corta uma inclinação natural de escoamento das águas pluviais, convém então ter cautela, para não obstruir esta direção, o que traria o inconveniente do alagamento do caminho nas ocasiões de enxurradas. Um meio fácil e prático de se evitar este alagamento consiste cm se construir um dreno de pedras, quando se dispõe de pedras grandes e chatas, ou então tubos de grês, sendo sempre preferível fazer duas canalizações juntas, em vez de uma de grande secção, pela dificuldade que há comumente em se obterem tais tubos. Parecendo este meio dispendioso, pode fazer-se este serviço com argamassa de cimento, areia e tijolos em um dreno de alvenaria em direção transversal a estrada, mas na mesma do escoamento das águas.
Conclui o meu informante que isso é o que de mais prático e rudimentar se pode fazer na construção dos nossos caminhos rurais.
Falou o técnico; agora falo eu. Embora eu te pareça muito fantasista e de uma liberalidade fácil de compreender, desde que a bolsa que se deve abrir não seja a minha, deixa-me, contudo, insistir consigo para que não olhes a economias quando tiveres de fazer as tuas estradas e convoques os teus vizinhos para que sigam o teu exemplo, na certeza de que economizarão gastando mais e fazendo logo uma obra definitiva e bela. Nós temos o habito das economias mesquinhas, dando a tudo que fazemos o ar de provisório, sem cogitarmos em que esse sistema nos acarreta dificuldades e grandes despesas futuras, como bem disse o nosso informante e amigo. Na minha opinião, o fazendeiro moderno deve preparar as suas estradas não para carros de bois, mas para automóveis, destinados a desbancar as próprias locomotivas e comboios das vias férreas. Disseste-me que ali para os teus lados mesmo as estradas municipais estão um tanto ou quanto desleixadas. Mas que fazem vocês que não gritam, que não atormentam as autoridades locais, até que elas vos deem caminhos amplos, firmes, feitos com todo o rigor e todos os preceitos da Boa arte? Guerreia a política e pede, até ao berro e a vociferação, os melhoramentos para os quais contribuais bem pesadamente; não te deixes, pelo amor de Deus, mergulhar na lama da indiferença: — sê gente.
Se gente e lembra-te de que o luxo não e só apreciável quando serve para embelezar o nosso corpo, mas também a nossa vida, pondo uma nota de riso e de sedução em tudo o que nos rodeia. Se esta carta não estivesse já tão longa, contar-te-ia um caso que me contaram há dias, ainda a propósito de estradas. Ficará para outra vez. E agora sempre te direi que se quiseres a minha visita pelo Natal, terás de concorrer com o teu dinheiro e o teu prestigio para a melhoria das estradas que vão desde o povoado até à porta da tua residência no Remanso.
FERNANDA.
QUERIDA JOANINHA.
(A 1 hora da tarde.)
Eu estava num dos meus dias de velhice, um dos meus dias de saudade, quando recebi a tua carta, e foi como se uma janela se abrisse num quarto escuro, por sobre uma paisagem cheia de sol e de flores. Desvaneceu-me a tua promessa de obediência e temo agora tornar-me abusiva. Quero que, entretanto, compreendam todos ali bem o meu pensamento, que não é o de vos impor, nem ensinar coisa alguma, porque, ai de mim, que sei eu? mas, só o de vos chamar a atenção para certos assuntos, que me parecem muito dignos dela. Diz um poeta inglês, que já com certeza ouviste nomear — Shakspeare — em uma das suas obras primas, chamada “O mercador de Veneza”, estas palavras profundamente verdadeiras: I can easier teach twenty what were good to be done, than be one of the twenty to follow mine own teaching.
Espero que não estejas tão esquecida do inglês, que não tivesses entendido o sentido destas palavras:
“É-me mais fácil dizer a vinte pessoas o que seria bom fazer-se, do que ser uma dessas vinte pessoas e fazer o que eu tivesse ensinado”.
É naturalmente o que se dá comigo, tenho, porém, uma esperança, digo mais: uma certeza instintiva de que a vocês serão fáceis executarem as minhas teorias.
Entretanto acreditem todos ali que a minha intenção é concorrer para amenizar-lhe a vida, chamando ao mesmo tempo para os campos do meu querido país a simpatia de certos espíritos inteligentes e bondosos; nada mais.
Porque, afinal de contas, a verdade é esta: vocês não devem abdicar, pela circunstância de viverem na fazenda, das vantagens que a todos deu a educação literária que receberam, e antes aplicá-las no aperfeiçoamento do meio em que vivem, para satisfação alheia e própria, convencidas, como estão, de que o papel da mulher é alegrar, poetizar e elevar o nível da sociedade em que vive, por meio da sua graça, da sua doçura, do seu bom gosto e dos seus exemplos de atividade e de piedade. E ora pois, minha jardineira, ali te mando pela mesma ordem por que os recebi do Sr. Schlick, Pessoa da maior competência no assunto, os nomes das roseiras que melhor florescem no Rio de Janeiro e que esse considerado flori- cultor escolheu a meu pedido. Pensarás talvez que, devido a diferença do clima, o critério da escolha deveria ser outro; acredita, entretanto, que as roseiras que tiverem provado bem aqui, melhor ainda florescerão na região do Remanso. Quando o teu roseiral estiver criado, manda de vez em quando pôr de imersão, num depósito de água, um saco cheio de fuligem, e logo que essa água tiver tomado a cor do vinho do Porto, irriga com ela, fartamente, as roseiras, sem receio de que o excesso d’água as prejudique. Não deixes também de aproveitar as cascas do café para adubo dos canteiros, espalhando-as numa camada de quatro ou cinco centímetros, o que enriquecerá as plantas cultivadas e impedirá o nascimento de ervas daninhas, segundo me informa o jardineiro da fazenda S. Valentim, no Estado de S. Paulo, onde esse processo tem dado excelentes resultados.
Mas vamos às nossas roseiras.
Não tenhas preguiça de ler a imensa nomenclatura que vou estender diante dos teus olhos, imaginando que tal conhecimento vai fazer parte da tua educação. Cada uma dessas rosas não é tanto um produto da natureza, como o símbolo de uma obra de arte. Devemos saber os seus nomes, como sabemos os das telas mais afamadas e os das mais afamadas estatuas.
Ei-los:
Anna de Diesbach, Archimedes, Anna Wood, Aurora Boreal, Baron A. de Bothschild, Baronne Nath de Bothschild, Baronne Henriette Snoy, Baron, de Meynard, Baron Prévosl, Belle Pannachée, Blanche Lafjltte, Boucenne, Camille Bernardin, Captain Christy, Carmen Silva, Carolina Testout, Charles Darwin, Chev. Ângelo Ferrario, Christine Noué, Clotitde Soupert, Comte de Sembuy, Comtesse de Beau- metz, Duchesse Ossuna, Duchesse de Morny, Desir, Elie Beaunvillain, Elisa Casson, Empereur du Maroc, Erzherzog, Franz Ferdinand, Etoile de Lion, Eugène Furst, E. V. Hermanos, Francis E. Villard, Francisca Kruger, Fran Karl Drusky, General Jacqueminot, General Washington, Gloire Ducher, Gloire de Margo- tin, Gloire de l' Exposítion de Bruxelles, Gloire Lionnaise, G. Nabounand, Gruss au Teplitz, Hippolyte Jamin, Homero, Jean Libaud, Jeanne Joubert, John Hopper, Jules Margotin, Júlio F. de Misefa, Zepherine Drouhin, La Beine, Louise Odier; Mmet C. Wood, Henry Berger, Cornelissen, Isaac Pereira, Ernest Calvat, Morbert Lavasseur, Philomene Cochet e Victor Verdier; Magna Charta, Mamã Cochet, Marechal Niel, Marechal Torey, Margaret Dickson, Marie Bauman, Marte d’ Orléans, Marte van Houthe, Paul Vabouand, Paul Neyron, Perle de Lyon, Purpura d’ Orléans, Presidente Kruger, Pride oj Regates, Princesse Alice de Monaco, Reine de Portugal, Reine Marie Henriette, Rêve d’or, Solfatari, Souvenir de Catherine, Souvenir de Guillot, Souvenir de la Malmaison, Souvenir de William Wood, Souvenir de Alexandre Hardy, Triumph de Pernet, Ulrich Brunner e William Richardson.
A estas roseiras juntei a bela Armytage Moore, que adquiri este ano, e que tem dado abundantes e lindas rosas ao meu jardim; “La Roche, Imperatriz Eugenia e M Coursin. Pedindo auxilio ora a um, ora a outro dos nossos principais cultivadores de pomares, de campos e de jardins, irei fornecendo ao Remanso noções de coisas que lhe podem ser uteis. Deixemos afora para o fim o explicar o modo porque devemos cultivar as violetas, que te interessam tanto, e conversemos um pouco a respeito da nossa Clara.
O que te afianço, é que não foi inveja, como dizes, o que ela sentiu pelo presente que te mandei: foi estímulo, e, por esse belo movimento de alma, felicito a com seis casais de pombos brancos, que irão tão depressa me avisem de terem já feito para eles um lindo pombal ali na fazenda. Embora inimiga da adjetivação meramente ornamental, pus aquele “lindo” antecedente ao pombal com todo o propósito, e chamo para ele a atenção de Clarinha. Ela que escolha um local alegre e amplo, onde haja relvas, e eu farei acompanhar as aves com uma longa e minuciosa carta a respeito da sua criação. Os meus ócios permitem-me essa espécie de sport intelectual, com que eu procuro auxiliar-vos a todas. Quanto ao estilo do pombal, não sei dizer, mas não o façam de taboas velhas, pelo amor de Deus!
Chegou a hora de aproveitarem o desenho aprendido no colégio: organizem um concurso e mandei-me os planos, que eu os sujeitarei à opinião de um artista, remetendo depois um bonito prêmio a vencedora. Valeu? É escusado recomendar que os vários planos deverão vir assinados por pseudônimos, para absoluta isenção de parcialidade...
Antes que me esqueça, quero dizer-te que o teu terror pelas galinhas é pueril; entreter-me-ei a esse respeito com tua mãe, em qualquer dia de maior pachorra e depois de ter lido alguma coisa sobre a higiene dos campos. Agora vou dar o meu passeio das cinco horas e, de passagem, indagarei do meu floricultor como se cultivam as violetas.
(Às onze horas da noite.)
Acaba de sair da minha casa um afilhado de tua mãe, de quem ela talvez nem se lembre: Eduardo Jorge, recém-chegado dos Estados Unidos, onde estudou a profissão de eletricista. É um rapaz alegre, robusto, que toca piano de um modo agradável, o que é já dizer muito, gosta de livros e manifesta desejos de ir visitar a madrinha ao Remanso. Quando tiverem notícia da sua visita, mandem afinar o piano. Que vento o trouxe a minha casa? perguntarás. Não foi o vento, fui eu. Falando, como te prometi, com um floricultor na sua loja, pronunciei o nome de tua mãe, para cuja fazenda eu deveria mandar as indicações que lhe pedia, sem reparar num moço que escolhia, perto do balcão, algumas Paul Neyron. Obtidas as informações, que te dou em seguida, esse rapaz pediu-me licença para se dirigir a mim, declarando-se afilhado da pessoa que eu nomeara e desejoso de saber o seu endereço...
Em poucos minutos de conversa, percebi ter diante de mim o filho de uma velha amiga de colégio, de quem até hoje guardo lembranças suaves, emoldurando a imagem de uma caturrinha morena, redonda, de olhos verdes e saias curtas... Esta minha amiga foi-o também de tua mãe, e a tal ponto, que mais tarde a convidou para madrinha do seu primeiro filho. A vida depois espalhou uns para um lado, outros para outro lado, para depois de tantos anos nos fazer encontrar, de novo, de um modo tão imprevisto. Foi devido a este incidente que as rosas Paul Neyron, compradas pelo Eduardo Jorge e com outro destino, vieram parar a minha sala.
Mas vamos ao modo porque se cultivam as violetas:
“Plantam-se as violetas em terra leve, metade vegetal e outra natural; mistura-se à terra assim preparado adubo animal, bem curtido e abundante, conservando-se sempre a terra muito balofa, em local livre de arborização e exposto ao sol da manhã.
Convém renovar a plantação por meio dos novos rebentos, tirados da planta primitiva, que fica assim com mais força para a florescência.
O replantio deve sempre fazer-se em terra nova, preparada como acima ficou dito.
A plantação deve ser feita nos meses de Janeiro e fevereiro.
Em dias de grande calor, convém regar á tarde, evitando abundancia de água, mas conservando sempre fresca a plantação.”
São conselhos simples, mas de mestre, não são meus. E o que desejo e espero, é que, conforme o que disseste, o teu violeta espalhe pelas velhas salas do Remanso fulgores de ametistas e a alma da poesia, que existe sempre nas casas em que há mulheres boas e educadas.
A prática da vida material não se perde nada em entrelaçar a haste de um sonho...
Saudades a todas.
FERNANDA
(Bilhete postal.)
MINHA SENHORA.
O meu futuro violetal agradece-lhe e eu asseguro-lhe que os seus conselhos têm melhorado o meu espírito. Sinto-me mais piedosa e mais pensadora. Que mundo de ideias e de sentimentos o trabalho e a natureza despertam em nós!
JOANNA.
FERNANDA.
A ideia do concurso para o pombal foi excelente; passámos há dias um serão distraidíssimo em torno da mesa de trabalho. Se não fosse a má luz, também eu teria entrado na liça; mas os meus olhos começam a mal comportar-se e não me permitem que os aplique à noite em trabalho de nenhuma ordem. Tenho verdadeira nostalgia da luz elétrica e dos bicos Auer, que nunca me fizeram suspeitar sequer que algum dia viesse a ter necessidade de óculos. Tu sabes quanto eu abomino óculos e lunetas e não me parece justo que aos quarenta e três anos já careça de tais aparelhos, quando minha mãe aos sessenta cosia sem eles. Todas as tristezas vêm caindo ao mesmo tempo sobre mim; era nos olhos que eu supunha persistir ainda um pouco da minha mocidade...
A má luz à noite tem com tudo um proveito — obriga-nos a ir cedo para a cama.
A esta queixa sei que oporás a poesia do luar nas largas veigas campestres e a vantagem que temos de poder observar à noite, da varanda em trevas, os festões ondeantes c tremeluzentes dos nossos incomparáveis vagalumes nas frescas margens do córrego. No continuo desencontro da vida, quis Deus pôr a tua alma virginiana no rumoroso centro da nossa civilização e a minha alma mundana nas regiões quietas da serra, a que, entretanto, pela sugestão talvez das tuas cartas serviçais e amigas, me vou pouco a pouco afeiçoando.
Já agora, estuda-me também ali essa questão da luz. Quero que o Remanso resplandeça como um farol nestes mares ervacentos, encapelados de colinas, a que a brancura de alguns pedregulhos a esmo lembra a visão da espuma. Que saudades do mar, filha! e das gaivotas, que da minha sacada da praia de Botafogo eu via todas as manhãs esvoaçando na Bahia, à procura de peixe. Dirás que não é de gaivotas que se trata agora, mas de pombos, que de algum modo se lhes assemelham.
Obrigada pelos que vais mandar à Clara, que promete superintender ela mesma as obras, do pombal, que há de ser feito naturalmente pelo Salustiano, verdadeiro pau para toda a obra. Lamentando que a minha caçula não possa entrar com as irmãs no concurso, por não saber desenhar, pois a pobrezinha interrompeu a sua educação por motivo da morte do pai, Cecília prometeu ensinar-lhe tudo quanto sabe e instituiu assim uma classe, em que tanto aproveita a mestra como a discípula.
E eis ali está um lucro já indiretamente prestado pelo pombal! É extraordinário como grandes empreendimentos saem às vezes de coisas que se nos afiguram tão insignificantes! Com o exemplo de Cecília, Cordélia foi revolver os seus cadernos e livros de estudo e resolveu ensinar cia também, não desenho e música, como a irmã, mas o a b c, a criançada da colônia! E é encantador, afirmo-te, ver todos esses garotos italianos e espanhóis aprendendo o português com uma mestra cheia de paciência e de bondade, que exige deles uma lição perfeita, radicando-os pela língua e pelo estudo à nossa terra tão mal compreendida. São vinte os discípulos, dentre sete e doze anos. Nos dias de chuva ou de sol forte, as aulas funcionam em uma das nossas salas da frente; mas, quando o tempo favorece, as lições são distribuídas à sombra das jabuticabeiras, onde o Salustiano fabricou, sob as ordens de minhas filhas mais velhas, cadeiras e mesas com troncos rústicos de árvores. Além de leitura, escrita, noções de coisas e contas, que essas vinte crianças aprendem com a minha paciente Cordélia, estudam música e desenho com a Cecília, e é uma delícia ouvi-las já cantar um coro a duas vozes, muito afinado e em excelente ritmo. Palpita-me que se em todas as fazendas houvesse alguém com a mesma coragem e o mesmo entusiasmo que minhas filhas estão revelando agora, o Brasil dentro de poucos anos deixaria de ser um país de analfabetos e tornaria bem seus os filhos dos colonos estrangeiros e estrangeiros eles também.
Todas as grandes propriedades rurais deveriam ser obrigadas a manter uma escola, auxiliada ou não pelo governo dos Estados respetivos. As minhas filhas pedem-te por meu intermédio que indagues se há por ali alguns hinos agrícolas, em que se enalteça o valor da enxada e do arado e se glorifique a natureza do Brasil. Difundir o gosto pela poesia e pela música é, podes crê-lo, um serviço urgente no interior do nosso país, onde o povo é propenso à tristeza, quando não é indiferente. Por esta razão, pensam também as meninas em organizar bailados para as tardes de domingo, permitindo aos colonos, pais das crianças, virem velas dançar no terreiro da Residência.
Joaninha, que tomou a si esse encargo, diverte-se infinitamente organizando as figuras dos seus bailados campestres. Como vês, tudo isto se estabeleceu de um dia para o outro, por estímulo das tuas cartas e do concurso do pombal, cujos desenhos ali vão com as competentes legendas. Afirmo-te que há grande curiosidade entre as concorrentes pela decisão do júri...
Interrompi esta carta para receber a visita de um rapaz agrônomo, filho de um fazendeiro vizinho, e que veio conferenciar comigo a respeito de uma estrada que deve ligar a propriedade dele, a minha e as demais alguns lavradores a nova estrada municipal de pedrinhas.
É um rapaz interessante, com quem espero nos entenderemos maravilhosamente, porque é de espírito adiantado e pareceu-me bom observador. Li-lhe a tua carta sobre as estradas e autorizei-o a mostrá-la às outras pessoas interessadas no assunto. Como ele tivesse chegado exatamente à hora de classe, levei-o depois ao bosque das jabuticabeiras, onde surpreendemos Cecília e Cordélia curvadas sobre as cabeças dos seus pequenos discípulos. Sem que ele notasse, observei que a impressão que lhe causou tal quadro foi de verdadeiro assombro! Gostei de vê-lo acariciar os pequenitos mais novos e mais lambuzões da colônia e do interesse que manifestou pelo método de ensino desta escola ao ar livre, feito talvez com mais coração que inteligência. Depois de ter prometido às pequenas alguns livros de pedagogia e de higiene, pediu licença para matricular na nossa escola um sobrinho e mais três colonozinhos da sua fazenda, que completariam a lotação de um trole que virá todos os dias 10 ao Remanso! Esta resolução pareceu-nos exagerada; mas, como cada um sabe como se governa, não temos nada com isso. Tive pena que ele não ouvisse as crianças cantarem, porque a disciplina da hora não permitiu tal distração. Ficará para outra vez, quando vier trazer à escola os seus novos discípulos. A verdade, que eu sinto e muito lealmente confesso, é que a nossa vida se transforma para melhor. Já o Remanso não me parece tão longe da vida e tão fora da civilização. Vejo minhas filhas ocupadas, aplicando em bem dos outros a instrução que receberam, e que desapareceria aos poucos se permanecessem na apatia em que vivíamos nos primeiros tempos. Ensinando, elas aprendem coisas novas e vinculam bem no espírito as já aprendidas no colégio. Por mim não paro; sabes que o dia de uma fazendeira obriga a uma atividade constante e absorvente; em todo caso, ai! de mim, tenho tempo para desfalecimentos e melancolias... E só a ti direi que muitas noites, sentindo toda a casa adormecida, abro a minha janela e contemplo as estrelas com o mesmo anseio de confidencia dos meus quinze anos! Sinto-me então como uma ave que se visse nos ares, em alto mar, sem um mastro ou um rochedo para o pouso. Esta solidão é grande demais para mim e maldigo a natureza impiedosa, que me envelhece o corpo sem me envelhecer simultaneamente a alma! Se souberes também de um remédio para esta agonia, manda-o depressa.
TUA MARIA.
(Bilhete postal.)
Para todas as agonias e desfalecimentos morais há um único remédio: — o trabalho.
FERNANDA.
QUERIDA CECÍLIA.
