LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em meio eletrônico
Primeiro andar, de Mário de Andrade
Edição de Referência:
Obra imatura. Rio de Janeiro: Agir, 2009.
Esta é realmente a segunda edição de Primeiro andar. Se correm por aí algumas talvez centenas de exemplares com capa nova ilustrada e crismada “2ª Edição”, é que o proprietário da primeira fez isso por sua exclusiva conta, no desejo de desencalhar os exemplares que restavam. Imagino que foi bem sucedido pois o livro acabou se esgotando.
Para esta segunda edição verdadeira não pude mais me acomodar com a curiosidade falsa por mim que provocou a composição da primeira e está explicada na ADVERTÊNCIA que conservei aqui. Na verdade esta segunda edição é quase um livro novo. Da primeira edição só guardei os contos, por curiosidade o mais antigo que não destruí, feito lá pelos vinte e um anos, CONTO DO NATAL, e mais CAÇADA DE MACUCO, CASO PANÇUDO, GALO QUE NÃO CANTOU, EVA, BRASÍLIA, HISTÓRIA COM DATA. Foram retirados o hórrido COCORICÓ uma vergonha, e… ara! várias outras vergonhas. Quanto a O BESOURO E A ROSA, primeira história que Belazarte me contou, desligou-se prazerosamente deste livro e tomou o seu justo lugar no Belazarte. Em compensação ajuntei certos contos que vieram se compondo pela minha vida. São eles o CASO EM QUE ENTRA BUGRE que já andou imiscuído falsamente entre os contos de Belazarte a que não pertencia, BRIGA DE PASTORAS e mais duas páginas que eu gosto, OS SÍRIOS e PRIMEIRO DE MAIO, bons pra os teoristas da nomenclatura me ensinarem que não são contos. São. Eu sei que este não é livro fundamental para os que se interessem pela minha experiência literária, mas eu espero que as modificações introduzidas o tornem mais divertido para os leitores da Livraria Editora Martins, melhor garantia por que este livro se recomenda.
M. de A.
S. Paulo / novembro / 1943
Não sei mesmo que carinho errado por mim e por esses amigos assuntando o que escrevo me faz publicar estas façanhas de experiência literária. Escritor mais serelepe que eu nunca vi. Se agora acontece às vezes me equilibrar sozinho sobre estes meus pés bem calçados não tive parada por toda a casa dos vinte. Andei portando nos pomares de muitas terras, comendo frutas cultivadas por Eça e por Coelho Neto, por Maeterlink… Só reflexo? Não sei. Sei que ficou perturbando o vácuo nobre e taciturno das gavetas um dilúvio de manuscritos recorrigidos muitas vezes. Pois neste volume eu salvo alguns Noés desse passado. Contos cuja virtude está nas datas, são os que me pareceram mais bonitos ou característicos. Aos que me estimam interessarão. É verdade, livro sem outros valores que esses: carinho e enganos bem iludidos de aprendiz. Muita literatice muita frase enfeitada. Não faz mal, ao menos publicando-se me liberta duma vez do meu passado e dos namoros artísticos dele. Agora vou gastar meu dia bem descansado sem esses exames-de-consciência que fazem a gente parar de supetão contemplando a distância atrás num juízo crítico impossível, fiz bem? fiz mal? se extraviando na relembrança na ilusão no amor. Nessas coisas que a distância faz engraçadas e apenas são primeiro andar de casa crescendo, ninguém põe reparo nele, o que passou passou.
MÁRIO DE ANDRADE/junho/1925
1914 [1943]
a Joaquim A. Cruz
Seriam porventura dez horas da noite…
Desde muitos dias os jornais vinham polindo a curiosidade pública, estufados de notícias e reclamos de festa. O Clube Automobilístico dava o seu primeiro grande baile. Tinham vindo de Londres as marcas do cotilhão e corria que as prendas seriam de sublimado gosto e valor. Os restaurantes anunciavam orgíacos revelhões de natal. Os grêmios carnavalescos agitavam-se.
Seriam porventura dez horas da noite quando esse homem entrou na praça Antônio Prado. Trazia uma pequena mala de viagem. Chegara sem dúvida de longe e denunciava cansaço e tédio. Sírio ou judeu? Magro, meão na altura, dum moreno doentio abria admirativamente os olhos molhados de tristeza e calmos como um bálsamo. Barba dura sem trato. Os lábios emoldurados no crespo dos cabelos moviam-se como se rezassem. O ombro direito mais baixo que o outro parecia suportar forte peso e quem lhe visse as costas das mãos notara duas cicatrizes como feitas por balas. Fraque escuro, bastante velho. Chapéu gasto dum negro oscilante.
Desanimava. Já se retirara de muitos hotéis sempre batido pela mesma negativa: – Que se há-de fazer! Não há mais quarto!
Alcançada a praça o judeu estacou. Pôs no chão a maleta e recostado a um poste mirou o vaivém. O povo comprimia-se. Erravam maltrapilhos aos grupos conversando alto. Os burgueses passavam esmerados no trajar. No ambiente iluminado dos automóveis esplendiam os peitilhos e as carnes desnudadas e aos cachos as mulheres-da-vida roçavam pela multidão, bamboleando-se, olhos pintados, lábios incrustados de carmim. Boiando no espaço estrias de odores sensuais.
O homem olhava e olhava. Parecia admiradíssimo.
Por várias vezes fez o gesto de tirar o chapéu mas a timidez dolorosa gelava-lhe o movimento. Continuava a olhar.
— Vais ao baile do Clube?
— Não arranjei convite. Você vai?
— Onde irás hoje?
— Como não! Toda São Paulo estará lá.
— Ao réveillon do Hotel Sportsman.
— Vamos ao Trianon!
— Por que não vens comigo à casa dos Marques? Há lá um Souper-rose.
— Impossível.
— Por quê?
— Não Posso. Vou ter com a Amélia.
— Ah…
Tirando respeitoso o chapéu, o oriental dirigiu-se por fim ao homem que dissera “ir ter com a Amélia” e perguntou-lhe com uma voz suave como os olhos – caiam-lhe os cabelos pelas orelhas, pelo colarinho:
— O senhor vai sem dúvida para o seu lar…
De-certo um louco. Não, bêbedo apenas. O outro deu de ombros. Descartou-se:
— Não.
— Mas… e o senhor poderia informar-me… não é hoje noite de Natal?…
— Parece. (E sorria.) Estamos a 24 de dezembro.
— Mas…
O homem da Amélia tocara no chapéu e partira.
Desolação, no sacudir lento da cabeça. Agarrando a maleta o judeu recomeçou a andar. Tomou pela rua de São Bento, venceu o último gomo da rua Direita, atingiu o Viaduto. A vista era maravilhosa. À direita, empinando sobre o parque fundo, o Clube Automobilístico arreado de lâmpadas de cor. A mole do edifício entrajada pelo multicolorido da eletricidade parecia um enorme foco de luz branca. Do outro lado do viaduto na esplanada debruava a noite o perfil dum teatro.
O judeu perdia-se na visão do espetáculo. Aproximava-se do largo espaço da esplanada onde no asfalto silencioso escorregava outro cortejo de autos. Cada carro guardava outra mulher risonha a suportar toda a riqueza no pescoço. Feixes de operários estacados aqui e além. O rutilar daqueles monumentos, o anormal da comemoração batendo na pele angulosa dos vilões fazia explodir uma faísca de admiração e cobiça. Toda a população dos bairros miseráveis despejara-se no centro. Viera divertir- se. Sim: divertir-se.
O sírio entrou por uma rua escura que entestava com o teatro. Incomodava-o a maleta. Num momento, unindo-se a uma casa em construção, deixou cair o trambolho entre dois suportes de andaime. Partiu ligeiro, atirando as pernas para frente, como pessoa a quem chamam atrás e não quer ouvir.
Obelisco. E na subida vagarosa, lido numa placa de esquina: Rua da Consolação. Aqui o alarido já se espraiava discreto na surdomudez das moradias adormecidas.
Subiu pela rua. De repente parou diante da porta. Bateu e esperou. Acolheu-o uma criada de voz áspera:
— Por que não tocou a campainha? não tem olhos? Que quer?
— Desculpe. Queria falar com o dono da casa…
— Não tem ninguém. Foram na festa.
Partiu de novo. Mais adiante animou-se a bater outra vez. Nem criada. E na aspiração de encontrar uma família em casa, batia agora de porta em porta. Desesperação febril. Persistência de poeta. Uma vez a família estava. Que divino prazer lhe paga o esforço! Mas o chefe não podia aparecer. Lamentações lá dentro. Alguém está morrendo. Deus o leve!
Mais ou menos uma hora, depois de ter subido toda a rua, o judeu desembocou na avenida. A faixa tremente da luz talhava-a pelo meio mas dos lados as árvores escureciam o pavimento livre das calçadas. Entre jardins onde a vegetação prolongava sombra e frescor, as vivendas enramadas de trepadeiras, como bacantes, dormindo. Sono mortuário. Apenas ao longe gritava um edifício qualquer num acervo de luzes. O judeu parou. O pó caiara-lhe as botinas e a beirada das calças. O cansaço rasgara-lhe ruga funda sob os olhos e os lábios sempre murmurantes pendiam-lhe da boca secos e abertos. O pergaminho rofo do rosto polira-se de suor. Limpando-se descuidado, recomeçou a andar muito rápido para o lado das luzes.
Atravessados quase em carreiras vários quarteirões chegou ao trecho iluminado. Era uma praça artificial construída ao lado da avenida. Alguns degraus davam acesso à praia dos ladrilhos, onde passeavam pares muito unidos. Sob ósseos caramanchões de cimento armado agrupavam-se em redor da cerveja homens de olhares turvos, bocas fartas. Entre o zunzum da multidão brincavam nas brisas, moderadas pela distância, melodias moles de danças. Por toda a parte a mesma alegria fulgindo na luz.
Daquele miradouro via-se a cidade irrequietamente estirada sobre colinas e vales de surpresa. Os revérberos confundiam-se na claridade ambiente e nos longes recortados um grande halo mascarava de santa a Paulicéia. Apoteose.
Mas o judeu mal reparou nos enfeites com que o homem recamara aquela página da terra. Olhava apenas a multidão, perscrutava todos os olhares. Procuraria alguém?… Quase que corria no meio dos passeantes ora afastando-se ao contato de uns ora atirando-se para outros como que reconhecendo. Desiludia-se entretanto e procurava mais, procurava debatendo-se na turbamulta. Enfim desanimado partiu de novo. Ao descer os degraus do miradouro notou duas escadinhas conducentes ao subsolo. Espiou. Outro restaurante! Fugiu para a rua. A fila imóvel dos autos. Corrilhos de motoristas e a guizalhante frase obscena. Passou. Ia afundar-se de novo no deserto da avenida. Mudou de resolução. Retornou de novo para a luz. Era um espelho de suor. Caíra-lhe o chapéu para o lado e uma longa mecha de cabelos oscilava-lhe na fronte como um pêndulo. Os motoristas repararam nele. Riram-se. Houve mesmo um prelúdio de vaia. Nada ouviu. Entrou de novo no miradouro. Desceu os degraus. Um negrinho todo vermelho quis recusar-lhe a entrada. O oriental imobilizou-o com o olhar. Entrou. Percorreu os compartimentos. O mesmo desperdício de luz e mais as flores, os tapetes… Bem-estar! Numa antítese à brancura reta das paredes o sensualismo de couros almofadados. E o salão nobre. E a orgia escancarada.
Todo o recinto era branco. Dispostas a poucos metros das paredes as colunas apoiavam o teto baixo no qual os candelabros plagiavam a luz solar. Esgalgos espelhos no entremeio das portas fenestradas eram como olhos em pasmo imóvel. As flores feminilizavam colunas e alampadários, poluíam seu odor misturando-o à emanação das carnes suarentas e nessa decoração de fantasia apinhava-se comendo e bebendo sorrindo e cantando uma comparsaria heterogênea.
Bem na frente do judeu sentados em torno duma mesa estavam dois homens e uma mulher. Falavam língua estranha cheia de acentos guturais. Seriam ingleses… Os homens louros e vermelhos denunciavam a proporção considerável da altura pelo esguio dos torsos e dos membros mas a perfeição das casacas dava-lhes à figura um alto quê de aristocracia.
A mulher era profundamente bela. Trajava preto. Gaze. A fazenda envolvia-lhe a plasticidade das ancas e das pernas, dando a impressão de que o busto saísse duma caligem. O vestido como que terminava na cintura. Um tufo de tules brancos subia sem propriamente encobrir até parte dos seios, prendendo-se ao ombro esquerdo por um rubim. Sobre a perfeição daquele corpo a cabeça era outra perfeição. Na brancura multicor da pele queimava uma boca louca rindo alto. As narículas quase vítreas palpitavam voluptuárias como asas de pombas. Os olhos eram da maior fascinação no arqueado das sobrancelhas, na ondulação das pálpebras, no verde das pupilas más. E colmava o esplendor uma cabeleira de pesadas ondas castanhas.
Já tonta, meneando o corpo, estendendo os braços virgens de joias sobre a toalha, oferecia-se à contemplação abusiva da luz. E era também no alaranjado de sua carnadura que os dois ingleses apascentavam os olhares.
Em torno de todas as mesas, como refrão do prazer rico repetia-se a mesma tela: homens rudes acossados pelo desejo, mulheres incastas perfeitas maravilhosas.
Do outro lado do salão a orquestra vibrou. Ritmo de dança, lento brutesco. Balançaram dois ou três pares num círculo subitamente vazio. Um dos ingleses e a mulher de preto puseram-se a dançar. Inteiramente abraçada pelo homem ela jungia-se a ele, agarrava-se-lhe de tal jeito que formavam um corpo só. Ondulavam na cadência da música: ora partiam céleres como numa fuga, parando longamente depois como num espasmo. Ora se afastavam um do outro num requebro, ora mais se uniam e o braço esquerdo dela rastejava como um crótalo no dorso negro da casaca. Dançavam com os sentidos e a mulher na ascensão do calor e da volúpia, mostrava na juntura esquerda dos lábios um começo de língua.
O judeu continuava a olhar. Seguia os pares no baloiço do tango, esforçando-se por disfarçar com a imobilidade a excitação interior. Mas seus olhos chispavam. Mas juntas nas costas tremiam-lhe as mãos mordidas pelos dedos.
Enfim vibrados os últimos acordes os dançarinos pararam. A inglesa seguida pelo parceiro, arrebentando os olhares que lhe impediam a passagem, viera sentar-se. Incrível! O judeu bufando enterrara o chapéu na cabeça, abrira o fraque com tal veemência que os botões saltaram e tirando dum bolso interno uma trífida correia de couro fustigara a espádua da mulher. Tal fora a energia da relhada que o sangue imediatamente brotava no vergão enquanto a infeliz uivava ajoelhando. O golpe arrebentara a gaze junto ao ombro. Seio lunar!
Mas o judeu malhava indiferente todas as formosuras.
Um primeiro imenso espanto paralisou a reação daqueles bêbedos. O fustigador derribando cadeiras e mesas atravessava os renques de pusilânimes, cortava caras braços nus. Tumulto. Balbúrdia dissonante. O mulherio berrava. Os homens temendo serem atingidos pela correia do louco fugiam dele na impiedosa comicidade das casacas. Arremessavam-lhe de longe copos e garrafas. Mas ele percorria em alargados passos o salão, castigando todos com furor. Onde a correia assentava negrejava um sulco, chispava um uivo.
Nos primeiros segundos… Depois, açulados pelo número, os homens já se expunham mais aos golpes na esperança de bater e derrubar. O círculo apertava-se. O oriental teve de defender-se. Vendo junto à parede um amontoado de mesas saltou sobre ele. Abandonara o chicote, empunhara uma cadeira, esbordoava com ela os que procuravam aproximar-se. Impossível atingi-lo. Seus braços moviam-se agílimos tonteando cabeças, derreando mãos.
As mulheres agrupadas à distância reagiam também. As taças pratos copos atirados por elas sem nenhuma direção, acertavam nos alampadários cujos focos arrebentavam com fofos estampidos soturnos. As luzes apagadas esmoreciam a nitidez do salão e as sombras enlutavam o espaço, diluindo os corpos numa semiobscuridade pavorosa.
Mais gente que acorria. Os passeantes do miradouro atulhando as portadas saboreavam em meio susto a luta. Os motoristas procuravam roubar bebidas. A polícia telefonava pedindo reforços.
Mas o oriental já começava a arquejar. Seus lábios grunhiam entrechocantes. Uma garrafa acertara-lhe na fronte. O chapéu saltando da cabeça descobriu na empastada desordem das madeixas a rachadura sangrando. O sangue carminava-lhe o rosto, cegara-lhe o olho esquerdo, entrava-lhe na boca e escorrendo pelo hissope da barba, espirrava sobre a matilha gotas quentes.
Afinal alguém consegue agarrar-lhe a perna. Puxa-o com força. Ele tomba batendo-se. Todos tombam sobre ele. Ninguém lhe perdoa a desforra. Os que estão atrás levantam os punhos inofensivos para o alto esperando a vez. Desapareceu. O molho de homens.
Chega a polícia. A autoridade só com muita luta usando força, livra o mísero. No charco de champanha sangue vidros estilhaçados ele jaz expirante pernas unidas, braços estendidos para os lados, olhos fixos no alto, como querendo perfurar as traves do teto e espraiar-se na claridade fosca da antemanhã.
Levaram-no entre insultos.
Todo jornal comentava o caso no dia seguinte. O público lia, rebolcado no inédito do escândalo, as invenções idiotas, as mentiras sensacionais dos noticiaristas.
Entanto, nas múltiplas edições dos diários, relegado às derradeiras páginas, repetia-se o estribilho perdido que ninguém leu. Homessa! curioso… Um guarda-noturno achara rente a uma casa em construção uma pequena mala de viagem. Aberta na mais próxima delegacia, encontraram nela entre roupas usadas e de preço pobre uma tabuinha com dizeres apagados, quatro grandes cravos carcomidos pela ferrugem e uma coroa feita com um trançado de ramos em que havia nódoas de sangue velho e restavam alguns espinhos.
1917 [1943]
Maria na varanda levantando os olhos do trabalhinho de lã, deixou-os cair na faixa da estrada. Percebeu ao longo um cavaleiro. Estremeceu. As patas da besta levantavam do chão uma poeira sanguínea que manchava a fímbria do horizonte. A invernia de agosto caleava o espaço com o fabordão das nuvens sem fim. O ar repousava sobre as coisas com a mornidão dum bafo humano.
Maria cobriu-se mais com o xale, derrubou cuidadosamente a saia até a ponta dos pés num jeito ingênuo de proteção. Pôs-se de novo ao trabalho.
Bem perto o plaqueplaque das patas do animal. O cavaleiro, sacudido, longo, mostrando na face e nas mãos a palidez inglória dos filhos da terra, apeou junto a um mourão. Prendeu a besta e entrou na varanda.
— Boas-tardes… A senhora está muito distraída hoje…
Ela compreendeu a ironia que colorira a frase do moço e retrucou mais pesada:
— Boas-tardes, Tonico. Outra vez por aqui!…
Ele já sério:
— Outra vez.
Desconversaram. Maria não tirara os olhos das agulhas e Tonico descontente consigo mesmo, cabeça baixa brincava com as mãos.
— Meu pai está aí?
— Sim… No quarto. Com este tempo sai pouco.
Era mentira. Aquele “sim” esquisito provava mentira e Tonico sabia muito bem que o pai pouca importância dava à doença. E a tarde era bondosa. No meio do silêncio, dada por finda a ocupação, Maria pôs rápido os novelos na cestinha jacente ao lado. Ia entrar na casa. Tonico procurou prendê-la.
— Maria…
O gesto áspero fez rolar novelos e agulhas pelo chão.
— Me deixe! Olhe aí o que você fez!… e baixava-se para erguer os objetos semeados no tijolo da varanda. Tonico porfiava em agarrar-lhe a mão.
— Já começa! Me deixe, já disse!
— Maria, vamos embora comigo!…
— Não vou! sem-vergonha!… Nem eu, você me deixa sossegada! Vá-se embora!
Tonico oprimia a testa com os punhos, desesperado. Um respeito por aquela mulher que vivera na cidade impedia-lhe bruteza mais franca e sua voz nas intercadências da comoção falava surda em frases curtas repetidas, num romantismo ousado e sério de sertão:
— Venha, Maria! Fuja comigo! Não posso viver assim sem você! não posso mesmo!…
Lágrimas enormes lavaram-lhe as mãos.
— Vá embora, já disse! Se não tivesse medo que seu pai te matasse contava pra ele. Me largue, vamos! Sem-vergonha!
Tonico largou-a mas curvou-se sobre ela como galho de árvore. Tinha nos olhos uma cobardia orgulhosa desesperada, a desafiar:
— Sem-vergonha, mas você há-de vir com o sem-vergonha!
Apontava o matagal que a cem braças, depois da inclinação verde onde o ribeirão se espojava em taliscas e taiobas, erguia-se como o primeiro alarme da terra virgem:
— Toda noite você há-de ouvir pio de macuco. Sou eu embaixo da perobeira. Meu pai é caçador… Ou você vem ou…
E feroz decidido, mesmo correndo, desceu a escada, desamarrou a besta, cavalgou-a. Plaqueplaque plaque, plaq…
Maria imóvel, toda cega pregada ao chão. Sentia n'alma o peso do próprio corpo. Era sempre assim. Às vezes que Tonico lhe falara de amor irritara-se muito, raivara numa zanga sem perigo de jaguatirica mas quando ele partia mortificava-a somente essa piedade comovida. E o sentimento de solidão. A canseira quebrava-lhe os sentidos. Cegava-lhe os olhos um desejo de além. E vaga inquietação…
João Antônio Pires tivera a vida do bandeirante colonizador. Mas alcançara as esmeraldas na fecundidade das terras e das boiadas. Casara-se muito moço ainda, magro pálido, tísico segundo muitos. E na luta da ambição contra a penúria partira cedo para os arcanos altos semi-selvagens de São Paulo com a companheira e o filho recém-nascido. Meteu-se nos trabalhos em que se ganha a riqueza ou se entrega a vida. Viveu a poesia nômade dos tropeiros. Penetrou muitos dezembros o fogareiro de Mato-Grosso, perdeu-se nas axilas bárbaras das serras de Goiás. Aos trinta anos porém já lhe sobrava dinheiro para adquirir o farto cendal de invernadas e mata-virgem onde assentara o lar. Fortificara-se. Enrijara ao contato dos ares escampados tomando a substância e a cor verdecobre dos jatobás e das mulateiras de cerne férreo.
Crescia-lhe o número dos filhos à medida que seus domínios se alargavam e as corredeiras dos cornos dos seus bois inundavam em caudais tonitruantes o aclive das invernadas. Trocara o rancho primitivo pela casa tijolada e chata de cuja varanda descortinava no último adeus dos plainos além, chãos que lhe pertenciam duas léguas continuadas à direita.
Um dia enfim, vendendo por preço feliz uma boiada sentiu morrer-lhe o tempo das preocupações. Foi a São Paulo. Olhou a cidade. Sorriu. Voltou para a fazenda. Trazia na bagagem um arreio com botões de prata para o baio, um punhal para o João – amigo de tempos infiéis – e um vestido de seda cor-de-vinho para a mulher.
Começou então para nhô Pires o seu tempo de rei. Nas abas de suas terras vinham agrupar-se outros criadores menos fortes cujos ousios a cobardia sopitava e quando o patriarca somou 50 anos sabia ter em torno todo um bairro, todo um estado, um império em que mandava ele só. Sujeito de princípios ocasionais, gasto na briga com as intempéries, vencedor das febres e do sertão, criava somente duas grandes inclinações: orgulho e amizade. Orgulho das vitórias e do reinado. Amizade pelo João.
Morrera-lhe a mulher há cinco anos sem que se lamentasse. Não sentiu a falta da serva porque nos arrancos contra a braveza do matagal acostumara-se às omissões e descarinhos. Os filhos, mandara-os para longe ignaros rudes mal sabendo ler, à cata duma riqueza igual à que soubera alcançar. Perpetuassem-lhe a vida e a coragem!… As duas filhas tinham partido também, levando no dorso os maridos que nhô Pires paralisara negando-lhes dote.
Ficara livre. Só. E mais a terra. E mais o orgulho.
Um dos seus descendentes apenas, o Tonico, mais ambicioso ou vil, aninhara-se junto aos campos do pai numa sitioca indecente. Vendia galinhas. Rara vez um capado. Os vizinhos compravam-lhe a criação por atenção a nhô Pires. Tonico aproveitava no preço. Nhô Pires comparava amargo as galinhas do filho aos seus touros de chifres espaçados… Pouca vergonha! Às vezes, quando após o jantar sentava-se na varanda morta e a relembrança das aventuras dourava-lhe a vaidade, a figura de Tonico vinha manchar como bugio esquipático ou touro mocho ridículo os gerais acidentados da sua vida. E o criador amaldiçoava o filho sem mãos.
Então a época do castigo chegou.
Numa das viagens a São Paulo nhô Pires demorou-se mais que o prometido. Havia já impaciência entre os agregados e apreensão no amigo quando uma tarde o fazendeiro contando então perto de 60 anos apareceu na fazenda acompanhado. Seguia-o pouco atrás muito tímida uma moça.
Nhô Pires apresentou-a simplesmente como mulher dele e a vida reencetou a caminhada de ontem, regular.
Sintoma de velhice? Apaixonara-se por Maria apenas a vira sem que houvesse para isso razão influente. A moça não era bonita nem garrida. Mesmo apesar de seus vinte e poucos anos, desses tipos neutros que desarmam os femeeiros mais indiferentes pela qualidade da presa. Olhos de paz, lábios curtos, braços extáticos. Por acaso nhô Pires a vira em lágrimas à janela quando partia o enterro pobre da mãe. Seria o acompanhamento de só dois carros? A influência do jantar bem regado – desses que predispõem a fraquezas sentimentais? O certo é que não se esqueceu mais dela. Voltou. Informou-se. Diziam que ficara sem arrimo sem parentes no Brasil. Os pais defuntos eram italianos. Nhô Pires apresentou-se. Consultou-a, propôs-lhe casamento. Maria necessitada de apoio meia espantada meia grata deixou-se levar. Sem amor mas sem ambição. Tinha a mobilidade espiritual do cadáver. Antes assim! Queria paz, influenciada pela vida inútil dos pais.
