LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Álbum chulo-gaiato, ou Coleção de receitas para fazer rir


Edição de Referência:

http://www.gutenberg.org/files/21289/21289-h/21289-h.htm

 

 

 

 

 

 

ÍNDICE

 

A TENTAÇÃO DE SANTO ANTÔNIO

 

O MARIDO E O COMETA

 

A FRANCISCANADA

 

SONETO “A UM ZELADOR DOS MIJADEIROS”

 

CONSEQUÊNCIAS DE NÃO SER BACHAREL

 

UM DEPUTADO DA MODA

 

UMA VALENTONA

 

A NOZ E A MULHER

 

EPITÁFIO PARA UM PAI DA PÁTRIA

 

OUTRO PARA UMA MULHER FELIZ

 

UMA MULHER COMO TODAS DEVIAM DE SER

 

UMA VIÚVA JUDICIOSA

 

PRÁTICA FEITA À MISSA DO DIA PELO MUITO REVERENDO PRIOR DE...

 

A OPINIÃO PÚBLICA

 

COROGRAFIA DO REINO DO HIMENEU

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A TENTAÇÃO DE SANTO ANTÔNIO

FANTASIA BURLESCA

 

“O mundo acabar
Penso que vai,
Ai ai! ai ai!
Vou apitar!
Tão rodeado
Estou de diabos
Com unhas e rabos
D'assarapantar!
Raios, coriscos,
Bombas e traques
E mais petiscos
             A rabiar
             E a estoirar
Em torno de mim!
             Zás catrapás!
Se Deus piedade
Não tem do frade,
Grande caurim
Me vai pregar
Dom Satanás!”
Todo a tremer, Santo Antônio
Assim se pôs a gritar
Quando o travesso demônio
Em pessoa o foi tentar.
             Sai do inferno
             Troça bravia
             De quantos demos
             Por lá havia.
             Em vassouras
             Vêm montados,
             Com tesouras
             E machados
             Sobraçados;
             Bem armados
             D'escopetas,
Estes coçam as carecas,
Aqueles fazem caretas,
Tocando grandes trombetas,
Cavaquinhos e rebecas.
Vem um tocando fagote,
E outro com um chicote
Já começa a sacudir
O hábito empoeirado
Do alegre frei Antônio;
Mas o frade atomatado
Logo se põe a fugir
De tão chibante demônio,
Correndo conforme pode
E gritando todo aflito:
“Aqui d'El-rei, quem m'acode!
Ó da guarda! Eu apito!”
             Dous feios diabos
             Mui cabeludos,
             Cornos agudos
             E longos rabos,
             Entram na cela
             Do bom santinho;
             Vão-lhe à panela
             Que ao lume tinha
             C'uma galinha
             Paio e toucinho,
             Tiram-lhe a tampa,
             Comem-lhe tudo,
             Deitam-lhe trampa;
             Vão-lhe à borracha
             Que tem o vinho
             N'um esconderijo;
             Bebem-lhe tudo
             Deitam-lhe mijo.
             À tal cambada
             Não escapa nada
             Tudo se acha
             Quebra e estraga
             Mija e caga.
Uma pequena bonita
Também lh'entra na caverna
Toda lépida e catita,
E começa a levantar
O balão, e linda perna
Logo se põe a mostrar...
“Ai Jesus! diz Santo Antônio
Vai-te d'aqui ó demônio
Não me estejas a tentar...”
             “Façam dançar
             Contradançar
                         Pular
                         Cantar
                         Saltar
             Esse santinho”
             Já diz gritando
             Um diabinho
             Que está tocando
             A desgarrada
             N'um cavaquinho.
             Eis toda aquela
             Endiabrada
             Troça bravia
             O bom do Santo,
             Que já n'um canto
             Se escondia,
             Vai buscar.
             E a tocar
             N'uma panela
             Com a tranca
             Da janela,
             N'uma banca
             O faz dançar
                         Pular
                         Saltar
                         Cantar.
Até Plutão, o rei demônio,
Quis assistir à função,
Pois quer ver se frei Antônio
Se livra da tentação;
E p'ro que der e vier
Consigo traz a mulher.
O Santo todo encolhido
No meio d'aquela canalha
Cada vez mais se atrapalha;
Um demo mais atrevido,
Dá-lhe muita bordoada,
E outro feito cupido
Vem por trás com uma seta
E no coração lh'a espeta...
A nada se move o frade
Modelo de castidade!!
             Vendo porém
             Que fim não tem
             A seringação
             Forma tenção
             De s'esconder;
             E mui calado
             Vai-se a meter
             Dentro da cama;
             Mas lá recua
             Todo espantado
             Pois uma dama
             Toda janota,
             (Ainda que nua,
             Mesmo em pelota)
             Acha deitada
             Em seu lugar...
             A concubina
             Com uns olhinhos
             Muito espertinhos
             A cintilar
             Já o fulmina
             E quer tentar...
             A tal menina
             É mesmo boa;
             Se Proserpina
             É em pessoa!
Santo Antônio atrapalhado
Contempla incendiado
Aquela erótica cena,
E em frente da beleza
De coisas que nunca viu...
Ao poder da natureza,
Com bem custo resistiu...
Mas quando quase tentado
Com os olhos da pequena,
Vai a cair na esparrela
De saltar acima dela,
Lembra-lhe Deus de repente
Que vai cair em pecado,
Fica todo aforçurado
E como que inspirado,
Vai buscar muito apressado
D'água benta seis canadas
E nos demos imponente
Ferra boas hissopadas.
Estoira que nem castanhas
Toda aquela diabada,
Cada demo dá um tiro
Que nem uma peça raiada;
E fugindo a bom fugir
Tudo vai em debandada,
Santo Antônio de contente
Dá tamanha gargalhada
Que até no traseiro sente
A fralda toda cagada.
“Se não vou buscar
Logo tão depressa
A tal água benta,
Decerto me tenta
Aquela travessa...
Olhem que é ladina,
Mesmo de tentar,
A tal Proserpina!
Mal empregado peixão
Para o dente do Plutão!”
Lamenta tão pesaroso
A má sorte da pequena
O famoso Santo Antônio,
Que parece já ter pena
De se mostrar tão teimoso
Em resistir ao demônio...
 
