Fonte: Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos

LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Sons de Viola, de Manuel de Oliveira Paiva


Edição de base:

Obra Completa. Rio de Janeiro: Graphia, 1993.

SONS DE VIOLA

N° II

Na feira

Olá, quem é que não foi

De manhã na Feira Velha.

Onde gente é como abelha,

Onde retalha-se o boi?

— Bem ao pé do chichazeiro

Quase em frente do portão

A tia Chica, no chão,

Vendia o seu tabuleiro.

Mais além, no calçamento,

Uma briga depravada

Entre mulheres vadias.

"Esmola pra o Sacramento!"

Um homem de opa encarnada

Diz na bodega do Frias.

N° III

Quem pode, pode, bem-te-vi!

Oh Bem-te-vi! Que estou vendo?

Desrespeita a calvície,

A humildade e a sandice

Desse Urubu reverendo?

Respeita a roupa de luto,

A mudez e ao tamanho,

Mesmo ao nome que tem ganho

O pobre Urubu matuto!

Quer nos ares, quer pousado,

Quer no campo, ou na cidade,

Não lhe poupas com teu bico!?

Acaso és tu copiado

Nos moldes da humanidade?

— É ele pobre e tu rico?

N° IV

As minhas cantigas

Menina, eu nunca dedilhei na lira

Porque achei sempre a lira um impossível

Aos dedos meus tão toscos e estouvados

Canto à viola, enquanto o samba gira

Em curvas de atração irresistível

E dás no corpo uns jeitos engraçados

Deixa que os toleirões civilizados

Andem-se a francesar pelos salões

Depinicando os virgens corações

Como quem prova à mesa os bons guisados

Este viver assim é mais gostoso,

É mais humano e até paradisíaco,

É sensual sem ser afrodisíaco,

Acerba dor não traz depois do gozo.

V

Na beira da lagoa

Como um tapete de risos

Num campo de paz fecundo,

Em cujos variados frisos

De prazeres brinca um mundo.

Ao ar sadio da aurora

Assim me parece o bando

Das aves que, a toda hora,

Vivem alegres vadiando.

Nas aguapés agrupados

A tona das águas brandas

Que o vento enruga de leve.

E vêm descendo as manadas

Para as marginais varandas

De areia da cor de neve.

N° VI

Gente alegre

Lá no imo da barreira

Como um santinho no nicho

Permanece a água pura.

E está fechada a porteira

Para lá não descer bicho.

Um espeque é fechadura.

Pelas veredas tortuosas,

Com cabeças de água cheias,

Num vozear de sereias

Vão indo as cunhãs formosas

Não usam roupas custosas,

Calçam tamancos sem meias,

E trazem sangue nas veias,

E têm as bocas de rosas.

N° VII

A língua dos olhos

Queria dizer que te amo,

Queria dizer: te adoro,

Acho o teu olhar canoro

Como os sons de um gaturamá.

— Mas, ligeiro qual um gamo,

Foge-me o verbo sonoro:

Em vão os versos decoro

A memória em vão reclamo:

O loquaz entusiasmo

Esfria de uma lapada

E faz-se um brutal marasmo.

É que a linguagem falada

Tem honras de pleonasmo

Ante os fulgores da olhada.

VIII

O meu coração

Na paz de minha alma quieta

Há um exército que aterra,

Lá existe um Napoleão:

Sabe esgrimir baioneta,

Conhece as artes da guerra

O meu calmo coração.

As mãos ele tem calosas,

Suporta o calor do estio,

Ama doudamente ao frio,

Gosta de amor e de rosas:

Formas as linhas, impetuosas

como as enchentes dum rio,

Pra lutar em desafio

Com as mulheres formosas.

IX

Tua alma! em flores

A candidez do jasmim

Com os pudores da rosa

E os cantos de um querubim

Tu tens nos lábios, formosa,

Nesse teu sorrir sem fim

Que arrebata, que endeusa.

E tua alma é também flores

Adorantes, sensuais:

Fecunda como os amores

De nossos primeiros pais:

As vozes das virgens puras,

Em coro, formam no espaço

De flores celestes laço

Onde prendem-se as venturas.

N° X

À tardinha

Lá vêm as vacas. O dia

Agora é que vai morrendo

No seu leito de rubis

Como a criança vadia

Vêm os bezerros fazendo

Mil diabruras gentis.

Os garrotes mais robustos

Cruzam os chifres airosos,

Nuns torneios sinuosos,

Elegantes, bons, adustos.

E vocês, em algazarra

Trepam com medo o curral

Gritando em folia — Marra!

Garrotinho sem igual!

XI

Uma paisagem

No cajueiro os galos de campina

Soltam corridas como chuvas d'ouro;

E, ricos e preciosos, um tesouro

São pássaros, frutos, canto e tu, menina!

Soltas, à terna viola, o desafio

Na rede armada entre os ramais, que o vento,

Que traz de leste o refrescor do rio,

Embalada sussurantes, ameno e lento.

Cantas e cantas mais. Oh doce encanto

Que no cenário tem de uma paisagem

Nuns lábios virginais alegre canto!

Mas que contêm os bardos de plumagem

Ganharás sempre a eles, pois que tanto

És bela no cantar como na imagem.

N° XII

Bardos tristes

Eu não gosto dos poetas

Que andam sempre a se queixar

Como quem sofre de calo.

O sentir desses patetas

É como um sino a chorar

Sob os golpes do badalo

A dor, que relenta a flux

Numa lágrima prateada,

Ao pó a atração conduz.

Me alimenta a gargalhada

Solta aos ventos como a luz

Desde o albor da madrugada.

Nº XIII

Vida!

Se ocultam belos cajus

Pendentes de vida cheios,

Como centenas de seios

Nas folhas metidos nus.

Há um desejo que esmaga

No leito de puro alvismo,

Há um desejo na flor

Por entre os matos pervaga

Um cheiro de sensualismo,

Atraente, abafador.

E a seiva nos ramos corre,

Nas folhas se embebe a luz;

Enquanto uma flor já morre

Um botão rebenta a flux

Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística