Fonte: Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos

LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

A prima, de Horácio Nunes


Texto-fonte:

Horácio Nunes Pires, Bastidores. Teatro original,

Florianópolis: Gabinete Tipográfico Catarinense, 1898.

A PRIMA

Comédia original em 1 ato

Personagens

Bernardo            45 anos

Maneca              23 anos

Mariquinhas        18 anos

ATUALIDADE

ATO ÚNICO

Sala simples, mas decente. É noite.

CENA I

BERNARDO. (Sentado, afinando um violão.)

Dó... dó... dó... dó... mi... dó... mi... dó... Não está bom ainda (Pausa.) Há um ano entendi que devia aprender a tocar violão, e deitei-me logo à obra. Comprei o violão, procurei um mestre e principiei a coisa. Mas os progressos não têm sido muitos... Em um ano aprendi apenas a tocar um acompanhamento... Din... din... din... don... don... don... e disse! Entretanto, ainda não perdi a esperança de ser mestre também. (Afinando.) Ré, mi... ré, mi... ré, mi... dó... dó... dó... Está bom agora. Vamos ao meu acompanhamento predileto... porque é o único que sei...

CENA II

Bernardo e Maneca

MANECA.

Boa noite, meu tio.

BERNARDO.

Deus te abençoe e te dê juízo, rapaz.

MANECA.

O tio passa a vida agarrado ao seu instrumento!

BERNARDO. (dedilhando.)

E o que tens com isso?

MANECA.

Eu, nada; mas a Mariquinhas diz que é aborrecido.

BERNARDO.

Aborrecido, por quê?

MANECA.

Porque o tio não toca nada que preste e leva os dias a encher os ouvidos da gente com – dons, dons, dons e dins, dins, dins, que é um nunca acabar.

BERNARDO.

Ora, tu e a Mariquinhas que vão passear! Não executo grandes coisas, é verdade; mas já toco um acompanhamento, e não é pouco...

MANECA.

Um acompanhamento que o tio impinge para tudo: modinhas, recitativos, habaneras...

BERNARDO.

Mas é bonito.

MANECA.

E maçante também.

BERNARDO.

Para quem toca, não duvido.

MANECA.

E ainda mais para quem ouve.

BERNARDO. (zangado.)

Vai para o diabo, e deixa-me sossegado!

MANECA.

Quanto por mês paga o tio ao seu mestre?

BERNARDO.

Cinco mil réis.

MANECA.

E há quantos meses paga?

BERNARDO.

Quatorze meses.

MANECA.

Ora, aí tem: quatorze meses a cinco mil réis – setenta mil réis. Setenta mil réis que o seu mestre lhe tem roubado sem consciência, porque o sujeito pode ser tudo, menos mestre.

BERNARDO. (zangado, erguendo-se.)

Homem, queres que te diga uma coisa? (Dando-lhe o violão.) Vai guardar o meu instrumento.

MANECA. (recebendo-o.)

Onde, meu tio?

BERNARDO.

Lá dentro. Deita-o com todo o cuidado, e raspa-te. Vê lá, não o desafines.

MANECA.

Não tenha medo. (Vai sair e volta.) Oh! tio, não acha melhor que vá o sr. mesmo guardar o seu instrumento?

BERNARDO.

Por quê?

MANECA.

Porque é melhor.

BERNARDO.

Tens razão. És um estabanado, e podes fazer alguma asneira. (Toma o violão e sai.)

CENA III

MANECA.

Já é uma mania! Almoça violão, janta violão e ceia violão! E nós que estejamos aqui para aturá-lo!.. Já tenho tido gana de arrancar o fundo ao tal instrumento... mas receio as conseqüências: o tio era capaz de meter-me a bengala e comprar outro violão!

CENA IV

Maneca e Mariquinhas

MARIQUINHA.

Onde está o papai?

MANECA.

Foi guardar o violão.

MARIQUINHA.

É um aborrecimento! Oh! Maneca, vamos atirar o violão pela janela fora?

MANECA.

Atira-o tu, si quiseres; eu não me meto nisso.

MARIQUINHA.