 
 

O MARIDO E O COMETA

DIÁLOGO CONJUGAL

 

Era uma vez um marido, ano da graça 1861, mas um marido verdadeiro modelo de todos os maridos. Chamava-se o Sr. Carneiro; seu himeneu fora devidamente legalizado e recebera as bênçãos da igreja. Era pois esposo, tanto quanto se pode ser, legal, social, religiosa, e cristãmente, da amável, bonita e jovem Amélia, a quem se ligara com o intuito de perpetuar a raça dos Carneiros, fim este que infelizmente ainda não alcançara, apesar da lua de mel ter já o seu ano e meio, e este gasto nas fadigas e diligências de que um marido pode dispor para multiplicar a sua raça. O Sr. Carneiro emagrecia a olhos vistos, e estafava-se em vão. O nosso homem era um modelo de bondade e simplicidade; era bom e afável e manso, não como Carneiro que era, mas como um borrego; nunca fizera mal a pessoa alguma, e ninguém também no mundo podia dizer a mais pequena coisa em seu desabono. Com tais e quejandos títulos à estima de seus concidadãos, o Sr. Carneiro tinha conseguido tornar-se um dos maridos mais felizes do seu bairro, que era o Alto.

 

Mas o homem nunca está satisfeito sobre a face da terra: o Sr. Carneiro era homem, e por conseguinte tinha aspirações. O seu ideal era a vida bucólica, amava a chicória e o feno, adorava os rabanetes, e sonhava pastoras e zagalos; não podia viver na capital. Suspirava constantemente pelo chocalho campestre, pelas felicidades rurais, e a sua paixão pelo campo não podia achar lenitivo nos esgalhos do Rocio, nas ervas do Passeio Público, nas couves da praça da Figueira.

 

Por fim os seus sonhos tiveram uma realidade, comprou uma quinta na aldeia de Pai Pires, e transferiu para ali os seus penates. Ali, n'uma habitação modesta, no declive de um serro, vendo ao longe o Tejo e as suas faluas, passava o Sr. Carneiro uma vida santa, junto de madama Carneira, como ele lhe chamava, cultivando as suas cebolas, regando a sua horta, capando o seu meloal.

 

Ali fazia admirar à sua cara metade a grossura dos seus pepinos ou a cor rubicunda dos seus tomates.

 

 — Vês, menina, lhe dizia, como está lindo este meu pepino; olha para esta perfeição, parece que d'ontem para hoje cresceu meio palmo. Repara-me para a beleza d'estes tomates! que cor e que tamanho...

