Fonte: Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos

LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

A Isca, de Júlia Lopes de Almeida

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Obra de Referência

Biblioteca Virtual de Literatura

ÍNDICE

A Isca

O homem que olha para dentro

O Laço Azul

O Dedo do Velho

Fábula Persa

A Isca

I

Dançava-se. Dionísio deu meia volta no salão e foi postar-se atrás de uma morena esguia de olhos verdes, que estava de pé e imóvel, toda dominada por um sentimento forte.

— Por que insiste, perguntou-lhe ele baixinho, rente à nuca.

Ela não respondeu; seguia com um olhar fosforescente o langor de um par amoroso na (moleza de um tango. O braço direito pendia-lhe ao longo do corpo; o outro apoiava-se pelo cotovelo a uma coluna deixando descair sobre o ombro a mão esguia de que pendia uma haste de angélicas que lhe roçavam pela espádua nua.

Dionísio sorveu lentamente o aroma capitoso, olhando para o pescoço roliço da moça e para os seus cabelos pretos, ondulados e lindos.

— Vera, a senhora tem febre. Não é preciso tocar-lhe na pele para a sentir. E eu bem sei porquê. Oh, eu bem sei porquê! ...

Ela teve um estremecimento, mas não se voltou.

Continuou calada, só com um fulgor doente nos olhos rasgados.

— Eles já são noivos... deixe-os amarem-se em paz...

E como Dionísio olhasse então muito de perto para as espáduas nuas de Vera, viu agitar-se-lhe a pele num arrepio.

— Se a sua boca teima em não me responder a uma só das minhas palavras, o seu corpo, mais sincero, manifesta o que lhe está no coração ... Bastou que eu lhe dissesse que o Antonio e a Isabel são noivos, para que a sua carne tremesse toda... A senhora é forte, não se esquece, mesmo nas horas da mais tremenda conflagração sentimental, das suas atitudes... Ha muito tempo que eu a observo, de acolá, em frente. Rodeei-a para adverti-la que não deve abusar das suas forças... Só eu, Vera, no meio de toda esta gente, percebo e sinto a tempestade do seu espirito, porque a amo, e a um ponto tal, que não penso em mais nada e nem em mais ninguém... E todo este clamor, todo o meu desespero nem sequer a fazem voltar os olhos para mim? Ha de chegar o dia em que compreenderá que o Antonio não a mereceria... É um banal, é um ambicioso. A prova, vê? é que tendo-a prestes a cair-lhe nos braços, preferiu a Isabel... a Isabel?

Mesmo em surdina, a voz de Dionísio ao pronunciar o nome detestado tinha uma vibração metálica e escarninha.

— Deixe-os dançar e pensar que são felizes.

Para eles a vida está toda dentro daquele ritmo vagaroso. Viverão sempre assim, para trás e para diante, para diante e para trás, sem voos de imaginação nem poesia... Até aqui o Antonio ainda tinha uma certa expressão interessante, porque era ambicioso. Casando rico tornar-se há um apático. Nunca será um marido digno da agitação dos seus nervos nem do brilho do seu espirito, Vera. Deixe-os dançar sossegados; não procure magnetiza-los com os raios verdes dos seus olhos, e venha tomar uma taça de Champagne. Leva-la-ei depois ao terraço para ver o céu. Não me responde?... Não quer?... Pois ouça-me ainda: ao menos para vingar-se do Antonio, por que não há de fingir que está alegre e que me ama?

A música terminava. Vera voltou-se lèntamenté e contemplou de face o rosto longo e pálido do Dionísio.

— Mas o senhor é casado!

— Que importa? por isso não deixo de ter coração. Acreditará, que pelo simples motivo de um homem não ser livre, esteja impedido de toda a sorte de emoções e que não possa amar uma mulher diferente da sua?

— Poderá amar; mas não deve dizê-lo.

— Há sentimentos mais fortes do que a Morte. Eu não podia tê-lo adivinhado, mas agora que a encontrei, tenho de submeter-me ao destino e arrastá-la comigo.

— Não.

— Sim.

— Nunca.

— Vera!

— Olham para nós. Leve-me a tomar Champagne.

— Enfim ...

— Eu não deveria ir.

— Por que não? Contemplaremos depois as estrelas no terraço.

— Não ...

— Sim. O seu braço treme, a sua mão está gelada, a senhora precisa fugir antes que o Antonio lhe perceba a agitação... Veja-se naquele espelho; nunca a sua formosura teve uma expressão tão singular. A senhora dá-me a impressão de uma ânfora de luar em! que o engaste simétrico de duas esmeraldas criam a ilusão de pupilas humanas.. Não é um vulto de mulher que eu levo pelo braço, é uma escultura de luz, em que as labaredas se consomem sem expansão. Embora a causa da sua tristeza me regozije, acredite que eu tenho pena do seu sofrimento...

— O senhor inventa motivos para fazer frases.

— O seu orgulho não tem força capaz de me iludir. Eu vi o desespero mudo com que olhava ainda há pouco para o Antonio.

— Dê-me Champagne.

— O Antonio, que a cortejou, que se fez amado, que a amou mesmo, talvez, para de repente voltar-se para a outra, só porque a outra é...

— O senhor é perverso, além de imprudente. Se o ouço é porque estou realmente com febre e sem forças. Dê-me Champagne e deixe-me voltar sozinha para o salão...

— Perdoe-me. É o ciúme. Por ciúmes sou até capaz de um crime.

Vera recuou, mal disfarçando um gesto de repulsa e ia fugir para furtar-se ao Dionísio, quando o Antonio e a Isabel apareceram no bufete irradiando felicidade e chispas de joias caras. Impensadamente, só pelo instinto do amor-próprio ofendido, ela voltou-se e, enfiando a mão no braço de Dionísio, deixou-se levar para o terraço...

Como a noite estava áspera, fora não havia ninguém. No céu negro tremeluziam raras e pequeninas estrelas. O vento espalhava no ar o cheiro salgado das ondas e em baixo nas ruas os renques das luzes estendiam na treva fitas ponteadas de prata.

Dionísio vacilou: Assim decotada não seria imprudência afrontar o ar frio da noite?

Mas Vera caminhou para adiante té pousar as mãos no parapeito da balaustrada, e respirou com força, como se quisesse encher com a noite imensa o coração desiludido.

— Se eles não tivessem aparecido no bufete, a senhora ter-me-ia fugido ...

— Sim.

— E não perdoará o meu desabafo?

— Não.

Calaram-se. Na doce penumbra do terraço os olhos de Vera tinham lampejos felinos e indecifráveis. Dionísio continha à força o desejo frenético de a colher nos braços e de lhe esmagar a boca num beijo.

— Escute, Vera. A senhora só encontrará repouso para a sua luta numa luta maior. Um coração como o seu, não foi criado para as apatias mornas de sentimentos satisfeitos. O amor que lhe peço é um novo desafio ao seu destino de mulher. O primeiro passo está dado. Enganando-o a ele, acabará talvez por enganar-se a si própria, e estará nesse engano a sua salvação, e a minha felicidade, talvez ...

Vera começou lentamente a desfolhar as suas angélicas e a morder-lhes as brancas pétalas carnudas. O vento agitava-lhe os cabelos ondulados e finos, espalhando-os pela fronte e pelo rosto.

— Eu não lhe peço o impossível, Vera! Ofereço-lhe apenas uma vingança aparente. O homem, como todo animal, ufana-se das vítimas que faz.

Não consinta que esse se gabe de a ter sacrificado. É um fátuo. E os fátuos são os piores inimigos das mulheres. Para enaltecerem os seus merecimentos, exageram a quantidade das dádivas recebidas e não escolhem os ouvidos a que façam as confidências das suas aventuras, mesmo as mais inocentes... Engane-o agora, Vera, faça-o crer que nunca o amou, e para eterna sepultura do seu segredo ofereço-lhe o meu coração, e o meu silêncio ...

Agitava-se na sombra a alma errante do vento... Toda a cúpula do céu parecia ainda mais alta e engrandecida. Silenciosa, Vera continuava mordendo as pétalas da flor.

— Que faz? perguntou-lhe Dionísio ansioso pela palavra que tardava.

— Enveneno-me...

— Mas se é a vida que lhe ofereço! Se é uma ressurreição! E depois, sabe bem que há venenos que salvam! Deixe-se penetrar por este: e que ele lhe percorra todas as suas veias e bem diluído no seu sangue floresça na mentira que lhe peço... Vê com que esmola me contento? Com a de um engano! Resigno-me a ser um mero instrumento de vingança nas suas mãos caprichosas, nas suas mãos virginais até que há de chegar o dia em que eu lhe possa dizer em1 palavras escaldantes todo o delírio da minha paixão.

— Nunca.

— Tenho a certeza.

— É confiar muito no poder da mentira.

— É.

E Dionísio, transfigurado, agarrou sofregamente a mão de Vera. Ela retirou-lha com rapidez:

— Ainda não chegou a hora. Repare que estamos sós. E sós estaremos toda a vida um em face do outro. O senhor é casado. Eu sou honesta. A nossa comédia seria, além de um crime, uma vergonha. Procure amar a sua esposa. Eu procurarei resignar-me ao meu sofrimento.

— Vera!

— Até aqui falou o senhor; é justo que também eu tivesse alguma cousa para dizer! Tomei a minha deliberação. No dia do casamento do Antonio deixarei a companhia de minha madrasta e irei morar com meus avós, na fazenda do Cedro. O senhor já lá esteve, conhece-lhe o caminho.

Um relâmpago de esperança alargou os olhos de Dionísio.

— Mas não vá lá.

— Poderei, ao menos, escrever-lhe?

— Só se tiver alguma cousa a dizer-me a respeito da Isabel, cuja família o senhor frequenta. Previno-o de que não lisonjeará o meu amor-próprio, se me falar mal dela. Não lhe guardo rancor. Adeus!

— Vê-la hei ainda, antes do casamento do Antonio?

— Talvez. Por acaso.

II

Isabel Maria de Mendonça, filha única do industrial Juvêncio Teles de Mendonça, foi internada aos dez anos num colégio religioso, onde deveria fazer a sua educação. Não era feia, e, como fosse acomodada de inteligência, agradou as mestras e as condiscípulas, tanto mais que nas suas travessuras não havia anormalidades. Nem como bondade, nem como maldade se destacou nunca de ninguém. Os defeitos que lhe notavam as diretoras eram o de ser preguiçosa e amiga do espelho. Com certeza, teria tido em casa o exemplo vivo da mãe a incitar-lhe a todo o momento a vaidade de parecer bem. Isabel mal sabia ler e já citava, como conhecedora perfeita, os nomes dos melhores perfumistas e das costureiras mais elegantes. Mais de uma vez, mesmo, foi surpreendida a aconselhar as pequenas da sua classe, que não deveriam chorar nem rir, para não empanarem o brilho dos olhos nem criarem rugas. Que reparassem como ela sabia, dominar as suas emoções de modo não alterar as linhas do rosto! À menor provocação, porém, a sua sensibilidade de criança a fazia explodir em pranto ou gargalhadas, segundo as circunstâncias. Pouco a pouco as disciplinas colegiais foram modificando nela essas tendências, mas, quando voltava do período das férias, eis que recomeçava a encher os ouvidos das outras com descrições de vestidos/ de joias e de outros acessórios usados por ela e pela mãe no Rio. E, então, toda expressiva e amaneirada, empregava frases, como: «Era um amor de chapéu!» ou: «Uma verdadeira obra prima, aqueles sapatinhos do Dorcet. Ah, eu não me calço em outro sapateiro! »

As colegas olhavam para ela com admiração, imaginando através daquelas palavras ressumantes de elegância e de luxo, maciezas de pelúcias confortáveis e o reluzimento das pratas da sua casa opulenta, de quem já sabiam que o cozinheiro era chim, a criada de quarto francesa e o copeiro espanhol.

Os anos corriam placidamente e com eles Isabel Maria se fez moça, sem que os pais parecessem ter pressa de a trazer para casa. Clara e alourada, ela tinha o corpo arredondado e as carnes rijas. Era o seu desgosto. Preferiria ser magra, ter as pernas muito finas, em que as meias fizessem rugas e as clavículas salientes, desenhando-lhe prateleiras grossas a flor da pele delicada. Chegava mesmo a pensar de si para si, com um suspiro bem do fundo da alma: «Antes ser tísica ...» e refreava apetites, deixando de comer os acepipes mais do seu agrado.

Ao ouvi-la um dia lamentar-se de não ser tal no caniço, disse-lhe o pai

— Não sejas tola. O teu principal defeito não é o de seres gordinha, mas o de teres o queixo um tanto curto e o nariz arrebitado. Do contrário e ainda com mais alguns centímetros de altura, tu poderias servir de modelo para uma estátua. Afaze-te às tuas imperfeições e não lastimes as tuas qualidades. Aprende a ser justa e não tomes vinagre!

Aos dezoito anos Isabel Maria saiu do colégio e teria sido então apresentada à sociedade se não tivesse de envergar o luto pela mãe, morta numa operação de apendicite. O pai carregou então com ela para a Europa, de onde voltou em princípios de 1914, com uma nova empresa industrial e o ânimo remoçado.

Isabel Maria trouxe lindas toilettes e a fama de ser muito rica. Tinha chegado a hora de entrar em cena. Com uma tia, a tia Milú, irmã da mãe e que vivia em sua companhia, começou a comparecer ás festas de maior distinção.

Como tivesse os dentes bonitos, ria muito, já esquecida do preceito que apregoava em criança, de que o riso faz rugas.

Ao redor da sua pessoa principiaram logo a formigar adorações. Oh! todas muito desinteressadas! Entretanto o pai, homem sensato e precavido, advertiu-a de que tivesse cuidado:

— Os pretendentes a dotes gordos surgem de todos os cantos, são os cogumelos da humanidade. Sê prudente e não te deixes cair no anzol sem mais nem menos...

Tia Milú, solteirona, feia mas observadora, divertia-se analisando os apaixonados da sobrinha. Não há nada como ter fortuna. Se ela não fosse pobre teria ficado para tia?

Entretanto, Isabel Maria deliciava-se com o prazer dos seus sucessos. A guerra europeia não a preocupava de modo extraordinário, mas consentiu em ter um afilhado poilu, a quem a tia Milú escrevia longas cartas em seu nome e mandava tijolos de goiabada, maços de cigarros e bilhetes postais com vistas do Brasil.

Foi em uma temporada de verão em Petrópolis que, em uma partida de «tennis», Isabel conheceu o Antonio Seixas, rapaz de uma elegância irrepreensível e de pele tão acetinada, que era um! regalo olhar para ela, como dizia a tia Milú. Notou Isabel com certa estranheza que esse senhor parecia perfeitamente indiferente aos seus encantos, e, um tanto admirada, indagou alguma cousa a seu respeito. Soube então que ele era noivo de uma tal Vera, pianista, filha de um antigo ministro da República.

A tia Milú, que conhecia toda a gente deste mundo e ainda metade da do outro, acudiu pressurosa:

— Sei. Ela é uma menina encantadora e toca Schumann como um anjo. Cultiva também as ciências naturais e dizem que os melhores trabalhos de botânica firmados pelo pai são feitos por ela; verdade seja que se fosse o nome dela que firmasse esses mesmos trabalhos, diriam todos a uma que eles eram obra do pai...

— Ela usa óculos?

— Não.

— Que idade terá?

— Uns vinte e quatro anos ...

— É rica?

— Naturalmente. O Landim já foi duas vezes ministro e rosna-se que se aproveitou dos ensejos para bons negócios. É para o que serve a política.

Nessa mesma noite Isabel encontrou-se com o Antonio num sarau musical em casa da Silveirinha e percebeu que ele a contemplava com certa intenção, muito expressiva. Ao voltar para o seu palacete a tia Milú disse-lhe, ainda no automóvel, ter feito a mesma observação, e acrescentou:

— Talvez você não tivesse reparado que ele pinta os olhos. Pinta, e não é o único. O Torres e o Pedrinho Chaves carregam ainda mais do que ele no traço das pestanas e no aveludado das faces. O «maquillage» não é só atributo das mulheres e dos atores. Desde que começou no Rio a moda americana dos homens rasparem a cara, eles adamaram-se. Podem não ter dinheiro na algibeira, mas têm: perfume no lenço, calçam meias de seda e até comem bombons. No meu tempo estes meninos seriam corridos à vaia... não por mim que, se os não vi chegarem-se à minha pessoa, não foi porque os rechaçasse...

— A senhora querê-los ia com carmim e tudo?

— Depois dos meus trinta anos... antes não. Isabel sorriu; e depois:

— O Antonio é pouco mais alto do que eu.

— É

— Faríamos um bonito par... Mas eu prefiro o André Sales...

— E ele prefere a Vera Landim ...

III

Aproximava-se o Carnaval e já toda a sociedade trepidava no gozo antecipado desses três dias de fascinação. O calor de um verão abafado e lento, excitava a explosão da grande loucura coletiva, fermentada de sensualidade e mantida como o rito de uma religião sem perdões.

Tinha começado o maior movimento do ano. As casas de penhores escancaravam as portas para a passagem de muitos loucos que só nelas encontram o recurso indispensável para o aluguel dos carros, ás ceatas em companhia e as lentejoulas dos vestuários. Os negócios, mesmo os mais urgentes, adiavam as suas conclusões para depois desses três dias de delírio; os ladrões exerciam com redobrada ferocidade as suas artes de escamoteação para, apercebidos de boladas gordas, poderem gozar depois todas as regalias dos festejos sem nenhuma espécie de preocupação; as modistas enchiam-se de trabalho e nas prateleiras dos restaurantes fazia-se todo o lugar possível para as bebidas e os acepipes da ocasião. Em todas as palestras, com ou sem propósito, para o louvar ou maldizer, ou mesmo sem ser para uma nem outra cousa, mas acidentalmente, saltava a palavra — Carnaval — como um ponto de interrupção na vida da cidade, ou talvez como um ponto terminal. Dir-se-ia que depois dele se começaria uma existência nova ...

Acariciado pela frescura de um pijama de seda, Antonio lustrava as unhas, recostado junto à janela de seu quarto, aberta para as doçuras da Serra. Pelas escarpas encrespadas de vegetação, uma luz de ouro filtrada em violetas se esparramava toda luxuriosamente fazendo ressaltar no verde-negro da mata as manchas amarelas dos ipês recentemente florescidos. Mas, ou o Antonio não tinha a alma contemplativa, ou uma preocupação qualquer, mais forte do que todos os deleites espirituais, lhe distraía o pensamento.

A sua fisionomia, apesar da ocupação fútil com que ele se entretinha, deixava perceber que um conflito de ideias lhe agitava o cérebro. Realmente, o Antonio pensava em duas cousas terrivelmente absorventes: o amor e o dinheiro. Criara hábitos de rico. A gente da sua roda tinha os mesmos gostos dispersivos. Ele não compreendia a necessidade de um trabalho assíduo, que só julgava digno dos homens de poucos recursos intelectuais. Esperava fazer uma grande fortuna de chofre, como intermediário de algum negócio fabuloso, de origem americana. Sentia um verdadeiro fanatismo pelos Estados Unidos, que considerava a parte do mundo de onde se ergue o sol. A pesar seu, os dias voavam sem que essa sonhada comissão aparecesse. Pois ele já falava regularmente o inglês! A sua fé, porém, não diminuía, vincando-lhe na alma a certeza instintiva de vir a ser um dia um dos milionários mais considerados ido seu país.

Toda a sua vacuidade estava revestida de um físico que, com um pouquinho mais de harmonia, evocaria a lembrança de um mármore clássico. O esporte náutico tinha-o aprimorado. Uma estadia cara em Petrópolis, onde jogava e perdia com pessoas de posição, convencia-o agora de que ele precisaria casar com uma mulher muito mais rica do que a Vera Landim. O Rio de Janeiro de 1915 impunha-lhe essas deliberações práticas. O tempo era de exigências e ele não (tinha nascido com envergadura de Hércules para poder lutar com o Tempo. Teria de submeter-se às leis que as circunstâncias impunham e esposar mulher rica. A sua pena era não se poder casar também com a Vera...

Mas os seus minguados recursos extinguiam-se. Supunha mesmo que já devia mais do que tinha, e agora, chegado o Carnaval, precisava descer Rio e encher a carteira de notas grandes, para não fazer figura triste diante dos amigos...

Um deles, o Gusmão, entrou-lhe pelo quarto como um vendaval:

— Venho combinar coisas:

— Dize.

— As Pimentas querem organizar um grupo chic para uma passeata de automóvel na segunda-feira, na Avenida — e lembraram-se de ti. A combinação é irmos todos de branco com chapéus vermelhos; mas cousa chic, graciosa, artística; que dizes, hein?

— Digo que não ...

— Oh, bruto!

— Já tenho par...

— Ah! é verdade; e eu que me tinha esquecido, filho! perdoa. A Vera...

— Não. Vera está na fazenda do avô, convalescendo de uma gripe e ainda não tem licença do médico para descer ao Rio ...

— Nesse caso ...

Passou então pela cabeça do Antonio a ideia de que a Isabel Mendonça, que diziam milionária, era íntima das Pimentas. Exatamente nessa noite ele deveria encontrá-la no sarau da Silveirinha, onde com a maior facilidade lhe poderia fazer um bocado de corte disfarçada em pouco caso, o que lhe instigaria o amor-próprio. O amigo, respeitando-lhe o minuto de meditação agitou-se calado pelo quarto e pôs-se depois a remexer nas perfumarias do toucador.

— Tudo Coty, hein?

— Tudo. Olha cá, já estou um pouco arrependido; quero dizer: já estou um pouco tentado. Quem vai, além das Pimentas?

— Ora quem vai! Vão as duas Nunes, as minhas primas Borges, a Isabel Mendonça e as irmãs do André. Um grupo superfino; o suco dos melhores bagos conhecidos... Pois é pena que não vás porque és decorativo, muito decorativo. Quem se lembrou de ti foi a Cotinha Pimenta. Aquela justifica o nome; é mais ardente do que o Rhum. E que bonita se está fazendo, reparaste? Está na idade terrível. Tem quatorze anos e já despede olhares e ditos de uma mulher das mais cultas nas ciências naturais da tentação e do namoro. Sabe aproveitar excelentemente a ocasião; porque hoje são as meninas, a bem dizer adolescentes as que mais atraem os homens. Uns cabelos que esvoaçam em penteados de meninice, umas pernas que ainda mostram sem recato a nodosidade dos joelhos, uns braços que se desarticulam em gestos irrefletidos têm um poder de atração mais irresistível do que todas as melifluidades das mulheres feitas. Acabou-se a ingenuidade, amigo. Já se não desfolham malmequeres como oráculos de amor. A época é positiva, é decisiva. Pois lá vou dar à nossa Pimentinha a triste notícia da tua recusa. Vai chorar.

— Não dês. ..

— Então?

— Está resolvido; vou.

— Ora graças!

— Dize o que terei de pagar e pronto.

— Em todo caso, vê lá. Se tens receio que a tua noiva se aborreça, já não está aqui quem falou.

— Que noiva?

— Ora essa! Pois então não és noivo da Vera Landim?

— Não. Não cheguei a pedi-la em casamento. Foi um simples flirt...

— Pensei que a cousa tivesse sido- mais séria. Tu mesmo davas a entender isso...

— Bem. Chegamos a ser namorados, mas...

O Antonio. interrompeu a frase, muito empenhado em concertar a pelinha das unhas.

— Esqueceste-a...

— E é bem provável que ela já se não lembra de mim.

— Com os diabos! tu parecias muito caído. Eras a sua sombra e eu compreendia-te, porque olha que a Vera é muito interessante e original. Um pouco desdenhosa... Pois tanto melhor. Se não há compromissos, toca a aproveitar!

O Gusmão tirou do bolso uma fita métrica e enlaçou com ela a cabeça do Antonio.

— Deixa-me ver a medida para o teu chapéu. A encomenda deve seguir hoje. Prepara a tua elegância e aparece por lá esta tarde, para a combinação. Dispõe-te a divertir-te e ...

— A gastar dinheiro.

— É a contingência infalível. Mas é semeando dinheiro que se colhem simpatias e admirações! Teremos de pagar por nós e por elas: autos, confettit, bombons, serpentinas e uma ceia já apalavrada no Assírio. Tudo do melhor, tudo chic, tudo arrebatador. E adeus, meu anjo, que ainda vou ao calista.

— Escrita ainda: qual é a figura principal.

— Queres dizer a representativa de chefe da família? É o irmão das Pimentas, o Lózinho, menino muito esperto. Os pais não consentiriam que as filhas fossem sozinhas conosco. E quanto as outras, vão com as Pimentas!

IV

A noite estava ardente. No céu veludoso ziguezagueavam de vez em quando claridades elétricas; mas o povo que enchia as ruas, comprimindo-se numa massa ondulante de tapete vivo, não levantava os olhos para as nuvens, e se o fizesse não veria mais, do que Um dossel multicor de serpentinas cruzadas em todas as direções, ora suspensas das janelas,, ora dos combustores eléctricos, das arvores dos passeios ou dós carros que passavam' lentamente entre o vozear e o bracejar da multidão que empunhava lança-perfumes e delirava de gozo. Num desses carros, no meio de um grupo superior à sua lotação, Isabel e Antonio deixavam-se esmagar um de encontro ao outro. Para rende-la à sua fascinação, ele não necessitava expender o esforço de uma única palavra suplicante ou convincente.

Sentado a seu lado, nas mesmas almofadas, sentindo-lhe todo o calor do corpo e transmitindo-lhe o do seu, dizendo-lhe as cousas mais simples e banais, no tom, o mais envolvente e cálido, bem percebia que nenhuma eloquência poderia ser em tais casos mais decisiva.

Carnaval! Carnaval!

A atmosfera, carregada do cheiro exacerbador do éter, dilatava as narinas e fazia palpitar, com força o seio das mulheres; os olhos fulguravam no prazer estonteante daquele movimento sem interrupção e daquele ambiente agulhado de gritos e de exclamações.

De vez em quando, Isabel levantava-se para arrojar uma serpentina até um outro carro. Para amparada, Antonio levantava-se também, e passava-lhe mesmo, às vezes, a mão pela cintura; outras vezes deixava-se ficar sentado muito cingido' a ela, olhando-lhe de perto para o perfil, do seio, quando no gesto airoso de arremessar as fitas, ela volteava no ar a mão, resolutamente. Baixando os olhos, Isabel notava a intensidade dos do Antonio e então mais se lhe aqueciam as faces já abrasadas.

Carnaval! Carnaval! ...

A onda humana movia-se compacta e ululando, num ôfego rítmico quase doloroso.

De vez em quando, ladeando o carro, eles viam passar os «cordões» das associações populares, empoeirados, amarrotados, luzidios de suor, aos trancos e barrancos, emprestando o ar abafado com a morrinha da carne excitada, de pele escura. Na melopeia das suas vozes sentia-se, menos do que a vibração da alegria, a sombra de um sentimento disciplinado e soturno e nos seus olhos esbugalhados ardia mais

Fé do que júbilo. Dir-se-ia que eles cumpriam antes uma cerimônia de preceito religioso, do que faziam uma passeata de mera galhofa. Quem os visse sem a despreocupação da hora alucinante, suporia que toda aquela gente ia assim cabriolando de estandarte em punho, gestos estudados, ensaiados e impostos por uma ideia preconcebida, cumprir um ato de reverência a algum Deus ou ídolo africano. Ao bum — bum, — burum — bum, da marcha tragicômica, para lhe disfarçar o odor almiscarado, Antonio bisnagava o pescoço de Isabel, gostando de a ver encolher-se toda, pela sensação fria do éter.

As onze horas, para desentorpecerem as pernas contrafeitas nos apertos do auto, lembraram-se todos de organizar uma bicha rabeadora e desataram a correr pela Avenida, uns com as mãos nos ombros dos outros, a cantar: «Mariquinha sai da chuva», e a furar alegremente por entre a turba densa.

Uma das Pimentas, aquela dos olhos lânguidos, queixou-se de que lhe davam beliscões nas coxas; a outra, que alguém a beijara na orelha.

— É preciso não fazer caso e ir andando, aconselhou um dos do grupo; e a bicha seguiu zunindo... Nunca houve no Rio Carnaval tão buliçoso.

A meia-noite entraram no Assírio para a ceia.

Dançava-se. Dois pares do grupo sumiram-se na vertigem dos tangos... A atmosfera estava enevoada de fumo. Antonio sentou-se ao lado de Isabel e tocava de vez em quando com a dela a sua taça de Champagne. Depois ofereceu-lhe um cigarrinho. Ela fez uma careta, mas aceitou. Ele ria-se e ela já o tratava, embaralhadamente, por tu e por você...

Dias depois estavam noivos.

V

O Teles de Mendonça, que fora sempre um homem delicado e circunspecto, começava a parecer suspeito à tia Milú ... Uma vez, encontrando-a no corredor deu-lhe uni puxão tão violento que a fez entornar sobre si um copázio de leite que levava para a sobrinha. Ela não pôde compreender aquele gesto; o próprio cunhado, mal o executou mostrou-se logo confuso metendo-se pela porta do seu quarto a dentro, mais vermelho do que o sol num ocaso de verão. Outra vez, à hora do almoço, ao espetar uma batata frita que lhe fugia do prato, o grande industrial disse uma tal obscenidade que a filha, que o não compreendeu, arregalou os olhos e a tia Milú saltou na cadeira murmurando, apesar da sua subalternidade de parenta pobre e dependente:

— Oh, Mendonça, também você!

Ele disfarçou, engolindo de um trago o seu copo de vinho.

Ao Antonio, quando ele lhe pediu a mão de Isabel, afirmou que não era assim tão rico como se propalava, mas que daria à filha um dote de duzentos contos e uma casa. Antonio esperava mais, mas sorriu. Para consolar-se, lembrou-se de que a Vera não teria nenhum. E isso é que seria realmente muito pouco!

Adivinhando talvez uma névoa de decepção nos olhos do futuro genro, Mendonça prometeu que o faria sócio da sua fábrica, pois que ele andava exatamente pensando em reformar a sua firma comercial. Como compensação não podia haver nada melhor. Além da fortuna, a importância!

Antonio julgou-se um príncipe e atirou-se para uma ourivesaria a comprar a crédito diamantes e pérolas para a noiva. Pagaria depois, com o dinheiro que eia trouxesse, mas teria desde logo o prazer de se mostrar generoso e de a ver lisonjeada...

Nas vésperas do casamento, Isabel e tia Milú bordavam na saleta os últimos preparos do enxoval quando Mendonça entrou da rua com ar de novidade; tudo nele resplandecia: os olhos, a, pele, o peito da camisa, a calva, o anel, os dentes, que os tinha brancos e rijos, e até o castão de ouro da bengala, que ele conservava entre as mãos trêfegas. A tia Milú, já tinha notado em silêncio que as mãos do cunhado pareciam cada vez mais buliçosas!

— Oh, Milú, manda hoje abrir Champanhe. Estou muito contente. Alijei uma grande responsabilidade de cima dos ombros. Chegou a minha hora de liberdade!

— Que houve?

— Houve que dei sociedade na minha fabrica ao cavalheiro Benetti, que assume desde já a direção do estabelecimento, com plenos poderes para pôr e dispor de tudo como melhor lhe parecer. Eu estava farto, positivamente farto. Já não podia aturar operários, que julgam agora ter o rei na barriga e falam; grosso e ameaçam os patrões a todo o instante de paredes, de mortes, do diabo! É justo que eu agora descanse. Já trabalhei demais. O Benetti é homem de pulso, veio-me recomendado de S. Paulo. O Dionísio conhece-o de perto e elogiou-o. Na verdade ele é um homem agradável, até fidalgo. Dava-se com o rei. Hei de trazê-lo, mais a senhora, a jantar conosco. Vocês verão...

Isabel levantou-se, pálida como a morte. Desde as primeiras palavras do pai que ela lhe recebia a enxurrada com; os lábios a tremerem de raiva e os olhos cheios de espanto. Tia Milú tinha deixado rolar das mãos frouxas a costura para o chão.

— Mas, meu pai, o senhor prometeu esse lugar de sócio ao Antonio!

Mendonça rebentou numa gargalhada ruidosa.

— Ora, o Antonio! Só se quisesse ver a fábrica ir por agua abaixo.

— Não quero saber. O senhor prometeu, há de cumprir a promessa.

Mendonça media a filha de alto a baixo com um olhar de ironia perversa e depois, levantando os ombros e com um sorrizinho fino e muito especial, respondeu:

— Ao Antonio bastarão por enquanto os duzentos contos do dote e a casa da rua Marquês de Abrantes, onde vocês vão morar. Olha, ainda lhes dou o piano. Já mão é mau. As insaciedades dão sempre mau resultado. E é ficar muito contentinho e calar o bico, tanto mais que o negócio agora está feito e é irremediável. As escrituras estão lavradas e o meu sócio é já tão dono daquilo quanto eu. A senhora há de te dar um bonito presente de núpcias, que ela é a distinção em pessoa. Na Itália só frequentava a alta sociedade ...

— É inacreditável! Que há de dizer o Antonio?

— Se eu vou me incomodar muito com isso!

— Mas por força que se há de incomodar, a não querer passar por um! homem sem palavra!

— Que é lá isso, amorzinho? Olha que se grimpas muito nem os duzentos contos eu dou, ouviste? Nem cem! O dinheiro é meu. Fui eu quem o ganhou, posso dispor dele como entender.

Diante destes argumentos, Isabel calou-se, vacilou ainda, depois saiu batendo com a porta.

— Está bonita. Ora já viu você, Milú, como a sua sobrinha gosta de dinheiro? Como se fosse ela que o tivesse juntado. Tem graça...

Milú sentia tremores de frio na alma. O cunhado continuou, mudando de tom:

— Pois está dito; manda fazer hoje mais um doce: e Champagne. O de ontem era falsificado.

O de ontem? Mas nós ontem não tomamos Champanhe.

— Como não? Querem ver que foi em casa da Benetti?...

— Deveria ter sido...

— Que mulher, Milú, que mulher! É linda como um anjo, canta como um canário e tem uns braços tão brancos, tão torneados, que eu não resisti e ferrei-lhe uma dentada.

— Oh! Mendonça!

— Uma dentadinha amorosa, suave, que não fez sinal...

— Virgem Maria! Realmente, você não parece mesmo homem. Tenha ao menos respeito pela gente...

— Ora, ora! Tomara você que eu lhe fizesse mesmo...

— Mendonça!

Ele riu-se e saiu da sala cantarolando.

Tia Milú ficou pensativa. Havia muito que ela andava cismada com os modos do cunhado, que, ora a tratava com delicadeza, ora com modo desabrido ou licencioso. Que queria dizer tudo aquilo? Ele deixara de ser o homem correto e bem-comportado que fora sempre, para passar os dias e as noites fora de casa. Ela disfarçava aquelas ausências explicando à Isabel que elas eram impostas ela necessidade dos negócios; mas no íntimo pensava que o Mendonça depois de velho começava a aspirar as asneiras que em moço não praticara...

VI

A Vera Landim

Julho, 1916.

É a primeira carta que lhe escrevo e será curta. Ela representa mais a execução de uma ordem sua do que mesmo o desejo de expansão da minha saudade. Esta é tão grande que não caberia numa palavra escrita. Para a expressão do meu amor, — só o beijo!

Agora o resto: o Antonio e a Isabel, voltando da sua viagem de núpcias à Argentina, onde estiveram três meses, passaram pelo dissabor de conduzir o pai Mendonça ao Hospício dos Loucos, onde ele ficou em tratamento. E ainda o pior não é isso. O pior é que o velho esbanjou a fortuna e está completamente arruinado. O que lhe vale é que a sua loucura é alegre. Vive na ilusão de que é milionário, formoso e que as mulheres o adoram. Se a mim tal infortúnio originasse a ventura de me supor amado, não por todas as mulheres, mas só por uma e única mulher, acredite, Vera, que eu desejaria ficar doido também.

Seu escravo,

Dionísio.

A Vera Landim.

Fazenda do Cedro.

Julho, 1915.

Foi mau escrever-lhe a primeira carta, porque fiquei logo ansioso por lhe escrever a segunda. Terei resposta? Não terei resposta? Seja como for, ao menos em quanto ler o que lhe escrevo pensará em mim. Oh, se por inspiração da Serra clemente me permitisse uma curta visita ao Cedro, que esmola faria à minha alma!

Dionísio.

A Vera Landim.

Agosto, 1916.

Os dias sucedem-se aos dias sem que eu receba ao menos uma palavra sua. Compreendo. Não quer que lhe fale do meu amor. Mas, se só ele, existe no mundo, de que lhe hei de falar então?

Dionísio.

A Dionísio.

Fazenda do Cedro, Agosto, 1916.

Fale-me de sua mulher

Vera.

A Vera Landim.

Agosto, 1916.

Nunca supus que a sua crueldade chegasse a um tal requinte. Manda-me que eu fale de minha mulher, para obrigar-me a pensar nela ou para repetir-lhe muitas vezes que sou casado? Seja pelo que for, obedecer-lhe hei, visto que o seu leit motifi, nesta sinfonia em que há dez meses me embala, é sempre — ela.

Não exija que lhe relate o prologo do nosso romance. Fomos noivos como os outros e depois de vários capítulos de banalidade conjugal, descobri que minha mulher se dava ao vício da morfina, que a está matando... O segredo é bárbaro; aqui o deposito nas suas lindas mãos. Ela agora começa a odiar-me. Tenho-lhe surpreendido gestos terríveis. Ninguém suspeita lá fora do que se passa em baixo das nossas telhas, — a não ser o médico, e a esse impus absoluto silêncio. De si nada quero exigir, Vera, e lamento enviar-lhe em vez de uma braçada de rosas este punhado de urtigas...

Dionísio.

VII

Tia Milú descia a pé a praia de Botafogo, quando um seu parente, o Coronel Abrunhedo, a fez parar.

— Cheguei ontem do Sil e fiquei pasmo quando te disseram em casa que o Mendonça...

— Morreu há um mês. Faz hoje exatamente um mês. Coitado. Ainda me parece mentira ...

— No hospício?

— Sim, de repente. Estava a tomar leite quando caiu para o lado, sem um ai...

— Deixou testamento?

— Nada. Não deixou nada. O tal Benetti teve a habilidade de fazer passar tudo para o seu bolso. Um, grande escamoteador, o tal Cavaliére!

— Nesse caso, você ...

— Estou viva. Já não é pouco.

— Mora com eles?

— Não... E até, a propósito, se você souber de alguém que precise, de uma governanta...

— Que?!

— Sempre tive mais jeito para governar do que para ser governada... Entretenho-me também nas horas vagas, que são todas, a fabricar sapatinhos de lã para recém-nascidos. Nunca me interessei tão vivamente como agora pelo aumento da população do Brasil. O tricot é uma especialidade muito adequada aos ardores da nossa terra, e agora em moda nas pessoas da minha idade e condição... E adeusinho, que vou consolar a pobre Isabel. Ela está sentida. Afinal ele sempre era seu Pai...

— Era. Era, sem dúvida nenhuma. A mãe foi séria. Nem naquele tempo havia nesse sentido as perplexidades de hoje.

— Ora, deixe-se de histórias, a carne foi sempre fraca.

— Mas o espirito era mais forte, sabia resistir e não tinha medo da pobreza. Ora, quer você saber? Ainda ontem se deu um caso curioso com meu filho. Ele estava à porta do salão de um baile, quando viu um rapaz abrir uma carteirinha e pôr- se a consultar uma lista de nomes de moças, seguidas dos respectivos dotes. Como visse que uma das cifras estava errada, meu filho, explicou, muito prestativo: — olhe que o dote desta menina é maior do que o senhor pensa...