Logo se afez sem violência ao novo modo de vida. Sentiu-se inteiramente feliz, sem amor mas dona dum escravo opulento que lhe adivinhava as tristezas e os desejos. Desejos? Que raridade!… Nem isso. Antes preferência indecisa. Uma cadeira aqui, sempre muita água-de-colônia, frutas pouco maduras…
O fazendeiro enfraquecera bastante. Com a paixão. Ou mesmo sem ela. Sentiu-se doente. Como que despertava nele a recordação de males já sofridos. Teve calores, golpes agudos no peito. É que muito frio e borrasca o tinham acompanhado nos últimos quinze dias de caçada no sertão. Tossia. Na capital deram-no como fraco do peito, um nada naquela idade. O ar da fazenda, cuidado, repouso curá-lo-iam. A mulher porém que o seguira ao escritório do médico sobressaltara-se. O doutor olhou-a. Recomendou-lhe higiene, separação de leitos. Nhô Pires ouvira o conselho muito mudo sem um gesto.
Maria a esse contato com a cidade sentira um brotar de ânsias dantes inexistentes. Teve vontade de viver. Ela mesma não sabia explicar essa ideia tola de querer viver. Pois não vivia? E entre despeito e medo voltou para a fazenda.
Aí, sorrateira sem consultar o marido, arranjou outro quarto para si. Afastou-se completamente de nhô Pires. O sacrifício fora superior à sua mocidade. Tratou do doente com dever e com justiça. Seria impossível dar-lhe as quenturas dum amor que… Como seria o amor?…
Nhô Pires viu, antes percebeu tudo calado. Talvez até desse razão à mulher. Mas, e não era já segunda nem terceira fraqueza, sofreu, chorou. Piorava numa depressão muito lenta. A força vital enrijada por tantas lutas passadas cedia mas num ceder insensível espaçado. Se o mal fosse combatido talvez desistisse da vitória. Mas nhô Pires era homem que nunca se contivera e na paixão das caçadas muita vez chuva e noite alcançavam-no longe de casa.
Maria bem que pretendeu guardá-lo mais. Impossível. Procurou recobrar o sossego anterior. Impossível. Desconhecia o que eram revoltas mas seus olhos a cada pôr-de-sol contemplavam sonhadoramente o poente onde no festival das nuvens percebiam cidades enormes em que fremia a violência das multidões. Viveu fora da vida.
Só percebeu a paixão do enteado quando este abertamente lhe falou de amor. Repeliu-o admirada que um desejo assim pudesse nascer em peito de homem. Chorou de envergonhada. De ofendida. Mas como que havia entre os sentimentos informes que a faziam chorar umas pinceladas de arrependimento. Conservou-se fisicamente imaculada com um grande medo do marido. Agora estremecia cada vez que lhe escutava a fala. O poderoso escravo era ainda escravo por inteiro, Maria porém sentia invisível rastejante o ciúme de nhô Pires engradá-la numa atmosfera de predestinação.
Nos últimos tempos que vida de aflições! O fazendeiro entristecera afastado da mulher. Tristeza com muita coisa do crepúsculo sobre o campo. Desolação trágica de sol-pôr.
Maria procurava dar-lhe seu cuidado. Horrorizava-se toda quando o sentia muito perto. Tinha pavor da doença. Muitas vezes nhô Pires percebeu que embora escondida em subterfúgios Maria fugia dele. Então se retirava para o quarto frio de solteiro e não saía mais senão no dia seguinte. Maria falava-lhe da porta arrependida. Nhô Pires pretextava pioras com voz seca. E sentia-se mais só.
— Que pasmaceira é essa, Maria?
Violentou-a um estremeção. Levantou o rosto esforçando-se por sorrir.
— Cansaço.
— Está doente!
— Não. Cansaço.
— Por que você trabalha tanto? Precisa sair um pouco… Vamos dar uma volta…
— Agora vamos jantar.
Irritadíssima, esgueirando-se sob o braço que o marido lhe pusera no ombro entrou na casa. Nhô Pires quis pensar. Mas entrou na casa.
Depois do jantar insistiu no passeio. Maria cedeu. Enquanto dava algumas ordens e se aprontava, nhô Pires mandava preparar o semi-trole. Quando assomou à varanda viu debaixo da pequena escada de pedra o marido já sentado no carro sustendo a besta. Teve um perceptível recuo de desprazer. Desagradava-lhe passear assim. Tinha medo.
— Queria ir a cavalo…
Nhô Pires baixou a cabeça um instante, depois olhando submisso a mulher:
— Por que não disse, Maria. Agora o semi-trole já está pronto…
— Mas…
— Não faz mal. Mando encilhar os animais.
Depois de dez minutos de embaraço partiram. Maria fustigou a égua que desatou num galope ondulado. Sentia o ventinho queimar-lhe a pele. Tinha prazer em se ver assim insulada nos campos que a meia paz da invernia e do crepúsculo assombrava. Via-se só criava na imaginativa um ambiente de tragédia e solidão. De quando em quando olhava para trás. Nhô Pires muito calmo seguia-a perto. Tomava-a então uma raiva impaciente do marido. Fugir, distanciar-se! O relho feria de novo o dorso do animal. Nova galopada. Maria já bastante hábil procurava os atalhos as descidas as ladeiras ríspidas. Nhô Pires atrás calado sustentando-a com os olhos. Uma onda mais resistente de brisa derrubou o chapéu de Maria. Ela soube que o marido atrás retinha as rédeas da cavalgadura. Apear-se-ia para lhe erguer o chapéu… Numa risada vitoriosa, mordendo a égua com os joelhos, chicoteou-lhe a barriga.
Sinistramente na calva do pasto entre arvoretas esqueléticas amazona desgrenhada que o cavaleiro se esforça por alcançar… Rússia…
— Maria, que loucura! Tome o chapéu.
Odiou-o. Refreou a égua.
— Vamos voltar.
— Que é isso, Maria? acalme-se. Você está nervosa hoje.
Os cavalos voltavam a passo fumegantes. Sombras abismais subiam da mata. Os últimos pios dos anuns. A impaciência dos cavalos… Que tristeza angustiosa dentro d'alma… A escuridão crescia no céu. Mugir de vaca longe. Auc, auc, auc… Grandeza misteriosa… Brasil…
Maria jogou a capa sobre uma cadeira. Tirou o chapéu num gesto doente. Deitou-se na rede. Fechou os olhos para que o marido não conversasse. Seis e meia. Noite velha.
O serão foi vazio. Nhô Pires sentou-se junto à mesa perto do lampião. E assim ficou recurvo, mãos cruzadas sobre a toalha de quadros. De tempo em tempo olhava tímido a mulher. Nada.
Às oito horas como sempre Maria fez servir o leite com farinha para o marido. Tomou café. Retiraram-se ambos cada qual para o seu quarto depois dum boa-noite sem cor.
Maria, corpo unicamente, apagou a luz. Mesmo vestida deixou-se cair sobre a cama. Como esquecida de si própria. Não sabia pensar. Às vezes voltava-lhe durante segundos a consciência das coisas, então escutava com curiosidade infantil os batidos do coração e admirava-se da incapacidade em que estava de descobrir o que queria. Muito raro diluída como num fundo de câmara quase negra, a figura do Tonico. A promessa do Tonico… Mas não doía, não fazia mal. Talvez ela não acreditasse, não quisesse acreditar…
Tempo ruim lá fora.
Às nove horas o macuco piou.
Maria levantou-se sobressaltada compreendendo enfim a realidade. Ímpetos de chamar o marido, contar tudo. Chorou de raiva. Depois soluçou ajoelhada junto à cama. Não sabia bem por que chorava. Irritava-se consigo mesma porque queria chorar muito e às vezes sobrestava o choro distraída a escutar os soluços.
Por mais de duas horas espaçadamente ouviu o macuco piar na perobeira. Depois o silêncio estúpido.
Teve um despeito quando o macuco não piou mais.
Dormiu profundamente.
— Você ouviu? Esta noite um macuco veio piar bem em frente de casa, na mata. Pertinho. Outra vez não me venço.
— Não vá!… é uma loucura!
— Loucura por quê?
— A doen… a tosse pode voltar. Está tão frio!
Nhô Pires olhou-a com vontade de contar sofreres. Pretendeu orgulhosamente guardar-se. Mas disse tudo num:
— Que tem!
Doloroso, quase confissão de suicídio aquele “que tem!”. Maria envergonhou-se do afastamento em que deixava o marido. Num impulso de coração chegou-se a ele, segurou-lhe a cabeça entre as mãos, beijou-o como a pai na testa. Nhô Pires circundou-lhe a cintura com braços receosos. Cerrou os olhos e baixando a cabeça colou os lábios no pescoço nu da mulher. Essa fraqueza que a invadia… Ah! Que importa… Deixar-se conduzir assim… No quarto dele!… Leito contaminado… Que importa!… Delirou. Pela primeira vez teve prazer. Querido! meu amor!… Tomou-se de medo invencível. Estremeceu violentamente e libertando-se dos braços do marido, fugiu para o quatro dela.
Fechou-se por dentro. Trêmula agitada com um sorriso nervoso tirou do lavatório o vidro de água-de-colônia. Derramou-o sobre o ombro, sobre os seios, rosto, cegando-se. Mais raciocinada embebeu uma esponja em álcool. Esfregou-a depois fortemente nos lugares onde tinham pousado num momento de recompensa os lábios de nhô Pires. Atirou a esponja pela janela. Começou a pensar.
Estava muito feliz. Orgulhava-se da ação que praticara. Via-se heroína, coroava-se mártir. Imaginou-se com mais forças para lutar contra a ordem do Tonico e pela primeira vez de longe detestou-o. Quando saiu do quarto nhô Pires não estava mais na casa.
Foi à cozinha. E cantarolava. Preparou os bolinhos de que o marido tanto gostava. Não pensou senão nele. Entrou pela segunda vez naquele quarto nupcial onde há tanto não ia, para ver se estava tudo em ordem. Colheu flores para o jarrão da cômoda. Vestiu-se melhor. Ataviou-se mesmo. Sorriu para a própria alegria.
Como estava livre, numa grande calma! Impacientava-se com a demora do marido. Ralhou-o mesmo porque se retardara. Jantou bem conversando alto. Ri, criança! Nhô Pires contemplava-a sorrindo, feliz, admirado com a transformação.
À tarde ela quis passear outra vez. Numa ousadia em que se catalogou perto das santas pediu o semi-trole. Mas com a condição… Devia tratar-se mais. Não saísse de noite… Prometido?
Só com as sombras noturnas os temores voltaram. Devia ter avisado o Tonico… Quis pedir outra vez ao marido que não saísse. Se ele desconfiasse? Parecia-lhe tão fácil a verdade que qualquer palavra diria tudo. Prolongou o serão. Mas abstrata cheia de pasmos cansados. Imenso desejo de dormir.
Às oito e meia deram-se o boa-noite.
Maria fechou-se por dentro como quem procura defender-se. Atirou-se na cama vestida, sem nenhum sono. Às nove horas batidas no relógio da sala deram-lhe quase um desmaio. Admirou-se de não ouvir o macuco piar. Esperou uns minutos. A qualquer ruído estremecia de terror. Não era o pio. Desistira. Graças a Deus! Desejos inconscientes de ouvir o canto da ave. Raivas do enteado. Havia de contar ao marido!
O macuco piou.
Ela ergueu a meio o corpo sobre os cotovelos, devorando num êxtase o som. Abrira olhos deliciados dentro da treva. Encolheu-se toda no leito. Chorava gritinhos irritados. Pôs o cobertor sobre a cabeça. Tirou-o novamente. Queria ouvir os pios. Impacientava-se quando demoravam muito. Ia se erguendo e se espichava muito em curva sobre a cama. Novo pio. Encolhia-se outra vez, miudinha, enrolada, tolhida pela aflição.
Nhô Pires deitara-se preocupado com as contradições da esposa. Tão alegre primeiro, tão solícita e aquela mudez súbita… Não sabia responder. Doença?…
Ao primeiro chamado do macuco levantou a cabeça do travesseiro e escutou. Diacho, que provocação!… Vagamente luziu-lhe na memória o conselho da mulher. Mal se continha já. Arfou antegozando o tiro. Levantou-se rápido. Vestiu-se. Calçou as botas. Esperou novo pio. Irresolução. Podia piorar. Maria tão amorosa pela manhã. Era possível que voltasse para ele. Terceiro pio. As recomendações do médico. Pô-las de lado. Maria… Descalçou as botas. Irresolução. Outro pio. Calçou as botas. Tomou da arma. Cobria-se bem… Dois minutos com a mão no trinco. Irresolução. Saiu do quarto. Foi até a porta da mulher. Andava pesado. Se lhe dissessem que o impelia o desejo de ser obstado contrariado impedido por ela, irritar-se-ia. Maria ouviu-o retransida, paralítica. Ouviu os passos afastarem-se. Ouviu os passos fora na escadinha da varanda.
O silêncio apagou tudo por fim.
Atonia. Lassamente derrubara os braços a cabeça na cama. Sem forças para um movimento só. Divagava. Viu-se em lágrimas à janela quando partia o enterro pobre da mãe. Começou a observar a cor curiosa da treva, meia avermelhada meia loura… Outro pio.
Saltou da cama. O perigo de Tonico projetara-se-lhe no coração. Protegê-lo! Morrer por ele se preciso!… Tonico!… Envolta na capa escura correu para fora do quarto abriu a porta da varanda procurou o marido no limpo da baixada. Não o viu mais. Foi-lhe atrás.
À entrada do mato espaventou-se com a escuridão. Era uma noite negra. Titubeou. A ideia da morte do amante sufocava-a intoleravelmente. Seguia machucando-se nos cipós nas arvoretas. Torcia o pé a cada passo. Se errasse a direção… O galho desnastrou-lhe o cabelo. Rasgou-se a blusa nos espinhos. Sangue. Arquejava. Avançou mais lento. Marretava troncos. Afundava o rosto na vegetação. Salvar Tonico! Parou. Mais tato agora. A perobeira devia estar perto. Nítida compreensão. Cumplicidade. Muito cuidado no pisar as folhas secas… nhô Pires certamente por ali… Procurou a árvore com os sentidos… Mais um passo. Tiro.
O baque surdo. Ruído de animal pesado a correr.
Nhô Pires estranhou o barulho. Desfechou o segundo cano no som. Continuava. Quis perseguir. Pisou numa coisa mole… Gemido humano!… Recuou. O fósforo. Maria mais que branca respirava mal. Nhô Pires adivinhou a verdade. Um sopro noroeste de ódio queimou-lhe o pensamento, secou-lhe a alma. Levantou-se. Enormemente esguio. Era uma noite feia. Armou a espingarda. – Peste… Atirou. Era uma noite muda. Um derradeiro estremeção. Os olhos de Maria abriram-se muito, já cegos. Fecharam-se.
Nhô Pires estava só. Essa calma oleaginosa que o inundava… Admirou-se de não sofrer. E voltou. Lembrou o outro. Achá-lo-ia. Amanhã… Tinha sono.
João esperava-o na varanda da casa com boa advertência:
— Mecê não há-de sará nunca com extravagância desta! Ouvi os tiro e falei pra mim: Ora! pois nhô Pires tará caçando com esse friu!… Vim vê… Matou macuco?
— A fêmea. Agora falta o macho.
João olhou-o admirado:
— E cadê ela!
Agarrando o braço do amigo nhô Pires levou-o para o mato.
Era uma noite longa.
No outro dia a mulher do João, muito assustada contava a toda gente que o marido fora a São Paulo levar dona Maria. Tinha adoecido de repente, é! Nhô Pires também piorara… Meu Deus!…
O fazendeiro não saiu de casa nesse dia. Dormira profundamente. A calma que o vestia era talvez cansaço da grande dor. Ao acordar mordera a saudade dos que se sentem sozinhos. Faltava gente em torno dele. Tinha necessidade de alguém. João partira no trole. Deveria ficar muitos dias longe. Iria a São Paulo para enganar. Nhô Pires obedecia indiferente. E pela primeira vez se recordou da outra esposa. Desejou-a. Lembrou-se dos filhos. Qual! Só com largos espaços uma carta. Pouco explícita. Poucas linhas. Amou-os. Quereria tê-los consigo contar-lhes a tristeza… E Quininha? Há uns oito meses sim uns oito meses que não vinha notícia… Pela primeira vez ainda imaginou que envelhecera. Olhou o espelho. Infantil. Envelhecera. Teve medo de morrer. Levantou-se. Passeou pelo vasto casarão abandonado. Pesou-lhe aos ombros a poeira daquele mutismo. Vagueou pelos quartos. Seu silêncio amedrontava. Os criados fugiam dele. Caíra sobre a fazenda a impaciência alerta das apreensões. O próprio gado! Coisa esquisita… E uma dúvida na gente da fazenda, do arredor… A primeira estação do caminho de ferro era a dez léguas dali. Alguém partira entretanto.
Num momento o velho fazendeiro apareceu à porta da varanda. Procurou o mato em frente. Lá estavam os últimos galhos da perobeira dominando a humildade implexa das ramas em redor. Nhô Pires imagina. Desce o tronco da árvore e a poucos passos dela num bem disfarçado chão de folhas penetra fundo na terra. Estar deitado junto do corpo que tanto amara!… Afinal tão moça, obrigada a aguentá-lo… Virou as costas à paisagem. Foi fechar-se no quarto. E chorou.
Foi ridículo o pranto. Nhô Pires perdera todo o orgulho. Pusilânime até. Aceitara a intriga com que o João planejou evitar as complicações. Nem mais ódio para enrijá-lo. O amante… Parecia-lhe impossível agora descobrir.
As primeiras sombras da tarde amedrontaram-no por tal forma que não pôde suportar a solidão. Queria alguém. Carinho? Gente. Gente com ele. Não era a primeira vez que se lembrava do Tonico. Mandou um camarada à sitioca do filho, chamando-o. Foi esperá-lo na varanda. O interior da casa sufocava com a impressão muito fresca dos dedos de Maria. Curvou a cabeça para o peito. Ficou imóvel. Dois dias atrás encontrara ali mesmo ela cismando… O empregado voltava. Encontrara apenas o camarada de nhô Tonico… Que nhô Tonico partira na véspera para Uberaba…
Nhô Pires ficou inerte um instante. Adivinhava tudo. Por várias vezes admirara-se de ter errado o segundo tiro… A verdade acordava-o num sobressalto. Maria e Tonico… Tantas vezes… Lançou mão do animal. Fustigou-o.
Com o ruído o camarada do Tonico assomou à porta da casinhola.
— Nhô Tonico foi pra…
Nhô Pires empurrou-o. Penetrou na casa. No acervo revolto das cobertas Tonico procurava levantar-se ferido na coxa.
— Meu pai, vassuncê pode me matar. Fui eu mesmo.
À voz covarde do filho cessou o ímpeto assassino que nascia… Um riso lateral de desilusório desdém repuxou o lábio de nhô Pires. Tonico olhava-o tremendo, sustido a custo nos cotovelos. Seu medo fazia oscilar a cama sórdida. Nhô Pires rosnou por fim:
— E nem teve coragem de defender ela… Cachorro!
Muitas vezes cortou com o relho o corpo do filho.
— Agora vá-se embora! Vá-se embora e já!
Saiu da casa. Ao camarada:
— Apronte a besta.
Esperou. A noite ia muito nova, ainda hesitante. Aves noturnas morcegos insetos a riscar o verde incerto do último crepúsculo.
Pronta a besta o camarada entrou na casa. Pouco depois horrivelmente pálido abobado pela dor Tonico apareceu com o auxílio do outro. Foi um custo montar. O camarada amarrou a pequena trouxa na sela.
— Não me apareça mais. Nunca mais, hein!
Breve a sombra dissolveu Tonico e besta. Por fim o silêncio sobrepujou o trote do animal. Mas nos ouvidos continuando plaque plaque… maquinal.
Ficar assim olhando muito tempo a escuridão sem nexo… para quê? Nhô Pires a passo volta para a casa-grande.
E muito embora o João jurasse que nhá Maria morrera em São Paulo, o camarada de Tonico jurasse que este partira só e expulso, toda a gente do bairro sabia muito bem que eles tinham fugido juntos enquanto nhô Pires caçava. Daí em diante o fazendeiro viveu cercado de maior carinho e piedade. Durou pouco. Na hora da morte contorcia-se vendo enormes macucos de asas espalmadas saltitando em redor do leito.
1918 [1943]
a Pio L. Corrêa
Nhô Resende era dono de propícias terras lá para as bandas de Apiaí. Não se importava com o café pois a porcada e as plantações de arroz iam-no mais do que arranjando enriquecendo. Seus campos marginavam a Ribeira em doce aclive onde as reses ruminavam distraindo a monotonia dos pastos sob a arrogância ouriçada dos pinheiros. Mais para o alto fugindo aos alagadiços a mata recobria a crista das colinas. Na filigrana das ramagens os macacos e os tucanos em convívio anunciavam com a matinada loquaz cada novo dia sempre portador de novo lucro e bem-estar.
Há quinze anos já que nhô Resende se afazendara naquelas paragens preferindo buscar no chão da terra esteio mais seguro que o das filosofias aderentes às cartas de bacharel. Entre o rubi e a enxada optara pela segunda desgostando a coronelice ingênita do pai mas a preferida lhe dera os orgulhos da honestidade e a serena paz dos patriarcas. Também entre a pianista de alameda paulistana, chopinizada de alma e corpo, e a cabocla aguentada nas aleivosias do clima, endireitara para o amor desta mais submisso e mais virgem. E o nono filho aí estava como a nona exceção à gente amarelecida que os rodeava, rijo sacudido crestado sujo lindo olhos inquietos.
— Chiquinho, sai daí, peste! Eu te bato, hein!
Mas Chiquinho tinha apenas três anos, duvidava ainda da argumentação das palmadas e enrodilhava-se à perna do pai puxando-o.
— Quê que ocê qué, minino!
— Vem, papai! vem…
— Olha só o tal! Então você pensa que vou te servir de ama-seca… Tá solto!
— Vem papai, bicho… e a voz fazia-se suplicante no pedir.
— Aonde é que tu me leva, minino!
— Bicho!…
— Tá bom: vamo vê o tal bicho…
E largando a navalha que afiava carregou Chiquinho nos braços, dirigiu-se ao portal.
Mesmo embaixo dos degraus de pedra que escachoavam para o terreiro uma linda porca negra de malhas brancas deliciava-se devorando avencas e begônias.
— Ora dá-se! Não é que a porca do Felipão tá aqui outra veiz! Ocê gostou da passeata, sua fia-da-mãe! Espera um pouco que já te dou comida pra ocê comer!
E ao filho que saía do paiol:
— Martinho, acerca daí! Não deixe ela fugir.
Largou o Chiquinho no patamar. Dum salto, como prova ainda do vigor e elasticidade dos músculos caiu junto da porca e segurou-a pela perna.
— Sirvina! venha vê o que a porca do Felipão feiz nas suas prantinha… Essa diaba tá querendo mas é bala.
Contudo ao mesmo tempo regalava beatificamente os olhos na belíssima porca. Já por várias vezes tentara comprá-la mas o dono emperrara na recusa e só era dado a nhô Resende, assim como em pecado contra o nono lamber com o olhar grosso as formas e cores do animal.
— Minino, quê que tu tá fazendo aí parado, seu palerma! Venha segurá a porca pra mim. Ocê vai levá ela no Rio Novo e fale pro Felipão que é a úrtima! Se a maiada passá pra cá outra veiz eu mato ela. Juca vá com seu irmão. Tá bom: é mió vocês não dizê nada. Não, é mió dizê!… Repita bem pr'ele que se a porca torna a passá pra cá outra veiz eu atiço a cachorrada nela.
Enquanto o Martinho partia mal se aguentando com os arrancos da porca, Silvina inda falava ao marido:
— Nhô Resende, quem sabe se é mió não mandá dizê nada. Felipão é home bravo, pode zangá…
— Que zangue! Só fujo de cuisarrúim. Felipão pensa que tem o rei na barriga mas comigo ele tem que se havê! Ora se!…
Felipão vizinhava com nhô Resende iam fazer quatro anos. Desde que para ali viera não havia mais sossego na vizinhança. Quebrara o dúlcido encanto do ramerrão. Cabra facinoroso, avelhentado já, embora ostentasse todo o vigor duma juventude sempiterna, a barbicha rala e grisalha a espetar para frente como esporão de galera, justificava tão somente pela altura o aumentativo que lhe realçava o nome. Não se sabia muito bem como lhe tinham vindo a pertencer os miúdos alqueires do defunto Joaquim Esteves mas largos incômodos trazia já tal parceiro para se lhe indagar o porquê da falcatrua. Só, eternamente com a pica-pau nos dedos e o cigarro luzindo no sardônico risinho, como último fauno sobrevivente nos sombrais da América nem mulatinha ou preta ou branca por ali vivia que não se sentisse violentada por seus olhares desejosos.
Na aparência Felipão criava porcos. E na vara brilhava com real destaque sobrepujando facilmente em beleza todas as melhores crias dos vizinhos a porca malhada tão amiga de avencas e begônias alheias. Talvez cônscia dos seus singulares dotes de perfeição outorgara-se ela o direito de passear por domínios estranhos, de por lá amesendar-se e vizinho não havia a que não amargasse e não fosse pessoalmente fazer as cócegas da inveja. Felipão revia-se orgulhosamente na porca não por certo em dotes de beleza mas no desrespeito à propriedade alheia. Reputava de nenhuma importância matar caça nos banhados de outrem ou usar-lhe dos caminhos sem licença e nhô Resende o mais destorcido dos fazendeiros da comarca ansiava por se ver livre de tão nojenta companhia.
Os meninos voltaram dizendo que Felipão os tinha xingado duma porção de nomes feios.
— Pois que xingue! que xingue! Mas se a porca dele passá pra cá, já sabe…
Quinze dias depois, sereno de ânimo, nhô Resende jantava quando viu a endiabrada porca devorando abóboras no pomar.
— Qual o quê! isso não tem jeito não!
Seguido pelos rogos da Silvina, que lhe suplicava deixasse a porca em paz agarrou da espingarda desceu ao quintal chegou-se para a porca. Esta olhou-o mansamente com ares de quem vê ninguém ao pé de si e recomeçou o banquete. Silvina entreassustada pedia ainda misericórdia. As crianças divertidas assistiam das janelas à execução.
Nhô Resende chegando a boca da espingarda junto ao rabinho da porca desfechou. Enquanto este em arrancos de lombriga decepada rolava no chão a malhada desaparecia num voo.
E o fazendeiro desfechou o segundo tiro no ar para que o estrondo reboando nas socavas a espavorisse ainda mais.
As crianças às gargalhadas disputavam-se o rabinho. A própria Silvina não deixou de sorrir ao inesperado da lição.
— Taí, porca do inferno, agora vamo vê se tu vem comê abobra outra veiz!
No dia seguinte com o brotar da aurora nhô Resende lavava o rosto na sala de jantar quando aos “Papai, Felipão taí” da criançada ouviu um tossido de aviso no terreiro.
— Bom dia Felipão.
— Nhô Resende, vim buscá minha porca.
— Que porca essa!
— A maiada. Eu sei que ela onte veio pr'estes lado.
— Mas ela não tá aqui!