Acabo de receber uma carta tua em que reclamas o cumprimento de uma promessa que lhes fiz há dias a respeito de estradas. Agrada-me o teu interesse. Ali vai a história em estilo de quem se sente em crise de grande pobreza intelectual.
Não sei se vocês se lembrarão do Antônio Carlos, um velhote do Oeste de S. Paulo, que me visita frequentemente sempre que vem ao Rio. Contou-me ele que as estradas da sua fazenda eram desabrigadas, cortando campos extensos de esbranquiçado ervaçal, o que as fazia ferozmente castigadas pelo sol. Um dia um dos seus filhos, exasperado com os efeitos de uma viagem ao meio dia, exigiu dele que mandasse fazer, ao menos em vários trechos do caminho, verdadeiros oásis, para repouso das soalheiras. O pai resistiu. Mas o filho era teimoso e não desanimou. — Sim? Não. Sim? Não — o tempo ia passando, até que o rapaz tomou a iniciativa de fazer por sua conta o que o pai se negava a fazer pela sua própria. Aproveitando uma demorada estadia do velho na capital do Estado, o moço plantou com uma turma de colonos um certo número de árvores e de bambus em vários pontos do extenso caminho.
No fim de alguns anos o efeito dessas árvores se fez sentir de um modo maravilhoso. Voltando para casa num dia de grande calor o velho Antônio Carlos foi vítima de um ataque de insolação, e teria morrido se logo dois metros adiante não o tivessem feito repousar a sombra de uma bela touceira de bambus, onde esperou socorros e se sentiu melhorar rapidamente.
“Mais cinco minutos de sol, e eu teria morrido”, contou-me ele com os olhos lacrime- jantes de comoção. Excursado dizer que esse senhor é hoje um grande propagandista do plantio de árvores. Não esperem vocês por ameaças de insolação para semearem também de frescos oásis as estradas do Remanso.
Saudades.
(Bilhete postal.)
Risquei hoje uma avenida de bambus desde a porta da sala de jantar, parte sul, até ao bosque das jabuticabeiras, e já está denominado este caminho com o doce nome de — Alameda do Estio. Espera merecer a sua aprovação — a toda sua
CECÍLIA.
MINHA MARIA.
O progresso que me denúncias na tua carta é tão grande, que mal ouso crer que ele se tenha realizado por influxo das minhas modestas observações. As tuas filhas mais velhas, muito caladinhas, estão fazendo uma das obras, se não a obra mais útil ao engrandecimento moral deste nosso Brasil, ainda tão inculto e mal servido. Se eu fosse a ti espalharia por toda a parte a notícia dessa escola ao ar livre, mantida em uma fazenda, por meninas educadas, no intuito de instruir gentes ignorantes e tornar-se brasileiros de coração e pela língua filhos de outras pátrias distantes, mas nunca esquecidas. E espalharia tal notícia, sabes para que? Para que ela servisse de incentivo a outras moças igualmente educadas e desocupadas, para instituírem nas fazendas de seus pais ou tutores pequenos aulas de leitura e de escrita, em que italianos, espanhóis ou austríacos fossem insensivelmente trocando pelas nossas expressões as das suas próprias línguas, até se sentirem tão brasileiros como nós outros.
Vê tu como eu tinha razão em esperar das mulheres grandes benefícios em prol da regeneração do nosso campo! As tuas filhas, tão amigas do luxo e dos prazeres da capital, vendo-se de repente privadas da convivência da sociedade, para que foram preparadas, tiveram a rara coragem de dedicarem os seus ócios forçados a instrução dos pobres ignorantes, e nisso encontrarão alivio às saudades que as apoquentam. A tua consciência deve irradiar venturas!
Nunca esperaste, por certo, que a educação que soubeste dar às tuas filhas tivesse uma aplicação tão nobre nem tão perfeita. Eu senti os olhos encherem-se d’agua, ao imaginar as nossas lindas Cecília e Cordélia a corrigir docemente os erros da pequenada da colônia, à sombra rendilhada e leve das jabuticabeiras do bosque. Dize-lhes que podem abusar de mim e encomendar o que quiserem: livros, lousas, lápis, papel! Já agora as minhas economias terão uma aplicação mais útil do que a que tinham nos problemáticos bilhetes de loteria e outras asneiras com que entretenho a imaginação... Falarei com os nossos poetas e os nossos músicos sobre os hinos em louvor a enxada, a charrua, ao campo lavrado e a chuva criadora, que engorda a semente e mata a sede à terra.
E assim se reproduzirão nas amplas veigas do remanso as grandes solenidades populares em que o rei David fazia ouvir os seus formosos erros, cantados por quatro mil levitas, na amplidão do campo, ao ar livre! Para não dar excessivo trabalho á ensaiadora, eu já me contentarei com umas quarenta vozes... A invocação da música e da poesia foi de peregrina inspiração. Não nos cansemos de procurar transmitir aos nossos camponeses o sentimento de tudo o que há de mais belo e de melhor para o aperfeiçoamento do seu espírito e do seu caráter, tão bisonho e amargurado... É provável que esse moço agrônomo, que tão entusiasmado se mostrou com a escola das tuas filhas, a possa auxiliar um pouco, dando pelo menos uma lição por semana sobre maquinas agrícolas, qualidades químicas da terra, etc.
Tenho ainda guardado um telegrama expedido da Itália para um dos nossos jornais, que diz assim: “Inaugurou-se hoje em Ripratansone o curso ambulante de agricultura”. Quando li esse telegrama pensei que entre nós tal iniciativa, também já adotada, não dará senão resultados remotos.
A inteligência do povo brasileiro, digo do povo trabalhador de enxada e analfabeto, precisaria de uma certa elucidação preparatória, que não procura nem ninguém lhe oferece, porque vive arredado de todos os favores e de todas as escolas. Mas se em todas as fazendas houvesse simultaneamente o mesmo movimento que houve agora na tua, dentro de pouco tempo os cursos ambulantes de agricultura poderiam fazer um grande benefício ao país.
A nossa Joaninha tomou a si uma tarefa curiosa e mais importante do que se poderá afigurar a espíritos banais. Ensinar a dançar com ritmo, com elegância, é concorrer não só para o pitoresco da vida como para a harmonia das mais belas qualidades humanas, juntando à beleza do pensamento e ao encanto da voz a graciosidade do gesto. Ainda por cima, teve ela o bom senso de banir dos seus bailes campestres a valsa, a polca medonha e a cerimoniosa quadrilha, que ainda me vejo de algum modo forçada a dançar nos bailes de cerimônia a que vou. Todos os países têm as suas danças campesinas, os seus descantes, os seus sapateados.
Nós não, porque o samba é africano, e além de africano — soturno. As melopeias do samba, belíssimas às vezes, são de uma melancolia profunda, que faz mal a alma que as escuta. Abençoada ideia a dessa criança iluminada e risonha, reunindo no terreiro da sua fazenda a mocidade da sua colônia para a lazer dançar danças aldeãs e engraçadas. Estou vendo que vocês vão fazer do Remanso um paraíso e que eu não resistirei ao prazer de ir compartilhar das suas delícias.
Como esta carta é toda em resposta à tua última, ali te mando os óculos, os óculos dos fatídicos quarenta anos, óculos de vista cansada, que bem se aplicou durante a mocidade!
Não forces a vista, que mais depressa estragarás os teus ainda belos olhos castanhos.
Não os desprezes nas tuas leituras à noite, nem quando durante o dia cerzires na tua sala de costura as meias da família e a tua roupa branca. É uma coisa a que nos dedicamos pouco, essa de concertar roupa branca, e de interesse capital, entretanto!
Cordélia não deve esquecer essa ciência, na sua aula para as meninas da colônia. Mas, voltando aos óculos, não sei se eles te servirão: têm sido meus companheiros íntimos, digo íntimos porque também, como tu, ainda tenho um resto de faceirice que me obriga a ocultar de olhos estranhos o aparelho que ponho as vezes nos meus... e já que chegamos a esta parte sentimental, deixa-me dizer-te tudo! Também, como tu, tenho as minhas melancolias sem causa determinada, melancolias infantis que me alvoroçam e me fazem cismar! Como o teu, o meu coração é uma urna de saudades indefiníveis e de ansiedades irrealizáveis. Ainda tu podes abrir a tua janela e mostrar o teu rosto sem máscara às estrelas piedosas.
Eu não. Os astros do nosso céu rir-se-iam dos meus devaneios dolorosos e das minhas interrogações; e cada vez, a qualquer hora que numa expansão silenciosa eu volvesse o meu olhar para o céu, não faltaria quem do fundo da treva, dentre as pedras das calçadas ou da caliça das paredes vizinhas, escarnecesse do meu idílio... Na cidade é preciso fingir, fingir a todos os momentos, dentro de casa como na rua, de dia como de noite. É a exigência que faz de nós a sociedade, que incorre em todas as faltas, mas não perdoa nenhuma... Tu ainda tens a consolação das tuas filhas, que te engrinaldam de risos e carinhos a existência. E eu? o meu único filho anda agora pelo Egito, consultando esfinges, e o meu marido vive, como sabes, completamente desinteressado da minha pessoa. E é por tudo isso que eu suspiro pela velhice, a velhice absoluta, a doce velhice consoladora e profícua, porque para mim, como para ti, que tens mais espírito do que eu e maior coração, velhice não quer dizer esterilidade nem abandono. A mulher sã de corpo e alma, chegada essa hora que intimida os fracos, encontra na experiência adquirida nos seus anos de mocidade e de idade madura poder para executar grandes obras de piedade e de regeneração. Há sempre muito que fazer na vida e a nossa última quadra não é com certeza a menos produtora.
Para isso, minha Maria, é preciso ter coragem e não dissipar inutilmente as forças afetivas da nossa alma... guardemos sempre um pouco das nossas energias para o que há de vir. Confesso-te as minhas esperanças, para dar-te animo, como te confessei as minhas desilusões, para te demonstrar que me tens sempre por companheira fiel na jornada da vida.
Resta-nos a nós duas uma grande felicidade: temos sabido ser amigas uma da outra através de toda a existência, sem a menor sombra de traição, e isto entre mulheres c tanto mais raro, quanto mais lindo.
Prometo-te ser mais prática na minha primeira carta. Teu afilhado Eduardo Jorge trouxe-me de um passeio qualquer que fez ao campo sementes de cássia e de flamboiant, que ali te remeto para o viveiro do Remanso.
Nem só de pão vive o homem. Planta árvores de flores e abraça Cecília, que tão tem me compreendeu e a quem tanto quero.
FERNANDA.
MINHA BOA AMIGA D. FERNANDA.
Até hoje nada de pombal; nada de galinhas; nada de iluminação caseira; e nada de nos dizer a razão por que não realizou a sua anunciada visita pelo Natal, com o afilhado da mamãe, esse tal Sr. Eduardo Jorge, que toca piano e se interessa por agricultura a ponto de trazer dos seus passeios de rapaz os bolsos cheios de sementes de árvores!
Não imagina o que me ri com isso. E o caso é que estão brotando as tais sementes, graças ao desvelo de Joaninha, que toma muito ao sério as suas funções de jardineira. Se a visse de manhã, de chapelão, avental, saias pelo tornozelo, regador na mão e tesoura pendente da cintura, talvez não lhe fosse fácil reconhecer nela aquela menina de cinturinha de vespa e olhar nostálgico, que por tais predicados teve tantos votos de beleza em um concurso de não me lembro já que jornal carioca... Eu tenho crescido e se não engordo é talvez pela impaciência de ver passar os dias sem que cheguem os meus pombos, nem a decisão do tal concurso do pombal. Sabe? Já escolhi o lugar para ele. Ha de ser perto do açude, junto à cancela do pasto. O açude, (nós aqui chamamos-lhe: tanque) é grande e profundo, mas tem as margens muito desabrigadas. Parece que meu avô fez aquilo só para aguada dos animais: foi pena que lhe não tivesse plantado algumas árvores a roda, porque lhe daria pitoresco e sombra. Ao princípio não notei isto, mas as suas cartas têm por tal modo despertado a nossa curiosidade pelas coisas que nos rodeiam, que lhes vou descobrindo sem esforço as qualidades e os senões...
Para castigo de não ter vindo passar o Natal conosco, direi que arranjámos uma árvore lindíssima para a criançada da colônia. Mamãe fez uma grande tachada de balas, que nós distribuímos em saquinhos de cor pelos galhos, miraculosos do pinheirinho, autêntico, trazido pelo Salustiano da vargem das Pedras. Houve coros, ensaiados por Cecília, danças ensinadas por Joaninha e uma história muito linda contada por Cordélia. Só eu não fiz nada, mas misturei-me a tudo; dancei, cantei e vi-me incluída na sorte dos bombons por espírito de camaradagem mais do que por gulosina infantil...
À hora em que lhe escrevo, mamãe está salgando um porco na despensa, e Cecília preparando remédio para uma doente da colônia. Realmente, quem mora em uma fazenda precisa entender de tudo! Ontem eu quase desmaiei vendo Cordélia desinfetar a perna de uma criança, golpeada por um caco de vidro, e colocar-lhe, com a maior perícia, alguns pontos falsos...
Mas isso não a interessa.
Adeus, minha amiga.
Estamos bons, mas com saudades. Até quando?
CLARA.
CLARINHA.
Enganas-te, minha querida, quando, no último tópico da tua carta, supões não me interessarem os cuidados médicos que vocês possam dispensar a quem deles carecer nessas afastadas regiões do Remanso. Ao contrário, estimo que me tenhas proporcionado ensejo para acoroçoar em todas vós a coragem e o sangue frio indispensáveis para o exercício de certos deveres de medico e de enfermeiro, a que se veem obrigadas as pessoas que vivem em lugar ermo dos recursos da ciência. Se houvesse no Brasil, como há na Inglaterra, por exemplo, hospitais em que moças das melhores famílias vão temporariamente servir de enfermeiras, com o intuito, não só de aprenderem como se encana um membro fraturado, como se pensa uma ferida, como se faz voltar à vida um afogado, como se livra das chamas uma criatura, etc., mas também com o fito de fortalecerem a alma e saberem dominar os nervos nas maiores e mais assustadoras crises da sua vida futura, impondo-se uma serenidade absoluta, mesmo em face dos casos mais dolorosos ou mais assustadores, que porventura tenham de observar ou de assistir; se houvesse aqui tais cursos de enfermeiras, eu seria a primeira a pedir a tua mãe que uma após outra, matriculasse neles todas as suas filhas. As damas da Cruz Vermelha, que são as damas da aristocracia da França, da Itália, de todos os países cultos da Europa, enfim, sabem pratica e cientificamente tratar de um doente, se tarda a chegada do médico ou cirurgião...
Quantas vezes uma mãe de família se vê atarantada e deixa de acudir aos filhos ou às pessoas de casa em circunstâncias que, com um pouco de ânimo, ela lhes daria alívio imediato! Reage contra os teus desfalecimentos e ajuda a Cecília, e na falta de Cecília a qualquer das tuas irmãs, a fazer os curativos nos doentes, até que tenhas adquirido serenidade de ânimo e possas agir com firmeza quando as necessidades te forçarem a isso.
Seria um crime deixar-se um ferido esvair-se cm sangue, só por não ter coragem de lhe acudir a tempo. Não te parece?
Sei que tua mãe tem uma farmácia em casa.
A brasileira é médica por instinto, e é isso que nos vale. O que eu não imaginava é que ela soubesse salgar porcos e fazer salsichas. Abençoadas mãos, que não desdenham ocupação nenhuma! É bom saber de tudo; mas no seu caso (eu iria instruindo em tal mister uma colonasinha, ou o próprio cozinheiro, mesmo que eu tivesse de administrar o serviço, mas altivamente, de pé, a uma certa distância. Entendo que uma dona de casa, demais a mais viúva, precisa manter toda a sua autoridade e todo o seu prestigio, observando os serviços dos seus empregados sem se imiscuir em nenhum deles diretamente. Mas nós as brasileiras somos impacientes em tais assuntos e é por isso que nos queixamos de excesso de trabalho doméstico e que envelhecemos tão depressa, banalizadas pela falta de elegância e de expressão intelectual.
Para alegrar as margens do açude, mandei despachar hoje, endereçados a ti, seis vimeiros já crescidos e que plantarás à beira da água, no ponto que melhor parecer à tua mãe.
Tens razão; no tempo do teu avô as fazendas eram despidas de toda a ideia de conforto e de poesia. O lavrador não amava a sua propriedade, procurando unicamente tirar dela a maior quantidade de dinheiro que lhe fosse possível. E esse dinheiro, para onde foi ele?! Pomares, jardins, hortas, bom trato de animais, galinheiros e chiqueiros higiênicos, água encanada para residência, boa iluminação, — todas essas coisas eram consideradas como supérfluas e desnecessárias... também nesses tempos as lendas eram exílios, e é isso que eu não quero que seja considerado o Remanso, habitado por isso as de espírito, como vocês.
Ficará ainda para outra vez a informação a respeito dos pombos e das galinhas.
Aprende a ser paciente, que é a virtude mais necessária à mulher.
Pretendo visitar primeiro alguns criadores, irá mandar depois para ali as minhas impressões.
Quanto à questão da luz, tratei de indagar com os entendidos aqui no Rio qual o melhor processo para a iluminação de uma fazenda. A primeira casa em que entrei afirmou-me que o melhor sistema entre todos era o das lâmpadas álcool. E muito cortês e serviçal, esse informante mostrou-me uma variedade realmente bonita de candelabros, lâmpadas suspensas, impões de pé, etc. Não contente, entrei em na casa, à espera de ver confirmadas as asseverações da primeira. Pois não foi assim. Esse negociante, igualmente amável e conivente, desmoralizou a iluminação a álcool, para apregoar as vantagens do gás acetileno, para o qual me apresentou igualmente uma grande variedade de lampiões de interior e de exterior, gabando as suas qualidades economias, ainda por cima. Já perplexa, fui a uma outra casa na esperança de ver de que lado estariam a razão e a justiça dessas opiniões. Pois, filha, a terceira casa arrasou com documentos poderosos as preconizadas vantagens do álcool e do acetileno, para só elogiar o petróleo, de que expôs diante dos meus olhos uma grande quantidade de lâmpadas, de todos os tamanhos e feitios.
Nesta confusão, decidi esperar o Eduardo Jorge, que anda em viagem de negócio por S. Paulo, a ver se ele, que trouxe da América do Norte tantas noções práticas de conforto, me elucida neste assunto.
Entretanto, vejo hoje a notícia de uma conferência, feita há dias na nossa Academia de Comércio pelo Dr. D. Kalkman, enaltecendo as qualidades do — gás Benoit — que não é perigoso, não é raro e de fácil e simples instalação, segundo afirma o conferente. Este assunto não pode ser resolvido de uma hora para a outra. Dê-me tempo e o Remanso esplenderá como um farol entre o mar ondeante das verduras que o cercam.
Um abraço para todas da
FERNANDA.
MINHA MARIA.
Chegou o dia de te falar nas decantadas galinhas, e faço-o com o desassombro de quem se sente prestigiada no assunto pela pena rutilante do extraordinário autor do Chantecler. Se Edmond Rostand achou na confusão de um pato de granja, entre o alarido dos gansos, os cocoricós dos galináceos, os au, au, dos cães de guarda, o piar dos pintos e o arrulho dos pombos, expressão para uma peça em verso, destinada ao palco universal, não será coisa despropositada que eu, embora sem fantasia, sem poesia e atada aos preconceitos da nossa sociedade falha de espírito prático e de gosto pelo pitoresco, me entretenha a conversar por escrito consigo a respeito de um galinheiro! Há alguns anos isso faria desviar de mim o interesse da gente chic, a gente da roda fina em que vivemos e que apreciamos..., mas hoje o exemplo do poeta francês projeta um raio de luminosa simpatia para a vida íntima dessas aves bonachonas de quem no Brasil só as velhas burguesas se constituíam protetoras, de modo que até mesmo nos salões mais requintados se fala em galinhas, com a mesma naturalidade com que se fala em canários ou em sabiás... Aproveito a maré e deixo-me levar, na certeza de que tu mesma acolherás esta palestra com mais interesse do que o que terias nos antigos tempos. Abençoado Rostand!
Tanto o pouco caso e o desinteresse pelos galinheiros são usuais entre nós, que, mesmo nas propriedades, como o Remanso, se veem os lavradores na contingência de andar peregrinando pela vizinhança para a compra de ovos! Tu mesma o disseste em uma das tuas primeiras cartas, o que me encheu de indignação. O mal é frequente; não te censuro só a ti. Tudo o que não seja a grande cultura especial da fazenda, parece ao lavrador objeto sem importância.
É esse defeito que precisamos combater, tu com o teu exemplo, eu com a minha palavra, tuas filhas com as suas lições e os seus argumentos na escola livre, que tão acertadamente criaram no Remanso. No encadeamento de várias funções está o melhor elemento de felicidade em um estabelecimento agrícola, sempre complexo e interessante.
Se não tratamos senão de polir e fortificar o elo dessa cadeia, os outros, esparsos e paridos, não servirão senão para juncar o solo de utilidades e atrapalhar-nos os passos. É por pensar assim que me tenho esforçado em chamar atenção de todos vocês para vários pontos de aparência insignificante e que têm no fundo uma promessa de recompensa e de felicidade futuras, não há nada indigno da nossa atenção, na maravilhosa natureza em que vivemos e de que tivemos.