Por quê?

MANECA.

Pois estou lá para experimentar de que pau é feita a bengala de teu pai?

MARIQUINHA.

Mas aquilo é um martírio que eu não posso mais suportar!

MANECA.

Paciência... é preciso ter paciência. Talvez  que Deus leve esse martírio em conta dos nossos pecados.

MARIQUINHA.

Nada! De repente quebro o maldito violão!

MANECA.

Mas olha as consequências.

MARIQUINHA.

Qual nada!

MANECA.

Depois não digas que não te aconselhei.

MARIQUINHA.

Você é um medroso! Corre até da própria sombra!

CENA V

Os mesmos e Bernardo

BERNARDO. (cantarolando.)

Din, don, din, don... din, din, din... don, don, don. Lá o deixei perfeitamente guardado na cama do Maneca... (Vendo os dois.) Ah! estão aí? Preciso falar-lhes seriamente.

MARIQUINHA.

A mim, papai?

MANECA.

A mim, meu tio?

BERNARDO.

A todos dois. Digam-me cá uma coisa: porque é que vocês, de certo tempo a esta parte, andam sempre metidos pelos cantos, cochichando e cheios de mistérios?

MARIQUINHA.

Mistérios, eu?

MANECA.

Eu, com mistérios?

BERNARDO.

Sim, vocês. Então pensam que não tenho olhos?... Ainda ontem estava eu perto da janela da varanda, afinando o violão, quando, casualmente, olhando para o quintal...

MARIQUINHA. (disfarçando, a suspirar.)

Ai! Ai!

MANECA. (à parte.)

Mal! mal!

BERNARDO.

Lá estavam vocês agarrados um ao outro, como dois carrapatos...

MARIQUINHA.

Eu, papai?

MANECA.

Eu, tio?

BERNARDO. (imitando-os.)

Eu, tio?... eu, papai? Não... havia de ser eu com a vizinha. Eu não gosto muito destas coisas, e resolvi pôr-lhes um termo.

MARIQUINHA.

Ah!

MANECA. (à parte.)

Vai pôr-me no olho da rua!

BERNARDO.  Resolvi que vocês não se agarrariam mais no quintal, enquanto não se agarrassem primeiro na igreja. É uma medida de precaução. A mocidade de hoje caminha muito depressa...

MANECA.

Nem por isso, meu tio.

MARIQUINHA.

Eu também acho que nem por isso...

BERNARDO.

No meu tempo os rapazes andavam em fraldas de camisa até aos vinte anos...

MARIQUINHA.

E as raparigas, papai?

BERNARDO. (atrapalhado.)

As raparigas... não me lembro bem. Mas isso... sim... mas isso pouco importa ao caso...

MANECA.

Eu acho que importa muito.

MARIQUINHA.

E eu também.

BERNARDO.

Pois os rapazes andavam em fraldas de camisa.

MANECA.

Era uma imoralidade!

BERNARDO.

Não era tal, não, Sr. Era inocência... tanto que os rapazes brincavam com as raparigas, sem lhes pegarem nas mãos, como fazem hoje... Um desaforo!

MARIQUINHA.

Ora!

MANECA.

Nesse tempo, estava tudo muito atrasado, e os rapazes eram uns tolos... «Le monde marche», tio...

BERNARDO.

Pois sim... mas cá por casa é que ele não há de marchar.

MARIQUINHA.

Então o papai não é progressista.

BERNARDO.

Sou o Bernardo, pai da Mariquinhas e tio do Maneca, e é quanto basta.

MANECA.

É um retrógrado.

BERNARDO. (zangado.)

Ora... dá um nó na língua e cala-te! Mariquinhas, gostas do Maneca?

MARIQUINHA.

Eu gosto.

BERNARDO.

Maneca, gostas da Mariquinhas?

MANECA.

Muito, meu tio. Sou doido por ela.

BERNARDO.

Então preparem-se para daqui a um mês estarem casados. Eu cá sou assim: antes que o mal cresça, corto-lhe a cabeça... Nada! Atrás das minhas orelhas ninguém faz ninho!