— Oia, nhô Resende, é mió mecê não se fazê de desentendido. Me dê minha porca que vou s'imbora muito calado. Noutros causo…
— Noutros causo o quê, Felipão? Já disse que sua porca não tá aqui.
— Mecê se arrepende…
— Ora não me amole! Sua porca não tá aqui disse e arrepito. Onte ela andou no pomá comendo abobra. Então dei um tiro no rabicho dela e outro pro á. Só pra assustá.
Mas Felipão partia abanando a cabeça:
— Tá bom. Mecê vai se arrependê.
Um meio susto assombrou a fazenda nesse dia. O próprio nhô Resende não sabia senão praguejar. Achou duro o feijão, o milho não apendoava, os filhos… cada tamanhão! é só comê, comê… Trabaiá mesmo!… como se o mais velho deles não contasse apenas doze anos. Foi preciso que outra madrugada surgisse com o coral das alegrias, radiosa, para que a má impressão surdinasse um pouco.
Nesse dia quando ao verãozinho da tarde imóvel nhô Resende chegava da invernada encontrou a mulher na porta.
— Uai! Mecê não levou o Martinho!
— Eu não, Sirvina. Então havia de levá um crila de sete anos, pra quê!
— Pois ele desapareceu.
— Que tu tá falando aí, Sirvina? Deixe de história! Há-de está por aí mesmo.
— Já cansei de percurá, não dá ar de si. Mandei vê ele na casa do compadre, mandaram dizê que ele lá não apareceu.
As crianças espantadas grudavam-se umas às outras contemplando o pai.
— Ora sabe que mais? vamos jantá! Quando Martinho senti fome aparece.
Entrou barulhento na sala. E o jantar arrastou lúgubre. As palavras de nhô Resende não tinham ecoado em nenhum coração. Nem no dele. Ninguém pensara nada mas todos sabiam muito bem que Martinho não banzava a tais horas, nem se perdera. Um estremeção de medo combalia aquele pugilo de corações palpitantes de rude amor.
Empurrando de repente o prato em meio nhô Resende levantou-se. Se os lábios lhe tinham desaparecido dentro da boca numa expressão voluntariosa de energia, os olhos alargavam-se retos de perplexidade e terror. Pôs o chapéu. Foi buscar a égua. Silvina muito baixo:
— Mecê vai lá?
— Vou.
— Quem sabe se é mió levá o Belarmino.
— Não perciso que ninguém me amostre a estrada.
Pouco a pouco saltitante ao trote curto sua figura diminuiu, diminuiu até esconder-se por detrás dos pinheiros ao longe. Os pinheiros de braços alarmados.
— Boas-tardes. Ocê tá com o Martinho aí, Felipão, e vim buscá meu fio. Já falei dez veiz que não tou com a sua porca!
— Que historiada é essa de Martinho!… Não tenho ninguém comigo! Mecê pode entrá na casa se quisé, corrê tudo que não acha senão porco.
— Felipão, dexe dessas brincadera que ocê tá ferindo um sentimento de dentro de meu coração! Me diga onde escondeu Martinho e eu não faço nada!
— Ora dá-se, nhô Resende! e minha porca!
— Já te disse que não tou co'a porca, Felipão! Não me faça perdê a cabeça!
— Mecê pode perdê quantas cabeça quisé! Martinho não tá aqui! Também ando percurando a maiada e inda não achei! Sabe que mais? Mecê ache minha porca que eu acho Martinho. E deixe-se de muita corage que pra forte eu sou mais forte que mecê e também sei usá meus tiro…
— Felipão, tu tá me fazendo perdê a carma!…
— Quem sabe se mecê não qué me matá!… Daí é que eu quero vê quem acha Martinho!
A lua temporã presenciava a disputa. Nhô Resende desconhecia-se tomado pela primeira irresolução que jamais o perturbara. Pediu ameaçou. Implorou. Felipão queria a porca.
E foi, olhos esgazeados fragílimo impotente ao defrontar aquela proposta de troca que nhô Resende deixou a égua reconduzi-lo à fazenda.
Já noite. Tremeluzem as estrelas. O curiango. Cantochão das rãs. O luar andejo arranhando-se nas árvores põe malhas de sombra na estrada. O fazendeiro julga distinguir a cada instante junto às patas dianteiras da cavalgadura a porca do Felipão.
Em casa a notícia levantou choro e lamentações que ultrajavam a placidez benigna do noturno. Nhô Zé Fernandes padrinho dos nove filhos de nhô Resende, ali aparecido para o cavaco, era o único a conservar algum critério na família. Nhô Resende, o pobre! idiotizado não chorava não dizia nada incapaz de mover palha.
O compadre é que dispôs as coisas. No dia seguinte todos partiriam em procura de porca e de Martinho enquanto ele dava já um pulo até a cidade para ver se o delegado mandava prender Felipão. Depois: “era só obrigá ele a confessá”. Partiu.
Felipão deixou-se prender sem luta mas recusou-se a apontar o esconderijo de Martinho. Devassaram-lhe o domínio palmo a palmo desentulhando valos esmiuçando grotas: nada. O delegado bacharelíssimo depois dos interrogatórios via-se manietado pela indecisão. A cada nova instância junto do facínora este pedia a porca. Um cabo letrado indicava a tortura.
No tragicômico do caso deu nota comovente a Silvina vindo lançar-se aos pés de Felipão. Este pareceu sensibilizar-se. Depois pediu a porca. Nhô Resende ofereceu-lhe suas porcas, toda a criação. Por fim acenou-lhe à cobiça com dez contos. Felipão pediu a porca. Não era ambição que o mantinha era birra. Dessem-lhe a maiada e contaria o paradeiro do Martinho. Todo mundo das fazendas, da cidade procurava Martinho ou porca. Passavam-se as horas. Que aflição! O menino devia ter fome. Teria sede… Choraria de medo… Qual! ninguém acha mais!… Também Dr. Vieira não faz nada! Fosse comigo, havia de ver se Felipão contava ou não!…
Afinal, depois de porfiada devassa no arredor, já pela tarde, um dos agregados de nhô Resende voltou com o cadáver inda quente da porca. Fora encontrá-la expirante a debater-se num lodaçal.
Felipão contemplou silencioso o cadáver da porca. Duas lágrimas bem choradas entraram-lhe na coivara da barba. Depois olhando com raiva a Silvina, derrubou dos dentes:
— Desgraçados! Agora é que eu não conto!
O delegado temendo à chegada de nhô Resende uma agressão ao preso, recolheu-o incomunicável à prisão. Fê-lo guardar pelos soldados. Felipão pertencia à sociedade e não à família de nhô Resende. A Justiça se encarregaria de fazer justiça.
E aos gritos da Silvina, às súplicas de nhô Resende, às instâncias da justiça Felipão gritava fechado:
— Não conto taí! Ocês mataram minha porca, pois agora é que eu não conto!…
Vidrilhar de estrelas já. É a longa noite de Catulo, cheia de imagens, de perfumes, de tragédias. Que luar, oh gente, o do sertão!… Na testa livre das baixadas ondula a mantilha de prata das águas. A Ribeira tem curvas gentis. Duas léguas abaixo da fazenda de nhô Resende caracola que nem potro novo. Há mesmo o trecho em que se espraia mais larga e esquece a viagem, brincalhona, sobre as pedras. Na outra margem no escuro pouco denso da mata há uma pequena furna. Essa pedra fecha-lhe a entrada. Lá dentro sobre o chão verde liso está Martinho adormecido. Relaxa-lhe a expressão aterrorizada do rosto o sorriso cheio de sonho. Ao lado da bilha um último pedaço de pão a esfarinhar-se. Ratos.
1918 [1943]
a Rubens de Moraes
Arlindo Teles – Telinho como lhe chamavam no lar – casara-se aos 25 anos. Era lá das bandas de Pinda onde seus pais tinham vivido como agregados de parentes de riqueza e mais inteligente atividade. Órfão sem mais recursos que mãos inermes e vontade bruxuleante, viera para São Paulo onde lhe prometiam casa e dinheiro. Lendo correntemente as palavras mais comuns da língua, escrevendo letra gorda em que se confessava toda a candura da alma escassa, multiplicando somando subtraindo porventura até os bilhões desembarcou na capital ao aproximar dos vinte anos. Fugindo à orfandade e penúria acolhia-se como os pais à asa dum tio – aliás menos galinha-mãe que usurário e aproveitador.
Entrando para o escritório do comerciante lobrigou sem grande labor nem fadigas a epiderme da escrituração mas em geral só aproveitavam dele os donaires da caligrafia e a rijeza das pernas. Copiava cartas, levava a correspondência ao Correio, dava recados percebendo cinquenta por mês. Que bom rapaz!
Caseiro moderado no comer e econômico, indo nos raros acessos de liberalidade até a xícara de café paga ao amigo (retribuição de gentileza mais notável) soube cair nas graças de viúva mais ou menos rica. Dona Cremildes vendo-o simples são mansueto e herdeiro de outros méis deu-lhe gostosamente a filha.
Telinho jamais folheara um desses livros de retórica que ensinam as artes do bem escrever portanto mais que provável sua total ignorância da força e da eloquência das antíteses mas tinha sem dúvida algum refolho de alma onde ardesse a lâmpada da intuição artística pois ignaro das antíteses tinha por elas intuitivo amor. Provou-o casando com Jacinta. E Jacinta era a antítese de Telinho. Alta e magra machucava o espaço com as anfractuosidades dos membros e no rosto empinava o recorte bélico dum nariz sem fim mui digno de figurar entre as setas do deus menino.
Camões num soneto imortal conta que do magano deus acoitado nuns olhos recebeu as feridas incruentas da paixão. Raimundo Correia não menos foi ferido pelo deus magano desta vez ajudado por dois lábios sonorosos. Jacinta se soubera de poética e teogonias lançara como Schiller sobre a morte dos deuses, especialmente de Eros lástimas e imprecações. E desejara pulsassem mais no Telinho além do gosto artístico pelas antíteses os estos da inspiração pois bem pudera surgir do nariz dela as galas cavalheirescas dum soneto a primor.
Mas não foi preciso seta nem deus. Jacinta mais prática, sabendo instintivamente talvez que o começado em verso não termina em bênçãos matrimoniais utilizou-se do nariz para uma operação piscativa: fisgou com ele o Telinho. Assim o que troveiros de antanho levariam dez anos e quatorze versos para cantar realizou com um só verbo, rescendente além disso do aperitivo fartum de bagres e piracanjubas: pescou o Telinho.
Jacinta não expandia bondade. Tinha porém vago encanto. Talvez o encanto de toda virgem moça. Talvez dos cabelos negros crespos. Telinho era a antítese dela. Baixo e gordo. Não se lhe via sequer o desenho da carcaça enluvada que estava na gelatina da carne mole. No meio da cara aberta mal se arrebitava como ponto timidamente róseo o embrião dum nariz. Além disso os cabelinhos pardos já lhe começavam a rarear no cocuruto oval.
Casaram em manhã de neblina com missa prédica lágrimas de mãe ironias de assistentes almofadas para ajoelhar, meninas de filó carregando a cauda da nubente. Nubente simpática receosa, quase bela nesse dia.
Depois de nove meses um filho; no fim de outro ano outro filho; terceiro ano terceiro filho… Mas é preciso miudear o que aconteceu antes dos filhos.
Arlindo ao casar não trabalhava mais no escritório do tio, copiando cartas e fazendo somas pequeninas pouco maiores que a mesada. Com a especial piedade da futura sogra associara-se a um primo também moço e necessitado de arrumar vida. No vazio da antiga rua do Rosário (o caso foi na caudinha do século passado, ali por 1899) montaram os dois sócios uma loja de duas portas. Loja muito síria onde aos olhos do transeunte se expunham fazendas vistosas de nenhum luxo e muitos chiquismos de armarinho burguês.
Sentou-lhes Fortuna ao portal e Telinho pôde trazer para casa no primeiro mês de lua a então gorda bolada de duzentos mil-réis. E com ela bem embrulhado no jornal um esquisito vidro de cheiro: Cuir de Russie.
Extasiara-se à contemplação daquelas letras francesas que deviam contar tantas coisas doces e finas. Russie!… E murmurava à portuguesa: Rú-ssi-e… De-certo queria dizer Rússia que sabia ser um país muito longe por detrás do mar, acamado de neve devastado por ursos brancos, Nossa Senhora!… Telinho não era positivamente burro, aprendia até relativamente rápido, que habilidade para trabalhos caseiros! arranjar o pé do sofá, endireitar a luz, torcer lã para os cordões de sapatinhos mas – coisa comum a toda gente que imagina – sempre acreditara que a Rússia era habitada por fortes negros desnudos de olhos em brasa. Consequência talvez de antítese aterrorizada dos ursos brancos… Fossem agora dizer-lhe que lourejava naquelas terras de setentrião a mais negra de todas as raças brancas!… Sorriria incrédulo. Continuaria a povoar a estepa nívea com os negros da própria imaginativa. Não sei se teria razão. Mas correm mundo assim tantas rússias!
Entrando em casa antegozava a alegria da mulher. Como ficaria linda cheirando a Cuír de Russie!… Encontrou-a sentada à cama no quarto remendando meias.
— Imagine o que trago para você, hoje! gritou da porta com as mãos escondidas.
— É o dinheiro da loja.
— Não! Falo de presente.
— Então você não trouxe o dinheiro da loja!
— Já está aqui. Falo…
— Quanto?
— Duzentos.
— É melhor eu guardar. Você é tão palerma, vai perder tudo e daí sim!
— Mas posso precisar, Jacinta!
— Ora essa! fique com uns cinco mil-réis. Quando precisar mais, pede. Me dê o dinheiro.
E as notas lá foram parar numa gavetinha de cômoda. Bem fechada.
Arlindo ficara muito aborrecido. Desagradava-lhe viver sem dinheiro. Necessitava de o ter no bolso. Tranquilizava-se com ele como criança que no meio da multidão caminha destemerosa segurando A mão de pessoa mais velha. Tinha frequentemente ideias destas: Se cair e me machucar posso tomar um tílburi e ir para casa. Se sentir sede posso tomar uma limonada…
Mas era perder a esperança. Lá estavam os mil-réis bem dobradinhos numa caixa escarlata de veludo numa gaveta fechada. E a chave dessa gaveta pendia da cintura de mulher enérgica. Desistiu por esta vez de conservar a mensalidade jurando intimamente que no próximo 31 guardaria custasse o que custasse o dinheiro. E afinal, pensou rápido, Jacinta tinha razão: não precisava de tanto cobre.
— Que é isso que você traz aí?
Era o presente. Apagou-se-lhe a sombra. Num jeito rápido escondendo o embrulho:
— Adivinhe!
— Já sei: é sabão.
— Não senhora, não adivinhou! e desmanchava-se numa gargalhada.
Mas Jacinta já se apropriara do embrulho e descobrira o vidro.
— Ah, é perfume… Obrigada… Quanto custou?
— Nada, então! Tirei lá da casa.
— Mas vocês podem tirar assim qualquer coisa da loja!
— Posso, ora sebo! Pois tudo aquilo não é meu!
Jacinta deixou-se levar pelo suasivo da resposta. Até o marido entrara com duas partes para a sociedade!…
— Então por que não trouxe uns lenços. Seria mais proveitoso… Ou meias… Você fura demais suas meias! Ande com mais cuidado. Nunca vi homem mais arara: vive a dar topadas…
No fim do segundo mês Telinho trouxe as meias. No terceiro os lenços. Já então a mulher se acostumara a lhe determinar o que traria para casa. Por fim nem pedia os lenços hoje e esperar trinta dias para pedir as meias: eram meias e lenços na mesma ocasião.
Por delicadeza o primo, rapaz tímido e de humildes descorajadas ambições não descontara o vidro de cheiro dos lucros de Telinho. Por timidez invencível e até se é possível vergonha, pelo outro ou do outro, continuou a fazê-lo com lenços meias metros de chita e mesmo a peça de morim. E como para si por quase idiota honestidade não se dispunha a praticar o mesmo vinha para casa furioso, desabafando com a esposa ao jantar. Depois, passada a erupção, planejava mil meios de terminar com aquelas meias. Preparava-se para falar ao primo, decorava períodos, incomodava-se com as entrelinhas da frase – não fosse molestar o sócio! – construía toda uma arenga pejada de desculpas e quando no dia seguinte por volta das nove horas Telinho entrava na loja, sorridente e honesto com “bons-dias” tão virginais tão dúlcidos, lá da caixa o outro entressaindo das cifras respondia miúdo à saudação, pigarreava e não dizia nada. Há timidezes intransponíveis. Delas estava rico o primo de Arlindo. É ordem das sociedades que uns ajoelhem para que os outros lhes subam às costas.
Arlindo que lhe honre isto a consciência, por leviana vaidade apenas dissera poder tirar tudo da loja como se fosse apenas seu. Ao mando da mulher, com receio e desgosto se apropriara dos lenços. Pouco a pouco porém esvaíram-se os receios e com a maior naturalidade excluía do bem comum o que a mulher desejava. Já nos fins da sociedade – isto cinco anos mais tarde – nem esperava o último dia do mês: em qualquer tempo tirava rendas e sabonetes.
Os negócios no entanto iam bem. Arlindo falava com orgulho na “minha loja” e nela passava os dias sentado à frente do balcão, chapéu sagrando a calva incipiente, uma perna horizontalmente dobrada sobre a outra, olhando o vaivém de fora e a tutear os fregueses. O primo lá da mesa das cifras olhava-o de quando em quando com luzes de ira nos olhos, mastigando a caneta. Mas Telinho não sabia fazer coisa alguma. Era natural que agisse assim. Quando o freguês era de alta roda Telinho o servia, ele próprio. E continuava levando cartas ao Correio…
Em casa espraiava-se a abundância, não a felicidade da paz. Jacinta tomara aos poucos conta de tudo. Esse tudo compreendia Arlindo. O espírito prático e ambicioso dela, inteligente e arguto dava-lhe sobre o marido real ascendência. Aconselhava-o nos projetos da loja, rescindia contratos, imaginava outros, dirigia passos e mãos do marido, indagava-lhe das horas gastas fora, proibia-lhe a saída, regrava-lhe os acessos de afeição. Arlindo tentou protestar. Jacinta em dura voz protestou contra o protesto. E Telinho entregou as ventas a argolar. Conto como foi.
Nos primeiros tempos quando não redarguia às imposições da esposa consolava-se pensando consigo que eram os primeiros tempos. Fazia tão pouco que estavam casados!… Melhor deixasse passar mais um mês ou dois… Então sim: mostraria que naquela casa quem cantava era o galo. Passados dois meses mais um terceiro se escoou. E assim até que veio pontual o período da gravidez. Era preciso deixá-la sossegada, coitada! ia sofrer tanto!… Madama Assunta recomendara descanso. Depois do parto ele tomaria conta da casa… Coitada!…
Aos olhos de Telinho vinham sorrir lágrimas enternecidas. Vivia num encantamento. Teria um filho que era dele! Aquela manifestação de masculinidade abrandava o afelear do grilhão. Mas a cada nova intimação ou ordem da mulher mais lhe engrossava no espírito a ideia de após o parto manobrar sozinho as difíceis rédeas do lar. Ora sebo! a casa era dele. Quem mandava era ele. Depois do parto!…
Afinal, velha manhã de terça-feira um quinze de março, arranhou a casa o choro da criatura nova. Telinho por mais de três horas ajoelhado junto à cama olhos imersos nos lençóis, guardando entre os dedos a mão gelada da mulher, derramara mais suores e lágrimas que fonte de cordilheira. Sofreu muito mesmo. Aniquilou-se. Emagreceu. E quando depois junto ao leito onde pálida Jacinta e Jacintinha repousavam conversava com a sogra e a parteira, confessou escorrendo as mãos trementes pelo ápice da barriga que sofrera as mesmas dores da mulher. Parecia-lhe que Jacintinha nascera unicamente dele. Ai, dor!…
Por uma semana adorou Jacinta e filha. Não saiu do quarto. Não trocou roupa. Não se lavou. Quando lá surgiu na loja outra vez, os negócios corriam uniformemente bem. Quis inteirar-se de tudo. Agora sim, precisava trabalhar muito. Tinha um nobre dever a cumprir. E foi interrompendo a série de contas e de notas com litanias de peripécias e rosários gozosos às graças de Jacintinha que chegou ao fim das informações do primo. Não compreendera não ouvira coisa alguma. Estava bem! Estava tudo muito bem! Mas ansiara por chegar até a loja porque deixá-la assim… sem ele! E tinha de voltar para casa. Como irá passando Jacintinha, minha filha!… Jacintinha!…
Jacinta logo se tirara da cama e pusera-se com ímpeto de mãe nova a tratar da criança. Ninguém tinha licença de mudar uma fralda, só ela. Lavava com segura habilidade a pequenina, curava-lhe o umbigo, espargia montanhas de pó no corpinho rubro, vestia-o no azul das flanelas, perfumava-lhe a Cuir de Russie as longas mantas debruadas de seda e adormentava a filha, com o calor das palavras mais profundamente maternais. Quando Telinho na ponta dos pés entrava da loja perguntando com os olhos por Jacintinha, Jacinta recomendava-lhe silêncio com tanta veemência que às vezes chegava a acordar a criança. Então quem recebia as admoestações ásperas e sofria-lhe a descomponenda? Era, quem mais? Telinho o só culpado.
E Telinho recordou-se que chegara enfim o tempo de assumir a direção do lar. Mas Jacinta ainda estava tão fraca! Contrariá-la? Podia influir no leite. Mais tarde, quando Jacintinha tivesse uns duzentos dias… Então sim! Havia de mostrar que não era nenhum pai-gonçalo. Fazia mais aquele sacrifício pela filha, Jacintinha!…
E os dias passavam. Telinho inteirava-se cada vez mais de sua subalternidade. A consciência da própria fraqueza acirrava-lhe por tal forma a sensibilidade que duas ou três vezes por dia era todo cóleras abafadas. E tudo ia tão bem! O progresso exterior e suas galas e mais suas facilidades contrastava dolorosamente com a decadência de alma em que se via. Rebaixado assim! Não! E nos próprios atos caseiros em que quem manda é a mulher Telinho via espezinhamentos à sua dignidade de senhor e macho. Desconhecia gradações e meios-termos, ignorava compensações. O objeto disposto por ele e descolocado pela mulher parecia-lhe degradante humilhação. Mas sofreria muito com isso? Tornara-se apenas irritadiço, pensava um pouco mais, perdera uma quarta parte do bom-humor. Da completa paz anterior passara a viver vida de gozos intermitentes em que os eclipses parciais da calma dilatavam-se apenas o eco dum pensamento ou dum gesto. O que mais lhe doía era se alguma pessoa presenciava uma dessas ocasiões em que lhe cumpria obedecer às ordens da esposa. Então remordia-se interiormente e jurava que aquilo havia de acabar. Mas saía dali já plácido já Telinho sorridente referindo ao primeiro que encontrava, com a serenidade duma importância repleta de si mesma que fizera a mulher executar tal ação, a tal parte a mandara, aconselhara-a por esta forma quando na verdade ele era o executante, ele o mandado, ele o aconselhado. E num andantino discreteava com a voz das coisas importantes sobre o quão difícil é mandar e agir na sociedade quando se é negociante reto, nobre esposo e legítimo pai.
Posso assegurar que a sogra era sua maior defensora, a única mesmo contra as investidas de Jacinta. Desde o princípio talvez mesmo antes do princípio com a sagacidade divinatriz das mães inteirara-se dona Cremildes da orientação que tomaria o lar da filha. Não lhe desagradou ser mãe de tal segura energia. Vieram porém horas de pensar mais acertado e concordara que a posição dum marido não era positivamente aquela. Morando na mesma casa foi contínua testemunha das vergonhas do Telinho. Vendo ocasião de intervir falou à filha. É porém a mais verdadeira das verdades que Jacinta de nada se apercebera. Nem planejara mandar. Mandava porque era índole sua mandar. Sem preconceitos. Sem raciocínios. Mandava porque reconhecendo-se inconscientemente superior e mais forte sabia… intuitivamente agora, que é dos superiores e dos fortes mandar e não obedecer, dirigir e não aconselhar-se. As advertências maternas serviram só para que se inteirasse duma verdade que até então não percebera e apressar-lhe assim a conquista do lar e dos negócios da família. Entre os negócios da família Jacinta incluiu Telinho. Viu-se o marido. Verificou a própria superioridade, acostumou-se a chamar Telinho de bobo, desdenhou dele e mandou. Agora se uma dessas mulheres se põe a pensar em coisas de amor… Mas Jacinta era fria. O enclausurar-se numa virgindade perpétua fora para ela o menos pesado entre os exílios. Casara porque é costume casar. Pouco lhe importava a escolha deste ou daquele. A virilidade do seu caráter fazia dela homem entre homens. Todavia veremos que chegada a ocasião não se esqueceu de ser inteiramente mulher.
Corriam os duzentos dias. Foi a época de maior exacerbação nos brios de Telinho. Tempo em que existiu um pouco menos para o gosto de viver. Nem repetia mais a promessa de retrucar às ordens da mulher “quando Jacintinha tivesse duzentos dias”. Remastigava em silêncio a erva ruim da humilhação. Tinha azias de alma. Vencer ou… Era preciso vencer. Nem se passaram os duzentos dias.
Foi num lerdo crepúsculo de outubro. Depois do jantar. Jacinta, Telinho, dona Cremildes. Com o palito a oscilar nos dentes espaçados, Arlindo chegara à janela. Corria no roxo da tarde o hálito refrescante duma brisa. Deram-lhe vontades de sair. Foi buscar o chapéu.
— Aonde você vai?
— Sair um pouco. Já volto.
— Você não vai, não.
Àquela proibição Telinho jogou o olhar à sogra na esperança dela não ter ouvido e poder arrepiar caminho mas nos olhos que dona Cremildes mandara à filha sobejavam para ele além da notícia nua de seu apoucamento firmes alianças para uma revolta. Sentiu que estava no fim dos duzentos dias. Exagitadamente após tantos duzentos dias de canga, perguntou o seu primeiro, seu primeiríssimo “por quê?”. Tão inesperada era a audácia que Jacinta levantou os olhos para ele numa legítima admiração. Sem de pronto compreender o fato tal a anormalidade deste, numa baianada de quem quer assegurar-se de seus próprios músculos, escondendo uma possível razão redarguiu como aço frio:
— Porque não quero!
— Mas a senhora não tem querer!
— Quem é que não tem querer! gritou ela alçando-se na expressão descomposta de fúria. Nos seus lábios trementes de cólera viera sorrateira depor a sua linha de irresolução uma perplexidade.
— A senhora! Quem é o marido nesta casa?
— É você? e casquinhou: Bobo!