Ora, pois, minha querida, mando-te (serão despachados hoje, á noite) um galo e três galinhas Houdan, de plumagem branca e preta, penacho e gravata espessos, criaturas pesadas- ias, comilonas, grandes apreciadoras da alimentação animalizada. Não será difícil arranjar minhocas para variedade dos seus repastos, bastará para isso mandares enterrar a poucos centímetros, em um fio de terra sempre umedecido, um pouco de fubá grosso; não tardará mito que esse fio de terra seja um verdadeiro ninho de vermes, que regalarão as mais poedeiras alinhas do teu galinheiro. Com esses exemplares de raça francesa, vai um casal de Brahma, e da Conchinchina e um da nova raça favelles, de uma cor assalmonada, oferecidas por um afilhado Eduardo Jorge. Informa-me, orem, o meu jornal agrícola que a raça mais à moda e de reputação perfeitamente justificada, agora, e a galinha Orpington, principalmente a amarela; e o galo dessa raça é quase indispensável em um galinheiro de aves comuns, cujos produtos, cruzados com a Orpington, dão resultados dignos de nota.
Galinhas do país lia-as muitas por ali, para que eu precise mandar-te-ás de tão longe; entretanto, quando as comprares repara nas condições do seu tratamento e da sua saúde. Uma galinha tuberculosa arruinaria a saúde de todas as outras, nacionais ou estrangeiras.
Essa espécie de doença é combatida com o creosoto, sob diferentes fôrmas: injeções, inalações, etc., parecendo-me, porém, que o processo mais racional e rápido para evitar a propagação do mal é o da supressão da galinha pelo... degolamento. Mas eu não te quero instruir aqui sobre o modo de manteres em ordem e em boa higiene o teu galinheiro; para isso há formulários completos, obras que uma lavradora e criadora inteligente tem a obrigação de consultar. O meu desejo é chamar a tua simpatia para determinados assuntos, deixando-te depois em face deles, estudando-os por tua conta, que para isso, graças a teus bons pais, sabes ler e escrever. Entretanto, dir-te-ei que não deves consentir em que as crianças da colônia frequentem o lugar das vês; lembra-te que o croup é de origem aviaria pode ser facilmente transmitido da gosma da alinha a mucosa de uma boca infantil.
Com o espaço de que dispões, poderás dividir o teu galinheiro em várias repartições, de iodo a ter sempre alguma delas desinfetada, om o solo revolvido e semeado de nabos ou de mostarda, grãos que têm a dupla vantagem te germinarem depressa, purificarem o solo e inda a terceira de alimentarem bem os galináceos. Quem não dispõe de grandes espaços de terreno para tal desdobramento de galinheiros, usa então a creolina e outros desinfetantes.
Fiadas na excelência do clima e na vastidão dos campos em que vivem, vocês, fazendeiros, tão prestam geralmente atenção às desinfeções e limpeza do recinto em que conservam os animais. Disse-me o Eduardo Jorge que isto é um erro de funestas consequências. Quanto liais bem tratados forem os animais, seja qual for a sua espécie, mais saudáveis e mais belos eles serão e mais garantias de salubridade haverá no sítio habitado por eles.
Disseste-me há tempo que nem tu nem tuas filhas se podiam utilizar dos cavalos do Retanso, por serem feios e trotões.
É vergonhoso que seja assim, em uma fazenda onde há bons pastos, boa água e excelentes terras para roças de milho.
Presta atenção ao bem-estar dos animais da tua propriedade, desde as vacas leiteiras, mugidas todas as manhãs no pátio da residência, até os últimos pintinhos acabados de sair da casca e verás, como viu Rostand, que em toda a criatura há uma alma, e cm toda a natureza um apelo de amor e de harmonia universal!
Pensava eu em pôr o ponto final nesta carta, quando o Eduardo Jorge, que sabia do assunto desta correspondência e é a gentileza em pessoa, me apareceu à porta em um automóvel, convidando-me para ir visitar com ele a Bassecour de um seu amigo.
As informações que eu te fornecesse seriam assim mais práticas e positivas. Fui, e voltei encantada.
Com vagar te relatarei mais tarde as minhas impressões; entretanto, do que vi posso desde já informar-te de que deverás manter cm compartimentos separados as galinhas de raças diferentes; que é bom juntar à sua alimentação de milho a aveia e o triguilho, assim como é útil, para a higiene do galinheiro, revolver de vez em quando a terra do chão, misturando-lhe cal.
Por hoje é tudo; e adeus.
FERNANDA.
FERNANDA
Há seguramente três meses que te não escrevo e que não recebo de ti senão raros e lacônicos postais escritos à pressa, já ao calçar das luvas para o teu passeio. Embora a nossa velha e solida amizade não precise de ser alimentada por uma correspondência mais ou menos assídua, temo que te acostumes a não pensar em mim, e a não me escrever, assim como cu, confesso, já ia sentindo um pouco de preguiça cada vez que pensava em te pôr ao corrente do que se passa ao redor de nós. Bem vês que mesmo os mais sagrados e sinceros sentimentos sofrem graves perigos, se os abandonamos um pouco a si próprios, na certeza de que por serem imutáveis não precisam de ser continuamente acoroçoados por meio da palavra que os estreite. Não sei, portanto, há perto de noventa dias o que se passa em tua casa.
Na minha sempre te direi que se têm passado coisas extraordinárias. Cecília está noivai Lembras-te de te eu falar de um rapaz agrônomo da vizinhança, vindo um dia ao Remanso para combinarmos a abertura de uma estrada nova que ligasse as nossas propriedades à estrada municipal de Pedrinhas? Pois é esse senhor o meu futuro genro. Gomo logo na sua primeira visita tivesse surpreendido minhas filhas mais velhas a ensinarem a criançada da colônia no bosque das jabuticabeiras, sentiu-se impressionado por esse ato de bondade e de inteligência, pedindo imediatamente (como me parece já te comuniquei) para matricular na nossa escola um sobrinho e três colonozinhos da fazenda — Morro Azul — que fica a pequena distância da nossa. Supusemos que tal pedido não passasse de um cumprimento; mas poucos dias depois eis que nos aparece no terreiro um trole com o Sr. agrônomo e os pequenitos, já munidos das suas lousas, lápis, réguas e cadernos de papel!
No momento em que ele entrou na aula, um dos discípulos mais travessos da Cecília tinha caído ao chão e aberto uma brecha na cabeça; ela lavava-lhe a ferida, ao mesmo tempo que o ia admoestando, maternalmente. Ocupada com esse serviço, mal pôde prestar atenção à visita do nosso vizinho, e foi a Cordélia quem escreveu no livro da matricula os nomes dos novos discípulos. Pois de volta para casa acompanhou-o a imagem de Cecília, apesar de que os seus atos o impressionaram muito mais do que a sua pessoa, o que não deixa de ser estranho...
Eu, afirma ele, pensando em Cecília, não podia determinar com precisão se os seus cabelos eram castanhos ou pretos, se os seus olhos seriam claros ou escuros, nem qual o talhe da sua boca, nem o tom da sua pele. Via-lhe o vulto curvado para a pequenada, na primeira Lição, e mais a maneira amorosa pela qual os alunos olhavam para ela, do que mesmo as Linhas do seu rosto; via-lhe depois as mãos sujas do sangue do italianinho a moverem-se cuidadosamente sobre a sua cabeça raspada á escovinha; e revia-a, ainda depois, descascando laranjas, que sucessivamente oferecia ás crianças, ao mesmo tempo que lhes descrevia a natureza do fruto... Comecei a amá-la sem sentir que a amava, e quando um dia percebi que ela era bonita, percebi também que, mesmo que ela fosse horrenda de feições eu a adoraria do mesmo modo!.
Confessemos que é uma maneira inédita de amar. É escusado dizer que esse senhor construiu e reconstruiu as estradas de um modo quase luxuoso...
Hoje o Remanso está ligado ao povoado, à Tapera e a outras fazendas da redondeza, por caminhos que podem ser percorridos por automóveis. Nada de acidentes. O Salustiano vai e volta em metade do tempo, aos recados de que o incumbo; as carroças e os animais não sofrem embates nem perigos — e o resultado é que os próprios colonos se têm animado na plantado dos cereais, cujo transporte veem facilitado. Joaninha tem feito honra aos teus conselhos e pedidos: o jardim está coberto de flores, o pomar estende-se desde a beira da casa até ao açude; os vimeiros crescem lindamente, vergando para a agua as suas galharias flexíveis, — e no outeiro relvado, o pombal de Clara, coberto de sapé, com as suas divisões bem construídas e fáceis de desinfetar, dá uma, nota pitoresca e alegre ás bandas, antes desertas, do pasto velho, em que ele foi feito e de onde é visto da nossa varanda, hoje toda enredada de maracujás. O galinheiro, que tanto nos recomendaste, foi executado sob planos do meu futuro genro, de quem é já tempo de te dizer o nome: Silvino Mendes, filho de ricos lavradores da vizinhança e já agora nossos amigos. É extraordinário como em noventa dias se possa transformar assim a vida de um lar! A nossa casa já não parece a mesma: está agora sempre cheia de música e de cantos, influência do amor e do trabalho — essas duas fontes de perene beleza e de felicidade suprema. Cecília é outra mulher; ativa, risonha, sensata, toda voltada para a natureza, toda interessada pelos trabalhos da lavoura. Lembrando-se do que disseste uma vez, numa das tuas cartas, a propósito das saudades que sentíamos todas da Avenida e da rua do Ouvidor, o que te fez exclamar: — “pois antes plantassem batatas!” —fez arar uma extensa área da Tapera, adubar o solo, e semeou ali por sua conta c risco uns tantos alqueires de batatas, que prometem uma colheita extraordinária para a futura estação. Essa resolução aterrou o casal de desmazelados caboclos que lá viviam na casa grande, de que pouco a pouco tinham quebrado toda a louça, todos os vidros e queimado ou não sei como feito desaparecer os velhos trastes do tempo dos meus avós! Esses caboclos inertes e sujos foram desterrados para uma antiga senzala, hoje reformada, caiada e alegre, no mesmo sítio, enquanto espero que o produto das batatas dê para reformar a casa abandonada e iniciar aí vida nova e proveitosa. O neto vivo e engraçado desse casal de velhos sonolentos, veio para o Be manso, onde aprende na escola a ler, escrever e desenhar, aprendendo também o oficio de carpinteiro na oficina que aqui temos montada, e na qual o Salustiano faz prodígios, incitado pelo seu gosto e a sua habilidade. Não imaginas como tudo isto nos distrai e alegra!
As horas passam-se sem que as sintamos; graças a essa boa disposição, a nossa propriedade transforma-se pouco a pouco para melhor...
Para te demonstrar até que ponto todos nós amamos e nos interessamos pela prosperidade do Remanso, vou te contar isto: Joaninha acaba de pedir-me para plantar um pinheiral numa grande mancha de terreno inútil que temos, exatamente para os lados do Morro Azul.
“Mais tarde, quando formos muito ricas, diz ela, construiremos ali um belo hospital para os pobres e para os colonos de toda a redondeza; entretanto, aproveitaremos a resina das suas árvores e as suas taboas para o comercio, replantando-o sempre que ele for desfalcado...”
É espantoso tal raciocínio numa criança de dezessete anos! Foram as tuas cartas que lançaram aqui a semente proveitosa desses pensamentos, ao mesmo tempo que belos idealista e práticos.
Na sua imaginação aquela mancha de terreno, realmente grande, mas não tanto como se lhe afigura, dará para uma floresta opulenta de pinheiros cheirosos, e que só pelas suas lágrimas, para o breu, e pelas suas taboas para edificações, nos tornará ricas e poderosas; mas como não pensa só em dinheiro, mas é boa e generosa, cuida a minha Joaninha em fundar com a nossa felicidade um lugar de alivio e de paz para os enfermos pobres dos nossos campos ...
Estou contente. Estou contente, mas reclamo letras tuas. Na tua última carta falavas-me em galinhas, remetendo-me ao mesmo tempo vários casais de boas raças. Felizmente, já encontraram grande galinheiro, sacos de cal, como nos recomendas, campo semeado de mostarda, ninhos para os ovos, gaiola para os pintos e mais ainda, e por esta é que não esperavas: — quarto para uma incubadeira! Passa um fio d’agua corrente pelo galinheiro, em parte ensombrado por árvores ramalhudas; os poleiros, diariamente lavados, estão bem resguardados sob um telheiro largo e novo, e nota até onde vai agora o nosso espírito de ordem: temos um livro para registrar diariamente os acontecimentos desse reino plumitivo, em que ostenta o seu garbo o mais belo Chantecler conhecido... depois do de Rostand! Nesse livro assenta Clarinha todas as noites a quantidade de ovos recolhidos durante o dia, as doenças, as ninhadas novas, etc. Quase que te posso afiançar que os discípulos estão saindo melhores que a mestra! Há ainda uma novidade; na ansiedade de te dizer tudo, tenho embaralhado a ordem natural das coisas: o Silvino está ensinando desenho às cunhadas; ele é habilíssimo. O casamento deverá realizar-se dentro de seis meses, o tempo preciso para ele edificar a sua casa nova e preparar o ninho para a avezinha doce e linda que é a sua noiva. Para irmos à sua residência teremos de atravessar a Tapera; essa circunstância será de grande utilidade, facilitando-nos a vigilância desse sítio, até agora tão abandonado! Isso e as batatas o farão rejuvenescer e ser belo... Animada por tal convicção beijo-te com o maior carinho.
Tua sempre,
MARIA.
MINHA SENHORA E BOA AMIGA.
Eu não seria o que sou se os seus bons conselhos não me tivessem aberto os olhos para as coisas que me rodeiam e eu continuasse a cultivar saudades em vez de cultivar... batatas! Sabendo arraigar-me à terra de lavoura, em que vivo, criei nela afeições que me farão para sempre feliz. Sabe por minha mãe que sou noiva de um moço agrônomo e lavrador, e, como eu, empenhado em tornar cada vez melhor o torrão pátrio que o destino lhe pôs nas mãos. Por mim, plantarei, cultivarei, ensinarei, e espero que na minha velhice morrerei sorrindo, à sombra florida das minhas árvores, rodeada pelo amor dos meus discípulos.
Toda sua, bem sua, e para sempre,
CECÍLIA.
MARIA.
Vinha eu de ter posto no correio a grande carta de parabéns que escrevi a tua Cecília, quando topei com o Eduardo Jorge descendo de um automóvel, a porta de uma casa de máquinas.
— Sabe? vim de Friburgo, disse-me ele, e trago-lhe notícias muito interessantes. Se consente em esperar cinco minutos por mim, entre no automóvel, onde encontrará um ramo de cravos que lhe destino; entretanto, darei uma ordem urgente no escritório...
Consenti. Ele galgou os degraus da escada a dois e dois e eu entrei para o automóvel onde, além do lindo ramo de cravos a que ele fizera alusão, encontrei vários embrulhos e uma cestinha de frutas. É extraordinário, este teu afilhado!
Não sei como ele consegue aliar à sua distinção e à sua elegância o modo prático e simples que tem de fazer as coisas.
Além dos cravos, uma revista ilustrada que tinha ficado atirada sobre o banco, ajudou-me a passar não os cinco, mas uns dez minutos em que esperei pelo nosso amigo. Ele voltou sobraçando um maço de catálogos e, mal se viu no automóvel, perguntou logo por ti, muito interessado pelo casamento de Cecília. Respondi como pude. Vinha ele de visitar uma grande propriedade agrícola, onde fora assentar umas maquinas e ver funcionar outras mandadas vir, por seu intermédio, dos Estados Unidos.
Estava encantado. Sentira o nosso delicioso frio da montanha, leve e seco, e fartara os olhos da beleza das águas e das florestas das suas devesas incomparáveis. Que eu olhasse para a frente; todos aqueles embrulhos, à exceção da sua maleta, eram para mim! Trouxera-me caquis como nem o Japão pode suspeitar que os haja, grandes e sumarentos, de um encarnado suntuoso... aquele embrulho pardo era de mangaritos, de que ele me pedia para mandar um punhado a madrinha, para sementeira; aquele outro era de mudas de craveiros e havia ainda mais dois: um de brochuras, que só agora abri e de que te vou dar notícias, outro...imagina de que! de buchas secas e lavadas. Não pude deixar de rir quando, a sua impaciência de moço trefego e serviçal, o vi rasgar um pouco do papel, para me perguntar se eu conhecia aquilo! À minha resposta, de que não há no Brasil quem não conheça essa fruta e a sua utilidade, ele pasmou. — Que! pois toda a gente sabe o valor desta planta e quase ninguém a cativa? Mas o nosso país e fantástico, minha querida amiga! Em qualquer parte do mundo em que se percebesse melhor o valor das coisas, esta planta seria cultivada para comercio, e seus frutos preparados e vendidos no mercado, ou por vendedores ambulantes, nas ruas, para economia dos hotéis e casas de família.
Assegurei-me agora de que não há melhor esfregão para panelas nem melhor esponja para banhos. A dona da casa em que estive, que é uma senhora inteligente e cuidadosa, tinha feito de buchas abertas cache-pots para os seus vasos de plantas e cestas graciosas para apetrechos de costura e para o pão do almoço.
Foi por ver a variada aplicação desse fruto que eu pedi uns tantos deles para lhe trazer, como uma grande novidade; mas o seu riso atrapalhou-me, fez-me ficar desapontado!
O meu riso fora tolo; e tanto estou disso convencida que te aconselho, se é que não tens ainda buchas no teu quintal, a te apressares em semeá-las. Parece que isso dá depressa e é um excelente adorno para cercas, além das outras vantagens que as tornaram tão admirada” aos olhos do Eduardo! Realmente, não há sem despesa especial, panos que cheguem para todos os serviços em que a bucha pode ser magnificamente empregada, numa casa de tamanho regular. Comprarás, pois, menos uns tantos metros de algodão por ano se plantares um simples pé de bucha no fundo do teu terreiro!
Além de tudo, é bonito.
Toma nota e não te rias desta lembrança, como eu me ri do presente do teu afilhado, e que constituía uma das novidades interessantes anunciadas por ele logo no princípio do nosso encontro! Na verdade, bem pensado, não há povo que menos saiba aproveitar as dádivas da natureza do que o povo brasileiro, o que confirma a frase de um dos nossos homens de ciência de que — a falta de instrução agrícola é o primeiro dos nossos males. Assim penso e nem sei por que me afligem estas observações... Bem sei que mais lá para diante, quando, ou por educação ou por necessidade, os próprios camponeses saibam tirar proveito de todos os produtos cultivados ou espontâneos das terras em que viverem, tudo há de ser aproveitado e ter o fim para o qual nasceu; mas entretanto, a ideia de que muita pobre gente deixa de apreciar um bem apreciável e ao seu alcance, faz-me mal aos nervos. É uma espécie de nevrose incompreendida por original e tola, como todas as nevroses! Mas que fazer? A notícia importante que o Eduardo trouxe da tal propriedade em que foi assentar maquinas e que me pediu para te comunicar, foi a da verificação de quanto foram aproveitáveis a sua lavoura certos adubos fornecidos pelo centro de Experiências Agrícolas do Kalisyndikal, estabelecido no Rio de Janeiro.
O volume de brochuras de que te falei e que te remeterei em breve pelo correio, continha vários folhetos dessa empresa, folhetos que estou lendo, para poder executar com segurança no meu jardim e na minha horta, alguns dos seus conselhos.
Na propaganda desses seus produtos, o Chile tem demonstrado uma capacidade admirável de administração. Imagina que vai um delegado seu propositadamente a qualquer propriedade rural que o solicite, ensinar o modo de misturar a terra as substancias que forem necessárias à sua lavoura!
Foi o que aconteceu nessa tal fazenda de Friburgo, onde o Eduardo Jorge pôde observar que um batatal sem adubos produziu 6.667 litros, ou 10.000 kilos de batatas de tamanho medíocre, enquanto que um batatal adubado com superfosfato, sulfato de potássio e salitre do Chile, produziu 40.000 litros ou 60.000 quilos de batatas grandes e perfeitas. É já alguma diferença... O segredo desta adubação cômoda, limpa e profícua, está na sua dosagem. Ela é tão proveitosa quando bem aplicada, quanto pode ser nefasta quando feita com muita prodigalidade ou exagero.
Nem de mais, nem de menos é, aliás, o preceito aplicável a todas as coisas que devem ser feitas com inteligência, e inteligência não te falta, minha boa amiga, nem o critério que a apura e cristaliza. Não é justo que um lavrador peça tudo a terra e nada lhe dê; para obter uma farta produção de frutos, de forragens, de flores ou de hortaliças, devemos, como muito melhor do que eu o sei, fornecer ao solo dos campos, dos pomares ou dos jardins alimentos que lhe deem pujança para as suas funções criadoras. Perguntarás: se estás convencida de que sei tudo isso, para que m’o dizes? Porque, minha fazendeira, respondo eu, sabes que a terra carece da renovação de certas substancias consumidas nas suas produções anteriores, mas talvez ignores as vantagens que te oferecem estas a que estou aludindo dos adubos chilenos. Pois fica sabendo que, assim como das batatas, Eduardo Jorge citava a beleza dos canaviais adubados, gordos, suculentos, vistosos, em comparação de outros canaviais não adubados, de igual extensão, mas muito mais pálidos e mesquinhos, embora plantados nas mesmas épocas.