MARIQUINHA.

Papai...

BERNARDO. (imitando-a.)

Papai! Não te faças de manto de seda. Por isto estavas tu morrendo.

MANECA.

Eu confesso que estava.

BERNARDO.

Mas cuidado. Daqui até lá, podem conversar... mas nada de muitas liberdades...

MANECA.

Em vista da sua resolução, posso preparar-me para daqui a um mês, não?

BERNARDO.

Sem dúvida. Daqui a um mês nosso vigário conjuga o verbo e vocês ficam autorizados a fazer o que lhes parecer. (Outro tom.) Bom. Vou aqui à venda da esquina comprar cigarros, e já volto. Fiquem muito quietinhos e nada de apertos de mão, senão. Quem me avisa, meu amigo é. (Fazendo cócega no queixo de Mariquinhas.) Estavas morrendo por isto, hem? (Batendo na barriga de Maneca.) E tu também, maganão! (Sai.)

CENA VI

Maneca e Mariquinhas

MANECA.

Nesta!

MARIQUINHA.

Contraria-te a resolução do papai?

MANECA.

Não me contraria, não; mas...

MARIQUINHA.

O quê?

MANECA.

Uma coisa assim tão de repente...

MARIQUINHA.

Pois eu gosto das coisas feitas de repente.

MANECA.  (irônico.)

Sim, hem?

MARIQUINHA.

Ora, graças a Deus, que vamos ficar livres do tal violão do papai...

MANECA.

Como?

MARIQUINHA.

Pois não vamos nos casar, e, por consequência, mudar de casa?

MANECA.

Nem penses nisso. Havemos de ficar aqui mesmo. Si alugarmos casa, a despesa vai longe...

MARIQUINHA. (com desdém.)

Usurário!

MANECA.

Espírito de economia, minha querida, espírito de economia. Se eu posso fazer as coisas sem despesa, para que hei de gastar inutilmente?

MARIQUINHA.

Mas não tens vergonha de me dizer isso, a mim, que sou tua noiva?... Os noivos devem sempre mostrar-se francos e generosos diante das noivas; ao contrário, fazem um triste papel, que pode dar lugar a...

MANECA.

A quê?

MARIQUINHA.

A que as noivas os mandem passear e voltem-se para outro lado. (Sobe, contrariada.)

MANECA. (seguindo-a.)

Mas, Mariquinhas...

MARIQUINHA. (voltando-se.)

É isto mesmo, meu Sr. E não me aborreça. (Sai.)

MANECA. (saindo.)

Mas, vem cá, menina... deixa me explicar-te... (Sai.)

CENA VII

BERNARDO. (fumando um enorme cigarro.)

Fumo ordinário! O taverneiro vende isto por Pomba... Pode ser mata ratos, mas Pomba é o que ele não é. (Olhando em roda.) Mas onde estão eles? (Sentando-se.) Isto já me vai cheirando mal. Sempre pelos cantos, sempre com segredinhos e apertos de mão... Assim é que as coisas principiam. A filha da minha vizinha da esquerda tinha um apaixonado. Começou também por apertinhos de mãos e acabou pondo os pés no mundo com o namorado. A culpa tive eu em meter o sobrinho em casa sem refletir que tinha uma filha bonita e que a pólvora ao pé do fogo faz explosão. Nada! O melhor é casá-los quanto antes...

MARIQUINHA. (dentro, dando um grande grito.)

Ai! Maneca!

MANECA. (dentro.)

Cala a boca!

BERNARDO. (dando um pulo.)

Hem! Que diabo é isto? E é no quarto do Maneca!

CENA VIII

Bernardo e Maneca

MANECA. (assustado.)

Ah! meu tio, que desgraça!

BERNARDO.

Mas o que foi que sucedeu?

MANECA.

Tio, perdoe-me... perdoe-me... mas...

BERNARDO.

Mas o que foi, homem? Fala! Fala!

MANECA.

Não me atrevo, tio... Eu bem tomei cuidado... bem evitei... mas...

BERNARDO.

Oh! animal, fazes-me perder a paciência! Que desgraça foi essa?...