A situação abria-se por tal forma extraordinária que Jacinta perdia a faculdade de raciocínio. Se não, veria na figura oscilante de Telinho não cólera e resolução mas covardia apavorida e idiota. E as risadas que pretendera dar sair-lhe-iam sonoras e reais. Telinho em meio já daquele Gólgota resolvera duma vez crucificar-se. Berrou cuspindo o palito para frente:
— Bobo, se quiser mas hei-de mandar! Veremos quem pode mais nesta casa ou acabamos com isto! Ora sebo… O que é que a senhora pensa! Se me deixei mandar algum tempo foi… foi… por delicadeza! Mas agora quero mandar e hei de mandar! Ora sebo!
Estava cada vez mais encorajado porque a réplica tardava. Enterrara desmesuradamente o chapéu na cabeça como que se coroando rei daquele Congo. Rebusnava com voz de matraca as frases primogênitas de energia que nunca proferira na vida. Ebriou. Delirou no prazer de ouvir-se e ver-se forte, senhor de sua e mais vontades. E pouco frequentado nos requebros da oratória, valorizando os interstícios da fala com ora-sebos ofensivos fustigou os ouvidos de Jacinta com relhadas nunca ouvidas mesmo dos lábios calejados dum orador pé-de-boi.
Jacinta viu-se perdida. Lembrou-se que era mulher. Golfou soluços de assobio e murmúrios de trespasse e soltando um “ai, mamãe!” de abandono e infelicidade estirou-se no sofá largadamente para com mais conforto representar a imagem da mulher batida.
Telinho então magnífico ante a queda da esposa. Descortinara afinal em si mesmo uma força que não possuía. Tresvariava na vitória narcisando-se nos seus muques irreais. Discursou muito tempo. Aludes de objurgatórias e inúteis afrontas ao amaro refrão de suspiros que eram uivos e chorares gritados. E saiu.
Saiu atarantado. Na placidez monástica do pôr-de-sol andou sozinho. Homem maluco? a dar punhadas na brisa… Julgava tropeçar a cada passo em Jacintas inermes. Paravam para vê-lo. Riam. Só muito depois já na doçura da noite Telinho começou a pensar.
As horas passavam rapidamente impiedosamente. As ruas estavam cheias de famílias que findo o jantar vinham para o relento em busca de assunto. Telinho embaralhava-se no ruído das ruas com a ansiedade do que encontra lenitivo. O barulho dos passos o tóróró dos carros o crepitar das risadas a grita das crianças impedia-lhe quase recordar. Dava graças a Deus. Pensava acelerado. E a explosão com que delirara em frente da mulher assumia agora proporções de tragédia. Insultara. Batera? Matara talvez. Que esgotamento!…
No largo do Palácio havia música. Arlindo ouviu música, muita música, toda a música. Não escutava, deixava-se assombrar na atoarda dos bombos e dos saxofones. Maior porém era o chinfrim que lhe ia n'alma. Encharcou-se de multidão. Que consolo perder-se na turba móvel nulificado ignoto reassumindo as proporções de nada que sempre lhe tinham ido tão bem!
Mas a música cessou. As famílias partiram. Pouco a pouco as últimas janelas fecharam as pálpebras cansadas. As ruas adormeceram. Era preciso voltar… As brisas numa reviravolta feminina traziam uma névoa gelada e úmida.
Telinho sentiu a nostalgia do leito. Sempre quente, sempre cômodo! Também: que necessidade tivera de fazer tal sarceiro! Podia ter saído sem dizer nada… Uma zanguinha à-toa… Passava logo. E ela tivera razão, olhe aí o tempo! E não: insultara a esposa… batera… E agora por causa da raiva intempestiva era aquilo: Jacinta muito bem adormecida nos cobertores e ele a se molhar de neblina tonto de sono… Burro!
Andou mais. Saudades de Jacintinha!… As horas passavam lentamente impiedosamente… Chorou. Enraiveceu-se. Vão pro diabo! Crescia-lhe a impaciência e o frio. Não voltaria!… Resolveu voltar. Entraria muito manso. Podia até ficar na sala de jantar dormindo no sofá… Bem que lhe sorrira a ideia de ir dormir num hotel mas… e dinheiro?
Quando defrontou a rua em que morava tomou-se de tal pavor que rodou para trás. Decididamente não voltava! Havia de esperar sozinha toda a noite. Bem feito! Experimentasse o que é falta de homem! Na casa dele quem cantava era o galo… Não voltaria! Se voltasse ela veria nisso… atchim!… uma prova de submissão… Isso nunca! Nunca!......................................................................
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Quando Telinho com mil paciências de ladrão deu volta à chave o relógio avisava o silêncio que eram as duas da madrugada. Agradou-lhe isso: as badaladas ressoando disfarçavam o trreque da fechadura. Entrou na sala de jantar. Doce calor na casa toda! Que melhor cama que um sofá! Doer-lhe-ia talvez o corpo mas era uma noite só… Depois…
— Telinho!
— Que é!
— Venha dormir na cama, seu bobo! Você vai passar a noite no sofá?…
Telinho foi.
1919 [1943]
a Martim E. Damy
Personagens:
Eva – Meia-dúzia de anos mais dois. Muito brasileira. Do famoso moreno alaranjado que é a melhor fruta da nossa terra. Grandes olhos móveis misteriosos promissores, marechais do amor. Cabeleira dum azulmarinho quase preto, crespa enorme, reminiscência de algum antepassado longínquo… menos português.
Julinho – Primo dela. Doze anos sem beleza a não ser a da força que se desenvolve bebendo ar livre pelos poros, guardando sol nas veias.
Dona Júlia – Mãe dele. Boa mãe.
Chácara perto da Paulicéia.
1ª Cena
(Cena de pouco valor mas indispensável. Sem ela o Desejo personagem principal não abrolhava no lábio pequenino de Eva. Larga sala aberta para o grande sol dum meio-dia de janeiro. Julinho e Eva folheiam revistas antigas. Dona Júlia a um canto faz crochê).
Eva (batendo com uma das minúsculas patinhas no pernão do primo) – Vamos!
Julinho (deixando a leitura) – Faz tanto sol!…
Eva (numa voz que para que a comparação seja acessível ao primo seria feita daqueles bolinhos lambuzados de calda que mamãe fez de manhã) – Ora vamos, sim? Você mora aqui, não gosta… Mas eu vivo na cidade sempre dentro de casa…
Julinho – Mas mamãe não deixa…
Eva – Peça para ela!
Julinho – Então peça você!
Eva (alindando o passeio com o travor das coisas más) – Eu não, Deus me livre!
Julinho – Pois eu não peço.
Dona Júlia – Pedir o quê?
Eva (colorindo-se) – É Julinho que está me convidando para irmos brincar lá fora…
Julinho (furioso) – Eu…
(De novo a patinha virginalmente calçada de branco trabalha. Há energia e doçura na sua imposição. Julinho cala-se.)
Dona Júlia – Mas está fazendo tanto sol…
Eva – Ele diz que é na sombra das jabuticabeiras…
Dona Júlia – E depois vocês vão comer alguma fruta verde…
Eva – Quem é que há-de comer fruta com este calor! Pode fazer mal, não é, titia?
Dona Júlia – Parece que você tem mais vontade de ir ao pomar que o Julinho…
Eva (roxa) – Eu?… até que não! (Pondo martírios na voz) Mas também queria ir… Na cidade não saio nunca!…
Dona Júlia – Pois bem, vão. Mas só na sombra das jabuticabeiras. E… olhem! Não me vão comer nenhuma maçã: estão muito verdes ainda e não quero doença.
Eva – Sim senhora!
(Levantam-se ambos, dão-se as mãos, saem correndo. Na porta Eva para. Larga o primo, volta até onde dona Júlia trabalha e dá-lhe um beijo nos cabelos. E entrega-se voluptuosamente à carícia rústica da luz.)
2ª Cena
(Lá fora. Poucas árvores. Muitas arvoretas. Pomar ridiculamente europeu de cidade sulamericana civilizada. Há maçãs azedíssimas e retortas, pêssegos bichados, uvas que são limões e peras com sabor de água fervida. Dez ou mais jabuticabeiras demonstram o bom senso antigo de algum pomareiro anônimo e dão sombra valorizando a chácara com a doçura das suas frutas. Os meninos dirigem-se para o sombral.)
Eva (tristonha) – Ai…
Julinho – Você está triste, Eva?
Eva (confessando) – Não. Não tenho nada.
Julinho (carinhoso sem querer) – Zangou comigo, é?
Eva – Não. Também por que você não falou que queria vir?
Julinho – Não falei porque não era verdade. Não gosto de mentira. (Um silêncio). Você está chorando!
Eva (soluçando com lindos gritinhos finos de camundongo) – Você disse que eu sou uma mentirosa!
Julinho (mentindo) – Eu!…
Eva – É! você não gosta nada de mim, sabe? Vive sempre a me xingar!
Julinho – Não xinguei ninguém, Eva. (Tomando-lhe a mão). Vamos brincar. Enxugue os olhos.
Eva – Então me empreste o lenço.
Julinho – Tome.
(Eva oferece-lhe os olhos a enxugar, mais claros mais vivos quase sonoros quase perfumados como a terra depois da chuva. Julinho desajeitado rude procura limpá-los com carinho).
Julinho – Passou?
Eva (sorrindo) – Feio!
(Estão sob as jabuticabeiras.)
Julinho – Agora do que vamos brincar?
Eva – Não sei. Vamos passear!
Julinho – Mas você disse que íamos ficar debaixo das jabuticabeiras.
Eva – Queria passear um pouco… Estou tão triste!…
Julinho – Mas mamãe…
Eva – Mas se ela não vê a gente! Que tem? (Pega-lhe a mão e olhando-o nos olhos vitoriosa rindo sorrindo puxa-o para o sol.)
Julinho (dá de ombros e a segue) – Você tem cada uma, Eva!
(Vão pela rua de mirradíssimas parreiras.)
Julinho – Mas aonde você vai!
Eva – Não sei, à-toa…
Julinho – Ih! que sol! Pode dar dor-de-cabeça…
Eva – Quer ficar fique! Dá dor-de-cabeça para quem é bobo… Me dê o lenço eu amarro na sua cabeça.
(Ele deixa-se cobrir. Um longo silêncio enquanto atravessam o terreno das pereiras.)
Eva – O sol me queima todo o cabelo! Se eu também tivesse um lenço… Não faz mal, gosto tanto de passear assim! (Um silêncio. Passa a mão nos cabelos.) Veja como a minha cabeça queima, ponha a mão.
Julinho – Pois vamos voltar, Eva!
Eva – Quando eu chegar em casa hei-de contar para mamãe que você nunca faz a minha vontade. (Suspirando) Se eu tiver dor-de-cabeça não faz mal…
Julinho (tirando o lenço da cabeça) – Tome o meu lenço.
Eva – Não quero. Pois sim. Então amarre você. Sua cabeça não deve doer, dizem que os homens são mais fortes que as mulheres… Você acha?
Julinho (convencido) – Acho.
Eva (enquanto o primo lhe amarra o lenço no queixo) – Vamos ver quem é mais forte de nós dois?
Julinho – Ora! você é uma pirralha que não vale nada. Ai! Ora Eva! Brinquedo de mordida não gosto! Olhe aí como ficou minha mão! Quando chegar em casa mostro para mamãe.
Eva – Você falou que era mais forte que eu!…
Julinho – Morder não é força!
Eva – Deixe ver a mão.
Julinho – Não me amole!
Eva – Deixe ver. (Levanta-lhe a mão até a boca.)
Julinho (puxando o braço) – Outra vez, Eva!
Eva – Não vou morder! (Procura levar a mão do primo aos lábios. Julinho resiste.) Já falei que não vou morder! te juro! (Beija deliciosamente suave as pequeninas manchas roxas dos dentes na grossa mão escura de Julinho.)
Eva – Sarou?
Julinho (admirado) – Ora essa! está doendo! Então você pensa que uma mordida sara à-toa?!
Eva (desapontada) – Quando me machuco papai me dá um beijo e sara…
Julinho – Pois minha mão está doendo ainda! Queria dar uma mordida em você e depois dar um beijo para ver se sarava…
Eva – Pois dê!
Julinho – Tire a mão da minha boca, Eva!
(Atingiram as macieiras. É o fim do pomar. Cada árvore magra ostenta ridiculamente os frutos verdes disformes crestados pelo ímpeto do calor.)
Julinho – Agora vamos voltar!
(Eva não responde. Vagueia olhando sorrateira para as frutas.)
Eva – Você já provou essas maçãs, Julinho?
Julinho – Já. Não prestam.
Eva – A-o-quê! Devem ser boas!…
Julinho – Não são. E depois agora ainda estão muito verdes.
Eva – Até aquela grande ali em cima! Parece bem madura…
Julinho – Está verde. Você ouviu muito bem mamãe dizer que elas estão verdes.
Eva – Mas tia Júlia não sabia daquela! Estas sim, parecem todas verdes mas aquela… Esta por exemplo ainda não presta.
Julinho – Não apanhe, Eva!
Eva – Não vou apanhar! Não careço das maçãs da sua casa! É só apalpar…
(E continua apalpando as maçãs pequeninas mas a outra, a Maçã, ela não alcança.)
Eva – Aquela… aposto que é boa! Apalpe você que é mais alto só para ver.
Julinho – Eu não. Mamãe disse que não mexêssemos nas frutas.
Eva – Bobo. Ela disse para não comer. Apalpar, ela não falou nada. Apalpe só para ver…
Julinho (tocando a maçã) – Não falei! Está verde!
Eva – Não é assim! Aperte com a mão inteira! Segure forte!
Julinho – Estou segurando, Eva! Não serve!
Eva (dando-lhe um violento puxão no braço) – Ui! Viu! quase caí!
Julinho (com a maçã na mão furioso) – Olhe o que você fez!
Eva – Ih! Você apanhou a maçã! E agora! Também eu não podia cair!
Julinho – Você fez de propósito, sabe!
Eva – Ah, Julinho… Então você pensa que eu era capaz disso!… Credo! nunca pensei… E agora? O que você vai fazer da maçã?
Julinho (mais herói que o presidente norteamericano) – Levo para casa e conto.
Eva – Tia Júlia vai pôr você de castigo…
Julinho (já culpado hesitando) – Então atiro do outro lado do muro.
Eva – Uma fruta tão gostosa! Deixa ver. E está macia! (Dá-lhe uma dentada) Hum… esplendida! Quer provar?
Julinho (com muita vontade) – Não.
Eva – Experimente! parece mel!
(Julinho estende a mão para a maçã. Eva coloca-lhe a fruta na boca, do lado já mordido por ela.)
Julinho (retirando a boca) – Desse lado não!
Eva – Por quê!
Julinho – Porcaria! Você já comeu aí.
Eva – Então você tem nojo de mim?
Julinho – Nojo não… mas… isso não se faz!
Eva – Pois então morda do outro lado! Tome!
Julinho (cuspindo o pedaço de maçã) – Não presta! azeda!
Eva – Pois eu acho esplendida. (Continua a comer. Grande silêncio cheio de cigarras.)
Dona Júlia (lá da casa) – Julinho!…
Julinho (aterrado) – Mamãe está chamando!
Eva (enfiando o resto da maçã na boca) – Não responda ainda!
Dona Júlia – Julinho! Eva!…
(Eva segurando a mão do primo abala a correr para as jabuticabeiras.)
Dona Júlia – Julinho! Eva! Não ouvem!…
Eva – Já vamos, titia! Estamos brincando debaixo das jabuticabeiras…
1921 [1943]
a Sérgio Milliet
Diziam-me em criança que eu era espírito de contradição… Não sei. É bem verdade porém que dois meses depois de abordar o Brasil um desejo alastrou-se por mim de tal forma a inutilizar-me algum tempo como obsessão.
Primeiro secretário da Embaixada de França entrara desde logo na alta sociedade carioca. Desejado e aplaudido. Creio mesmo que nem precisaria do bilhete de ingresso do meu cargo para os cariocas da elite me receberem com simpatia. Nas pátrias novas sem verdadeiras tradições de meio, qualquer estrangeiro que jogue o pôquer dance o fox-trot e possua o dinheiro necessário para concorrer às subscrições de caridade tem títulos de nobreza suficientes para ouvir o seu nome anunciado com aceitação geral nas casas mais douradas pela distinção. Há, fora o esnobismo forçado, um como anseio coletivo de expansão, uma necessidade de aumento do clã – condições imprescindíveis de progresso e vitória. A ambição em cócegas aplaina todos os preconceitos de estirpe. Há sobretudo no fundo dessas elites incipientes o doloroso desejo de igualar as velhas sociedades, as nobrezas tradicionais de nomes mofados por lazeres inenarráveis e sangue coado nas estripulias dalgum salteador medieval. Há finalmente, perdoem-me a insistência, talvez a saudade antecipada duma história, duma nobiliarquia e duma decadência inexistentes.
Assim conheci em pouco tempo essa gente carioca oscilante entre brilho e grandeza. Muito mais brilho que grandeza. Apertei dedos de todas as grossuras e elasticidades. Beijei mãos rosadas vermelhas palidíssimas. Se nos primeiros dias essa desigualdade me deu prazer, um velho gosto de ordem, de proporção (não fosse eu francês) fez-me enjoar logo dessa mascarada. Irritava-me sobretudo nessa gente o esforço para imitar as civilizações da Europa. E Paris. Ninguém desconhecia Paris. Os homens vinham falar-me de Montmartre com a mais insultante das ignorâncias. Jean Rictus!… suspirava um mais erudito. E ficava camarada. Pagava-me o café. Nem ao menos café! Eram chás de manipulação inglesa licores conhaque. E se eu mostrava desejo de comer aquelas bananas jogadas no mostrador tratavam-me de original corridos de vergonha. A senha das mulheres então era a Comédia Francesa. E paravam comumente em Geraldy. Que de esclarecimentos espalhei sobre as heroínas do sr. Bourget! Morri de irritação.
Não abandonara a França para vir encontrar do outro lado do mundo uma reprodução reduzida e falsa de coisas já vistas e assuntos resolvidos. Queria conhecer o Brasil. Observar-lhe os costumes. Um fraco pelos índios, por solenes mulatas gordas e suadas num calor de fornalha. É mesmo bem possível que na minha curiosidade sonhadora e orgulhosa de civilizado, quem sabe? Um novo continente por descobrir… Rios gigantescos feras insaciáveis… Novas raças. Novos hábitos. Nova língua.
Essa vontade de aprender o brasileiro é que acabou por transformar em cólera a minha irritação. Antegozava durante a viagem as delícias de soletrar língua nova cheia de mistérios para mim. Como seria electricité em português? e unanimisme? e grain de beauté…
Língua doce melodiosa colorida solar… Mas em plena capital do Brasil eu me via na impossibilidade de aprender o idioma da terra. Todos, todos respondiam-me em francês! No hotel como na embaixada, nos cafés e nos salões bastava eu chegar numa roda o francês tornava-se geral. Até a mais tímida virgem de seda azul respondia-me em francês à pergunta que lhe fazia em português ou espanhol, língua em que já naquela época me seria impossível morrer de fome. Se lhe implorava falasse português sorria cheia de vergonha. Colegial pegada em falta. – Em português! Notei mesmo que a muitas era mais familiar a minha língua que a do país. Ridículo.
Foi então que nasceu o tal desejo de que falei atrás. Desejo antipatriótico inconfessável. Invencível porém. Descobrir mulher brasileira inteligente elegante bela que ignorasse o francês. Amá-la-ia. Faria dela a minha amante brasileira. Nova recordação para esta memória barba-azul…
Quem sabe? Na alta sociedade paulistana “gente caipira” como desdenhavam entre superioridades de beicinhos estendidos as cariocas.
Era dezembro. Conhecera um moço paulista de fina educação. Convidara-me a passar uns tempos na fazenda do pai perto de Campinas. Arranjei quinze dias de liberdade. Parti.
Diferença tangível realmente. Havia uma expressão mais assentada, mais tradição na sociedade paulista. E a tal história do salteador: gente orgulhosa dum bandeirante onívoro que andara a matar tapuias e colher pedrinhas por ambição. Em todo caso notava-se uma solidez bem raçada naquela roda neblinosa e de pouca fala. Falta visível de… de audácia social. Isso: de audácia social. Mas essa solidez começava já a desequilibrar-se dissolvida pela onda vivaz e cantadeira dos novos-ricos estrangeiros gente benemérita para os progressos do país mas dum cômico irresistível. Infelizmente mulher que ignorasse o francês era também ali uma quimera. Se me fosse dado mover-me por mim era bem possível que descobrisse o “ideal” na burguesia menos endinheirada mas havia os cicerones obrigatórios, conhecidos novos que se honravam de me exibir no salão da senhora tal ou da senhora tal. E o amigo a me rodear de delicadezas…
Na fazenda um patriarca magro lento queimado de sol, perguntador recebeu-me com bondade seca mas sincera. Em francês. Seriam dias de possível encanto… O mais amarelo dos sóis ronronando sobre os cafezais. Fogos flores frutas perfumes. Tudo bom abundante. Tudo pletórico. Mordi-me de desejos, sensualidades. De amor. Mas preso pela obsessão cada vez mais forte. Desejava. Mas desejava essa mulher. Pintava-a em alucinações. Como era linda! Boa! Como era minha! Andei inglês, maleducado, neurastênico. Imaginava-a berliosianamente orquestrada de mil belezas graça vigor – paisagem de cor viva onde espraiar minhas ânsias impacientes. E essa América parecia-me mais difícil de achar que a do navegador. Essa mulher…
Despedi-me do amigo em São Paulo. Voltei. A lembrança de que iria encontrar em Petrópolis as mesmas francelhas lindas e fáceis aterrou-me. Vagueei sozinho na capital, idiotizado pelo fogo. Perdi-me dentro da solidão.
E daquela casinha da rua corcunda de Santa Teresa saiu o vulto mais que branco. Passou por mim. Véu cerrado, sujo pelas manchas dos olhos. O grumete duma cansada ilusão clamou “Terra!” em mim. Parei. Seguia-a. No fim da segunda esquina tomou o bonde que chegava. Fui obrigado a correr para alcançá-lo. As manchas cinzentas do véu voltaram-se para mim. Fixaram-me. Acreditei que um sorriso bipartiu os lábios dela.
O bonde ia tristonho sem ninguém. Hora propícia. Sentara-me dois bancos atrás da presa. Dois ancos atrás, sem razão. Olhos escravizados àquele pescoço moreno. Oh a brancura estridente crua das mulheres do meu país! Aquele pano de nuca multicor desvendava-me uma enciclopédia de mistérios voluptuosos. Detestei a timidez tão rara em mim que me fizera sentar distanciado daquela nuca. Aproximar-me agora seria confessar o primeiro temor… Deixei-me ficar. Que corpo! Talvez nem fosse tão perfeito assim. Eu é que devia delirar.
Por duas vezes durante o trajeto pretextando acompanhar uma janela que passava ela se voltou. Saltou do bonde. Saltei. Entramos pela cidade. Caminhava rápida ondulantemente. Ao entrar na porta dum sobrado apoiou-se à placa do dentista. Olhou para trás. Entendi. Corredor escuro logo quebrado por uma escada já côncava nos degraus. Casa antiga. Dr. Rodrigues Filho. Gabinete Dentário. Segundo andar. Encostei-me à porta disposto a esperar. A falar-lhe. Andei. Cheguei até a porta, olhando a rua. Voltava-me num pressentimento, era ela! Gente que saía. Gente que entrava. Quanto tempo?
Agora ela descia. Calçava as luvas muito ocupada parando nos degraus tão lenta! Verdadeiramente imperial o seu descer. Eu estava tão perturbado tão obcecado que lhe dirigi esta frase incrível num começo de galanteio:
— Parlez-vous français?
Afinal nada indicara nela uma brasileira. Podia ser argentina, turca. E principalmente uma brasileira que desconhecesse o francês…
Parou. Dirigiu para mim os olhos do véu. Admirada. Depois sorriu. Murmurou quase trêmula:
— Não.
Aquele “não” tão desusado tão novo para mim! Entreouvira-o já tantas vezes em conversas esvoaçantes a meu lado nas ruas. Repetira-o muito, aplicadamente com o professor.
— Não é naom. É não. Duma vez.
Eu repetia. O outro não se satisfazia. O luzir de olhos denunciava-lhe o desdém satisfeito.
Mas agora naqueles lábios importava em outra beleza nunca imaginada. Era um “não” consentimento. Afirmativa. Amei o “não”. Amei aquele tremor. E que maravilhosa voz a dela! Contralto pensativo, cálido. Crepúsculos de fazenda. Não sabia que pensar, como agir. Todo o meu traquejo no trabalhar as amantes se perdera. Fui infantil, palavra. Quis continuar a conversa e suspirei:
— Merci.
Foi dela esta frase vaga com certa ironia:
— Parece-me que o senhor não gosta de franceses…
— Je suis français! respondi-lhe com patriotismo. Pus-me a dizer-lhe muitas coisas atabalhoadamente. Temia que partisse. Quis desculpar o ridículo da primeira pergunta. Ela olhava para mim admirada. Indecisa. Sorria. Atalhou mansamente:
— Não posso compreendê-lo, senhor.
Na minha pressa eu falava em francês. Com mais calma traduzi malemal o que dissera para o espanhol bordando a fala com fáceis frases brasileiras. Ela adivinhou até o que eu não contava. Confessou sem irritação mas certeira:
— Pois conseguiu o que desejava. Sou bem brasileira e não falo o francês.
Andou para a porta. Toquei-lhe no braço.
— Não fuja assim! Dê-me tempo ao menos de…
Voltou-se outra vez. Tinha na voz uma espécie de acidez que lhe ia mal. Talvez uma desilusão. Fustigou-me:
— Mas eu creio que deve estar satisfeito: descobriu-me! Ou quer ainda mandar a minha fotografia aos jornais da sua terra?
Neguei fingindo calma a sorrir. Disse que a queria para mim.
— E o senhor crê que basta um francês querer para as brasileiras obedecerem?
Estava perdido se não me fizesse animal. Ou clown. Ela era ágil na inteligência. Precisava diverti-la. O palhaço era melhor que o animal. Se me pusesse a responder-lhe certamente as lutas de espírito poriam ainda maior distância entre nós. E franqueza: não estava certo de vencer. Não atentei à ironia dura. Fiz-me bastante animal e muito clown, isto é, fui homem. Aproximei-me dela quase mau. Falei-lhe de amor. Creio que fui engraçado. Pus vitória na voz. Soube tocar-lhe as fibras pois me escutou.
Distinguia-lhe agora mais intimamente o rosto. Boca franca de lábios gordos com muito de infantil. As narinas vibravam translúcidas de vidro. E os olhos pesados fluíam-lhe em olhares de tal forma consistentes, olhares materiais que eu gozava a impressão sensível deles baterem em mim. Alastravam-se como líquido grosso por minha pele causando-me sensações de beijo que escaldasse. Era bela!