O nosso automóvel percorria a Avenida Central, entrava pela da Beira-Mar, e quem nos visse, ele alegre, com o seu panamá mal lhe ensombrando a fronte alta e clara e os olhos de um azul sombrio e doce, cu de ramo de cravos rutilantes nas mãos c toda voltada para a sua palestra animada e moça, pensaria talvez que íamos falando de assuntos literários e poéticos, em que figurassem nomes de deuses pagãos e alvejassem mármores de estatuas atenienses e imortais; c íamos, entretanto, falando de adubos para a engorda das alfaces e dos cafezais! O interesse que o Eduardo Jorge manifesta por certos assuntos de agricultura, é criado no seu espírito pela curiosidade que tem por todas as coisas que se relacionam com as da sua profissão de mecânico e pelas conversas que tem tido comigo, a quem só por estupidez o acaso não fez lavradora... Em mim é que não sei de onde veio esta ternura que sinto pela terra bem fareja, geradora de tantos benefícios!
Adeus, minha querida; com os folhetos publicados pelo Centro das Experiências Agrícolas mandar-te-ei alguns livros de versos, porque a poesia é a arte em que a alma mais se expande e em que, desde o germinar das sementes no fundo do chão até ao tremeluzir das estrelas no céu infinito, toda a natureza palpita e é bela e é compreendida.
Para ti um beijo da tua
FERNANDA
MINHA QUERIDA SENHORA.
Imagine que esta noite não dormi, senão lá pelas tantas da madrugada, cogitando sobre o presente que deverei dar à minha Cecília pelo seu noivado, e terá adivinhado o motivo desta carta!
Quero que me elucide e tire de embaraços na questão da escolha. Está claro que os meus haveres de menina solteira não me permitem grande desafogo... Um colar de pérolas ou um medalhão de brilhantes assentariam divinamente na minha irmãzinha, mas nem por sombras posso gozar a ideia de tais liberalidades... De resto, para uma lavradeira, contente de o ser, não sei para que serviriam tais objetos. Quanto à roupa branca, coisa muito da sua predileção e da minha, e que constitui o luxo mais agradável das casas de campo, onde o conforto consiste principalmente na fartura e no asseio, já minha mãe organizou tudo com tal perfeição e tamanha abundancia, que não me vale a pena pensar nisso. Dos poucos objetos de que me lembrei durante a insônia a que aludi, e que foi a primeira de toda a minha vida, figura uma série de livros uteis a sua inexperiência de dona de casa: obras que ensinem a melhor maneira de tirar a ferrugem das laminas das facas, ou as nodoas das roupas ; que ensinem a cozinhar com perfeição ; a fazer conservas e a conservar as frutas; a deitar galinhas ou a tosquiar carneiros ; obras sobre a pomologia, jardinagem, criação de coelhos, modo de fazer óleos ou sabão ; obras enfim que se relacionem com a vida do campo, e que sejam feitas para a embelezar e torná-la divertida. Deixo ao seu critério a escolha da coleção, tão completa quanto possível, pedindo-lhe que a mande encadernar a cor de morango, com letras e frisos brancos, luxuosamente, como se fosse de livros de versos!
Se esta ideia lhe parecer ridícula, não sei o que há de ser de mim; porque a outra ainda é menos brilhante! suponha que me lembrei de oferecer-lhe uma máquina de fazer manteiga! Adivinho que me lê com um sorriso de zombaria, lamentando a minha falta de imaginação e estranhando que eu não lhe encomende antes uma pulseira de ouro (já que não poderia comprar o tal colar de pérolas ou o medalhão de diamantes), ou um leque de rendas, desses que não abanam nada, ou um bronze artístico, etc. Mas não lhe parece que tais objetos se sentiriam pouco à vontade na corbelha de uma noiva da roça, que vai principiar a vida da lavoura ao lado de um marido que, se não tem dividas e é de uma inteligência esclarecida e forte, também não tem uma grande fortuna?
Note que nem por sombras me passa pelo espírito a ideia de querer que a minha Cecília caleje os dedos no atrito da tesoura com a lã dos carneiros, nem os chamusque no calor do fogão.
Ela deve ser instruída nestes misteres, paia verificar se os executam bem na sua propriedade, e nada mais. Estamos agora todas entretidas com o enxoval da noiva, e para guarnecer-lhe o novo ninho tomei à minha conta os stores da sua saleta de estudo, bordados sobre linho e filó grosso.
Beija-lhe as mãos a sua
CORDÉLIA.
MINHA D. FERNANDA.
Acuda-me. Desejaria oferecer a Cecília um belo faqueiro de prata; mas parece que isso é muito caro, não é?
Na impossibilidade do faqueiro, outro qualquer objeto que ponha na sua mesa de campo uma nota de conforto e de luxo e que no meio das rosas cultivadas por mim lhe assegure que se pode ser elegante e distinta até no pico do Itatiaia, quando para isso haja felicidade e bom gosto...
Seduz-me a ideia de um par de candelabros artísticos, de bronze ou prata velha, mas de estilo. Procure-os. Eles iluminarão os jantares de festa que se deverão suceder toda a vida em casa de minha irmã. Que alvoroço, um casamento! Perdoe-me e ame-me, sim?
JOANINHA.
MINHA SENHORA.
Todos aqui estão alegres, só eu tenho chorado às escondidas. Cecília vai fazer-me tanta falta! Se eu algum dia tiver filhas, não as deixarei casar. Gosto de sentir os que amo ao pé de mim; depois, esta vida da roça torna o coração tão egoísta! Mas não foi para isto que me sentei a escrever-lhe; foi só para lhe perguntar: que hei de oferecer aos noivos? Servirá um kodak? Vou lhe explicar a minha ideia. Dizem que a fazenda de meu cunhado é situada em um esplendido lugar, cheio de paisagens encantadoras. Assim sendo, Cecília terá prazer em reproduzi-las, para as mandar aos amigos, e, quando eu for visitá-la, poderá tirar-me o retrato. Que diz? — Sua, bem do coração,
CLARA.
MINHA CLARA.
Digo que sim. A tua ideia da máquina fotográfica é magnífica.
A questão é terem paciência e gosto e saberem tirar dela todo o proveito... ali está uma distração em que nunca pensei, e que adoçará por certas muitas horas de solidão.
Nós mesmas, que vivemos na cidade, quantas vezes desejaríamos fixar materialmente em um papel o aspeto deste ou daquele canto de arrabalde ou de praia, o aspeto de uma casa ou o tipo de um indivíduo qualquer, que nos impressiona e que passa... Na fazenda, um kodak prestará excelentes serviços: estampará a figura dos animais prediletos dos colonos e da criadagem, o que pode ser até um excelente meio de policiamento e de prevenção; o movimento do terreiro nas colheitas de tais e tais anos; abundância dos frutos nas árvores, etc., além do prazer artístico das paisagens e da reprodução de imagens dos amigos nas suas visitas... Como vês, aplaudo a tua ideia, e procurarei servir-te.
FERNANDA.
CORDÉLIA.
Se as tuas ideias não são brilhantes, são boas, e a bondade é o melhor apanágio da mulher. Tenho andado de livraria em livraria, folheando os livros que desejas e que eu quisera enviar-te todos em português. Mas há deficiência de tais obras na nossa língua, escritas sob a influência do nosso clima e das necessidades da nossa vida campestre.
A agricultura, que não tinha até aqui merecido a atenção dos espíritos cultos e observadores, começa agora a impor-se a simpatia de toda a gente; e assim é de esperar que em pouco tempo não falte a nenhuma das nossas propriedades rurais nem o mais insignificante elemento para o seu progresso. Encarreguei o Eduardo Jorge de te comprar a máquina para fazer manteiga e continuarei ainda a estudara questão dos livros que me pedes.
FERNANDA.
JOANINHA
Cada cabeça, cada sentença; cada alma, cada sentimento.
O contraste entre o que me pediu Cordélia e o que me pedes, talvez não seja, entretanto, tamanho como parece. Um aparelho de pau, mais ou menos tosco, para transformar o leite em manteiga, ou um candelabro, demais a mais de estilo, destinado a iluminar uma sala confortável, por entre as formosas Paul Neyron, têm no fundo o mesmo destino maravilhoso: o de tornarem por um e outro modo uma casa sedutora e agradável. O luxo tem a sua inteligência misteriosa, um fio invisível e inquebrável que nos prende às belas coisas que nos rodeiam.
Quando à qualidade da beleza essas coisas possam juntar a da eternidade, tanto melhor...
Os teus candelabros passarão como relíquias aos filhos dos filhos da tua irmã, o que não desmerecerá cm nada a máquina de bater o leite ou os livros práticos encomendados pela Cordélia. Abraço-te.
FERNANDA.
MARIA.
Agradeço-te as dez dúzias de ovos que me enviaste, e que me fizeram lembrar estes versos de um amigo meu, feitos a alguém que usou para com ele da mesma liberalidade que tiveste agora para comigo. Lê:
Vinte e três dúzias d’ovos! berro,
E escandalizo em roda o povo.
Ó ferro,
Nunca vi tanto ovo!
Salto d'espanto e treme o soalho;
Os ovos fitos: Só Júlio de Souza,
Por vida minha!
Fora capaz de semelhante coisa:
Forçar a tão descomunal trabalho
Tanta galinha.
E a ânsia me acomete
Do esforço sobre-humano
E mirífico
De os quebrar e lazer uma omelete
Vasta como um oceano Atlântico ou Pacífico.
Mas não; ninguém lhes toque!
Até o fim da vida, ovos amados,
Hei de ingerir-vos à la coque
Fritos ou estrelados,
Cozidos,
Mexidos,
Com bacon e chouriço misturados,
Quentes ou frios
E em fios!
E quem m’os vir comer, tal como eu berro
Há de escandalizar, berrando, o povo:
— Ó ferro,
Nunca vi tanto ovo!
Dir-te-ei com mágoa que muitos desses ovos chegaram quebrados e, por virem muito abafados, pouco perfeitos... Parece que o transporte de tal mercadoria precisa ser feito em caixotes baixos, para evitar o peso de muitas camadas sucessivas. Li, em uma das minhas revistas, que na Dinamarca, onde a exportação de ovos é objeto de um trafego considerável, as caixas para o transporte medem 1,77 de comprimento por 0,45 de largura e 0, 24 de altura. Usam-se também cestos de vime e caixas de cartão ondulado (indústria muito própria para ser exercida por mulheres). A casca dos ovos deve ser limpada antes do encaixota- mento, para que não criem morrinha.
Para isto é preciso que os ninhos e o chão do galinheiro se conservem bem asseados. Os vendedores na Europa passam um pano nos ovos mal os recolhem, para lhes tirar qualquer sujidade, e marcam-nos com um carimbo de borracha e tinta grossa. Esse carimbo garante ao consumidor a sua frescura e constitui uma prova da exatidão e lealdade do vendedor. Parece que por lá as coisas se fazem com muita minúcia, mas o trabalho não será maior, desde que se tenham adquirido método e pratica, sendo os resultados sempre excelentes ... Chamo a tua atenção para este assunto. Estuda-o e aproveitarás.
FERNANDA
.
FERNANDA
Já transmiti ao Salustiano, que é o nosso caixoteiro, as informações que me deste na tua última carta, acerca do transporte dos ovos. Na próxima remessa verás como me apresso cm seguir os teus conselhos. Sim, senhora, estás uma orientadora de mão cheia; com tudo, às vezes, confesso-te, as tuas opiniões vêm tão impregnadas de otimismo e de poesia que vacilo em segui-las, temendo gastar tempo e dinheiro em tentativas de que talvez me possa vir a arrepender mais tarde... Não é tão fácil como te parece, a uma fazendeira pobre romper com os processos da rotina com que até o presente foi mantida a sua propriedade. Que encontrei eu quando herdei o Remanso e vim tomar posse da sua direção? Cafezais malnutridos e em parte abandonados pela falta de colonos; estradas pessimamente construídas e de fácil ruina; casa sem conforto e em cujos moveis procurei em vão o mais insignificante livro de apontamentos que me esclarecesse; animais criados ao acaso da natureza; águas mal distribuídas; pomares devastados pelas pragas; enfim, a incúria mais criminosa que jamais pude imaginar em toda a minha vida! O meu desapontamento foi tão grande, que me deu vontade de fugir.
A transformação destas terras e destes hábitos parecia-me tarefa superior às minhas forças; foi então que desabafei consigo e que a tua palavra clara e amiga respondeu com afirmações ás minhas dúvidas, com energia aos meus desfalecimentos...
Vista do conforto da tua residência do Rio de Janeiro, onde te rodeias de arte e de alguns amigos que te compreendem, esta velha e tosca fazenda parecia-te poder ser transformada a compasso de valsa, pela varinha de condão de qualquer fada boa, em um parque monumental, em que os cafezais fossem avenidas; os pastos finos gramados em que pastasse gado nédio com fitas e guizos ao pescoço; o açude assumisse as proporções do lago dos Quatro Cantões; a vida de todo o seu pessoal deslizasse entre cânticos de louvor à natureza e o trabalho alegre e fácil! Na fé miraculosa dos teus ideais empreendeste a salvação da minha vida e começaste a legislar de lá, em cartas sedutoras, as leis por que nos deveríamos reger no Remanso! Ao soluço da nossa saudade pelos gozos da cidade, mandaste-nos plantar batatas e lavrar os campos a arado! Tal resposta rebentou aqui como uma bomba, e todas nós, quando a lemos, nos entreolhamos escandalizadas, supondo-te louca!
Chegou mesmo a haver lagrimas. Tive de desculpar-te aos olhos de minhas filhas ofendidas. Para te não magoar, nada te disse então; hoje faço-o com um beijo de gratidão infinita. A razão estava contigo. Obrigando-me a fazer tudo, supuseste naturalmente, e muito bem, que eu fizesse pelo menos alguma coisa...Tudo, era demais; era impossível mesmo, para quem não dispõe de grandes capitais; mas pouco a pouco foi-se organizando bem o que se podia organizar, e nesse empenho a nossa atenção se prendeu ao trabalho rural e ao nós o só espírito vieram uma serenidade e uma alegria quase perfeitas.
Aprendi assim que é preciso não desanimar nunca, e tirar partido para o bem, dos próprios mãos elementos de que dispomos. Aprendi que o prazer de criar sobrepuja todos os outros que possamos ter no mundo. Quando vejo nas manchas de terrenos que havia abandonado na Tapera e no Remanso, lavouras florescentes de cereais; quando vejo que os velhos processos que eram usados na fazenda desaparecem, infelizmente mais devagar do que eu desejaria, para dar lugar aos novos; quando vejo minhas filhas ativas, uteis, estudando os meios de espalharem ao redor de si a instrução, a saúde, a alegria ; quando vejo a pequenada italiana da nossa escola escrever e ler em português, nacionalizando-se sem esforço, e os pássaros acudirem aos jardins floridos que nos rodeiam a casa, eu sinto que não vim ao mundo para um fim inútil, pois que ao mundo a minha atividade, o meu esforço e o meu carinho fazem algum benefício. Já uma vez me escreveste que a lavradora mais do que outra qualquer mulher pode exercer no Brasil uma influência benéfica sobre todos e tudo que a rodeiam. Tinhas razão; porque na nossa vida do campo há tudo por criar. A mulher do fazendeiro, as filhas dos fazendeiros têm uma missão elevada a cumprir, a missão de tornar a vida, sua e dos seus, bela e superior. Devo-te a compreensão destas coisas sublimes. Continua a iluminar-me, embora permitindo que de vez em quando eu te considere mais utopista do que pratica...
Mas isso que te importa, se eu procuro de algum modo, afinal, estabelecer as regras que impões?
Quando leio as tuas cartas, acho certos conceitos delas inexequíveis, e por fim lá vem um dia em que, sem saber como, eu me encontro a realizá-los!
Como te disse, foi debalde que procurei por todas as prateleiras e gavetões dos velhos trastes desta casa velha, um caderno ao menos que me orientasse sobre as despesas e as necessidades do Remanso. De livros só achei um exemplar engordurado da Nova doceira brasileira, dentro de um armário da despensa. Está claro que eu não esperava encontrar Os Lusíadas, mas um memorial ou registro diário que me pudesse servir de guia e de comparação nos gastos atuais. É inqualificável esta repugnância quase geral do lavrador pela escrituração de lucros e despesas da sua propriedade I Vem dali talvez em grande parte a decadência de muitos deles. O tempo em que se escreve é tempo em que se reflete. Estou capacitada de que não há melhor mestre de economias e despesas acertadas do que um livro de anotações. Os antigos moradores do Remanso, entre os quais havia gente moça, como sabes, não entendiam assim. Consideravam com certeza a escrituração da fazenda como uma maçada e uma inutilidade. Os cafezeiros não dariam, por isso, nem mais nem melhor café, e o tempo que se passasse alinhando cifras, seria mais docemente empregado noutros misteres. Hoje há já muitos fazendeiros capacitados da necessidade de uma escrita perfeitamente organizada e mantida; mas a maior parte, acredita-me, conserva-se alheia a essa preocupação. Eu, com a minha vida de senhora a quem o marido nunca falou em tais assuntos, vejo-me um tanto atrapalhada, quando penso em organizar uma escrita perfeita da minha propriedade.
Não sei como isso se faz.
Parece-me cedo para interrogar a esse respeito o meu futuro genro, preferindo mesmo não lhe dever tal favor, para que a independência seja maior entre nós dois.
Que me dirás no assunto?
Poderá o meu afilhado Eduardo Jorge, esse ingrato que se obstina em não nos vir visitar, elucidar-me nesta questão? O caso é urgente, como bem podes imaginar. Supõe, ao organizar com ele o meu memorial — se te quiseres dar a esse trabalho, que eu sou de uma estupidez de toupeira; mas de toupeira morta, absolutamente incapaz do menor esforço intelectual, desde que nele tenham de figurar algarismos! E preciso que venha tudo absolutamente nítido e bem explicado. O meu trabalho será apenas o de pôr os pingos nos ii...
Será mais um serviço que eu te fiquei devendo, minha querida Fernanda; mas, ao contrário do que sucede com os outros, eu me sinto feliz em te dever favores!...
Tua MARIA.
QUERIDA MARIA.
Não me deves favor nenhum. Divirto-me soberanamente com as reflexões que me impõem os teus negócios. Às vezes parece-me, pelo interesse que tenho pelos progressos do He- manso, que essa propriedade é minha e que me caberá todo o orgulho da sua prosperidade! Acho muita graça que me chames utopista me encomendes a organização do teu livro de finanças! Gostei da tua carta e mais gostaria se me não dissesses nela que te dou conselhos. Alto lá, isso nunca! Chamo a tua atenção para vários assuntos agrícolas que me parecem destinados a felicitar a tua vida, e nada mais. Sabes que sempre gostei de ler e que tenho uma biblioteca razoável, mas que não sou dogmática. Entre as flores do meu tapete e as do meu jardim prefiro as últimas, embora as primeiras não sejam de todo más; e é essa preferência que me leva talvez a imaginação para fora de portas, até ás campinas da tua propriedade, de que muito me lembrei numa sessão cinematográfica, feita para demonstrar a superioridade do trabalho da lavoura á maquina sobre o trabalho manual. Verifiquei por meus olhos essa diferença. É espantosa. Um fazendeiro me disse que tais processos são impraticáveis em terrenos pedregosos, como o teu; mas o meu otimismo, como dizes, vai até ao ponto de o julgar exequível mesmo ali!
A lavoura transforma-se. As ideias não param. É preciso acompanhar o tempo, e não ficar anquilosada num meio que se agita...
Não era preciso que me dissesses. Eu já conhecia a aversão do fazendeiro em geral pela escrita; mas descansa, que terás em breve um livro apropriado ao fim que desejas e em que não terás senão de pingar os pontos nos ii.
Até quando?!... Até sempre.
FERNANDA.
MARIA.
Ontem à tarde, lia eu muito sossegadamente um romance russo, na minha sala de trabalho, quando o Eduardo Jorge irrompeu entre as palmeiras da porta, com ar trefego e as mãos carregadas de papéis. Não o recebi bem; ele pouco se importou com isso; sabendo talvez qual a melhor maneira de me abrandar as iras, disse sem me dar tempo a inquirições:
— Trago neste embrulho a felicidade para o Remanso! neste outro embrulho, músicas novas para a minha amiga ouvir. Virei tocar as músicas mais tarde; quanto à felicidade, como essa é de mais urgência, aqui lh’a deixo e fujo. Vi pela expressão do seu olhar que cheguei em momento inoportuno; mas, como só os namorados chegam sempre a propósito, disso não tenho culpa! ...