 

 — É verdade, cada dia estão mais vermelhos...

 

 — E este melão?

 

 — Cresce a olhos vistos, como já está redondinho!

 

 — Ah! filha! não é como tu, segue a lei da natureza; tudo cresce e se arredonda cá n'este mundo... só tu, meu anjinho... apesar das minhas diligências, persistes em não arredondar essa...

 

 — Que bonitas estão as batatas.

 

 — Eu sempre as tive boas.

 

 — E que belos grãos de bico!

 

 — Os grãos são o meu forte...

 

 — Como a vinha vai arrebentando...

 

 — Tudo arrebenta e produz... só tu não me produzes nada... (dá um profundo suspiro).

 

 — Que animal é aquele que está bebendo além, no rio?

 

 — Julgo que é um burro, queridinha.

 

 — Engana-se, é boi, senhor Carneiro.

 

 — Boi, boi! será... mas não lhe vejo as armas...

 

 — Jesus! que bicho tão feio que eu ia pisando! Mate-me este bicho, Sr. Carneiro... que nojo!

 

 — Ah! ah! ah! Ora não há uma tolinha assim! um caracol, pois mete-te medo um caracol?

 

 — Olhe, só os paus que ele tem; t'arrenego! não se veem senão animais bicórneos por estes sítios... eu que sempre embirrei com estes bichos!

 

 — Não te zangues comigo, menina... isto é o animal mais inocente que eu conheço...

 

 — Que quer? não está mais na minha mão; diga lá o que disser, n'este ponto não posso vencer a minha repugnância...

 

(O marido toma o caracol entre dois dedos.)

 

 — Olha vês, não faz mal. Caracol, caracol, põe os corninhos ao sol...

 

 — Deite isso fora... que me ataca os nervos...

 

 — Sossega, filha, já deito...

 

 — Esteja quieto! tire isso para lá!

 

 — Então não vês que já o não tenho na mão! Pobre amorzinho, que medo que teve... mas agora dá um beijinho... (quer abraçá-la.)

 

 — Vá primeiro lavar essas mãos; que nojo, não sei o que me parece a tal reima dos caracóis...

 

 — Vamos limpá-las aqui na relva... senta-te aqui ao meu lado...

 

 — Era o que faltava! para me escangalhar o balão.

 

 — Ah! trazes balão? (vai para apalpar.)

 

 — Esteja quieto que me faz cócegas!

 

 — Tem a saia cheia de nódoas verdes...

 

 — São ervas pisadas.

 

 — E n'um sítio esquisito!

 

 — Não sei quem me pôs n'este estado...

 

 — Eu decerto não fui. Seria ontem na quinta do Alfeite, quando te perdeste no labirinto...

 

Ah! sim, quando o primo Montenegro me lá foi buscar... que bom rapaz que é este nosso primo e hóspede... se não fosse ele ainda estava a estas horas em procura da saída...

 

 — E como ele soube entrar e sair com a mesma facilidade... como ele sabe d'aqueles torcicolos...

 

 — É porque sabe desenho.

 

 — Mas sentemo-nos, a erva está tão fresca. Com o calor que está há-de ser um prazer... podes até levantar as saias para apanhar mais fresco...

 

 — Obrigada, fresca estou eu...

 

 — Que bela noite, que ar tão puro! como é bom ver as estrelas, assim, ao pé d'uma linda rapariga como tu!

 

 — Digo-lhe que tenho frio, estou fria que nem uma pedra...

 

 — Pois eu estou quente que nem uma brasa...

 

 — É feliz.

 

 — Podia sê-lo... se quisesse... não me resista... ora está agora com medo do seu Carneiro... eu sou sempre o mesmo, aqui e em casa...

 

 — Esteja quieto, senhor, agora aqui no meio da rua...

 

 — Estamos em nossa casa, não ofendemos a moral pública...

 

 — Faz luar como de dia...

 

 — Melhor se vê o que se faz...

 

 — São coisas que não gosto de fazer contra vontade!

 

 — Também, não sei quando tem vontade!

 

 — Olhe que se espeta nos arcos do balão.

 

 — Maldita moda que cá havia de vir!

 

 — Bem sabe que sou delicada... olhe que me ataca os nervos a mais pequena coisa...

 

 — Pequena, pequena! pois esta não é das maiores...