Quando num ímpeto de maior desejo aproximei-me tanto que os nossos corpos se tocaram pesou a mão abandonada no meu peito.
— Vem gente!
Vinha. Agarrei-lhe o braço. Estávamos próximo da Avenida. Fugimos dela no automóvel. E em breve as praias se lançaram aos nossos pés. Ela me contava que tinha um companheiro. Viviam inexistentes no retiro de Santa Teresa. Ele partira há dois dias, negócios de família em Pernambuco. Aconselhei-a muito sério a enganar o amante comigo. Voltou-se divertida. Apalpou-me com a intensidade pegajosa dos olhos. Sorria. Sorria muito. Às vezes sem razão, por sorrir.
— Não é de todo impossível. E sabe por quê?
— Por quê?
— Usa nas suas conquistas…
— Conquistas!
— Mentiroso!… a princípio uma ingenuidade de pequena criança que tem necessidade de proteção.
Isso diverte. Vence qualquer coisa do amor maternal que nós temos todas. Depois…
— Depois?
— Depois aplica esse pequeno ar de… de blague, não é assim que se diz na sua língua? de blague apaixonada e canalha. Isso atrai. Dá raiva. Dá vontade de…
Mordeu os beiços confusa.
A rapidez inesperada verdadeira desse ardor!… Beijei-lhe a roupa no ombro.
— Não faça assim!
E que acento ridículo tomava aquela palavra estrangeira no meio desse falar elástico viril contraditório suavíssimo! Envergonhei-me do meu idioma policiado e nasal. É verdade também que ela gaguejara horrivelmente a palavra. Fora preciso adicionar todos os tremas do universo ao i com que terminara blague para exprimir a ignorância aguda com que a pronunciara.
A tarde ia velha já. Primeiras luzes longe. Niterói. Nós unidos na noite da capota levantada. Momento de confiança. Dois amantes já se contaram todas as ânsias esperanças sentimentos, deram-se todas as explicações. O que precisam saber sabem. Não têm mais nada que dizer. Há como que uma sem vontade do momento de gozo. Uma preguiça. Ora! está-se tão bem assim sem gozar, gozando o sem-gozar… Certeza. Segurança. Os transeuntes ficam atrás. Naturalmente olham ainda para nós…
— Querida!
— É só capricho… Passa.
— Não passa! Juro que não passa.
Longo olhar. Dois sorrisos. Não há mais possibilidade de nos aproximarmos um do outro. Aproximamo-nos um do outro. Reflexão perdida de quando em quando para nos certificarmos de que a felicidade existe realmente. E de novo a familiaridade do silêncio. Descalcei-lhe a luva. Torpor desmotivado. Beijei-lhe lento muitas vezes a mão. Ela olhava de olhos abertos pestanejantes fixo para a frente.
— Como te chamas?
— Iolanda.
— Iolanda?
Tirara o véu. De tempo em tempo virava-se para mim. Percorria-me o rosto na penumbra. Mordia os lábios sofreando o ímpeto dos beijos impacientes. Sorria. De repente machucava os seios oprimindo contra eles minha mão. Suspiro. Sorria. Felicidade!
— Iolanda!
No silêncio da praia longe escutamos a queda brusca da noite.
Como, num orgulho sem razão, não quisesse violar o ninho de Santa Teresa, depois do jantar leve e caminhada a pé refugiamo-nos num hotel fronteiro ao mar.
Queimados de volúpia nos enlaçamos.
E eu aprendi o amor!
Não dizíamos nada mesmo em nossos cansaços. A linguagem da carne, muda e ardida. Não, a conversa das almas, das consciências e da carne. Comunhão!
Vi disseminadas simultaneamente na lembrança não-sei-quantas bocas de mulheres beijadas. Fora aquilo o amor! Tempo perdido! Tão diferentes dessa que delirava a meu lado sem refinamentos tumultuosa exótica selvagem brasileira! Eu não pensava, não refletia mas como em geniais invenções, nos meus delírios pausas delírios desesperos apaixonados afuzilava-me no cérebro uma via-láctea de ideias juízos que não pensava não refletia mas sentidos inteiros repentinamente no fundo de mim: as sábias carícias das mulheres francesas… Desgosto. A espanhola que só tivera na verdade o salero de não saber fandango… Nina… Virgens, viúvas… Mulheres-da-vida… Sábias carícias. Raças decadentes sem vitalidade, pobres da volúpia dos mundos vertiginosos… Sem sangue e sem fogo… Raças decadentes… Sem raiva de amor… Erudição…
E o contraste da noite brasileira!
Iolanda não bebera uma gota de álcool ao jantar. Pedira-me que não bebesse. Era, confessou num incêndio rápido de pele, para que conservássemos mais clara a consciência de amar.
Seus brinquedos agora tinham ignorâncias infantis. Fazia rir. Por certo nunca amara.
Comprazia-me em lhe revelar prazeres de alta-escola. Ela abria risadinhas miúdas de surpresa. Curiosa. Muito curiosa. Parecia temer que nos viessem pegar. Ou que a noite morresse logo. Era rápida. Repetia as minhas lições. Achava graça naquilo. Depois tudo ficava preto na escuridão. Ela parava. Emudecia. Apenas respirava cada vez mais alto. Ofego em rapidez crescente. Grunhido. Um quebrar de comportas. E Iolanda arrebentava como uma onda sobre mim. Tomava posse do meu corpo. Vencia-me. Como uma selvagem cansara-se das sabedorias pequeninas e crescia transbordava e se multiplicava! Fiz luz. Guardou os olhos nas costas das mãos num
— Já!
sorrindo. E seu corpo vergou-se como um galho.
Não era o já. Curiosidade apenas. Ciúmes da escuridão.
— Água!
E não fez gesto para bebê-la. Obrigou-me a servir de bomsamaritano. Ergui-lhe a cabeça desprendida. Cheguei-lhe o copo aos lábios. Bebeu como quem não quer. O copo todo. E virou-se no leito fingindo dormir.
Interrompi a luz. Vi duas horas no relógio-pulseira ao criadomudo.
E o amor recomeçou. Amplo sadio florestal.
Pouco a pouco amiudaram-se os cansaços. Ela morria longos minutos amassando-me o braço com o corpo. Escutei-lhe o sussurro das pálpebras batendo na treva como mariposas. Suspirou. Acertou melhor o corpo úmido sobre o linho. O perfume dela entorpecia. Sumarenta!
Compreendi-lhe a perfeita comunhão com a terra natal. Uma terra hercúlea bruta como a do Brasil devia produzir na pletora flores assim de tão delirante sabor. Havia as outras, não há dúvida, manacás de mato ou rosas belíssimas e comuns. Mas esta era a orquídea rara. A terra não se empobreceria em quotidianamente produzir muitas assim. Teve de concentrar-se, guardar o mais violento da seiva, a essência dos estranhos caracteres pessoais para um dia bufando em ardências vermelhas gerar a flor imperatriz.
E no labirinto carioca eu a fora descobrir num esquecimento de bairro… Fremiam meus dedos apalpando a abelha-mestra possante. Sentia-me sublimar nesse voo nupcial. Positivamente eu estava a delirar. Tantas imagens! Saltei do leito. Escancarei as portas da sacada. E a noite como uma onça lenta de pelos elétricos farejou o aposento. Seus olhos abertos vieram grudar-se nos quadriláteros negros. Deitou para dentro do quarto um hálito aderente salino que foi pousar no corpo de Iolanda. Ela deixou-se farejar. Fez mais: veio entregar-se à noite na sacada. Molhei-a de beijos duplicados. Com o mento a pesar nos pulsos, cotovelos fixos ao parapeito ela fechou os olhos indiferente muda num langor. Os ventos crespos do alto-mar.
Era quase aurora. Tomei Iolanda nos braços para mim. Levei-a ao leito. Uma última carícia de confiança. E o sono de dois irmãos.
A sede me acordou bastante tarde. Acordei Iolanda enfurecido de amor.
Depois a conversa alegre camarada. Percebi-lhe inquietação. Telefonou. Dava-me beijos como em adeus. Às treze horas abandonamos o hotel. Propus-lhe que andássemos um pouco pela praia. Obedeceu recusando na frase sob pretexto do muito sol.
Um desses dias loucos de verão carioca. Difícil de romper o espaço vidrado. As lâminas de ar vinham quebrar-se contra mim em ruídos trêmulos desferindo refrações acutilantes de luz. A baleia verde do oceano soprava um gemido continuo encalhada na areia cré das praias.
Avançava Iolanda com liberdade, filha da terra e do sol, reconhecida e aceita. Eu a seguia um pouco atrás atrapalhado com a matilha de luzes e calores açulada contra o estrangeiro. Repetia-me o pretexto do calor. Queria deixar-me. Dolorida. Sorria grata e humilde. E se esquecia a meu lado, andando sempre, sem coragem de deixar-me. Decidiu-se. Precisava consertar o álibi com a amiga:
— Se ele viesse a saber!… dizia desolada mas sem medo. Ia rápida lépida dentro do sol.
— Eu preciso de ir, meu Deus! Isto não é uma separação… Ver-nos-emos ainda, não é?
Encostei-me nela, consciente e dono. O apito dum vapor, soturno chato esparramou-se pelos entre-seios dos morros. Estava perfeitamente certo de mim. Deixou que lhe amarfanhasse a manga e a carne, escravizada. Então propus-lhe ficar minha.
Teve um deslumbramento. Bater de pálpebras rápido. Olhou o chão. A angústia desmanchou-lhe o rosto. A boca tremeu, boca de quem vai chorar. E comovida, muito baixo:
— É sério!
Repreendia-a:
— Iolanda!
— Perdão mas… Eu não sei! Mas mudar de novo… Tantas voltas!… Nunca oh nunca eu amei ninguém!… Consolei-me. Eu vivo muito calma com ele. Eu te amo! Isto eu sei! Eu sei que contigo sou outra mas eu tenho medo… e depois?… Não! Eu vou contigo!
Sorria convulsa perdida escondendo duas lágrimas. Comoção de mulher jamais eu tivera assim. Emudecemos. E sempre andando. Sem rumo. Como o amor.
— Ela é mais alta que ele.
Duas mulatinhas com as chinelas castanholando no chão. Iolanda voltou o rosto com violência comparando os nossos ombros.
— Não sou!
Defensivamente derreara o ombro procurando descê-lo à altura do meu. Estava confusa protegendo da realidade a estesia do nosso amor. Aliás a diferença era pequena. Sorri:
— É verdade, Iolanda.
— Não sou! Veja bem. É por causa do salto!
— Mas que tem, tolinha! Deixaria de te amar por causa disso?
O automóvel relou em nós o voo aberto. Gesto de cor viva. Palavras? O carro foi parar arrastando-se vinte passos adiante. Uma mulher saltou dele, veio ao nosso encontro. Iolanda correu para ela. Abraços. Frases de longa separação em polifonia. E respondiam-se em francês! No mais independente dos franceses! Mesmo argot!
O sol bateu-me na cabeça. Fiquei paralisado. Só quando Iolanda pretendeu apresentar-me a amiga desembaracei-me da estátua. Fui grosseiro.
— Alors…
Ficou sem sangue. A amargura vive a sorrir. Iolanda sorriu. Ficou séria de repente e muito tímida:
— Je suis marseillaise…
Encarou-me franca ofertando-se. Linda, linda no alvoroço do sangue, toda vive-la-France! chamejante de ardências grande maravilhosa… marselhesa.
Tive frio. Essa espécie de nojo que o despeito dá. Quase que uma consciência revoltada de incesto. Sibilei aludindo aos paroxismos da noite:
— J'en étais sur! Il ne pourrait être autrement…
Mesmo a maldade irritada aconselhou-me a disfarçar. Casquinei o trocadilho:
— Pourtant cette marseillaise pourrait bien se changer en marche funèbre…
Choravam para mim seus olhos redondos e parados. Cruelmente ferida. Tive prazer. Encontrou unicamente o meu nome para desculpar-se:
— Louis!
A outra protegeu-a com arremesso:
— Tu viens?
— Non.
O automóvel partiu.
Falava convulsiva enérgica. Defendia de mim o nosso amor nascente. Implorava ordenava num riso desapontado discutindo sozinha contra mim. Achava as frases que convencem. Tinha razão. E voltava a se desculpar de ser marselhesa. Exteriormente até lhe achei graça. Que importava isso de ter nascido grega ou finlandesa? O amor desconhece raças. Exige certas virtudes. Iolanda as tinha. Era sincera. Isso bastava. Era ardente. Sabia amar. Oh! esse “sabia” a bater como araponga nos meus juízos amontoados… Sabia amar! Sabia defender-se! Sabia o francês! Sabia tudo!… E a revolta em mim. Vontade de insultar bater. Mas conservava-me discreto, cidadão, bem-educado. Não podia falar. Não podia nada. Evidentemente Iolanda tinha razão. E era sincera… sabia amar… sabia amar… Sabia!
Meus braços muito longos, inertes equilibravam o ritmo do corpo a caminhar. Passou por nós o automóvel 8025… Deve ser dos últimos… Que horas serão… Observei o movimento dos meus braços. Os dela também. Mecânicos como os das inglesas. Como os das marselhesas. Para frente, para trás, para frente… sabia amar… Desilusão.
Separamo-nos.
Ainda a tive minha. Certas reflexões levaram-me quatro passeios até lá. Mas os espaços cresceram entre essas insistências.
Iolanda sempre a mesma extraordinária. Suas carícias explodem cada vez mais espontâneas. Irritantemente espontâneas. Sinceras. Preferiria que fossem calculadas. Teria assim um pretexto para abandoná-la. Não encontro pretexto. E esse pernambucano que não vem!…
Agora creio que não voltarei mais. É impossível. Perdi o entusiasmo daquela noite… brasileira. Iolanda não é mais para mim a projeção das minhas vontades.
Não volto mais. Se o acaso ainda nos puser um diante do outro eu lhe direi tudo isso muito firme. Docemente.
Chorará.
1921 [1943]
a Antônio V. de Azevedo
Agitação desusada no hospital. Telefonemas e telefonemas. A todo instante chegavam automóveis particulares. Numa das salas a cena difícil das pessoas que perderam alguém. As lágrimas já cansadas paravam pouco a pouco nos olhos de irmãos tias e da sra. Figueiredo Azoé mãe do “infeliz rapaz”.[1] Entrelaçavam-se na penumbra do aposento soluços desritmados, suspiros frases vulgares de consolo.
— Viverá.
— Tenha esperança, minha amiga.
— Meu filho… meu filho!
— Sossegue!
— Quanto tempo!… desespero!…
— Tome um pouco de café.
— Não.
— Tome!
— Não quero.
— Tome… Reabilita.
O pai acabou tomando o café. Telefonemas e telefonemas. A todo instante chegavam automóveis particulares.
Tratava-se de Alberto de Figueiredo Azoé 25 anos aviador, descendente duma das mais antigas famílias do Jardim América. Nessa manhã de 13 abrira asas no Caudron. Ao realizar uma acrobacia a pouca altura o motor não funcionara a tempo. O avião se espatifara na rua Jaguaribe a 20 metros do Hospital. Pronto socorro. Telefone. E fortificados pelo pedido da família os três grandes cirurgiões tomaram conta do “imprudente moço”.[2]
Era ainda um desses exemplos do que Gustavo Le Bon chamou a “ironia dos desastres.”[3] Nenhuma lesão no corpo. Apenas um estilhaço de motor esmigalhara parte do cérebro do “arrojado aviador.”[4] Transportaram-no ainda vivendo pra sala das operações.
Dois médicos perplexos:
— Morre. É inútil.
— Morre.
O terceiro curioso inventivo. Riquíssimo subconsciente.
Um homem pobre ultrapassando talvez os 40 anos morria duma lesão cardíaca no hospital. Ninguém que o chorasse. Linda morte.
O terceiro operador falou. Repulsas. Risadas. O terceiro operador mesmo sorrindo insistiu com mais energia.
— …Porque não! Ele morre mesmo. O outro morre fatalmente, sem lesão alguma no cérebro. Poderemos salvar ao menos um. Vocês parecem estar ainda no tempo do doutor Carrel… E Chimiuwsky, com o coração?… Tenta-se!
Depois deu de ombros e derrubou a cinza do charuto. Houve perguntas para fora da sala-de-operações. As freiras correram. Transportes.
A madre superiora abriu a porta da sala-de-visitas. A ansiosa interrogação dos olhos, das mãos de todos. A comovente interrogação das lágrimas da sra. Figueiredo Azoé.
— Vai tudo bem. A operação acabou agora. Dr. Xis garante a salvação.
Pouco depois o Dr. Ípsilon amigo da família apareceu. Rodearam-no puxaram-no. Ensurdeceram-no de perguntas.
— Sossegue, dona Clotilde. O caso é gravíssimo, não posso negar mas a operação foi bem. Alberto é forte, perdeu pouco sangue… Fizemos. Uma trepanação… Esperemos que se salve…
Pendiam-lhe dos óculos umas vergonhas hesitantes.
Em trêmula sequela a mãe, o pai, os irmãos foram ver de longe Alberto a dormir. Depois o Dr. Xis exigiu o afastamento da família até a cura do rapaz. A comoção, explicava, provocada pela revivescência das imagens poderia causar até a morte[5] ou no mínimo uma idiotia de 1° grau. Quanto a qualquer possível lesão que o mecanismo cerebral apresentasse sempre seria tempo de “constatá-la” (sic).
O período da morte passou. Alberto convalescia rápido.
Nada quase falava. Beijava comovido a mão da freira que o tratava. Tinha lágrimas de gratidão para os médicos.
Fato curioso registrado pelas freiras é que à medida que Alberto sarava o Dr. Xis tornava-se mais e mais inquieto. Agitação contínua. Cóleras sem razão. Perguntas esquisitas que espantavam a enfermeira. Se o doente ia tão bem! Passava os dias mirando as próprias mãos. Nada de anormal.
Mas o Dr. Xis sentado à cabeceira do rapaz. Que dedicação! O sr. Felisberto Azoé ouvi que pretendia presenteá-lo com um cheque de 40 contos (quarenta contos de réis). E tão dedicado quanto inflexível. Nada de permitir que a família se aproximasse do moço. Por uma das janelas do hospital apenas o viam passear agora pelo braço do Dr. Xis nos pátios de sol.
O Dr. Ípsilon é que esfregava as mãos satisfeitíssimo. Um dia perguntara a Alberto:
— Lembras-te de mim?
O outro chorando lhe beijara a mão:
— Lembro sim senhor.
Desde então o Dr. Ípsilon esfregava as mãos satisfeitíssimo.
— O nosso trabalho foi admirável. Quando o comunicarmos à Sociedade de Medicina e Cirurgia creio que o mundo inteiro se espantará. Dona Clotilde, seu filho está salvo!
E ao Dr. Xis três vezes por dia:
— Não começaste ainda o relatório?
— Espere.
Alberto estava bom. Caminhava por si.
Dr. Xis estava mal. Hesitava.
Um dia no entanto encontrou o moço gesticulando suecamente. Sorriu. Alberto parara a ginástica.
— Seu doutor, já estou bom. Queria sair.
— Sairás breve. Agora vamos dar uma volta pelo jardim.
Alberto caminhava firme alegre. O Dr. Xis seguia-o lateralmente um pouco atrás. Na aleia de trânsito junto à porta um automóvel. Alberto parou olhando a máquina. Caminhou para ela. Sentou-se no lugar do motorista. A máquina moveu-se rápida habilíssima. Fez a volta do gramado e descansou no ponto de partida.[6] Dr. Xis acendeu o charuto.
— Sabes guiar automóvel?
— …sei?… murmurou espantadíssimo.
Depois de olhar muito as pernas vago quase sorrindo Alberto murmurou:
— Parece que espichei, seu doutor!
Era curiosa a agitação do Dr. Xis. Dedos de gelatina. Até deixou cair o charuto.
— Não é nada. Voltemos.
— Não começaste ainda o relatório?
— Vais dizer ao sr. Azoé que lhe levo o filho amanhã. Que a casa esteja como sempre sem modificação alguma.
E o Dr. Xis fez o barbeiro entrar no quarto do rapaz.
— Vai fazer-te a barba…
Alberto sentou no lugar que lhe indicavam. O barbeiro trabalhou entre dois silêncios.
— Agora vem lavar o rosto no quarto pegado. O lavatório de lá é maior.
No quarto de Alberto o Dr. Xis fizera substituir o lavatório por uma mesa onde se depusera bacia e jarro.
Alberto foi. Ao inclinar-se para lavar o rosto viu-se refletido no espelho. Parou: Depois, quase a gritar horrorizado guardando os olhos no braço:
— Não!
Imediatamente o médico se fechara por dentro com o rapaz.
— Não… Não sou!…
Entressorria medroso. Depois começou a chorar. Dr. Xis seguia-lhe os movimentos, Alberto voltou ao espelho. Fugiu dele apavorado. Quis partir. Foi esconder-se no corpo do Dr. Xis como uma virgem.
— Quem é, seu doutor!… Quem é esse homem…
— Sossega, meu rapaz. Sou eu.
— Não, o outro!
— Estamos sós. Vem comigo!
Atraía-o para o espelho. Alberto com lindas forças venceu o médico.
— Não quero!
— Sossega, Alberto!!
— Alberto?… quem é Alberto!
— És tu.
— Eu!… Não! deve ser o outro… o moço!…
Apalpava-se desesperado. Os olhos giragiravam no limite das órbitas, infantis como num esforço para ver o rosto a que pertenciam.
— Acalma-te. Qual é teu nome então?
— …o outro… Não! Eu… eu sou José!
Dr. Xis aguentou a custo o golpe. Ficou gelo. Voltando do espavento: Acalma-te e escuta. És Alberto.
— Não! Sou José!
— Escuta primeiro, já disse! Estiveste muito doente ouviste? Segue bem o que te digo. És Alberto de Figueiredo Azoé. És aviador. Tua mãe é dona Clotilde de Figueiredo Azoé ouviste? Caíste do aeroplano. Quebraste a cabeça. Fizemos uma operação muito difícil. Por isso estás assim como quem não se lembra. Pensas que és outro. Mas tu és Alberto de Figueiredo Azoé. Vamos, repete o teu nome!
— Alberto de Figueiredo Azoé…
— Sou eu que te digo, ouviste bem? Teu médico. Que te salvou da morte. És filho do sr. Felisberto Azoé teu pai. És aviador. Não te lembras… És muito rico.
Alberto, Alberto ou José? escutava. O médico parou observando-o. Desenhou-se um sorriso mal feito nos lábios do moço. Sacudiu a cabeça desolado. Apertava as faces com mãos desesperadas. Não sentia[7] Alberto de Figueiredo Azoé.
— Agora estás mais calmo. Vem ver o teu rosto no espelho.
— Não, seu doutor! pelo amor de Deus! faz favore… no!!
Empuxado, reagia quase com grito.
– Vem! Quero que sejas Alberto de Figueiredo Azoé.[8]
— Não! non ancora!… Io…
Parou indeciso. Escutou as últimas palavras que saltitavam fugitivas no aposento. O doutor:
— Lei parla italiano?
— Si! Sono proprio d'Italia!… ma… não… Não!
As palavras saíam perturbadas com acento inverídico de quem não sabe falar italiano. De boca desacostumada a pronunciar o italiano.
— Descansa. Vamos pro teu quarto.
E lá:
— Deita-te. Fico a teu lado. Pensa bem, Alberto: tua cabeça ainda está doente pelo choque. Perdeste a memória. Só te lembras de coisas de que ouviste falar.[9] Pensa bem no que te digo: és Alberto Figueiredo Azoé. Amanhã verás teus pais e irmãos de que não te lembras. Deves conhecê-los ouviste? Sofrerão muito se te mostrares esquecido. Pensa agora em tudo isto. Não és José ouviste bem! Responde que estás ouvindo, acreditando… Responde, Alberto!…
Alberto ou José moveu lábios sem frase abúlico.
E o doutor sentado à cabeceira do moço falou e continuou falando. Meia hora depois inda remoía persuasões. Alberto adormecera entre elas. Duas fundas rugas penduradas das abas do nariz guardavam como parênteses as frases que aquela boca falaria e não lhe pertenceriam.
Às 17 horas acordaram-no para o jantar. Comeu bem. Era pequeno o abatimento. O Dr. Xis quando ambos sós tentou a experiência:
— Alberto!
— Que é?
O médico sorriu agradecido. Aproximou-se. Pôs-lhe sob os olhos o livro aberto e apontou para as letras.
— Conheces isto?
— Como não!… são letras.
— Sabes ler?
Os olhos de Alberto fixaram mais as letras, correram fácil e exatamente pelas linhas. Espantado o moço murmurou como se perguntasse:
— Não?…
E voltou a seguir as linhas do papel numa ânsia de reconhecimento. Dr. Xis fê-lo sentar-se junto à mesa. Deu-lhe o lápis.
— Escreve.
Sobre as folhas esparsas o moço traçou a princípio firme, com letra esportiva:
“Rose mon chouchou 120 cavalos Part Alberto 30 record Rose-Roice mon chouchou Caudron Grevix[10] mon choudron…”
Dr. Xis arrancou-lhe o lápis da mão.
Às 20 horas deu-lhe uma beberagem. Alberto adormeceu. Foi transportado, assim dormindo, para casa.
— Minha senhora, seu filho sarou. Mas a lesão foi muito grave… Ficou com a memória um tanto perturbada…
— Meu filho está louco!
— Sossegue. Não se trata de loucura. Apenas a memória… Abandono parcial de memória. Mas sara. Sarará! É preciso aos poucos incutir-lhe no espírito quem ele é. Por um fenômeno que… se dá frequentemente nesses traumatismos acredita ser outra pessoa… Naturalmente cuja história o impressionou.
— Meu filho!
O pranto necessário.
— Afirmo-lhe que sara. Devemos aos poucos reeducá-lo. Esqueceu-se um pouco por exemplo… de ler. Mas a memória voltará. É preciso que tudo se passe como antigamente.
— Meu pobre filho! Naturalmente nem se lembra de sua mãe!…
— Minha senhora, descanse em mim! O quarto dele está pronto?
— Sim. Não alteramos nada.
— É preciso fazer-lhe reviver os costumes antigos…
— Era eu que ia acordá-lo sempre quando ele não se (soluço) levantava muito cedo para ir nadar…
Levava o café para ele…
— Pois a senhora continuará a levar-lhe o café. Irá acordá-lo amanhã. Estarei aqui. Não: prefiro passar a noite aqui, nalgum quarto pegado ao dele, não tem?
— Não tem.
— Pois terá a bondade de ordenar que me deixem uma poltrona junto da porta. Dormirei nela.
— Doutor! quanta bondade!… Doutor…
Alberto dormia sossegadamente.