Ele ia a fugir. Agarrei-o pela manga, reclamando que desatasse logo ali o embrulho da felicidade, rijamente amarrado por um barbante a que tinham dado um nó cego. Era indispensável a intervenção de uma tesoura ou de um canivete, objetos que uma senhora nunca traz consigo. Ele prestou-se a executar a operação, e, ela feita, rolaram logo por meu colo para o chão vários folhetos brancos, azulados, verdes, cor de rosa, e pude ler de relance os títulos de alguns deles:
Para não ter amarelão, carbúnculo verdadeiro e carbúnculo sintomático, etc.
Tal foi o espanto com que olhei para o teu afilhado que ele desatou a rir e contou : fora ao ministério da Agricultura para combinar uma encomenda de maquinas e não sei que mais, e lá verificara que o governo distribui gratuitamente por todos os lavradores e pessoas que pela lavoura se interessem, esses pequenos opúsculos, feitos em linguagem clara, simples, de facílima compreensão e bom ensinamento, indicando os meios pelos quais os fazendeiros podem tornar higiênicas as suas plantações, médio o seu gado, feliz o seu pessoal.
No meio da agitação dos seus negócios, este excelente rapaz que é o Eduardo não se esqueceu dos amigos — e amigos a quem afinal nunca viu, — como a vocês, e interrompe as suas preocupações pessoais para tratar dos nossos interesses!
Da Praia Vermelha à minha casa tem de dar uma grande volta antes de chegar ao seu escritório não faz mal; dá a volta e, ora olhando para o relógio, ora para a papelada, acha ainda tempo de indicar alguma coisa, poupando-me o trabalho de grandes indagações.
Já no momento de sair, diz-me, voltando-se de entre portas:
— Recomende a minha madrinha que se inscreva no registro de lavradores, criadores e profissionais de indústrias conexas, do ministério da Agricultura. Não pagará nada por isso e terá grandes vantagens, como verá em um desses folhetos que ali ficam. Acho prudente escrever-lhe hoje mesmo, embora tenha de sacrificar um capitulo do seu interessante romance russo, de que me ha de contar qualquer coisa, no primeiro dia em que jantarmos juntos.
Mal teu afilhado saiu, corri com a papelada ao escritório do meu marido, para consultá-lo sobre se valeria a pena enviar-te essas pequenas brochuras, ou se elas te iriam fazer confusão nas ideias. Depois que me chamaste utopista e otimista, tenho o meu receio de expansões sobre assuntos sérios.
O entusiasmo do Eduardo não me inspira a mesma confiança que a opinião sisuda do meu marido, verdadeiro bicho de biblioteca, cada vez mais concentrado e mais estudioso. Pois também o meu velho urso, como eu lhe chamo sem que ele se zangue, achou magnífico este meio de propaganda de certas ideias e de certos assuntos que nenhum lavrador tem o direito de ignorar, mas que a maior parte deles ignora, aprovando a remessa dos opúsculos que ali te envio por este mesmo correio. Vão conjuntamente os últimos números da revista agrícola Chácaras e Quintais, que mais de uma vez te tenho recomendado.
Sou de opinião que, para um certo público preguiçoso, as leituras curtas, amenas, adoça- das por um raiozinho de lirismo ou pela graça ligeira de uma anedota, são muitas vezes melhor veículo para ideias sérias e cientificas do que longas tiradas didáticas... Ha muito quem saiba de certos episódios históricos só pôr os ter lido nos romances ou nos dramas, mas jamais em Cantú ou Mommsen.
Foram as circunstâncias que acabei de te narrar que me obrigaram a escrever-te hoje, quando ainda na última semana recebeste carta minha; é verdade que muito lacônica e apressada, não deixando por isso de levar notícias p saudades. Estou impaciente. Espera-me o romance russo. Adeus.
FERNANDA.
MINHA BOA AMIGA.
Tendo de ficar com a responsabilidade da nossa escola, porque assumo o lugar de diretora logo que Cecília parta para a sua nova casa, desejo aperfeiçoar-me na linguagem portuguesa, no empenho de ensinara minha língua, melhor que tudo mais, aos nossos discípulos.
Sabe que aprendi cm colégio francês, mas como não é o francês que tenho de transmitir aos pequenos cabelinhos das redondezas nem aos italianinhos da colônia, desejo saber o modo justo de articular as palavras e a forma justa, gramatical, das frases em que as enuncie. Estou lendo gramaticas com toda a atenção, mas ainda parece pouco! Tenho tantas dúvidas, minha amiga, tantas! Cecília tem a intuição da língua, o que me falta... quando ela partir, que vai ser de mim?
Responda à sua
CORDÉLIA.
CORDÉLIA
O teu pavor encantou-me. Crê-me, minha querida, tive com a tua carta uma das maiores consolações da minha vida. Ainda bem que amas e que te interessas por esta nobre língua portuguesa, tão bela, tão mal servida entre nós e tão difícil! Vou dar-te um conselho, já que me pediste: não leias gramáticas, lê bons livros e faze-os ler aos teus discípulos; não lhes ponhas nunca nas mãos páginas defeituosas e incorretas; apura-lhes o ouvido e todas as vezes que eles errarem emenda-os sem piedade.
No seu esforço de bem articular as palavras elas sairão dos seus lábios puras e cristalinas.
Com vagar hei-me te ir mandando algumas obras de boas leituras portuguesa; e, entretanto, a propósito do pouco caso que geralmente as moças da tua idade fazem da sua e nossa língua, vou contar-te esta anedota autentica, veracíssima, passada com o próprio Eduardo Jorge. Sabes que esse rapaz, educado nos Estados Unidos, não pode deixar de falar inglês e dançar a valsa!
Bonito, elegante, pertencendo à nossa melhor sociedade, como dizem os jornais, vai frequentemente aos bailes de mais fulgor. Em um deles, tendo sido apresentado a uma carioca da gema, pediu-lhe a honra de uma contradança. Sabendo o par brasileiro, naturalmente ele falou-lhe em português; qual foi a sua admiração quando, volvendo para ele os seus olhos castanhos de morena, ela lhe respondeu em francês! Eduardo Jorge fez um ato de coragem: respondeu por sua vez à moça — em inglês! Se ela vinha do colégio de Sião, ele vinha dos Estados-Unidos; se a nossa língua é banida dos salões, porque as meninas educadas por francesas sabem melhor o francês do que o português; ele por seu lado, sabendo melhor o inglês do que o francês, tinha o direito de optar por aquela contra esta língua! A moça enrubesceu; ele receitou-lhe trechos de Longfellow; máximas de Roosevelt e não sei que mais! Por fim ela confessou que ele falava muito depressa e preferiria ouvi-lo em... português! E foi em português que eles, afinal, se entenderam!
É por saber qual o desamor com que a nossa língua é tratada entre nós, que a tua carta me encheu de espanto e de alegria. Abraço-te por isso duas vezes, minha querida Cordélia, uma com muito afeto, outra com muita admiração.
FERNANDA.
MINHA BOA AMIGA.
Acabo de chegar a Pedrinhas. Reconheci pelo tamanho do pescoço a figura do nosso Salustiano, em pé na estação, à minha espera.
Chamei-o; correu para mim todo risonho. Cá estamos a pôr as malas e os embrulhos no troly para seguir para o Remanso. A viagem foi fastidiosa. Tudo isto é primitivo, mas cheira bem! Num postal não se pode dizer mais.
EDUARDO JORGE.
FERNANDA.
Fui forte; assisti sem lagrimas ao casamento da minha Cecília, realizado ontem, às 10 horas da manhã, na residência do Remanso. Pode ser que eu ache um dia palavras para te expressar o que senti nessa hora; hoje isso me é impossível! Tivemos poucos amigos a nosso lado. Entre estes Eduardo Jorge, recebido pelas meninas como um irmão. Não parece um rapaz da cidade, este rapaz é madrugador e observa as mínimas coisas com interesse muito sincero.
É então bem verdade que a lavoura pode ter seduções mesmo para os espíritos superiores? A primeira pessoa que me fez acreditar nisso foste tu; a ultima o Eduardo Jorge. Vou te falar da segunda, que é o meu genro. Este rapaz, que é de uma simplicidade de trato verdadeiramente encantadora, não parece abalado por ambições desmedidas, mas absolutamente convencido de que a sua vida e a da família que fundou, vão ser baseadas na felicidade dos que trabalham com boa vontade e com justiça.
Basta dizer isto: grande parte da sua fazenda, que é muito maior do que cu julgava, dividiu a ele em núcleos que cedeu aos colonos mal competentes, para que eles os cultivem a seu modo e como quiserem. Estando ele convencido do preceito de que a pequena lavoura é o nervo das sociedades democráticas, começou deliberadamente por dividir a sua, auxiliando ao mesmo tempo com essa divisão alguns homens esforçados e honestos c que, de empregados, se viram sócios do patrão de um dia para o outro! Esta coragem denota seguramente uma alma rara e foi de todos os traços de caráter que pude apreender, deste homem a quem dei minha filha, o que maior admiração me causou. E não se pense com isso que ele é perdulário ou sonhador. Não; é calculista, mas calculista sem egoísmo; não quer a sua felicidade num deserto, mas no meio da felicidade dos outros. Basta entrar na sua casa para se perceber que ele ama a sua profissão de agricultor. O seu lar não tem o aspeto frio, de coisa provisória, que se seja obrigado a suportar por necessidade e sujeição. Ali tudo tem a feição definitiva que dá conforto à vida. Vê-se que os livros da sua biblioteca são manuseados. Abri por acaso alguns deles. Tinham notas. A mesa dos seus papéis é uma mesa de trabalho, ampla, forte, bem alumiada por uma lâmpada suspensa, com quebra-luz. Na sala de Cecília por ele alguns quadros originais de merecimento; um piano muito bom e uma mobília risonha e clara, que alegra a vista. Ele percebe que levou para essa casa, na mulher, uma colaboradora operosa para a felicidade do seu futuro. Não é uma menina piegas nem exigente; é uma mulher penetrada do desejo de ser Boa e de fazer o bem. A sua doçura, a sua inteligência, o seu espírito educativo melhorarão a sorte da gente rude que rodeia a sua propriedade, e dentro de poucos anos a influência das qualidades morais e intelectuais de Cecília terão feito milagres nesse torrão ainda tão inculto em que ela foi viver.
E é para isso que nós precisamos educar as filhas. Nestes dois anos de trabalho, de experiência, de necessidade, as minhas adquiriram unia perspicácia espantosa. Estou convencida de que não é na pasmaceira dos colégios que se formam almas. Os ideais precisam de terreno amplo e livre em que se debatam e possam criar raízes. Este do campo é maravilhoso para isso. A minha grande magna é não as sentir germinar em grande parte das nossas fazendeiras, já que talvez fosse demasiada ambição deseja-los em todas... E acredito que estaria nisso a salvação da vida, ainda estúpida e melancólica, do nosso interior. Toda a mulher forma um ambiente em redor de si, mais facilmente do que o homem. Se ela tem gosto, se tem educação e se tem energia, esse ambiente será sugestivo dessas qualidades e produzirá grandes benefícios em todos que dela se aproximarem. Irradia-me na consciência a certeza de que transmiti a minhas filhas essa compreensão dos seus destinos.
Adeus. Um grande abraço da tua...
MARIA.
MINHA BOA D. FERNANDA.
Foi uma pena o Eduardo ter vindo por tão poucos dias!
Imagine: chega à noite, na véspera do casamento de Cecília; no dia seguinte, com a solenidade, a comoção, as visitas, a ida à casa dos noivos, que foram levados em cortejo, mal tivemos a gente tempo para lhe apreciar a companhia; hoje: zás! diz que volta para o Rio amanhã! Para castigo não o deixamos parar!
Às 5 horas da manhã já ele voltava do seu banho no rio. Disse-me o Salustiano que ele nada como um peixe! Gomo deve ser bom saber-se nadar como um peixe! Quando veio para a mesa do almoço, às 10 horas, tinha percorrido a cavalo os cafezais do sul, passeado a pé pelo pomar e ajudado Joaninha e o velho preto Thomaz a regar o jardim! Estou pasmada. Nós todas estamos pasmadas! Ele faz essas coisas com tanta naturalidade, manifestando por tudo tamanho interesse, “pie chegamos a ter a ilusão de que foi criado a nosso lado desde pequeno, como um irmão. Vou agora levá-lo a visitar o pombal e o galinheiro e sempre quero ver o que me diz do meu Chanceler e da minha Zázá, uma galinha topetuda e bonita como não creio que haja outra no mundo. Nasceu agora na choradeira uma ninhada enorme de pintos e espero bem depressa entabular negócio de ovos e aves com as agências de vapores ou com os hotéis. Quero mostrar a esta gente que sirvo para alguma coisa... O Eduardo prometeu craveiros de qualidades novas à Joaninha e ainda por cima alguns livros de jardinagem. Estou morta por saber o que ele me vai prometer a mim! Quem anda um tanto triste é a Cordélia; tem pena que o Eduardo não assista a uma aula ao menos da sua escola ao ar livre. Ela tem feito milagres no ensino da leitura, da escrita, da história natural e da música. Os discípulos cantaram ontem um coro celebrando as bodas de Cecília, e com tanto sentimento e afinação, que todas as pessoas que os ouviam ficaram comovidas e pediram bis. Acredite que ao próprio Eduardo Jorge encheram-se lhe os olhos de água e ouvi- o dizer: “— Em qualquer canto da terra a vida pode ser bela, desde que se lhe dê idealidade e poesia...” A prática tem-nos demonstrado isso mesmo. Enquanto considerávamos o Remanso como um desterro, tudo aqui nos parecia indigno de nós. Desde a primeira hora em que nos decidimos a trabalhar para a sua prosperidade e para o seu aperfeiçoamento, os dias passam vertiginosamente e esta terra parece-nos um paraíso.
Abraça-a ternamente a sua amiga
CLARA.
MINHA BOA AMIGA.
Cordélia ordena-me que fique mais um dia no Remanso, para assistir a uma das suas aulas no bosque das jabuticabeiras. Fico. O progresso material e moral desta fazenda põe em evidencia a verdade do provérbio — Ce que femrne veut...
Beijo-lhe as mãos
EDUARDO.
MINHA FERNANDA
Chegou enfim o dia de ir ver as proezas da Tapera e posso afirmar-te que a impressão que esta visita me causou é completamente oposta àquela que te comuniquei na primeira vez que lá fui. Como as terras dessa fazendola (que é a bem dizer uma dependência do Remanso), por imprestáveis ou por cansaço não produzissem café de modo a compensar o trabalho e o tempo que se consumissem com a sua cultura, ficou resolvido que as meninas as aproveitassem como quisessem, começando por fazer nelas uma grande plantação de batatas, segundo o teu franco e salutar conselho. Concedi-lhes aquele prazo de terreno com o fito de estimular-lhes o gosto pelos trabalhos agrícolas e ainda mais com o propósito de as distrair, mas sem nenhuma esperança de ver realizado ali qualquer progresso, antes preparando-me para um prejuízo quase certo. Era uma cartada. Como poderia eu dar responsabilidades às minhas filhas sem correr os perigos eventuais da sua inexperiência? E como poderiam elas assumir essas responsabilidades sem liberdade de ação? Não me arrependo. Estou certa de que há muita gente moça por ali, imprestável pela falta do apoio moral que anima as iniciativas. Dei inteira liberdade de ação às minhas filhas; filas ver quais os recursos materiais com que podiam contar. Eu não lhes daria nem mais um vintém fora da verba que nessa ocasião pus às suas ordens para início dos trabalhos. Elas aceitaram o pacto com o ar alegre de quem empreende uma aventura inédita! O amor da novidade sempre seduziu os espíritos moços, embora não deixe de tentar lambem aqueles que da mocidade já não têm senão a saudade... Pedi às minhas filhas que me não consultassem. Fizessem o que entendessem. Pediram-me elas em resposta que eu não tornasse a ir à Tapera a não ser no dia em que elas me convidassem para isso. Cedi. Combinaram então que em cada dia da semana fosse uma delas observar os novos trabalhos e verificar o seu andamento. Como vês, não foi preciso irmos a nenhum cartório, nem gastar dinheiro com o tabelião; fizemos e cumprimos os nossos tratos maravilhosamente. E assim se passou mais de um ano sem que a menor indiscrição por parte do seu entusiasmo ou da minha curiosidade alterasse o nosso convênio. Foi um grande sacrifício para mim, essa forcada abstenção de uma parte da minha fazenda, mas nunca o dei a perceber a ninguém. Que diacho, o Remanso só por si é bastante grande e não me faltou nele com que entreter a minha atividade!
O interior da casa, para cujo serviço não podemos contar com a criadagem saída da colônia, sempre rústica e maldisposta, absorvia-me todo o tempo fora daquele em que diariamente inspecionava a minha lavoura e os meus animais. Porque, nota: quer chova ou faça sol, não há dia em que esta tua amiga, a hora em que tu lês os teus romances russos ou passeias pelas avenidas, não vá dar uma volta pelos cafezais, entrando, de caminho, na oficina do Salustiano, na casa da máquina, na lavanderia, etc.
Ao princípio, julguei morrer de cansaço. A tarefa era superior às minhas forças. Pouco a pouco, porém, veio-me o habito, e hoje, se por qualquer motivo deixo de executar o meu programa, o dia parece-me de quarenta e oito horas! Além das minhas preocupações de lavradora e dona de casa, distraía-me também, e muito intensamente, a — escola ao ar livre — mantida pelas minhas filhas. Não houve nem há dia nenhum em que eu não apareça nessa escola, ao menos por uns dez minutos. Interessa-me extraordinariamente acompanhar os progressos dos italianinhos da colônia, que vão adquirindo rápidos conhecimentos da língua portuguesa, tornando-se, assim, sem esforço, verdadeiramente nacionais.
Explicada a minha desatenção pela Tapera, volto a relatar-te o caso desta manhã. Quando ontem, à noite, fui para a cama, encontrei cm cima do meu travesseiro um grande envelope e nele uma carta de convite, assinada pelas minhas filhas, para um almoço, hoje, na Tapera! Embora casada, Cecília não deixou de associar- se às irmãs. O seu nome era o primeiro, pela ordem natural das idades. Estremeci, hás de crer? Eu estava ainda longe de esperar pela realização de tal ideia. Que teriam elas feito que haveria de novo nessas velhas terras, ainda há um ano devastadas pelo sapé e a tiririca? Toda a tristeza desse lugar, mal feitorizado por um casal negligente de caboclos, voltou ao meu espírito, preocupando-o até à hora em que adormeci de cansada.
Não sei se já te falei alguma vez de um pequeno muito esperto, neto desse morrinbento casal de velhos e que, trazido para o Remanso, tem revelado uma atividade e uma inteligência prodigiosas. Ao mesmo tempo que aprende na escola das Jabuticabeiras, é também aprendiz de carpinteiro, e sempre tão serviçal e tão alegre, que todos aqui lhe querem bem. Ele demonstra que é infundada a prevenção que geralmente temos com a gente da sua raça. Pobres caboclos, eles têm atrás do seu passado vastas gerações de ignorantes! Aproveitados desde os tenros anos, bem guiados, bem nutridos, revelam uma elasticidade física e uma capacidade de trabalho verdadeiramente admiráveis. Quiseram as meninas que esse rapazinho nos acompanhasse hoje ao almoço da Tapera, para onde partimos às 7 horas da manhã.
Vinte e cinco minutos depois, o nosso trole penetrava no velho sítio de meus avós, remoçado agora pelos cuidados e a dedicação de minhas filhas.
Mal transposta a divisa com o Remanso, vi ladeando o largo carreadouro por onde íamos, todo marginado por árvores frutíferas ainda jovens, bem estacadas, bem limpas, reluzindo de alegria nas suas folhas novas; extensos campos cobertos pelas ramas já amarelecidas das batatas. Adiante, no estreito riacho das pedras, onde o trole antigamente descia aos solavancos, havia agora uma pontezinha rústica, mas solida, refrescada nas extremidades por duas touceiras de bambus, que a cobrirão em breve com um arco de verdura, servindo de abrigo ás lavadeiras nas quentes manhãs de verão. Passada esta ponte, deparei com um novo caminho, à esquerda, ladeado por laranjeiras, ainda pequenas, cortando a estrada em cruz, e seguindo por entre batatais maduros até o sopé de uma colina orienta, coberta agora por um vinhedo novo. Eu não falava.
Tinha um nó na garganta. Minhas filhas não me interrogavam, percebendo a minha comoção... Mais outra volta de caminho e vi-me cm frente da velha e tosca moradia antiga, há um ano ainda esburacada e suja e agora toda branquinha na sua vestimenta de cal nova, com as janelas abertas, os seus umbrais azuis muito alegres, e no patamar da varandinha de pau, a minha Cecília e o meu genro, sorrindo alegremente, à minha espera. Terias resistido? Eu não. Chorei. Chorei como uma criança. Não sei como um coração esgotado pelo tempo ainda pôde destilar tal abundancia de lagrimas!