 

 — Pelo que vejo quer-me ver doente... já estou com uns arripios...

 

 — Olha, embrulha-te no meu paletó... (aproxima-se ainda mais da mulher) apertemo-nos bem um contra o outro... assim, assim... vês? aposto que d'aqui a cinco minutos estás a suar em bica...

 

 — Jesus! que cena! olha se algum vizinho vê... que quadro vivo este!

 

 — Estou vendo que o não fazem todos! (Amélia geme e suspira, o que faz suspender Carneiro.) Mas enfim, se estás incomodada...

 

 — Incomodada não é... mas... estas coisas tocam-me sempre os nervos...

 

 — É a pior coisa que há, é uma mulher nervosa...

 

 — Sinto não sei o quê, cá por dentro...

 

 — Isso é agora... o que faria se...

 

 — Sinto um peso...

 

 — Mas em que sítio? (À parte.) Se fosse na barriga...

 

 — Por todo o corpo.

 

 — Ele em alguma parte há-de ser... no peito, na cabeça, no ventre?

 

 — É ao pé do ventre... não me sinto bem, parece-me que vou desmaiar...

 

 — Louvado seja Deus! és muito delicada... sempre perdes as forças nestas ocasiões!

 

 — Estou como que penetrada por um raio...

 

 — Então vamos para casa.

 

 — Não, eu vou, fica tu.

 

 — Vamos ambos para a cama.

 

 — Vou-me deitar.

 

 — Deixa-me ir consigo?

 

 — Eu não tenho medo, fique tomando o fresco...

 

 — Mas eu queria-te ir aquecer.

 

 — Eu aqueço bem sem o seu auxílio...

 

 — Isso é birra... eu como marido tenho também os meus direitos...

 

 — Mas eu estou doente... sinto agora um calor...

 

 — É febre talvez...

 

 — Por isso mesmo não se chegue para mim...

 

 — Vou chamar o médico.

 

 — Não é preciso. O que ele me receitava, é o que eu vou fazer... dormir um sono longe de meu marido... amanhã tem-me sã como um pero...

 

 — Queira Deus!

 

 — Isto passa em me deixando descansar.

 

 — Então não queres que vá ao menos ajudar-te a despir?

 

 — Nada, sossego é o que eu preciso.

 

 — Mas...

 

 — É verdade não me disse ontem que, queria hoje observar o cometa?

 

 — Fazia até tenção de t'o mostrar...

 

 — Vê-lo-ei em sonhos.

 

 — Amanhã será em realidade... não é assim meu amor?

 

 — Eu faço ideia; é uma coisa muito comprida.

 

 — Qual história! verás que não é tão grande como julgas... e então visto pelo meu excelente telescópio! Hás de ver-lhe toda a cabeleira...

 

 — Como está tolo com o seu telescópio... também o primo Montenegro tem um que não é dos piores...

 

 — Aposto que não tem a grossura do meu!

 

 — Bom, por hoje basta...

 

 — Paciência, não há remédio: vai-te deitar com Deus, já que não pode ser comigo... Se tiveres precisão de alguma coisa de noite, chama-me... bem sabes como sempre sou pronto em te prestar os meus serviços, seja a que hora da noite for...

 

 — Pronto até demais! ao menor movimento que faço, ele aí está em cima de mim, a atenazar-me... Mas bem sabe o mal que me faz quando me acorda de noite; é ataque de nervos certo no dia seguinte, e fico mole, amarela, com olheiras...

 

 — Bem, bem, vá descansada que lhe não interromperei o seu sono.

 

 — Promete-m'o?

 

 — Juro-o.

 

 — Bonito! então boas noites.

 

 — Nem um beijinho me dás!

 

 — Dou, mas com a condição de cumprir o seu juramento.

 

 — Qual?

 

 — O de não entrar no meu quarto esta noite.

 

 — Está dito.

 

 — Então dê lá o beijo. (Dá-lhe a face a beijar, Carneiro beija-lh'a sofregamente, apertando-lhe ao mesmo tempo a cintura com avidez.)

 

 — Jesus! que cintura tão elástica!

 

 — Esteja quieto, não se adiante! o que me pediu foi um beijo...

 

Valha-te Deus, menina! Vai-te lançar nos braços de Morfeu, e pede-lhe uma boa dose de sumo de dormideiras.