Às nove horas do dia seguinte a senhora Figueiredo Azoé num penteador muito roxo acordou o médico. O sobressalto do Dr. Xis espantou-a:
— Que é!
— Desculpe, doutor. Apareço assim porque era assim que ia acordá-lo. Alberto gostava de roxo…
— Fez bem.
— Geralmente acordava às nove… Já são oito e três quartos… Trago o café…
Num arranco de desesperada aventura o médico largou:
— Pois vamos!
Entraram. Ela entreabriu uma das janelas. O raio curioso esquadrinhou o aposento.
— Era assim mesmo que ele dormia.
O rapaz tirara a coberta leve que lhe tinham posto sobre o corpo e de pernas abertas pousando a cabeça num dos braços era como um lutador cansado.
— Alberto! Alberto!…
O “digno sucessor de Edu Chaves”[11] se moveu mole, abriu os olhos. Consertou a posição dormindo outra vez. Dona Clotilde estava com medo do filho. Venceu-se:
— Alberto!… Sou eu! Tua mãe…
Parava indecisa. Esforçava-se por repetir as frases costumeiras. Não se lembrava. Tudo agora lhe parecia tão artificial, tão inexato!
— São horas… Trago o café!!
O moço resmungou inconsciente. Abriu os olhos acordado. O reflexo do espelho iluminava o corpo da “ilustre dama”.[12] Alberto sorriu-lhe como sempre e murmurou o eterno:
— Ora, mamãe!…
Escutou-se atraído. E fixou mais a mulher. E num pulo sentou-se na cama. Dona Clotilde recuou amedrontada. Dr. Xis aproximou-se.
— Bom-dia, Alberto.
Agarrado ao médico, doído, pedindo proteção:
— Seu doutor!
— Sou eu, Alberto.
— Alberto!?…
— Sim: Alberto. Esta senhora é tua mãe.
— Não tenho mãe!…
— Esta senhora é tua mãe. Lembra-te do que te disse ontem, Alberto. Estiveste doente! Esqueceste!
— Não, seu Doutor! Quero ir s'embora! vamos!
E no espelho da guardacasacas viu um moço quase conhecido agarrado ao doutor. Olhou para este. Procurou-lhe em torno… Encontrou suas próprias, não, mãos longas musculosas agarradas ao paletó do médico. Começou a chorar todo infeliz.
A senhora Azoé chorava também, sem naturalidade uma das mãos ocupada com a xícara. O duplo sofrimento das mães! Sofrem a dor dos filhos e a sua dor de mães! Como se não lhes bastassem as deformações prematuras e o castigo luminoso dos partos como outros tantos pelicanos…
O Dr. Xis procurou dar fim à cena. Ia pronunciar o “sossega, meu rapaz” mas reparou que já dissera essa frase muitas vezes e mudou:
— Acalme-se, Alberto! Precisas acostumar-te à tua nova situação. Não te recordas por que estiveste doente.
O médico falava dificilmente agora. Devido ao caso do “sossega”, sem querer, contra a vontade mesmo começara a policiar a própria fala. Em vez de “lembras” corrigira para “recordas”. Foi Alberto que terminou a situação cansado de reagir:
— Não me lembro de nada disso tudo que seu doutor está dizendo… Eu não tinha… mãe. Sou José… Eu me lembro de mim sozinho (aqui fazia esforços de rugas para lembrar). Em criança fiz viagem… Tinha um homem com um dente na boca que fumava um cachimbo fedido… não me lembro!… O homem com uma ferida sarada parecia de navalha na cara… Outro homem dizia que era meu tio… Meu tio e minha tia… Depois na colônia… Eu fugi mocinho…
A senhora Figueiredo Azoé soluçava alto.
— …Minha mãe…?
E José, não, Alberto, Alberto ou José? queria lembrar sofria. Muita coisa nos olhos nas mãos que dizia que parecia que era assim mesmo.[13] Mas se sabia que não era assim!
— Alberto, estás martirizando tua mãe. Cala-te! Contas alguma história que te impressionou. Sossega, meu… Veste-te. Estou aqui!
Alberto cedeu como quem cede para o aniquilamento.
Desceu da cama pela direita onde moravam as chinelas. Abriu as torneiras do lavatório. Lavou-se. Penteou-se. Foi buscar as meias limpas na gaveta exata. E calçava as calças depois as botinas depois pôs a camisa o colarinho a gravata… Parava às vezes indeciso, outras envergonhado de saber… Então era preciso que o doutor lhe desse as calças… e depois o colarinho… Alberto continuava maquinalmente entregue à dura sorte feliz.
— Estás vendo como te lembras?… Se fosses esse outro como saberias onde estavam as meias as botinas?… Agora precisas de paciência ouviste? Irás de novo aprendendo o que esquecestes, verás.
Alberto procurava qualquer coisa. Devia ser o paletó… Assim ao menos pensava o Dr. Xis dando-lhe o paletó. Alberto vestiu-o. Exausto foi tirar duma gaveta a escova de roupas. Esfregou vivamente as calças, unicamente as calças como se o paletó não merecesse limpeza. Depois jogou a escova sobre a cama e abrindo o guarda-roupa tirou o pijama de seda roxa. Começou a vesti-lo sobre o paletó. Parou percebendo o engano. Envergonhado olhou o médico. Guardou o pijama de novo.
— Agora, Alberto, vais ver teus irmãos, teu pai, Felisberto Azoé.
Ao saírem do aposento houve do outro lado da galeria um esvoaçar fugitivo de saias passos que desciam a escada. Alberto olhava desconfiado para o Dr. Xis. A família estava toda no hall. Impaciência irreprimível em cada olhar. Talvez dor. Aquela reunião tantas pessoas o criado que espiava… O moço sentiu-se em terra estranha. Fez um movimento de recuo.
— Teu pai, Alberto. Não te lembras? tua irmã, teus irmãos…
— Seu doutor, vamos embora!…
Apertava a mão do operador. Criança a proteger-se. E baixinho dolorido:
— Não… não… Não lembro!… sou o outro… sou…
— Cala-te, Alberto! Já te disse que não és o outro! Esta é a tua família… teu pai…
Alberto chorava sem largar o médico. A família chorava. O Dr. Xis… Mas o rapaz levantara a
cabeça resolvido. Cessaram-lhe as lágrimas.
— Vamos embora! Não fico mais aqui!
— Sossega, Alberto. É tua famil…
— Não é minha família! Sou o outro. Sou José! Quero ir embora!!
— Ir para onde, então!
— Para casa!
— Aonde?
— Para minha casa, com a Amélia. Minha mulher… rua Barbosa… Quero ir!
E procurava alguma coisa. Dirigiu-se enfim para a porta que dava no jardim interior. O médico alcançou-o.
— Espera um pouco. Mando buscar tua mulher. Verás que a não conheces. Espera!
— Quero ir com Amélia![14]
— Escuta, Alberto, estou falando! Já disse que mando buscar essa Amélia! Vais esperar. Esperas comigo, não te deixo. Rua Barbosa… que número?
— Rua Barbosa… não tem número. Última casa da direita.
Ninguém sabia onde era a rua Barbosa.
— Onde fica a rua Barbosa, Alberto?
— Na Lapa… Atrás da fábrica de louças. Um dos Azoés partiu rápido.
Alberto esperava impaciente. Parecia não ver ninguém. Andava pela sala. Sentava-se. Erguia-se. Reparava em todos francamente. Depois envergonhava-se. Vinha para junto do médico. Um momento, com gestos largos cheios de liberdade sentou-se na grande cadeira preguiçosa. Assobiou dum modo especial. Logo os latidos dum cão. E o enorme policial apareceu. Que festas para o dono! Alberto quis reconhecê-lo. Seus lábios juntaram-se abriram-se como querendo dizer um nome… Teve medo daquele cão. Quis erguer-se. Defendeu-se.
— É Dempsey, meu filho!
— Tirem esse cachorro! Me morde!…
Foi preciso tirar Dempsey dali. E daí em diante os uivos do cão compassando as cenas.
Trinta minutos depois o automóvel voltava. Luís fez entrar a mulata forte com as mãos gretadas pela aspereza das águas no ofício de lavar. Entrou olhando sem medo. Saudou consertando o xale preto.
— Conheces, Alberto? É Amélia.
Alberto correu para ela. Segurou fortemente o braço da admirada.
— Vamos embora, Amélia! Não fico aqui!
— Largue de mim, moço!
— Sou eu, teu homem!… José…
— Meu homem morreu na Santa-Casa… Deus Nosso Senhor Jesus Cristo lhe tenha!
— Não morreu! Sarei! Sou eu, José!
Amélia recuou amedrontada:
— Esse moço está doido, credo!
Alberto agarrava desesperado raivoso suplicante:
— Não me deixe aqui! Estão caçoando de mim… Sou José!
O Dr. Xis que se aproxima toma um soco no peito.
— Me largue, moço! Que é isso agora!
— Amélia, não te lembras! Me leve!… Teu…
— Me largue já disse! Meu pobre José está no Araçá! Foi então para isso que me cham… ahm… me largue!
Debatia-se nas mãos do rapaz. Dois fortes a lutar. Esfregavam-se na parede junto à porta.
— Tirem esse moço daqui. Eu grito! Socorro!
Acudiram. O sr. Azoé o médico os rapazes. Alberto não largava a mulata. Desenvencilhou-se repentinamente do irmão que o agarrara por trás, moveu o cacho de gente, empurrou-o para o centro da sala. Correu para a porta. Fechou-a. E olhou todos com olhos duplicados da loucura de resolução.
— Não queres me levar, desgraçada! Eu conto tudo! assassina!… me leva?…
Amélia resoluta armara-se dum vaso onde uma palmeirinha lutava por viver. Que saudades do aclive aquoso sempre verde, onde junto das irmãs e das avencas faceiras escutava noite e dia o reboo pluvial da cascata! Nas tardes, quando o céu arcoirisado…
— Segurem o moço que eu atiro!… atiro mesmo… se ele vier outra vez…
A senhora Figueiredo Azoé levantou-se diante do filho, como a estátua do devotamento e do sacrifício, protegendo-o. O sr. Azoé os rapazes lutando com a lavadeira.
— Ah!… (rascante) É assim? Não queres me levar, desgraçada!… Vou para a correição… Mas tens de ir também. Não ficas com o Júlio, já sei! Ela matou! Assassina! Matou os dois filhos… Quando nasceram. Matou os dois filhos! Não queríamos crianças… Ela enterrou no quintal. Em Moji. O outro antes de nascer. Assassina! Vou parar na cad…
— Cachorro!
O vaso, desviado, se espatifou no meio da sala. Coitada palmeirinha!
— Prendam ela!… Figlia dun cane (cão)! É verdade… lo… juro!…
— É mentira! Não conheço esse homem!
— Prendam! Assassina!… No jardim perto da escada…
— Não!… não conheço!… Não me prendam! não fiz nada!… Foi ele que quis… Perdão!… Não conheço esse moço… nunca vi… Foi o outro, foi José que quis… Perdão!
— Fui eu! mas foi ela também!
Atirou-se sobre a mulata. Ela voltou-lhe uma punhada na cara. Alberto desviou com gesto grácil de boxista.[15] Atracaram-se de novo. Ela dilacerou-lhe a mão com os dentes. Prendam!… Sujo! Maldito!… Foi um custo. Assassina! Com o barulho os criados, o motorista acorreram. Prendam! Ela também!… Me largue!… Braços punhos. Embrulho. Barulho. Foi difícil. Afinal os homens conseguiram separar os dois. Amélia liberta fugiu por uma porta. Desapareceu. A cólera de Alberto, Alberto ou José? foi tremenda. Berrava termos repetidos numa língua infame. Socava os que o prendiam. Machucara fortemente um dos irmãos. Depois diminuiu a resistência pouco a pouco. Suor frio lhe irisava a fronte. A palidez. E desmaiou.
O esforço para livrá-lo do desmaio continuava… A campainha tocou. Um repórter. Mandado embora. Depois do desmaio a prostração. A campainha tocou. Outro repórter. Mandado embora. A campainha tocou. O primeiro repórter insistia. Mandado embora. Desordem. Criados comentando… Automóvel de prontidão. O motorista lia desatento uma passagem do romance em folhetos A filha do enforcado. O conde de Vareuse, devido a velho ódio de família fora enforcado por um sobrinho. Apenas o filho corcunda de Jacquot fiel criado do sr. de Plessis amigo íntimo do conde presenciara o assassínio. Aconteceu porém que justamente na noite do delito Germaine a filha do conde era roubada por uns ciganos espanhóis. Isto se deu no reinado de Carlos V. Germaine tinha nesse tempo apenas cinco anos. Ora o corcundinha irmão-de-leite do sobrinho assassino hesitava ainda em contar o que vira quando é roubado também pelos ciganos. Mas ele não conhecia Germaine. O procurador ou coisa que o valha, da imensa fortuna do conde de Vareuse, mestre Leonard vendo a condessa viúva enlouquecer com a perda da filha concebe um plano diabólico. Apossa-se da personalidade do conde de Vareuse com o qual muito se parecia más línguas davam-no mesmo como filho-postiço do velho pai do conde ainda vivo mas cego e paralítico numa velha propriedade no Languedoc. O procurador pois apossa-se de todos os papéis do conde e muda-se para a Inglaterra onde se domicilia. Atinge logo uma das mais fulgurantes posições na elite londrina. Casa-se com a filha de Lord Chaney[16] e tem desta uma filha. Passam-se doze anos. O filho do assassino do conde então com vinte-e-três anos brilhantíssima inteligência parte numa comissão diplomática para a Rússia. É nesse instante justamente que a condessa de Vareuse que o procurador mandara para a casa duns antigos apaniguados seus na Boemia recobra a razão ao ouvir um lindo moço de seus vinte anos mais ou menos e que aparentava grande riqueza e sangue puro, viajante recém-chegado na aldeia entoar uma balada. Ora o interessantíssimo do caso é que essa balada fora composta pela própria condessa, exímia tocadora de harpa que porém não a revelara a ninguém. (A balada) Somente cantarolava-a às vezes para adormentar a filha, que era doentia e sofria de insônias. E se a condessa jamais cantava perto de qualquer pessoa essa balada, era porque dizia a própria história dela. Tratava-se duma moça que se deixara levar pelos encantos dum estudante e que diante da impossibilidade de casar com o namorado pois era de grã nobreza (a condessa) entregara-se voluntariamente a ele num assomo de paixão. Nasceu um filho que a família encobrira e fizera desaparecer. Nesse tempo Germaine com o corcundinha desesperadamente apaixonado por ela conseguiram livrar-se das garras dos ciganos e fugir para a Itália num navio de vela pertencente a mercadores marselheses. No mesmo navio seguia também um rapaz nobre italiano que fora chamado urgentemente a Nápoles onde uma terrível conspiração se organizava entre os membros duma sociedade secreta indiana, os Treze Irmãos da Pantera Vermelha, para assassinar Carlos V. Ora o príncipe Lotti que tal era o nome do moço viajante a bordo da Reine Marie estava disposto a se dedicar pelo rei por gratidões de família que não interessam aqui. Eis que a Reine Marie é atacada por piratas tunisianos. Prestes a entregar-se já. O príncipe defendia Germaine heroicamente tendo ao lado o fiel Jean o corcundinha. Mas surge a todo pano velejando uma fragata de guerra francesa. Fogem os piratas. A maruja da Reine Marie canta vitória. Germaine e o príncipe Lotti pois que a guerra lhes revelou o mútuo amor estão abraçados ouvindo as últimas palavras de Jean agonizante. Jean que durante toda a vida se calara por não criar um sentimento de ódio na alma pura de Germaine pretendendo ele só vingá-la mais tarde vê-se obrigado agora a revelar tudo o que sabe. O príncipe Lotti e Germaine ainda trêmulos de horror vão para bordo do navio de guerra francês onde os recebe justamente quem! o filho do assassino do pai de Germaine, o jovem diplomata que por desfastio se partira para a Rússia por caminho que a fantasia aconselhava. Mas imediatamente o filho do assassino concebe infinito amor por Germaine. Esta, o príncipe e o filho do assassino descem em Gênova. E justamente para a hospedaria onde vão está a condessa de Vareuse e o filho. No momento em que Germaine é perseguida pelo filho do assassino e surge o irmão para defendê-la um criado vem conversar com o motorista.
— Vamos almoçar. É quase meio-dia.
O Dr. Xis, que dedicação! sempre ao lado do doente.
Falara-lhe longamente, persuasivamente. Contou-lhe então toda a aventura. Era a última esperança: dizer tudo. O Dr. Xis disse tudo: o desastre, a operação, a substituição de cérebros e descreveu-lhe por fim a fortuna dele, José, cérebro de José, agora moço rico feliz…
Alberto abandonado sobre o leito como que ouvia e aceitava. Muito calmo. Quando o operador parou maior momento Alberto ou José abanou a cabeça.
— Não… Sou José. Quando eu… o outro agora me lembro estava morrendo fiz uma promessa para S. Vito de contar tudo se salvasse. Estou vivo. Sinto que estou vivo… Mudei… Não! não sou eu!… Este não!… Sou o outro!… Sou o outro!… Sou o criminoso!… Este é inocente!… não matou meus dois filhos… Foi o outro, eu, José… Dio!…
Soluçava horrorizado desesperado. Neste momento o Dr. Xis viu o rosto do Dr. Xis refletido no espelho. Era um homem de trinta anos no máximo. Ardido aventureiro mas trazia nos lábios abertos em pétalas de rosa qualquer coisa dessa sensualidade que faz ser bom, ser nobre e sentimental. Perturbado por esses vinhos parecia ao médico que os raios da luz elétrica formavam na superfície do espelho uma grade de prisão. Por trás da grade um moço. Inocente?… Criminoso?… Tão linda a operação! mas o cérebro é que sente… que manda[17] mas o corpo… aviador… avião… memória muscular o incidente do automóvel… é melhor… É MELHOR!… sim, é melhor. Acaba-se duma vez…
E o Dr. Xis pôde tirar os olhos do Dr. Xis porque firmara a decisão. Telefonou para o aeródromo. Mandou ordens ao motorista.
— Como vai?…
— Alb… ele está calmo agora.
— O doutor precisa tomar alguma coisa… Vinte-e-duas horas já…
— Aceito um café… café bem forte.
— Não quer uma almofada? doutor… Passar mais uma noite assim! Como lhe poderemos pagar tanta dedicação!…
— Não fale nisso, minha senhora. Quero muito bem Alberto… Estimo-o muito (aos arrancos) muito mesmo… como… Porque, minha senhora, na minha profissão há momentos maravilhosos… Sentir-se diante dum homem moço ainda que morrerá por certo… e confiante orgulhoso diante da fatalidade… combatê-la… vencê-la pela inteligência… oh! como eu o amo… minha senhora… como a filho!… sim, perdão, como se fosse meu filho também!…
E escarninhas brilhantes alegres lépidas fugiram dos olhos do Dr. Xis as duas primeiras lágrimas da sua cirurgia.
— Amanhã tentarei uma prova… uma prova decisiva! A senhora verá! Alb… ele já aceita o que eu digo… As roupas de aviador estão aqui?
— Guardava-as no aeródromo…
— Está bem.
O Dr. Xis inflexivelmente mau para consigo escrevendo passeando fumando contou o tempo até seis da manhã.
— Acorda… meu rapaz!
Como no dia antecedente Alberto se vestiu mais ou menos bem. Começava sempre certo e firme.
Depois invariavelmente na continuação dos gestos parava indeciso. José não sabia onde estavam as botinas. Indicava-as o “imprudente e glorioso cientista”.[18] Alberto continuava certo e firme.
— Seu doutor, vamos embora!
— Vamos!
O auto esperava à porta.
— Para o aeródromo.
O caudron de Alberto, 120 cavalos, riscava uma sombra de avantesma na relva aguda do prado. O mecânico esperava. José admirado deixou-se vestir. Menos admirado deixou-se sentar no aeroplano. As mãos ágeis hábeis manobraram a máquina. O mecânico impulsionava a hélice lustrosa. O Dr. Xis entrava para o lugar do passageiro… O caudron deslizou subiu numa linha oblíqua macia… Os dois “ilustres representantes da ciência e do esporte paulista”[19] foram se espedaçar muito longe nos campos vazios.
NOTA
Este conto é plagiado do AVATARA de Teófilo Gautier que eu desconheceria até hoje sem a bondade do amigo que me avisou do plágio. Mas como geralmente acontece no Brasil o plágio é melhor que o original. Quanto a Germaine conseguiu casar com o príncipe Lotti depois de mais vinte-e-três fascículos a quinhentos réis cada.
1922 [1943]
Tragédia[20]
a Tácito de Almeida
Personagens:
A Amante, primadona.
A Mulher, coisa que acontece.
O Marido, joguete nas Mãos do Destino.
Coros.
No Guarujá. Presente. Hotel. São 14 horas, muito dia, luz de verão puro-sangue. Terraço. Mesas. Cadeiras. Tudo chique. O smoking dum criado dependurado impassível na porta. Vêm a Amante e a Mulher. Esta brasileira. Brasileirinha. 24 anos. Morena, cabelos negros viva etc. Uma pomba. Aquela belíssima e francesa. Alta. Cabelos quase rubros. Olhos verdes. Esplendor aos 35 anos.
3° E ÚNICO ATO
1ª Cena
Amante (arranhando) – Me conhecia, não é verdade?
Mulher – Creio que sim…
Amante – Só “creio”!
Mulher – Creio que sim… Deve fazer um ano…
Amante – Parece que esqueceu a data…
Mulher (bocejando) – Creio que sim… Não guardo datas.
Amante – Quer que ajude?
Mulher – É inútil.
Amante – Saía da casa de sua mãe na Avenida…
Mulher – Ah…
Amante – Passei de automóvel…
(Silêncio)
com seu marido…
(20 silêncio)
Lembra-se agora?
Mulher – É possível.
Amante (fustigando) – A senhora se esquece muito cedo das suas dores. Deu um grito. Pelo óculo do automóvel que seu marido me dera vi a senhora derrubar a sombrinha… Sofreu muito!
Mulher (sorriso abaunilhado, sem sofrer) – Naturalmente teve dó de mim…
Amante (otélica) – Não! Odeio-a! Não tenho dó.
Mulher – Não teve dó.
Amante – Não tenho dó!
Mulher – Mas não carece mais ter dó! Já me conformei.
Amante – Não se conformou! Tanto que procura me roubar o seu marido!
Mulher (muito verdadeira) – Procuro, não. Ele é que me procurou… me procura… (cheia de trunfos) Me ama…
Amante – Não é verdade!
Mulher – É verdade.
Amante – Pois saiba que seu marido é meu! A mim é que ele tem de amar! Há quatro anos que vivemos juntos!
Mulher – Já sei.
Amante (perdendo terreno) – Ele contou!
Mulher (num orgulho casto de matrona) – Me conta tudo.
Amante (gritando já) – É mentira!
(3° silêncio. Grande silêncio de gozo pra Mulher, de raciocínio aterrador pra Amante. Como é linda a cor do mar nas tardes de verão no Guarujá. O azul envolvente do céu reflete uns verdes idílicos. A própria areia tem reflexos verdes. O automóvel passou. Que alegria de moças! Calças brancas no meio delas. Namorado!… Duas gaivotas nascem afroditicamente da espuma verde mais longe. Calmaria. Excesso de felicidade milionária sem cuidados bem vestida).
Amante (baixinho) – Porque me rouba o meu amor!… Nunca fiz mal pra senhora… Amei-o primeiro… Abandonei tudo por causa dele… o outro que me protegia… era rico… que hei de fazer sem ele!…
Mulher – E eu!… Não o amo também? Teve o seu tempo… Me deixe ter o meu, ora essa!
Amante – Mas eu o amei primeiro! Ele me amou… Fomos tão felizes!…
Mulher – E eu!
Amante – Me deixe com ele! Porque fazer de mim assim uma abandonada, uma desgraçada!… Quem mais há-de me querer!
Mulher (gasta) – Mas… e eu! e eu! Pensa que fui feliz casando com o homem que amava e me mentiu? Que mentiu que me amava?
Amante – Mas fui a primeira!…
Mulher – Que me importa se você foi a primeira! Comigo é que ele casou. Suportei tudo. Suportei a afronta, calada. Imóvel. Se ele me amou foi porque quis. Não fiz nada pra isso. Hoje tenho a certeza que ele me ama. Me adora! (Saboreando a sonata-ao-luar da outra) – Agora não largo mais dele!… Por que não fala com ele mesmo?… Era mais simples.
Amante – Por piedade!
Mulher – E eu! Teve piedade de mim quando me viu com os braços no ar enquanto a senhora passava nos braços de meu marido? Não teve… disse há pouco que me odiava…
Amante (amarelo terroso) – Odeio-a… Odeio-a!…
Mulher (se levantando sublimemente vitoriosa) – Pois eu nem sequer a odeio. Me é indiferente. Sei que meu marido me ama. Vim pra cá só pra me certificar disso. Ele não podia vir… Pois veio. E a senhora seguiu atrás como um cachorrinho, como um cachorro… Detesto-a!
Amante (desfeita) – …por… por piedade! Não me roube o meu amor! Não imagina como amo seu marido!… Pôde aguentar calada… pôde sofrer sozinha… Mas eu… Eu não posso… não posso! Por piedade!…
Mulher – Detesto-a! Vá-se embora! Chore na cama! (Melodiosa maldosa mimosa tão delicada e melindrosa) Por que não procura meu marido? Vá chorar pro seu amante! (denticulada) Garanto que ele virá me castigar… Com carinhos.
Amante (golpeada) – Não!
Mulher – com abraços…
Amante (gritando) – Não!
Mulher – com beijos…
Amante – Não! (Louca se atira sobre a outra, procurando esganá-la) Infame! Sem-vergonha! Tinha um criado como disse. Ainda tem. Neste final rápido de cena oscilou nas mãos no corpo. Agora entrou no interior do hotel).
INTERMÉDIO
O intermédio dura dois minutos. Enquanto estes se gastam briga feia entre as duas donas. A brasileira é mais frágil. Ágil. E é mais forte porque se lembra do marido que a defenderia se estivesse ali. Finca as unhas nos pulsos da Amante. Liberta-se. Avançam danadinhas uma pra outra. Eternamente as garras nos cabelos. Chapéus mariposas poc! no chão. Labaredas em torno do rosto da Amante. A noite cai nos ombros da Mulher. Cadeiras empurradas. Mesas reviradas. Tapas. Mordidas. Mordidas e beliscões. A brasileira atira um direto no estômago da francesa.[21] “Aie!… Au secours!…” Vêm os coros apressados. Quatro grupos. Se postam um na direita, outro na esquerda e os outros dois no fundo da cena. A Amante caída no centro soluça alto escondendo o rosto nos braços estirados abandonados. Fogueira que lambe o chão. A Mulher se arranja rápido. Ergue a mariposa de palha e flores. Está de novo brasileiramente arranjadinha. E mais o ofego dos seios sob a renda. Carmim legítimo nas faces. Que shimmy gentil nos lábios trêmulos!