— Como sabe? — perguntou-lhe o outro.

— Porque ela é minha irmã!

— Que horror!

— Pois é assim. E agora, até quando quiser...

Separaram-se. Milú sentia-se desconsiderada e- arrependida. O seu luto, feito com tecidos baratos e cosido pelas suas próprias mãos, dava-lhe a impressão de atestar aos olhos de todo o inundo a. sua decadência. Do que se arrependia era de ter passado a maior parte da sua vida no período da grande energia, como parasita de uma casa rica, a gastar a sua atividade em vigilâncias que não lhe tinham deixado nenhuma compensação pessoal...

Quando entrou no jardim dos sobrinhos, saía: o Antonio com ar agastado. Ela ainda lhe estendeu a mão, esboçando um sorriso; ele mal lhe retribuiu, o cumprimento.

«Está regulando», pensou tia Milú, que embarafustou pelo vestíbulo a dentro, morta por um, pouco de refrigério e de consolação. Mas Isabel, Isa, como o marido a chamava, também não estava de bom humor. Pálida, com os olhos húmidos, ela agitava-se numa sala do interior, onde o Antonio, que não lia, não escrevia, nem tinha negócios, instalara uma secretária de luxo, confortável e grande...

De uma das gavetas abertas desse móvel, transbordavam papéis. Eram contas. Os olhinhos perspicazes da tia Milú perceberam a coisa à distância, mas a sua boca prudente, não disse uma só palavra. Foi Isa quem rompeu:

— Que manhã, que manhã infernal! Também; a senhora poderia ter aconselhado meu pai a fazer seguro de vida em meu favor. Esse dinheiro ao menos, não poderia ter sido devorado pela peste do italiano e da mulher...

— Eu?!

— Pois então? Não vivia a seu lado, como, irmã, não tinha influência sobre o seu espirito?! Não tinha pratica da vida, idade para meditar sobre esses assuntos?

— Oh, filha, pois eu lá podia imaginar...

— Pois devia, devia e devia! Afinal, o seu papel era o de zelar por mim, como se fosse minha mãe. Para isso morava conosco.

— Do que bem me arrependo.

— Parece-me que não lhe faltou nada.

— Mas falta agora.

— Damos-lhe o que podemos. Se não mora cá em casa é porque não temos quarto disponível.

Quartos não faltavam, mas a tia Milú respondeu sem acrimónia:

— Bem sei, filha, bem sei.

Isabel sentiu-se arrependida e calou-se por momentos, remexendo com os dedos, nervosamente, as contas do marido.

— Podem pensar de mim o que quiserem; mas não é justo que se queixem de seu pai. Afinal, vocês não ficaram pobres. Duzentos contos e um palacete que vale quase o dobro, já não é mau de todo! Eu sempre tive veneração pela memória de meus pais, que não me deixaram nem um vintém.

— Mas seus pais não eram milionários, como o meu!

— O seu coração mudou com o -casamento, Isabel. Você antes nunca pensou em dinheiro nem pareceu injusta. Com a fortuna que têm nem o Antonio precisará trabalhar para se manterem. Inda as- sim é provável que ele o faça, porque é moço, tem saúde, boas relações, e não lhe será difícil conseguir um bom lugar em qualquer companhia ou ministério.

— A nossa fortuna! Como a senhora enche a boca com a nossa fortuna! Julgará a tia Milú que os duzentos contos possam permanecer intactos toda a vida dentro de um cofre, como um Santo Antoninho num oratório, e só pelo seu prestigio nós possamos gozar cá fora à grande? Mas que ideia faz a senhora então do dinheiro? Só em Buenos Aires, quanto se gastou? Meu pai tinha-nos dado a entender que correriam por sua conta todas as nossas despesas de viagem, e o Antonio, fiado nessa promessa, não olhou a economias, está claro, nem isso lhe ficaria bem.

Na Argentina há muito luxo e nós como brasileiros não poderíamos fazer figura triste. Além disso, tivemos de passar uma semana numa estação balnear, onde se jogava... Convidados para o Cassino, o Antonio não se devia recusar a jogar. Diriam logo que el macaquito tinha medo de perder... como afinal perdeu. Mas perdeu como poderia ter ganho: com a cara alegre.

— Sim, ainda pensava correr tudo por conta do sogro...

— Depois, as contas! Veja. Só o meu colar de pérolas custou dez contos; os brincos, quatro; as pulseiras, três; os anéis, cinco ...

— Mas tudo isso ele te deu em solteiro, e supusemos que fossem prendas compradas com o seu dinheiro ...

Isa não atendeu ao reparo e continuou aflitamente a mencionar despesas:

— Antonio tinha algumas dívidas de rapaz. Todo o rapaz tem dívidas; além disso fez um enxoval digno de quem ia ser genro e sócio do grande industrial Teles de Mendonça, a maior blague da sua vida, como ele diz, e com razão! O nosso automóvel, só o nosso automóvel, sabe quanto nos custou? Vinte contos. E agora o resto, não se conta? Criadagem, alimentação, divertimentos, tudo, tudo?! Ah, o senhor meu pai foi bem culpado. Pobre do Antonio...

— Ainda você o lamenta...

— Não há talvez razão para isso?!

— Pois se ele não trouxe senão dívidas!

Isa caiu em si e explicou:

Ele tinha um grande negócio em vista, aí com uns americanos que ficaram de lhe entregar uma gorda bolada na véspera do nosso casamento...

— E não entregaram. Os americanos são terríveis, menina; eles recebem, não dão. Cuidado com eles...

— A senhora está com ares de quem não acredita!

— Eu?!

Realmente, a tia Milú não acreditava na história dos americanos e percebia que a sobrinha estava a repetir-lhe, a leia, o que ouvira do marido poucos minutos antes. Era evidente que ela tinha chorado, talvez na defesa do próprio pai, a quem agora acusava, para atenuar ao olhar alheio qualquer provável censura ao seu querido Antonio...

Isa tinha agora os olhos secos, as narinas dilatadas e andava pela sala como à procura de qualquer coisa; depois amarfanhou os papéis que estavam em cima da secretária e atirou-os para dentro da gaveta, que fechou com ímpeto. No arremesso, uma das contas voou até aos pés da tia Milú, que a ergueu do chão e entregou à sobrinha, mas não tão depressa que não tivesse lido:

« Uma pérola para gravata, RS. 4:000$000».

Isa é que não leu, tomou a abrir a gaveta, tornou a fechá-la, e sentou-se em face da tia, olhando-lhe fixamente para o rosto.

— E o amor? perguntou então Milú, com tão encoberta ironia, que a outra não compreendeu.

— Ele ama-me muito.

— Pois isso é tudo. Quando há amor, que importa o resto?

— Quem ama não come?

— Apenas para sustentar-se, se não tem para mais, e com isso se deve sentir satisfeito. Que melhor dote para um homem que ama, que possuir a escolhida do seu coração e vê-la assim tão perfeita, tão boazinha como tu és? O Antonio não se casou com o teu dinheiro; casou-se contigo, e deve considerar-se o homem mais feliz do mundo, porque tu és uma mulher encantadora. Deves dizer-lhe isto mesmo, quando ele se desesperar.

Um quase imperceptível movimento dos lábios de Isabel fez compreender à tia que esse conselho já fora posto em pratica sem resultado animador...

— O Antônio é bom demais. Ele não pôde ver um amigo aflito que não lhe empreste logo tudo quanto tem no bolso. Devem-lhe uma fortuna...

Tia Milú teve piedade da sobrinha, mas murmurou ainda:

— E não lhe pagarão. Mas não te atormentes! filha, que vocês ainda têm um grande recurso para se equilibrarem na vida até teu marido ter colocação condigna: esta casa. Aluguem isto, e vão morar noutra mais pequena.

— Que ideia! Isso seria a desmoralização, seria a vergonha ... Não há maior humilhação para um homem do que uma demonstração pública de penúria. Nunca!

Tia Milú, que conhecia perfeitamente o coração da sua Isa, pensou ainda consigo:

Bravo. Ela já tinha aventado a minha ideia e está a repetir-me agora palavras do marido....

Talvez a tia tivesse razão, mas também talvez não tivesse. Se o instinto acerta muitas vezes, também em outras tem as suas desorientações.

O caso é que nessa mesma tarde, quando Antonio voltou para o jantar e a mulher, que lhe contava tudo, lhe repetiu os conselhos da Milú, ele desesperou-se. Não queria na sua vida intervenção de idiotas. O melhor seria afastar essa solteirona para longe. Que fosse amolar o Papa!

Isabel calou-se, ressentida.

VIII

A Vera Landim.

Janeiro, 1917.

O seu silêncio não me desnorteia, esmaga-me. Ele me faria amaldiçoá-la ou esquecê-la, se através da distância e da aparente indiferença, eu não sentisse o seu pensamento voltar-se para mim. Por que não há de ter a coragem de dizer a palavra que lhe arde no coração, como uma brasa viva num turíbulo? Começo a ter medo de mim. A obsessão do seu amor faz-me desprezar tudo mais e chegar a um grau tamanho de incompreensão, que às vezes mesmo não sei se a adoro ou se a detesto. Os seus olhos verdes erram pela minha memória como dois vagalumes pela escuridão. Só os vejo a eles, tudo o mais desaparece na sombra. Se, para acordar-me da minha abstração torturante, alguém me chama com um grito à realidade, todo eu estremeço, como quem acorda de um sonho, e já tem pressa de voltar a dormir...  Até onde me levará a sua imagem? Não

poder eu adivinhar! Responda-me ao menos, Vera, a isto, isto simplesmente: qual o seu fito?

Dionísio.

Vera a Dionísio.

Fazenda do Cedro, Janeiro.

Fazer-me esquecida.

Vera.

A Vera Landim.

Fevereiro, 1917.

A senhora não tem coragem de escrever cartas, porque tem medo de trair-se. No seu silêncio não há vácuo, há uma multidão de cousas abafadas, sufocadas, enterradas, cuja palpitação eu sinto de longe. A sua vaidade de mulher não consentiria que p vento do esquecimento varresse as cinzas desta fogueira em que todo me consumo, e que é a maior que tem alumiado um coração de homem na Terra. Deus, e os deuses, querem ser adorados. A trama da existência de que é feita senão de amor? Fingir-se insensível, quando não seja para atear ainda mais labaredas de uma paixão como a minha, é dar ao maior esplendor da natureza uma expressão de fantasma.

Para fantasmas, basta o que cada um de nós carrega consigo. A senhora tem um, eu tenho outro. Qual será mais pesado? Ambos podem ter o mesmo nome: Desilusão. Mas contra o seu, pode ser aplicada uma arma forte e decepadora, que é o desprezo; e contra o meu? só a Piedade... Esta noite senti os seus dedos frios, tateando o meu pescoço. Pensava ela talvez em estrangular-me... Vendo-me acordar, disfarçou, sorriu, e depois desatou em pranto.

É bom parar aqui.

Dionísio.

IX

A pobre solteirona vivia como uma mosca numa teia, sem saber para que lado mover-se, para não cair de todo nas garras da miséria... Mesmo assim, ainda era ela quem levava de longe em longe umas pobres florinhas ao túmulo do cunhado, por um pouco de gratidão, que só agora, que conhecia melhor o mundo, ainda julgava dever-lhe. No fundo da sua consciência havia a convicção de que o que ele lhe dera não fora verdadeiramente dado, mas trocado, o que é diferente. Ele pagara-lhe a utilidade moral, com bom passadio e vestidos bonitos. Nem todos fazem assim. Há muitos que só dão restos, cousas usadas, em compensação de serviços idênticos: consideração, respeitabilidade, comodidade, economia, vigilâncias de mãe, noites mal dormidas, tudo o mais... A lição vinha-lhe quando já a não podia aproveitar. Agora para que lhe serviriam os dez dedos, que nem valsas para os outros dançarem sabiam tocar? Para a afastarem de casa, sem rancor, tanto perceberam a injustiça da situação, os sobrinhos alegaram não ter compartimento para ela na sua nova residência e ofereceram-lhe em compensação uma mesada, que mal lhe chegava para pagar a sua pensãozinha modesta. Mas se tinha sido confiante e ingênua na mocidade, a tia Milú começava a sentir na adversidade todo o travor da vida.

O Antônio despenhava-se. O Abrunhedo afirmara-lhe que ele jogava como um louco. Assim, o pouco que deles recebia acabar-se-ia em: breve tempo. O que lhe restava agora era com urgência procurar uma colocação. Qual? Que poderia ela fazer? Que saberia executar? O terror da responsabilidade arrefecia-a até aos ossos. Que vergonha, se a repreendessem ou se se rissem dela... Que vergonha, se a demitissem de qualquer emprego por não saber exercê-lo ...

Contudo, todas as manhãs lia com avidez os anúncios dos jornais, à procura de uma escravidão que a. tornasse independente ...; Um dia comunicou as suas intenções a Isabel, com a esperança de que a sobrinha protestasse contra as suas ideias, assegurando-lhe a continuação da mesada e auxílio futuro. Mas não; Isa lembrou até que o melhor para ela seria ir ser enfermeira. E acrescentou:

— Olhe, tia Milú, a mulher do Dionísio está doente. Seria uma boa casa... Hei de lhes falar nisso.

Tia Milú sorriu, agradecida, e limpou desesperadamente os vidros da luneta, que se lhe embaciavam.

E por que se embaciariam tanto, os vidros da luneta da tia Milú?

X

— Vai ser chic. Eu já assinei para a temporada francesa. O repertório deste ano é delicioso e o Brulé veste-se como um príncipe. É de apaixonar. Compreendo o desespero da Ester, que chegou a fazer-lhe uma declaração, tal qual como a mulher do Saraiva ao zarzuelista mexicano da Íris. A este até presenteou com uma pulseira de esmeraldas e brilhantes.

— E uma carteira com monograma. Pois para mim, artistas só os franceses. Como finura então são inigualáveis. É uma verdadeira escola de elegância.

— Para isso, minha amiga, nós não precisamos de figurinos.

— Está claro que não. A Rejane propalou que nunca viu em sua vida senhoras tão chics como as que iam aqui assistir às suas récitas. E nisso não mentiu.

— Não.

— Não!

— Em noites de primeira, o nosso teatro é uma maravilha. Eu sempre digo: — que me falte tudo, menos o automóvel e a assinatura para as temporadas do francês e do lírico. Mesmo que não fosse pelos atores, só para ver a sala, não se devia perder o espetáculo. Meu marido, que tem viajado muito, diz que em parte nenhuma há tantas joias lindas como aqui.

— Nem na Argentina?

— Nem em Paris.

— Nem em Londres!

— Eu adoro as safiras ...

— Não há como as pérolas ...

— Pois eu dou sempre preferência aos brilhantes ...

— O elenco do lírico é estupendo. Nem nós toleraríamos banalidades. Já gozamos a fama de ser a plateia mais exigente da América, em questão de música. A primeira vez que os cantores entram em cena aqui, tremem de medo.

— Alguns mesmo parecem conservar esse pavor até à última vez.

— Já tenho assinatura.

— Eu também. E você Isabel?

Não, Isabel ainda não tinha.

— Oh!

— Que horror!

Ao espanto das outras, ela explicou que já pedira isso ao Antonio. Tinha hesitado por causa do luto. Mas o marido ardia no desejo de ouvir boas óperas e bom dramático. Nem ele nem ela toleravam o nacional.

— Certamente. Nem nenhuma de nós.

— Quantos vestidos, hein?

— Eu seis.

— Eu, sete.

— Eu, dez. E você, quantos mandará fazer, Isabel?

— Ainda não pensei nisso ...

— Mas é preciso pensar. Olhe, a Mme. Lucienne dos «Extrangeiros», trouxe cousas lindíssimas de Paris. Só a Ritinha lhe ficou com onze vestidos. Dizem que o marido não paga as contas e talvez por isso ela abuse; apesar de que as francesas não fiam ...

— De mais a mais, Isabel, você precisa aproveitar enquanto não vem algum bebê!

— Parece-me que não hei de ter filhos. Já estou casada há quase dois anos...

— Isso não quer dizer nada; mas um filho sempre atrapalha. É melhor esperar para o verão... Eu sempre tive os meus no verão.

Antônio surpreendeu a mulher e as amigas, assim palestrando num recanto do salão, onde uma luz coada por um abajour cor de ouro, punha um círculo loiro sobre a maciez dos estofos e dos tapetes claros. O dia estava chuvoso e levemente frio. Tinham corrido as largas cortinas de seda sobre as janelas fechadas. Na extremidade do aposento em um vão da bow-window a luz de uma outra lâmpada varava o cristal leitoso de um vaso Gallet entre galharias rendilhadas de avença fina. Em cima do piano um ramo de cravos vermelhos de haste longa abria-se como um leque, cujas varetas fossem encimadas por uma grossa gota de sangue. Sangue pisado; sangue de sofrimento.

Como os antigos escravos, ele disse da porta:

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! E entrou depois a beijar a mão das senhoras.

— Sim! concordava com todas: assinaria para o lírico e para a temporada francesa. Já tinha mesmo incumbido disso um amigo. E, SS. Exs.? Via -o piano fechado! Então a grande pianista Octavia Rentz nem ao menos descalçara as luvas?

Octavia sorriu e respondeu, com intenção, a meia voz:

— Chamar-me grande pianista quem ainda deve ter no ouvido a execução da Vera Landim?... Essa sim, mereceria esse título... Ele fingiu não perceber a malicia, mas a evocação fez-lhe mal. Supunha bem morta no seu passado essa mulher, e eis que ao ouvir-lhe o nome ela surgia de repente diante de si, em um nimbo de saudade... Isabel deu-lhe chá, que estes dias de humidade lhe faziam mal aos nervos!

Octavia, que observava, perguntou-lhe depois de algum tempo:

— Sempre quer que eu toque?

— Quero. E foi abrir o piano.

—« Ao Luar » ...

Fora também ao luar que num jardim rescendente de murtas e de tuberosas, ele dissera pela primeira vez a Vera que a amava. Dos seus olhos verdes semicerrados, irradiava uma luz de um magnetismo mais poderoso que o da lua. As angélicas fremiam no seu perfume de virgens cálidas e toda a natureza parecia ansiar com ele pela resposta suplicada, quando as suas mãos nervosas se uniram numa cadeia tão viva e entrelaçada, que nem a própria Morte deveria ter força para a quebrar algum dia ... Ao luar ... a sua pele morena tinha um tom místico de magnólia ao desabrochar, e nos fios negros dos seus cabelos erravam reflexos azuis, movediços com asas de pequeninos colibris. Não, era só a memória do coração que despertava nele; era também a de certas sensações físicas, como a dos seus dedos, que parecia conservarem ainda a impressão das mãos dela, macias, tremulas e frias; e a dos ouvidos, em que a sua voz ficara guardada para sempre. Ao luar, que noite aquela! E para traí-la, que bastou? Uma curta ausência numa granja... uma estação em Petrópolis, um dia de Carnaval e a fascinação do dinheiro, que se pulveriza e desaparece...

A onda de luz azul transbordava das amplas harmonias da sonata, num desdobramento de constelações e de poesia, em cujo fundo transparecia, latejante e interrogativa, a dolorida alma humana.

Subitamente, Octavia interrompeu a música e levantou-se. Antonio arrancou um dos cravos do ramo sobre o piano e ofereceu-lhe sem uma única palavra. Ela contemplou-o por um momento em silencio, percebeu-lhe a sinceridade da emoção e julgou divisar nas suas pupilas enevoadas o vulto de Vera, que fugia ...

Precipitaram-se os adeuses.

— Meu Deus, conto é tarde! a gente aqui, sente-se tão bem que se esquece das horas. E os maridinhos já em casa a esperar...

— E o meu aborrece-se quando não me encontra ao chegar...

— Vá ver-me ás primeiras e ás quartas terças-feiras de cada mês.

— E eu ás segundas.

— E eu aos sábados; os primeiros e os terceiros ... Mais apertos de mão, mais beijinhos, mais uma informação à última hora, de como se desfia a seda para efeitos de certas almofadas, e mais isto, e mais aquilo, até que o ultimo automóvel se afasta de ao pé do portão.

Ao ficarem sós, Antonio puxou docemente a mulher para si e deu-lhe um beijo:

— Vou pedir-te um sacrifício, um pequenino sacrifício, meu bem.

— Que é?

— É isto. Olha: eu contava que um rapaz, que me deve aí uns dez contos, me pagasse ao menos metade da sua dívida, o que já me auxiliaria para as nossas assinaturas no Municipal; mas ele procurou-me hoje para me dizer que isso lhe é absolutamente impossível. Teve contratempos, cousas imprevistas. Foi o diabo!...

Isabel fixava no marido um olhar meio espantado, meio interrogativo.

— O esquisito é que a todos os outros que me devem, acontecem casos extraordinários. Ninguém pode pagar; de modo que, a não ser que o Vaso, o ministro que há dias te foi apresentado pela Silveirinha, me queira dar um dos lugares que ele criou agora, nós não poderemos ter nem assinaturas, nem cousa nenhuma ...

Isabel empalideceu.

— O Dionísio pediu-me para entrar com ele numa grande negociata com uma empresa americana. Aceitei. Estamos só a espera de umas instruções de Nova York. Entretanto, não seria mau que eu fosse ocupai o tal lugar no ministério ...Convém-me mesmo estar do lado de dentro, o que me facilitará depois qualquer manobra. Isto são minúcias que não vêm ao caso: o principal agora é conseguir que o Vasco me dê o lugar, e para isso preciso de ti.

— De mim?!

— Pois então? Que melhor advogado poderei ter do que a minha mulherzinha?

Os olhos de Isabel alargaram-se.

— Eu nem sei como se fala a esses senhores ...

— Ainda outro dia conversaste com ele.

— Bem; isso foi diferente. Em casa de uma amiga, como se conversa com qualquer outro homem ...

— Pois é sempre a mesma cousa! ...

— Numa Secretaria?!

— Pois então? O que é preciso é não perder tempo. Irás amanhã.

Foi também o Dionísio quem me lembrou este lugar. Serve enquanto espero. Ainda havemos de ser riquíssimos, minha Isa! E então não teremos assinatura de duas simples poltronas, mas de uma frisa, em que a tua beleza resplandecerá. Sabes que tenho amigos. O próprio Dr. Jordão, o marido da Silveirinha, poderia falar a meu respeito ao Vasco; mas o pedido de uma senhora, e uma senhora como tu, tem sempre muito maior prestígio. É preciso, por isso que lhe fales. E agora vamos ao nosso jantarzinho, e depois, toca para um cinema!

XI

O drama, ressumante de sedução, escorria luxúria em ambientes de luxo.

Margaret Snow tinha nele maleabilidades de corpo e de sentimento ultramodernos e apresentava vestuários de fazerem inveja ao coração das mulheres. Havia de tudo na peça: beijos esmagados, traições, sorrisos, cenas de guerra e cenas do Far West, impetuosas e brutais. No fim, o vício era castigado, repentinamente, só para a aparência de um desfecho; mas o que impressionava, o que sugeria, tivera exposição detalhada e atraente.

Isabel começava a cansar-se dos automóveis que fogem e se perseguem, das galopadas por montes e vales e das tavernas, onde mulheres devassas fumam, jogam, bebem e dançam, cercadas de bêbedos e de punhais.

Mais abstrata que de costume, ela pouca atenção prestou ás primeiras cenas da fita catapultuosa, até que o seu interesse se sentiu despertado por certas peculiaridades em que a sua boa vontade julgou sentir afinidades com o seu caso.

Como tinha decorrido doce e plácida a sua vida de burguesa, em comparação das vidas bruscas e febricitantes dessas protagonistas de relâmpago! Chegava a ter pena, e a tirar disfarçadamente o seu lencinho da bolsa para secar os olhos inundados; bem sabia que tudo era mentira, tudo era especulação. Armadilhas para o dinheiro e nada mais, como o pai costumava dizer antigamente, quando a via enternecer-se nos espetáculos sentimentais.

Pobre papai, também no fim, apesar de toda a sua experiência, fora vítima de uma dessas emboscadas em que os beijos custam fios de pérolas e as palavras de amor são pagas com diamantes ... Chegada a hora de querer gozar umas e outras, nem lhe passava si quer de leve pela cabeça que tudo era mentira e armadilhas para o seu ouro...

E a pensar nesse ouro do papai, entre cujos montões fora criada e que se tinha desvanecido como o nevoeiro ao sol, Isabel sentiu a impressão de que alguma coisa dentro do seu peito tomava corpo e lhe pesava sobre o coração.

Era o desgosto, um desgosto surdo, irremediável, de não ter sabido aproveitar a situação, de não ter sabido prever, de não ter sabido guardar...

Se nos dias felizes ela tivesse pedido ao pai que lhe desse joias, que lhe desse casas, que lhe comprasse títulos e apólices, teria agora com que adquirir nas francesas aos dez e aos doze vestidos, e resplandecer na sua frisa do Municipal... No tumulto dessas impressões, teve pela primeira vez uma certa e mal definida pena da tia Milú, que outrora andava farta e bem trajada, e agora batia solas rotas pelas calçadas da sua rua... Mas por que fora tola a tia Milú? Por que não teria procurado a sua independência enquanto moça? Aí estava uma pergunta que ela ainda lhe haveria de fazer...

E fez, no dia seguinte, quando de passagem para a farmácia, onde ia comprar drogas a mandado do Dionísio, a tia lhe entrou em casa só para um adeusinho e um sorvo de consolação.

Isabel, ainda em peignoir matinal, polia as unhas no seu quarto de toilette. A tia sentou-se diante dela e explicou:

— Passei pela tua porta e não quis deixar de entrar, para matar saudades. É um minuto de ilusão, porque não me posso demorar. A mulher.do Dionísio está mal e também ele bem não está! Uma tristeza...

— Continua com a morfina? perguntou a sobrinha, sem interromper a ocupação com que se entretinha.

— Pois então! cada vez pior.

— Para onde lhe havia de dar ...

— Ao princípio julguei que fosse só ela; mas verifiquei há dias que ambos a usam e em excesso. Realmente, eu me perguntava a mim mesma quem poderia levar àquela senhora tanta morfina, longe de imaginar que os fornecimentos pudessem ser trazidos para casa pelo próprio marido!

— Quê! o Dionísio também?...

— Ele talvez mais do que a mulher. Tudo me leva a crer que foi ele próprio quem lhe implantou esse vício no corpo... Gomo é forte, resiste; ela sucumbiu mais depressa ...

— Oh, tia Milú, mas isso que a senhora está dizendo, é horrível!

— Mas fica entre nós. Ontem, como eles se tivessem esquecido de fechar a porta do quarto, eu, pensando que não estivesse ninguém dentro, entra e deparei com os dois, sentados um em frente do outro, com ar imbecilizado, a se picarem nos braços com a agulha. Pois, apesar do barulho que fiz, nem deram por mim! Ha noites em que a ele lhe dá para, escrever e a ela para agitar-se pela casa como uma sonâmbula. Dela, ainda assim, tenho pena; dele não. Imagina que, sendo casado e amigo do Landim, ele faz declarações de amor à Vera! Que infame, hein? Querer seduzir a própria filha de uma pessoa que o recebia tão fraternalmente... Às vezes, pergunta-me, mesmo perto da mulher, querendo recompor uma imagem que já lhe foge da memória, quais as feições de Vera. Para desnorteá-lo, eu descrevo-as completamente diferentes do que são na verdade, e ele fica absorto, nadando em dúvidas ... Às vezes ele e a mulher maltratam-se, esmurram-se, injuriam-se, dizem coisas horríveis; e quando se apartam, ficam a espreitar-se mutuamente, muito desconfiados ... Confesso-te que só por muita necessidade me sujeito a viver ali. Chega a ser perigoso...

— Mas, tia Milú, a culpa foi sua.

— Como?!

— Por que não procurou a sua independência, enquanto era moça?

No silencio do espanto, o rosto da tia pareceu à sobrinha ter crescido desmedidamente. Depois, ela conseguiu falar, embora com a voz engasgada e quase incompreensível:

— Fui uma idiota, fui; mas de que serve agora arrepender-se? Teu pai queria tua mãe só para si. Mal nasceste, encarregou-me logo de olhar por ti e pela casa, para poupa-la e poder levá-la consigo aos restaurantes e aos teatros. Foi um bom marido e Deus lhe fale n’alma. Quando tua mãe morreu, fiquei ainda mais sobrecarregada e não pude pensar em mim, nem procurar fazer-me competente para ganhar a minha subsistência. Nem supus que isso viesse a ser necessário um dia ... Se eu tivesse previsto as consequências...

Isabel concentrou-se, arrependida e humilhada. Via claramente agora, quanto a vida daquela pobre senhora tinha sido sacrificada pelo egoísmo dos pais e pelo seu; mas como recompensá-la, se o marido, indiferente a essas gratidões de família, não a queria no seu lar? Contrariar o Antonio, só por amor da tia Milú, também lhe parecia demais. Nem o Antônio era homem que admitisse oposições à sua vontade. Já agora então, o mais acertado seria deixar correr o marfim e fechar os olhos...

Tia Milú levantou-se e despediu-se, com os olhos reluzindo e os lábios a tremer. Na rua, o sol ofuscou-a e tomou direção errada. Foi só depois de ter andado uns trinta metros que percebeu o engano e torceu caminho, com um suspiro fundo. Na farmácia esqueceu-se do nome das drogas que ia comprar. Foi preciso interrogar pelo telefone o Dionísio, que as nomeou praguejando.

Des de que se empregara, o Antonio tinha-lhe suprimido a pensão; e como o outro, esquecido da cabeça, não andava em dia com o ordenado, ela dava tratos à imaginação para atinar com o meio de fazer certas comprinhas modestas, de coisas indispensáveis ...

Isabel vestia-se para ir falar ao Sr. Ministro, quando o marido foi procurá-la, para a instruir completamente sobre o assunto e o papel que ia representar.

— Tu lhe dirás isto: e explicava o seu discurso, fazendo ao mesmo tempo cair sobre ela a neblina de um pulverizador repleto de essência fina.

— E se ele objetar...

— Se ele objetar tu lhe dirás mais isto... e se ele apresentar tal ou tal opinião, tu as rebaterás deste ou daquele modo... até deixá-lo convencido ...

Isa prestava uma atenção quase dolorosa, como as crianças quando querem aprender de cor o que se lhes diz.

— Tenho medo...

— Medo de que? ora essa! E, com extrema delicadeza, ele tirou-lhe com uma pontinha da toalha um pouco de pó de arroz que estava acumulado perto de uma orelha.

— Estou bem?

— Estás linda, mas puxa o cabelo um pouco para a testa... assim! E leva joias. Não quero que ele pense que lhe pedes um emprego por necessidade. Tudo menos isso. Aos que têm necessidade, os ministros não dão nada...

E o combinado já sabes: fingirás que partiu de ti a iniciativa de tudo, tanto que eu ignoro, completamente a tua ida ao Ministério... Bem entendido?

— Bem entendido.

Ao calçar as luvas, já dentro do automóvel, Isa relembrou, insensivelmente, as atitudes de Margaret Snow. Era a primeira vez que ela entrava em cena para representar um papel estudado: devia procurar modelo para as suas atitudes. E aquele parecia-lhe excelente

XII

15 de Setembro, 1917.

A Vera Landim.

Duas horas da noite, não posso dormir e agito-me sob o poder de uma força misteriosa que me impele para o ar livre. Abro a janela e contemplo o céu vasto e estrelado? Todo me invade um aroma intenso de nardos que não compreendo ao princípio onde estejam, até que do firmamento profundo vejo desdobrar-se, dentre as faixas brancas da Via-Láctea, uma visão vaporosa, que desce e flutua no espaço, quase indistinta. Prendem-se nela meus olhos; mal a distingo e logo a reconheço. É a tua alma, Vera, é o teu corpo astral que, liberto de tua linda carne adormecida, vem inclinar-se todo sobre o meu sofrimento.

Oh doce, oh divina essência da mais amada escultura humana, que há na terra, que bálsamo trouxeste à minha saudade...

Não te rias, Vera, não te rias. Juro-te que assim foi. A paixão que te consagro deu uma tal acuidade ao meu espírito, que eu penetro no sentido: e na razão de ser de toda a criação. Só depois que te amei compreendi o Universo. Foste a chave mágica dos segredos para todos os outros indecifráveis; tu és tudo e estás em tudo: sinto-te no ar que respiro, no astro que fito, na agua em que ponho as mãos. Oh minha amada, de palavra dura e alma piedosa, recebe em ambas as mãos o meu coração magoado.

Dionísio

De Vera a Dionísio.

Setembro, 1917.

Enganou-se. Na noite a que alude eu não dormi. Passei-a a velar um doente.

Vera...

Foi com certo espanto que os amigos do Antonio leram um dia nos jornais que ele tinha sido nomeado para um dos mais cobiçados lugares da Secretaria do Vasco. Que padrinho político teria tido esse imbecil, perguntavam-se entre si, para conseguir uma situaçãozinha tão apetitosa? Afinal, qual era o valor do Antonio? Que dissessem, — qual? Só o de ter bonitos fraques, andar de unhas lustrosas e ter sabido escolher mulher galante e rica. Dias depois, julgaram encontrar a explicação daquele caso, imprevisto, ao verem ocupando a mesma frisa no Municipal, o Antonio, a mulher e o Sr. Ministro Dr. Vasco de Andrade.

Solteirão, rico, dado a elegâncias espetaculosas, este senhor, fosse onde fosse que se apresentasse, atraía sempre a atenção de toda a gente. Já a pena serviçal de um jornalista malicioso lhe conferira o título de Petrônio, sem que para isso ele tivesse tido o trabalho de escrever sobre usos nem costumes; e os cronistas das secções mundanas não se esqueciam jamais de se referirem à correção dos seus gestos, bem como à cor das suas casimiras. Assim, naquela noite, logo todos os binóculos se voltaram para a frisa em que ele apareceu, sem atinarem se ela lhe pertencia a ele ou ao Antonio. Parecia de ambos; tanto à vontade se achavam os dois que ninguém perceberia qual seria o hóspede.

Isabel resplandecia na maravilha de uma toilette inédita, toda polvilhada de diamantes; mas quem atentasse bem nos seus olhos e no seu sorriso, teria a impressão de que atrás deles flutuava a sombra: de um segredo íntimo, muito pessoal, talvez amargo, talvez glorioso. E esse mistério, esse não sei quê de intátil e sutil, como que a tornava mais mulher e mais interessante.

Sem o imaginar, teve desde então o seu nome inscrito nos anais divertidos da maledicência.

Muitas das pessoas que a tratavam cá fora em conversas irônicas por: — Senhora Ministra — iam apoquentá-la à casa com súplicas de recomendações: para o Sr. Dr. Vasco, todas cheias de atenções e de amabilidades. E ela, bondosa, atendia a todos, servia a todos, comprometendo-se assim cada vez mais...

Antonio gozava. Excitado pela onda grossa dos bons negócios, que se avolumavam diante de si, mal percebia o traço de fiel que se ia pouco a pouco acentuando nos lábios, antes sempre doces, da sua Isabel. Ela já não era — aquela alma florida e alegre como uma roseira — que o perfumava cora as suas carícias e as expansões do seu sentimento:

Por vezes como que a cobria toda um véu fino de cinzas vagarosas e ficava abstrata, com o olhar magoado, como quem vê esboroada diante de si a imagem de Beleza em que pusera antes toda a sua paixão e toda a sua fé.

Cada vez que o marido voltava do Ministério, radiante por ter conseguido realizar este ou aquele grande empreendimento, ela calava-se, recolhendo-se a uma espécie de indignação instintiva, embora mal definida e dolorosa ...

No embevecimento da fortuna conquistada, e aquele orgulho de valor próprio que lhe fazia agora inchar o peito de importância, Antonio começou a ter a sensação nítida da sua superioridade. Ele era o centro, o porquê, a razão de tudo. Fora graças à sua influência e ao seu conselho, que o Vasco se tinha equilibrado com a pasta em tal ou tal emergência política; fora unicamente devido à sua intervenção atilada e patriótica, que se pudera ter levado a bom fim uma certa questão de alta finança; e tudo quanto ele particularmente ganhara fora exclusivamente devido à sua argúcia e inteligência ... A mulher sorria por dentro, agoniada por aquelas, arrogâncias, mas prudentemente calada.

Com o bolso cheio por transações rápidas, de êxito fantástico; com a sua vida definitivamente estabelecida, pensava agora o Antonio em sacudir-se do Vasco, de quem; já não precisava e cujas assiduidades junto da mulher começavam a dar-lhe cuidado...

XIV

Vera.

Agosto, 1918.

Esta noite, na sua ronda infatigável, minha mulher entrou nos meus aposentos sentou-se diante do meu leito, a olhar para mim com olhos de brasa. Eu sonhava contigo: vagávamos num lago cor de violeta, tu rescendente a angélicas e mal enleada por um véu diáfano

Íamos—eu feliz, feliz, para onde a vaga nos levasse; de certo, a um porto nunca antes atingido pior nenhum mortal, quando senti o fantasma interpor-se entre a tua imagem e a minha exaltação. Ergui-me; lutámos num redemoinhar de feras bravas e enlouquecidas, até que ao ruído dos nossos corpos em esbarrões e quedas, acudiu a enfermeira com o pessoal da casa. Ela saiu-me de entre os dedos, murcha, mole, quase moribunda. Voltou a si depois de muito socorrida. Eu atirei-me de novo para a cama no anseio de readormecer para sonhar contigo. Vê até onde me levou o amor que te tenho. Ingrata, ingrata, ingrata!

Dionísio.

De Vera a Dionísio.

O senhor está doente. Deve consultar um médico e obedecer-lhe em tudo.

Vera...

XV

No cristal do espelho, a que se estava arranjando, Isabel via toda a sua figura e a do marido, sentado no divã, por detrás dela. Conhecia-o muito bem para não perceber a raiva sopitada, com que ele ali estava mordiscando o charuto e a rufar com os dedos no marroquim do almofadão. Mais um alfinetinho para um lado, mais um puxãozinho para o outro, ela demorava os seus preparativos, dando tempo a que a trovoada rebentasse. Provocá-la com uma pergunta, seria imprudente. Preferia que tudo que tivesse de vir viesse a seu tempo e por seu pé. Foi o marido que, já farto de ruminar em silencio toda a bílis da sua irritação, rompeu afinal por entre dentes, como a contragosto:

— Estás a enfeitar-te tanto! Esperas hoje alguém?

— Eu?... Não...

— Ham...

A voz do Antonio tinha a aspereza de pregos enferrujados e ele agora, já não contente de rufar com os dedos no almofadão, sacudia também a perna tão apressada e nervosamente, que toda a vidralhada do toucador tilintava, ameaçada de cair no chão.

— Então não esperas ninguém? ...

— Não ...

— Nem o Vasco? ...

E o Antonio envolveu esta pergunta num risinho azedo, que lhe arrepanhou toda a face em; rugas, ao mesmo tempo que arremessava o charuto pela janela fora. Já não precisava de disfarces. A bomba estava lançada.

Isabel dominou-se e respondeu com o. modo mais natural:

— Bem sabes que esse vem todos os dias.

— Bem sei, bem sei! Todos, todos os dias! A mim isso me parece demais. Bastou! apre, bastou! Já não o posso tolerar nem1 quero tornar a vê-lo em minha casa!

— Agora...?! Retorquiu-lhe a mulher com ironia

— Agora e sempre!

— Mas, por que?