 

 — Adeus meu Carneirinho.

 

 — Adeus minha Carneirinha... Olha, deita-te para o lado direito... não te ponhas de costas, bem sabes que te faz mal...

 

 — Bem me lembro de ontem à noite...

 

 — É verdade, quando gemeste tão significativamente, que eu julguei estarias com algum pesadelo...

 

 — Ora! se eu parecia que estava esborrachada... nem respirar podia... estava a sonhar que o tinha em cima de mim...

 

 — E gritava de tal maneira, que eu no quarto contíguo, ouvi e fui acudir... mas felizmente o nosso primo e hóspede, Montenegro, já tinha chegado antes de mim...

 

 — Que bom primo que é aquele rapaz!

 

 — Se o céu nos desse um filho, estou certo que o estimava...

 

 — Havia de amá-lo como se fosse dele próprio...

 

 — Há-de ser o padrinho do nosso primeiro néné...

 

 — Isso tem tempo... ainda eu...

 

 — Louvado seja Deus! muito me tem custado a fazer o tal herdeiro...

 

 — Agora tenho esperanças que brevemente...

 

 — Sim? oh grande Deus! será possível?

 

 — Bom, deixe-me ir deitar...

 

 — Vai filha, e dorme bem, eu vou ver se bispo o cometa.

 

E nisto, depois de acompanhar sua mulher à porta do quarto, voltou logo para o terrado, afim de melhor observar a passagem do astro cabeludo.

 

Madama Carneira entrou no quarto e aí encontrou o primo Montenegro, que a esperava para lhe mostrar também o cometa com o seu telescópio...

 

Alguns meses depois madama Carneira brindava seu marido com o esperado e desejado herdeiro, que tantas fadigas lhe custara...

 

 

 

A FRANCISCANADA

CONTO

 

Que grande franciscanda
Vai fazer com frei Bento
Frei João e frei Monteiro
P'ra longe do convento?
Bom alforje levam cheio,
Recheado de finório
Presunto, e grosso paio,
Furtados no refeitório.
Frei Bento vai ajoujado
Com tremebunda borracha;
Chega o rancho a uma tasca
Para a horta lá se encaixa.
Frei João despindo o hábito
E de manga arregaçada
Temp’ra e mexe aforçurado
Um alguidar de salada.
Frei Monteiro pisca o olho
À moça, que é rapariga,
E frei Bento sem c'rimônia
Um chouriço já mastiga.
Voam paios e presuntos
Tal é a gula e a gana,
Torna-se logo a borracha
Em famosa carraspana.
Depois alegres cantando
Lá se vão abarrotados
Ao convento recolhendo
Pelos muros encostados.
Chama a campa ao refeitório,
Pois são horas de cear,
A fradalhada aparece
Mas não acha quê trincar.
 — ”Que pouca vergonha é esta?”
Grita logo frei Martinho,
“Que é dos nossos grossos paios,
O presunto e mais o vinho?”
 — ”Fomos roubados”, responde
O padre refeitoreiro,
“Tudo lambeu frei João
Com frei Bento e frei Monteiro!”
 — ”Ah! bêbedos! ah glotões!
Ah! cambada de marotos!...”
Berra o padre provincial
Dando cinco ou seis arrotos.
 — ”Hão de caro pagá-lo!”
Brada em peso o convento,
“Hão de levar bons açoites
Frei Monteiro e frei Bento;
“E também Dom frei João
Há de levá-lo o diabo!
Tudo quanto nos comeram
Há de lhes sair do rabo!”
Todos logo bem armados
De sandálias gigantescas
Tratam de pôr à vela
As seis nádegas fradescas.
E depois sem mais demora
Pé atrás e furibundos
Tocam todas as matinas
Nos traseiros rubicundos.
Eis no meio da batalha,
Quando tudo em confusão
'Stá batendo a bom bater,
Dá um peido frei João!
Mas não é peido de medo
É um peido tremebundo,
Peido de frade, que é
O maior que há neste mundo.
Se o famoso Garibaldi
Um tiro destes lh'escapa
Lá se vão com mil diabos
Os exércitos do Papa.
Foge tudo com o estoiro
E ainda mais com o cheiro,
Aqueles que mais gritaram
São os que fogem primeiro.
Frei João põe em derrota
O resto da fradalhada,
Dizendo-lhe que ainda tem
A peça bem carregada...
 