— Como se fez o milagre? perguntei eu logo que pude falar. As meninas entreolharam-se. Foi meu genro quem falou. O milagre tinha-se feito pela fé no trabalho e pelo influxo do meu exemplo e dos teus conselhos. O milagre tinha-se feito, porque a terra brasileira não nega a quem a ame o que se lhe pedir. Ele fora testemunha dos esforços de minhas filhas.
Por sua vez elas apresentaram-me um italiano raivo, homem ativo e inteligente, casado com uma linda mulher e pai de meia dúzia de rapazinhos, e que é o feitor da Tapera. Quebrado o encanto, falavam agora todas ao mesmo tempo. A Tapera era um verdadeiro campo de experiências. Nunca ali faltaria o milho, nem o feijão, nem o gostoso mangarito, nem a mandioca, nem plantas forrageiras para o gado. Seria o canto da fartura, que dá saúde e alegria!
A mesa estava posta para o almoço, em que as batatas figuraram cozidas, com manteiga; fritas, com presunto; cobertas com ovos; em croquettes, em salada, em bolos e em pudins! E eu comi de tudo e ainda no fim estava leve e contente.
A caseira trouxe, à sobremesa, um delicioso requeijão feito por ela e um vaso de mel de abelhas, de colmeias mantidas por ela também, entre as figueiras do pomar.
Tenho observado, nestes dois anos de campo, que a figueira é uma árvore a que nós ligamos pouca importância, e que é de fácil cultura e muito produtiva. Há na Tapera para cima de quinhentas figueiras, que as meninas destinam ao comercio das frutas secas. Clara fundará, para isso, uma oficina na escola, para a fabricação de caixas de papelão, que serão feitas pelos alunos mais jeitosos e mais adiantados.
Findo o almoço, fomos ver o moinho, que a Joaninha enfeitou de heras e tinhorões, e onde ela espera, à imitação do escritor francês, escrever-te uma série de cartas intituladas Cartas do meu moinho.
A fantasia entra em tudo em que estas crianças tocam e é talvez por isso que tudo aqui sorri e floresce!
Se eu não sentisse já desfalecer-me a pena entre os dedos cansados, continuaria a escrever-te até pela manhã; são tantas as coisas que tenho para dizer-te! Mas já os galos da meia-noite cantam. São horas de dormir. Adeus.
Sempre tua
MARIA.
MARIA.
Preparava-me eu ontem para o meu passeio das 5 horas, quando meu marido mandou chamar-me ao seu escritório. Tive um sobressalto. Apesar de toda a minha filosofia e sobretudo de toda a lucidez do meu espírito, que em todas as circunstâncias vê mais ou menos as coisas como elas são, supus tratar-se de algum caso grave. Pareceu-me mesmo notar uma certa palidez na face estúpida da criada que me trouxe o recado. A primeira ideia que me assaltou o espírito foi a de um desastre em meu filho, que anda agora pela Suécia estudando a organização das escolas e patinando furiosamente nos duros gelos daquele país. A impressão foi tão forte, apesar de absurda, que me fez cair das mãos o chapéu que exatamente nesse instante eu ia pôr na cabeça. Corri e galguei com tamanha precipitação os três degraus do escritório de meu marido, que ele volveu para mim um olhar espantado e inquieto.
— O telegrama. Eu quero ver o telegrama... onde está?... que lhe sucedeu? perguntei, aflita.
— Que telegrama, ilha? eu não tenho telegrama nenhum... Não compreendo a tua agitação... senta-te, explica-te. Que há?
Não me sentei. Mesmo de pé, já um tanto vexada, contei-lhe o pensamento que me passara pela cabeça. Ele riu-se, concluindo um tanto desdenhosamente: — afinal és uma mulher como todas as outras...
Percebi toda a vida que meu marido gostaria muito que eu tivesse um pouco menos de imaginação; mas essa vontade é talvez a única que eu nunca lhe pude fazer!
Refeita do meu susto, sem o auxílio da água de flor de laranjeira com açúcar, sentei-me e indaguei qual o motivo por que ele me mandara chamar.
Ele explicou, revolvendo a papelada que sobe em pilhas quase até o teto, de cada lado da sua secretária, que por me ver tão interessada na organização da tua vida, queria mostrar-me uma página de certa revista, com que ele estava muito de acordo, sobre colonização estrangeira no Brasil.
Após uns cinco minutos de procura por esma, por dentro, por baixo de pastas, e por entre os jornais esparsos do terrível caos que é essa secretária em que não me é dado sequer pôr as pontas dos dedos, ele sacou do fundo de uma gaveta um folheto cor de rosa, em cuja capa li o nome da revista: Itália e Brasil.
Já tranquila, estendi a mão para o fascículo cor de rosa, como se em vez de agricultura ele me viesse falar de poesia e de música, e mergulhei-me no marroquim verde do divã, disposta a lê-lo de uma assentada. E li, e ali tio mando marcado a lápis nos seus tópicos principais. Receando, porém, o extravio do meu folheto no correio, o que infelizmente é agora frequente, sempre te apontarei nesta carta, apressadamente e resumidamente, alguns parágrafos do relato rio em questão. Diz meu marido que tenho a mania epistolar e que só cu gasto mais tinta na minha pequena secretária Luiz XV do que todo o pessoal de todas as secretarias públicas reunidas do Rio de Janeiro. O exagero deste senhor filosofo é tanto mais clamoroso, quanto ele sabe que a bem dizer eu não entre tenho correspondência senão com vocês; em todo caso, para lhe dar um laivo de razão, alongarei esta carta, entre- tendo-te sobre o assunto da revista em questão. Como verás, trata-se do resumo de um relatório do Instituto Colonial de S. Paulo, muito interessado naturalmente, pela felicidade do colono nestas terras da América. O relator, o engenheiro Sr. Eduardo Loschi, pergunta: — é possível melhorar as condições dos colonos nas fazendas? A esta pergunta ele mesmo responde: — É e passa, depois de várias considerações, a enumerar as condições imprescindíveis para a atração e estabilidade dos colonos europeus no interior e nos sertões do Brasil.
A primeira de todas e, já se vê, a higiene. Devendo, para isso, ser as casas dos colonos construídas de modo que o ar e a luz penetrem nelas abundantemente, ao mesmo tempo que, pelo bom funcionamento das suas portas e janelas, possam resguardar os seus habitantes das intempéries.
A água potável é um dos principais elementos de saúde de qualquer localidade. Haverá sempre cuidado em fornecer à colônia de qualquer fazenda água tão boa quanto possível? Nem sempre... e, entretanto, não é obra de dispêndio excessivo um reservatório cavado em lugar alto, na própria terra, sendo a parede de remate construída de pedra e areia grossa, para servir de filtro natural às impurezas da água. Os córregos e os rios que atravessam as propriedades agrícolas onde não haja nascentes puras, não podem oferecer, a quem neles se desaltere, promessas de saúde e tranquilidade.
Depois da habitação e da água, vem o para- grafo da assistência sanitária.
Seria bom que em todas as colônias houvesse uma pequena farmácia em que não faltassem nunca os desinfetantes, algodão e gazes fanicadas, sérum contra mordeduras de cobras, etc., a par de medicamentos internos mais comuns.
Sempre que um grupo de fazendas unidas conte mais de dois mil colonos deverá esse grupo manter um médico de partido. E o Estado completaria essa obra de interesse particular, fundando no município agrícola de maior importância um grande estabelecimento em que se reunissem um orfanato, para recolher e instruir as crianças pobres da colônia ás quais faltassem os pais; um hospital para curar os doentes que tenham perdido a saúde no serviço das fazendas, como os cegos ou ameaçados de cegueira pelo mal do tracoma, e um asilo para recolher colonos velhinhos, e cuja atividade e energia se tenham esgotado também nos labores agrícolas.
Ao artigo da higiene, cujo teor descrevi ligeiramente, segue-se o da instrução.
Vocês, que mantem ali no Remanso uma escola em que, além de leitura, contas, escrita, lustrosa natural e geografia, ainda ensinam a cantar e desenhar, demonstram pela pratica a convicção da utilidade deste importantíssimo artigo.
Segue-se a fiscalização. Os feitores ou encarregados, pelos fazendeiros, de fiscalizar o serviço dos colonos, em vez de abusarem das suas atribuições, como acontece comumente, tratando os trabalhadores com brutalidade e tirania, deverão antes servir-lhes de conselheiros, conciliando as coisas de maneira a estarem todos contentes.
(E, ora aqui está, minha Maria, um para- grafo que me parece de uma enorme dificuldade! Quereis ver o vilão, metei-lhe a vara na mão. Os feitores serão, se não sempre, quase sempre uns déspotas).
O trabalho. O rendimento do colono dependerá do trabalho produzido; o contrato deve ser feito de modo a permitir-lhe fazer algumas economias.
Contabilidade. O lavrador, além do registro geral da fazenda, terá um outro, reservado ao trabalho e contrato dos colonos, que fará fé em juízo e deverá ser escrupulosamente exato, a ponto de, seja qual for o dia em que o colono queira pôr em ordem a sua caderneta, o possa fazer com a máxima facilidade, obrigando-se ele, por sua vez, ao rigoroso cumprimento de todos os seus compromissos.
Pagamento. Os pagamentos devem ser feitos mensalmente.
Deixo sem comentário este parágrafo e fico cismando em como poderá o lavrador pagar mensalmente a uma pessoa cujos lucros deverão corresponder ao trabalho apresentado geralmente em uma só época do ano.
Tu me elucidarás, se quiseres, no que, de resto, não faço grande empenho, visto que estes assuntos só os estudos por amor de ti.
Produtos agrícolas. O colono terá o direito de vender os seus produtos a quem quiser, sem se ver obrigado a preferir o fazendeiro.
Contrato de trabalho. O Congresso federal deverá fazer uma lei que efetivamente garanta o salário do colono, completando o decreto n° 6437, de 27 de março de 1907, e formular um contrato de trabalho que sirva igualmente ao interesse do fazendeiro e do colono nas fazendas. O fruto pendente formará a verdadeira garantia do salário e o credito do trabalhador será privilegiado, gozando o direito de precedência sobre qualquer outro credito penhorantíssimo da colheita.
Justiça. No contrato de trabalho será consignada a instituição de um tribunal de justiça composto de homens probos, o qual, por processo sumario, se deverá pronunciar sobre as divergências entre patrões e empregados.
O relator estende-se em considerações que não posso transcrever em uma simples carta e que melhor lerás no original, se acaso o original te chegar às mãos. Em todo o caso, chamei para os tópicos principais do grande problema a tua atenção, e isso já foi alguma coisa. Ha aqui assunto para meditação.
O lavrador moderno tem de ser um reformador de costumes e, para ser perfeito, terá muitas vezes de sacrificar os seus interesses pessoais ao cumprimento da justiça para com os seus inferiores.
Alegrou-me, confesso-te, ver expendidas neste relatório ideias que vocês já tiveram, e ali têm posto em pratica. A escola ao ar livre, por que tanto se interessam as tuas filhas, não é uma bela realidade desse artigo concernente a instrução?
O hospital e asilo para velhinhos e crianças não foi uma das primeiras instituições imaginadas pela tua Joaninha, que ideou até instalá-lo no pinheiral que divide a tua fazenda com a de teu genro? A contabilidade e ordem nos livros em que fiquem bem nítidas e bem expressas as obrigações entre fazendeiro e colonos, não foi uma das tuas mais impertinentes preocupações, tanto que me pediste cm uma das tuas cartas que te elucidasse um pouco a tal respeito? A higiene na habitação dos empregados do Remanso e da Tapera não foi também o primeiro assunto da tua fiscalização?
Todos estes cuidados estão documentados nas tuas cartas e sinto um grande prazer em reaviva-los agora.
Tens coração e espírito de justiça, e isso basta para encher de alegria a tua saudosa
FERNANDA.
MINHA BOA AMIGA.
Como não me fio no meu poder descritivo, pedi à Cecília para tirar uma fotografia do meu moinho e ali lh’a mando, minha querida senhora, com estas notas a lápis. O lápis é um recurso de que não me sei servir bem, mas que, entretanto, me acompanha por toda a parte onde eu vá, da Tapera ou do Remanso.
Este hábito facilita o serviço como não pode imaginar, porque, assim, não confio só a memória falível a intenção ou a necessidade de corrigir as coisas malfeitas com que vou topando no meu caminho.
Quem tem uma carteira e um lápis não tem o direito de se esquecer; por que razão, eu, que sou a distração cm pessoa, considero este sistema de ordem verdadeiramente providencial. Creio mesmo que o lápis não foi inventado para outro fim. Graças a ele, escrevo-lhe hoje esta carta do meu moinho, aproveitando um portador que vai a Pedrinhas com um carregamento de alfafa.
Embora a fotografia altere a feição especial das coisas, acredito que esta do meu moinho dá bem a impressão do que ele é.
Como poderá calcular, as suas dimensões não excedem os limites de uns vinte e cinco metros quadrados, e esse telhado em ponta, que se destaca sobre a colina e lhe dá um toque de pitoresco, foi, não sei por que milagre, imaginado pelo pedreiro que o fez.
A rampa que sobe à esquerda e contorna o moinho para descer à direita, foi riscada e mandada executar por esta sua criada. As árvores que a margeiam são de quaresma, de opulentas flores roxas, que a senhora bem conhece.
Por essa rampa suave poderá, se for preciso, subir e descer uma carroça para a carga e descarga das sacas de milho ou de farinha; mas o meu modesto moinho prescindirá desse luxo, contentando-se, mais pitorescamente, com fornecer carga para um ou outro colono, ou para um ou outro burrinho da Tapera.
A trepadeira que reveste as paredes do moinho é a nossa amiga hera, verdadeiro manto piedoso de pardieiros e muros esboroados. Embaixo, entre as duas rampas, esse amontoado negro de incompreensíveis figuras geométricas é constituído por pedregulhos em que não quis bulir, e sujos interstícios reguei com água, em que espalhei sementes lindas de avenças, fetos e samambaias. Começam a nascer algumas.
A parte posterior do moinho, de que mais tarde mandarei também uma fotografia, dá sobre a cascatinha, que se despenha em uma toalha de um metro de largura e uns cinco de altura aproximadamente, sobre uma bacia natural de rochas limosas e de seixos negros e polidos, serpeando depois de rio até o Pinheiral.
Desse lado, em cima, junto à janela do meu moinho, fiz um alpendre de tabuinhas para as minhas orquídeas. Meu cunhado classifica-as à proporção que eu as recebo do mato. Dentro de pouco tempo poderei assegurar quais as qualidades de orquídeas existentes por toda está regido que nos estremuda, e procurarei, instruída pelo meu mestre, criar talvez novos tipos dessas plantas caprichosas e mesmo reproduzir muitas das principais.
É preciso aproveitar os ensinamentos dos bons espíritos e os elementos que as circunstâncias nos põem diante dos olhos e ao alcance das mãos.
Como vê, o meu moinho é um ponto de recreio, uma nota de poesia para descanso das horas de preocupação e de fadiga. Nem só de pão vive o homem — disse-nos a senhora um dia, em uma das suas cartas, e tanta razão dou ao seu conceito, que aproveitei o velho pardieiro, meio arruinado, do monjolinho, para fixar nele um doce albergue para os meus sonhos de menina.
O que me falta agora é arranjar lá dentro um cantinho para uma secretária, pois que, como vê, decididamente, não sei escrever a lápis
Recomendações a seu marido e muitas saudades ao Eduardo Jorge.
Sua do coração.
JOANINHA.
FERNANDA.
Depois de ler a tua última carta fiquei por muito tempo pensativa c nessa noite mal pude conciliar o sono, abalada pela impressão de mal cumprir certos deveres, cujas responsabilidades assumi, talvez, um tanto levianamente. Fizeste bem cm esclarecer-me. De ciclo, as obrigações que temos para com os colonos que atraímos e chamamos para as nossas propriedades, são muito mais complexas e delicadas do que mesmo supomos.
A mim, por exemplo, nunca me tinha ocorrido essa questão da água, em que aliás se baseia a verdadeira felicidade dos homens c muito principalmente dos homens pobres, que é a saúde. Dentro da minha casa ninguém bebe água que não seja filtrada.
Assim como pensei em defender-me a mim e aos meus da invasão possível de moléstias, por que não pensei eu também nos outros? A voz do egoísmo não me deixou ouvir a da consciência; mas, felizmente, estás de sentinela a minha vida para a corrigires de todos os seus erros e de todas as suas injustiças. No dia seguinte aquele cm que recebi a tua carta e a revista, mandei chamar um engenheiro que por acaso se encontra em Pedrinhas, onde veio montar por sua conta uma usina, e encarreguei-o de estudar um plano e executá-lo, de modo que os meus colonos tenham água potável, tão boa e tão saudável quanto possível.
O engenheiro pareceu-me um rapaz inteligente e prometeu-me, depois de estudar o terreno e as águas do Remanso, fazer o trabalho sem grandes dispêndios nem de dinheiro nem de tempo. Encetará amanhã o serviço, e dentro de poucos dias eu estarei tranquila. Maior que fosse a despesa, eu não me furtaria a fazei-a. Ha certas economias, indignas das pessoas de sentimento e de certa educação, e que, entretanto, são feitas por elas quase inconscientemente. É o que me acontecia. Adeus. O Salustiano está à espera e agora só me resta o tempo de te dar um abraço.
MARIA.
(Bilhete postal.)
MINHAS AMIGAS.
Se o engenheiro que está tratando das águas do Remanso for o Cesário Malheiros, lembrem-lhe a amizade do todo vosso
EDUARDO JORGE.
EDUARDO.
Sim, o engenheiro é o mesmo. Contou-nos muitos casos alegres sobre a vossa convivência em Nova York. É nosso hospede há dois dias e estamos encantadas. Cumprimentos.
CORDÉLIA.
(Este bilhete postal representa um canto da nossa horta).
(Bilhete postal.)
Meninas! Vejo que o kodak de Cecília trabalha! Mandem-me mais bilhetes postais. Neste, chego a distinguir as couves das alfaces! Prodigioso! A maçada é que o Eduardo Jorge não m’o quer ceder!
FERNANDA.
EDUARDO.
Escrevo-te do sétimo céu da ventura, para te dizer que estas senhoras do Remanso estão intrigadas pela tua perspicácia! Sabendo, como sabias, que eu vinha montar e explorar uma usina em Pedrinhas, não achei extraordinário que adivinhasses o meu nome... O que acho surpreendente é a educação desta família de lavradores, tão inteligentes e tão apaixonados pela terra que cultivam. Ah! se houvesse muitas brasileiras assim empenhadas em elevar o nível material, moral e intelectual do país, o Brasil não seria todo ele e em poucos anos um verdadeiro paraíso? Infelizmente a mulher brasileira em geral, e muito principalmente a lavradora, desconhece ainda o poder da sua energia e da sua inteligência. A obra destas senhoras precisaria ser divulgada por toda a nossa pátria, para exemplo de outras iniciativas. Sei que pensas como eu e que como eu te sentes maravilhado pelos exemplos de atividade e de patriotismo daí” lavradoras do Remanso. Estou morto por ver-te e confiar-te o que não quero dizer por escrito. Até breve.
CESÁRIO.
MARIA
Acaba de sair da minha casa um rapaz que eu conheci com ares de tuberculoso e pobremente trajado e que veio agora, rosado e esbelto, contar-me depois de muitos anos de ausência, que tendo conseguido à força de trabalho e de economia comprar uma fazendola, dedicou-se de todo o coração à indústria dos laticínios. Segundo o que me disse, a sua fazenda é modelar e representa o ideal de toda a sua meninice. O bonito é saber-se porquê! Ouve lá:
Era ainda rapazito de colégio primário quando viu morrerem sucessivamente dois de seus irmãos. Chamado o médico, declarou este que o motivo da morte fora a infeção pelo leite de vaca mal acondicionado e oriundo, naturalmente, de animais de saúde suspeita.
Foi tão profunda a impressão que ele então sentiu, que no fundo da sua alma de criança deliberou que trabalharia para poupar ao menos a um lar a dor cruel de que via agora preza o seu. Ter salvo ao menos uma criancinha de um envenenamento inconsciente, mas nem por isso menos terrível, já seria para ele uma glória melhor do que todas as outras.
E pensando nos irmãos trabalhou, trabalhou calado, reunindo pequenos lucros até conseguir o seu sonho, que é o de fornecer aos hospitais, ás creches, aos asilos e a alguns particulares que o solicitam, leite absolutamente puro e sadio. Os vasilhames da sua leiteria são louçados; as garrafas de vidro branco têm rolhas também de vidro envoltas por uma capa de borracha que não permite violações. As suas vacas, médias e lindas, são frequentemente examinadas por um veterinário e alimentadas com abundancia e com asseio.
Por todas estas qualidades tem ele certeza de que esse leite não matará, mas dará alegria e vida às criancinhas...
Não achas interessante o caso?
E eis ali, minha querida, a felicidade: ter um ideal, trabalhar por ele e realizá-lo.
Essa glória vocês a podem definir melhor do que eu, porque a sentem, cumprindo a obra mais bela que é dada à criatura humana cumprir: ensinar, transformar, criar.