— Porque não quero que arrastem o meu nome pela lama das ruas, entendeste? tu bem sabes por que! As suas assiduidades nesta casa estão tomando um caráter de intimidade que me desagrada imensamente e podem ser comentadas lá fora de modo desairoso para ambos nós. Eu não admito que isso suceda; eu não admito, ouviste? E a culpa tem sido tua, que lhe dás confiança.

— Minha?

— Sim, tua.

— Ora, Antonio!

E ela ergueu levemente os ombros, com um muxoxo.

— Não me faças perder a cabeça, não me faças perder a cabeça, repetiu ele, de punhos cerrados, apoplético e terrível. Supus ter casado com uma mulher honesta e afinal...

E fez um gesto de desprezo.

— E afinal, acaba!

— Que és tu? dize!

— Ah! pois ignoravas? Eu sou a isca. Eu fui a isca... e não tenho sido outra cousa desde que me conheceste, e deves saber disso muito melhor do que eu mesma, que não compreendi as cousas senão depois delas passadas e irremediáveis.

— Cala-te.

— Agora está dito. Serviu-te o meu dote; serviu-te a minha beleza. Estás rico, estás farto, não precisas de mais nada, podes zangar-te e defender a tua honra; mas a ingênua morreu e a outra mulher que existe dentro de mim, melhor é que a não provoques, para que te não diga verdades desagradáveis.

Antonio levantou as mãos e cresceu para a mulher, lívido de raiva.

— Bate, concluiu Isabel, sem se mover do lugar em que estava.

Conteve-o a atitude arrogante e firme da mulher, que esperava o golpe toda trêmula, mas a dominar-se num supremo esforço.

Desmanchado o gesto, ele voltou-lhe as costas, saiu numa rebentina, batendo com a porta e foi fechar-se no seu escritório, enquanto Isabel se atirava, chorando, sobre o divã:

«Maldita a hora em que eu me casei, maldita a hora em que eu me casei...»

XVI

Mal viu parar junto ao portão do jardim o habitual automóvel do Sr. Ministro, logo o jardineiro do Antonio correu a avisar a Sua Excelência de que os patrões não estavam em casa... nem voltariam tão cedo...

Nas palavras não havia malicia, mas nos seus olhinhos cor de café lampejavam reticências expressivas e, tanto, que o Dr. Vasco, compreendendo a verdade, atirou para o fundo do carro o ramo de cravos que trazia na mão, e para a mão do jardineiro uma gorjeta de despedida. O outro titubeou, mas já ele indicava ao «chauffeur» outro endereço, e partia. Partia, sem perceber bem se com mágoa ou se com alívio. O desfecho estava mais ou menos previsto. Isa era uma linda mulher, mas o Antonio começava a aborrecê-lo soberanamente. Temia mesmo que o chegasse a comprometer, com a sua insaciável avidez de negócios lucrativos, de que andava sempre à caça. O que pedia aos céus, era que Isabel se tivesse conformado com o despotismo do esposo e não se lembrasse de ir ao seu encontro com lagrimas e rogos. Estas cousas devem acabar de uma vez só. Um golpe: pronto. Vida nova!

Essa noite entrou tarde em casa. Perguntou ao criado, que o esperava, se alguém o havia procurada e, ao receber resposta negativa, sentiu uma espécie de contrariedade. A sua vaidade ficara amarrotada pela indiferença daquela de quem se queria ver livre.

— E carta?

— Nenhuma.

— Telefonada?

— Também nenhuma.

— Pode se ir deitar. Eu vou ler.

Mas não leu, e só pela madrugada conseguiu adormecer. Quando acordou, levaram-lhe à cama, com a correspondência matinal, uma carta de Isabel, dizendo partir com o marido para a sua fazenda da Serra, onde iria passar, pelo menos, um ano de castigo e de saudades. Aquela carta era um ponto final no mais belo período da sua vida de mulher. Um adeus, mais uma lembrança, outro adeus... E Vasco dobrou a carta, com um grande suspiro de satisfação. Enfim, esse seu romance poderia ter acabado pior...

Na manhã seguinte, o Antonio arrebatava a mulher para a sua nova propriedade rural, onde se foi deixando ficar durante quinze longos meses de sossegado ócio, vendo germinar os seus campos de milho e de feijão. Quando voltou ao Rio, o Vasco tinha deixado de ser ministro, casava-se com uma viuvinha e com ela partia para os Estados Unidos, numa comissão rendosa. Com esse adorável epílogo o Antonio sentiu o horizonte alargar-se e iluminar-se diante de si, tanto mais que o preocupava todo a ideia de que seria pai dentro de poucas semanas. O bebê esperado enlaçara o coração arrefecido dos pais numa corrente de ternura. Tinham-se perdoado tudo; viviam dele, por ele, na esperança da sua graça, da sua perfeição, da sua beleza. Tudo o que ficara no passado estava, bem enterrado; agora só olhavam para a frente, onde o vulto do filhinho lhes aparecia de diversos modos, em diversas idades ...

Foi quando a criancinha veio ao mundo e que lhe deram o nome de Antonia Isabel, para que no próprio nome eles estivessem nela reunidos, que se lembraram da conveniência de chamarem para casa a tia Milú, cada vez mais arrenegada dos Dionísios, intoxicados, transparentes, ferozes ...

Avisada, a tia correu a acudir à sobrinha. Voltava ao seu papel de utilidade na família; havia, afinal, para a sua subalternidade carinhosa, um quarto vago no palacete da rua Marquês de Abrantes ...

Assim, a pequenita passou a dormir junto ao seu leito, para que fosse ela quem lhe mudasse as fraldinhas durante a noite e lhe desse a mamadeira, enquanto os pais, livres e sossegados, pudessem ir aos teatros, aos cinemas, e dormissem o resto da noite no seio do Senhor.

XVIII

A Vera Landim.

Novembro, 1919.

Oh, deleite do sonho! Toda esta noite tive-te a meu lado, na radiosa sedução de toda a tua mocidade.

Saíste da envolvência de mistério em que te nimbavas, humanizaste-te piedosamente.... As tuas mãos de neve deixavam-se queimar pela febre das minhas, e todo o teu corpo de virgem rebelde e casta, enlanguescia ao afago do meu abraço amoroso... Enfim, enfim! mas por que mudava tão repentinamente de expressão o teu rosto? A ausência longa tinha-me diluído na memória a exatidão dos teus traços ... Fugias-me da lembrança ... Qual é a cor dos teus olhos, esmeralda ou mel? Serão negros ou pardos? De tal modo as tuas pupilas se enchiam de doçura ou se carregavam de sombra, que tudo confundo já, tanto mais que o que eu adoro em ti, querida, amada minha, é mais do que a tua carne, a expressão de todo o, teu ser original e perverso, é à tua maneira de amar, o ardor indômito da tua virgindade subjugada; os gestos das tuas mãos esguias e macias como a penugem dos cisnes; é o som da tua voz voluptuosa, o calor da tua pele cor de âmbar e o poder supremo da tua vontade dominadora. É isso tudo que te imaterializa e me embriaga como um perfume de flor venenosa, mas deliciante. És o aroma do nardo consubstanciado em forma de mulher, — e por isso, enquanto te espero, enchi de angélicas todo p meu escritório, todo o meu quarto. Volta esta noite, sim? O fantasma da outra não virá desenlaçar os teus braços do meu pescoço como nesta madrugada terrível. Ela não tomará a morder-me os braços e os dedos nem a expulsar-te de casa com! a ira que lhe viste. Vem sem medo, eu fechá-la hei na sua alcova, picá-la hei muitas vezes com a agulha, amarrá-la hei com os lençóis ao seu próprio leito, para que não gire ao redor de mim nas suas rondas noturnas nem ameace enterrar-me nas costas o punhal que traz escondido na mangai do roupão. Ela pensa que eu não sei, mas a velha; enfermeira, tia do Antonio, antes de se ir embora, disse-me tudo; e ao fantasma também contou qualquer cousa, que a faz olhar para mim à busca do revólver... A tragédia está iminente; mas não tenhas medo, vem! Ela debater-se há em vão no seu cárcere, e eu poderei ajoelhar-me a teus pés, repousar a cabeça nos teus joelhos delicados, e fazer penetrar nas tuas veias o mesmo filtro que me faz enlouquecer e morrer, sonhando! ...

Dionísio.

A Dionísio.

Outubro, 1920.

Nem mais uma palavra. Caso-me amanhã.

Vera

O homem que olha para dentro

I

Noite escura: a ventania uivava pelas goelas estreitas da cidade velha. Sinésio e Rufo caminhavam ao lado um do outro, com as golas do casaco levantadas e as mãos enfiadas nos bolsos. De uma ceia no «Assírio» tinham ido à redação do «Popular» e entravam agora por uma viela estrábica, por onde se enfiava a alma do mar com forte cheiro a maresia e fragor de ressaca. Nas casas, aferrolhadas, não parecia existir viva alma; só no chão, junto a um combustor, se desenhava, como em borrão a piche, a sombra de um guarda encapuchado.

Sinésio começava a arrepender-se da aventura, mas Rufo gozava-a.

— Foi ali, disse ele, apontando para um prédio fronteiro, que se enforcou o agiota Melcíades ao sentir-se roubado pela baronesa do Ribeirão d’Ouro. Epílogo: o barão para o hospício e a esperta da baronesa para a França ...

— Como tu sabes cousas...

— Nesse tempo eu era repórter da polícia... Emprego excelente porque me facilitou o conhecimento da sociedade.

— És um homem feliz...

— Não nego. Das duas profissões que exerço a do jornal e a do romance, esta sobretudo, fornece-me, apesar das suas contingências precárias, certos elementos de gozo, sempre renovados e sempre inéditos. Infelizmente ninguém aqui se pode dar ao luxo de ser homem de letras, exclusivamente. Ainda nesse sentido o único tomado a sério é o jornalista, porque é temido. Eis a razão porque eu fabrico no «Popular» aqueles menús à la minute, que te deliciam...

— Convém saberes que nem sempre... Em todo o caso não deixa de humilhar-me a tua facilidade em escrever, quando eu não tenho nenhuma.

— Meu caro, cada um de nós teve a sua herança. Tu ficas te com o dinheiro e eu com a fantasia do avozinho. Parecerá a toda a gente que quem possa ter razão de queixa não devas ser tu. És moço, és bonito, tens saúde, fortuna e ainda te queixas? é querer ser paradoxal...

— Se a questão é de hereditariedade, também o nosso avô foi paradoxal, quando substituiu o seu tradicional nome de família pelo vocábulo indígena, por que se tornou conhecido.

— De acordo. Coro ao lembrar-me de como ele, homem inteligente e que foi uma das figuras mais representativas do Império, se deixou contaminar por essa parvoíce da época, que fez com que alguns chefes de prestígio trocassem o nome dos seus pais pelos das tribos selvagens, que nada nos legaram de interessante, moral ou intelectualmente aproveitável ...

Passavam agora rente aos muros de uma igreja cuja torre o vento fustigava e que tinha em baixo as portas fechadas, com medo dos ladrões. Rufo estacou por um momento com uma exclamação:

— Vê tu que contrassenso, uma igreja fechada!

— O filho, pois então a estas horas...

— A alma não tem horas regulamentares para o desabafo de tristezas nem para a interrogação de dúvidas aflitivas. Se eu fosse padre teria sempre as portas da minha igreja abertas de par em par. No silêncio de uma nave à meia-noite, o crente acharia no fundo do seu pensamento alguma cousa mais viva e mais sincera para dizer a Deus, e por aquelas tábuas descansariam, como no seio do Senhor, os corpos moídos dos mendigos sem cama ...

— Deve ser horrível, não ter uma criatura uma caminha sua, para dormir... objetou Sinésio, com um arrepio e já suspiroso pela sua.

— Os templos cristãos, como o meu espírito os concebe, continuou Rufo, deveriam ser imensos, sem douraduras, sem alfaias e sem portas; talhados numa arquitetura majestosa em que a mão sublime de um Miguel Ângelo esculpisse na pedra branca a Virgem do Acolhimento ou da Consolação. As cidades são, cada vez mais, verdadeiras arenas de guerra em que as populações se debatem num egoísmo atroz. Para o número, sempre maior doa vencidos, ainda elas têm menos piedade que desprezo.

— Não é tanto assim. Ha muita caridade.

— Lá vens tu com a grande palavra das festas públicas. Imaginarás que pobreza é só a que estende a mão para o óbulo?

— Sei, a dos envergonhados...

— E o desespero da derrota! Não só a do dinheiro, mas a da glória, a da arte, a do amor, a da política, enfim a de todos os grandes ideais do homem. Tu não conheces a vida, meu caro primo, não calculas a força da sua voragem...

— Em parte talvez tenhas razão, mas que diabo, afinal eu tenho a tua idade e é natural que conheça as cousas, se não tão bem, pelo menos quase tão perfeitamente como tu. É uma questão de meio, e nada mais.

— Meio e temperamento. Tu és mais egoísta e vives enamorado de ti mesmo. És o homem que olha para dentro, e quando se digna lançar a vista em torno, limita-a ao círculo até onde se possa projetar a sombra do seu próprio corpo.

— Quem te ouvisse julgaria que sou um vaidoso!

— Acredito que não seja por narcisismo que te entretenhas tanto contigo mesmo, mas por falta de interesse pelos outros, pelas ideias novas que turbilhonam continuamente pelo mundo, e um pouco também por educação. Em casa de teus pais chovia ou fazia sol, segundo a tua vontade. Foram eles que te incutiram esse culto de ti mesmo, que faz com que não penses em mais nada. Tu, só tu, puro amor...

— Queres dizer que não conheço a vida senão na sua parte, a bem dizer, exterior...

— É isso mesmo. Nunca lhe sentiste a amargura do âmago. A culpa não é tua. E não serei eu quem te aconselhe a apalpar-lhe as misérias ... Ocupa antes a tua inteligência no saber gozá-la.

«Mais vale amá-la que entendê-la», disse o poeta.

Justamente, deveria ser um mendigo o homem que viram logo adiante a aconchegar ao peito com as mãos tiritantes o casaco insuficiente. Encostado à parede ele olhava para a janela de um primeiro) andar, onde se coava uma luz frouxa por vidraças sujas.

— Que noite!

— Rara.

Uma rajada impetuosa obrigou-os a parar. Sinésio segurou o chapéu, ameaçado de voo, e praguejou. Rufo respondeu:

— Pois eu estou a achar um sabor especialíssimo nesta passeata, assim como se estivesse a sorver um leite capitoso, um leite alcoólico, num seio de raça desconhecida. A noite é a criadora da ilusão. Acredita que hesito em acreditar se estaremos no Rio ou nas ruas da velha Alexandria, sob o temporal ...

Chegavam a um largo. Uma porta bateu com força dentro de um porão, onde, através dos mezaninos gradeados, viram uns homens gesticulando veementemente.

— Talvez estejam a fabricar bombas, que é ofício sensacional.

— Com as janelas abertas?

— Que é a melhor maneira de iludir a polícia ...

O que os homens diziam não se ouvia cá fora, a voz do vento era mais forte. Ela trazia do mar alto a visão trágica de mãos de náufragos branquejando no escuro, e de mastros partidos...

— Minha mãe não adormecia nunca, sem ter rezado pelos que estão sobre as águas do mar...

— Pois não é verdade Sinésio, que as cidades marítimas são sempre sugestivas e interessantes? Não imaginas quantos assuntos me têm sido fornecidos, por estas gentes da beira d’agua. Agora mesmo ando ás voltas com um, bem curioso...

Foi então que Rufo aludiu à história do velho D. Juan Ramon, nascido em terras de Espanha, foragido nas do Brasil, e enriquecido depois em Nova York, onde morreu muitas vezes milionário, coroado pela denominação de, Rei do Sal. A sua biografia era uma floresta intrincada de casos interessantes, por entre os quais tremeluzia algumas vezes a lanterna investigadora da polícia e não perpassara nunca um vulto de mulher. E lindo homem que era D. Ramon, com as suas brancas faces bem escanhoadas e os olhos de um castanho loiro, em que as pontas agudas da ironia se embebiam em mel, para ferir com doçura. Como não há batalhador sem armas, as suas consistiam em aptidões físicas especialíssimas.

O seu gesto de arrogância envolvia outro de esperteza. Ele sabia entrar pelo queijo dos negócios como um rato, intimidando ao mesmo tempo o público com atitudes de leão. No seu testamento, considerado pela imprensa americana como uma obra ostensiva, escrita pelo seu próprio punho, aos noventa e oito anos, ele espalhava legados comi uma prodigalidade maravilhosa e entoava um verdadeiro hino à humanidade e ao mundo. Era um tipo. Tens reparado como na nossa história testamentária, nenhum brasileiro até hoje deixou coisa que mereça menção? E andamos sempre a encher a boca com a nossa generosidade ...

— Não; não reparei. O que não compreendo é como esse tal Ramon pudesse ter logrado a felicidade sem a colaboração da mulher. Consciente, ou inconscientemente, é ela sempre o melhor instrumento para as conquistas da riqueza e do renome. Hás de me dar a ler essa biografia.

Mais tarde. No rodapé do «Popular». Entretanto, se queres lobrigar algo do que eu talvez possa vir a dizer aos leitores, entra comigo na casa do meu amigo Tenente ...

— Quem diabo é esse tenente?

— Vais ver ...

II

O Tenente lia à luz baloiçada de uma arandela de gás sem globo. Era um homem magro, de maxilar quadrado, ombros altos e mãos grandes. Devia ter a mania dos relógios, parque na sua sala, aliás desguarnecida, havia nada menos de nove relógios, de vários feitios e tamanhos.

— Tenente! Exclamou Rufo; aqui lhe trago o meu primo Sinésio, rapaz que não tendo, nada que fazer aborrece-se, o que não é divertido, e ele daria como o rei Xerxes a sua fortuna a quem lhe indicasse um prazer novo... Que diz o Tenente?

— Não digo nada.

— É pouco.

— Continue.

— Sinésio é solteiro, porque não acredita na fidelidade das mulheres; é ocioso, porque não precisa trabalhar; é sóbrio, porque se cansou de comer iguarias finas, a horas e fora de horas; é órfão, pelo simples motivo de que os pais lhe morreram, e tendo todas as liberdades, não sabe o que há de fazer da vida.

— Que pode desejar então? perguntou o Tenente, voltando para Sinésio uns olhinhos de raposa bêbeda.

Sinésio não sabia. Fora levado até ali pelo fantasista do primo, sob a influência de uma ceia escorregada em vinhos caros. Estava perplexo.

Rufo interveio:

— Ora, o que há de desejar! Conselhos, exemplos, sugestões, invocados de outros mundos mais iluminados e perfeitos. Faça falar aquele velho espanhol, D. Ramon, milionário e aventureiro, nascido em Andaluzia, pobre como Job, e morto no seu palácio de Nova York, há por aí três anos.... Folheie o arquivo do outro mundo, e decida-se, amigo!

— Quer então saber ...

— Qual de entre todas as situações da sua existência carnal, pareceu a esse senhor menos insuportável, vista da outra margem da vida!

O Tenente, fez um gesto a um rapazinho que se quedava a um canto, que apagasse a luz. Na sala, ás escuras, chegava só agora o som do vento em guinadas de gigante asmático.

III

Estabelecida a comunicação, o Tenente indagou, com voz arquejada e convencida:

— Sr. D. Ramon, quer alguém saber de qual dentre todas as coisas da sua vida terrena, conserva usted melhor lembrança na eternidade!

Houve uma pausa em que o tempo palpitou desesperadamente no coração dos nove relógios da sala, até que, subitamente se ouviu o som de uma voz nasalada murmurar:

— Da pobreza.

Sinésio não se pôde reprimir que não exclamasse:

— Ora essa!

Mas já D. Ramon continuava discorrendo, como quem dita uma página estudada, num espanhol de fronteira:

—É no sofrimento da pobreza que o espírito adquire propriedades de agudeza e de sensibilidade capazes das mais profundas penetrações e das mais atrevidas conquistas. O sentimento mais emocionante que eu tive na vida foi o de ambicionar, o de perseguir ideias até vê-las realizadas. Meus dias deliciosos foram aqueles em que de botas rotas e estômago vazio, eu andava pelas ruas farejando negócios, como os cães à caça, a suspirar pelas mulheres belas que não podiam ser minhas, a convivência dos homens poderosos que eu só podia admirar de longe, o gozo das mesas de luxo a que não me podia sentar, enfim, todo o deleite acerbo de um ideal que eu perseguia por instinto, e que me levava através da cidade, como um ébrio fascinado por uma esperança enigmática. Julgava-me então a criatura mais desgraçada, por muito querer e nada possuir, e era de facto a mais venturosa — porque sonhava, era moço... A mocidade é bela, porque é o tempo da vida em que mais se sofre e melhor se constrói. Os seus dias são de exaltação, de paixões violentas, de lutas, de entusiasmo e de sacrifício, pelo amor, pela gloria, pela fortuna, na febre que devora e cria os delírios mais espantosos. Caluniam a mocidade, dizendo-a descuidosa e imprudente, quando ela é tecida de ideais arrebatados, lágrimas quentes, agitações e anseios contínuos. É então que há energia na vontade e atrevimento no desejar. Todas as grandes obras são filhas da ambição. Enquanto desejei, tive maior e mais intenso gozo do que depois que obtive. A fascinação da vida- está mais nas promessas que ela nos faz, que nas que realiza. Não há esporte mais divertido que o da caça ao ouro, nem outro em que as melhores faculdades da inteligência sejam tão necessárias. Por isso, o homem que nasceu rico não sabe nada, não vale nada ...

O vento sacudiu as vidraças da sacada e o Tenente exalou um suspiro fundo e agoniado. Era o sinal de terminar a sessão.

O rapazinho reacendeu o gás e os dois primos puderam ainda observar a máscara alterada do Tenente, a suar em bica, com os músculos faciais contraídos, como pior uma câimbra.

IV

Sinésio e Rufo desandaram pelas mesmas ruas.

O vento tinha varrido as nuvens, sentia-se o céu mais alto, através da escuridão. Ao dobrar da primeira esquina toparam com o homenzinho tiritante, ainda na contemplação da janela iluminada.

— É ter paciência, resmungou Sinésio.

No seu vezo de romancista, Rufo vacilou, desejoso de parar e interrogar o velhote, mas nem sequer retardou os passos e seguiu pensando: — ora graças, que a raça dos românticos não se extinguiu... Pobre diabo! Naturalmente a mulher fugiu-lhe de casa e o desgraçado, a quem a miséria não dá o direito de ser egoísta, vem curtir a sua saudade, olhando ao menos para a luz que a alumia, beijando o outro... É bem possível mesmo que ele a ame agora mais do que no tempo em que a julgava ter só para si...

O vento amainara, mas o cheiro forte do mar acariciava ainda a cidade adormecida, apaziguada da agitação nervosa das suas horas de luta.

Rufo parecia divertir-se em prolongar aquela caminhada, dando voltas inúteis.

— Dir-se-ia que andamos por uma rua de cemitério, observou o primo.

— É que estamos entre casas vazias. A alma que as anima de dia vai à noite sonhar em outros bairros. Em todo este quarteirão, talvez não esteja a dormir nem um só homem. É a solidão do abandono, pior que a morte. Se eu não precisasse sentir a vida ao redor de mim, mesmo quando durmo, seria o caso de transformar um destes prédios em meu quarto de cama... Mas o sono parece não anestesiar em mim todos os sentidos. Na minha avidez de vida, quando pelo extenuamento sou obrigado a fechar os olhos, os ouvidos ficam alerta, colhendo impressões, embora confusamente... O silêncio absoluto causar-me-ia insônia. Foi esta sensação que me fez imaginar a história do cego Reginaldo, no meu romance — Na Treva. Lembras-te?

— Confusamente ...

— O cego, para sonhar, exigia todas as noites um ramo de flores à sua cabeceira e que a mulher o adormecesse cantando, como se embalasse um filho. Só o perfume e o som, podiam sugerir ao seu cérebro, idealidades objetivas... Como sonhará um cego de nascença?

Como Sinésio não respondesse, o primo interrogou-o:

— Em que interessantes assuntos vais pensando, homem?!

— Penso que o teu Tenente é bem menos extraordinário do que eu supunha. Aquele truc da luz apagada, fez-me acreditar numa coisa ridícula...

— Qual?

— Que o espírito do meu caballero D. Juarf Ramon, falava pela tua boca...

— Tão lindas palavras te pareceram as que ele disse?

— Já também apalpei o meu relógio, para verificar se aquele rapazinho de olhos de mulher, o teria surripiado, mas com surpresa encontrei-o no lugar. Vê a grande revelação do tal ricaço espanhol: — a maior felicidade da Vida consiste no desejar-se alguma cousa... É teoria de avarento, teoria de quem não quer dar. Não te parece?

— Não me parece. Mas dize-me, tu já tiveste algum ideal, desses que sacodem a gente como um homem sacode uma árvore da qual deseja ver cair os frutos?

— Não... com sincera verdade eu nunca tive nenhum ideal. Nasci rico, estudei por desfastio, amei por capricho, não sofri, não trabalhei, não criei... Sou dos tais; não sei nada. Ainda será tempo de fazer algo? Mas o quê?

— Procura.

— Quando um ideal não tenha nascido conosco, parece-me tempo perdido o procura-lo. Trabalhar pelo dinheiro? Já o possuo. Pela Arte? Não tenho talento. Em vão procuraria escrever uma página, como te disse, ou desenhar um quadro. Não é artista quem quer. Falta-me igualmente capacidade para a música e a estatuária ...

— E ainda bem! olha que os artistas já são demais. É a grande mania da época. A sedução do vocábulo é tamanha que já não há sapateiro que denomine o seu ofício como tal, mas só por: — a minha arte. Ainda esta manhã disse-me o meu alfaiate: — a minha arte é muito difícil; — ao que não pude deixar de responder: é o que teria dito da sua, Rafael? Não seria melhor pensares antes no comércio? por que não hás de funda uma grande casa, em que a tua fortuna floresça e frutifique num sistema novo de cooperativa, que beneficie o povo e te traga a imaginação ao menos distraída?

— Abomino o comércio.

— E as indústrias, hein? Ha homem algum que irradie maior ventura em torno de si do que um grande industrial? Criar uma cidade ao redor de sua fábrica, dar pão a centenas de famílias por intermédio de um trabalho produtivo e benéfico, não te parece ação digna de fazer a felicidade de alguém?

— Hei de pensar nisso. Agora toca para casa, que são horas de dormir e eu estou cansado...

V

Durante alguns dias Sinésio sentiu badalarem-lhe no cérebro as ideias de D. Ramon. Ao princípio, elas intervinham de vez em quando na sua lembrança como um leit-motif numa sinfonia, até que se tornaram de repente numa bimbalhada contínua e atormentadora.

O conceito de que todo o homem deve cumprir na Terra uma missão de utilidade, e a certeza de que ele não era afinal senão um mero e imperfeito espectador de tudo, inquietavam-no agora soberanamente. Mas por que caminho enveredar?

Uma tarde, calçava ele as luvas distraidamente à porta do seu clube, quando viu numa muralha em frente um cartaz vistoso com vaquinhas gordas em campo cor de alface. Foi uma sugestão. Por que não teria ele ainda pensado no campo? Pois não é a profissão do agricultor considerada hoje como uma das mais compensadoras e mais belas do mundo? Os intelectuais de maior nome na Europa, não adoram descansar das lides da pena e da sociedade, refugiando-se no verão nas suas quintas a enxertar 

Pereiras e a cultivar Moscateis? Sonhou nessa noite que andava a passear a cavalo por campinas risonhas e resolveu de manhã ir procurar um amigo lavrador, proprietário de um sítio nos subúrbios, o Henrique Macedo, tido como o verdadeiro tipo do pequeno lavrador, que é quase sempre o mais interessante.

Amanhã estava ofuscadora e a temperatura alta. Chegado a uma gare tristonha, depois de hora e meia de trem de ferro, Sinésio teve ainda de valer- se de informações vagas para atinar com o caminho da propriedade amiga. O que o desatinava é que esse sítio parecia recuar à proporção que ele avançava, a pé, por estradas barrentas, que lhe sujavam as botinas e lhe enchiam de poeira a própria alma. E dava murros mentais na inteligência, por se não ter servido de um automóvel, numa terra em que essa espécie de locomoção está tão hem indicada e é tão fácil.

O amigo Macedo andava pelo campo a ver matar formigas, explicou a caseira, quase prontificou a conduzi-lo através da chácara imensa. Sinésio resignou-se a andar ainda mais, seguindo a cabocla expedita pelo terreno arado de novo, cheio de desigualdades fofas.

O lavrador recebeu-o sem alegria. Estava zangado. As saúvas eram invencíveis. Que olhasse para aquele campo: uma desgraça. Gastara paciência e rios de dinheiro a lutar contra a bicharia e a bicharia era cada vez maior! Os cereais tinham-lhe falhado, e era coto o que ele contava agora, neste ano de carestia. Os chacareiros vizinhos, que se limitavam ao plantio da mandioca, da laranja e dá fruta do conde, em proporções mínimas de quitandeiros, ganhavam mais do que ele com tanto campo, tanto instrumento de lavoura e tantos trabalhadores. Estava resolvido a vender aquilo tudo por qualquer preço e a mudar de vida. Empregara os processos mais adiantados, num esforço nunca interrompido, e o fiasco parecia crescer de ano para ano! Que terra! que gente! que desespero!

— Pois olhe, eu estava meio resolvido a fazer-me lavrador... aventurou Sinésio timidamente.

Macedo fixou-o nos olhos, com assombro. E depois, encolhendo os ombros:

— Está louco! Olhe, veja você este feijão! não dá para as despesas. O milho, na mesma; e das batatas então nem falemos! Verdadeiramente só do que há fartura é de formigueiros. Se me quisessem comprar formigas eu ganharia um dinheirão!

— Com as suas habilitações, por que não vai você antes para o interior, plantar café?

— A grande lavoura?! Deus me livre, sabe lá você o que é aturar colonos, que de mais a mais vão rareando, e piais os comissários e toda a magna caterva de - exploradores? Depois, a vida por lá é dura e sem compensações ...

O sol causticava. Sinésio remexeu-se aflitivamente dentro do seu terno de casemira, e limpando o suor do rosto crivado pelo calor de picadinhas agudas, achou ainda em si coragem para espantar-se:

— Que diz você, homem? Pois há nada no Brasil mais compensador do que o café?

— Ouça: pode ser que eu me engane, mas considero começado o período de decadência da grande remodelação social, que obrigará a nossa agricultura de remodelação social que obrigará a nossa agricultura a mudar de sistema e de processos. Os lavradores, mesmo os mais rotineiros, egoístas e ferrenhos serão pouco a pouco obrigados a executar gestos de abnegação... A guerra espalhou pelo mundo a semente das reivindicações e a luta que antes era latente tornou-se agora feroz e franca. Empregado e patrão tem de se encarar de modo diferente... oh, muito diferente, dó modo por que até agora olhavam um para o outro... Você há de ver que as imensas propriedades, os seringais do Norte, as fazendas de café do Sul, serão retalhadas, e, num futuro próximo, onde hoje se veem imensas mantas de terrenos feudais, cada vez mais difíceis de dirigir, surgirão pequenas herdades de fácil comunicação entre si... O colono, de espécie de escravo que é ainda, passará a ser sócio, e o lavrador, mais aliviado dos pesados compromissos que hoje lhe pesam sobre os ombros, ganhará menos dinheiro mas gozará de muito maior liberdade na vida e poderá assim aprecia-la melhor... Numa época de transição seria absurda aventurar-se alguém na compra de uma grande propriedade agrícola, a não ser que o capital lhe permitisse estabelecer a cousa de princípio, como mais tarde terá de ser regrada. O grande problema a resolver agora entre nós, é saber como atrair a simpatia das populações para a vida do campo. Dirá você que para isso temos um Ministério da Agricultura. Mas que faz ele nesse sentido? Que insinuações lhe devemos? Com que demonstrações práticas anima as populações rurais? É tão fina a orientação que tem demonstrado, que até mesmo nas vizinhanças da cidade deixa, como você viu, ao vir à minha casa, que haja pântanos que contagiam o ar de febres e de mosquitos e que, por inciativa própria ou acoroçoamento a iniciativas alheias, já deviam de há muito estar convertidos em bosques de eucaliptos ou de outra qualquer árvore saneadora. A voracidade das nossas indústrias e o ventre das nossas capitais exigem para os seus fornos e cosinhas a lenha das matas. Abatem-se para isso as árvores, mas quem as replanta? Não competiria ao Ministério combinar com as diretorias das Estradas de Ferro para que as suas margens fossem cultivadas, o que redundaria em proveito das mesmas estradas e em exemplo atraente para o passageiro em trânsito? Ha nada mais desconsolador do que viajar entre charnecas ou entre pauis? Diga-me!

E Sinésio ia efetivamente dizer qualquer cousa, quando o amigo saltou a pés juntos para dentro de um vaiado, onde um camarada descobria as galerias subterrâneas de um formigueiro enorme.

Ao voltar para casa nessa tarde, Sinésio trazia um pouco de desilusão a amargar-lhe a alma. Se a ocasião era má para a lavoura, ele teria de se voltar para outra coisa. Qual? não o sabia ainda; mas fosse o que fosse, procurá-la-ia sozinho, sem o auxílio do primo, o fantasista Rufo, muito ocupado por esses dias a fabricar o romance de D. Ramon, para o folhetim do seu jornal.

VI

«É no sofrimento da pobreza que o espírito se fortalece e adquire propriedades de acuidade e de sensibilidade, capazes dos maiores milagres. O maior gozo que eu tive na vida, foi o de ambicionar, o de perseguir uma ideia, até vê-la realizada».

Por menos que quisesse ligar importância ás palavras do problemático D. Ramon, sentia-as latejar e entumecerem-se no espírito, como se entumece na terra a sementinha imponderável, que se fará árvore com o tempo. Ele não tinha ainda um ideal, procurava-o, entretanto, através da cidade distraída como um elemento de salvação para o vazio da sua existência. E nessa tentativa aguçou tanto os nervos que de manhã, quando com o primeiro almoço o criado lhe trazia os jornais, ele encontrava maior satisfação para a sua curiosidade na leitura dos anúncios do que na das páginas editoriais. Era como se estivesse a andar pelas ruas, lendo tabuletas ou a embarafustar pelas lojas a pedir empregos, na mentirava o jornal para o chão, sorrindo-se das prodicidade de salários de que não precisava. Por fim prias manias e acendia o cigarro para o devaneio, E devaneando, pensava sucessivamente em empresas mais ou menos absurdas: arrasamento de montanhas, caminhos de ferro subterrâneos, pontes sobre a Guanabara e construção de bairros novos, cuja arquitetura estudou, consultando engenheiros e revistas, com frenesi.

Vagabundeou então dias inteiros pelos arredores do Rio, examinando terrenos, cogitando em desapropriações, ampliando mentalmente os seus projetos criadores. E tais proporções eles atingiram que no dia em que os quis pôr em prática, verificou a sua inexequibilidade. Nessa ocasião foi procurar o primo e desabafou; contou-lhe as suas esperanças e as suas decepções. Estava furioso.

O romancista sorriu e observou:

— Não sabes querer. Principias pelo fim...

— Foi aquela maldita história do D. Ramón que me pegou esta sarna. Que coisa contagiosa!

— D. Juan Ramon não fez a sua fortuna construindo uma cidade para principiar, mas apenas uma casa, que não era um palácio. Em todo o caso, tu já lucraste alguma coisa com esse esforço em que tens andado.

— O quê?

— Gordura. Estás mais forte e com expressão, mais intelectual. A máscara do homem que não pensa e que não trabalha, repele a simpatia e a atenção dos sagazes. Tu parecias de cera; percebe-se agora que tens sangue. Em consideração deste progresso, vamos nós ao teatro?

— Ah, filho, não posso; preciso de me levantar cedo amanhã.

— Tu?! levantares-te cedo? para quê? alguma viagem?

— Não, um negócio.

— Bravos! ...

— Vou passar amanhã o meu dia em uma fábrica de fiação ...

— Não te gabo o gosto ... Olha que me estás saindo melhor do que a encomenda!

VII

«Há homem no mundo que irradie de si maior felicidade do que uni grande industrial? Criar unia cidade em torno da sua fábrica, dar pão a centenas de pessoas por intermédio de um trabalho honesto, não te parece coisa digna de fazer a felicidade de alguém? »

Sinésio pensava nestas palavras do primo, ao envergar de madrugada um terno pobre de operário, com que se deveria apresentar ao trabalho da fábrica de tecidos Estrela do Norte.

Formava o seu tipo em frente ao grande espelho do armário Maple que lhe guarnecia o quarto; desalinhava os cabelos ainda cheirosos de loções caras, puxando para a testa uma madeixa rebelde, calçava botas grosseiras sobre as suas finas piúgas de seda, e por cima da camisa delicada de crepe francês envergava uma camisa de algodão grosso, de riscadinho nacional. As calças e o casaco, comprados na véspera pelo seu atilado criado a um turco ambulante, não podiam ter um cunho mais eloquente, apesar de levarem no bolso um maço de notas, uma cigarreira de prata bem fornida e um lenço de Bretanha com o seu monograma a ponto de relevo. Por excesso de prudência deixara nas gavetas q luxo que se ostenta na forma prática do relógio, e na graciosa do alfinete de gravata.

Foi só na rua, já dentro do bonde de segunda classe, que ele meditou na disparatada composição do seu vestuário. Se lhe acontecesse algum; desastre e o tivessem de despir na Assistência, que pensariam os médicos?

A hora regimental da abertura da fábrica já ele lá estava no pátio, ao lado dos outros operários, que o observavam com curiosidade. Tinha arranjado o seu lugar por intermédio de um amigo que era o maior acionista da empresa, e a quem confiara o seu segredo. Estava garantido. Exagerava, apesar disso, na sua inexperiência de mau ator, uma certa timidez, e chegou mesmo a confessar a um velhote que o abordara, o seu receio de não conseguir aprender o ofício em pouco tempo ...O velhote deu-lhe conselhos, enquanto uma rapariguinha baixa, de nariz grosso, olhava com espanto mal dissimulado, para o polimento das suas unhas. Sinésio percebeu a estranheza e dobrou os dedos, disfarçadamente, mas já a operária tinha cotucado uma companheira, que o observava também.

Dentro, a hora do trabalho, o barulho, ensurdecia-o e o cheiro da lã bruta passando pelas cardadeiras, dava-lhe náuseas. Aquela oficina era infernal!

À saída, agregou-se jeitosamente a um grupo de operários e procurou faze-los falar.

Queria saber como era a sua vida; se estavam satisfeitos e se eram amiguinhos do patrão...

Um abriu a boca numa gargalhada, outros voltaram para ele olhos de espanto; só o velhote respondeu:

—Que diabo! o patrão sempre é o patrão. Este não é mau, mas percebe-se muito bem que ele não montou a fábrica para ser amável para com os seus operários, mas só e exclusivamente para ganhar o seu rico dinheiro. Faz o que fazem todos: para tirar o máximo do lucro obriga a sua gente e as suas máquinas ao máximo do esforço. Olhe, eu estou até aqui, e apontava os cabelos, mas que hei de fazer? Deixar crescer as unhas, para depois entreter-me a roê-las quando tiver fome...

— A minha esperança, continuou um outro, é que a raça dos patrões venha a acabar um dia, e à pena que tenho é que esse dia não seja este que nos está alumiando ...