 
 

SONETO

A UM ZELADOR DOS MIJADEIROS

 
O incauto saloio, o venal galego
Espreitas esfaimado atrás da esquina,
Armado de catana serpentina
Vermelho como um paio de Lamego.
 
Tão ufano estás com teu sujo emprego,
Que pareces uma ave de rapina,
Prendendo a trouxe-mouxe quem urina
Com a velha chibança d'um morcego[1].
 
Não sejas papelão, pesa as razões,
Olha que se a fortuna não sorri,
Falta o mijo e adeus os dez tostões!
 
Por isso vou um conselho dar-te aqui:
É que respeites todos os mijões
Enquanto mijando forem p'ra ti.

 

 

 

CONSEQUÊNCIAS DE NÃO SER BACHAREL

 
Quer ser guarda de comuns
Certo João Raphael,
Mas fica a chuchar no dedo
Visto não ser bacharel.
 
 
 

UM DEPUTADO DA MODA

 
Ontem estava em minha casa,
E por sinal a dormir,
À porta sinto bater,
Levantei-me e fui abrir.
Era o doutor Gatázio,
Bacharel e fidalgote.
 — Vai torta! digo comigo,
Vem ferrar-me algum calote!
Eis entra com ar risonho
E sentando-se ao meu lado,
“Amigo, diz, dou-te parte
Que estou feito deputado.”
 
 
 

UMA VALENTONA

 
A honra de Eliza bela
Atacam quinze soldados,
Vence um a cidadela
Quatorze são derrotados.
 
 
 

A NOZ E A MULHER

 

Como a noz foi a mulher
Neste mundo fabricada,
Não se conhece que é podre
Senão depois de rachada.
 
 
 

EPITÁFIO PARA UM PAI DA PÁTRIA

 
Aqui jaz dormindo a sesta
Um bacharel formado,
Foi barbeiro, deputado,
Caloteiro e grande besta.
 
 
 

OUTRO PARA UMA MULHER FELIZ

 
Dona Justina de Sousa
Nesta campa aqui repousa,
Foi no mundo afortunada
Visto que até morrer
Passou sempre por honrada
Tendo a dita de o não ser...
 
 
 

UMA MULHER COMO TODAS DEVIAM DE SER

 
Das misérias deste mundo
Se compadece Maria,
E cheia de dó profundo
Seis ditosos faz por dia...
 
 
 

UMA VIÚVA JUDICIOSA

 
A viúva d'um entrevado
Já novo marido tomar
Queria, passados dois meses
Do velho marido enterrar.
É cedo, lhe diz um vizinho,
Homem de agudo pensar,
Sem estar uns dez meses viúva
Assento não deve casar.
Essa é boa! diz a matrona,
Então não se devem contar
Oito meses que estuporado
Na cama ele esteve a penar?
 
 
 

PRÁTICA FEITA À MISSA DO DIA PELO MUITO REVERENDO PRIOR DE...

 

Deus dixit Petro ubi sunt oves meæ; nescio, respondit autem Petrus[2]

 

 

Que bondade, que prudência, que sabedoria, meus queridos irmãos, não devemos nós admirar em Pedro; que, mesmo no momento em que seu Divino Mestre lhe pergunta, onde estão as minhas ovelhas; responde com toda a delicadeza que não sabe d'elas, porque essas ovelhas não estavam em estado de aparecerem perante o seu Senhor. Asneiras, meus caros ouvintes, eu não tinha esse gênio, não sou mentiroso nem falso, não tenho papas na língua, e se o Mestre me perguntasse, como a Pedro, onde estão as minhas ovelhas, eu logo lhe dizia sem mais cerimônia, foram pastar para casa do diabo, Senhor.

 

E com efeito, se Ele tivesse vindo ontem à noite perguntar-me pelas minhas ovelhas, que lhe havia eu de responder?

 

Ele que recomenda tanto no seu Evangelho, que as ovelhas se conservem sempre separadas dos competentes bodes, o que teria Ele dito se visse essas mesmas ovelhas misturadas com os bodes, saltando uns em cima dos outros, e a fazerem gaifonas ao seu pastor!