A carta em que me descreveste os progressos da Tapera, deu-me a ideia de uma ressurreição.
A terra morta, a terra safara, a terra da saudade e do abandono, rebentava em alegrias e promessas pelo influxo de grandes dedicações e do arrojo de mocidades inteligentes. A escola, em que à sombra das jabuticabeiras de folhagem miudinha, como a folhagem das oliveiras que na sábia Grécia refrescava da fadiga do estudo os filósofos e os poetas que se abrigavam a seus pés, tuas filhas ensinam as crianças a ler nos livros e a amar os campos do Brasil, dá-me a impressão de algo de superior, que só por si baste para explicar uma existência. Li há dias que a “estatística prova que o major contingente de delinquentes é justamente fornecido pelos analfabetos”. Cada espírito que vocês tiram das trevas da ignorância é a probabilidade de um criminoso a menos. Assim, vocês vão sucessivamente cultivando para o bem, terras e almas. É desses empenhos que os nossos sertões precisam: mulheres que vos imitem, espalhando ao redor de si ideias de beleza e ideias de bondade. Na cidade, cada indivíduo só se ocupa com a sua própria pessoa. Ele é como que o eixo da sociedade em que vive. As suas ambições, os seus projetos, só têm um fim: tomá-lo mais rico, pô-lo em maior evidencia. Está tudo feito, está tudo organizado; ele não tem senão que aproveitar-se e que especular com o trabalho alheio, modificando-o a seu modo, para o senti contento. Mas no campo, que diferença! Tudo tem de ser feito de um outro modo, desde o princípio, no esforço ignorado de um criador pacifico e paciente. O nosso campo é triste. E porquê? Porque a mulher ainda se não interessou pela sua alegria. Quando é de algum modo ilustrada, vai para ele a contragosto e olha-o com prevenção e desprezo; quando é ignorante, deixa-se envelhecer sem repartir com ele um pouco ao menos do seu idealismo ou da sua piedade. Que lhe importa então, que as classes pobres, lá de fora, sofram misérias fáceis de remediar e ignorem até a existência do alfabeto no mundo? Que lhe importa que as fontes que rodeiam a sua propriedade sequem por esta de sombra, ou que as plantas dos seus pomares não deem frutos? Que lhe importa se há sol, se há vento ou se há chuva, se ela tem um telhado a cobri-la e paredes a defendê-la? Ah, se a mulher quisesse trabalhar para a redenção dos sertões brasileiros, que maravilhoso país seria em pouco tempo o nosso! Mas trabalhar como? Perguntarás.
Esclarecendo, alegrando, fazendo aos indiferentes amar a natureza, e aligeirando ao trabalhador o cansaço do seu esforço pela compreensão de outros ideais compensadores. Fazendo o que vocês fazem, enfim.
Não sei por que esta carta tomou este feitio, tanto mais que nem tu nem tuas filhas precisam que eu lhes diga estas coisas. São desabafos da hora; são transbordamentos do amor c do interesse que tenho por tudo que é brasileiro.
E quando penso nisto, lamento não ter vigor nem idade para peregrinar difundindo, como vocês, os meus pensamentos de amor pela humanidade e os meus desejos de paz universal.
Riste? Tens razão. Não são coisas novas, estas que te digo, a ti que me conheces tão bem. Não são coisas novas, mas são amigas c sinceras e levam-te toda a admiração e todo o carinho da tua
FERNANDA.
MINHA SENHORA.
Peço-lhe que me compre uma harmônica bem bonita, para eu dar de presente ao velho Alexandre, tocador dos bailados. Ele é serviçal e presta-se de bom grado a tocar para fazer dançar as moças e as crianças da colônia. Organizei agora um bailado novo de muito efeito, interrompido por cantos a duas vozes. Não creia que isto dê pouco trabalho. Dá algum; mas é compensado pela distração que nos proporciona e pela onda de alegria que espalha por toda a zona do Remanso. O Alexandre tem uma harmônica, mas não me parece que ela esteja muito disposta a resistir ainda por algum tempo aos exercícios que lhe destino... coitada. O Salustiano é violeiro, mas quando canta é uma desgraça; a voz sai-lhe aos arrancos e obriga o gado a responder-lhe em mugidos. Imagine!
Fica então combinado, sim? Escolha-nos uma harmônica ou concertina bem vistosa e eu lhe descreverei depois a cara do velho Alexandre, quando eu lh’a oferecer 1 Ele vai ficar como vido e eu também... Que quer! Tenho-lhe amizade.
Abrace-me com a sua costumada meiguice e perdoe mais esta maçada a sua
CLARA.
CLARINHA.
Permita que seja cu quem ofereça a harmônica ao Alexandre, felicitando-me por ficar uma de menos na cidade em que vivo.
EDUARDO.
BOM EDUARDO.
Não aceito. Mande a harmônica por minha conta e algum livro bonito pela sua.
CLARA.
FERNANDA.
Tenho a alma cheia; preciso desabafar consigo!
Escrevo-te da fazenda de meu genro, para onde viemos todos depois de temos assistido à inauguração do hospital novo, instalado na divisa do Remanso com o Morro Azul. Não sei se te recordas da ideia de Joaninha, que te comuniquei um dia, de plantarmos um pinheiral em uma grande mancha de terreno inútil que tínhamos para ali abandonado, e prepararmos nele uma enfermaria para os colonos e os pobres dos arredores. Quando a minha linda filha (porque ela está linda, fica sabendo) me confiou tal pensamento, considero-o utopista e sorri. Mas, o tempo não para e as intenções boas, quando são formuladas por pessoas sinceras e de animo forte, acabam sempre por vencer. À tenacidade da minha Joanna juntou-se a bondade de meu genro, e o hospital lá está, todo branco, todo rodeado de venezianas, no centro de um pinheiral plantado de novo, com espaço bastante entre as árvores para a passagem das cadeiras de rodas dos paralíticos ou enfermos temporariamente impossibilitados de caminhar. O edifício é modesto, mas ainda assim dividido em três pavilhões: um para doenças infecciosas, um para cirurgia e outro para consultório e clínica diária. Tudo é caiado e singelo, pobre, mas carinhoso. A pouco e pouco os fundadores irão aperfeiçoando as instalações, que são por enquanto ainda muito rudimentares; para isso querem organizar uma sociedade entre os lavradores da vizinhança, que os auxiliarão a manter o hospital em benefício dos seus empregados ou protegidos.
No pavilhão de cirurgia ha já um gabinete odontológico, onde um moço dentista, mediante uma contribuição mensal, trabalha todos os dias das sete às dez da manhã, hora em que volta para a sua residência, em Pedrinhas.
Os clientes que possam pagar, darão dois mil réis por sessão, depositando esse dinheiro no caixa da administração, em favor do estabelecimento; mas a verdade é que a maioria deles não pagará coisa nenhuma...
A principal despesa foi a construção de quatro estradas, perfeitamente bem-feitas e macias e que ligam o hospital, uma ao Remanso, outra ao Morro Azul, a terceira, que é a maior e mais bela, a estrada municipal de Pedrinhas, e a quarta a vila Formosa, com várias comunicações particulares.
Dessas estradas alguns trechos lembram aproveitados, mas exatamente a maior parle foi traçada e feita pela primeira vez e creio não será preciso sofrer modificações, porque tem caráter definitivo. Mais tarde, quando as rendas o permitirem, o hospital terá um automóvel-ambulância; contenta-se hoje com ter um carroção acolchoado para transporte de feridos e doentes. O estabelecimento tem dois índicos de partido, a quem dá transporte e avisa pelo telefone da entrada e condições de cada novo enfermo. Uma pequena farmácia anexa às enfermarias e alguns aparelhos permitem acudir com pressa aos primeiros cuidados com os doentes. Como pessoal, um enfermeiro, que é ao mesmo tempo administrador, uma criada e uma cozinheira. É pouco, mas e o mais que se pode fazer por enquanto; mas esse pouco já c consolador, posso afirmar-te.
Hoje mesmo, quer dizer no próprio dia da inauguração do hospital, para lá foi levada uma pobre caboclinha opilada, em vésperas de ter o seu primeiro bebê.
Foi recolhida à secção da maternidade onde já está sendo tonificada, ao mesmo tempo que será esclarecida pelos conselhos da higiene que deve usar depois consigo e com o seu filho.
Está claro que meu genro, acolhendo a ideia da cunhada e executando-a, dispôs-se a despender com isso muito dinheiro, e eu admiro a tranquilidade e o prazer com que ele o faz. Se, como é justo, os lavradores da vizinhança cooperarem para as despesas do hospital, o empreendimento não será pesado a ninguém, sendo útil a todos; mas conhecidos os hábitos econômicos dos nossos agricultores, poderemos contar com isso? ...
Não. Os nossos agricultores, quando não são pobres, não sabem dividir os lucros das suas lavouras em obras que redundem no benefício, na tranquilidade e na alegria delas.
Para eles, em geral, o colono é máquina de trabalho, não é um ser humano, digno da consideração de si e dos seus. O erro vem de longe e levará tempo a ser corrigido, mas há de selo pouco a pouco e eu me sinto feliz por ver que minhas filhas dão nas trevas os primeiros passos nesse sentido. Agora mesmo que fazem Joaninha e Clara, na sala da biblioteca onde te escrevo? Uma faz bruxas de pano, para entreter as crianças doentes da enfermaria: outra sapatinhos de lã para os recém nascidos da maternidade. As bonecas de Clara são engraçadas; leva cada uma o seu enxoval e um nome, isto é, o início de uma história que distrairá a criancinha enferma; os sapatinhos de Joanna aquecerão os pesinhos de entes nascidos para rasgarem a pele nos espinhos da miséria, e a quem a incúria das mais ignorantes não preparou nenhum conforto.
Eram estas coisas que me enchiam o coração e eu sentia necessidade de desabafar consigo, a quem o meu romanticismo não parecerá ridículo, porque o sabes sincero. O que me vale, é que, filha da mesma época, também tu és romântica, minha querida, e será por isso que os nossos sentimentos se combinam tanto! Já que te disse o que estão fazendo as minhas filhas mais novas, dir-te-ei também alguma coisa das mais velhas.
Cordélia toca na sala interior: estuda umas músicas de Grieg, recebidas ontem; e aqui na larga mesa da biblioteca, Cecília lê com o marido um romance francês.
Estive agora mesmo alguns momentos com a pena no ar, olhando para eles e gostando de os ver assim de cabeças unidas, inclinadas para a mesma página. Meu genro lê a meia voz, para de quando em quando para comentar uma ou outra passagem, beleza ou defeito do estilo, singularidades dos costumes descritos ou comoção da cena. A luz da lâmpada cai em cheio sobre as suas mãos unidas, a de Cecília, morena e esguia, de unhas reluzentes, a dele forte, branca, coberta de ligeiros pelos loiros. Lá fora o silencio dos campos, o aroma das matas traspassando os ares; aqui dentro o amor, a bondade, a inteligência satisfeita e gloriosa. Através das páginas dos romances, eles veem o mundo e aprendem a olhar com interesse para os pobres que os rodeiam. A missão do romance moderno é bem superior àquela que eu imaginava.
Disse-me Cecília que depois de ter lido com o marido toda a obra de Emilio Zola, se sentiu muito mais piedosa e muito mais humana. Percebeu assim que o homem é em toda a parte do mundo o mesmo animal imperfeito e necessitado da benevolência alheia. A leitura feita em comum, sugere-lhes discussões curiosas e dão azo a que Cecília seja esclarecida pelo marido em muitos pontos que, sozinha, teriam ficado para ela sempre obscuros. Quem me diria, quando tirei as minhas filhas do colégio para as apresentar na sociedade fluminense, em cujo seio eu vivia verdadeiramente embriagada de luxo, que bastaria para fazer a felicidade de qualquer delas o amor sossegado de um lavrador modesto, uma casa em que por todo o luxo há um bom piano e uma excelente biblioteca!
Os bailes, porque foi para falarem nos bailes com os diplomatas que cu lhes mandei ensinar francês e inglês; os concertos cm que tomassem parte; os vestidos vindos de Paris; as primeiras representações e as idas e vindas pelas ruas, que entravam no meu programa de futuro, perderam a sua significação de gozo, diante dos empreendimentos que desde a mais velha de minhas filhas até a última, tem realizado neste sossego maravilhoso da roça. O prodígio de tudo isto é que ao mesmo tempo que nos tornamos todas mais filantrópicas (incluo-me na onda porque sinto a sua influência), tornamo-nos também mais ambiciosas; isto é, procuramos empregar a nossa atividade e tirar dela todos os proveitos possíveis!
Não somos meramente sentimentais nem ulo- pistas: gastamos do que produzimos, exercendo justiça sem prejudicar o futuro da propriedade e da família. E a minha felicidade seria completa se a sombra de alguém, para Iodos invisível, não se interpusesse tantíssimas vezes entre mim e os quadros mais afináveis. Agora mesmo, olhando para Cecília e para o meu genro, vi desenhar-se o seu vulto numa nevoa de lagrimas e de saudades...
Meu pobre amigo, como ele gostaria de ver os filhos nesta doce expressão de felicidade sossegada, estável, verdadeira!
Adeus!
MARIA.
EDUARDO.
O hospital (não tem outro nome) é uma obra encantadora e que merece a cooperação de nós todos; vou dar-te um exemplo, que espero seguirás com animo alegre: compra-me quatro leitos brancos, fortes, magníficos, para a enfermaria da maternidade, e quatro berços também magníficos, com os respectivos acessórios.
Afinal, que diabo! também eu tenho coração! E tu? Vai ao meu correspondente, o Simas das maquinas, ele te fornecerá o dinheiro para essa compra, que seria maior se eu não estivesse agora atravessando uma crise de maré baixa... A instalação da minha usina vai bem. Estou com vontade de lhe pôr o nome de Santa Cordélia. Que dizes? Será indiscreto? Parecerá mal? Elucida-me.
TEU, CESÁRIO.
CARO.
Vão seis camas e seis berços, em vez de quatro. Um namorado não olha a despesas.
Quanto à usina, não lhe ponhas nomes de santos, que passaram da moda; mesmo Cor delia é santa só do calendário shakespeariano. Pede primeiro a menina em casamento e escolhe depois com ela um nome menos piegas para a tua fábrica.
Quanto à prova de que também eu tenho coração, ela ali vai representada por uma caixa de ferramentas, destinada a serrar ossos de pernas e de braços dos homens teus semelhantes, ali meu filantrópico amigo! Sempre ao teu dispor.
EDUARDO.
MINHA BOA D. FERNANDA.
Com estes rabiscos remeto-lhe um conto que li há dias em uma revista e cujo assunto achei interessante. Há nessa história uma certa analogia com a nossa; e o conselho desse famoso e atilado medico de Paris fez-me pensar na sua ciência, minha boa amiga, quando nos incutiu em nosso ânimo o gosto e o amor pelos trabalhos da agricultura, tão estupidamente desdenhados até hoje pelas mulheres do nosso país e tão cheios, entretanto, de interesse e de vida! Ah, como o Brasil precisa de nós, minha senhora, e como nós ignoramos isso!
Toda sua,
CECÍLIA.
Segue o conto:
RECEITA ORIGINAL
Dizem que um médico holandês foi chamado um dia, em Paris, para ver uma senhora da alta sociedade, que se definhava sem que se soubesse por que.
O médico ora uma notabilidade, acatada por todo o mundo cientifico como verdadeiramente superior.
O que ele dissesse era o que se deveria fazer, sem discussão nem relutância.
Ora pois, subiu o grave doutor a escadaria atapetada do palácio dos Campos Elíseos onde habitava a enferma, e foi encontrá-la, recostada com almofadões de cambraia e de seda, num dos recantos mais abafados do seu boudoir.
Ouvidas as queixas, começou o exame: pancadinhas no peito c nas costas; tomada de pulso; reviramentos de pálpebras; auscultação de pulmões; tudo que em tais casos é mister fazer-se.
Realmente, a pobre senhora era vítima de um esgotamento nervoso.
O médico acomodou-a, sentou-se diante dela depois de contemplá-la, como se estivesse a estudar-lhe a fisionomia, inquiriu quais os seus hábitos.
Ela teve de confessar que não os tinha.
— Como assim?
— Na sociedade em que vivo, doutor, não é possível ter hábitos...
— Mas todo o mundo os têm.
— Todo o mundo, menos eu.
— Vejamos; procurarei auxiliá-la: — a que horas se levanta?
— Conforme. Às vezes ao meio-dia; outras as dez, ou mesmo às nove horas. Também às vezes a uma ou às duas da tarde...
— Oh, mas isso é péssimo, grunhiu o médico; e fixando bem na doente os seus deslavados olhos azuis: — e a que horas se deita?
— Às vezes à meia-noite, outras as uma, ou às duas, ou às três, tanto como às quatro ou às cinco... Tudo conforme.
— Está claro; umas coisas dependem das outras. A vida é uma cadeia que não deve ser formada de elos desencontrados...
Agora diga-me. Quais as suas ocupações prediletas?
— Ocupações?!
— Sim; não há quem não tenha as suas ocupações.
— Se o snr. entende por isso frequentar salões, passeios, bailes, patinações, teatros e restaurantes de luxo, dir-lhe-ei ainda que não sei do que mais gosto, porque não tenho tempo de refletir sobre cada coisa particularmente, nem de lhe tomar o gosto...
— Tem sempre a sua casa nesta penumbra?
— Sempre.
— Nunca passeia a cavalo?
— Algumas vezes; não porque isso me dê prazer, mas porque é de bom tom, e cavalgo admiravelmente.
— Não lhe dá prazer, por quê?
— Porque volto sempre para casa morta com dores nos rins... e mesmo porque para passear a cavalo é necessário levantar-se a gente às nove horas, quando muito...
— Poderá contar-me um dos seus dias, qualquer deles, que lhe esteja na memória?
— Pois não. Tomemos para exemplo antes de ontem: levantei-me a uma hora, porque não tinha deitado às seis, após um baile e uma corrida de automóvel ao campo, para ver nascer o sol ... Depois de ter tomado o meu chocolate, vesti-me para uma visita de caridade a um bairro pobre. Eu não podia faltar, porque tinha combinado com a marquesa de Tours e M. Schloss acompanhá-las nessa excursão... Voltei a casa às três horas, para almoçar e mudar de toilette para a recepção do ministro da Rússia, onde estive até as cinco; dei depois a minha volta pelo Boís, e voltei às seis para casa. Repousei no meu banho de imersão, quarenta graus de calor, o que é para mim o melhor calmante, fiz a minha massagem, toilette para a noite, jantei, e fui depois à ópera. Depois da ópera fizemos uma hora de giro em automóvel, indo parar no restaurante, onde ceei com uns amigos e onde ficámos palestrando até às três horas. Foi um dia pacato.
— Muito pacato!
— Certamente. Não fiz nenhuma extravagância: nem natação na piscina; nem patinação no Palais de glace; nem marcas de cotillon; nem...
— Basta, minha senhora, basta! Diga-me, que vinho bebe?
— Champagne.
— Alimenta-se bem?
— Não... não me fale em comida, doutor!
— E se eu lhe falar de flores?
— Ah, isso é outra coisa.
— Gosta de rosas?
— Muito!
— Eu prefiro as tulipas.
— Não fosse o sr. holandês!
— Por que será que as tulipas não dão bem em França?
— Isso é que eu não sei!
— Nunca teve curiosidade de o indagar?
— Confesso-lhe que nunca!
— É extraordinário, pois essa ideia persegue-me constantemente...
E com isto o dr. levantou-se e foi buscar a sua cartola e as luvas depositadas a um canto sobre um tamborete, enquanto a enferma arregalava para ele olhos de espanto.
Passados alguns segundos de silêncio e de meditação, o médico voltou-se muito sério para a doente.
— Tenha coragem, minha Senhora: o seu caso é grave.
— Que me diz?! oh, meu Deus...
— Digo-lhe a verdade. Eu não engano os meus clientes.
— Meu Deus, meu Deus! repetia ela numa voz cada vez mais trêmula.
— Como se deixou chegar até este ponto?!
— Não sei... não tinha tempo para pensar em mim... Morrer! morrer na flor da vida? não é possível! não me deixe morrer! Que me receita? É preciso que receite E que me salve!
— Receito-lhe uma coisa muito simples, mas de que dependerá a salvação do seu corpo, talvez mesmo da sua alma, se acaso é religiosa.
— Sim... sim... muito... diga!
— Somente, exijo que se sujeite ao tratamento sem hesitação.
— Prometo.
— Sem vacilação?
— Sem vacilação.
— Custe o que custar?
— Custe o que custar.
— Ouça-me: a senhora praticará todas as manhãs, das sete as nove horas, depois da sua ducha fria, um pouco de jardinagem.
— Quer dizer: passear no jardim? colher flores?
— Não! quero dizer: enxertar as roseiras, podar as violetas, dirigir os galhos das trepadeiras, semear, aparar, adubar canteiros com adubos químicos ou não; regar, estudar a vida das plantas, ampará-las, fortificá-las, servi-las!