— É melhor mudar de conversa, disse um prudentemente, quando já um quarto continuava:

—Quando a gente reclamava aumento de salário e diminuição das horas de trabalho, vinha logo o gerente com afirmativas patuscas de que a fábrica estava dando prejuízo, mas a verdade é que o patrão só andava em automóveis de luxo e as folhas falavam do brilho do: seu palácio e das joias da sua mulher...ou das suas mulheres! Só a uma criatura presenteou ele com um par de brincos no valor de vinte e dois contos de réis! Que felicidade terá essa senhora andando com as orelhas a alumiar como estrelas quando no escuro sofrem tantas mães e há tantas crianças que nem vão à escola por falta de sapatos?

Um silêncio pesado, de comoção, aferrolhou a boca aos operários e Sinésio abalado, absorto, tirou irrefletidamente do bolso a sua linda cigarreira de prata e com o mesmo gesto maquinal estendeu-a aos camaradas, para que se servissem... Estes entreolharam-se com espanto. O velhote piscou para os mais moços; estavam entendidos: falavam com algum emissário da Diretoria ou com algum repórter disfarçado que os poderia comprometer relatando ao público os seus desabafos.

E o grupo tratou de se dissolver, deixando Sinésio com a cigarreira aberta entre os dedos...

VIII

Convencido agora de que cada indivíduo vê a sociedade por um prisma diferente, segundo a sua situação, Sinésio preferiu procurar nos livros a orientação desejada. Começou então, a abarrotar o quarto de brochuras filosóficas, no agudo empenho de aperfeiçoar com elas as qualidades secundárias do seu espírito.

O criado, coitado, já não sabia em que escaninhos de moveis esconder as obras que o amo abria, folheava e deixava cair dás mãos enlanguescidas...

Havia perto de dois meses que Sinésio se agitava no desespero de atinar com um novo rumo para a sua vida, e essa agitação, se o irritava também o distraía. De tal modo que ao comparar os dias presentes aos anteriores estes lhe pareciam vagos e desinteressantes. O seu passado de jogo sem paixão, amores sem delírio, atonias de vida mundana sem requintes de espírito enchia-o de tédio. A sua obsessão agora era o Rufo. Supunha que todo o brilho da sua carreira fora devido exclusivamente à pobreza em que os pais o haviam deixado e capacitava-se de que a sua felicidade estaria na desgraça de empobrecer, para lutar de verdade, como o primo lutara ...

Mas no dia seguinte, depois de um sono gostoso e de uma ducha deliciosa, tomou a resolução de voltar à sua vidinha despreocupada. Que se mirasse no infinito o espírito do velho milionário D. Juan Ramon com as suas teorias absurdas de que é a pobreza que subtiliza e requinta as qualidades espirituais do homem; ele verificara por seus próprios olhos que o sofrimento da pobreza só gera queixas e mal humor; e, colocando airosamente a sua pérola rósea na gravata escura, deliberou ir jantar com o Rufo num restaurante.

O jantar foi de uma grande insipidez. Rufo só falou de si, do seu romance, das suas crônicas, dos seus inimigos, das intrigas e das perfídias dos seus colegas do jornal, (umas bestas!) das exigências da amante e do nojo que lhe inspirava esta sociedade banalíssima e ainda por cima hipócrita. Se ele tivesse a fortuna do primo, há muito que não estaria no Rio, mas em Paris. « É a única cidade do mundo em que a gente de espírito pode viver, filho! »

Sinésio resmungou, remexendo vagarosamente a sua canequinha de café:

— Talvez pense nisso mais tarde, quando as viagens forem mais cômodas ...

Rufo levantou os ombros com escárnio.

— Deves primeiro pedir ao teu médico que te examine bem o coração e o fígado. Tens olhado tanto para dentro e, entretanto, talvez não saibas bem em que estado tens esses órgãos ...

— Sei. Estão magníficos; a cabeça é que talvez se tenha transtornado um pouco ...

E Sinésio desabafou:

Capacitava-se, agora que olhava para tudo com os olhos mais abertos, de que a humanidade ainda é supremamente estúpida, e que os contingentes de dor e de alegria que ela deve fornecer ao mundo para a realização da harmonia perfeita, para a qual caminhámos ás cegas e de que estamos tão longe, são-lhe oferecidos numa inconsciência deplorável

Rufo voltou para ele olhos de espanto. Sinésio declarou com vibrante convicção:

— Por mim sempre te direi que estou farto. Este marasmo bestializa-me, este bem-estar sufoca-me. Decididamente preciso empobrecer, preciso chorar. Falta à minha consciência o exercício da lágrima, que é fecunda... Não imaginas a inveja que me causam os homens preocupados, cheios de responsabilidades. Estou cansado de flutuar, de ser borboleta em céu azul. Não me olhes com esse espanto, estou a falar com a maior seriedade. Há três meses, desde aquela malfadada consulta do Tenente, que ando a estudar coisas, a meter o nariz em negócios alheios na esperança de me interessar por qualquer deles, e, entretanto, não consigo senão a certeza de que tudo é ilusório, quando visto por fora, e supinamente desconsolador quando observado no âmago. Será porque a minha visão de homem rico, de mero espectador das coisas me faça sentir erradamente. Talvez. O que é facto é que a vida que eu vivia antes já me não serve. Acho-a estúpida. Tinhas razão quando me dizias: — O Rio não é ainda cidade em que um homem de espírito possa viver sem trabalhar.... Mas que espécie de trabalho haverá para mim? Certamente que eu não hei de ser calceteiro, nem condutor de veículos públicos, ou coisa semelhante, e para profissões superiores falta-me o nervo.

Elucida-me!

— Perfeitamente: troquemos. Dá-me a tua bolsa e eu te darei a minha mesa de trabalho com todas as suas responsabilidades...

— Não tenho o teu talento, bem o sabes. Eu não me enganaria só a mim com essa troca: enganaria também o teu jornal.

— O homem impoluto! fica sabendo que enganar é o lema da sociedade moderna. Sempre os homens mais considerados são os mais enganadores. Depois, para o, como tu dizes, — meu jornal — ter talento é qualidade secundária; o que ele aprecia é a maleabilidade, a obediência, é a facilidade de adaptação. Com um pouco de ginástica nesse sentido arranjarás o que quiserem.

— Mas tu não és maleável.

— E quem te disse que o dono do meu jornal me aprecie, a mim? Utiliza-me apenas. Mas falemos de ti.

Todos os rapazes têm as suas crises de neurastenia. Quando a gente trabalha, os médicos dão isso o nome de — surménage, quando não trabalha, o de anemia. Um pouco de ar puro, um passeio pelo estrangeiro ou pelas montanhas, bastam para fazer desaparecer tudo. É o que tu precisas. Vai a Buenos Aires é uma cidade rica e cheia de mulheres belíssimas... Se te enfada ir só leva-me contigo. É este o melhor conselho que te posso: dar.

— Não estou com disposição de viajar...

— Quando te levei ao Tenente, fora de horas e em noite agreste é porque eu, como aliás te disse, desejava estudar uma cena para o meu romance. Quem te falou em D. Ramon e no seu testamento?

—Tu.

— Eu. Pois D. Ramon só existiu porque o inventei. E assim, fica sabendo que suspeitaste a verdade quando um dia disseste teres julgado que ele falara pela minha boca.

— Mias por que fizeste semelhante coisa?

— Porque tendo de descrever uma cena idêntica, eu quis ter antecipadamente a certeza da sua veracidade. Pus na mão do Tenente a espórtula do silêncio e falei livremente. Na minha novela o papel que representaste é desempenhado por uma viu- vinha, crédula como todas as mulheres, e temente do sobrenatural, como toda a gente. E o papel que eu representei é feito por um homem que a deseja como um louco e só por esse meio logra convencê-la a ser sua amante.

— Então o patife do D. Ramon? ...

— Não! Dessa vez quem falou do outro mundo foi o próprio marido da viúva! E agora que te pus ao corrente de tudo, dize-me, sentes vontade de bater-me?

— Nenhuma. Embora não sinta também a de abraçar-te, porque o que acabaste de me dizer não altera em nada a questão. Autêntico ou imaginário, o que me disse o teu Ramon já produziu o seu efeito.

— Mas o que ele te disse foi uma banalidade que só logrou impressionar-te pelo mistério em que veio envolvida. Esclarecido o assunto para que pensar mais nisso? Estás-me desgostando, Sinésio!

— Ao contrário, devo estar a dar-te uma intensa alegria, visto que a situação em que me encontro é produto da tua inventiva de romancista. E ela é tão viva que estou até com vontade de pedir-te permissão para mandar fazer no cemitério um mausoléu piara o teu D. Ramón, com epitáfio em letras de oiro ...

— Pois permito, tanto mais que também eu já começo a crer nesse cavalheiro... E agora adeus, que tenho pressa. Vai almoçar comigo amanhã ao meio dia. Espero ter a dizer-te alguma cousa interessante e que talvez abrevie a realização do teu desejo de empobrecer...

Eram dez horas e Sinésio ainda em pijama passeava os olhos vagamente pelo jornal, quando o chamaram ao telefone. Era o seu corretor que lhe dizia com voz alterada:

— Sinésio?

— O próprio.

— Olhe, acabo de saber que o Gustavinho deu um desfalque de quatrocentos contos ao Tesouro e que fugiu. Se você não quiser perder os seus cem contos da fiança precisa providenciar quanto antes!

Sinésio deu um berro; o outro continuou:

— Talvez o seu primo Rufo lhe possa valer, ele é jornalista da oposição e como tal muito considerado no ministério. Não perca tempo, vá falar-lhe. Adeus.

X

Sinésio gritou pelo criado que o viesse ajudar a vestir-se e em poucos minutos chegava à casa do primo.

Rufo espantou-se:

—Já!

— É que preciso de ti. O Gustavinho fugiu, sabes? deu um desfalque de quatrocentos contos, fazendo-me perder a fiança, o ladrão! Só tu me podes salvar. Foi o que disse o Anibal, que entende dessas coisas. Cem contos! não é brincadeira. É a quarta parte da minha fortuna. Miserável! não se pode ter bom coração. Mas não olhes assim pata mim, não percas tempo, move-te! Lembra-te que não se trata de uma ninharia. São cem contos, que eu não posso, que eu não quero perder!

— Ser pobre era ainda ontem o teu ideal...

— Fantasias, tolices!

— Sim, meu caro, fantasias, tolice, porque ainda não se conhece no mundo nada melhor que o dinheiro!

— Está claro!

E os dois primos se precipitaram para a rua, na ânsia de salvarem a fiança perdida...

O Laço Azul

I

Mal o Dr. Sérgio Bastos tocou a campainha de um portão à rua Haddock Lobo, viu através das grades, aparecer a chapa iluminada de um avental branco.

— O Sr. Isidoro Nunes está?

— Sim, senhor... A quem devo anunciar?

O Dr. Sérgio tirou vagarosamente da algibeira o seu cartão, entregou-o à criada e caminhou atrás dela pelo jardinzinho, onde floria uma ixora rubra.

Mal diria ele que no fim de quarenta anos de apartamento, teria de procurar o Isidoro para um caso tão particular e tão melindroso... Considerou com olhar experiente e disfarçado o exterior da casa, que não lhe pareceu má, reconstruída há pouco, com as suas cinco janelas bem rasgadas sobre uma varanda ladrilhada, guarnecida de trepadeiras.

A criada acomodou-o na sala e sumiu-se. Ele ficou a um canto do sofá, com a cartola nova entre os dedos cuidadosos, os pés bem calçados reluzindo sobre o tapete, o queixo enterrado entre as dobras do colarinho. Meditava:

Que terão feito estes quarenta anos ao Isidoro? Lembrava-se mais do seu caráter que da sua figura, as feições escapavam-se lhe da memória, talvez as confundisse com as de outros... agora dos seus hábitos de docilidade e ao mesmo tempo de curiosidade miudinha, é que não.

Se bem se lembrava, chamavam-no no colégio o Sabe-tudo — pelo motivo de que o Isidoro, está sempre a par de todos os acontecimentos da casa; desde os mais importantes até aos mínimos. Taí professor fora censurado discretamente, no escritório fechado? Ele sabia-o. O diretor hipotecara o prédio para acudir a despesas imprevistas? Sabia-o igualmente; como sabia que tal criado fora substituído... tal menino de Campos recebera tantas latas de goiabada enviadas pela mãe, como outro de Pernambuco tantas de cajú cristalizado, mandadas pela tia. Dir-se-ia que os factos chegavam ao seu conhecimento, naturalmente, sem que ele os tivesse procurado conhecer por mexericos e confidências. Para castiga-lo daquela mania de bisbilhotice e para ter comodidades à custa alheia, quantas vezes ele, que ali estava agora confuso e impressionado naquele canto de sofá, fizera do Isidoro, já mocinho, já buçando, gato-sapato nas diabruras do colégio! Pusera lhe então à prova a docilidade.

Era o pobre do Isidoro quem o livrava dos encargos aborrecidos de fazer a cama, escovar a roupa lavar os pentes, engraxar as ...

Uma porta rangeu. O Dr. Sérgio levantou-se dois braços magros, cobertos de brim claro, abriram-se diante dele.

Os quarenta anos tinham feito alguma coisa em ambos: saudades. Talvez não fosse positivamente saudades um do outro, mas do tempo da vida em comum no pensionato. O abraço foi longo e mudo. Depois os dois homens sentaram-se, observando-se    ainda com um sorriso nos olhos úmidos.

Dir-se-ia que cada um deles encarnava a mocidade do outro, e eram já ambos encanecidos; Dr. Sérgio, com suicinhas brancas, sem bigode, Isidoro Nunes de bigode, branco também.

— Que surpresa l

Dr. Sérgio perguntou então ao amigo como se pudera lembrar dele, depois de tamanha ausência...

— Homem, se eu lhe fizesse essa pergunta, vá!... mas você, que fez um nome brilhante, que se tem posto em evidência!... Assim, sei em que ano se formou em S. Paulo... em que ano casou com uma senhora da família Bernardes, de Vassouras, fazendeira e muito formosa, de quem é viúvo... sei que se entregou à lavoura de corpo e alma e que tem escrito obras importantes sobre agricultura... O que eu não sabia, nem podia prever, é que se lembrasse de mim e viesse um dia bater à minha porta!

Decididamente é o mesmo homem! pensou o Dr. Sérgio; e logo respondeu, com um sorrizinho fino:

— Pois eu também não me esqueci, e a prova! é que aqui estou, um pouco pasmado de que o amigo saiba de mim mais do que eu quanto às minhas obras, que, longe de serem importantes, são uns pequenos ensaios de pomologia... O mais está certo. Acrescentarei que tenho um filho de vinte três anos, oficial de marinha, forte, inteligente, bonitão, é que nele concentro toda a minha felicidade,

— Também sabia ...

— Ah!...

— Sei tudo. O seu rapaz é muito considerado! muito distinto. Vou chamar minha mulher. Ela vai ficar contente, porque já o conhece através da minha amizade. Fui sempre muito seu apreciador, você era um rapaz encantador às vezes aborrecia-me, abusava... mas, enfim, rapaziadas!

Riram-se ambos.

Sim, rapaziadas! também a ele, os outros o que faziam!

— Não: a você não! Toda a gente o respeitava, até os grandes!

Ele é que fora a vítima... só uma manhã engraxara dez pares de botinas! Os rapazes são perversos. Pois não guardava rancor por nenhum. Até se ria... e de mais de um vingara-se depois... sabia como? dando-lhes dinheiro para botas, quando os encontrava na rua com os dedos de fora.

— Sim, alguns estão na miséria ...

— Outros no galarim ...

— O Barbosa é ministro.

—E o Castro, lembra-se, aquele a quem chamavam Zebrinha? — bebe como uma esponja e pede dinheiro aos conhecidos, nas esquinas...

— Pois esse era rico...

— Talvez por isso. Homens querem-se criados na necessidade dura. Como eu... como nós dois, que ambos comemos o pão que o diabo amassou, eu no comércio, e você na sua banca de advogado, onde nos primeiros anos teve bem grandes contrariedades.

Dr. Sérgio arregalou os olhos.

Isidoro continuou:

— O que o salvou foi a intervenção do Roxo na questão com o Borlido e aquele negócio do carvão. Você advogou admiravelmente bem aquela causa! Bem vê que o não perdi de vista...

— Realmente!

— A minha memória ainda regula... Bem, vou chamar agora minha mulher. Você talvez tivesse conhecido a família do meu sogro: Ele era filho do barão de Filgueiras, não se lembra? ...

— Não me recordo ...

— O corretor Filgueiras, muito conhecido na praça ... um ruivo, gorducho!...

— Não tenho ideia ...

— Bom homem... Um momento. Vou chamar minha mulher ...

D. Angélica parecia ter ouvido de trás da porta o seu nome; apareceu logo. Era uma senhora alta, gorda, já grisalha, com óculos de ouro e vestido de ramagens sobre fundo escuro. Toda a sua doçura estava no sorriso bom, acolhedor, e na pele muito branca, ainda fina.

O dono da casa foi abundante de adjetivos na apresentação da sua querida companheira de trabalhos e de alegrias e também do caro amigo de infância, a quem reservava uma surpresa... Dr. Sérgio estranhou lá consigo, falou ainda um bocado de reminiscências e teve por fim de explicar o motivo da visita. Pediu então segredo.

Isidoro levantou-se e foi correr o reposteiro da esquerda. D. Angélica fez o mesmo ao da direita e voltaram a sentar-se, ardendo em curiosidade, quando uma voz moça, muito clara, cantarolou na sala próxima um trecho da Cavalleria Rusticana.

— Bonita voz! observou o advogado.

— Ha de ser a Lucila ... afirmou, sorrindo orgulhosamente, Isidoro.

— Talvez seja a Madalena... retrucou D. Angélica.

Estiveram um momento à escuta. A voz calou- se. Dr. Sérgio começou:

— Minha senhora, pomo aqui o meu bom amigo está informado, eu sou viúvo, tenho alguns bens de fortuna, boa disposição para aumentá-los, melhor saúde e um filho bem encaminhado, rijo e tido por um modelo entre os rapazes. Vivo no campo e, tanto quanto eu agora me destinei à terra, o meu Raul se dedicou ao mar. O ideal é outro, mas a pertinácia é a mesma. Guarda-marinha, deve partir com a sua turma, de hoje a vinte dias, em viagem de instrução.

Estava combinado que meu filho fosse despedir-se de mim à fazenda, quando há dias recebi dele este telegrama...

Dr. Sérgio desdobrou com o seu gesto pachorrento um papelinho e ofereceu-o a D. Angélica. Ela leu alto:

«É indispensável a sua presença aqui. Venha já. — Raul»

O telegrama não explicava cousa nenhuma; D. Angélica entregou-o aberto ao advogado, com ar meio estúpido e interrogativo.

Ele sorriu. Iam saber.

— Quando recebi este telegrama, imaginei tudo, menos a verdade. Supus o meu rapaz em véspera de alguma operação grave, que requisitasse a minha presença; ou envolvido num desses dramas modernos de amores complicados, ou arriscado a algum duelo... Enfim, precipitei-me para o Rio, formulando as hipóteses mais disparatadas e mais perturbadoras. Ao abraçá-lo, pela primeira vez, em minha vida, depois que ele é homem, o meu filho, chorou. Bambo, apatetado, eu nem ousava interroga-lo... até que ele se declarou. Estava apaixonado!

D. Angélica suspirou de alívio. Isidoro interrogou com interesse:

— Paixão pura... paixão...?

— Perfeitamente lícita. Meu filho: é o protótipo da honestidade; não confessaria uma paixão reprovável... Como ente humano, nunca o julguei isento das maiores dores humanas, mas dessa quis Deus poupá-lo, e eu dou-lhe graças. O amor de meu filho é pôr uma moça solteira, a quem ele deseja ligar o seu destino. E embora parta de hoje a vinte dias, quer embarcar deixando aqui não a sua noiva, mas a sua mulher. Há casos, vê-se, em que é melhor a certeza que a esperança! Minha senhora, quando meu filho me disse o nome do pai dessa moça, meu coração palpitou com mais força.

Era o de um velho amigo! E foi por isso que ousei vir, desacompanhado, bater à sua porta. Consente em que sua filha case com meu filho?

D. Angélica tornara-se lívida e muda.

Isidoro torceu nervosamente a ponta do bigode, e interrogou com voz engasgada:

— Qual delas?

— Qual delas! Chegou a vez do Dr. Sérgio ficar interdito. E depois:

— Julguei haver, só uma... Pelo menos, meu filho só conhece uma!

— Talvez conheça as duas ...

— Ora essa! Ele supõe até que seja filha única! lembro-me que me disse, e até com estes sinais: altura regular, delgada e loura...

— É exato... mas isso ainda não nos esclarece suficientemente. Meu caro amigo, há uma grave complicação na minha família; um caso irremediável, e cujas consequências não podemos prever...

— Como? ... murmurou ó Dr. Sérgio apatetado.

— Seu filho pensa amar uma das minhas filhas, mas talvez ame as duas. São iguais. Tão iguais que os olhos da própria mãe ás vezes as confundem

— É das boas mães confundir os filhos, observou o advogado. A minha sempre me dava a mim o nome de meu irmão e a ele o meu!

D. Angélica voltou à vida, de que parecia suspensa, por uma sacudidela nervosa e observou:

— Não é só o meu amor que é igual por ambas, elas também o são entre si de corpo e de alma... O que uma pensa a outra pensa, o que uma deseja, já a outra quer! Uma dessas ideias piás, ou enfadonhas, que nos indispõem muitas vezes com nós mesmos, falas por vezes aborrecerem-se e fugir cada qual para o seu lado, como parasse livrarem de si próprias. De tal modo uma é o espelho da outra que os seus gestos são os mesmos e o mesmo o seu modo de vestir. Há singularidades notáveis nas suas aptidões e preferências: gostam das mesmas frutas, odeiam da mesma forma o amarelo e o violeta, bordam com igual perfeição, a letra é absolutamente semelhante, e o seu modo de exprimir o pensamento é idêntico, o que faz com que uma pareça o fonógrafo da outra! Desde pequeninas que são assim; ainda estavam no berço e eu, já me via tonta para satisfazer a ambas no mesmo instante... Desde esse tempo que eu pensava com susto nesta hora terrível, que havia de chegar... e que chegou!

D. Angélica não pode reter as lágrimas. O marido acudiu:

— Infelizmente a vida não se passa sempre nos berços... Resigna-te... O essencial é saber qual delas deve abandonar primeiro o ninho. O noivo é sério, é trabalhador, de boa família, chegou a ocasião de se ir uma embora. Que vá. Eu não as quero para freiras. É a vida. A mãe tem medo de mata-las, separando-as. Meteram-lhe isso em cabeça... realmente são tão unidas... há de custar-nos a todos ... mas enfim, ainda este casamento proporciona a vantagem dela nos ficar em casa, depois de casada, como se o não fora... Durante esse tempo... um ano, talvez? ... ir-se-ão acostumando à ideia da separação. Por mim estou contente e aprovo.

D. Angélica assoava-se, limpava as lágrimas, desafogava-se.

O marido continuou, voltando-se para o amigo:

— Deste fenômeno não deixa minha mulher de ter, talvez, certa culpa, coisa que só a ciência poderia determinar, se soubesse responder a tudo quanto se lhe pergunta. Imagine que a Angélica é de uma família em que vários membros têm filhos gêmeos, e que, mal se casou, pôs-se a desejar! que o seu primeiro parto fosse de gêmeos e que esses gêmeos fossem meninas, e loiras e tão parecidas que se confundissem entre si! Ora, todos os outros gêmeos da família são casais e são trigueiros. Não teria a sua vontade tido influência neste caso fisiológico?

O Dr. Sérgio abanou a cabeça, para exprimir a sua ignorância. E depois, para fugir do assunto:

— O que não, posso compreender...é como meu filho ignorasse isso, e não tivesse nunca visto senão uma das meninas!

— Eu explico: antigamente, quando saíamos com as duas, eram tantos os comentários, as olhadelas, as observações, que nós, vexados, adotámos o sistema de sair só com uma. Quando vai a Lucila, fica a Madalena; quando vai a Madalena, fica a Lucila... Seu filho talvez conheça as duas, julgando conhecer uma. A minha esperança é que ele possa determinar, pelo lugar em; que a viu pela primeira vez, qual das duas terá de ser sua mulher... caso não haja já correspondência. Isto de moças pregam-nos às vezes cada peça ... por maior que seja a vigilância...

Sou difícil de enganar: sei tudo... todavia não estarão as cousas mais adiantadas do que supomos?

— Assim estivessem; mas não estão. Meu filho, que é tão arrojado em tudo mais, é um tímido em questões de amor. Disse-me que não se atreveu a declarar-se e nem se aventuraria a pedir a menina, por quem morre de amores, se não tivesse de partir agora. Assim, disse-me ele, se me derem um — não, ninguém mais me porá aqui a vista em cima; se me derem o — sim, partirei feliz! Parece que houve troca de sorrisos... olhares.... não passou disso. Um nada para uns, a existência para outros... Meu filho é dos últimos. Extremamente sensível...

D. Angélica continuava sucumbida, olhando para o vazio da sala, como se quisesse sondar o futuro.

Dr. Sérgio mudara também de aspecto.

Cravara-se-lhe uma ruga funda entre as sobrancelhas. Ouvir-se-ia voar uma mosca. De repente, Isidoro cortou decididamente o embaraço:

— Traga cá amanhã à noite o seu rapaz: previna-o primeiro como entender, da extravagancia da situação. Entretanto nada direi ás minhas filhas, para as não sobressaltar nem fazê-las passar por um vexame, caso seu filho desista... Se ele não desistir, nem souber determinar positivamente o dia em que viu a menina pela primeira vez, cada uma das pequenas virá por sua vez à sala e a sua comoção decidirá da sua sorte... A surpresa que lhe anunciei era exatamente a apresentação delas. Já agora fica tudo adiado para amanhã. Ainda mais uma explicação: se seu filho desistir, o amigo virá sozinho e o segredo ficará entre nós. Que tudo se decida, sem hesitações nem demoras.

D. Angélica teve um olhar súplice. Isidoro respondeu-lhe, com expressão penetrante:

— Até lá, silencio!

II

— Digo-te que estás apaixonado por duas mulheres e que, na impossibilidade de casar com ambas, é mais acertado não casar com nenhuma... Não me olhes assim, que não estou doido; é a verdade. Também a mim nunca a verdade me pareceu tão absurda nem tão, estorvadora! A personalidade da tua amada desdobra-se noutra completamente igual! Ora, como para o amor a mulher precisa ser única — estas não te servem, a menos que não queiras criar embaraços futuros de muita gravidade. Conforme me disseram os pais, e não é crível que sofram ambos desse defeito de óptica que duplica as visões, uma é o espelho da outra, tanto em perfeições de corpo como em defeitos ou qualidades de caráter ... Para evitar comentários e olhadelas indiscretas, quando a família sai a passeio uma dás meninas fica em casa. Revezam-se nos divertimentos. Assim, conhecerás uma só? ... Conhecerás as duas?... Não sabes?... Nem eu!

— Sei! Sabe-o ela também. O meu amor não a pode confundir! Mas que noticia me trouxe! Como foi, como foi? Conte-me tudo! E era para isto que eu o esperava com tanta impaciência!

— Devagar, descansa. Estás aceito como marido de uma delas, o que já era previsto e não te deve surpreender; o caso agora é saber qual das duas terás de escolher.

— A que eu vi! A que eu amo!

— Viste-a uma vez só?

— Várias vezes ...

— Logo, ora uma, ora outra ...

— Não. Bastará que os nossos olhos se encontrem para que tudo se aclare, verá. As nossas almas já se compreenderam ...

— As delas são iguais ...

— Não creia; exageraram: mentiram. Não há duas folhas iguais numa árvore; é absolutamente impossível haver duas pessoas assim numa família. Desde que os pais consintam no casamento, não será por causa disso que eu desista da minha felicidade!....

— Mesmo que sacrifiques a de outrem?

— Não sacrificarei a de ninguém. Quem diz que a outra me ama? E se assim fosse? Que me importaria; antes um sacrificado do que três! Eu amo uma, sou amado de uma, o resto do mundo é-me indiferente.

— Agora.

— Sempre. Toda a gente tem amores desencontrados, paixões a que não corresponde. Ai de quem não é correspondido ... os sacrificados calam-se; os vitoriosos gozam. Eu sou vitorioso.

— Escuta ainda a voz da prudência. Se tu pudesses levar tua noiva contigo para bem longe da outra, ainda vá. Mas tens raízes aqui... onde ela tem as suas entrelaçadas às da irmã... Evita o perigo. Para que és homem?

— Para tirar da vida tudo quanto eu queira que a vida me dê! Depois, previno-o, meu pai, de que serão baldados todos os esforços para me separarem desta ideia. Lembre-se de que fui sempre um obstinado e saiba que o desejo de ser o marido daquela mulher me poria doido se o não realizasse!

— Quem nos diz que não desejes as duas? Vias ora uma, ora outra, cuidando ver sempre a mesma... Desta, guardas um sorriso que te encantou, mas já dá outra um olhar que te enterneceu ... casando com uma, lamentarás não ter casado com a outra ...

— Não.

— Pensa bem; abre os ouvidos ao meu conselho Lembra-te de que sendo tal a semelhança entre as duas meninas, tu acabarás depressa ou por te enfadares da tua, ou por amares a ambas, o que ainda é mais inconveniente... Vale mais fugir, e já.

— Nunca. A minha mudará. Quando eu voltar da minha viagem ela talvez já tenha a mais o encanto da maternidade... Mas para que perder palavras? Conheço a que amo... ela conhece-me. Quero-a. Acabou-se...

— És um obstinado, como todos os namorados da tua idade, mas eu ainda assim apelo para o teu critério de homem sensato, para pesares as contrariedades prováveis, as situações embaraçosas que te reservará semelhante enlace. Calcula o enjoo, o tédio, que deverá causar a convivência de uma criatura que vive ao lado de outra, em tudo, sua semelhante!...

— Quando elas sejam perfeitas!

— Perfeita é a Bíblia, e que prazer proporcionaria uma biblioteca, em que não houvesse senão exemplares dessa obra, na mesma edição!

— O leitor afeiçoar-se-ia a um desses exemplares, um único, e não faria caso dos outros... Quando me apresentará na casa, logo?!

— Amanhã.

— Como tarda!

Chegou a hora da apresentação, tendo parecido as suas precedentes longas ao filho, curtas ao pai. Pelo caminho, mais de uma vez o moço exclamou, num desabafo feliz: — Vou vê-la! Ao que o velho corrigia, com um fiozinho de ironia triste: — Vais vê-las...

A sala estava iluminada, à espera.

D. Angélica e o marido, em trajes de cerimônia, e as meninas lá dentro, com ordem de não virem à sala senão quando chamadas. O acolhimento ao noivo foi constrangido; ele estava gelado, estúpido; foi necessário que o pai falasse por ele, como no primeiro dia que o levou à escola.

Isidoro tinha o seu plano; fez sentar as visitas, procurou animá-las com meia dúzia de frases alheias ao assunto, até que achou jeito de perguntar ao moço:

— Quando conheceu minha filha?

— Numa quermesse... no Parque ... sentamo-nos perto, ouvindo tocar os ciganos...

— Foi a Madalena! exclamou Isidoro.

— Estás enganado, foi Lucila, objetou D. Angélica.

— Adeus, adeus!

O noivo, ardendo por decidir a dúvida, informou:

— Ia toda de branco...

— Não é sinal. Andam sempre de branco, por motivo de uma promessa da mãe.

Entreolharam-se como a pedirem uns aos outros inspiração para resolver o embaraço, quando o advogado interveio:

— Parece-me mais simples chamar a moça; não será já tempo de a consultar?

— É cedo ... respondeu Isidoro. Você não imagina a afinidade de sentimentos que há naquelas criaturas... Sejamos cautelosos e procuremos tocar no ponto justo. Tenho o meu plano. A mãe vai lá dentro e perguntará, como cousa sua, qual das meninas nos acompanhou ao Parque, a ouvir os ciganos, na noite da quermesse... Essa virá primeiramente à sala. Assim a primeira impressão, e que foi naturalmente a mais forte que o noivo recebeu, designará o nome da noiva.

— Perdão, as minhas impressões eram cada vez...

Isidoro fez um gesto, expressando, com a maior eloquência, a necessidade do noivo interromperão desabafo; e já D. Angélica desaparecia pelo corredor, para desempenho da sua comissão.

— Muitas vezes o palco me tem dado a ilusão da vida; pois afirmo que é a primeira vez que a vida me dá a impressão do palco... comentou o Dr. Sérgio, coçando as barbinhas brancas. Só me falta ouvir o meu filho cantar neste intermezzo uma arieta de Planquette ... o mais está em termos... e olha Raul, que estás hoje com cara de tenor!..."

Isidoro achou intempestivo o gracejo. O filho também não gostou. Suava frio. Os minutos pareceram-lhe longos, até que viu D. Angélica voltar e dizer da porta com ar constrangido:

— Foi a Lucila.

Aquele nome cortou o silêncio, como um raio de luz a escuridão.

— Nesse caso é a Lucila a noiva. Veem, como foi simples? O senhor viu-a na quermesse... está bem certo que foi lá que a viu pela primeira vez?

— Oh, senhor, sim!... e depois vi-a na...

— Não diga mais nada! Foi na quermesse: é a Lucila. Chama-a, Angélica, tem paciência.

— Por que não hão de vir as duas? Aventurou o Dr. Sérgio.

D. Angélica opôs-se. Seria bom retardar à Madalena esse desgosto...Viviam tão unidas...

— Ora que tolice! Vocês são de uma sentimentalidade piegas. Ela há de saber por força! Mais um minuto ou menos um minuto, que importa? observou-lhe o marido.

— É mais um minuto de felicidade!

— Pois chama lá só a Lucila... Olhem que não conheço nada menos prático do que o espírito das mulheres. Esta, seria capaz de passar uma semana sem comer, só para que não faltasse nem uma migalha nas costumadas guloseimas das filhas. Diz ela que o supérfluo, desde que dê prazer, é necessário! E sacrificar-se-ia de boamente, para que não faltassem às pequenas esses supérfluos necessários!

Raul não ouvia nada; tinha os olhos fixos na porta por onde havia de aparecer a noiva. A seu lado os velhos conversavam e o som das suas vozes empastava-se na mesma toada confusa e sem sentido. Ela tardava, e ele impacientava-se por vê-la de perto, ouvir-lhe a voz, tocar-lhe na mão.

De repente, um vestido branco iluminou a sala; ele levantou-se deslumbrado; Lucila estava na sua frente.

Dr. Sérgio, que observava a moça, notou-lhe um estremecimento de surpresa alegre ao deparar com o oficial de marinha. É ela e ama-o, pensou o velho, satisfeito.

Isidoro falou:

— Minha filha...o Sr. Dr. Sérgio Bastos, me velho amigo de infância, vem pedir para seu filho a tua mão. Nada posso responder sem conhecer teus sentimentos. Dirás se queres ou não ser sua esposa...

Lucila corou, voltou-se para a mãe, lançou-lhe os braços ao pescoço, sumiu o rosto nas rendas da sua blusa, e foi afogada no seio materno que suspirou sim.

Estava linda. Rejubilaram-se todos.

Só D. Angélica empalidecera. O pai puxou Lucila pela mão, aproximou-a do noivo, e para assegurar-se bem:

— Lembras-te da primeira vez que viste este senhor?

— Sim... foi no Parque... tocavam os ciganos, estava uma noite linda!

— É isso mesmo. Concorda! E da segunda, minha filha?

— Foi no Passeio público ...

— Perdão, foi nas regatas... Lembra-se? eu estava perto do pavilhão, e a senhora deixou cair uma rosa ... tenho-a aqui, como testemunho...

— Eu não fui às regatas; foi minha irmã...

Isidoro achou prudente tossir, fazer barulho, desviar o curso das reminiscências. Começou a falar do futuro. Urgia marcar o dia do casamento. O noivo partiria dentro de poucos dias para uma viagem de oito ou nove meses.

Uma atrapalhação! E agora era tratar, do enxoval, dos papéis, e decidir se o casamento deveria ser à capucha ou de que fôrma, e que fossem chamar a Madalena para a comunicação da novidade!

Lucila precipitou-se para o corredor; a mão da mãe reteve-a:

— Vai para-a saleta do piano preparar as músicas. Cantarás para o teu noivo ouvir. Lucila obedeceu com tristeza, compreendendo a intenção da pobre senhora.

Ela não queria confrontar as duas filhas em situações diferentes.

Criadas pelo mesmo beijo, destinava-as ao mesmo destino; no fundo da sua alma religiosa latejara sempre a esperança -de ver as duas, esposas do mesmo esposo, na paz suave de um só convento...

Ainda a Lucila estava na sala e já Isidoro gritava pela Madalena.

— Madalena! Madalena!

Mal uma se sumia quando a outra apareceu: o mesmo clarão do vestido branco, o mesmo fulgor do cabelo, loiro, o mesmo sorriso escarlate, o mesmo gesto de surpresa alegre ao deparar com o guarda-marinha na sala.

Dr. Sérgio coçou as suíças nervosamente. Raul sentiu um baque no coração, Isidoro mudou de aspecto e de voz:

— Minha filha, o Dr. Sérgio Bastos, meu amigo de infância, acabou de pedir para seu filho Raul, a mão de tua irmã...

Madalena sentia-se só, no meio da família em

Madalena empalideceu, os olhos encheram-se-lhe de água, mas ficou imóvel.

O passo difícil fora transposto.

Isidoro, mais à vontade, tirou do escaninho dum porta-bibelots um laço de fita azul clara, e determinou:

— Como é difícil ao Sr. Raul, nos primeiros dias da sua convivência, reconhecer logo à primeira vista qual das minhas duas filhas é a sua noiva, pensei de antemão em pôr este distintivo numa delas. Têm ambas de andar sempre de branco, seja; mas de hoje em diante Madalena adicionará à sua toilette este laço azul... Prega-lho no peito, Angélica!

Quando a mãe encostou a mão ao peito da filha, sentiu-lhe o coração bater com força; entretanto, ela permanecia como uma estátua. Raul fechara os olhos: também o seu coração pulsava com violência, sob a pálida rosa murcha do dia das regatas ...

III

Uma ... duas... três ...

Madalena ouviu aterrada as pancadas do relógio da sala de jantar. Deram as sete; aproximava-se a hora da visita de Raul.

A noiva já o esperava, radiante, dedilhando no piano uma valsa ligeira, que interrompia de vez em quando, para interrogar com o ouvido o silêncio do jardim.

Muito pálida, em pé, diante do espelho do quarto, Madalena procurava prender no peito, bem! sobre o coração, o laço azul, espalma dói como uma borboleta traspassada pelo alfinete assassino. Mas, dir-se-ia que os seus dedos hábeis tinham perdido o jeito. Sentia as mãos hirtas como se as tivesse mergulhado em neve pura, e a valsa da irmã, que esvoaçava, pela casa como um ruflo de asas de andorinhas, penetrava-lhe na alma como um barulho irritante de ferros que se raspam, arrepiando-a toda. Há um único som grato aos ouvidos tristes: o do soluço. A dor é egoísta e geradora da inveja.

Madalena sentia-se só, no meio da família em festa. Todos riam. As amigas acudiam em bando, ofereciam-se para ajudar a compor as peças do enxoval. A notícia voara de uma ponta da rua à outra; até lhe parecia impossível que aquela gente toda tivesse realmente o prazer que manifestava.