2ª Cena
Coro das senhoras casadas – Ridículo! Ridículo! Espetáculo destes num hotel! Uma mulher que bate na amante do marido! Onde jamais se viu sem-vergonhice tal! Ridículo! Ridículo! Espetáculo destes num hotel!…
Coro dos senhores casados – Que escândalo! Que escândalo! Onde jamais se viu sem-vergonhice tal! Fazer cena e ter ciúmes do marido! Pois um pobre marido não pode ter amante? Mais de uma até! Que escândalo! Que escândalo! Onde jamais se viu semvergonhice tal!
Marido (de flanela entra e se espanta. Traz vinte dúzias de cravos paulistanos pra Mulher) – Mas… que é isso, Jojoca!
Coro das senhoras idosas – Belíssimo! Belíssimo! Gente de hoje não sabe se conter! Uma amante… que tinha? É natura l. Por que não divorciou? É muito mais honrado. Francesa, não? Como se chama? Quem é? Terá filhos? Belíssimo! Belíssimo! Gente de hoje não sabe se conter!
Coro dos senhores idosos – Coitada! Francesa! Tão loira! Tão linda! Mas essa menina… quem foi que a educou! Coitada! Francesa! Que pernas! Que meias! Naturalmente fecho de ouro na liga… Se não tiver dou eu! Tão linda! Tão loira! Coitada! Francesa!
Mulher (debruçada aos cravos protegida pelo marido, virando-se pro coral) – Foi ela que me quis bater!
Coro dos senhores casados – Não é verdade! As francesas não sabem fazer isso!
Coro das senhoras casadas – É mentira! As amantes não sabem fazer isso!
Mulher – É verdade. Quis me esganar porque amo meu marido.
Amante (sempre no chão erguendo os braços entre os resposteiros flamejantes) – Ela roubou o meu collage! O homem que eu amo! que eu adoro!
Coro das senhoras idosas – Ridículo! Ridículo! Roubar o amante da francesa porque então! Pois não tem tantos por aí? Não saber se conformar com a civilização!… Ridículo! Ridículo! Gente de hoje não sabe se conter!
Coro dos senhores idosos – Que escândalo! Que escândalo! Amar dessa maneira o seu próprio marido!… Mas quem diria que hoje em dia inda apareceria uma tão crassa velharia!… Que escândalo! Que escândalo! Amar dessa maneira o seu próprio marido!
Marido – Que é que os senhores têm com isso!
Coro das senhoras casadas – Impertinente! Impertinente!
Mulher (onça) – Impertinentes são vocês!
Coro dos senhores casados – Afastemos esse par escandaloso! Tão mau exemplo não pode aqui florir! Vamos! Fora a mulher que ama o marido!
Coro das senhoras casadas – Vamos! Fora o marido que ama a esposa!
Coro dos senhores idosos – Vamos! Fora!
Coro das senhoras idosas – Vamos! Fora!
Coro dos senhores casados – Fora! Fora!
Coro das senhoras casadas – Fora! Fora!
Coros de senhoras e senhores idosos – Fó-fó-fó-ra!
Coros de senhoras e senhores casados – Fó-fó-fó-fó-ra!
O quarteto coral (fortíssimo) – Fó-fó-fó-ra! Fó-fó-fó-ra! Vamos! Vamos! Vá-v á-v á-v á-v á-vamos! Fó-fó-fó-fór a! Vá-Fó-Vá-Fó-vá-vá-vá-Fó-fó-fó-mos-ra! Vá-Fó-mos! ra-Mos-rá! ra! Fó-fó-Vá-vá-ra! mos! ra! mos! ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-raaaaaaaaaaaaaaaaaaáá!…
(Aplausos frenéticos da assistência)
Marido – Vamos embora, Jojoca!
Marido e mulher (com os olhos grudados no maestro) – Adeus! Adeus! Adeus! oh Civilização! Vamos livrar o nosso amor maravilhoso do teu contágio pernicioso! Nós queremos a honestidade! Nós queremos ter filhos! E nós cremos no Código Civil! Lá longe dentro dos matos americanos onde os chocalhos das cascavéis charram, onde zumbem milhões de insetos venenígeros seguiremos o conselho de Rousseau, de João Jaques Rousseau e segundo as bonitas teorias do sr. Graça Aranha nos integraremos no Todo Universal! (Vão-se embora. A Amante desesperada estende os braços pro par que desapareceu. Senta-se pra ficar mais à vontade e entoa a Cavatina da Abandonada. Dá perspectiva à Cavatina um arreglo do Matuto de Marcelo Tupinambá pra flauta, 3 violões e gramofone).
CAVATINA DA ABANDONADA
Oh! meu amante, vem! Vem de novo, feliz, despreocupado e belo, para o reino de luz dos meus abraços, dos meus beijos! Partes então?… E para sempre! E os nossos dias de felicidade imaculada: calca-los tu aos pés! Oh! meu amante, vem! (soluços sincopados do coral) Já te esqueceste pois, dos bons dias alegres, em que, entre os jasmineiros do jardim, na vivenda clandestina, eu te esperava, com Pompom pompeando nos meus joelhos! Oh! Meu amante ingrato! Escuta – ainda uma vez! – a voz da Abandonada!… O meu peito biparte-se em soluços desesperados! As minhas brancas mãos, que já dormiram pousadas nos teus flancos brandos, mordem-se, agora, torturadas, martirizam-se, agora, desdenhadas! Que farei? Dos tesouros perfeitos do meu Corpo! das riquezas inesgotáveis da minha Alma! (Pois que o meu amante me deixou?)! Para que servem mais estes dedos róseos? Se não podem brincar nos teus cabelos? Oh! Amante infiel! Onde pousarão “meus braços serpentinos”, se o teu pescoço se lhes não oferta mais!?… e os meus seios, então? – travesseiro divino! – onde tantas (e tantas!) noites inesquecíveis, tu sonhaste, infiel! o teu sonho mais puro, e, dormiste, ingrato! o teu sono mais manso!…? Ah! Pérfido! Se os teus não lhes respondem mais, para sempre!!!!!!! meus beijos emurchecerão! Triste! Triste! da abandonada!… As trevas, já, escurecem os olhos meus… (Os meus soluços aumentam.) Fantasmas amigos me rodeiam, e antevendo a futuro, eu quase sou feliz… Sombras nuas! Sois vós, amigas minhas?… Aí? (Sorrio encantada!) És tu, Cleópatra! Minha Aspásia querida? Manon beija meus olhos! Elisabeth de Inglaterra!…! A marquesa de Santos ampara-me a cabeça e Elsa Lasker Schüller canta… os seus Lieder para o meu dormir… (Sinto que vou morrer). Brisas meigas da praia! Ondas glaucas do mar! levai ao meu amante ingrato! Àquele que: me mata, e que eu adoro, o derradeiro adeus da Abandonada; (!) os últimos sus! (gagueja soluçante) piros da infeliz, que vai morrer. “!”. (Morre. O coro das senhoras idosas com gestos chaplineanos de deploração estende sobre a morta um grande manto branco. Os coros de senhores idosos e senhores casados dançam em torno do cadáver um hiporquema grave e gracioso desfolhando sobre a Amante as 20 dúzias de cravos que o smoking fora buscar das mãos da mulher e repartira entre eles. As senhoras casadas desnastrando as respectivas comas sobre o rosto levantam nos ombros alvíssimos aquela que sempre viva se conservará na memória dos mortais. E então tendo na frente um abundantíssimo jazz que executa a Marcha Fúnebre de Chopin, op. 35, o cortejo desfila, desfilará pela terra inteira e civilizações futuras até a vinda por todos os humanos desejada do Anticristo).
SALUS LACTA
GUARANÁ ESPUMANTE
BELLA COR DUNLOP
1929 [1943]
Desta vez vamos entrar no mato-virgem. Engraçado… se a gente fosse especificar um pouco mais o desenvolvimento social do interior paulista, podíamos reconhecer a existência duma fase digna de ser apelidada “civilização de delegado”. Houve um momento em nossa vida, em que uma espécie de criação de vergonha nos elementos de carreira, fez com que os delegados decidissem acabar com os caudilhismos locais. Pelo menos na manifestação escravocrata, dona de vida e de morte que esse caudilhismo tinha. Se a infâmia pouco ou nada mudou e tende mesmo, agora, a se intensificar como revide às Oposições aparecendo, pelo menos os senhores de escravos mudaram de nome, ficaram se chamando “chefes políticos”. E essa mudança de nome parece que satisfez inteiramente o nosso povo frouxo…
Pois foi nos princípios dessa “civilização de delegado” que o imperialismo do Sanches crepitava lá no sertão, lados de Campos Novos. Ele bem que tinha mandado falar pro Marciano que cerca é cerca, e não deixasse mais gado passar de campo. Marciano era outro abonado do bairro e também gozava sua fama. O fato é que afrouxou. Um belo dia os bois-de-carro dele, cinco juntas barrosas, foram dar no jaraguá do Sanches. O malvado soube e não perdeu tiro: dez furinhos na testa da boizada.
O delegado esperou queixa e, como esta não viesse, mandou chamar Marciano.
— Seu Marciano, eu estou aqui pra cumprir a justiça e acabar com os abusos dos caudilhos!
— Sim senhor, seu delegado.
— Então, seu Marciano, o senhor perdeu todos os bois-de-carro?
— Perdi sim, seu delegado.
— O senhor sabe muito bem do que morreram os bois!
— Sim senhor.
— E não quer dar queixa!
— Queixa do quê?
— Mas… do que sucedeu!
— Foi de erva, seu delegado.
— Ora, seu Marciano, toda gente viu os furos!
— Furo eles tinham sim, mas foi de erva.
O diálogo se espalhou fácil e Sanches soube. Não sei se gozou. Sorrir, não podia sorrir porque tinha boca de escultura, feita séria pra todo o sempre, mas quando foi ali pela noitinha apareceu na casa de Marciano. Ficaram no galpão até de noite, conversa vai, conversa vem, frases soltas porque eram homens de pouca fala. Afinal Sanches ofereceu pra racharem o prejuízo. Marciano respondeu que o que passou. Ũa amizade antiga nasceu entre os dois. Sempre arredios ambos, agora, quando senão quando um surgia na casa do outro, café, e fumo pra que mais fumo falando casado no ar o que os dois homens sentiam sem dizer.
Uma feita Marciano foi buscar uma ponta de gado longe e o grupo dele topou com os bugres. Escaparam só dois pra vir contar o caso, como se diz. Sanches chamou os tais e fez um interrogatório mesmo de meticuloso. Ficou parafusando, de olho caído. Depois, parece que os olhos dele riram, quando acendeu cigarro pra falar com segurança:
— Marciano não morreu.
— Qual! seu Sanches… a estas horas já está voando em tripa de urubu!
— Se escapou no encontro, depois não morria mais. Marciano sabe mato.
Entrou em casa.
— Felizmente que era solteiro, consolou a mulher.
Porém tanto cigarrão um depois do outro, inquietavam a dona. Sanches estava olhando muito fixo e Dasdores conhecia o marido. Afinal ele se ergueu. Pigarreou e, não era pra dar satisfação não, era de-certo pra firmar bem a vontade:
— Vou buscar Marciano.
Dasdores tomou com um baque fundo no sentimento, baque afinal esperado… Continuou no serviço. E os dias em que ela ia se emparedar na inquietação, tinha de ser!…
Foi uma bandeira em regra, equipamento completo e dezoito companheiros decididos. Dasdores arranjou tudo, trabalhou feito burro esses dias pra no fim só ganhar aquele abracinho meio de banda na partida. Também a idade e a filharada não davam pra mais!
Depois: o emparedamento na inquietação datava nela do instante em que o Sanches resolvera partir. Mulher do Brasil antigo era assim mesmo: branco ou preto. Donas rijas de não se ser mais, a sutileza sempre andou de pique com elas. Não sabiam os aumentos da saudade nem a diminuição dos gostos. Ou bem era saudade ou bem gosto. Feito aqueles órgãos medievais que não tinham meios pra registrar nem crescendos nem diminuindos, as donas do Brasil antigo conheciam só o forte e o piano. E os homens paulistas que tocaram nesses órgãos, chê! não sabiam fazer ralentando não. Se a música se acabava, se acabava duma vez. Quando Dasdores entendeu que o homem dela partia, ele partiu. Estava ali, que nada! estava mas já partido, correndo o mistério do mato. E a pobre se emparedara na inquietação. Nem bem inquietação! era viuvez e luto eterno pelo defunto marido. Por isso pra Dasdores não foi mais que um bater de quatro horas, quando a bandeira partiu rumo do poente.
Nem bem fez semana daquela viagem penosa, campeando por todo lado, quem sabe se não estará ferido no rancho de tropa de Santa Cruz? batiam pra Santa Cruz e nada, quando fez semana assim, chegaram no lugar da briga. Sanches parou muito, examinando tudo. Ossos espalhados, com fiapos de carne ressequida. Na sapopemba duma árvore muitos ossinhos lascados.
— Isso é de pé, Sanches falou.
— Como que mecê sabe? perguntou o companheiro mais de confiança.
— Bugre mata pra roubar. Porém não aprendeu a tirar bota de pé. Corta a perna junto do cano e depois vai cavocando a carne.
— Nossa Senhora!
— Depois a bota serve de chapéu nas danças, ou pra enfeite de cintura.
— Por que não calçam!
— Não vê que índio deixa de tocar pé no chão. Só o pé já conta muita coisa pra ele.
Seguiram assuntando na serrapilheira algum traço de bugre. Sanches dirigia seguro a caminhada. Uma ocasião, era num cerrado ruim de atravessar, um do grupo exclamou:
— Uma botina!
E Sanches:
— Não falei? Marciano está vivo. Se é botina, é dele que não gosta de bota.
— Pode ser de Marciano porém só botina, fala mais é que ele está morto, pai.
— Fala que está vivo, Galdino.
Foram andando. Então Sanches ensinou:
— Botina caiu por debaixo da urtiga, bugre não viu. Marciano sabe que bugre mata só pra tirar roupa. Foi fugindo, foi tirando a roupa e deixando no caminho pra eles pegarem. Gente nu, bugre escraviza só, não mata.
E parou, fatigado de falar tanto duma vez.
A capoeira descambava pra um banhado tijuquento que careceu beirar. Sanches continuava no cherloquismo sertanejo, reparando em tudo. Toparam com uns rastos de gente de pé-no-chão, eram os índios. De repente Sanches agachou mostrando um rasto só.
— Pé de Marciano.
— Vassuncê até parece feiticeiro, credo! Como que sabe que é pé de Marciano!
— Gente que anda de pé-no-chão não firma assim no calcanhar, firma na frente. Veja esse outro como está fundo nos dedos.
— Ara, ara…
— E veja os dedos, João. Dedo junto assim, só de quem anda calçado. De indício em indício, penaram mais três dias na mesma. Perderam rasto de Marciano, porém sempre, de longe em longe, algum sinal de bugre aparecia; e um gosto silencioso de caçada, desumanizara por completo a procura. Afinal uma tarde a voz de Sanches se afobou um bocadinho:
— Passaram aqui a noite.
Já então os companheiros estavam acostumados a esperar pela prova da afirmativa, sem perguntar nada. Sanches pegou numa ponta de cigarro francamente nova ainda.
— É mesmo, sussurrou Galdino como temendo que os bugres escutassem, porém como vassuncê sabe que era de-noite, pai?
— O cigarro foi feito de-noite, a palha está no avesso, veja.
Foi então que uma seta desajeitada, de quem atira escondido, veio fraca bater na cinta de Galdino. Sanches pulou de banda puxando o filho, e caiu agachado por detrás duma árvore. Um assobio duro furou a tarde, e logo uma zoada medonha duns vinte bugres gritando, pulando pra amedrontar. E a chuvada de flechas no pessoal. Nem sei como não fugiram. Mas logo um tiro do Sanches visitou o órgão da vista dum marmanjo quarentão, nu todinho. Foi um esparramo na bugrada. E se não fosse a energia do Sanches gritando pelo pessoal, creio que o estratagema dos bugres dava certo, os campeiros se apartavam uns dos outros, se perdiam, e daí era só dar cabo dum por um, porque isso de matar à traição pra bugre é jogar castanha.
Quando o sossego entrou de novo em vida, os dezoito ali, só dois mesmo estavam bem feridos, um na perna, outro no braço. Carecia ver mas era se as flechas não estavam ervadas. Quanto aos bugres, muito balázio isso haviam de ter carregado, além dos dois ficados já no outro mundo, e mais ainda aquele rapazinho morremorrendo com o tiro na barriga. Deram cabo dele a pontapés.
Mas o posto já estava muito sabido pra ficarem mesmo ali. Curaram malemal as feridas e, carregando o capenga, foram amoitar a um quilômetro, num lugar onde o mato era que nem nó-cego, de tanto cipó. Ficaram lá pra ver o que sucedia com os feridos. Era de esperar que nada, por causa das simpatias e contravenenos. E de fato; só o capenga tomou com uma febrinha sem tremor quando a lua entrou.
A noite, passaram se revezando na espreita. Não veio nada. Só o quiriri negro da mata. O vento murmuriava lá em cima do arvoredo numa varredura cheirando pó. O mato estalava de seco resvalando na asa dos morcegos. Berros… Os berros mesmo do sertão que eles sabiam decor. Tudo parecendo perto e tudo enorme.
Quando se soube da manhã, toda a gente levantou. De-certo era por ali mesmo o mocambo, porque tinham enxergado muito bem mulheres na indiada. E afinal, a razão conhecida era que tinham vindo em busca de Marciano, mas se aquela gente fosse capaz de se analisar, a verdade é que tinham vindo matar bugre, nada mais. Estavam ferozes e completamente caçadores.
Sanches com Galdino comiam, mais apartados, um pouco de paçoca e ouviram de repente um pio de inambu. Sanches quase bateu no filho pra este não falar. O silêncio durou de-certo uns cinco minutos, e o pio varou de novo o espaço, com mais coragem. Sanches colou quase a cabelaça amarelenta do bigode na orelha do filho:
— Nambu não pia em abril, vamos ver.
Deram aviso pros homens, e se dirigiram pros lados do pio. Iam de mansinho. Pela terceira vez o inambu piou, mais forte agora, como um chamado inquieto. Estavam numa vertente doce do espigão. Da vertente fronteira, bem mais longe, outro inambu secundou ao chamado do companheiro. Os dois homens iam descendo com muito cuidado pra não fazer bulha. Era quase impossível isso, por causa da serrapilheira estar seca, porém Sanches, em vez de endireitar pro pio, descia procurando o fundo da vertente. Queria pegar o terreno úmido em baixo, quem sabe se algum corgo? pra andar com menos bulha no podrume das folhas ou n'água. Dito e feito: resvalaram entre as árvores, e lá em baixo vertia uma aguinha que era um fio apenas. Então quebraram pra esquerda, se dirigindo pro pio. Chegaram num lugar onde o terreno caía brusco, fazendo de-certo uma cascatinha em tempo de mais água que naquele ano de seca. O pio respondedor, na outra vertente, nasceu cem passos talvez dali. Se agacharam, e foram de rastro, avançando com lentidão. De repente Sanches parou. Galdino se arrastou pra junto dele, maltratado pelos gestos de cuidado que o pai fazia. Estavam no alto da depressão, em pleno leito do corgo, entre avencas. Nas margens o terreno despencava jeitoso, numa descida rápida cheia de arbustos.
Então, olhando pra onde o pai mandava, em baixo, a uns cinco metros só, Galdino enxergou um bugre. Com o tombo da cascatinha, a água fizera lá um pouco de leito, e agora o fio dela corria no fundo dum barranco. Caído no alto do barranco, o bugre não mexia. Estava ardendo de sede, com os olhos lambendo a aguinha inatingível. Nisto fez um jeito de atenção, assuntando a outra margem. Os brancos olharam também. Surgiu de arrasto, entre as canaranas, uma bugra nova, de-certo a que secundava aos pios do outro. O companheiro olhou salvo pra ela. Se arrastando sempre, a índia afinal chegou na beira do barranco. Fez força, deixou-se cair com uma bulha de água espirrada no leito do corgo. Deu um gemido insuportável, e a careta que esboçou foi medonha de dor. O corpo, os braços movia bem. Tinha tomado com uma bala na perna ou no pé direito, não podia andar. Foi se erguendo, agarrada nas canaranas, esfregando o corpo no barranco e pôde chegar com a cara na cara do homem. Um gesto não sei se de carinho, se fadiga, ela fez; encostou a cara na cara do companheiro. O bugre é que não quis saber! Falando com raiva, tirou a cara de encostar na da índia e deu um bruto munhecaço na cabeça dela. A pobre caiu de novo com o empurrão, enquanto o macho silvava um ronco de dor, e abria uns olhões quase tamanhos como os das nossas moças. Parecia ferido na espinha, nem sei!
Principiou uma cena desgraçada. A bugra estava fatigadíssima, não podia se erguer sem se ajudar com as mãos. Se suspendia um bocado com a direita só, trazendo na concha da esquerda água pro companheiro. Mas caía. Quando não caía, no meio do erguimento já não tinha mais água na mão. Uma vez até andou dando viravoltas suspensa nas canaranas e afinal tombou com um pedaço grande de barranco a mais. Assim não ia mesmo. Andou olhando em volta, desesperada pela raiva do bugre. De-certo procurava alguma folha larga, não havia, só avencas. A índia se ergueu de novo no barranco. Segurou forte na canarana com a mão esquerda e se abaixando, tentou guardar água na concha da direita, porém corpo não dava assim, e quando ela quis mudar a mão esquerda pras canaranas bem da borda, o barranco esboroou, e ela estendeu de novo, com dores tão temíveis que o gemido subiu vivo até os brancos. O bugre então falou quase alto, de tanta impaciência. Estava morrendo. E batia com a cabeça dum lado pra outro, pavoroso de sofrimento. A índia não sabia o que fazer, ficou feito zonza, apertava a perna ferida bem no joelho, oscilava com o corpo a perplexidade que tinha no espírito. Teve de supetão este gesto: botou a boca no chão, encheu as bochechas de água, e se erguendo depressa com mãos e perna e corpo, juntou boca com boca, deu de beber pro bugre. Tornou a fazer o mesmo, e fez assim três vezes. Quarta não pôde fazer mais, de bala do Sanches dizem que ninguém escapou até agora. Até contaram que foi uma bala só pros dois, não creio…
Isso foi só pano-de-amostra de ũa matança em regra que somou duas dúzias de bugres, contando os curumins, e não contando o que apareceu pela metade e temporão no ventre da mãe morrendo. Dias depois deram com o mocambo, que era numa aberta artificial do mato. Cerco bem feito e tiro em pleno sol das 14 horas.
Então a bandeira voltou pra Campos Novos. Inútil perguntar por Marciano, jamais ninguém saíra em busca de Marciano, um defunto. Voltavam felizes com bem rapidez, e muita coisa pra satisfazer por dentro. E por fora também, com as pabulagens!… E o mato-virgem que em toda a parte do mundo sempre guarda numerosíssimos indícios de civilização pros olhos misteriosos dos exploradores, não dava mais pro grupo as marcas vivas de Marciano, com que na ida eles alimentavam a felicidade de matar.
1939 [1943]
Chegáramos à sobremesa daquele meu primeiro almoço no engenho e embora eu não tivesse a menor intimidade com ninguém dali, já estava perfeitamente a gosto entre aquela gente nordestinamente boa, impulsivamente generosa, limpa de segundos pensamentos. E eu me pus falando entusiasmado nos estudos que vinha fazendo sobre o folclore daquelas zonas, o que já ouvira e colhera, a beleza daquelas melodias populares, os bailados, e a esperança que punha naquela região que ainda não conhecia. Todos me escutavam muito leais, talvez um pouco longínquos, sem compreender muito bem que uma pessoa desse tanto valor às cantorias do povo. Mas concordando com efusão, se sentindo satisfeitamente envaidecidos daquela riqueza nova de sua terra, a que nunca tinham atentado bem.
Foi quando, estávamos nas vésperas do Natal, da “Festa” como dizem por lá, sem poder supor a possibilidade de uma rata, lhes contei que ainda não vira nenhum pastoril, perguntando se não sabiam da realização de nenhum por ali.
— Tem o da Maria Cuncau, estourou sem malícia o Astrogildo, o filho mais moço, nos seus treze anos simpáticos e atarracados, de ótimo exemplar “cabeça chata”.
Percebi logo que houvera um desarranjo no ambiente. A sra. dona Ismália, mãe do Astrogildo, e por sinal que linda senhora de corpo antigo, olhara inquieta o filho, e logo disfarçara, me respondendo com firmeza exagerada:
— Esses brinquedos já estão muito sem interesse por aqui… (As duas moças trocavam olhares maliciosos lá no fundo da mesa, e Carlos, a esperança da família, com a liberdade dos seus vinte-e-dois anos, olhava a mãe com um riso sem ruído, espalhado no rosto). Ela porém continuava firme: pastoril fica muito dispendioso, só as famílias é que faziam… antigamente. Hoje não fazem mais…
Percebi tudo. A tal de Maria Cuncau certamente não era “família” e não podia entrar na conversa. Eu mesmo, com a maior naturalidade, fui desviando a prosa, falando em bumba-meu-boi, cocos, e outros assuntos que me vinham agora apenas um pouco encurtados pela preocupação de disfarçar. Mas o senhor do engenho, com o seu admirável, tão nobre quanto antediluviano cavanhaque, até ali impassível à indiscrição do menino, se atravessou na minha fala, confirmando que eu deveria estar perfeitamente à vontade no engenho, que os meus estudos haviam naturalmente de me prender noites fora de casa, escutando os “coqueiros”, que eu agisse com toda a liberdade, o Carlos havia de me acompanhar. Tudo sussurrado com lentidão e uma solicitude suavíssima que me comoveu. Mas agora, com exceção do velho, o malestar se tornara geral. A alusão era sensível e eu mesmo estava quase estarrecido, se posso me exprimir assim. Por certo que a Maria Cuncau era pessoa de importância naquela família, não podia imaginar o que, mas garantidamente não seria apenas alguma mulher perdida, que causasse desarranjo tamanho naquele ambiente.