MANECA.

O quarto estava no escuro... entrei... mas sem má intenção...

BERNARDO.

E então?

MANECA.

Procurei a cama para deitar-me... sempre sem má intenção. Eu sou incapaz de...

BERNARDO.

Fala, estafermo!

MANECA.

E a prima... a prima...

BERNARDO. (recuando.)

Hem?...

MANECA.

É verdade... Mas perdoe-me... perdoe-me...

BERNARDO. (agarrando-o pelo paletó.)

Ah! infame! Eu bem estava adivinhando! Miserável! patife!

MANECA. (tentando escapar.)

Misericórdia, tio!...

BERNARDO.

Misericórdia, para ti, desalmado! para ti, selvagem! para ti, desgraçado!

MANECA.

Meu tio, não se exalte...

BERNARDO.

Que não me exalte! (Sacudindo-o.) E ainda tens cara de pedir-me que não me exalte!... Patife! Cachorro!... És um cachorro!... (Indo ao fundo.) Maria! Maria!

MANECA.

Meu tio, não a acuse... O único culpado sou eu.

BERNARDO. (agitado, passeando.)

Havemos de ver... havemos de ver!...

CENA IX

Bernardo, Maneca e Mariquinhas

MARIQUINHA. (de cabeça baixa.)

Aqui estou, meu pai...

BERNARDO.

Venha cá: porque foi que a senhora gritou: -- «Ai! Maneca!» --

MARIQUINHA. (olhando disfarçadamente para Maneca e abaixando logo a cabeça.)

Eu...

BERNARDO.

Sim, a Sra.! Não negue, que será pior.

MARIQUINHA.

Ah! Não tenho ânimo de dizer-lhe... Perdoe, papai...

BERNARDO.

Vamos, fale, ou levo tudo à bengala!

MANECA.

Mas eu já lhe disse, meu tio, que a prima...

BERNARDO.

É verdade, Sra.? é verdade?...

MARIQUINHA.

É verdade, papai... é verdade... não posso negar...

MANECA.

É verdade, meu tio...

BERNARDO.

E ainda confessam! A que ponto chegou a falta de vergonha, Santo Deus! (Indo a Maneca.) Infame! infame!

MARIQUINHA.

Meu pai!

MANECA.

Compreendo a sua exaltação, meu tio. Mas o fato é naturalíssimo, porque, afinal de contas, uma prima não é um bicho de sete cabeças...

BERNARDO. (contendo-se.)

Então achas que uma prima não é um bicho de sete cabeças?...

MANECA.

Sem dúvida.

BERNARDO. (avançando, com explosão.)

Oh! canalha!

MANECA.

Arranja-se outra, e o seu violão fica perfeito.

BERNARDO. (admirado.)

Hem?... O meu violão?..

MANECA.

Como lhe disse, o quarto estava no escuro. O tio tinha posto o violão em cima da minha cama. Vou tatear e rebento-lhe a prima... Ora, aí está.

BERNARDO. (à parte, como que livre de um grande peso.)

Ai! que alívio!...

MARIQUINHA.

Perdoa, papai?

BERNARDO. (galhofando.)

Ora! Boa dúvida!... Eu estava brincando... Amanhã compra-se outra prima, e... Mas vão se preparando, porque daqui a quinze dias caso-os.

MANECA.

Mas o tio, há pouco, marcou um mês...

BERNARDO.

É verdade. Mas agora marco quinze dias. É melhor para mim e... para vocês também! (Abraçando-os.) Abracem-me, andem! Ora, uma prima! Amanhã compro outra, e está tudo acabado! (À parte.) Que alívio! que alívio!. Mas é preciso casá-los quanto antes!... (Descem.)

MANECA

Pela prima... mas que prima!....

a prima de um violão

o primo quase que toma

uma tremenda lição!

BERNARDO

Pela prima... mas que prima!...

a prima de um violão,

quase vou da prima ao primo

às ventas, sem compaixão!

TODOS

Vão casar o primo e a prima,

da prima finda a questão,

suplicando o tio e os primos

algumas palmas... pois não!

FIM