E ela não chorava; e ela assistia a todas as conversas, risadinhas, pancadinhas no ombro, abraços, denguices, como uma estrangeira, impassível. Oh! mas dentro dela, recalcada no coração, que revolta contra esse Destino implacável e invencível, que a fizera em tudo igual à irmã, para no fim atirar à outra um punhado de rosas e a ela um feixe de espinhos! Por que? Em que ofendera ela a Deus? Em quê?!

Com os lábios trêmulos, as faces lívidas, Madalena olhou com rancor para a sua imagem, refletida limpidamente no cristal iluminado. Não era ela, era a irmã, que ali estava; os seus cabelos, de ouro, rutilantes, a sua tez de camélia, o azul ferrete dos seus olhos rasgados, o oval delicado do seu rosto, todas as belezas do seu corpo eram uma cópia, uma reprodução, desprezadas por inúteis, pelo único homem a quem ela amaria na terra. Lucila tinha de vida mais uma hora do que ela, e essa hora inconsciente dera-lhe talvez a preferência do pai, que a impelia para a felicidade. Afinal, se fosse Raul que escolhesse, quem sabe se não se decidiria por ela? Sete horas: ele não tardaria, e o maldito laço azul que a distanciava do amor não conseguia fixar-se no seu peito atormentado. Com um movimento de raiva Madalena atirou-o ao chão, sem reparar que a mãe entrava e olhava para ela, compassivamente.

— Que é isso, Madalena!... Tem paciência...

A moça retraiu-se. Depois, sacudindo-se, numa resolução desesperada, desabafou:

— É que eu não posso mais, não possa mais!

— Então, filhinha ...

— Deviam ter-me matado quando eu nasci...

— Estás louca!

— Não viram logo que no mundo não há lugar para duas pessoas iguais?!

— O mundo é tamanho!

— É tamanho, que cabe todo dentro do coração de quem ama!...

— Palavras... Coragem meu amor, e põe o teu laço ... Vamos...

— Não. Não o porei nunca mais; nunca mais! Prefiro desfear-me; arrancar os dentes, cortar os cabelos, queimar o rosto a vitríolo, tudo, tudo, tudo, menos distinguir-me de Lucila por esse pedaço de trapo... Quero ser eu, estou cansada de ser — nós — quero ser eu, só eu, embora feia, torta, aleijada, mas sozinha, eu única! Oh, que tédio, que ódio, por que não me estrangularam, por que não perceberam que depois de Lucila, eu era demais?!

D. Angélica suspirou, aterrada:

— Meu amor, enlouqueceste!

— Às vezes afigura-se-me que nem sou gente, sou um reflexo; como aquilo! E apontou para o espelho, onde o seu vulto se reproduzia.

Sou demais!

— Que ideia, Madalena... E eu?

— A senhora é a culpada. Ter duas filhas assim!

— Como podia eu evitar?... bastante tenho sofrido; sempre com este medo... Lembra-te que procurei inocular em cada uma de vocês gostos diversos ...

— Em vão.

— Sim, em vão. A natureza era mais forte do que eu...

— Maldita, mil vezes maldita, a natureza!

— Não blasfemes!

— Quer que eu a louve, quando ela me martiriza?!

— Exageras o teu sofrimento, filhinha... o tempo passará sobre esses amores e virão outros para teu consolo! Resigna-te.

— Outros que, viessem seriam compartilhados por Lucila!

— Eia será casada., terá outros cuidados... filhos... Serás sozinha!

— Que importa? A alma é livre... o coração (é livre... ela amará quem eu amar, odiará quem eu aborrecer.

— Tua irmã é honesta!

— O amor não se importa com isso!

— Madalena!

— Não sei o que digo, perdoe-me!

D. Angélica acariciou a filha lentamente, sentindo-a rígida entre os seus braços.

Indagou depois, com voz apenas sussurrada:

— Não sabias do amor de Lucila pelo Raul, nem ela do teu?

— Não.

— Nem a mais pequenina confidência?

— Nem.

— Por que?...

— Eu tinha medo de lhe despertar a curiosidade. Não queria que ela visse Raul, para que o não amasse. Ele era meu!

— E ela, coitadinha, já o amava!

— E não me tinha dito nada...

— Teve naturalmente o mesmo receio que tu... acomoda o teu espírito. Promete-me ser forte e não fazer a tolice que disseste há pouco... Seria um pecado, além de ser um enorme desgosto para mim... Afinal mereço alguma cousa ...

Estás trêmula. Não convém que te vejam assim. A tua dignidade impõe-te o disfarce. Finge calma. Para chorar, aqui tens o meu peito, que não sabe consolar-te, mas sabe acolher-te. Em todo caso, que mais ninguém o saiba, pelo amor de Deus!

D Angélica foi ao toucador, embeber a ponta da toalha em água, refrescou com ela o rosto da filha, enxugou-o de leve, aveludou-o de pó de arroz, e com! uma voz em que Madalena sentiu um esforço poderoso, bem subjugado, aconselhou:

— Se eu fosse a ti, punha no peito o laço azul e iria para a sala tocar com tua irmã...

— Falei a uma pedra!

— Falaste a uma mulher que nunca deixou entrever as suas decepções... O sacrifício, acredita, não nasceu só para uma criatura... Estás desvairada, entra em ti; verás que só quero o teu bem, Ouves? teu pai lá está gritando por mim... não me deixa sossegada... Coragem... Vá! promete-me juízo... Por meu gosto não saía de teu lado... Que pretexto darás para não usares... o... Já vou, homem de Deus, já vou!... o laço azul?

— Madalena estendeu para a mãe a mão esguia, muito alva, num gesto de quem pede uma esmola. D. Angélica pousou nela o laço de fita, delicadamente, como se fora uma flor.

A voz do marido aproximava-se, impaciente...

— Angélica, Angélica!

— Cuidado, que teu pai não perceba! sussurrou ela à filha; depois, limpando as lágrimas que lhe corriam abundantes dos olhos, saiu, respondendo num falsete desafinado:

— Estou indo!

Madalena Conservou-se por um momento imóvel, como assombrada; até que num movimento vagaroso, quase automático, prendeu ao peito o laço que, havia pouco repudiara ...

A mãe dissera: — finge. Ela fingiria. E durante toda essa noite não dormiu, revendo o olhar com que Raul a fixara por vezes nesse serão, em que se não falara senão do seu noivado com a irmã. Com as mãos enlaçadas às mãos de Lucila, ele cravara em Madalena as pupilas abrasadas, numa interrogação incompreensível. À hora do chá os seus dedos encontraram-se, por acaso, puxando a mesma cadeira, e a mesma comoção no retraírem-se depois, aproximou as duas almas que se fugiam... Madalena revia todas as atitudes, todos os olhares do noivo da irmã que, na cama fronteira, dormia o sono feliz dos que não têm medo da vida, porque estão certos da felicidade... Madalena fazia-se pequena na cama, feliz com a ideia de que Raul a amava tanto como à outra, e horrorizada ao mesmo tempo com o pensamento do que pudesse acontecer mais tarde, quando a irmã despertasse daquele sonho ou daquela ilusão .. Cabia-lhe a ela prolongar a ventura de Lucila. A mãe teria de ser desobedecida, porque para isso só havia um meio: anular a semelhança que existia entre ambas. Como? Matar-se? Não. Ela queria gozar o suplício da sua abnegação, queria dominar a natureza, dar àquele homem o sacrifício da sua beleza e da sua mocidade. Ela falara à mãe em vitríolo, e, verdadeiramente, nem sabia o que isso era. Lembrava-se agora de haver no armário dos remédios, de que o pai tinha a chave, um frasco de ácido nítrico, comprado para limpeza de metais.

O copeiro fizera esse serviço de luvas, para que o líquido corrosivo não lhe queimasse as mãos...

A ideia de desfigurar-se, derramando-o sobre as faces, fê-la arrepiar-se toda de medo, até bater os dentes, como num acesso de febre. Procurar desfigurar-se não seria uni crime? Teria ela coragem para levantar mão sacrílega contra a sua beleza? Mas se essa beleza revoltava a sua alma; e era também causa de perigo para a tranquilidade da irmã? Feia, Raul afastaria dela a vista, num terror instintivo; linda, o seu olhar abrasado procurá-la-ia como à irmã e ela talvez não tivesse forças para resistir.

Uma cicatriz seria a salvação.

Não serviria essa intenção para redimir-lhe a culpa perante o juízo de Deus?

Com os olhos arregalados para a treva do quarto, Madalena passeava as mãos piedosamente sobre o rosto acetinado, como a despedir-se da sua formosura. Uma grande mágoa, indefinível, torturante, entumecia-lhe o coração, que lhe pesava dentro do peito. Refletiu: tudo se faria como por acidente. O vidro, explicaria ela aos outros, teria caído sobre o seu rosto a um impulso dado pôr ela ao armário! e o seu segredo ficaria assim só entre ela e Raul a quem os seus olhos diriam tudo! Antes, porém, que tal horror se consumasse, só uma coisa ela pedia ao destino ingrato, só uma ilusão que lhe deixasse da sua beleza um traço divino: um beijo, um beijo de amor...

Escondendo o rosto nas dobras do lençol, Madalena abafou os soluços até a madrugada em que, exausta, adormeceu ainda soluçante. De manhã, a irmã foi acorda-la à cama:

— São horas, preguiçosa!

Sim, uma grande preguiça. Até parecia doença. Mas não era. Iam ver que passaria o dia magnificamente ...

Desde o pedido de casamento, as duas irmãs evitavam-se mutuamente. Uma porque estava contente; a outra porque estava triste; ambas porque se sentiam humilhadas. Lucila por não ter forças para renunciar à felicidade que não podia ser compartilhada pela-irmã; Madalena por se sentir ofendida no seu amor-próprio. Nessa manhã, contudo, parecia ter renascido entre ambas o carinho antigo, e quando entraram na sala do almoço, D. Angélica, vendo-as abraçadas, envolveu-as num sorriso feliz.

O casamento estava marcado para, de então a quatro dias. Isidoro virava do avesso as algibeiras antes de sair de casa, para as despesas do enxoval, comprado de afogadilho. Por cima do sofá por cima das cadeiras, espalhados por toda a parte, a trouxe-mouche, viam-se jornais de modas, cortes de vestidos, caixas de chapéus, numa desordem alegre.

Os amigos da família corriam a apresentar-lhe as suas felicitações, e Madalena ajudava a mãe a receber toda a gente, a determinar as coisas naquela febre de confusão e de trabalho. De vez em quando os seus olhos levantavam-se para o relógio e um arrepio lhe percorria todo o corpo. O tempo não parava, parecia até correr com maior velocidade! Por vezes percebia os olhos de Lucila fixos nela. Então disfarçava, mudava de posição, saía para outro compartimento, pensando:

— De que serve fingir, se ela sabe tudo que se passa em mim?

Só na hora da visita de Raul se esqueciam as duas irmãs uma da outra, para se absorverem nele.

...

Já Lucila esperava o noivo no salão, dedilhando uma valsa ligeira, quando Madalena desceu disfarçadamente ao jardim, e, contornando o canteiro que ladeava a rua da entrada, escondeu-se no caramanchão de madressilvas, à espera. Fora empurrada por uma tentação dolosa. Encolhida no banco, com o olhar fixo no portão entrecerrado, esperava a chegada de Raul, que não tardaria a vir, pensando na outra, para então levantar-se, fazer-se sentir na penumbra e interrompe-lo no caminho da felicidade, atraindo-o, silenciosamente, para o seu primeiro e único beijo de amor ...

A irmã ignoraria o crime, o noivo julgaria premir com a sua, a boca da noiva, e a amargura da falsidade só ficaria no fundo da sua alma, como o lodo no fundo de um lago em que se reflete o céu iluminado. Estremecia a cada rumor de passos, latejavam-lhe as veias, palpitava-lhe com força o coração.  

Ele não tardaria, ele, a quem ela amava tanto, ele, que ainda guardava no peito a rosa murcha que ela lhe atirara um dia, como penhor de toda a sua vida. A sua vida! e ei-la que só pedia agora um segundo de ilusão, um beijo dado a outra, em sua boca!

Consumado o dolo, ela punir-se-ia. Não seria nunca mais preciso segurar ao peito aquele maldito laço azul, que tinha arrancado agora do vestido, amarrotando-o entre os dedos febris. Ele não tardaria... E se a não percebesse? Se passasse por ela como por uma pedra? Sussurraria ela o seu nome? fa-lo-ia sentir, materialmente, que ela estava ali, no propósito de o ver antes de mais ninguém? Oh! o doce e terrível momento, que parecia tão próximo e que tardava tanto! E se ele não viesse? Se ele não viesse, nem por mentira ela sentiria nunca um beijo de amor! No dia seguinte, seria impossível enganá-lo, o seu lindo rosto já não seria igual ao lindo rosto da irmã ...!

Enfim, ele chegou. Madalena ergueu-se trêmula, cosida à galharia negra das trepadeiras, — e, no mesmo instante, Lucila passou na sua frente, quase correndo, a caminho do portão.

Tudo era para ela!

Madalena cerrou os olhos, para não ver, e quando os reabriu, os noivos beijavam-se, ali mesmo, a dois passos dela, crendo-se sós, e seguiram juntinhos até os degraus de pedra da varanda. Aí Raul voltou o rosto pálido para o caramanchão de madressilvas, enquanto a noiva subia adiante, ligeiramente. Madalena esgarçava com os dedos raivosos as hastes das trepadeiras, vibrando num desespero doido. Tudo lhe fugia; até a mentira! Mas por que voltaria Raul o rosto, para a treva onde lhe soluçava o coração?! Que o atrairia para aquele recanto negro do jardim, onde morria a última esperança de um gozo fictício e enganador?

Ele sentiu a minha alma...pensava a moça, furando com a vista a ramaria espessa. Seríamos todos desgraçados se eu não tivesse coragem... concluiu num suspiro; e caminhou para casa.

Onde estaria a chavinha do armário? Percebei! que a mãe, desconfiada, a pedira ao marido. Talvez a tivesse deixado no bolso do vestido com que passara o dia ...

Meu Deus, que alegria na sala, como todos falavam e riam alto! Até D. Angélica, parecia distraída com as anedotas do dr. Sérgio...

Encolhida no seu quarto, Madalena esperava o momento. Tudo aconteceria como por acaso... De repente, levantou-se e seguiu pelo corredor, até ao quarto dos pais. A chave deveria estar ali, dentro do bolso da saia. Mas com que saia andara a mãe? Custou-lhe a lembrar-se.

O quarto recebia uma luz vaga, pelas bandeiras de vidro comunicando com o salão. Madalena tateava os vestidos da mãe sem os reconhecer; os dedos pareciam-lhe insensíveis, os olhos empanados por uma nuvem... A pouco e pouco, afazendo-se à penumbra, distinguiu os objetos. Revolveu toda a roupa de um cabide de pé, inutilmente. Passou ao guarda-vestidos, abriu e fechou gavetas, devagarinho como um ladrão, para voltar de novo ao cabide, na dúvida de não ter procurado bem. E a maldita saia não aparecia.

Subitamente acudiu-lhe à lembrança o banheiro. A mãe tomava o seu banho quente pouco antes de jantar. Deixara lá com certeza a saia da manhã. Efetivamente a saia lá estava, atrás da porta, escorrida sobre os ladrilhos brancos da parede. Madalena sentiu os cabelos eriçarem-se e os ombros descaíram-lhe como sob um peso enorme. Com as costas unidas á frialdade dos azulejos da parede fronteira, ela olhava para a saia murcha da mãe como para um fantasma. Por fim, num assomo de energia, amarrotou-a com os dedos, nervosamente. O pano cedia, mole e flexível à pressão desses dedos, que pareciam transformados em aço. Não sentindo a chave, Madalena procurou a algibeira, virou-a, estava vazia. Toda a tensão dos seus nervos se quebrou de repente. Sucedeu-lhe o desânimo.

Incapacidade de pensar, cansaço. Foi cambaleando para o seu quarto, como se tivesse bebido, e atirou-se como morta na cama.

Lucila cantava na sala e D. Angélica entrou pé ante pé no quarto.

— Filhinha?

Madalena fingiu que dormia. A mãe apalpou-lhe a testa... as mãos... e quedou-se a escutar-lhe a respiração... e depois de beija-la na face saiu sossegada e triste. Mas não havia tempo para entregar o corpo àquela apatia; reagindo contra o extenuamento, Madalena levantou-se. Tinha a boca seca, os membros lassos; olhou para os móveis do quarto, como a pedir uma inspiração, e viu, sobre o toucador, bem em frente, reluzindo, claridade frouxa do gás em lamparina, o aparelho de frisar cabelos: ferra e fogareiro... Aí estava um recurso! Poria o ferro em brasa, e cortaria com ele o rosto em frente ao espelho. Somente... isso não pareceria obra de acaso, e ela queria dar ao acaso toda a responsabilidade do seu crime...Decidiu procurar ainda uma vez a chave... se a não encontrasse, lançaria mão do ondeador em brasa ...

Voltou ao quarto da mãe. Conversavam todos alegremente na sala. Lucila tinha acabado de cantar; ouviu vozes estranhas, novas visitas. Fosse quem fosse, que lhe importava? Recomeçou a busca, revolvendo os mesmos lugares, já sem ver, estupidamente.

Minha mãe adivinhou... lembrou-se do ácido nítrico!... pensava Madalena, sem esmorecer na busca.

Ainda não tinha examinado um lugar, a cama da mãe. Ajoelhou-se, passeou a mão embaixo dos travesseiros.

Encontrou a chave.

Madalena ergueu-se, aterrada. Só lhe faltava agora um gesto, mais nada. Um simples gesto, e tudo se consumaria! Voltou ao quarto, deu toda a força à luz e postou-se diante do espelho, despedindo-se da sua beleza e procurando na face o ponto sobre que deixaria cair o ácido corrosivo ...

A ação devia ser rápida. Dominou a piedade que a sua formosura lhe inspirava e, branca como o mármore branco, caminhou para o armário dos remédios, na saleta contígua à copa.

IV

A felicidade é uma desgraça, asseverava na sala o Dr. Sérgio Bastos, exibindo-se, com um esboço de malícia na boca inteligente, de lábios finos. Tanto quanto lhe permitia a excelente memória, lembrava-se de que os seus dias de gozo tinham originado um período de apatia e de preguiçoso desinteresse por tudo que não fosse a própria causa desse gozo, todo íntimo, todo pessoal. A felicidade é estéril como o deserto.

Isidoro riu-se largamente, não tomando a sério a teoria paradoxal do amigo; parecia-lhe impossível que naquela idade ainda ele tivesse semelhantes fantasias! Realmente a felicidade era considerada por cada um a seu modo, mas nunca lhe passara pela mente tão extravagante definição. Seria crível que o Sérgio ainda sacrificasse a sinceridade à frase, como nos idos tempos de rapaz?

O Dr. Bastos continuava: Temos da felicidade uma concepção quase sempre em desacordo com o nosso modo de vida. Meu pai, homem de negócios agitados, que lhe impunham uma atividade inquietadora e crescente, afirmava que para ele a felicidade seria a sombra de uma árvore! Amarrado à cidade pelos seus mil empreendimentos, nunca se dava ao regalo de uns repousos campestres. Odiava a caliça, os telhados, os muros e sonhava com o ar limpo dos grandes descampados, onde respirasse a plenos pulmões, dentro do círculo da sombra projetada pela sua árvore amiga. Aborrecendo a cidade, a rotina, a disciplina, construiu quarteirões e quarteirões de casas iguais, fabricou telhas e tijolos, abrilhantou a cidade, deu prestigio ao comércio e morreu com o ideal que não teve tempo de realizar, nem lhe traria a consolação que esperava... Por que enriqueceu esse homem? porque, não se considerando feliz, tinha pressa de chegar à felicidade. Trabalhou ferozmente, irradiou toda a sua força, impeliu a vida para diante, na ânsia de alcançar a sombra da árvore desejada... Homens sem ideal são parasitas da terra. A felicidade é uma cousa que se não alcança, atrás da qual se corre e pela qual se morre ...

No fundo da sua consciência D. Angélica dizia consigo:

«Palavras! a felicidade, é ver o marido satisfeito e as filhas felizes...» E indagou levemente assustada.. — E para o Sr. Raul, a felicidade que é?

Dr. Sérgio interveio, enquanto o filho trocava com Lucila um olhar de amor e um sorriso.

— Para o Raul agora a felicidade única é o casamento; as fases do amor são para todos iguais.

Mais tarde, estabelecida a família, tranquilo o coração, o gérmen das suas aspirações, que o determinaram a escolher a carreira que escolheu, fará florir um outro ideal...

— Mamãe! Mamãe!

D. Angélica levantou-se de chofre. Era a voz de Madalena irrompendo lá de dentro, do silêncio da casa, angustiadamente; e antes que Isidoro, estonteado, acompanhasse a mulher, que já desaparecia no corredor, Raul atirou-se para a porta. O pai travou-lhe do braço com um movimento enérgico e brusco:

— Fica!

Lucila precipitara-se também, acompanhando, os pais. Os dois homens viram-se, de repente, sós e contemplavam-se de face. Os olhos de um buscavam o fundo da alma do outro. Nem uma palavra. Não era preciso; há expressões que desmascaram o pensamento melhor que o mais exato dos vocábulos. Raul estava trêmulo, numa ansiedade.

— Que se teria passado?

— Qualquer cousa, que te não deve importar. A tua noiva é a Lucila!

As vozes vinham agora como um murmúrio de choro abafado, mal distinto, tal o rumor d’agua dentro de um muro de aqueduto...

— Lembra-te que será assim por toda a vida! suspirou Sérgio, pousando carinhosamente a mão no ombro do filho:

— Serei forte.

— Tenho medo ...

— De quê?

— De que venhas a ser infeliz!

— Oh...

— Ainda é tempo de fugir ...

— Não ...

Dr. Sérgio calou-se. Instantes depois Isidoro reaparecia na sala com um sorrisinho forçado. Não fora nada; um susto apenas, um pequeno susto. Madalena quisera por suas mãos preparar um chá, por se sentir adoentada, a chama do fogareiro do gás propagara-se ás rendas da manga, o fogo fora abafado, nem a mais leve queimadura... Uma pilha de nervos, aquela menina! A mãe lá ficara a animá-la. Não valia a pena pensar mais nisso ... E agora que ali estavam os três sozinhos, o que deviam era combinar bem os últimos preparos do casamento. Já tinham carro contratado? Por ele, tinha tudo pronto! Falara já ao pretor, também tratara o padre...

Lucila reapareceu por sua vez, muito pálida, com arzinho contrafeito e tímido, de consciência que vacila. Sentou-se a um canto, e pregou o olhar nos florões do tapete; não quis intervir nas combinações que os outros estavam fazendo.

Pensava:

Havia segredos naquela casa, que o noivo nunca deveria saber, que ela seria a mais interessada em encobrir e fingir ignorar...

Que vira um momento antes? A irmã invectivando a mãe por ter esvaziado o vidro de um ácido corrosivo. Por quê? porque Madalena amava o mesmo homem que ela, e tinha ciúmes e queria matar-se. Deveria ela por isso renunciar ao casamento? Para com a família seria talvez esse o seu dever, mas para com o noivo? 

O destino a escolhera a ela; devia obedecer ao destino. Se ela renunciasse a essa felicidade que a tentava, qual o proveito que de tamanho sacrifício tiraria a irmã? Se fosse possível ceder-lhe o noivo, não se veria Madalena na contingência de renunciar também?

A vida é o acaso. O acaso favorecia-a; a outra que tivesse paciência... Pelo desgosto da irmã ela também não podia gozar uma alegria perfeita.

A sua paixão vivia estrangulada pelo remorso. Mas o egoísmo era mais forte... sentia-o, e defendê-lo-ia até à morte.

A alma materna previra tudo. Aberto o armário, Madalena, ao procurar febrilmente o frasco de veneno, encontrara-o vazio, bem lavado! Excitada no desespero da decepção, revoltada contra a mãe que lhe penetrara os desígnios, os gritos irromperam-lhe do peito, raivosos, histéricos, enquanto os dedos enclavinhados pareciam quererem esmagar o frasco inútil.

— Mamãe! Mamãe!

O som da própria voz, chamou-a à realidade. Calou-se espavorida. Dera o alarme. Cerrou então os dentes com força. Não responderia a nada, não diria nada, não falaria a ninguém.

E já a mãe estava a seu lado, de braços estendidos:

— Meu amor!

E já o pai aparecia interrogativo, aflito:

— Que é?

Oh, se ela pudesse voar, fugir pela treva da noite fora, com o seu sofrimento, só dela, e bem escondido! Quem não percebeu a seu lado foi a irmã, muito pálida, com os olhos engrandecidos pelo espanto.

D. Angélica atraiu-a ao peito, fixou-lhe o rosto desvairado, e, ternamente, devagarzinho, foi-a levai do para o quarto. Isidoro acompanhou-as, insistindo:

— Mas afinal, que foi, que foi?

D. Angélica deitou a filha beijando-a, como em pequenina. Madalena então desatou a chorar em silêncio. A mãe desviou-se para um canto do quarto e chamando o marido, explicou em segredo:

— Ciúmes... também ela gosta do Raul. Era o que eu temia... Depois te explicarei tudo. Acho bom ires para a sala, inventa uma história que a desculpe...

— Diabo, então este casamento ...

— Está tratado e já agora há de se realizar...

— Tens certeza de que não te enganas?

— Toda. Vai para a sala. Isidoro saiu, com o olhar indeciso. Por que não lhe dera antes Deus, filhos homens? Estava bem certo de que teria sido mais feliz. Olhassem para aquela cena! Se um homem seria capaz de tamanha insensatez. Ciúmes, nervos, amor quantas asneiras! Nem ele era de feitio a aturá-las. Uns feixes de nervos, as tais meninas, muito bonitinhas, muito decorativas, mas dentro? confusão e mais nada. Muita confusão. Nem o diabo, entende as mulheres. Quem diria que a sua Madalena, sempre tão sensata e boazinha, gritasse assim pela mãe como uma doida, só para dizer que estava com ciúmes da irmã!

Junto à cabeceira da filha, D. Angélica aconselhava:

— Recolhe-te por um mês ao colégio das Irmãs, já que não tens forças para assistir ao casamento de Lucila. É um desgosto para mim e para ela, que afinal não tem culpa, mas isso sempre será melhor do que praticares qualquer violência... Nunca te supus capaz de tais arrebatamentos. Ias cometer um crime de que não serias só tu a vítima. Eu sofreria muito! Não te parece que eu também mereça alguma coisa? Dize...

— Tudo.

— Então...

— Foi um desvario ...

— Prometes-me ter paciência?

— Serei irmã de caridade.

— Não, minha filha, irás convalescer entre as tuas antigas mestras e voltarás depois curada para a tua casa.

Deves ser forte, preciso de ti. Lucila seguirá o seu marido, é o seu destino, tu ficarás a meu lado para me fechares os olhos na hora derradeira; quero levar neles a tua imagem. Por enquanto recolhe-te ao colégio.

Informado mais tarde dessa resolução, Isidoro não a achou acertada. Embaraçavam-na os comentários dos convidados das bodas. Que suporiam eles da ausência de Madalena naquele ato solene? Se a desculpassem por doente, não faltariam pessoas bisbilhoteiras, como a mulher do sócio, para lhe varejarem a casa à procura da enferma.

D. Angélica observou:

— A anormalidade da situação explica outra qualquer anormalidade. Diremos que, como geralmente, todas as gêmeas, Madalena e Lucila são inseparáveis? Explicaremos o nervosismo da nossa filha como provocado pela separação da irmã e a sua ausência como um ato de prudência da nossa parte...

— Os outros não são tão tolos como se te afigura...

— Em todo caso é uma explicação.

— É um disparate.

— Arranja outra razão!

— Não. Vocês as mulheres têm mais imaginação do que nós para as mentiras... Lavo as minhas mãos. Combina o que entenderes.

D. Angélica entendeu que a sua Madalena entraria para o colégio das irmãs, da rua do Matoso, onde aprendera a ler e onde criara amizades consoladoras.

Na manhã seguinte, ao entrar no quarto das filhas, encontrou-as deitadas na mesma cama.

Os seus lindos cabelos loiros confundiam-se no mesmo travesseiro, os seus braços nus entrelaçados pareciam querer unir-se para a vida e para a morte. Dormiam. Dir-se-ia que a mesma respiração levantava ao mesmo tempo o peito de ambas. A cama de Lucila estava intacta; ela passara a noite ao lado da irmã, enternecida e perdoada.

De pé, silenciosa, com os olhos inundados de ternura, a mãe não se queria arredar dali, daquele quadro de felicidade que ressuscitava para o seu coração. Suspirava por que aquele sono se prolongasse. Enquanto durasse a inconsciência, duraria a tranquilidade. Naquelas duas crianças, havia vinte anos que ela não via senão uma criatura única, não alterando as suas raras contradições a harmonia que pudesse conter uma só alma.

O casamento de Lucila encheu de povo a igreja de S. Francisco Xavier. As amigas lamentavam a falta da Madalena.

— Coitadinha, não tivera coragem de assistir ao casamento da irmã. Tão unidas que eram!

Pessoas idosas, de longa prática, aconselhavam D Angélica a ter muito cuidado. — As gêmeas, quando se separam, às vezes até morrem de paixão!

Dr. Sérgio Bastos regozijava-se de si para si da prudência da menina, alegrando-se com a ideia de que ela se resolvesse a professar. A sua permanência em casa ameaçava a felicidade do filho... Fora bem inspirada a pequena! Afinal, ser irmã de caridade não é uma cousa do outro mundo... e dadas as circunstâncias que a sua perspicácia, adivinhava, era até a única solução digna. Notava que nesse dia no filho transparecia uma preocupação qualquer, além do enleio do momento. Por que fugiriam os olhos de Raul de encontrar os seus olhos? Por que teria voltado a cabeça com tanta vivacidade ao ouvir comentar na sala a história do laço azul?...

Para ele, pai extremoso daquele filho único, a Madalena só tinha mesmo um caminho a seguir, insistia: professar; viver para sempre longe da família, da convivência perigosa e perturbadora do marido da irmã, rezando, gastando a sua beleza e sua mocidade sob a touca branca da religiosa, enquanto a outra, amada e amante, resplandecesse em todo o fulgor da sua graça! Para sossego do filho, pareciam-lhe justos todos os sacrifícios dos outros... Que se cumprissem. Era um dever.

Quando, depois da partida do último convidado, o Dr. Sérgio Bastos saiu por sua vez da casa de Isidoro Nunes, levava a alma leve. As suas responsabilidades estavam divididas.

O seu rapaz bem entregue, a uma família burguesa, simples, ao abrigo de cuidados de dinheiro, que são sempre apoquentadores, com boa saúde e bom nome. Tivera tino, o Raul; podia apaixonar- se aí por alguma mulherzinha pobre e espevitada e acertara com uma moça dócil e simples. Quanto à irmã. O melhor seria não pensar na irmã. Também essa parecia entregue a um bom destino. O que o alegrava era a ideia de que haveria mais alguém, daí em diante, a zelar pela boa saúde do Raul. Isso aliviava-o dos sustos e preocupações costumadas. Era adepto do casamento.

Não devera tanto ao seu? Uma boa casa e uma boa mulher tornam o homem tranquilo e são, duas excelentes condições para a prosperidade.

Para haver um mas, havia a profissão do filho, que é a de renúncia a todas as comodidades da terra. Marinheiro deve ter a alma como o corpo: livre. O hábito da separação torna as criaturas indiferentes e faz perigar a fidelidade do amor. Em todo caso, ainda nisso o seu Raul fora feliz, casando com uma menina que ficaria sob as vistas de uma mãe honesta e observadora. Grande alma! concluía ele, acendendo o seu charuto, a caminho da Pensão, onde ficaria até ao dia da partida do filho.

Esse dia não tardou. O navio partiria às três horas. Dr. Sérgio foi almoçar com os noivos. Eles, coitadinhos, não comeram quase nada, misturando o sabor das lágrimas ao das azeitonas e ao do: presunto, que D. Angélica adicionara aos pratos corriqueiros, naquele almoço de despedida. O que valeu a todos, foi Isidoro não ter descido à cidade, por que na véspera torcera um pé. As pequenas contrariedades vêm às vezes em socorro dos grandes embaraços. Se não fosse o pé do Isidoro, Dr. Sérgio teria ficado em face das lágrimas dos filhos, sendo para D. Angélica, sempre cuidadosa, todo o tempo pouco para os ouvir.

Assim, disfarçaram a pena da separação, conversando voluvelmente sobre coisas antigas do colégio; sestros de uns, glórias de outros, desgraça de muitos....

Isidoro não, perdera de vista a maior parte dos colegas.

Sabia-lhes a vida, comentava-lhes a sorte. Quando a narração descambava para a tristeza, Dr. Bastos, habilidosamente, com o seu risinho fino, puxava-a para o caminho da graça, lembrando um caso pitoresco, citando uma anedota ...

E nunca a nora lhe parecera tão bem como nessa manhã de choro, com o narizinho vermelho, os olhos pisados, o corpo abandonado num vestido de cassa branca salpicada de amoras.

V

Trechos de cartas de Raul:

«Minha adorada mulherzinha. Alto mar, a. bordo do Benjamin Constant. — Não posso mais! A saudade adoece-me. A tua imagem não se «esvai um- momento da minha imaginação. Já não és mulher; és febre. Latejas nos meus pulsos, palpitas no meu coração; diluis-te na minha voz! Estás dentro do meu cérebro e da minha alma, tão obcecado estou de ti; e essa constante presença aumenta delirantemente a minha saudade! Pareço estranho a todos e a tudo, porque vivo abstraído no meu amor. Só me sinto melhor na solidão, porque a solidão está cheia de ti! A companhia dos outros altera-me. Sinto que me roubam à única felicidade que me é dado fruir, quando solicitam a minha atenção, dada sempre com má vontade, porque essa felicidade é fixar profundamente a tua fisionomia, supor o que estarás pensando, ressentir em pensamento os gozos da nossa curta convivência, e os que a anteciparam: os nossos olhares confundidos, o tremor das tuas mãos fugindo às minhas, os suspiros apenas adivinhados ... Não durmo. As insônias alteram-me o organismo. Tenho tido acessos. O médico de bordo insiste em dar-me remédios. A minha salvação está longe... Nem tento explicar-lhe: não me entendia. Nem o mais sábio dos homens compreende bem a voz de um namorado, e eu serei de ti um namorada eterno! Escreve-me. Escreve-me sempre. Dize que me amas; dize-mo com ardor. As tuas letras serão a tua voz!»

...

«Meia-noite (a bordo). — Deixo de falar contigo para escrever-te.

Até a hora que assinalo aqui, desde o anoitecer, estive debruçado na amurada, olhando para as ondas e para as estrelas, a dialogar contigo, meu doce, meu terno bem! E nada chegará à tua alma do que te digo no espaço infinito? Não sentes os meus beijos no teu corpo, a minha voz, ainda que como um murmúrio, nos teus ouvidos? De tudo que se irradia da minha alma, nada, mas nada chegará à tua? Explica-me. Conta-me tudo. Como pensas em mim? Sonhas? E no sonho como te apareço? Tu a mim como uma visão celestial, virgem candidíssima, inatingível e desesperadora! E és minha mulher. És minha e estás tão longe dos meus braços ansiosos e apaixonados ...

Beijo-te, beijo-te, beijo-te... e morro!»

...

«Lisboa. — Só em Lisboa a primeira carta tua, e tão fria, tão incompleta! Não sei que falta à tua carta, meu amor, mas falta-lhe qualquer coisa. Dir-se-ia que a escreveste timidamente, como se eu não fosse teu marido. Cuidaste na caligrafia. Parece uma carta copiada. Escreve-me como se me falasses, sem meditar, espontaneamente e não corrijas nada. Olha, eu escrevo-te com beijos e beijos desordenados. Não me importa saber senão de ti, do teu afeto e do teu pensamento!»

...

«Hamburgo. — Sinto na tua última carta o escrúpulo de parecer muito íntima. Escreveste-me pensando em outra coisa simultaneamente. Em quê? Deixas-me entrever uma hipótese divina, mas apenas entrever. Não és franca. Lembra-te de que sou teu marido e escreve-me sinceramente, como se falasses só para ti. Nesta carta parecias ausente de ti mesma, e eu sofro tanto!»

...

Chegavam cartas de Raul por todos os correios. Lucila abria-as febrilmente, mas logo uma leve sombra de melancolia se lhe espalhava pelo rosto. As cartas do marido eram sempre cartas de namorado, idealizando bens que não pareciam ainda fruídos, como se ela continuasse a ser a virgem candidíssima, inatingível e desesperadora, que lhe aparecia nos sonhos. O que ela julgava perceber naquela saudade e inconsolável sofrimento era a ideia da irmã, confundida com a dela no cérebro do marido. Eram da irmã as mãos que fugiam às dele num tremor mal disfarçado, eram da irmã aqueles suspiros apenas pressentidos ou adivinhados ...

...

Era o mistério da irmã que alterava em Raul a saudade da esposa, a mulher de verdade, a mulher simples e presa nos seus braços para sempre! Que faltara na carta que escrevera ao marido e que ele recriminava?

Nem a lágrima, borrando a tinta com que no fim escrevera o seu nome!

O que faltava ali eram letras escritas por Madalena; tão acostumado estava a confundi-las, que já não compreendia uma sem a outra. E agora?!

Madalena continuaria no colégio da rua do Matoso. Ninguém a tiraria de lá. Estava como num túmulo.

E ela? O marido não penetrara o pudor da sua confissão, ou mal se atrevera a penetrá-lo... E teria assim de dizer com maior clareza que seria mãe. Horrorizava-se pensando que germinassem no seu seio dois entes tais quais ela e a irmã. O alvoroto não era de alegria. Entrou também a definhar, sem dizer a ninguém a causa desse abatimento, e só à noite, na solidão do seu quarto, as suas lágrimas ciumentas lhe desafogavam o coração pesado e dolorido.

O palácio da ventura enganara-a. Transposto o limiar, encontrara dentro, como o poeta, a escuridão e o silêncio. De mais a mais a consciência recriminava-a pelo abandono da irmã, cuja ausência os pais não cessavam de lamentar. A casa parecia ter sido varrida pela morte. Passavam-se horas sem se ouvir a voz de ninguém. Ela vagava pelos aposentos, buscando inconscientemente a alegria que lhe faltava: a convivência da outra... a presença do marido; e não raras vezes percebia no gesto disfarçado da mãe o domínio de uma dor profunda.

Corriam os meses e as cartas de Raul chegavam sempre ardendo em chamas amorosas, até que faltaram em três correios sucessivos. Lucila alarmou a família. Saiu da sua atonia. Rebentava em cuidados, formulava hipóteses terríveis, telegrafou para a fazenda do sogro, chamando-o como para a salvar de um perigo.

Dr. Sérgio Bastos afivelou à pressa as correias da mala e atirou-se numa viagem expressa. A nora precipitou-se-lhe nos braços quando o viu.

Que diferença da suave Lucila que ele deixara, para a senhora que ele beijava agora!

Isidoro desculpava a insensatez da filha, alarmada só com a falta de três ou quatro cartas! Mas o Dr. Bastos também vinha aflito. Ele recebera na véspera à noite uma carta do comandante do Benjamin, seu amigo, comunicando-lhe que o filho tivera de ficar num hospital de Toulon, com um tifo.