Mas foi deslizantemente lógico todos se levantarem pois que o almoço acabara, e eu senti dever uma carícia à sra. dona Ismália, que não podia mais evitar um certo abatimento naquele seu mutismo de olhos baixos. Creio que fui bastante convincente, no tom filial que pus na voz pra lhe elogiar os maravilhosos pitus, porque ela me sorriu, e nasceu entre nós um desejo de acarinhar, bem que senti. Não havia dúvida: Maria Cuncau devia ser uma tara daquela família, e eu me amaldiçoava de ter falado em pastoris. Mas era impossível um carinho entre mim e a dona da casa, apenas conhecidos de três horas; e enquanto o Carlos ia ver se os cavalos estavam prontos para o nosso passeio aos partidos de cana, fiquei dizendo coisas meio ingênuas, meio filiais à sra. dona Ismália, jurando no íntimo que não iria ao Pastoril da Maria Cuncau. E como num momento as duas moças, ajudando a criadinha a tirar a mesa, se acharam ausentes, não resisti mais, beijei a mão da sra. dona Ismália. E fugi para o terraço, lhe facilitando esconder as duas lágrimas de uma infelicidade que eu não tinha mais direito de imaginar qual.
O senhor do engenho examinava os arreios do meu cavalo. Lhe fiz um aceno de alegria e lá partimos, no arranco dos animais fortes, eu, o Carlos, e mais o Astrogildo num petiço atarracado e alegre que nem ele. A mocidade vence fácil os malestares. O Astrogildo estava felicíssimo, no orgulho vitorioso de ensinar o homem do sul, mostrando o que era boi, o que era carnaúba; e das próprias palavras do mano, Carlos tirava assunto pra mais verdadeiros esclarecimentos. Maria Cuncau ficara pra trás, totalmente esquecida.
Foram três dias admiráveis, passeios, noites atravessadas até quase o “nascer da bela aurora”, como dizia a toada, na conversa e na escuta dos cantadores da zona, até que chegou o dia da Festa. E logo a imagem da Maria Cuncau, cuidadosamente escondida aqueles dias, se impôs violentamente ao meu desejo. Eu tinha que ir ver o Pastoril de Maria Cuncau. O diabo era o Carlos que não me largava, e embora já estivéssemos amigos íntimos e eu sabedor de todas as suas aventuras na zona e farras no Recife, não tinha coragem de tocar no assunto nem meios pra me desvencilhar do rapaz. Nas minhas conversas com os empregados e cantadores bem que me viera uma vontadinha de perguntar quem era essa Maria Cuncau, mas se eu me prometera não ir ao Pastoril da Maria Cuncau! por que perguntar!… Tinha certeza que ela não me interessava mais, até que com a chegada da Festa, ela se impusera como uma necessidade fatal. Bem que me sentia ridículo, mas não podia comigo.
Foi o próprio Carlos quem tocou no assunto. Delineando o nosso programa da noite, com a maior naturalidade deste mundo, me falou que depois do Bumba que viria dançar de-tardinha na frente da casa-grande, daríamos um giro pelas rodas de coco, fazendo hora pra irmos ver o Pastoril da Maria Cuncau. Olhei-o e ele estava simples, como se não houvesse nada. Mas havia. Então falei com minha autoridade de mais velho:
— Olhe, Carlos, eu não desejava ir a esse pastoril. Me sinto muito grato à sua gente que está me tratando como não se trata um filho, e faço questão de não desagradar a… a ninguém.
Ele fez um gesto rápido de impaciência:
— Não há nada! isso é bobagem de mamãe!… Maria Cuncau parece que… Depois ninguém precisa saber de nada, nós voltamos todos os dias tarde da noite, não voltamos?… Vamos só ver, quem sabe se lhe interessa… Maria Cuncau é uma velha já, mora atrás da “rua”, num mocambo, coitada…
E veio a noitinha com todas as suas maravilhas do nordeste. Era uma noite imensa, muito seca e morna, lenta, com aquele vaguíssimo ar de tristeza das noites nordestinas. O bumba-meu-boi, propositalmente encurtado pra não prender muito a gente da casa-grande, terminara lá pela meia-noite. A sra. dona Ismália se recolhera mais as filhas e a raiva do Astrogildo que teimava em nos acompanhar. O dono da casa desde muito que dormia, indiferente àquelas troças em que, como lhe escapara numa conversa, se divertira bem na mocidade. Retirado o grande lampião do terraço, estávamos sós, Carlos e eu. E a imensa noite. O pessoal do engenho se espalhara. Os ruídos musicais se alastravam no ar imóvel. Já desaparecera nalguma volta longe do caminho, o rancho do Boi que demandava a rua, onde ia dançar de novo o seu bailado até o raiar do dia. Um “chama” roncava longíssimo, talvez nalgum engenho vizinho, nalguma roda de coco. As luzes se acendiam espalhadas como estrelas, eram os moradores chegando em suas casas pobres. E de repente, lá para os lados do açude onde o massapê jazia enterrado mais de dois metros no areão, desde a última cheia, depois de uns ritmos debulhados de ganzá, uma voz quente e aberta, subira noite em fora, iniciando um coco bom de sapatear.
Olê, rosera,
Murchaste a rosa!…
Era sublime de grandeza. A melancolia da toada, viva e ardente, mas guardando um significado íntimo, misterioso, quase trágico de desolação, casava bem com a meiga tristeza da noite.
Olê, rosera,
Murchaste a rosa!…
E as risadas feriam o ar, os gritos, o coco pegara logo animadíssimo, aquela gente dançava, sapateava na dança, alegríssima, o coro ganhava amplidão no entusiasmo, as estrelas rutilavam quase sonoras, o ar morno era quase sensual, tecido de cheiros profundos. E era estranhíssimo. Tudo cantava, Cristo nascia em Belém, se namorava, se ria, se dançava, a noite boa, o tempo farto, o ano bom de inverno, vibrava uma alegria enorme, uma alegria sonora, mas em que havia um quê de intensamente triste. E um solista espevitado, com uma voz lancinante, própria de aboiador, fuzilava sozinho, dilacerando o coro, vencendo os ares, dominando a noite:
Vô m'imbora, vô m'imbora
Pá Paraíba do Norte!…
E o coro, em sua humanidade mais serena:
Olê, rosera,
Murchaste a rosa!…
Nós caminhávamos em silêncio, buscando o Pastoril e Maria Cuncau. Minha decisão já se tornara muito firme pra que eu sentisse qualquer espécie de remorso, havia de ver a Maria Cuncau. E assim liberto, eu me entregava apenas, com delícias inesquecíveis, ao mistério, à grandeza, às contradições insolúveis daquela noite imensa, ao mesmo tempo alegre e triste, era sublime. E o próprio Carlos, mais acostumado e bem mais insensível, estava calado. Marchávamos rápido, entregues ao fascínio daquela noite da Festa.
A rua estava iluminada e muita gente se agrupava lá, junto a casa de alguém mais importante, onde o rancho do boi bailava, já em plena representação outra vez. Entre duas casas, Carlos me puxando pelo braço, me fez descer por um caminhinho cego, tortuoso, que num aclive forte, logo imaginei que daria nalgum riacho. Com efeito, num minuto de descida brusca, já mais acostumados à escuridão da noite sem lua, pulávamos por umas pedras que suavemente desfiavam uma cantilena de água pobre. Era agora uma subida ainda mais escura, entre árvores copadas, junto às quais se erguiam como sustos, uns mocambos fechados. Um homem passou por nós. E logo, pouco além, surgiu por trás dum dos mocambos, uma luz forte de lampião batendo nos chapéus e cabeleiras de homens e mulheres apinhados juntos a uma porta. Era o mocambo de Maria Cuncau.
Chegamos, e logo aquela gente pobre se arredou, dando lugar para os dois ricos. Num relance me arrependi de ter vindo. Era a coisa mais miserável, mais degradantemente desagradável que jamais vira em minha vida. Uma salinha pequeníssima, com as paredes arrimadas em mulheres e crianças que eram fantasmas de miséria, de onde fugia um calor de forno, com um cheiro repulsivo de sujeira e desgraça. Dessa desgraça horrível, humanamente desmoralizadora, de seres que nem sequer se imaginam desgraçados mais. Cruzavam-se no teto uns cordões de bandeirolas de papel de embrulho, que se ajuntavam no fundo da saleta, caindo por detrás da lapinha mais tosca, mais ridícula que nunca supus. Apenas sobre uma mesa, com três velinhas na frente grudadas com seu próprio sebo na madeira sem toalha, um caixão de querosene, pintado no fundo com uns morros muito verdes e um céu azul claro cheio de estrelas cor-de-rosa, abrigava as figurinhas santas do presépio, minúsculas, do mais barato bricabraque imaginável.
O pastoril já estava em meio ou findava, não sei. Dançando e cantando, aliás com a sempre segura musicalidade nordestina, eram nove mulheres, de vária idade, em dois cordões, o cordão azul e o encarnado da tradição, com mais a Diana ao centro. O que cantavam, o que diziam não sei, com suas toadas sonolentas, de visível importação urbana, em que a horas tantas julguei perceber até uma marchinha carioca de carnaval.
Mas eu estava completamente desnorteado por aquela visão de miséria degradada, perseguido de remorsos, cruzado de pensamentos tristes, saudoso da noite fora. E arrependido. Tanto mais que a nossa aparição ali, trouxera o pânico entre as mulheres. Se antes já trejeitavam sem gosto, no monótono cumprimento de um dever, agora que duas pessoas “direitas” estavam ali, seus gestos, suas danças, se desmanchavam na mais repulsiva estupidez. Todas seminuas com uns vestidos quase trapos, que tinham sido de festas e bailes muito antigos, e com a grande faixa azul ou encarnada atravessando do ombro à cintura, braços nus, os colos magros desnudados, em que a faixa colorida apertava a abertura dos seios murchos. Mais que a Diana central, rapariguinha bem tratada e nova, quem chamava a atenção era a primeira figura do cordão azul. Seu vestido fora rico há vinte anos atrás, todo inteirinho de lantejoulas brilhantes, que ofuscavam contrastando com os outros vestidos opacos em suas sedinhas ralas. Essa a Maria Cuncau, dona do pastoril e do mocambo.
Fora, isto eu sube depois, a moça mais linda da Mata, filha de um morador que voltara do sul casado com uma italiana. Dera em nada (e aqui meu informante se atrapalhou um bocado) porque um senhor de engenho, naquele tempo ainda não era senhor de engenho não, a perdera. Tinha havido facadas, o pai, o João Cuncau morrera na prisão, ela fora mulher-dama de celebridade no Recife, depois viera pra aquela miséria de velhice em sua terra, onde pelo menos, de vez em quando, às escondidas, o senhor de engenho, dinheiro não mandava não, que também já tinha pouco pra educar os filhos, mas enfim sempre mandava algum carneiro pra ela vender ou comer.
Maria Cuncau, assim que nos vira, empalidecera muito sob o vermelho das faces, obtido com tinta de papel de seda. Mas logo se recobrara, erguera o rosto, sacudindo pra trás a violenta cabeleira agrisalhada, ainda voluptuosa, e nos olhava com desafio. Rebolava agora com mais cuidado, fazendo um esforço infinito pra desencantar do fundo da memória, as graças antigas que a tinham celebrizado em moça. E era sórdido. Não se podia sequer supor a sua beleza falada, não ficara nada. A não ser aquele vestido de lantejoulas rutilantes, que pendiam, num ruidinho escarninho, enquanto Maria Cuncau malhava os ossos curtos, frágil, baixinha, olhos rubescentes de alcoolizada, naquele reboleio de pastora.
Quando dei tento de mim, é que a coisa acabara, com uns fracos aplausos em torno e as risadas altas dos homens. As pastoras se dispersavam na sala, algumas vinham se esconder no sereno, passando por nós de olhos baixos, encabuladíssimas. Carlos, bastante inconsciente, examinava sempre os manejos da Diana moça, na sua feroz animalidade de rapaz. Mas eu lhe tocava já no braço, queria partir, me livrar daquele ambiente sem nenhum interesse folclórico, e que me repugnava pela sordidez. Maria Cuncau, que fingindo conversar com as mulheres da sala, enxugava muito a cara, nos olhando de soslaio, adivinhou minha intenção. Se dirigiu francamente pra nós e convidou, meio apressada mas sem nenhuma timidez, com decisão:
— Os senhores não querem adorar a lapinha!…
De-certo era nisso que todas aquelas mulheres pensavam porque num segundo vi todas as pastoras me olhando na sala e as que estavam de fora se chegando à janelinha pra me examinar. Percebi logo a finalidade do convite, quando cheguei junto da lapinha, enquanto o Carlos se atrasava um pouco, tirando um naco desajeitado de conversa com a Diana. Os outros assistentes também desfilavam junto ao presépio, parece que rezavam alguma coisa, e alguns deixavam escorregar qualquer níquel num pires colocado bem na frente do Menino-Deus. Fingi contemplar com muito respeito a lapinha, mas na verdade estava discutindo dentro comigo quanto daria. Já não fora pouco o que o rancho do Boi me levara, e aliás as pessoas da casa-grande estavam sempre me censurando pelo muito que eu dava aos meus cantadores. Puxei a carteira, decidido a deixar uns vinte mil-réis no pires. Seria uma fortuna entre aqueles níqueis magriços em que dominava uma única rodela mais volumosa de cruzado. Porém, se ansiava por sair dali, estava também muito comovido com toda aquela miséria, miséria de tudo. A Maria Cuncau então me dava uma piedade tão pesada, que já me seria difícil especificar bem se era comiseração se era horror.
Sinto é maltratar os meus leitores. Este conto que no princípio parecia preparar algum drama forte, e já está se tornando apenas uma esperança de dramazinho miserável, vai acabar em plena mesquinharia. Quando puxei a carteira, decidido a dar vinte mil-réis, a piedade roncou forte, tirei com decisão a única nota de cinquenta que me restava da noite e pus no pires. Todos viram muito bem que era uma nota, e eu já me voltava pra partir, encontrando o olho de censura que o Carlos me enviava. O mal foi um mulatinho esperto, não sei se sabia ler ou conhecia dinheiro, que estava junto de mim, me devorando os gestos, extasiado. Não pôde se conter, casquinou uma risada estrídula de comoção assombrada, e apenas conseguiu ainda agarrar com a mão fechada a enorme palavra-feia que esteve pra soltar, gritou:
— Pó… cincoentão!
Foi um silêncio de morte. Eu estava desapontadíssimo, ninguém me via, ninguém se movia, as pastoras todas estateladas, com os olhos fixos no pires. Carlos continuava parado, esquecido da Diana que também não o via mais, olhava o pires. E ele sacudia de leve o rosto para os lados, me censurando.
— Vamos, Carlos.
E nos dirigimos para a porta da saída. Mas nisto, aquela pastora do cordão encarnado que estava mais próxima da lapinha, num pincho agílimo (devia estar inteiramente desvairada pois lhe seria impossível fugir), abrindo caminho no círculo apertado, alcançou o pires, agarrou a nota, enquanto as outras moedinhas rolavam no chão de terra socada. Mas Maria Cuncau fora tão rápida como a outra, encontrara de peito com a fugitiva, foi um baque surdo, e a luta muda, odienta, cheia de guinchos entre as duas pastoras enfurecidas. Nós nos voltáramos aturdidos com o caso e a multidão devorava a briga das pastoras, também pasma, incapaz de socorrer ninguém. E aqueles braços se batiam, se agarravam, se entrelaçavam numa briga chué, entre bufidos selvagens, até que Maria Cuncau, mordendo de fazer sangue o punho da outra, lhe agarrou a nota, enfiou-a fundo no seio, por baixo da faixa azul apertada. A outra agora chorava, entre borbotões de insultos horríveis.
— É da lapinha! que Maria Cuncau grunhia, se encostando na mesa, esfalfada. É da lapinha!
Os homens já se riam outra vez com caçoadas ofensivas, e as pastoras se ajuntando, faziam dois grupos em torno das briguentas, consolando, buscando consertar as coisas.
Partimos apressados, sem nenhuma vontade ainda de rir nem conversar, descendo por entre as árvores, com dificuldade, desacostumados à escureza da noite. Já estávamos quase no fim da descida, quando um ruído arrastado de animal em disparada, cresceu por trás de nós. Nem bem eu me voltara que duas mãos frias me agarraram pela mão, pelo braço, me puxavam, era Maria Cuncau. Baixinha, magríssima, naquele esbulho grotesco de luz das lantejoulas, cabeça que era um ninho de cabelos desgrenhados…
— Moço! ôh moço!… me deixa alguma nota pra mim também, aquela é da lapinha!… eu preciso mais! aquela é da lapinha, moço!
Aí, Carlos perdeu a paciência. Agarrou Maria Cuncau com aspereza, maltratando com vontade, procurando me libertar dela:
— Deixe de ser sem-vergonha, Maria Cuncau! Vocês repartem o dinheiro, que história é essa de dinheiro pra lapinha! largue o homem, Maria Cuncau!
— Moço! me dá uma nota pra… me largue, seu Carlos!
E agora se estabelecia uma verdadeira luta entre ela e o Carlos fortíssimo, que facilmente me desvencilhara dela.
— Carlos, não maltrate essa coitada…
— Coitada não! me largue, seu Carlos, eu mordo!…
— Vá embora, Maria Cuncau!
— Olha, esta é pra…
— Não! não dê mais não! faço questão que…
Porém Maria Cuncau já arrancara o dinheiro da minha mão e num salto pra trás se distanciara de nós, olhando a nota. Teve um risinho de desprezo:
— Vôte! só mais vinte!…
E então se aprumou com orgulho, enquanto alisava de novo no corpo o vestido desalinhado. Olhou bem fria o meu companheiro:
— Dê lembrança a seu pai.
Desatou a correr para o mocambo.
1930
Um dia afinal, depois de vinte anos de mascate por conta própria, se soube que aquele terreno valorizadíssimo era propriedade de Nedim. Vendera metade. Construíra aquela casa branca enfeitada, com dois andares. Botara hotel e o café em baixo. Fora buscar, não se sabia onde, uma companheira tão gasta como ele, síria medonha de feia e jorrando malvadeza pelos ângulos. Ela ficava no hotel. Ele no café e… no hotel também. Tinha olhos pra tudo e agora a economia era insultante. Mas Nedim ficara desgraçado e o sofrimento é que mudara inteiramente o jeito dele. Gastara tudo na construção do hotel. Viera, e ficara firme, a sensação de que principiara novamente do começo a ajuntar cruzado por cruzado. A coragem fora mais forte que ele e o quebrara. Tudo ia muito bem; o hotel imundo e o café lhe davam juros duma grandeza gatuna, mas subsistia no coitado uma sensação estragosa de que era espoliado, de que estavam morando na casa dele, que estavam comendo a comida dele. Quando essas fraquezas vinham, fechava os olhos pra não ver os frequentadores do café. Jamais pudera se acomodar com a sala de jantar do hotel. Não comia nela, nem passava por ela nas horas de refeição. Vinham-lhe impulsos de botar pela porta fora toda aquela gente sugadeira, sofria muito.
(…) De primeiro, por instinto natural mais do que por bondade, tomara o costume de dar esmolas. Dava principalmente aos paralíticos, por uma transposição curiosa de personalidade. Mascateava a pé por esses mundos e em cada paralítico que via, se via impossibilitado de caminhar, ou via toda uma profissão itinerante acabada, pela impossibilidade física dum só. Então dava. Dava com a mesma irregularidade sentimental da maioria dos esmoleres, conforme a impressão de horror que recebia do mendigo. Quanto mais feio este, mais dava, no desejo único de se libertar pelo maior sacrifício, e se o mendigo era loquaz nas gratidões então fugia perseguido, até com raiva do outro.
Pois mesmo o costume de dar mudara agora. Vivia numa luta mesquinha com a mulher. Esta era menos sensível e sabia que estavam ricos. Dava esmolas também, como o marido, e embora o gesto físico de dar fosse nela um insulto pro mendigo, isso não era culpa dela. Era, culpa do corpo horroroso. Não concebia as esmolas de mais de tostão e muito comentara com Nedim os desperdícios deste, algumas vezes até mil réis indo parar nas mãos emberevadas. E agora Nedim que a censurava pelos poucos tostões dos sábados. Nedim tomava conta das esmolas da mulher. Achava mesmo sempre um jeito de surripiar uns três tostões à sabatina esmoler da companheira, não pra conservar mas pra eles darem durante a semana. E esse dinheiro ele dava bem, sem nenhuma luta com a economia. Dava pelo prazer pessoal de dar. Mas a mulher, está claro que percebia o roubo, e por seu lado roubava em qualquer compra à equivalência do perdido, pra dar exatamente, friamente, o quanto destinava à esmola. Não falava nada pro marido, mas Nedim conhecia a mulher e tinha consciência de, ou antes vergonha por ela perceber os roubos. Nem por isso deixava de roubar; e numa ilusão, só mesmo possível em seres assim tão fatais, se desintegrava da vida econômica da esposa e continuava imaginando que tinha alguma forma de economizar naqueles roubos.
Afora isso, que vida maravilhosamente unânime a dos dois! Só havia entre eles a confiança perfeita e o silêncio. Quase não se falavam. Não tinham o que se dizer, pois um bisava a consciência do outro, apesar de seres diferentíssimos. Tudo o que era espontaneidade em Nedim, se repetia sistematizado, conscientemente nela, e da mesma forma como ele, sem querer, era naturalmente bom, ela era naturalmente má. (…) O que ela sentia por Nedim era o mais completo, mais frio, mais sistematizado ódio. Está claro que isso jamais lhe atingira o conhecimento, mas o fato é que odiava Nedim. Viviam em muito perfeita harmonia; e as rusgas que tinham eram rusgas de Nedim, uns gritos ásperos, uns insultos de “cadela por sua mãe que foi cadela” pra baixo, tudo parado no meio, de repente, sem razão pra continuar. A megera estava acostumada e não sofria. Obedecia quando era justo obedecer, desobedecia se não. Não se sentia feliz, porém, não haveria modos de a fazerem desgraçada. Se o marido morresse, a vida continuava, e na certa que encontraria logo alguém que, pretendendo lhe gozar a herança, lhe servisse de objeto pra supliciar. Suplício sutil, feito mais duma criação de ambiente que de gestos reais. Porém, estes existiam também e eram conscientes.
Uma das formas com que ela supliciava Nedim era o gamão. Nedim, não se pode afirmar que gostasse do gamão, jogava-o. O fraco dele era esse gamão, jogado a leite de pato com a mulher. Desde os tempos de casamento, se estavam juntos e sem que fazer, jogavam o gamão. Nedim às vezes, fatigadíssimo duma viagem, e agora, exausto com os terrores financeiros do dia, se atirava numa cadeira na entressombra familiar. A danada largava o servicinho ou calmamente continuava acabando um arranjo. Depois trazia o jogo. Muitas vezes a fadiga de Nedim era tamanha, que ele nem mexia, olhos fechados. A danada arranjava as pedras de ambos e ficava ali, sem uma frase, esperando. Nedim se remordia desesperado. Uma vontade imensa de não jogar, despeito por causa de ter perdido na véspera, aquele número seis que não viera nem uma vez pra ele na negra… Abria os olhos e principiava jogando com afobação. E eram duas horas de martírio. Uma luta de espertezas. Os dois roubavam. O interesse do jogo não estava na vitória, estava na trapaça. Tomavam mais cuidado em somar os pontos do adversário que os próprios. Nos próprios, se errassem, nunca jamais que errariam de maneira a se prejudicar, mas a mínima desatenção que tivessem, era certo que o adversário trapaceava. Somava como lhe convinha, ou na conta dos dados, ou no pulo das pedras. Um gamão que consistia apenas nisso: não deixar o inimigo trapacear.
Pra esse jogo escuso, das horas noturnas, a leite de pato, separados dos homens, no quarto solitário, eles tinham transportado todo o instinto de roubo que a honestidade não deixara eles praticarem na vida. No gamão é que conseguiam a maior intimidade entre si, de seres ávidos, duma ganância fixada em finalidade, capaz de todos os sacrifícios morais. Se detestando no momento, um buscando de qualquer forma prejudicar o adversário, no jogo é que eles se emparceiravam melhor, um encontrando no outro, como num espelho, a única verdade fixa de ambos, que uma espécie de puerilidade moral não os deixava praticar na vida. E quando um pegava o outro na trapaça, vinham as palavras ásperas, os “gatunos!”, os “filha de cadela!”, cantar os passes daquele gamão desgraçado. Mas a verdade é que estavam se insultando a si mesmos. O insulto era uma espécie de auto-sugestão com que se incitavam a roubar inda mais; um cilício de excitação e ao mesmo tempo uma espécie de qualificação cheia de desprezo pelo que quereriam ser. E aquilo esquentava o manejo. Jogavam rápido, numa habilidade prodigiosa de somas e gestos, loucos pra andarem mais depressa, acabar com aquilo e fugirem de si mesmo. Pouco a pouco a noção de jogo se transformara inteiramente neles. Não havia a mínima consciência de roubo. Se ganhavam por alguma trapaça escapada, a sensação da vitória vinha, absolutamente virtuosa, dar um gosto indizível pra Nedim. Pra ela não: dava apenas um olhar de confidência deslavada: “Roubei e você não percebeu!” Ela jogava friamente, ele com toda paixão, mas ambos agastadíssimos. E continuavam assim até que o sírio não suportava mais o suplício, ia dormir, com um sono inexato, bordado de memórias e de raivas. A megera vinha, como um insulto desafiando, se deitar ao lado dele. Nedim recuava com nojo. Outras vezes se lançava sobre ela feito uma fúria, mais por vingança que outra coisa. Ela se deixava gozar pacientemente, pronta sempre. Mas não tivera jamais um suspiro de amor.
(Fragmento do romance Café).
[1]. Jornal do Comércio, 14 de fevereiro de 1931.
[2]. Estado de S. Paulo, 14 de fevereiro de 1931.
[3]. G. Le Bon: La psychologie du hasard, p. 836. Alcan.
[4]. Gazeta, 14 de fevereiro de 1931.
[5]. Vide a totalidade dos romances do séc. 19.
[6]. Ebbinghaus: Der Gedachtnis und der Musk el, p. 777. Schmidt und Gunther.
[7]. Ribot: Pathologie frénétique des changements de personnalité, Alcan p. 83.
[8]. Bergson: Le règne de la volonté, Garnier p. 135; W. James: The Irradiations of Wish, Century Co. pp. 14 e 15.
[9]. Ribot: op. cit., p. 249.
[10]. Célebre boxista senegalês da época. V. La vie au grand air, dezembro 1932.
[11]. Diário Popular, 22 de março de 1931.
[12]. Cigarra, 20 de dezembro de 1929. Sob uma fotografia da Liga das Senhoras Católicas.
[13]. Ribot: Les reconnaissances musculaires, Alcan p. 101.
[14]. Convém notar que esta Amélia não é a mesma do CONTO DE NATAL.
[15]. Woodworth – Gesture and Will – Macmillan & Co. p. 88.
[16]. Não confundir com Lon Chaney.
[17]. Lombroso: Criminologia degli irresponsabili. t. 11, p. 240; F. Treves, Milano.
[18]. Gazeta desse dia, 22 de março de 1931.
[19]. Correio Paulistano, 23 de março de 1931.
[20]. Juro que é tragédia.
[21]. O golpe aqui não é proibido.