— E as minhas mãos?! É verdade que se vendem luvas especiais para esses misteres...
— Luvas?! não; deixe que a pele das suas mãos se ponha em contato com a das flores, que não é menos mimosa... Afirmo-lhe que no dia em que a snra. tiver conseguido ver desabrochar, graças aos seus esforços, um canteiro de tulipas em França, terá alcançado saúde para cem anos...
— Não está a brincar, doutor?
— Não me permito tais liberdades com uma senhora de tão alta distinção.
— Mas eu não sei nada...
— Aprenda, praticando.
— E depois?
— Depois mande-me algumas tulipas do seu jardim.
*
* *
Passado um ano, estava um dia o médico no seu consultório quando viu entrar uma linda senhora, rosada e forte, sobraçando um ramo de tulipas.
Ele não tinha esquecido a cliente dos Campos Elíseos; mas que diferença! Parecia agora mais moça e muito mais bonita; porque era ela em pessoa que ali estava sorridente diante dele, a dizer com voz fresca e moça:
— Tinha razão, doutor! a prática da jardinagem tanta saúde dá ao corpo como ao espírito. Ressuscitei; e desde que me empenhei por cultivar tulipas da Holanda no meu jardim, compreendi que não há vida nobre sem um ideal. Este está realizado. Vou agora pensar em outro.
— Belo! muito bem!
E qual o novo ideal!
— Fundar uma escola de jardinagem para crianças pobres, com certas compensações de vestuário e de leituras...
— Será a senhora a mestra?
— Das sete às nove da manhã. Que quer? adquiri o hábito de estar a estas horas no jardim e já não o posso dispensar!
MARIA.
Nunca o Remanso me pareceu tão conveniente a tua vida como agora.
As tuas cartas recendem tranquilidade, honestidade, saúde, sobretudo saúde de espírito, que é a mais rara e a melhor. O teu são critério, unido a uns laivos de romantismo que espalham poesia sobre todos os atos que práticas; a tua energia e a tua piedade, realizaram o milagre humano de uma felicidade confessada, estável, forte, absolutamente tranquila.
Coube-me a mim a gloria de ter ouvido a confidência tão extraordinária e tão simples dessa verdade, que o mundo nega porque a não quer compreender ou não a quer procurar.
Dirás que a felicidade não se procura: acha- se. Enganas-te. A tua, por exemplo, fizeste-a por tuas mãos.
Se ainda o não sabias fica-o sabendo agora, e por mim, que tenho acompanhado a tua vida com o interesse crescente de quem assiste a um prodígio. Lembras-te? tiveste o teu momento de terror; houve um tempo cm que olhaste para o futuro como quem olha para um recinto em trevas sem saber que direção tomar. Pouco a pouco foste-te enchendo de resolução; um passo hoje, outro passo amanhã e encontraste o teu verdadeiro caminho. Apreciei tudo de longe, às vezes com certo sobressalto, outras animada c esperançosa. Em verdade, saber encontrar o seu caminho, c saber não sair dele, eis a maior dificuldade da vida.
É a ciência rara que só os fortes de coração e de espírito podem atingir com perfeição. E para glória da tua alma, tu, não só a alcançaste, completamente, como ainda a soubeste transmitir a tuas filhas educando-as em um regime de trabalho ativo e criador, de bondade e de singeleza, que as faz sentir o mesmo gozo consciente de viverem uma vida fértil em benefícios de toda a ordem. Mas, não nos iludamos, para esse resultado cooperaram enormemente a quietação do campo e as suas exigências de trabalhos novos e constantes. A fazenda é um verdadeiro sanatório moral para quem a veja com olhos inteligentes e piedosos; a cidade, ao contrário, é uma grande perturbadora das almas adolescentes. Se tuas filhas tivessem permanecido neste meio inquieto, em companhia de amigas que aos 15 anos se pintam como cocottes; dançando em salões com rapazes que nas meninas só acham interessante o dote; ouvindo de todos os lados lisonjas ou intrigas, teriam elas chegado à perfeição moral a que chegaram? Não.
Quando eu te disse que nunca o Remanso me pareceu tão conveniente ao sossego do teu espírito, foi exatamente por comparar o seu ambiente casto ao ambiente de pequenas intrigas e grandes maldades, que presentemente nos sufoca na capital. Antes de outra explicação, deixa-me dizer-te que estou convencida de que a vida das grandes coletividades sofre de epidemias morais como de epidemias de febres infecciosas. Se há organismos sãos, que resistem, a maior parte sente-se contaminada.
Não se sabe de onde vem a culpa; mas quando a rajada sopra, o mais prudente é fechar as janelas e prevenir-se a gente com certos desinfetantes poderosos, rotulados com o dístico de Paciência ou de Pouco Caso. Por mim não tomo nenhuma precaução.
Sabes o meu sistema: não lenho tempo para pensar na vida alheia nem de querer mal a ninguém, persuadindo-me com isso de que também os outros não se quererão ocupar com a minha pessoa ... É um engano, mas que não aflige, porque me sinto bem escudada na consciência. Supõe, porém, que estavas aqui mais as tuas quatro filhas, que são alegres, expansivas, moças e independentes ... Teriam elas, nessa idade em que as impressões causam abalos tão violentos, a mesma tranquilidade de animo que eu tenho e têm geralmente as pessoas da minha idade e da minha experiência?
Quando lhes viessem dizer que tais e tais dos seus amigos diziam delas tais e tais barbaridades, os seus confiantes corações não se sentiriam espremidos pelas mãos de ferro de uma angústia tremenda? E como tu sofrerias, minha boa Maria, com o espetáculo dessas primeiras desilusões! Não penses que exagero; passamos evidentemente por uma crise moral extremamente sintomática e extravagante.
Dizia-me há dias um velho jornalista que nunca recebeu tantas cartas anônimas em sua vida como nestes últimos seis meses. O chic neste momento é não acreditar nas virtudes alheias; ter maior prazer em desdenhar do que em admirar; em reprovar do que em aplaudir. Uma mulher sorri, amavelmente? — É leviana. Um homem vacila em uma resolução? É de má fé.
Como podes imaginar, geralmente as vítimas prediletas são as pessoas notáveis pela sua fortuna, pela sua beleza, pela sua atividade ou pelo seu nome. É triste ver-se o prazer mesquinho, feroz, com que se tenta desfazer reputações e malquistar ideais sinceros.
Quanto maior for o prestígio de um indivíduo qualquer, mas fundamente se cravará nele o dente negro e pontudo da maledicência; não parece estarmos em uma cidade de um milhão de habitantes, mas em uma terrinha de comadres mexeriqueiras e ociosas.
Andam as almas em um jogo de cabra-cega, que infelizmente parece que as diverte mais do que as fatiga...
Para veres que não exagero, e como documento do que afirmo, vou narrar te aqui um caso típico:
Temos um amigo, cirurgião distintíssimo com quanto ainda muito moço. O seu amor ao estudo, o seu entusiasmo pela profissão, a sua clínica crescente atraiu para ele a atenção pública. Há um par de meses foi chamado para fazer uma operação muito grave e fê-la com sucesso.
Falou-se muito no caso, concorrendo para isso ser pessoa altamente colocada a que se submeteu à melindrosa operação.
Um colega desse cirurgião, a quem, não se deve imaginar porque, tais triunfos irritavam, lembrou-se então de inventar o boato de que o outro sofria de um mal herpético contagioso... Supõe o resto. Toda a gente sabia que não era verdade, mas em todo o caso ia passando o boato para diante...Os clientes começaram a retrair-se, com medo de uma aproximação perigosa, e o ilustre médico viu consideravelmente diminuída a sua clínica, de um dia para o outro!
Bonito. Não te parece?
Agora ouve esta, que é de hoje e me fez rir: Combinámos ontem, meu marido, o Eduardo Jorge e eu, encontrarmo-nos ao meio-dia em um restaurante para almoçarmos juntos, indo cada um de um ponto diferente. Eu da Tijuca, onde tinha de ir ver uma ex-criada agora muito doente; e os dois homens dos seus escritórios respetivos. Ao meio-dia encontrei-me no restaurante com o Eduardo, a quem meu marido incumbira de me dizer que o não esperasse, porque se via forçado a ir a Niterói a um negócio imprevisto. Sentei-me tranquilamente à mesa em companhia do teu afilhado, que pela idade poderia ser meu filho, e almocei, com o apetite que, em geral, nós as donas de casa, temos quando almoçamos em um restaurante. Pois, minha filha, dali a duas horas todos os conhecidos que topavam com meu marido lhe diziam com um ar de quem não quer falar por mal, espiando-lhe os olhos, que me tinham visto, ou que tinham ouvido dizer, que eu almoçara em um restaurante com um rapaz desconhecido! Meu marido é um urso, não gosta de confianças; imagina com que expressão fisionômica ouviu isto muitas vezes, no mesmo dia, até de pessoas com quem mal troca um cumprimento! Quando ao voltar para casa, à noitinha, viu ainda acercar-se dele um sujeito com ar de malignidade disfarçada em doçura e repetir-lhe o estribilho: — por sua senhora não pergunto, porque soube que ainda hoje almoçou em um restaurante com um mocinho de ar estrangeiro — ele perdeu a paciência e sacudiu o tal sujeito, com fúria, pela gola do casaco.
Apesar de não gostar de violências, ri-me muito quando meu marido, todo irritado e nervoso, me relatou está!
O pior é que a par de coisas ligeiras, vão outras graves e tristes, criadas pelo mesmo sopro de perversidade. Registro este pendor, que espero será passageiro, pelo habito que tenho de te comunicar as minhas impressões.
Repito: a vida da roça, tal como a levas com tuas filhas, parece-me neste momento mais do que nunca deliciosa. Tu mesma o disseste: — um bom piano, uma grande biblioteca, uma janela aberta para uma linda paisagem - e ali está a felicidade!
Mais do que nisso, a felicidade está em saber criar uma atmosfera de alegria, de honestidade, de bondade e de trabalho, e em saber mover-se nela, como tu fazes, no ritmo da mais doce da mais perfeita harmonia.
Eu estou muito infiltrada dos venenos da cidade para querer viver no campo, mas há horas, como está, em que te tenho inveja. Oh, uma inveja sem maldade, descansa. As minhas invejas não prejudicam ninguém.
TUA, FERNANDA.
P. S. — Vão por este mesmo correio algumas músicas de Schumann para Joaninha e um romance inglês para Clara. Segue também a caixa de ferramentas que me encomendaste para o Salustiano.
F.
JOANINHA.
Acabei de ler em casa da nossa boa D. Fernanda, a minha inteligente e adorável amiga, um conto que lhe mandou sua irmã Cecília Por espírito de imitação, mando-lhe eu outro, que destaquei das páginas da uma revista e cujo teor está tão de acordo com as minhas ideias que até o julgaria feito por mim próprio, se acaso o meu espírito desse para tão altas ocupações...
Ali vai a história, com afetuosas saudações do seu amigo
EDUARDO
A NOIVA QUE EU DESEJO
Passeávamos a pé pela Avenida Beira-mar, rente à amurada do cais. O sol no ocaso punha reflexos de cobre novo e de oiro vivo nas águas quietas da Bahia que o corpo negro e bojudo de um grande transatlântico ia cortando majestosamente.
Do nevoeiro crepuscular, emergiam, idealizados por um tom lilás suavíssimo, o zimbório do Pavilhão e mais longe dois dedos brancos apontando o céu, na forma de torres de igreja...
Na avenida passavam automóveis, sucessivamente, o que obrigava o amigo que me acompanhava a tirar também quase que sucessivamente o seu chapéu, uma bela cartola luzidia que se dava também ao luxo de ter, como o mar, os seus reflexos.
— Mas você conhece todo o mundo! notei- lhe ao vê-lo cumprimentar mais alguém que passava: uma linda loira ao lado de um velhote de bigodes brancos.
— É a Edith Mendes. Uma menina encantadora, com quem dancei na Legação em Londres e de quem gosto muito porque ela canta como um anjo e tem espírito como o diabo!
— Solteira?
— Sim; e de importantíssima família...
— Então?
— Então o que, minha boa amiga?
— Faça-se de ingênuo! Você não me disse ainda ontem que deseja casar-se, que vê o tempo fugir-lhe e que ainda não fez a sua escolha?
— Sim, disse..., mas a Edith está acostumada a muito luxo. Eu quero uma noiva mais simples...
— Compreenderia isso se você fosse pobre, mas afinal não o é!
Ele quedou-se algum tempo calado, até ter de tirar de novo o seu chapéu a três senhoras que passavam noutro automóvel.
— A condessa de Santo Hilário e as duas filhas, informou-me ele sorrindo. Estas não cantam nem tem espírito, mas são lindas e poderosamente ricas...
Nisso uma delas voltou a cabeça para traz e com certeza não foi para olhar para mim.
— Você não pode ter receio de se apresentar como candidato a qualquer moça da nossa sociedade; tem um nome ilustre, boa reputação, fortuna, elegância e todos esses predicados devem assegurar-lhe o sucesso; não compreendo portanto o seu retraimento. Olhe, lá vai outra: aquela conheço eu; é uma rapariguinha bem curiosa...
— Também eu a conheço; também eu a acho enigmática e perigosa.
— Perigosa?
— Os seus olhos azuis estão em desacordo com a sua pele morena, e o corte dos seus vestidos parece-me caro demais para as suas posses... Quando lhe aperto a mão, sinto que os seus dedinhos flexíveis têm libra” de aço e há na sua voz não sei que magia que faz pensar, mesmo quando cia fala de coisas indiferentes, que pensa noutras, de amor!
Mas se você gosta de naturalidade, simplicidade, porque não se casa com a Octavia Nair?
— Octavia Nair! só esse nome já é uma complicação e um horror.
— Se o caso é esse crisme-a para Maria!
— Não; a razão é outra.
— Acha-a feia?
— Também não; acho lhe uma alma dura, sem vibração. Um dia que falávamos sobre animais disse-me que não tem paciência para aturar nenhum. Outro dia em que elogiei a” flores do seu jardim respondeu-me que efetivamente tinha ouvido a mamãe dizer que o seu jardineiro atual não era mau!
E ainda outro dia, cm que cheguei com ela à varanda da sua sala, resolvido a fazer-lhe uma declaração de amor, ouvi-lhe esta barbaridade, felizmente antes de eu ter pronunciado um simples monossílabo: “— Se eu fosse Prefeito, mandaria cortar todas as palmeiras desta rua!”.
Engoli em seco, senti não sei que aflição, mas tive ainda coragem para lhe perguntar:
— Por quê?
— Que respondeu ela?
— Que as palmas secas que desabam do alto das árvores danificam os telhados dos prédios, obrigando os proprietários a constantes despesas.
Parece que o pai é dono de meia rua do Paysandu!
Rimo-nos; notei, entretanto, que o riso do meu amigo tinha uma mescla de amargura. Teria ele realmente gostado da Octavia?
— Imaginará você pode encontrar a perfeição na vida? perguntei-lhe depois.
— Eu não quero a perfeição, mas não dispenso certas qualidades morais que dão à mulher da família um atrativo especial, a luz da bondade, que é a que melhor ilumina o interior das casas honestas. A noiva que eu desejo deve amar a natureza e proteger todos os seres fracos e benéficos, quer eles lhe apareçam sob a forma de um animal, quer sob a de uma simples planta.
A noiva que eu desejo deve saber se o seu jardineiro é bom, não por ter ouvido dizer tal à sua mãe, mais por tê-lo observado com os seus próprios olhos... A noiva que eu desejo terá uma alma piedosa e deslumbrada por tudo quanto há de maravilhoso na criação. Uma rapariga que almeja que se abatam árvores em que pipilam ninhos, não foi feita para companheira do meu coração.
A uma mulher elegante que exponha tal barbaridade, apontando para o alto com as seus afusados dedos de coral, prefiro a menina burguesa cuja mão não tema o contato da terra, no interesse de enterrar nela a semente de uma árvore que só muitos anos depois poderá dar sombra e flor.
Porque entre essas duas almas, a altruísta, a meiga, a amante das plantas grandes e pequenas será a que melhor saiba compreender o meu espírito, perdoar as minhas faltas e corrigir os meus defeitos. A natureza e uma mestra sublime e as mulheres que não gostem de ouvir os seus conselhos não aprenderão nunca o verdadeiro caminho da felicidade, nem saberão ensiná-lo aos homens que as rodeiem... A noiva que eu desejo deve ser uma mulher educada, que saiba conversar a meu lado nos salões que frequentarmos, sabendo ao mesmo tempo imprimir a minha vida esse doce tom de poesia intima que só a compreensão da natureza sugere às almas humanas. A noiva que eu desejo, enfim, deve dar a minha existência a graça que dão ás paredes ricas de um castelo ou de uma casa de campo solitária as hastas de uma trepadeira em flor, que marinhando por elas acima se entrelacem pelos duros ferros das varandas e ás duras pedras dos coruchéus, idealizando-as sob uma chuva de pétalas perfumadas.
Tinha-se feito a sombra. Por toda a orla do mar apareciam os pontinhos luminosos da iluminação pública. Caminhámos por algum tempo calados e durante esses minutos de silencio senti que o meu amigo tinha falado com sinceridade — e que tinha razão.
(Particular.)
EDUARDO.
O seu amigo Cesário acaba de me pedir a mão de Cordélia. Solicitei alguns dias para uma resposta definitiva. Sabendo quanto você se interessa pela minha felicidade, rogo-lhe que me diga se posso aceitar a sua proposta. A minha comoção impede-me de escrever mais longa mente.
MARIA.
(Particular)
MINHA QUERIDA MADRINHA.
O meu amigo é um rapaz trabalhador, sério e de família honrada. É tudo quanto sei dele. Ignoro particularidades de gênio. Procurarei informações, que transmitirei pelo telégrafo.
Seu,
EDUARDO.
MINHA QUERIDA AMIGA.
Trouxe do meu jardim uma braçada de rosas, cada qual mais linda, espalhei-as por todas as salas da nossa residência, que está hoje em festa. As violetas, que me ensinou a cultivar, brilham em ramalhetes por cima das nossas mesas e do piano. À hora em que lhe escrevo ouço cantar os pássaros livres, a quem Clarinha fornece todas as manhãs um punhado de alpiste e migalhas de pão, e vejo Cordélia seguir, loira e linda, entre um grupo de pequenos discípulos pela Alameda do Estio em direção à escola do bosque das jabuticabeiras. Hoje é dia de exames para a entrada das férias, e vamos fazer uma distribuição de prêmios! Minha Mãe canta, na sala ao lado, ao mesmo tempo que trabalha. É a primeira vez que a ouço cantar depois que enviuvou! O pomar está lindo; os carreadores ladeados de árvores frutíferas; os cafezais prometedores e os colonos contentes com a ordem e o conforto da fazenda. Gomo se respira bem no meio de tudo isto, minha santa amiga! Lembra-se do pequeno caboclo, neto dos velhos da Tapera? Pois está adiantadíssimo e passa de amanhã em diante a exercer o cargo de adjunto, ensinando leitura e rudimentos de aritmética e escrita. Tudo vai em progresso! Morro ainda por lhe contar outra novidade, mas temendo ser indiscreta deixo-a para quem tenha mais direito de o fazer.
Por tudo que lhe devo, toda a minha ternura!
JOANNA.
P. S. — Diga ao Eduardo que eu gostei muito do conto.
(Telegrama)
Parabéns! Cesário um anjo!
EDUARDO.
QUERIDA FERNANDA.
É está a última carta que neste mês te escreverei do Remanso, de onde parto em breve para comprar no Rio o enxoval da minha Cordélia, que se casará dentro de dois meses com o engenheiro eletricista de quem te falamos várias vezes, Cesário Malheiros, e que me parece digno da felicidade que lhe proporciono concedendo-lhe a mão de minha filha.
Esta ficará morando na Tapera, que batizamos agora com o nome de Ressurreição e que está mais perto de Pedrinhas e da usina do Cesário.
Este rapaz inspira-me confiança e sinto que ele está sinceramente apaixonado pela noiva, que mal disfarça também a sua ternura. Felizmente, Clara e Joaninha são ainda muito crianças e não pensarão tão cedo em deixar-me... Senão, que seria de mim? Entretanto, começa a debandada e não te escondo que mundo de tristezas isso me causa, filha! Enfim, é preciso ser forte, e eis a razão porque ontem cantei, conforme te comunicaram já! Queres saber uma coisa engraçada? Agora ninguém quer acompanhar-me a capital! Cordélia lamenta deixar a sua escola; Clara os seus pássaros, as suas galinhas e marrecos de Pequim, as danças do terreiro e os seus ensaios de música com as crianças da Colônia. Só Joaninha quer ir comigo, manifestando, todavia, pena de deixar o seu pomar, o jardim, as suas plantações de cereais; e todas: a atividade das suas idas e vindas ao cafezal; aos campos de culturas; ao hospital; ao moinho, cada vez mais pitoresco e à colônia. Compara esta carta à primeira que te escrevi e vê de que milagres é capaz o trabalho!
Um grande beijo!
MARIA.
FIM