Calaram-se todos, num grande abatimento. Dr. Sérgio pensava em partir pelo primeiro paquete; mas não chegaria talvez a tempo nem de amortalhar o filho. Se o comandante participava o caso depois do décimo segundo dia da doença! Esperara antes que o mal diminuísse, mas o mal agravara-se. Ah! ele sabia bem o que eram essas febres da Europa. E vejam! o seu Raul fora sempre um rapaz saudável..

O que aterrava as senhoras era a ideia do hospital. Isidoro animava:

— A enfermaria é melhor que a casa particular. Por esse lado, ficassem descansadas ...

Mas Lucila não ouvia razões. Exatamente no fim da viagem, quando não faltavam senão dois meses! Também ela queria partir com o sogro, o seu lugar era lá, junto à cabeceira do doente...

Lembravam-lhe o seu estado. Seria impossível partir ... Insuflavam-lhe coragem. Dr. Bastos corria da agência do telégrafo para as agências dos paquetes e voltava para junto da nora suado, vermelho, com os olhos orlados de um roxo pisado, de vigília. Não havia lugar no primeiro paquete. Tudo cheio, desesperadoramente cheio! Teimara com o agente. Tornaria a teimar. Embarcaria de qualquer modo. Mas esse primeiro paquete só partiria dali a quatro, dias e estaria a bordo mais de quinze dias, antes de saber do filho amado. E a resposta do telegrama, que não chegava! Dr. Bastos injuriava o cônsul brasileiro. Até que o pobre cônsul respondeu:

« Raul minha casa. Livre de perigo. Escreve»

Novo conselho de família, em que o Dr. Sérgio Bastos, já tranquilizado, perguntava perplexo, procurando dividir com os outros a sua responsabilidade:

— Vou ou não vou?

Já agora, resolveram, seria mais prudente esperar a carta anunciada.

Entretanto Lucila esmorecia. Não sabia explicar o que tinha, definhava. Chorava sem motivo conhecido, não dormia, e tinha impaciências — até que, numa linda madrugada, nasceu a primeira neta de Isidoro, que D. Angélica recebeu chorando nos braços amorosos.

Lucila ia de mal a pior; ardia em febre, indiferente a tudo, amodorrada. Era um vaivém de médicos. As conferências sucediam-se, as enfermeiras não descansavam; Isidoro já não saía, e Dr. Sérgio instalara-se, muito solícito à cabeceira da nora.

Foi assim que, numa tarde, em que todos supunham a doente acalmada e melhor, ele a viu expirar suavemente, como quem adormece... Pois logo no dia seguinte lhe chegou às mãos uma carta do seu amigo, cônsul, dizendo:

«Seu filho pensa em partir para aí no fim do mês, embora os médicos não aprovem essa resolução, mas temem contrariá-lo, porque ele está excessivamente nervoso. É prudente pouparem-lhe qualquer emoção, até que o estado ainda melindroso em que ele está, passe de todo. Dentro de uns trinta ou quarenta dias vocês aí o terão».

VI

Caía a tarde. A sineta do Colégio chamava as educandas à oração, na capela. As aves procuravam o ninho nas copas ramalhudas das mangueiras do parque.

— Nada comove a natureza, pensava o Dr. Sérgio, observando a doçura da tarde, em que o vulto alquebrado de Isidoro Nunes, vestido de luto, se destacava subindo a rampa do jardim.

No parlatório mal esperaram por Madalena, que apareceu logo, muito pálida, de olhos pisados.

— Filhinha, venho mais uma vez pedir-te que voltes para casa ...

— É impossível.

— Tua mãe está muito só.

— Pedirei a Deus que lhe dê coragem.

— Deus quer que os filhos sirvam de amparo e de consolação a seus pais.

— Deus quer que eu me faça religiosa.

Isidoro baixou a cabeça desanimado, sentindo a firmeza inquebrantável da filha. Dr. Bastos interveio, com os olhos rasos d’agua, fazendo-se muito humilde:

— Madalena, deixe que a nossa voz entre no seu coração. Escute: também eu venho pedir-lhe um sacrifício enorme, não se ofenda e pense que não é um homem que está aqui a seu lado, mas um coração de pai. Raul deverá chegar dentro de oito dias. Sabe... ele esteve à morte, e os médicos pedem-me que lhe evite grandes comoções. É o mesmo que me ameaçarem com a loucura do meu rapaz, caso sofra um abalo, para o que não está prevenido de nenhum modo... Nesta última carta então, parece de propósito, ele só fala na alegria de abraçar a mulher e a filhinha ...

Houve uma pausa. Madalena olhava para o Dr. Bastos sem pestanejar. Ele continuou:

— Venho suplicar-lhe uma ação piedosa, o engano de uma hora só, enquanto o possamos preparar para a verdade terrível... A senhora voltará depois para aqui, para a sua religião, mas salve meu filho, por piedade ...

— Não entendo ...

Isidoro auxiliou o amigo:

— Fingirás ser Lucila, durante os primeiros instantes da chegada do Raul...

Madalena não respondeu, mas teve um movimento tão forte de repulsa, que o pai suplicou, a chorar:

— Madalena! ...

Não, meu pai, não ...

Dr. Sérgio deixou-se cair numa cadeira, lívido e calado.

— Tens o coração duro, minha filha. Uma hora na vida passa-se depressa. Que te importa mais um sacrifício, se com ele salvarás, talvez, a razão de um homem?

— Lucila não me perdoaria...

— Lucila morreu.

— Agora, melhor do que nunca, ela conhece a minha alma!

— Pois é ela, que te implora pela minha boca que protejas a razão de Raul.

— Ele terá de saber.

— Mas não de repente. Sabes que ele teve uma febre cerebral, que vem fraquíssimo, nervoso, predisposto a um mal pior que a morte... Dr. Sérgio imagina que a tua presença atenuará a vibração do golpe, e tua mãe aprova essa ideia...

Madalena cerrou as pálpebras, para reter as lágrimas: os lábios tremiam-lhe. Parecia de cera.

— Tem paciência, minha filha; é mais um sacrifício!

— Muito grande...

— Muito grande, mas tens a alma forte. Vem. O teu papel é doloroso. Raul saberá pela tua boca, da morte de tua irmã...

— É um pecado ...

— É uma esmola.

Para Madalena, o pecado, que ela media até ao fundo, consistia no rompimento de um voto que fizera de fugir ao marido da irmã, até serenar de todo o coração para a tomada do véu. A presença desse homem alvoroçava-lhe a alma, agora comprometida com o Senhor!

Dr. Sérgio calara-se, desanimado, olhando para o chão muito lavado, da sala. Isidoro fixava a filha com mágoa, mesclada de censura.

Depois de um largo silêncio, insistiu:

— Decide-te, Madalena ... vem!...

— Perdoe-me... não posso. Raul é um homem, não lhe devem adiar, por meio de um embuste, o desgosto por que forçosamente há de passar!

— Repara minha filha

Dr. Sérgio, levantou-se com ar decidido, e, interrompendo com um gesto a nova súplica de Isidoro, despediu-se secamente da moça. Saíram ambos, e já desciam a rampa, quando Madalena se atirou chorando, para a porta, decidida a chamá-los e a partir. Mas uma irmã de caridade que entrava no momento interceptou-lhe a passagem. E dois braços se abriram diante de Madalena, que se deixou cair neles, soluçando alto.

D. Angélica acalentava a netinha, que de hora em hora achava mais bonita, ouvindo, na sala ao lado, os desabafos do Dr. Sérgio contra a religião. Isidoro concordava; realmente, dizia ele, Deus tirava-lhe as filhas por todos os modos!

Ajeitando o corpinho da criança nas flanelas do cueiro, D. Angélica decidiu ir por sua vez induzir Madalena a voltar para casa; e, para que se não azedassem ainda mais contra a filha, não confiaria a ninguém a sua tentativa, certa de que ela falharia também.

No dia seguinte de manhã, pôs-se a caminho. Não estudara argumentos; deixaria o coração falar. Madalena sobressaltou-se ao vê-la:

— Como a senhora está magra ...

— De saudades, talvez; é o meu único mal...

Madalena cobriu-a de beijos. D. Angélica chorou. E depois:

— Não perguntas pela pequenina?

— Ah ... sim.

— É muito bonita, com um mês apenas já sorri! Começa a engordar, sinto que daqui a pouco já não poderei com ela. Fogem-me as forças. Parece-me impossível que eu carregasse duas crianças ao mesmo tempo ao colo, como carreguei.

Preciso que vás olhar por ela, já não digo por mim; mas a sorte da filha de minha filha preocupa-me muito. O pai... não sei que doença teve ... dizem que vem contra a vontade e a opinião dos médicos ... ainda muito fraco. Depois, é homem, não pode olhar pela menina ... Uma criança dá muito trabalho; esta vida é mesmo assim. E eu quero que a filha da minha Lucila seja feliz...

— Eu ...

— És a minha única filha, a minha esperança, a minha consolação. O teu quarto está arrumadinho...

Mandei lavá-lo ontem. Fiz eu mesma hoje a tua cama... o bercinho da criança vai ficar no teu quarto. Tens mais saúde, tomarás conta dela durante a noite; eu de dia, sempre é mais fácil... É uma grande responsabilidade, criar uma orfã de mãe! Se eu fosse mais moça ... mas, enfim, tu olharás por ela como se foras a própria Lucila; é a minha esperança ... é a minha vontade... é o teu dever,

— É o teu dever ... Mas tenho também outro dever.

— Qual?

— No dia, na hora mesmo em que Lucila se casava... fiz, chorando, de joelhos, diante do altar, a promessa de esmagar todos os sentimentos humanos que me prendiam à terra, e ir ser religiosa.

— Deus não aceitou a tua promessa, porque te chama para meu lado pela boca inocente de um anjo...

— Demais a mais... eu tenho medo...

— De quem?!

Dele ...

Madalena corou até a raiz dos cabelos.

— Tu o salvarás se quiseres, dizem ...

— O que me propuseram é absurdo e é indigno.

— Foi uma ideia do Sérgio, coitado: ele deseja que tu continues a outra ... Percebo a intenção e desculpo-a. Está acabrunhado. É muito nosso amigo, agora não sai lá de casa ... Não imaginas o silêncio!... Bem; a minha Lucila deve estar com fome ... dá-me outro beijo, mais outro ... Nunca me dês um beijo só. Também para mim és uma continuação... Tive duas, não tenho nenhuma...

Madalena olhou em silêncio para a mãe, cujo sorriso forçado mais lhe enrugava o rosto envelhecido. Nem uma censura passara por aqueles lábios descorados e meigos...

— Adeus, minha filha ... sê feliz...

Madalena estremeceu. Uma piedade infinita encheu-lhe os olhos d’agua.

— Feliz? longe da minha mãezinha? Não! Eu vou também, espere; seria uma injustiça!

Minutos depois, mãe e filha desciam juntas à rua, a caminho de casa.

— Vais ver, dizia D. Angélica; a nossa Lucila está ficando redondinha... Pusemos-lhe o nome da mãe, porque assim ele continua vivo, animando a casa ... Teu pai está um avô candongueiro. Sérgio também... somos três velhos piegas! Tu salvarás tua sobrinha, que sem ti ficaria perdida de mimos...

Um certo dia, D. Angélica fez abrir todas as janelas da casa. O berço da pequenita foi trazido para a saleta. Toda a família se vestiu de claro... Era um sacrifício feito por amor da morta, para lhe salvarem o marido, que não tardaria a chegar; já Isidoro e o Sérgio tinham ido esperá-lo ao cais.

D. Angélica engolia as lágrimas, revoltada no fundo contra aquela espécie de ingratidão; mas com pena do Dr. Sérgio não lhe quisera negar essa vontade ... Madalena, toda de branco, sentara-se ao lado do berço, que embalava docemente. Tremia. Qual deveria ser a sua atitude? Por mais que ensaiasse em espírito o seu papel, temia não o poder representar, e suplicava à mãe:

— Não me abandone nem um momento.... Não terei coragem de ficar só com ele...

Eram duas horas quando o automóvel parou à porta. Madalena escondeu o rosto nas dobras do cortinado do berço, o coração batia-lhe loucamente, desordenadamente.

— Coragem! disse-lhe a mãe; e caminhou para a porta. Raul entrou de braços abertos, chamando alto:

— Lucila! Lucila!

Madalena colheu a criança com rapidez e apresentou-a ao guarda-marinha:

— Lucila está aqui!

E com a pequenita muito unida ao peito, mal permitiu ao moço abraçá-la. Entretanto ele contemplava-a, feliz:

— Ainda me pareces mais bonita... meu amor!

Estás tão linda; mas tão trêmula... tão pálida... choras?! É a comoção! Meu amor, meu amor!

Acudiram todos em auxílio de Madalena, rodeando-a, chamando a atenção do pai para as perfeições da filhinha. Que reparasse na formosura dos seus olhos azuis... E o narizinho? uma perfeição! Vira nunca boca de criança tão bem talhada? O encanto era vê-la nuazinha, no banho! Ele vinha melhor do que esperavam. Ainda bem! E a viagem? Que contasse tudo!

— Ah! a viagem reanimara-o! Embarcara contra a vontade de todos. Mas falaria disso depois. Agora só queria saber da sua ventura. Estava feliz, muito feliz, ao lado da sua mulherzinha adorada.

Isidoro, Dr. Sérgio, D. Angélica, prolongavam de propósito a palestra, repetiam perguntas, diziam banalidades.

Houve um momento em que Raul exclamou:

—Acho todos mais magros abatidos, esquisitos ... E Madalena?

Entreolharam-se aflitos; mas o Dr. Sérgio acudiu: que a moça ia bem. Raul não se fartava de olhar para a mulher, confessando encontrar nela maiores encantos, mas uma tal reserva! E lá consigo supunha: — é a presença dos pais que a intimida

A situação prolongou-se, tanto quanto a habilidade dos velhos conseguiu prolongá-la. Mas Madalena sufocava, não podia mais! De repente, sacudindo a perturbação horrível que a oprimia, fez sinal aos pais que saíssem. D. Angélica esgazeou os olhos. Estaria sonhando? pois a filha não lhe pedira que a não abandonasse?! Percebendo o seu espanto, e para acabar de convencê-la. Madalena entregou-lhe a criança, dizendo:

— São horas de lhe dar a mamadeira, sim?

D. Angélica recebeu a criança com um gesto lento e absorto.

Tinha chegado a hora dolorosa. Dir-se-ia que de todos aqueles rostos iam cair máscaras, de repente. Dr. Sérgio tremeu e pôs-se a tatear, como à procura, um botão de camisa que lhe não saíra do lugar.

Raul observou:

— É extraordinário, vocês parecem-me todos muito mudados, misteriosos ... que houve?... Dize... ah, não, não digas; o que se passou, passou, e o que me importa agora é gozar a delícia de estar a teu lado, minha mulher!... Mas que tens?!... porque te afastas? Beija-me e deixa-me beijar-te! Estás linda, sabes? Linda como nunca! A saudade espiritualizou o teu rosto, és bem a realidade do meu sonho, e a alegria de todo o meu futuro. Agora não nos separaremos mais, nunca mais, nunca mais! Vem, abraça-me!... Mas que tens tu?! porque me foges? .. Que pudor é esse, que te alvoroça, ao ponto de fugir-me ... Afinal, tu és minha mu...

Madalena recuara, e olhando fixamente para o cunhado, agora atônito, suspenso, prendeu vagarosamente ao peito o laço azul que tinha trazido amarfanhado nas mãos.

— Que quer dizer isso, Luci.

Raul estacou, muito pálido.

Em pé, diante dele, cheirando a rosas, iluminada por uma paixão que já não precisava esconder-se e que a transfigurava, tornando-a mais encantadora, Madalena contemplava-o de face.

Oh, era bem ela, essa criatura adorada cuja imagem não o abandonara um só instante, na dolorosa ausência. Duvidando da sua razão, Raul estendeu as mãos súplices. No vestido branco da cunhada o laço azul tomava a seus olhos proporções enormes. Desorientado, inquiriu, passados instantes, com os lábios brancos a tremerem:

— Lucila, a minha Lucila?...

Madalena apontou para o céu.

— És então Mada ...

Por única resposta, a moça abriu-lhe os braços. Ele precipitou-se, apertando-a ao peito e repetindo como um doido:

— É mentira, é mentira, dize-me que me mentiste, e que me amas, Lucila!

E Madalena murmurou quase desmaiada:

— Adoro-te ...

...

No fim de alguns meses de luto, Dr. Sérgio Bastos pediu ao seu velho amigo Isidoro Nunes, a mão de sua filha para o Raul.

Nessa mesma tarde D. Angélica saiu sozinha e foi enfeitar de flores a sepultura de Lucila. Era o seu culto. Era a sua devoção. No meio das lágrimas, a pobre senhora pensava, rezando, que não há amor que triunfe sem sacrificar outro amor...

O dedo do velho

Quem está aí?

Quem está aí?

Eram quase duas horas. Claudino Senra estaria acordado havia uns dois minutos quando sentiu dar volta à chave da porta do terraço para a biblioteca, contígua ao seu quarto de dormir.

Receando estar ainda iludido por mim resto de sonho, repetiu a pergunta:

— Quem está aí?

Nenhuma resposta, como das outras vezes. Soerguido na cama, com um cotovelo fincado no colchão, ele arregalou os olhos para a porta e apurou o ouvido. Alguém deslizava agora pela sala, com pés de lã e abria a grande estante de jacarandá envidraçada, cuja porta rangeu num gemido, que foi logo abafado. Não, agora não podia haver dúvida, aquilo não era uma ilusão; ele tateou a cabeceira à procura do cordão elétrico e acendeu a lâmpada, ao mesmo tempo que pensava, com um calafrio:

— Tenho ladrões em casa. O estúpido do Antão esqueceu-se de fechar bem as portas... E agora? O melhor seria talvez ficar quieto na cama, e fingir que durmo; porque, afinal, não sei se terei de lutar com um homem só, ou se com mais... Seria mais prudente talvez deixar-me roubar e não arriscar a minha vida; mas agora é tarde, devem ter percebido que acendi a lâmpada.

Estas reflexões passaram como um relâmpago pelo cérebro de Claudino, ao mesmo tempo que ele saltava da cama e tirava da gaveta do criado-mudo o seu velho revólver, de cujas boas funções já infelizmente duvidava um pouco. Vacilou ainda: seria melhor correr à biblioteca ou esperar ali a pé firme e de arma em punho, que aparecesse alguém? Esperou, até que viu abrir-se de par em par a porta do seu quarto, sem o mais leve ruído. Quis fazer fogo; o gatilho do revólver estalou em seco. Mas fazer fogo contra quem? A porta parecia ter sido aberta por um sopro que arrefecia toda a temperatura do aposento.

Com os cabelos em pé, e a coragem dos momentos decisivos, Claudino caminhou até à biblioteca, num arremesso, para estacar entre os batentes procurando alguém com a vista. Não viu ninguém; mas reparou que a sala estava iluminada pela lâmpada móvel da sua secretária, que ele apagara ao ir deitar-se. Quem a reacendera? Quem tinha aberto a porta do seu quarto? Alguém, que se escondia, naturalmente agora por detrás do reposteiro da porta, ou que fugira ao senti-lo aproximar-se. Havia de ser isso.

A essa ideia, Claudino caminhou para a porta do terraço, apontando o revólver para diante, com braço firme; temendo ao mesmo tempo que atrás do reposteiro estivessem escondidos malfeitores que lhe saltassem em cima. Com assombro verificou que por trás dos reposteiros não havia ninguém c que a porta para o exterior fora, além de fechada à chave, trancada por uma larga barra de ferro, pelo seu criado Antão. Na biblioteca não havia outras portas além dessa e a do seu dormitório. As janelas estavam fechadas. Claudino investigou então por baixo dos móveis, atrás do biombo e atrás de uma coxa da Índia pendurada na parede, à guisa de ornamento.

Não vendo ninguém, voltou ao seu quarto de cama, esquadrinhou todos os cantos, abriu o guarda- casacas, arredou o divã do canto, sacudiu os almofadões, como à espera de ver cair deles os ladrões em forma de farelo e, não vendo nada, nada, refletiu que tinha sido vítima de uma ilusão. Fora certamente ele quem se esquecera de apagar a lâmpada, embora tivesse a lembrança nítida de o havei feito. Preferia duvidar de si a acreditar que uma pessoa qualquer tivesse penetrado em sua casa pelo buraco da fechadura... O que tinha agora a fazer, era ir apagar a luz e vir dormir sossegadamente o seu resto de noite. Para isso voltou quase tranquilo à biblioteca, mas logo ao entrar observou que a lâmpada mudara de posição, inclinando-se agora para a estante de jacarandá completamente escancarada.

Claudino estremeceu violentamente. Quem teria vindo inclinar a haste da sua lâmpada para o lado exatamente oposto àquele em que a tinha visto, ainda há poucos minutos?! No assoalho não havia alçapões; nas paredes não existiam saídas falsas; para o teto não havia escadas nem aberturas... que seria aquilo? Lembrou-se então de ter ouvido ainda da cama o ranger da velha estante manuelina de vidraçaria lavrada, onde o pai em vida acumulara as grandes obras clássicas das mais famosas literaturas, e que ele jamais folheara, por falta de tempo e de curiosidade.

A luz derramada pela lâmpada incidia agora francamente para as lombadas bolorentas dos livros velhos, alinhados no armário. Teriam tido os clássicos seculares a fantasia de virem do outro mundo rever os seus pensamentos escritos?

O silêncio era absoluto. Quantas horas faltariam ainda para que a luz do sol viesse espancar aquela agonia extravagante? Claudino quis saber. O homem enlaça todos os acontecimentos extraordinários da sua vida à ideia exata do tempo. Nas circunstancias as mais desorientadoras e imprevistas, não se esquece de consultar o relógio, como a mais expressiva das testemunhas a invocar, ou a citar depois... Nos assaltos, nos assassínios, nos naufrágios, nos incêndios, em todos os lances de delírio, de susto, ou de clamor, há sempre alguém que se não esquece de fixar no relógio um olhar de interrogação, e que guarde na lembrança agitada a sua resposta impassível.

Procurando reagir contra as próprias impressões e tentar com toda a clareza de consciência uma prova decisiva. Claudino apagou de novo a lâmpada da sala e voltou para o quarto, ainda iluminado, a ver as horas no seu cronômetro. Eram duas.

Curvava-se ele ainda sobre a mezinha de cabeceira, quando um leve estalido o fez voltar depressa a cabeça para a porta e perceber que a lâmpada que ele tinha apagado, acabara de ser reacendida. Um frio de doença percorreu-lhe o corpo. Estaria ele louco? Apalpou-se todo para certificar-se se seria ele mesmo em carne e osso quem ali estava de pé, hirto de susto, no seu próprio quarto, junto à cama desfeita. Ocorreu-lhe então chamar o criado Era um idiota, mas em tais conjunturas até na companhia de um gato encontraria alivio. O diabo era que, para acordar o bruto do Antão, teria do percorrei um corredor comprido e de passar por várias portas... Teve medo. Um medo de mulher, um medo de criança. E pôs-se a pensar, com um esforço horrível:

Estarei eu bêbedo?... Com quem estive antes de me deitar?... mas eu nunca me embebedei! quem sabe mas por onde andei eu ontem?... a que horas me recolhi a casa? ...

O seu espírito estava incapaz de conjugar duas ideias. Varrera-se-lhe tudo da lembrança. Moveu repetidamente a língua e os lábios, a experimentar se sentia no paladar o sabor do vinho terrível que o tivesse embriagado, mas a boca não lhe sabia a nada; e nunca o nada lhe pareceu tão complicado. Querendo atribuir os fenômenos que presenciava, a qualquer alteração do seu organismo físico, acabou por se querer convencer de que fumara na véspera em demasia.

Sim, não podia ser outra cousa.

O que lhe competia agora fazer era voltar serenamente à sala, abrir a janela á frescura do ar livre e esperar que tudo passasse. Assim fez, mas ao transpor a soleira da porta, estacou boquiaberto.

Em cima da mesa, bem exposto à claridade da lâmpada elétrica, estava aberto um dos grandes livros da estante e, como se mão invisível o manuseasse, as suas folhas viravam-se lentamente, sossegadamente...

Senhor! continuaria o delírio?! Com os olhos esbugalhados, a garganta áspera e seca como se tivesse engolido alfinetes, Claudino aproximou-se da mesa, apoiou-se nela com as duas mãos e olhou. Viraram-se ainda algumas folhas, depois o livro permaneceu por algum tempo imóvel, até que sobre o papel amarelado apareceu um dedo de homem, um dedo velho que, deslizando sob várias linhas, fixou- se por fim sob uma só frase.

Era um dedo indicador, pálido, magro, nodoso, de pele engelhada, e unha curta, da forma e da cor de uma escama de peixe. Claudino compreendeu a insistência: ele deveria ler aquelas palavras e compreender-lhes o sentido. Mas como? Na sua confusão nem sabia em que língua elas estavam escritas! Olhava para os termos impressos no claro português de Francisco Rodrigues Lobo, como se olhasse para hieróglifos enigmáticos.

Entretanto, o dedo insistia, insistia com uma tal firmeza, com tal obstinação, que Claudino acabou por compreender:

« Socorre Lourenço e põe os olhos no seu exemplo»

Não bastava compreender: seria preciso ler em voz alta, porque o dedo continuava da primeira última palavra, apontando sempre aquela mesma linha em toda a página de prosa cerrada.

Claudino conseguiu pôr fim articular sílaba por sílaba, numa voz que não lhe parecia a sua, a esquisita frase apontada pelo dedo do velho — que então se desvaneceu, deixando aberto sobre a mesa o livro oferecido pelo autor a Sua Majestade o Senhor D. João V.

E nada mais de anormal se passou na biblioteca de Claudino, nessa noite de assombro. Tonto, e duvidando sempre da sua imaginação, correu a escancarar a janela e a debruçar-se para a rua. Queria companhia; a solidão apavorava-o. Em baixo, os varredores, como sombras de bruxaria, moviam as compridas vassouras espalmadas, de raízes secas. Dois deles desciam a encosta com a posição da vassoura invertida, esgalhando para o ar, como dedos descarnados de mãos enormes, a sua rama nua. Um nevoeiro, muito delgado, envolvia-lhes as figuras negras, desmaterializando-as; em todo caso aquele rus, russ, russs, das vassouras municipais e aqueles vultos de gente viva, asseguraram uma relativa tranquilidade aos nervos do Claudino. O ar fresco dissipou-lhe também um pouco o terror das impressões e ele conseguiu refletir um momento:

Quem seria esse Lourenço, a quem deveria levar auxílio, e qual a espécie de auxílio? Pôs-se então a ver se descobria no vasto círculo dos seus conhecimentos, alguém com um tal nome. Mas, nem parente, nem amigo, nem conhecido! O acertado seria voltar para dentro e procurar uma elucidação. Mas hesitou. Havia alguma cousa que o prendia à janela ... Um dos varredores ousou cantarolar a meia voz, soturnamente, para não acordar os que dormiam, e ele teve ímpetos de lhe gritar que cantasse mais alto, que despertasse toda a gente daquele sono, que parecia o da morte... Medo? estaria ele com medo aos trinta e três anos, não tendo nunca antes em sua vida experimentado semelhante impressão?

Aos sete, lembrava-se bem, ia a qualquer quarto escuro sem temor e àquela mesma biblioteca quantas vezes subira sozinho à noite, por ordem do pai, a buscar tal ou tal livro, sem que lhe tremesse nas mãos o castiçal com a vela? Se ao menos pudesse coordenar agora duas ideias que o orientassem! Mas, ao contrário disso, os seus pensamentos, desligados, voltavam-se para ele na forma ansiosa da interrogação.

A voz soturna do varredor, cantarolando na sua melopeia monótona, de baixo profundo, dilatava ainda mais a sua impressão de mistério e de sofrimento. Olhou para as costas c para as palmas das mãos, fixou as unhas, bateu de novo rijamente no peito, como a verificar se era realmente ele quer? estava ali, dentro daquele enredo. Estaria doido? por que razão? a sua saúde era excelente... os seus negócios corriam bem ... os seus amores não o atormentavam ... Não; ele não estava doido: vira, ouvira c lera aquelas coisas singulares em perfeito estado mental. Entretanto, se no dia seguinte fosse contar a algum medico o que se acabava de passar, que diria o tal médico? — Nervos! e indagaria sem tardança se teria havido alguns casos de loucura na sua família... E assim como ao médico, se contasse essa história aos seus amigos, todos se ririam dele sempre que o cumprimentassem não se esqueceriam de lhe perguntar pela sua alma do outro mundo... Seria ele sonâmbulo? Não. Tinha bem nítida a consciência de se ter levantado da cama perfeitamente desperto, de ter ouvido dar volta à chave do terraço e ouvido passos pela biblioteca. E a lâmpada? e aquele dedo curto, engelhado de unha cortada rente e redondinha como a escama de um peixe?

Que extravagante visão...

O homem calou-se. Uma carroça rodou na calçada, e as sombras dos varredores sumiram-se no fundo da rua enevoada.

Claudino atirou-se na cama como um fardo.

...

Aquela casa da rua do Costa Bastos era herança de família, que toda morara ali desde os tempos do velho desembargador Aleixo, duas vezes ministro de sua majestade o Imperador e pai do juiz Dr. Cláudio, morto de uma congestão ao formular uma sentença famosa. Não havia mulheres em casa; Claudino sublocara o primeiro andar a um alfaiate italiano, reservando para si e seu criado Antão os compartimentos superiores. Pouco lhe importava, de resto, que a casa fosse alegre ou triste: não a ocupava senão para mudar de roupa ou para dormir. Associado numa casa comissária alemã, saía para a rua todas as manhãs ás oito horas, sendo sacudido do seu sono, ás sete pelo seu velho criado. Era rijo de carne, de ar desanuviado, não acreditava com Deus nem no diabo; mastigava bons bifes com os seus trinta e dois dentes naturais, tinha sempre mulheres apaixonadas por si e começava exatamente agora a sentir-se enleado por uma intriga de amor, deliciosa.

Quando nessa manhã o Antão foi chamá-lo, ele deu um berro, que o deixasse dormir. O criado não se convenceu. Tinha ordem para, em casos de relutância ir até ao beliscão. Até ao murro. Insistiu, até ver o patrão arregalar os olhos.

O senhor hoje custou a acordar... pois olhe, ontem até se deitou mais cedo do que o costume... Eu também sou assim: quanto mais durmo mais vontade tenho de dormir. Seu café está frio...

Tive um pesadelo horrível, Antão.

—Alguma coisa que o senhor comeu lá fora.

— Não comi nada.

— Então foi fraqueza ...

— Qual fraqueza!

— O senhor devia estar mesmo incomodado, para se esquecer do lampião aceso, e da janela aberta!

Hein?!

—A lâmpada da secretária ...

— Cala-te! Vai aquecer o café...

Então não tinha sido um pesadelo!... A lâmpada... Toda a cena noturna se reproduziu no seu espírito e ele saltou para o escritório, a verificar se lá estaria também o livro em cima da mesa... Sim, tanto o livro em cima da mesa como a estante escancarada de par em par! Claudino esfregou os olhos, curvou-se para a página do velho volume de Rodrigues Lobo e logo a sua vista caiu em cima desta frase:

«Socorre Lourenço e põe os olhos no seu exemplo».

Quando o Antão voltou com o café, encontrou o patrão com cara de idiota.

— Dize-me cá, Antão. Lembras-te de algum amigo meu com o nome de Lourenço?

Não senhor Só se for seu Gil.

— Ora, que ideia! Gil é Gil. Lourenço é Lourenço!

— Então, seu Braga.

— Esse é Ernesto... Outra coisa: não ouviste nenhum rumor esta noite, na vizinhança do teu quarto?

— Homem, parece que o alfaiate esta noite coseu na máquina até que horas! O senhor também ouviu?

— Não. Eu não ouvi nada. Hoje não vou ao trabalho. Prepara almoço para mim, depois hás de ir levar uma carta lá ao negócio.

Antão espantou-se, calado. Era a primeira vez que tal acontecia em dia de semana. Claudino tornou a ler a frase, examinou em silêncio todos os cantos da casa, e, ao mesmo tempo que fazia a sua toilette, indagava da memória ingrata onde teria ele jamais conhecido um Lourenço. Com o espirito mais repousado, sabia agora perfeitamente ter estado, na véspera à noite, em casa de uma família burguesa e pacata, onde bebera, por satisfazer certas instâncias, uma xícara de leite, mugido, com certeza, de uma vaquinha também pacata e mansa...

Em todo caso tomou na sua carteira a data do dia e anotou a singularidade da aventura noturna em que se sentira envolvido. Deliberou depois ir consultar um médico amigo, embora tivesse receio do ridículo ...

Foi só ao finalizar o almoço, ao descascar a sua deliciosa seleta, que ele se lembrou de repente de um rapaz alto e pálido que vira por duas ou três vezes em casa de Córa e que, se bem se recordava, parecia ter esse nome, embora o denominassem quase sempre pelo apelido.

Era um sujeito meditativo, dado a leituras filosóficas e pianista distinto. Mas que motivo poderia haver para que ele se interessasse por uma criatura com quem mal tinha trocado meia dúzia de frases e cuja existência lhe era indiferente? Não, não podia ser esse. Se algum Lourenço havia a quem devesse socorrer, teria de ser um outro!

Chamou o criado e recomendou-lhe que lhe remexesse a carteira, os bolsos, as gavetas, a casa, a ver se encontrava algum cartão de visita ou carta assinada com esse nome.

E, enquanto o Antão mergulhava os dedos nodosos nas algibeiras do seu smoking e da sua casaca, ele pensava de si para si, se não estaria prolongando estupidamente uma aventura a que a luz do dia deveria ter posto o ponto final.

«Fui vítima de uma alucinação. Quem tirou o livro da estante e acendeu a lâmpada fui eu ... sonhando, talvez, e tornei a deitar-me... acordei sob a impressão de um sonho... e tudo mais decorreu disso mesmo. Não foi outra cousa.... Em todo caso, já agora, por curiosidade, se encontrar o endereço do tal Lourenço, irei procurá-lo. Não sei como lhe hei de explicar a visita, mas há de ocorrer-me um pretexto, se, com a presteza com que lhe levar o socorro, ainda o encontrar vivo! ...»

O endereço apareceu, depois de muito trabalho. Escovando-se para sair, Claudino ia dizendo:

— Tu és um grande descobridor, Antão. Se eu estivesse de veia, levava-te ao bispo, para crismar-te com o nome de Cristóvão Colombo... Dá-me o meu chapéu ...

— O senhor leva a chave da porta?

— Não. Espera hoje por mim; faze a tua cama na biblioteca, quero que observes o meu sono. Se me vires levantar de noite, sacode-me com força; entendeste?

— Entendi...

— Janto fora. Com que, então, este senhor Lourenço R. Trigoso, mora no Engenho de Dentro?... É longe como diabo... Pois vou lá!

Claudino desceu a escada, mas, antes de pôr o pé na rua, chamou o Antão para uma outra ordem:

— Olha: deixa também na biblioteca um regador cheio d’água fria. Se eu não acordar aos teus safanões, molha-me sem piedade!

II

O automóvel ia a toda velocidade. Sentindo o ar bater-lhe no rosto, Claudino desanuviava-se de pensamentos enervantes. Teria tempo de cogitar nas suas fantasmagorias quando chegasse ao seu destino; preferia entreter agora a imaginação com os seus negócios, que iam bem, e os seus amores, que também não iam mal.

Tinha exatamente no bolso, havia já dois dias, uma carta de Córa, marcando-lhe uma entrevista para a noite imediata, dando aquele passo, dizia ela, animada pela ausência do marido, que partia para o Sul a escolher gado para uma das suas propriedades rurais. Abençoada ideia de homem! que todos os touros, carneiros e cavalos que ele adquirisse se multiplicassem assombrosamente, em seus pastos, nos mais numerosos e belos exemplares das raças respectivas. Para ele bastava-lhe a glória e a delícia de beijar-lhe a mulher; e ora isso não era fortuna de que outro qualquer se pudesse gabar. Córa, com toda aquela estonteadora beleza de loira, que Deus lhe dera e o diabo lhe acrescentara com as suas artes, era de uma honestidade proverbial na própria roda dos maledicentes. Ele mesmo não se sabia explicar a facilidade daquela conquista. Havia só dois meses que frequentava a casa dela e já há muitos dias as suas mãos se encontravam em movimentos furtivos e os seus pés se procuravam embaixo da mesma mesa em que o marido, cabeludo e trigueiro como um turco, fazia e desfazia paciências, muito calado, ruminando cifras.

Coubera-lhe a ele, Claudino, a dita de quebrar o gelo daquela mulher virtuosa e de lhe dar frêmitos de desejo ao corpo esguio e branco como os das virgens das iluminuras. Raciocinando um pouco, isso afinal não o devia admirar, visto que a sua modéstia não ia até à tolice de desconhecer o valor do seu espírito e o garbo das suas exterioridades. Seria mesmo um imbecil se se não considerasse um bonito rapaz e ainda com a circunstância favorabilíssima de se vestir sempre no melhor alfaiate do Rio de Janeiro. A sua perspicácia era também bastante aguda para perceber que todas as mulheres, inclusive a doce Córa, olhavam para as suas case- miras com ar de absoluta aprovação. Apesar, porém, de todas essas vantagens, poderosíssimas, ele não ousara esperar que o beijo definitivo dessa senhora honesta viesse tão depressa... Córa mostrava saber aproveitar com afã as ocasiões, ciência que muita gente ignora; e nisso revelava ainda ser uma mulher superior. Um triunfo em toda a linha, aquele, mas que viria depois? Como acabaria? Por mais que o seduzissem certas intrigas, tinha-lhes sempre medo do fim. De mais a mais o marido Ide Córa era um homem de fisionomia medieval, trescalante a ciúme... Enfim, fosse Deus servido da melhor forma, o que lhe importava agora era reformar, para as suas entrevistas de amor, aquela casa da rua Costa Bastos, forrá-la de novo, pintá-la de fresco. Seria isso até um magnífico pretexto para se desfazer de alguns móveis velhos que por preguiça conservava em casa, como aquela almanjarra da biblioteca, carregada de livros e de traças, e como o oratório, em que a irreverência do Antão metia as caixas dos seus charutos e as latinhas de graxa para os seus sapatos! Mas esse plano desfez-se à lembrança de que a linda Córa não saía sozinha, vendo-se por isso na contingência, pobre mártir, de marcar as suas entrevistas de amor para a própria casa. Contanto que o diabo do marido não aparecesse... O que seria preciso era influi-lo a ir escolher animais todos os meses às feiras do Sul, e que ficasse por lá, pelo menos quinze ou vinte dias de cada vez... porque isso de se sujeitar ao papel ridículo do es conde-esconde em casa alheia, não estava de acordo com os seus hábitos. Gostava do fruto proibido, sim, mas saboreado com sossego, delicadamente, demoradamente.

Refastelando-se ainda mais no banco, Claudino lembrou-se que no dia seguinte teria de ir mais cedo para o escritório, obrigado pela urgência do correio do Norte, aquela estopada de tantas cartas parecidas. Na verdade, a vida só era boa como ele a levava naquele instante: correndo aventuras na asa do vento. Seria, entretanto, prudente ir imaginando o que houvesse de dizer a esse tal Lourenço, se o encontrasse em casa. O que lhe não confessaria, nem a pau, era a razão extravagante, mesmo absurda, da sua visita. Mas que motivo arranjaria ele, homem de comércio, para se apresentar pela primeira vez numa casa estranha, em dia útil e a horas de trabalho?

Ainda era tempo de voltar para trás: e estava quase resolvido a fazê-lo, quando o automóvel parou em frente a um portão de ferro entreaberto. Era ali.

— Entro? não entro? vacilava Claudino, embaraçado: — Afinal, é ridículo isto que eu estou fazendo ... mas já agora, que diabo, o melhor é ir até ao fim.

A sua convicção e a sua esperança era saber logo ao primeiro toque de campainha que o Sr... Lourenço não estava em casa. Mas enganou-se. o Sr. Lourenço estava.

Um jardineiro, engelhado e baixinho, correu à entrada, e, mesmo sem indagar de quem se tratava, afirmou que sua senhoria podia entrar — como se já estivesse prevenido da sua vinda!

A casa, alta, cor de oca, de dois andares, ficava dentro, ao fundo de uma rua de bambus, cujas pontas se arqueavam em cima, formando túnel. Era uma sombra deliciosa por toda a extensão de uns cinquenta metros. Caminhando por ela, Claudino pensava a cada passo:

— Mas que irei eu dizer ao homem... Ora, já se viu uma cousa assim?! Mau! de mais a mais há cães em casa!

Efetivamente, ao desembocar da rua dos bambus, viu no patamar dos quatro degraus de pedra da entrada, um cão ruivo, que, sentado sobre as patas traseiras, fixava nele um par de olhos redondos, mais semelhantes aos olhos das focas que aos dos cães.

Era um animal esquisito, de pelo erriçado e duro como os das escovas de arame. Claudino hesitou um momento em passar por ele; mas, vendo a sua impassibilidade, subiu a escada, pensando:

— É extraordinário, nem mesmo o cão se alvoroça com a chegada de um estranho...

E, aproximando-se da porta, ia empurrar o botão da campainha, quando viu aparecer, através dos vidros, uma senhora alta, de bandós brancos, que veio depressa ao seu encontro e disse, em ar de censura, antes mesmo de lhe ter ouvido a mais leve pergunta:

— Como o senhor tardou!

— Minha senhora... eu...

— Agora, não perca tempo. Faça o favor de entrar.

— Haverá talvez alguma confusão. Tomam-me, naturalmente, por uma outra pessoa...

Ela devia ser surda, porque respondeu:

— O quarto dele é no segundo andar. Venha comigo. Contanto que o senhor ainda chegue a tempo!

— Julgará V. Ex. que sou médico?!

Ela não respondeu; tomou-lhe o chapéu e a bengala das mãos, suspirando:

— Foi uma noite horrível!

— Talvez que V. Ex. pense que sou tabelião?...

— Não percamos tempo, observou ela, sem o atender, e guiando-o através de um corredor largo até à escada do pavimento superior. Aí, fazendo-lhe sinal para que subisse na frente, aconselhou:

— Tenha cuidado com os degraus, que são um pouco traiçoeiros, Sr. Claudino.

Sr. Claudino ... Sr. Claudino! Como poderia aquela senhora, que ele jamais vira em dias de sua vida, saber assim o seu nome?! Continuaria a ilusão? Estaria ele doido varrido, ou dentro ainda de um sonho? Para ter uma sensação da realidade, beliscou disfarçadamente uma das coxas. Doeu-lhe. Não há dúvida, sou eu, pensou Claudino, estacando.

— Já agora não o faça esperar; tenha paciência, sim? disse a seu lado a senhora dos bandos. E a sua voz estava impregnada de uma tal tristeza e doçura que o moço subiu a escada toda em um só fôlego. Fosse o que fosse, estava morto por saber a verdade daquela história, ainda inédita nos anais da sua vida.

A escada desembocava em cima numa saleta circundada de portas e de armários. Uma mulatinha magra revolvia roupas brancas num deles, sem nem ao menos ter a curiosidade de voltar a cabeça, para ver quem passava. Desse modo, Claudino varejava pela primeira vez todo o interior daquela casa alheia, sem despertar a atenção dos seus moradores, como se lhes fosse familiar! Penetrava agora num outro corredor, ao fundo do qual se abria uma janela para a galharia em flor de um grande pé de hibiscos. De cada lado desse corredor havia duas portas; foi na segunda da direita que a senhora dos bandós parou, fazendo-lhe o gesto de esperar. Ele esperou.

Começava a sentir-se nervoso, impaciente. Ardia por acabar com aquilo e voltar para a sua vida interrompida. Não era homem para mistérios e enredos sobrenaturais; toda a sua ufania era de ser um bom animal, de carnes rijas e espírito lavado de preconceitos.

No mesmo minuto em que a senhora reapareceu, abrindo a porta do quarto para que ele entrasse, assaltou-o de chofre a ideia de estar sendo vítima de um embuste qualquer. Que o esperaria dentro desse quarto? Teriam tido aquele trabalho todo para lhe roubarem o relógio e uma carteira insignificante? Nesse relance passou-lhe pelo espírito a probabilidade de uni assalto, de um assassínio, ou imposição da sua assinatura para fins odiosos; mas, a lembrança do dedo do velho, furando a luva de neblina que envolvia toda a mão para apontar imperativamente uma frase, ordenando que se socorresse um homem, afastou-lhe tais pensamentos da cabeça. E agora já não havia tempo para suposições. Era ver e ouvir.

— Faça o obséquio de entrar...

O quarto tresandava a iodofórmio, e ainda por cima estava com as venezianas fechadas. Claudino tropeçou num tapete, depois num banquinho de pés. Trazia os olhos cheios da luz do sol, não via nada na meia escuridade. Alguém lhe segurou no braço, pelo cotovelo e o levou até a uma poltrona antiga, onde o fez sentar-se... Era ainda a senhora dos cabelos brancos que o dirigia.

Foi preciso que ele tivesse descansado alguns minutos em silêncio, para que pouco a pouco pudesse distinguir os objetos que o cercavam. Estava em frente a uma cama de ferro doirado onde um moço repousava, recostado em almofadões. Claudino reconheceu nesse moço o pianista da casa de Córa e já com isso não sentiu surpresa, de tal jeito os sucessos se iam desenrolando.

«No fim, tudo se há de explicar», pensava, voltando a cabeça para um dos ângulos dó quarto, onde, a um cochichar de vozes femininas, se juntava o rumor d’água despejada pelo gargalo de uma moringa. Notou então com estranheza, que nesse canto do quarto, como nos outros três, havia grandes blocos de gelo em bacias de ágata. As vozes eram da senhora de cabelos brancos e de uma moça pá lida, de trança solta e avental azul mal atado sobre o vestido claro. Eram ambas da mesma estatura e ocorreu a Claudino que fossem mãe e filha. A presença daquelas duas mulheres tranquilizava-o, A mais nova, tendo enchido um copo d’água, veio oferecê-lo ao doente, com todo o jeito e carinho. Depois de ter bebido a água, Lourenço ordenou, com um gesto de cabeça, ás duas senhoras que saíssem, e as duas caminharam para a porta; mas a moça voltou de lá ainda a alisar os lençóis da cama, a olhar de perto, longa, amorosamente, para o rosto de Lourenço; depois, fixou Claudino como a pedir-lhe piedade e saiu fechando a porta sobre si.

«Cheguei ao fundo do poço; é agora», pensou Claudino consigo. E disse:

— Às suas ordens, Sr. Lourenço!

— Obrigado. Espero não perder palavras, mas primeiro jure que não repetirá a ninguém o que me vai ouvir.

Jurar! Até a fórmula empregada pelo doente tinha um sabor novo para Claudino. Repugnando-lhe fazer um juramento, ele calou-se, embaraçado. A voz do outro, embora fraca, era tão clara, tão limpa, tão bem articuladas lhe saíam as palavras dentre os beiços desmaiados, que seria impossível perder lhe uma única sílaba. Procurando evitar a solenidade de um compromisso, cujo valor não podia ainda avaliar, Claudino perguntou:

— Não é para furtar-me a servi-lo, mas desejaria saber por que é para que vim eu aqui. Estou agindo sob o poder de um mistério que não compreendo!

— Ninguém pode compreender mistérios... Mas vá primeiro dar volta à chave daquela porta, não quero que ninguém nos ouça. Ninguém! A menina que acaba de sair deste quarto é minha prima e minha noiva... Era minha noiva, eu devo falar da vida como de um assunto passado... Faça favor: examine bem tudo; devemos estar sós. Minha tia é surda, mas a curiosidade é capaz de fazer o prodígio que a medicina e o tempo não conseguiram fazer e se ela me ouvisse, não teria depois razão para chorar por mim... Ninguém?

— Ninguém.

— Aproxime-se e esforce-se por entender-me, mas, já que não quer jurar, dê-me a sua palavra de honra de que não referirá a ninguém o que me vai ouvir.

— Dou-lhe a minha palavra de honra.

— Escute: vimo-nos duas vezes: a primeira, cruzando-nos numa sala onde eu entrava, quando o senhor saía; segunda, na mesma sala em que o senhor conversava alegremente, enquanto eu tocava músicas após músicas, a pedido de uma mulher...

— Não me esqueci... O senhor nesse dia tocou uma sonata, cujas harmonias me ficaram na memória...

— Era a Sonata à minha noiva, inspirada por esta pobre criança... Foi a última vez que a toquei...

— Há de tocá-la outra vez no dia do seu casamento, se não for ainda mais cedo....

— Nunca mais! Olhe:

E Lourenço, afastando com a mão esquerda a colcha de sobre o busto, mostrou o braço direito ligado no pulso. Tinham-lhe amputado a mão. Claudino não pôde reprimir um movimento de horror.

— Escute. Não podemos perder tempo. A minha história é esta: Solicitado por uma mulher casada, fui ontem à meia-noite a uma entrevista de amor em sua casa, e justamente no instante em que, pousando a mão no parapeito do seu terraço, eu ia saltar para dentro, vi reluzir na treva o raio branco de uma lâmina e senti que alguém de dentro me decepava a mão.

— O marido!...

— Fosse quem fosse, pouco importa. Eu não posso condenar ninguém. Caí na rua e arrastei-me de bruços até aos trilhos dos bondes, com a intenção ou de morrer de uma vez esmagado pelo primeiro carro que passasse, ou de, sendo encontrado ali, ver atribuído a um acidente vulgar o meu desastre.

— Salvava assim a reputação de uma mulher

— Salvava a minha. Foi na minha que pensei. A figura da minha noiva apresentou-se-me diante dos olhos como um remorso. Nunca a amei tanto. Felizmente, ela acreditou... Dê-me água.

Claudino tremia ao deitar água no copo.

— Obrigado. Sentindo esvair-me em sangue, bem vizinho da morte, sabe no que pensei? Que na mão que me tinham cortado, ficava um anel com o nome da minha noiva e a data do nosso primeiro e único beijo. Então, uma indignação sacudiu todo o meu corpo e o meu pensamento voou para o senhor.

— Para mim?! por que para mim? Mas isto tudo é um pesadelo!

— Há muita coisa na vida, que parece sonho, se é que tudo não é sempre irrealidade! Pensei no senhor como a única pessoa capaz de ir buscar esse anel e trazê-lo à minha noiva, ou a mim, se eu ainda estiver vivo. Ficando em poder do meu assassino, esse anel se me afiguraria como uma ameaça ao sossego da minha memória. Ele seria em todo o tempo testemunha de uma verdade, que precisa ser enterrada comigo. Compreende?

— Compreendo.

— Lembro-me confusamente do resto: um automóvel da Assistência, médicos discutindo ao redor de mim, e a minha chegada aqui à casa de minha tia ... Conscientemente às vezes, e inconscientemente outras vezes, eu chamava pelo seu nome, como pelo da única pessoa capaz de salvar-me. Agora já sabe tudo.

— Não sei nada. Falou-me em ir buscar um anel. Onde? Como?

— Em casa dela.

— Mas onde é essa casa e quem é ela?

— Córa. Pois não tinha adivinhado?

— Córa?!

— Não a condene e acredite que ela é uma mártir... Só por muito amor consentiria em ser minha ... Só por muito amor! Leve-lhe a minha carteira, onde há uma carta sua, que não deve ser lida pela minha noiva. Percebe agora por que pensei no senhor? Córa dizia sempre que o estimava como a um irmão. Vá vê-la, console-a, que ela também deve ter sofrido muito... entregue-lhe a carta de que lhe falei e peça-lhe o meu anel, em que está gravado o nome de Beatriz, vítima inocente de toda esta tragédia... Mais água!... O senhor está britando ... é também por causa do gelo com que encheram o quarto... Vá, não perca tempo. Eu já não tenho forças... se pudesse trazer também a minha mão! ... Que saudades eu teria do piano se continuasse a viver!... A minha carteira está em baixo do meu travesseiro ... leve-a ... É essa... adeus...

Lourenço desmaiava, lívido, rolando a cabeça no almofadão. Claudino correu a abrir a porta e logo deparou com a noiva do pianista, em pé, de encontro à parede fronteira, à espera de poder entrar. Depois de assegurar-se de que o doente voltava a si, Claudino desandou todo o caminho por que tinha andado, até aquele segundo andar. Em baixo, a senhora dos bandós brancos, que ele sabia agora ser a dona da casa, correu ao seu encontro, resumindo numa palavra inexpressiva toda a sua curiosidade ansiosa:

— Então?!

Claudino gritou:

— O mal não me parece de morte. Há muita gente por aí que vive gorda e satisfeita depois de ter passado por desgraças idênticas. V. Ex. deve ter encontrado muitas vezes, por essas ruas, pessoas a quem falte uma perna ou um braço e que, entretanto, não parecem mais tristes do que qualquer de nós....

— Tem razão; mas serão pessoas de outra natureza. Meu sobrinho é excessivamente impressionável. O senhor voltará a vê-lo?

— Sim... logo à noite, ou amanhã de manhã; entretanto desejaria que me informasse de uma cousa:

— Pois não ...

— Quem foi que me mandou chamar?

— Quem foi que o mandou chamar?!

— Sim, porque evidentemente V. Ex., como todos da sua casa, esperava por mim!

— Certamente.

— Ora, como eu hoje não fui à minha casa comercial e ignoram aqui o meu domicílio particular, calculei que alguém da sua família tivesse mandado para o meu escritório um recado, que eu não recebi ...

— Não. Nós todos supúnhamos em casa que Lourenço o tivesse avisado por meio de qualquer médico ou empregado da Assistência, visto que dês de que chegou participou-nos a sua visita, continuando a talar no seu nome com ansiedade crescente. Mas se o senhor não recebeu nenhum chamado, como veio até cá?

— Vim por acaso.

— Hein?!

Claudino retraiu-se. Talvez não fosse conveniente dizer tudo. Inventou então a combinação de uma entrevista marcada por Lourenço havia dias e saiu apressado e nervoso.

No terraço, o mesmo cão ruivo, eriçado, de olhos de foca, deixou-o passar sem nem sequer fazer ouvir uma rosnadela. Os bambus moviam-se, agitando sombras na areia do jardim, e por uma esquisitice da imaginação torturada, Claudino, dando ao chauffeur o endereço de Córa, pensava na figura negra do varredor das ruas, alta noite, arranhando nas pedras a sua espalmada vassoura de raízes e cantarolando soturnamente aquela toada monótona de que não entendera as palavras, mas que lhe ficara no ouvido.

III

Tudo agora, na rua, parecia esquisito e artificial aos olhos de Claudino. Os tipos mais vulgares, as cenas mais comuns, acordavam-lhe impressões curiosas.

Estaria ele de facto no Rio de Janeiro, no meio de sua gente?

Sim, não podia haver dúvidas. Ainda poucos minutos antes tinha passado entre aqueles dois cartazes da Caxambú e da Brama, e vira naquela padaria da esquina o mesmo homem barrigudo, de nariz erguido, cheirando o ar da sua porta. Para comprovar a identidade do lugar, bastava-lhe, de resto, olhar para aqueles soberbos renques de palmeiras imperiais, alinhadas paralelamente por detrás do muro de uma chácara sua conhecida, e ver, ao fundo da planura do bairro, os recortes da serra da Tijuca.

A verdade é que ele vinha do fundo de uma aventura absurda, como se tivesse vindo do porto de um outro mundo. A realidade afigurava-se-lhe mais irreal do que a irrealidade lhe parecera extravagante. Os homens por que passava tinham todos a expressão inconsciente de autômatos, agindo ao influxo de um só sopro: o egoísmo, em direção do mesmo ideal: o dinheiro. E esse ideal comum uniformizava todas as fisionomias. Não havia por ali caras nem raças diferentes: havia almas iguais, almas feitas ás dúzias, como os casacos, que o seu inquilino alfaiate da rua Costa Bastos cortava, de uma assentada, em camadas sobrepostas de pano, para o seu comércio de fancaria ...

O sol das cinco horas coloria tudo de amarelo. Havia fachadas de casas, que lembravam caras de cadáveres; árvores de calçada carregadas de moedas de oiro, representadas por discos de luz movediça. Moleques e garotos, jogando o botão, acocorados nas pedras, guinchando como macacos, discutindo e esbordoando-se mutuamente, reproduziam a mesma ideia dominadora e essencial dos adultos, menos demonstrativos, mas igualmente possessos. O mesmo veneno, que circulava nas veias dos indivíduos, como que se transmitia ás cousas inertes: nas tabuletas das casas comerciais as letras dos dizeres ressumavam, de inchadas, o suor da ganância, pela qual a humanidade gasta as suas melhores forças, combatendo até ao último suspiro. Por que? para que? Para servir a matéria. Para regalar o corpo. A algumas janelas assomavam cabeças de meninas, enfeitadas de fitas. Era ainda a tabuleta insincera e ridícula. Dentro daquelas cabeças só deveria existir uma ideia: atrair o marido, como nas tabuletas só havia a de atrair o freguês. Uma mulher carregando o filho ao colo e ainda um fardo à cabeça, deu-lhe a impressão de uma força muscular admirável, ao serviço do mesmo ideal abjeto. No mundo vasto havia lugar para outras aspirações: por que não ia aquela mulher para o campo, roer ervas como os cabritos e dormir à sombra de árvores cheirosas? Assim não morreria de fome, evitaria sacrifícios deprimentes c a sua alma teria espaço para agitar-se e crescer até às estrelas, que palpitam no céu aveludado e assombroso. Pela primeira vez comparou a agremiação das cidades aos pátios dos hospícios, onde todos os loucos fossem atacados da mesma mania sob formas diferentes. De fato, desde a criança ainda inconsciente, que estende a mão tentando segurar qualquer objeto que brilhe diante de seus olhos, até ao velho moribundo, que no último momento de vida procura ainda apanhar nas bainhas dos lençóis ou no espaço cousas que só ele vê, a mais enraivecida e poderosa vontade dos homens é — possuir. Essa ideia escraviza-os, torna-os em máquinas, verdadeiros moinhos de carne e osso, em que as ideias se trituram para o pão da sua fome fenomenal.

Pobres fantasmas esses, que ele via, caminhando pelas calçadas daquele bairro. Nunca a população da rua se mostrara aos seus olhos tão mesquinha rios seus trajes, nem tão cansada nos seus passos. Sentia, por vezes, a impressão de que se descesse do automóvel e fosse tocar, embora só com as pontas dos dedos, nessa gente, ela se desfaria em pó, como certas árvores mortas, corroídas pelos vermes ...

Quem lhe asseguraria que na vida não fosse tudo ilusão? E sendo tudo ilusão, por que haveria de existir o absurdo?

O chauffeur voltou-se:

— O senhor disse rua do Uruguai?

— Sim; rua do Uruguai.

Estavam perto da casa de Córa; daí a uns três ou quatro minutos ele bateria à sua porta. E se ela não estivesse só? Se o hirsuto marido se intrometesse no caso, cioso de saber qual o assunto daquela sua conversa, tão esquisita e tão inesperada? Oh! a terrível complicação dos maridos! E que fogueira seria essa, que tão minaz e devoradoramente consumia aquele delicado e pálido corpo de mulher? Seria crível que ela amasse dois homens ao mesmo tempo e a ambos fizesse simultaneamente a mesma promessa?

Espicaçou-o o desejo de comparar a carta escrita por ela a Lourenço, aquela que ela lhe dirigira a ele próprio. Nada mais fácil. Trazia-as ambas no bolso. Esboçou o gesto de tirar a carteira de Lourenço da algibeira em que a enterrara, mas não levou a ação a efeito. Para que? Iguais ou diferentes, as duas cartas voltariam juntas para a mão que as escrevera. Gêmeas ou não, eram filhas ambas do mesmo sentimento enganador. De resto, Córa era-lhe agora insuportável. A sua espiritualidade, que o seduzira, transformava-se subitamente numa materialidade suína, que lhe dava náuseas. Não era uma mulher apaixonada, era uma mulher doente. Não devia ser submetida ao regímen dos beijos de amor, mas ao das duchas geladas. Não lhe daria tempo para defender-se. Tratá-la-ia com aspereza, usaria para com ela frases curtas e sumárias. Previa cenas terríveis, mas de nenhum modo se esqueceria de que ia como delegado de Lourenço, e nada mais. Nada mais.

Contudo, ao entrar em casa dela teve um estremecimento. Lembrou-lhe a última visita, em que ouvira ao Lourenço aquela sua famosa composição à noiva, ao mesmo tempo que bebia nas grandes pupilas de Córa, as mais lindas e ardentes promessas de amor...

O criado, antes de lhe abrir a porta da sala, fê-lo esperar um momento no gabinete do patrão, que tinha saído havia pouco, mas não deveria tardar ...

Claudino respirou.

O compartimento não era grande e a dona da casa deixara nele, como vestígio da sua passagem, o seu chapelão branco de jardinagem, que se balançava de uma maçaneta da porta, suspenso pelos atilhos de fitas cor de rosa.

Aquele chapéu evocou-lhe uma recordação suave:

Fora numa tarde assim que ele tinha um dia passeado ao lado de Córa, pela chácara, vendo-a colher flores, e sentindo aquelas rendas brancas roçarem-lhe o queixo, de vez em quando, numa leve carícia inconsciente... Mas, logo um pensamento o mortificou: — Teria ela tido hoje a coragem de passear?

Voltando, atormentado, o rosto para o outro lado, viu, com sobressalto, a lâmina curva de um alfanje, sobre o pano escuro da mesa.

«Foi com aquele alfanje que ele decepou a mão de Lourenço».

E sem tirar os olhos do aço polido da arma, repetiu, de si para si, num calafrio: — «foi com aquele alfange que ele decepou a mão de Lourenço ...»

O criado tardava em abrir a sala. Claudino, muito impaciente e nervoso para esperar sentado, pôs-se a passear de um lado para o outro. De repente, parou em frente a uma grande lousa escolar, em que leu estas palavras, escritas a giz:

       

Fábula Persa

«Ha três cousas que nunca se obtêm por meio de outras três: riquezas por desejos, mocidade por arrebiques, saúde por medicamentos; assim como há três cousas, que três circunstancias tornam valiosas: socorrer os famintos quando têm fome, falar verdade quando se está irado, perdoar tendo-se o poder de castigar».

A mesma letra acrescentava, noutra linha:

— «O poder e o direito».

A que mais abaixo respondia uma letra miúda, de mulher:

— «Poder sim. Direito não».

Continuarei ainda por muito tempo dentro do enigma? perguntava a si próprio Claudino, quando o criado voltou e o conduziu à sala de visitas.

O piano estava aberto e o ambiente saturado pelo aroma de um grande ramo de murta. Espalhadas pelo tapete e acumuladas no sofá, sobrepunham- se, umas ás outras, mais de vinte almofadas de seda. Os stores, descidos a meio deixavam entrar no aposento uma claridade leitosa, que adoçava uma grande tela escura, emoldurada a prata, onde o rosto e as mãos pálidas de Córa emergiam da lã, cor de chumbo, de um vestido de inverno. Claudino deu as costas ao retrato e voltou-se para a porta, à espera.

Apenas uns segundos e a dona da casa apareceu, envolvida num roupão marfim-velho, que lhe descia em pregas, desde os ombros delicados até ao chão. Não sorria, como nas outras vezes. Vinha séria, olhos orlados de violeta. Os cabelos louros, presos na nuca por dois grampos de ouro, iluminavam-na com uma claridade de auréola. A poucos passos de Claudino, talvez por lhe estranhar o aspecto rude e altivo, estacou, com ar interrogativo.

Ele disse:

— Compreende que só uma razão muito poderosa me obrigaria a vir à sua casa a uma hora tão inconveniente e de um modo tão inesperado. Não proteste; é isto mesmo. Preciso falar-lhe e o que tenho a dizer-lhe di-lo hei sem rodeios, bruscamente, porque assim é preciso. Sei do que se passou esta noite no seu terraço. Venho, mandado por Lourenço, trazer-lhe uma carta e pedir-lhe um anel...

Não pude continuar: Córa desfalecia. Para a não ver rolar no assoalho, ele estendeu depressa os braços e amparou-a. Pesava. Através das pregas moles do vestido, sentiu-lhe a carne do corpo sem colete, abandonando-se todo. Na esperança de que a vertigem fosse momentânea, Claudino não quis gritar pelo auxílio de ninguém. Entretanto, Córa arrefecia, e uma palidez marmórea se estendia por toda ela. Pareceria morta se dos seus olhos semicerrados não descessem lágrimas grossas, que lhe escorriam em fio pelas faces.

Claudino fê-la sentar-se, reclinando-a nas sedas moles dos almofadões. Uma grande, uma enorme tristeza se evolava daquela prostração. Que lhe revelaria ela ao despertar? E se se fechasse obstinadamente no seu silêncio e no seu segredo, como ousaria ele interrogá-la?

Começava a ter pena daquele sofrimento, mas precisava saber de tudo, ir até à impiedade.

Supusera tratar-se de uma vertigem passageira, mas Córa ainda mal respirava. E se, entretanto, o marido chegasse? Não lhe tinha dito o criado que ele não deveria tardar? Talvez fosse prudente abrir uma janela, fazer com que o ar renovasse aquela atmosfera saturada do cheiro forte da murta e que entretinha, naturalmente, prolongando-a, a síncope de Córa. Ela respirava apenas, cada vez mais pálida e mais fria.

Claudino começava a impacientar-se, a ter medo. Foi abrir a janela, voltou a sentar-se perto do divã. E se ela morresse? Via-lhe os dentes cerrados- as olheiras cada vez mais escuras...Tornou a erguer-se e ia chamar alguém, quando ela voltou a si, desafogando-se num suspiro.

— Passou? perguntou-lhe Claudino, quase solícito.

— Passou... respondeu ela num débil fio de voz.

— Se eu pudesse adiar esta entrevista, creia que o faria sem a relutância de um segundo mas as circunstancias obrigaram-me á maior urgência. Lourenço não pode esperar ...

— Lourenço?!

— Sim ...

— Mas ...como soube?

— Isso pouco nos importa agora. Lembre-se de que seu marido pode chegar de um momento para o outro! O anel estará com ele?!

— Não ...

— Nesse caso dê-mo depressa!

O tom de Claudino ia-se tornando áspero. Córa fixou nele os olhos inundados e, tirando de vagar um anel de ouro do dedo, ofereceu-lho, sem dizer uma única palavra.

— É este? perguntou ele.

Ela acenou que sim, com a cabeça. Não podia haver dúvida; lá estava gravado o nome da noiva de Lourenço, no interior do aro. Claudino não tinha o gesto impaciente. Depois de ter examinado a joia friamente, guardou-a, com um movimento, vagaroso, na mesma carteira de onde tirou duas cartas que entregou a Córa, observando a impressão que isso causava nela, e dando-lhe tempo a que se explicasse. Ela, porém, parecia não entendê-lo e recebeu as cartas maquinalmente, sem desviar os olhos dos de Claudino, que se conservava calado, sufocando o desejo de interrogar, de saber... Por fim, vendo que ela não falava, ergueu-se:

— Agora, minha senhora, que está tudo acabado entre nós, permita que lhe agradeça a sua atenção e me despeça ...

Uma nuvem passou pela fronte de Córa; depois, ela segurou nervosamente, com ambas as mãos as duas mãos de Claudino e, levantando-se rente a ele, disse-lhe perto da boca, precipitando as palavras:

— Escuta; não me julgues mal; escuta! A carta era para ti... Lourenço veio em teu lugar... era a ti que eu chamava, era a ti...

— Não!

— Sim! olha para os meus olhos: verás que não minto. Eu nunca te menti; é só a ti que eu amo, quero que saibas, quero que tenhas a certeza. Escuta! Eu tinha acabado de escrever a Lourenço, pedindo-lhe a Sonata à minha noiva e, estava a escrever-te, avisando-te de que poderias antecipar a tua visita, vir uma noite antes, quando ouvi os passos de meu marido. Percebes a minha confusão? A portadora esperava as cartas ao pé de mim. Assustada, troquei precipitadamente os sobrescritos de ambas e entreguei-as ... Oh! tu não acreditas e é a verdade, é a verdade!

— Mas nesse caso eu deveria ter recebido a carta de Lourenço... em que lhe pedia a sonata.

— Sim!

— Oh! mas isso é um subterfúgio e peço-lhe que repare que eu não a acuso!

— Um subterfúgio? Não! Não te vás embora; escuta, espera, não me condenes sem me ouvir. Foi horrível, quero que saibas tudo, mas preciso falar depressa, depressa, porque ele pode chegar e eu tenho medo. Escuta: meu marido tinha resolvido partir ontem, á tarde, para o Sul, e quando eu já o supunha embarcado, vi-o entrar de novo pela casa. Achou-me pálida, notou certa perturbação em mim.... expliquei-lhe que era pela alegria de o tornar a ver .. Não sei se acreditou... Disse-me então que vinha passar apenas algumas horas comigo, visto que o paquete só levantaria ferro ás sete horas da tarde. Estás compreendendo? Não me olhes com esse olhar de dúvida! Escuta ainda: no primeiro momento de liberdade corri a dizer à minha velha Antónia que podia ir levar ao seu destino as cartas que eu lhe entregara e ela saiu. Eu não tinha nada a recear.

Meu marido deveria partir ás sete horas da noite! À proporção que a tarde avançava, eu ia-me tornando mais nervosa, mais impaciente, porque ele se acomodava como quem tencionasse ficar! Às seis horas, alguém o avisou pelo telefone que o vapor adiava ainda a partida para hoje de manhã! Então comecei a girar pela casa, como louca. Antónia não tinha voltado da rua, nem voltaria, por ter de ir fazer quarto a um doente, não sei em que casa nem em que lugar O meu desespero era tão visível, que meu marido já não disfarçava as suas suspeitas... Oh! não me fujas, é a verdade, a verdade! Escuta, escuta, meu amor. Eu tinha medo de que viesses, que ele te pressentisse e te matasse! Todo o meu corpo tremia numa irritação nervosa que eu não podia dominar. Desde o escurecer até à meia-noite, o mais leve ruído, folha de árvore caindo na areia, sopro de aragem levando um papel, qualquer som, por mais indistinto, fazia-me vibrar em grandes sobre- saltos, que lhe causavam uma estranheza silenciosa, mas sensível. Às dez horas obrigou-me a deitar-me e a fechar a casa... Seria preciso dormir cedo, para se fazer madrugada... Dormir! Mas as minhas pupilas queimavam-me as pálpebras de cada vez que eu tentava fechar os olhos, e o coração arrebentava-me o peito... À meia noite alguém bateu devagarinho na veneziana... Era o sinal. Quis levantar-me sem ser pressentida, julgando-o a dormir; uns pulsos de ferro obrigaram-me à inatividade... Ele escutava os sons de passos tímidos embaixo da janela... e, pensando que esses passos fossem teus, eu desmaiara, de terror! Oh! é a verdade! escuta: meu marido adivinhou o motivo da minha aflição, amarrou-me ao leito com o lençol, e, despendurando o seu velho alfanje do alto da cabeceira, deslizou de mansinho para o terraço .. Não tenho palavras para contar-te o meu terror. Tentei gritar, para avisar-te que fugisses, mas a voz morrera-me na garganta... Que tempo estive assim? Um minuto? uma hora? não sei... De repente uma voz cortou o ar da noite... um grito agudo e a voz de meu marido rouquejou num rugido de raiva, abrasado e vingativo. Ah! mil anos que eu viva, hei de sempre, sempre, sempre, ouvir aquela voz! Voltando para dentro, ele me disse que, embaixo da minha janela, Lourenço estava estendido na calçada, esvaindo-se em sangue... e, para aterrar-me mais, mostrou-me a mão, que lhe decepara, passando-a, numa carícia repetida, pelo meu rosto e pelo meu colo... Depois, rindo com escárnio do meu desespero, enfiou-me no dedo o anel de Lourenço, como aliança do crime e da morte... Que noite! que noite!... Oh! mas tu não vieste, é a ti que eu amo, o meu engano salvou-te a vida. É a ti que eu amo, leva-me daqui, quero ser tua... só tua ... eternamente tua!

Claudino sentia o corpo de Córa debatendo-se de encontro ao seu coração. Ela exprimira-se vertiginosamente, quase sem tomar fôlego. Arquejava agora de cansaço. A verdade surgia entre ambos, vestida de lágrimas, mas lágrimas radiantes como estrelas. Ela amava-o, não lhe mentira... e era linda; para que saber mais? Para que desejar mais?

— Ele não tarda... vai-te embora... Mas, antes, dize-me alguma cousa: tu não me disseste nadai... Dize que me amas... que crês em mim... e dize-me que me perdoas ... mas que perdoas o quê?! Eu não vive culpa!... é só a ti que eu quero, meu amor... meu grande amor, meu único amor!

Houve um silêncio, em que, olhos nos olhos, eles se contemplaram, longamente, profundamente.

A dor espiritualizara o rosto de Córa, que todo se erguia para Claudino, numa súplica. Enleado e vencido, ele abaixou a cabeça e os lábios trêmulos de ambos iam encontrar-se num beijo, quando um encadeamento de acordes em surdina vibrou ali mesmo, dentro da sala. Claudino ergueu o busto, de súbito. Era a Sonata à minha noiva, que ele estava ouvindo, mas tocada por quem?

Córa gemeu:

— Não crês em mim, não crês em mim!

— Escuta.

— Por que me repeles? É só a ti que eu amo...

— Escuta!

— Escuta, escuta! o quê?!

A harmonia abria-se na frase larga e comovida, principal motivo da Sonata, em que Lourenço sonhara a noiva, errando num vasto campo de açucenas em flor ...

— Dá-me a tua boca ... suspirou Córa, ainda num gemido.

Claudino não a ouviu e, desembaraçando-se dela com esforço, atirou-a sobre os almofadões do divã e saiu precipitadamente.

Começava a escurecer e o ar mudara. Ao fundo da rua já se via, sobre o borrão negro de um morro, uma grande talhada de lua, cor de laranja. Claudino fez sinal para que o automóvel se aproximasse e quando o chauffeur lhe perguntou para onde o deveria conduzir, teve vontade de gritar: — Para o Hospício! mas conteve-se e deu de novo o endereço de Lourenço. Puxou do relógio. Eram sete e meia. Sentia-se nervoso, febricitante, com a imagem de Córa diante dos olhos e os compassas da Sonata à minha noiva a se reproduzirem constantemente na sua memória. Era um caos; era um tormento. Mas, Córa amava-o, amava-o, e em tudo isso salvava-se ao menos o seu orgulho de homem...

Fechou os olhos ... sorriu.

IV

O portão da chácara estava escancarado; e pelo extenso chão da alameda, a luz do luar, coada pela ramaria dos bambus, lembrava uma quantidade de ratos brancos, que se movessem, perplexos, um pouco para a direita, um pouco para a esquerda, sem saber qual a direção, que deveriam tomar definitivamente. Ao fundo, na clareira circular em que a casa assentava, toda iluminada como para uma noite de festa, o cão ruivo de olhos de foca uivava espaçadamente, de focinho erguido para a lua, já toda branca e em pleno azul...

Claudino percorreu a alameda, cismando no modo por que deveria responder à curiosidade ansiosa de Lourenço Dever-lhe-ia conservar a ilusão do amor de Córa, ou repetir-lhe as suas palavras?

Deveria conservar-lhe a ilusão. Mas se ele ficasse bom, não resultaria depois da sua mentira piedosa uma complicação desastrada? O melhor seria entregar-lhe o anel, adiando para mais tarde outras explicações. Em todo caso, ele, de nenhum modo poderia dizer ao outro:

— «Olha que sou eu a quem Córa ama! Tu, pobre de ti, foste vítima de uma zombaria trágica do acaso. Os deuses protegem-me; leva para a cova a tua humilhação, se morreres, ou não me guardes rancor se continuares neste mundo; porque, afinal, eu não tenho culpa».

Subindo os poucos degraus do patamar de pedra, não teve nem sequer o trabalho de bater à porta, porque ela, como o portão, também estava aberta de par em par. Na sala da entrada não estava viv’alma. Claudino não ousou bater palmas; esperou um momento, a ver se via alguém.

O silêncio da casa, só cortado pelos uivos do cão lá fora e pelo rumor de passos apressados no segundo andar, dar-lhe-ia a entender qualquer cousa de terrível significação, se as sucessivas comoções por que tinha passado não lhe tivessem perturbado o raciocínio. Demais a mais estava com fome. Naquela ocasião tal contingência envergonhava-o; um herói de aventuras não deve pensar em bifes e ele ansiava por se atirar a uma ceia no Brahma ou no Paris.

Infelizmente, não poderia sair dali sem ter cumprido a sua missão. Sentou-se numa cadeira de vime e tossiu alto, para dar sinal da sua presença.

Tinha ideia de ter ouvido a um médico qualquer que o fenômeno da fome, como o do sono, é frequente em certos indivíduos, por motivo de excitações nervosas ou comoções intelectuais. Certas atrizes dramáticas, ao cabo de três ou quatro atos de luta, em que vibram de paixão e fazem tremer a plateia de entusiasmo, restauram ordinariamente as suas forças combalidas, com um bom naco de vitela e um escorregadio copo de Colares... Outras pessoas, à iminência de um grande perigo, o melhor por que se decidem é por se deitarem a dormir! O pai fora um desses. Na hora em que ele Claudino, entrava no mundo, pondo em grande risco a preciosa vida da mãe, o pai, nervosíssimo, aterradíssimo, roncava alto como um bem-aventurado!

Aquilo, portanto, era da natureza; era humano, e ele não tinha razões para se vexar consigo mesmo de sentir uma necessidade material numa hora toda de espiritualidades... Ao contrário, tal urgência consolava-o, porque o fazia pensar:

«Começo a sentir-me outra vez gente!...» E ser alguém, ainda é a cousa melhor da vida. Impaciente por acabar com tudo e ir-se embora, decidia- se a bater palmas, estrondosamente, quando viu um criado atravessar a sala e dirigir-se para o corredor com uma bandeja de canequinhas de café.

Pigarreou. O criado voltou-se:

— O senhor é servido?

Claudino apressou-se em dizer que sim.

O café quente e forte restaurou-lhe as forças abatidas.

O criado esperava, em pé e calado, em frente dele.

— Poderei falar à dona da casa?

— A senhora está lá em cima...

— Sei.

— Ah, o senhor sabe?

— Presumo, pela bulha dos passos. Diga-me, poderá entregar-lhe este cartão, imediatamente?

— Vou mandá-lo pela criada. A senhora está acompanhando a filha, que tem estado muito aflita...

— Compreendo. Faço-lhe notar que tenho pressa.

O criado murmurou ainda, quase imperceptível- mente;

— Foi uma desgraça! e voltou as costas a Claudino, que tirava da algibeira a sua cigarreira. Teria ao menos tempo para tragar uma fumaça antes que a dona da casa aparecesse. O sabor do café impôs-lhe a necessidade do cigarro. Recostando-se mais na cadeira, começou a fumar, cerrando as pálpebras.

Córa, ao debater-se de encontro ao seu corpo, deixara-lhe um pouco do seu perfume. Ele como que a trazia ainda consigo. Que teria ela pensado do seu brusco abandono? Seria crível que não tivesse ouvido, tão bem como ele, o encadeamento de acordes, da Sonata? Recompondo bem a cena, verificava que não. Córa não ouvira nada. E como poderia ele explicar-se aquela sensação do som, tão nítida, tão perfeita, experimentada por ele numa hora tão alheia a todas as cousas exteriores?! Que onda de ar lhe teria levado aquelas notas evocadoras e dolorosas, ao ouvido deleitado por outra música e justamente no instante divino da reconciliação?

Sabia haver certas doenças em que o paciente é perseguido por vozes que não existem senão no maquinismo dos seus próprios ouvidos, vozes extravagantes, alucinadoras, como rangidos de portas ferrugentas, guinchos, latidos ou sopros. Nos sonhos, também, toda a gente que sonha, se lembra de se ter deliciado uma ou outra vez, com melodias em surdina ou estremecido á bulha de fanfarras turbulentas, e não há cirurgião a quem certos doentes cloroformizados, ao passarem da vigília para o sono, não descrevam a audição de certos sons: melodias suaves de violino, vibrantes repiques ou badaladas de sinos. Todos esses casos, porém, estão explicados pela ciência. Mas o seu?

Ele não se podia convencer de ter estado a dormir e gabava-se de ser um homem robusto, um homem são em todos os sentidos, limpo de pele e de razão. Entretanto, era forçoso confessar ter sido nessa tarde vítima de um fenômeno nervoso, e dos mais singulares e despropositados. Começava a afligir-se com o que pudesse Córa pensar a seu respeito. Que espécie de sentimento seria agora o seu para com ele?

Pensando nela, revia-lhe as atitudes ondeantes, o fulgor dos olhos inundados de lágrimas, a palidez da sua pele quente e cheirosa, a flexibilidade do seu corpo moço e gentil. Sentia ainda na palma das mãos o contato das suas mãos pequeninas e nos braços o enlaçamento frenético dos seus braços, delicados, mas fortes como a hera. Realmente, a vida tem os seus mistérios e cada acontecimento a sua filosofia enigmática. Bastava ver, como até mesmo os mais frívolos desses acontecimentos eram interpretados diferentemente por um comentador!

Sem entrar na intimidade de um facto, a sua origem, o seu desenvolvimento e os fatores, muitas vezes inconscientes da sua ação, ninguém o pode criticar com justiça ...

Para prova, ali estava ele, todo mergulhado numa intriga, debatendo-se nas suas águas de cores mais variadas que as das diferentes fases do Nilo e de sabor mais amargo que as do Atlântico; e que variedade de ideias lhe tinha ela infiltrado no cérebro? Tantas, tantíssimas, que já escapavam à análise da sua memória atordoada.

E onde estava a justiça das suas apreciações? Onde?

Vistas pelo lado de fora, todas as casas bonitas parecem abrigar a felicidade. Mas ide lá dentro, e vereis muitas vezes o sofrimento que há no interior. É preciso não julgar todas as cousas pela sua exterioridade, visto que os próprios sentimentos materiais têm paredes como os prédios, e não podem ser julgados com verdade senão quando eles próprios nos franqueiam as portas da sua intimidade. As aparências tinham feito de Córa um monstro, mas penetrado o seu segredo, ela brilhava agora aos seus olhos com o resplendor da inocência...

Uni rumor de saias que se aproximavam, obrigou Claudino a atirar o seu cigarro pela janela.

Lá fora o cão de olhos de foca uivava mais baixo, mais espaçadamente, cansado.

— Senhor Claudino ...

— Minha senhora!

— Desculpe-me se o fiz esperar. Mas minha filha precisa muito de mim!

— Será apenas por um curto momento, minha senhora. Queria ainda dever-lhe a fineza de me aproximar de seu sobrinho....

— Lourenço?!

— Sim. Preciso falar-lhe.

— Pois não lhe disseram?

— Nada.

— Lourenço...

E ela fez um gesto, exprimindo que ele tinha morrido. A língua negara-se a articular a palavra terrível e grossas lágrimas saltaram-lhe dos olhos.

— Quando?!

— Inda agora, ás sete e meia... Ele tinha-o incumbido de uma missão qualquer, muito delicada, não é verdade?

— Por que me pergunta isso, minha senhora?

— Porque ele não morreu pensando em nós... o seu olhar voltava-se para a porta numa ansiedade, como se esperasse alguém. E esse alguém creio que deveria ser o senhor ...

— Talvez...

A própria noiva, ajoelhada à sua cabeceira, não recebeu o seu último suspiro, que se diria dado a outro amor que estivesse bem longe... Houve mesmo um instante em que me pareceu distinguir um nome de mulher no movimento dos seus lábios quase frios ...

— E esse nome, minha senhora?

— Era, se bem pude entender, o nome de — Córa...

Claudino não pôde reter um estremecimento, que procurou logo disfarçar:

— Deveria ter sido ilusão, de V. Ex.: seu sobrinho adorava a noiva com toda a alma...

— Se ele não mereceu completamente o amor de minha filha, muito me pesará que ela sofra demasiadamente por ele...

— Sua filha tem razão de o chorar.

— O senhor afirma-o?

— Sim ...

— A morte de meu sobrinho está, entretanto, envolvida em qualquer mistério que o senhor conhece.

— Eu? não.

— O senhor, sim. Mas, descanse, que não procurarei violar à força o seu segredo. Adorei Lourenço e fiz por ele o que teria feito por um filho; isso bastaria para justificar toda a curiosidade que eu tivesse pela sua vida, que defendi desde o dia em que o recebi, ainda pequenino, nos braços.

— Mas o que a faz acreditar num mistério, que naturalmente não existiu? ...

— Tudo. O próprio médico que o tratou e que, antes dos outros, lhe ligou o pulso, afirmou que não poderia confundir o esmagamento da carne com o talho de um instrumento cortante. Lourenço teve a mão decepada pela lâmina de qualquer arma branca. Não é da minha opinião?

— Não sei... porque não vi.

— Não quer dizer e eu já lhe confessei: não tenho intenções de vinga-lo. Se ele próprio respeitou o seu ofensor, não serei eu quem o acuse... Nem mesmo para estancar as lágrimas de minha filha eu lançarei mão de um escândalo. Somente, não acrescentarei à fogueira da sua saudade a lenha da minha...

— O dever das boas mães é exatamente o de procurarem dissipar os desgostos das filhas...

— Quando esses desgostos não são comuns; porque, acredite na minha experiência: há sempre uma certa consolação em não se sofrer sozinha... Mas já agora, antes de subir para ver Lourenço, deixe-me perguntar-lhe: por que me queria falar?

— Exatamente para receber de V. Ex. a permissão de vê-lo ...

— Ah! sim... o senhor já me tinha dito. Perdoe a minha cabeça...

Como a tia de Lourenço fizesse menção de retirar-se, Claudino atalhou-lhe o movimento com um gesto:

— Perdão. Preciso falar-lhe, sim. Se, entretanto, V. Ex. tem muito cuidado em sua filha, eu esperarei aqui alguns minutos.

— Seria abusar da sua bondade. Percebo a sua fadiga.

— Diga antes a minha comoção.

— Era há muito tempo amigo de Lourenço?

— Conhecia-o apenas ...

— É extraordinário!

— Sim, é extraordinário.

— Já que me permite, irei ver minha filha. Prefere esperar-me aqui ou velar uma hora lá em cima?....

— Cumprirei o dever de velar até à meia noite...

— Obrigada. Subamos então.

— Se, entretanto, a filha de V. Ex. precisar que eu vá chamar um médico ou...

— Não. Ela está bem rodeada. Para estas cousas não há médicos.

— Ha: o tempo...

— Esse, cura matando ... Tenha a bondade de seguir-me.

Como da primeira vez, ela recomendou cuidado com a escada, maquinalmente, limpando os olhos do choro. Em cima, na sala dos armários, havia roupas em desordem, revolvidas à pressa; e ao fundo do corredor a janela aberta para o luar desenhava um quadro argênteo cortado em diagonal por um galho escuro do hibisco. O quarto de Lourenço estava aberto. Claudino entrou e a dona da casa acompanhou-o até à beira do leito.

— Veja como ele parece dormir Toda a agitação da fisionomia se transformou, logo após o passamento, na mais pura serenidade... Isso serve-me ao menos de consolação ... O senhor disse que o conhecia apenas. Se tivesse sido seu amigo íntimo, deveria adora-lo. Era um crédulo, um sensível, um idealista... Nunca imaginei que ele me pudesse morrer dentro de um segredo... porque para ele a mentira não existia. Toda a gente era leal. Corria como uma criança para as ilusões, grato ao menor afago... Quem sabe se não foi por uma ilusão que ele morreu?!

Claudino sentiu que as pupilas da tia de Lourenço se fixavam nele, interrogativamente.

Ele disfarçou, com uma frase banal:

— Está descansado.

— Sim. Está descansado... Vou ver minha filha. Daqui a pouco estarei à sua disposição. Permita que me retire um momento ...

— Oh! minha senhora!

Ela saiu. Claudino ficou pensando:

«Realmente, é espantosa a perspicácia das mulheres! Esta senhora descreveu-me a alma do sobrinho como se a tivesse visto ao espelho. E não podia deixar de ser assim.

 Ele era um idealista, um sensível, um crédulo; verdadeira alma de artista, ainda não arranhada pelas asperezas da luta pela vida... Assim, bem se compreende que a beleza de Córa o tivesse fascinado com toda a sua graça mórbida e sedutora c que ele corresse, sem refletir, ao seu primeiro aceno, como as crianças correm para a ilusão... Morrera ao menos sem ter conhecido o desengano, murmurando o seu nome, na suposição de ser amado...»

E nascia-lhe agora no coração uma piedade imensa por aquele moço, sacrificado pelo acaso, em seu lugar. Parecia-lhe uma hipocrisia estar ali a lastima-lo, quando àquele sucesso devia o ar que estava respirando e o gosto inigualável de poder dizer: eu vivo, eu penso, eu amo.

Claudino suspendeu a corrente dos seus pensamentos e ficou um momento parado, como para descortinar qualquer dúvida que surgisse no fundo da sua imaginação, ainda vaga e indistinta... Oh! ele não tinha aquela fé ilimitada que tivera o outro. Conhecia os embustes do mundo, era desconfiado...Em frente àquele corpo inerte e àquela desgraça irremediável, assaltava-o a ideia de ser impossível, de ser uma ingenuidade quase fantástica, o ter Lourenço corrido para uma entrevista sem estar previamente, e, por várias circunstancias, prevenido para ela. Nenhum homem, mesmo o mais idealista, acredita que uma senhora o chame em condições tão excepcionais, sem que antes se tenham encontrado os seus olhos no mesmo desejo amoroso e veemente.

Agora, que já não sentia nos braços o calor do corpo de Córa, nem lhe via a comoção dos olhos inundados, podia analisar mais livremente a situação. Onde estará a verdade? Estivesse onde estivesse, seria justo que, depois de ter enterrado aquele pobre iludido, ele continuasse a gozar o amor da mulher que o matara, embora inconscientemente? E teria essa mulher sido sincera, absolutamente sincera para com ele? Só uma cousa lho poderia provar: a carta de que ela lhe falara, a carta escrita a Lourenço e que ele deveria ter recebido, como o desgraçado Lourenço receberá a sua ... Entretanto, onde estava essa carta?

Claudino começou a passear, pensativo, pelo quarto. Recompunha os fatos.

Tinha saído nesse dia muito mais tarde de que o costume, e estava por isso habilitado para assegurar que tal carta não lhe entrara em casa, nem levada por mão própria, como lhe dissera Córa, nem pelo correio, nem pelo diabo! Ocorreu-lhe então que a mensageira, essa velha tia Antónia, que ele vira apenas uma vez, furtivamente, em lugar de se dar ao trabalho de vir à sua residência na rua Costa Bastos, tivesse ido de preferência ao seu escritório comercial, por ser mais perto. Seria isso? Deveria ser isso.

Tal suspeita serenou-o um pouco.

Verificaria o caso de manhã, o mais cedo que lhe fosse possível. Agora impacientava-se pela verdade. Mas onde a encontraria? Toda a gente pensa que traz a verdade dentro de si e ninguém a conhece. Ha um minuto ele tinha uma convicção. Agora já tinha outra. Que o esperaria de ali a alguns instantes? Se por um milagre aquele morto ressuscitasse e lhe fizesse do seu amor uma confidência completa, então poderia julgar. Acreditava na voz dos homens mais que na das mulheres. Mas o morto não acordaria jamais daquele sono, nem ele acreditava em milagres, que reputava frutos do charlatanismo, da escamoteação, ou de bem combinadas experiências de física...

Na sua educação não tinham colaborado mulheres.

A mãe deixara-o apenas renascido, o pai e o avô tinham-no criado sem crendices nem preconceitos. De resto, ele não tinha curiosidades intelectuais. Queria viver no presente e pelo modo mais confortável que lhe fosse possível. Lembrava-se que uma vez, cm pequeno, contando-lhe alguém que um certo Simão, contemporâneo de S. Pedro, fazia falar o seu burro, o seu cão, o seu gato, e a sua cabra, tudo o que lhe aprouvesse e em qualquer língua, e que esse mesmo taumaturgo, transformava a sua vara inerte de nogueira (cortada como todas as varas mágicas, à meia-noite do terceiro dia da lua nova, com ama faca nova também), em uma serpente viva e temerosa e que, com o simples facto de a espetar na terra, a fazia num relance enramar, florir e frutificar como a mais fecunda árvore dos nossos pomares, o avô, vendo-o impressionado, interrompeu a narração para leva-lo a um circo da Cidade Nova, onde um ventríloquo fazia dizer a um porco preto c anafado deliciosos versos de Musset...

Voltando para a casa, o avô explicava-lhe:

— Era assim que Simão fazia falar o seu burro, o seu cão, o seu gato e a sua cabra, bichos aliás mais espertos do que o suíno, que nos apresentou este palhaço. Não acredites nunca nas cousas que não entenderes, porque assim darás fraca ideia da tua razão.

E quanto as árvores brotadas e secularizadas em um minuto, não são milagres da antiguidade, mas artes que ainda hoje exercem certos homens da índia, denominados faquires ...

O avô gostava de varrer-lhe da imaginação a poeira dourada das crenças e das ilusões.

Por tudo isso, mais extraordinária lhe parecia agora a sua situação. Não acreditando em fantasmas nem em casos sobrenaturais, sem curiosidade pelos segredos mais ocultos da natureza, como explicar a si próprio a visão daquele dedo de velho, alta noite, na sua sala deserta, e o seguimento da história iniciada por ele? Como compreender a audição da Sonata à minha noiva, na hora exata da morte do seu autor e, justamente, no instante em que a sua confiança ia ser traída? Afigurava-se-lhe que se o avô vivesse ainda ele correria a abrir-lhe o coração atônito, embora com a certeza de não ser esclarecido.

Como a ignorância é suave e deleitosa! Percebia agora que o tempo passado no cumprimento de deveres materiais, conquanto ás vezes cansativos, era o melhor da vida. Os dizeres simples das suas cartas comerciais, os seus livros de «Deve e Haver», as suas cifras positivas, sem embustes nem mistérios, como tudo isso era bom e honesto! E haver quem se cansasse correndo atrás de ideias e de fantasmagorias, sem visar outra recompensa senão a glória! Pobres doidos! De que servira a esse Lourenço consumir o seu cérebro e a sua alma em estudos profundos e demasiados e chegar a considerar-se por isso um ente superior, se tinha de morrer como poderia morrer qualquer bruto, por uma ofensa física? Logo a mão! Realmente, o Destino ou a sua comadre Fatalidade preparam tramas bem singulares! Se em vez de terem a Lourenço decepado a mão, lhe tivessem cortado um pé, ou vibrado uma punhalada no peito ou nas costas, ele não se teria deixado morrer, se o golpe não fosse mortal. A ideia de nunca mais poder percorrer o teclado do seu piano com os seus dez dedos fascinadores, tirara-lhe forças para a reação. Antes ser estúpido; a estupidez defende melhor os indivíduos de qualquer acidente, mesmo o mais natural, do que o talento e a imaginação. Depois, os asnos têm o atilamento natural da espécie, um certo instinto que os faz fugir do perigo, enquanto que os homens intelectuais se deixam enganar facilmente. Lourenço, quando abandonava a música, refugiava-se no livro. A filosofia e a harmonia dos mestres punham-no fora do ambiente comum às outras pessoas. E o resultado fora aquela ingenuidade, aquela credulidade cega, que o levara à morte, sem reflexões, logo ao primeiro aceno de uma mulher... E mal pudera ele pensar que esse aceno era feito a outro, a outro ...

Claudino estremeceu, como se lhe competisse ter remorsos daquela obra do acaso; e por fugir de olhar para Lourenço, chegou-se à janela. O céu estava recamado de estrelas. Também eles, os longínquos astros, têm sido desde remotos séculos interrogados ansiosamente pela humanidade, desejosa de conhecer o seu futuro e o seu segredo. Não bastara à Superstição a Terra para rastejar, e ela deu ao seu corpo de réptil asas de águia, com que se remontasse ás regiões siderais. Dos simples pescadores da Caldeia até os tempos modernos, que infinidade de almas têm invocado os astros, nos temores da sua covardia! Lá estava radiando a linda Vésper, amante de Marte e filha de Saturno, ao mesmo tempo que a lua enchia o céu e a terra com a sua luz clara e untuosa. Claudino deixou-se ficar encostado ao umbral da janela, olhando para a noite, a rever Córa no seu roupão lasso, cor de marfim, desmaiada entre os almofadões de seda, ou a debater-se depois nos seus braços, com um desespero de mulher amo rosa. Fora a primeira vez que a vira chorar, e aquelas lágrimas cristalinas e grossas não lhe saíam do sentido. Renascia-lhe, com a memória do seu abraço e ao contato quente do seu corpo, o desejo de a tornar a ver, de a interrogar repetidamente, sem descanso, fazendo-a dizer tudo, tudo. Para maior desespero, o beijo, sustado pela Sonata, ficara como a queimar-lhe os beiços... Alguém entrava no quarto e chamava-o. Era a dona da casa.

— Não aceito o seu sacrifício por mais tempo Acabam de chegar alguns amigos que velarão o corpo. Queira acompanhar-me até à sala. É meia noite.

Claudino inclinou-se. Antes de sair, olhou para a cama. A viração brincava com os cabelos do morto e ele pensou: «Amanhã a estas horas nem essa carícia ele terá, coitado ».

Percorrera de novo o corredor, a saleta dos armários, e escada, c encontraram-se no mesmo ponto da sala onde tinham conversado, horas antes.

— O senhor desejava falar-me? Estou pronta a ouvi-lo.

— Supus ter muita cousa a dizer-lhe, mas em verdade só tenho a dar a V. Ex. este anel, que, por sua vez, V. Ex. entregará à senhora sua filha...

— O anel de Lourenço!

— Sim, minha senhora.

— E foi o senhor quem o foi buscar?!

— Sim ... minha senhora.

— Aonde?

Claudino não respondeu. Olharam-se fixamente, demoradamente.

— Ele proibiu-lhe que nos dissesse a verdade?

— Minha senhora ...

— A sua resposta não o comprometeria.

— Mas eu nada sei!

— Compreendo. Minha pobre filha!

— Acredite que Lourenço a adorava!

— Oh, o senhor não sabe nada, nada, deve, portanto, ignorar também isso!

—Isso eu não o ignoro, porque ele me disse.

— Quando?

— Poucas horas antes da sua morte.

— Mas se ele amava minha filha, por que pensou em outra mulher?

— Não sei se ele pensou em outra mulher.

— O senhor é inabalável. Seja. Além da saudade que esta morte me deixa, fica-me também o espinho de uma suspeita dolorosa. Contanto que ele fique só comigo ...

— V. Ex. saberá dissipar qualquer apreensão da senhora sua filha ...

— Não sou forte em dissimulações.

— O coração das mães ensina todos os prodígios.

— O meu coração está cansado. Acredite: tudo eu poderia esperar de Lourenço, menos que ele, tão cândido e tão bom, se envolvesse um dia em aventuras desleais, porque era, com certeza, casada essa mulher

— Eu já lhe disse, minha senhora, que nada sei.

— Tenho eu a certeza de que sabe tudo.

— Pois bem, e se assim fosse? Se o próprio ofendido não tivesse querido que a sua história transparecesse, o meu dever, embora a conhecesse em todos os seus detalhes, não seria o de me calar?

— Sim, todos nós devemos respeitar a vontade dos mortos. Ele entregou-lhe o seu segredo, o senhor defende-o nobremente. Não o acuso; admiro-o; e se desejo saber toda a verdade, que adivinho por instinto, não é por espírito de curiosidade, mas só pelo da vingança. Não lhe peço nem lhe perguntarei mais nada... Tornar-nos-emos a ver?

Ele fez um gesto vago, de ignorância. Olharam-se mais unia vez em silêncio e despediram-se com um demorado e mudo aperto de mão.

Já o sol ia alto quando Claudino saltou da cama, atroando a casa com o grito:

— Antão!

E como o Antão não surgisse logo ali, como os demônios das mágicas, ele sapateou com fúria no assoalho. Ora que estúpido, deixa-lo dormir daquele feitio! E o escritório, com a sua correspondência para o Norte? E o enterro de Lourenço, que àquela hora já deveria ir a caminho do Cajú? Apostava quanto quisessem em como o maluco do criado havia de estar lá em baixo, com o outro maluco do alfaiate, dissertando sobre os destinos da Itália, unida ao do Brasil republicano!

Ia dar outro berro com toda a força dos seus pulmões valentes, quando o Antão apareceu entre portas, com ar submisso, pronto para a arremetida do amo terrível.

— O senhor chamou?

— O senhor chamou! E ainda você me pergunta isso a mim, que estou a esguelar-me há mais de uma hora aqui, pelo seu nome! Sabe que horas são? Nove!

— Faltam dez.

— Nove!

— Como o senhor ontem se queixou de cansado e se deitou muito tarde, tive hoje pena de o acordar. Assim mesmo, chamei-o duas vezes, uma às sete, como de costume, e outra ás oito horas.

— Qual chamou, qual nada! E se me chamou, como o fez você que eu não o ouvi?

— Da primeira vez disse só: — São sete horas, patrão! e abri a veneziana.

— E da segunda?

— Da segunda, com sua licença, sacudi-o

— Com muita piedade, hein?!

— Sim... com algum respeito.

— Algum! algum! Não quero que me respeite, já disse! Em semelhantes circunstancias tem licença de ir até ao safanão. E agora? Tinha nada menos que o correio e um defunto à minha espera! Deveria ter-me posto em pé à força, com murros ou com água fria. Os regadores não ficaram na biblioteca?

— Não, senhor.

— Pois eu não lhe tinha dito?...

— Pensei que fosse brincadeira!

— Está doido! Pois eu ia entreter-me a brincar com você? ...

— Pareceu-me tão esquisito ...

— É preciso cumprir as minhas ordens sem as comentar; prepare-me o café e o banho e corra ao escritório; diga ao meu sócio que não poderei ir antes do meio-dia e que me mande as cartas que lá houver para mim. Avie-se!

Antão franziu as sobrancelhas. Não estava acostumado àqueles modos ríspidos. Que teria sucedido ao patrão, para que ele, geralmente amável, se tornasse assim tão áspero? E o mau humor aumentava com o correr dos minutos, tanto, que ainda ele na copa aquecia o café e já Claudino gritava do quarto, estrondosamente:

— Então, esse café vem ou não vem?

O criado perdeu o tino, serviu mal e, à hora de sair para o recado ao armazém, ainda correu a lustrar os borzeguins do patrão, que se regalava em baixo do chuveiro.

A água desfez-lhe a impaciência. Claudino começou a fazer a sua toilette sozinho e com toda a calma, o sono livrara-o de envergar o terno preto naquela manhã de sol.

Afinal, a sua companhia não fizera falta ao Lourenço no seu último passeio pelas ruas da cidade; prestara-lhe serviços mais importantes; e quanto a isso não o acusava a consciência, visto que não fora por culpa sua que a linda Córa tinha trocado as cartas na sua precipitação de adúltera medrosa. No silêncio da casa deserta e depois de algumas horas de sono, tinha mais lucidez de espírito para julgar e apreciar os factos. Pôs-se a meditar: sob que força tinha ele agido naquela pavorosa intriga? Sob a força de um poder oculto, em que até então não tinha acreditado e que negaria ainda para o futuro, a todo o transe, por temor do ridículo, não querendo comprometer-se com ideias religiosas ou sobrenaturais. De mais a mais, se o seu caso transparecesse, não faltaria quem viesse meter o nariz na sua vida e raspar-lhe, com unhas irreverentes, a crosta da inteligência e da reputação. Era egoísta. Queria passar despercebido pelo meio da turba, para andar à vontade; tanto mais que esse segredo bem guardado, dar-lhe-ia liberdade para amar a sua Córa e deixar-se amar por ela, com todos os frenesis da sua paixão voluptuosa. Porque, embora ele a amasse, percebia ser amado por ela com redobrada intensidade.

Não vira na véspera como, ainda agitada, combalida, desorientada pelas cenas cruéis em que fora obrigada a tomar parte, ela lhe caíra nos braços, com tanta sinceridade e tanta comoção? Sabendo do que o marido era capaz, tendo-o presente, na imaginação, tinto de sangue ainda fresco de uma vítima apenas suspeitada, ela não o enlaçara nos braços, a ele, Claudino, sem temer de ser surpreendida e morta a seu lado por esse mesmo marido sanguinário e feroz?

Que maior prova de amor poderia ele, em toda a sua vida, obter de uma mulher? Era verdade que, se continuasse a amá-la, correria o risco de ter a mesma sorte de Lourenço; entretanto, — oh! inconsequências da paixão! — aquela história de sabor medieval exacerbava-lhe o desejo de prosseguir no caminho perigoso....

«Senhor, este Rio de Janeiro é a terra das complicações, — refletia ele, correndo sobre o colarinho o nó da sua gravata. Ainda anteontem eu era um homem tranquilo, bem orientado, e aqui estou hoje indeciso, se serei mesmo um homem ou apenas um ponto de interrogação!»

Completada a toilette chegou à janela, a ver se lobrigava o criado. Ardia por ler a carta de Córa, única prova que ela apresentava em sua defesa. A bem dizer, nem devia ser uma carta. Apenas um bilhete:

«Mande-me a sua Sonata à minha noiva, etc»

Fora com certeza isso que ela escrevera a Lourenço e pusera, com a precipitação do susto, dentro do envelope com o seu nome. Como certo gênero de cartas amorosas não têm geralmente outra rúbrica senão — Meu querido, ou — Meu adorado, ou cousa nenhuma, — o que é mais comum, Lourenço não poderia, com efeito, ter percebido, nem sequer desconfiado, ser a carta que recebera de Córa dirigida a outro homem! Enfim, não valia agora a pena pensar nas lucubrações que por ventura pudesse ter tido um homem já enterrado a essas horas, no quente chão do Cajú.

O diabo era que o patife do Antão não aparecia; havia já tempo de sobra para estar de volta com a desejada carta. Quando, por fim, o criado chegou, vermelhaço e ofegante, antes mesmo de abrir a boca, ouviu ainda da escada uma saraivada de impropérios. O desgraçado, chegando acima, fixou no amo impaciente um olhar de espanto e murmurou:

— O senhor desculpe, mas...

— Qual mas! Não admito mas! Dê-me essa papelada.

— Seis cartas e um jornal...

Enquanto Claudino rasgava o primeiro sobrescrito, o Antão perguntou, limpando o suor que lhe escorria em bagas do rosto aflito:

— O senhor quer que lhe arrume a mala?

— A mala! para que?

— Para a sua viagem.

Que viagem?!

— O senhor parte hoje para Buenos Aires.

— Está doido!

— Não estou doido, não senhor.

A primeira carta não era a de Córa, mas de um freguês de Pernambuco, que se dirigia pessoalmente a ele, pedindo-lhe amostras de couros e oleados. Claudino atirou-a para o chão, com raiva... O criado recomeçou:

—A sua passagem já está comprada. O senhor parte num paquete da Mala Real Inglesa...

— Você está pra aí a dizer coisas que eu não entendo. Com o dia de ontem acabaram-se as mistificações. Deixe-me ler...

A segunda carta era de uma viúva pedindo-lhe para arranjar um lugar para o filho — rapazinho muito trabalhador — no seu armazém.

Claudino varejou essa carta, por debaixo da mesa, com uma praga e, enquanto tateava outra, Antão apressou-se:

— Fui eu mesmo à agência com uma carta do seu sócio, o Sr. Jorge. Cabine de primeira classe, tudo do melhor.

— Irra! Que inferno! Cala-se você ou não?

— É que... o Sr. Jorge...

A terceira carta era um convite para um sarau musical na residência de um médico dos subúrbios.

— O Sr. Jorge — continuou Antão — ordenou que lhe dissesse isto logo ao chegar, para seu governo. É negócio urgente.

— Você põe-me tonto. Espere. Deixe-me ver tudo isto e depois falará.

A quarta, a quinta e a sexta carta, eram contas de camisaria, prospectos de uma nova companhia de cerâmica e um pedido de resgate para umas cautelas de penhor de joias. Nada mais. Claudino sacudiu ainda as folhas de uma revista, a ver se cairia de dentro o famoso bilhete de Córa, e não achando cousa nenhuma, fixou interrogativamente a cara ainda transtornada do Antão.

— Você não teria perdido nada pelo caminho?

— Nada, não senhor. Pus todos os papéis dentro desta algibeira.

— É impossível!

— O senhor se quiser pode perguntar lá na loja, porque o seu ajudante até contou as cartas quando mas entregou. Eram seis.

— Tem certeza disso?

— Como de estar aqui.

Claudino começou a passear nervosamente pela sala.

Com que então a senhora dona Córa mentira-lhe! Para livrar-se de uma recriminação direta ou de uma queixa importuna, resolvera inventar aquele velho truc de comédia, em que ele caíra de quatro, como um asno que era! Excelente atriz, a tal senhora! Depois da vinda de certas celebridades femininas teatrais ao Rio, era isso que se via: toda a mulher mais ou menos elegante julga-se com direito a inventar e a representar o seu pape! dê tragédia ou de farsa, na sociedade!

Execrável animal, a mulher formosa! Tem magnetismos de jacaré e tentáculos de polvo. Fuja quem puder, antes de entrar no raio da sua ação. Com aqueles abraços de fogo, aqueles soluços de súplica, aquele franzir de lábios a pedir beijos, na hora da angustia em que deveria estar de joelhos rezando pelo outro, que morrera de amor, e por amor dela, Córa tivera imaginação para inventar alvitres que a salvassem momentaneamente da vergonha e do crime... E ele que se deixara convencer da sua inocência e que se arrependera de a ter repudiado no doce instante de se beijarem!... Benéfico espírito, o que lhe cantara ao ouvido esses compassos da música salvadora, e que o obrigaram a fugir! Agora tudo se iluminava diante dos seus olhos. Lourenço não morrera iludido, mas convencido. Por mais inexperiente e idealista que seja um homem, ele não caminha para um abismo ao primeiro aceno de qualquer tentação. Ha sempre um momento de dúvida e de indecisão. Lourenço correra para a morte, na certeza de correr para o amor: sem vacilar. Logo, sabia que era esperado, que era querido por Córa. Sabia-o, positivamente. O ludibriado tinha sido ele, Claudino, e mais ninguém!

Antão, antes de se retirar para mudar de casaco, aventurou ainda, com voz tímida:

— Nesse caso posso fazer outro qualquer serviço?

— Hein?! É verdade. Que me dizia você há pouco?

— Perguntava se o senhor queria que lhe arranjasse a mala, visto que não há tempo a perder.

— Mas que trapalhada é essa?!

— A casa precisa dos seus serviços em Buenos- Aires Foi o que me disse o Sr. Jorge. Ele pede para o senhor ir conversar com ele ás três horas; se não puder irá ele ao cais ás cinco e meia, para lhe dar as suas instruções. Lamenta que o senhor não tenha aparecido, porque tem estado muito atrapalhado. Pensava que estivesse doente

— Bem. Arruma a mala.

— Como de costume?

— Como de costume.

— Sim, senhor.

— E dizer que eu poderia comprometer os meus negócios por causa de uma aventura sem pés nem cabeça! pensou Claudino, recomeçando agitadamente no seu passeio, até ir, em uma das voltas parar em frente à grande estante de vidraçaria lavrada da biblioteca. Abriu-a. Sentiu cheiro a mofo e um rastejar suspeito de baratas. Havia papéis em desordem, e livros deitados, por detrás de outros livros. Quantos anos de trabalho, de paciência, representavam essas obras de estudo e de literatura clássica, na consulta das quais o pai consumira também tantos anos e tanta paciência!

Claudino teve um triste sorriso de piedade pela loucura daquela consumição. Valéria a pena queimarem o cérebro na fabricação de frases, que se esquecem, ou que outros reproduzem depois com outra forma, igualmente mortal? Não seria ele quem martirizasse os seus pobres olhos naquelas cinzas de um passado que o não interessava absolutamente. Com muito trabalho, tocando nos livros com as pontas dos dedos, como se fossem animais putrefatos, Claudino conseguiu achar o volume de Francisco Rodrigues Lobo, que o Antão sepultara por detrás de outras obras mais ou menos suas contemporâneas. Procurando a luz da janela, folheou então o livro até achar uma frase sublinhada à mão.

Leu: «Socorre Lourenço e põe os olhos no seu exemplo ».

Estava na terminação desta frase toda a razão da intervenção paterna. Os olhos encheram-se-lhe de água à lembrança do dedo do pai, apontando-lhe, tremulamente, mas pertinazmente, aquelas palavras que resumiam então uma ordem incompreensível. Claudino fechou devagarinho o livro e levou-o aos lábios devotamente?... Depois sentou-se à secretária, e escreveu:

« Minha Senhora.

Sumo-me da sua vida com a certeza de lhe não deixar saudades. Por mim, procurarei esquece-la. Peço-lhe, entretanto, que reze por ele, e que não zombe de mim.

Claudino ».

Mandada a carta, sentiu que se tinha partido para sempre o fio daquela aventura extraordinária, sem que por isso deixasse de pensar, por uma obsessão dolorosa, nessa mulher perturbadora, toda feita de luz e de perfume. Deveria odiá-la e amava-a ainda, mais do que nunca, como um doido! Se ela não lhe tivesse mentido, se de facto o bilhete a Lourenço lhe tivesse chegado, ele seria nesse instante o mais feliz dos homens. Um riso nervoso sacudiu-lhe o corpo à ideia de ter sido ludibriado por Córa. Fechou os olhos, esmagou as pálpebras com as pontas dos dedos gelados e quedou-se assim, revendo-a, adorando-a, maldizendo-a ...

«Meu amor, meu grande amor, meu único amor!»

Ela dissera-lhe estas palavras iluminada pelo fulgor da paixão, unindo ao seu o corpo fremente, o seu corpo divino, toda, toda dele...

Claudino sentia agora que a sua vida passada e futura convergia inteiramente para esse minuto criado pela aliança trágica da mentira com o amor. Seria então certo que o homem tanto mais ama quanto menos confia? Aí tinha a prova de tal argumento: Córa, que fora até então para ele como que uma promessa, mais lisonjeira à sua vaidade do que ao seu coração, transformou-se de repente no único motivo da sua existência, numa obsessão dolorosa, só por ter deixado de ser a mulher certa, pronta a servi-lo através de todos os sacrifícios, entre sorrisos, como a um deus.

Agora estava tudo acabado, e se ela fora forte em engana-lo, ele sê-lo-ia ainda mais em fugir-lhe, em repudiá-la, num gesto de desprezo. Entretanto, os olhos de Córa, os seus braços amorosos, o resplendor dos seus cabelos, a palidez da sua fronte alta e o som da sua voz musical e intensa: «meu amor, meu grande amor, meu único amor!» imploravam- lhe que voltasse, que voltasse, que voltasse para o beijo interrompido, para um beijo eterno!

Às duas horas, o Antão julgou dever intervir.

— A mala está pronta.

— A mala?!... ah! sim ..

— Agora vou chamar um carregador.

— Bem ... vai...

— Não será bom chamar também um taxi, para o senhor ir ao armazém combinar os seus negócios?

— Talvez seja melhor...

— É melhor, porque já é tarde.

— Tenho tempo. Escuta: não quero voltar para esta casa. Amanhã mesmo combina com o Sr. Jorge sobre os meios de se fazer leilão de todos os trastes e de se reformar isto para alugar.

— E... e depois?

— Acabaremos, como todos os solteiros, numa pensão ou num' hotel... Vida execrável, Antão!

O criado baixou a cabeça, entristecido. Claudino limpou os olhos.

— Vende-se também a cama que pertenceu ao Sr. desembargador Aleixo?

— Também.

— E os livros?

— Vende-se tudo. De mais a mais, para que nos servem os livros?

— Para nada, lá isso é verdade...

— Estes ao menos podem gabar-se de terem engordado muitas gerações de traças... o que prova que não há nada inútil neste mundo. Hoje fui injusto para com você. Tome lá e não me queira mal.

Claudino pôs dinheiro nas mãos do criado e fez-lhe sinal que saísse.

VI

Eram oito horas da noite quando o Antão voltou do cais, de ver o amo partir para Buenos-Aires. Vinha cansado, morto por fumar o seu cigarro, de pernas estendidas no sofá, mas ao entrar na escada o alfaiate do andar térreo, gritou por ele:

— Seu Antão!

— Que é?

— Faça favor.

— Há alguma novidade?

— Eu lhe digo: anteontem veio aqui uma mulher com uma carta para o seu patrão...

— E daí?

— Como nem o senhor nem ele estivessem em casa, ela pediu-nos que a guardássemos para entregar depois.

— E o senhor esqueceu-se...

— Não me esqueci. Saí para umas provas e supus que a minha pequena lha tivesse dado; tenho andado tão atarefado de trabalho, que nem tempo tenho para comer, acredite. Só agora, fazendo a limpeza de sábado na oficina, foi que topei com a peste da carta no meio dos retalhos do gavetão.

— Paciência...

— Mas inda o pior não é isso. Parece que o diabo do aprendiz, achando a carta cheirosa, quis verificar se ela trazia flores dentro e abriu-a...

— Oh! diabo!

— Eu podia não lhe dizer nada e pôr o papel no cisco; mas pode tratar-se de negócio de importância e não quero. Tome-a lá. »

— Obrigado. Boa noite.

— Boa noite.

Antão subiu. Em cima, depois de ter acendido a lâmpada e de se ter refestelado na cadeira de balanço, julgou prudente ler aquela carta, a ver se valeria a pena transmiti-la ao patrão. A curiosidade obrigava-o a esse bom serviço... Assim, leu-a, tornou a lê-la, comparou o papel lilás das suas folhas ao papel igualmente lilás do sobrescrito, e pasmou. Não entendia nada.

O escrito dizia assim:

«Sr. Lourenço.

Peço-lhe que me mande a sua Sonata à minha noiva, que desejo estudar. Sua amiga muito grata, Córa ».

Antão ficou um momento perplexo, revirando a carta entre os dedos; depois amarrotou-a e atirou-a com um gesto decidido para a cesta dos papéis inúteis.

FIM