 

Sim, amados irmãos, foi grande a balbúrdia, e ao aspecto de tal desordem, o amor pelo meu rebanho animou-se de um santo zelo e ardendo em fogo, corri de cajado na mão, para arrancar as minhas inocentes ovelhas das dentuças dos lobos encarniçados. Mas, ó dor, ó desdita, ó patifaria! as minhas ricas ovelhinhas já não escutam a minha voz; já penetradas pelos agudos dardos d'aqueles diabos e inundadas pelos seus líquidos venenosos e sedutores, estavam indóceis e levadas da breca. O meu cajado, outr'ora tão poderoso, não pode juntar senão um pequeno número, que trago para o meu curral, onde as hei de ter fechadas e guardadas até que deem os frutos do seu arrependimento.

 

Mas vós, amados ouvintes, vós, os que fostes fiéis, lamentai a desgraça de vossos irmãos; comportai-vos sempre bem, e tomai para exemplo esses grandes santos da antiguidade; menos um tal santo Agostinho, que, segundo dizem, foi um grande pândego, quando moço, e é por esse motivo que eu nunca vos falo d'ele.

 

Falemos antes d'aquele santo Crisólogo, que diz que um cura é um sol, e os seus fregueses são uns átomos. Mas eu não sei que diabo de átomos vocês são! não me pagam a côngrua, querem que os case de graça e ainda em cima dizem: “Ora, estamos nas malvas para o seu padre cura, ele não tem filhos para sustentar!” Vocês sabem lá disso? Não sabem que nós outros padres, temos mais trabalho em os esconder, do que vocês em os fazer?...

 

Mas voltando à vaca fria, pensemos na vossa conversão, se ela é possível.

 

Julgo que a melhor maneira de o conseguir é falando-vos das maroteiras que se fazem na freguesia.

 

Por exemplo: o João da Canhota, regedor, sai à noite e se há-de vir ao sermão, vai-se meter em casa da Felícia do Frade, e não sai de lá senão de madrugada. Diz que vai tomar chá, mas imaginem os ouvintes que qualidade de chá ele não tomará...

 

Aqui não há senão desordem e imoralidade. Imoralidade nos velhos, imoralidade nos moços, imoralidade nos grandes, imoralidade nos pequenos.

 

Digo imoralidade nos velhos, porque esses velhos, raça danada de Caim, depois de haverem passado toda a vida... em patuscadas e pândegas, ainda mesmo arrumados ao bordão e de cabeça calva, se vão meter em lugares suspeitos! Infames velhos de Suzana! quando é que lhes acabarão as fúrias carnais e burriçais?

 

Imoralidade nos moços. Os rapazes e as raparigas andam por essas ruas aos beijos e abraços, cantando cantigas indecentes e imorais; ainda eu ontem ouvi a filha do Tomás da Horta e o filho do Inácio do Dente a cantarem o Pirolito que bate que bate! Ora não há maior pouca vergonha, uns fedelhos que ainda cheiram a coeiros e já sabem o que isto quer dizer!

 

Imoralidade nos grandes. Esses mariolões e essas mocetonas que vão todos os dias para o mato, sob pretexto de que vão buscar lenha, e por fim fazem por lá cousas do arco da velha... Lenha no forno queriam elas, malditas!

 

E quando vão aos figos! O que acontece?

 

As raparigas sobem para cima das arvores e os mariolões ficam em baixo, a olhar para cima e a dizer: Olha Antônia vejo-te os calcanhares, e as pernas, e os joelhos, e o...

 

Ponham cobro a este escândalo, amados irmãos, são cousas que se não devem ver senão em certas ocasiões. Eu não peço aos rapazes e às raparigas que vão ao mato e comam por lá o seu figuinho e mesmo que subam às figueiras, mas para evitar indecências, as raparigas fiquem debaixo e os rapazes que lhes vão acima.

 

Imoralidade nos pequenos. Essa gaiatada miúda que anda todos os dias a correr pelo adro cá da freguesia, onde estão as campas dos nossos antepassados, e que depois vão fazer as suas necessidades mesmo à porta da sacristia. Se não têm respeito pelos mortos, tenham ao menos compaixão pelos vivos, não pode uma pessoa entrar na igreja pela porta de trás sem ficar a bem dizer atolado até o nariz. Já disse ao Sr. Regedor da freguesia que pusesse mão n'estas cousas, mas por ora continua a mesma marmelada à porta da sacristia.

 

Também é digno de repreensão o comportamento d'essas mulheres casadas, que sem nenhuma consideração pelos seus maridos, se levantam do leito conjugal de madrugada, sob pretexto de levarem o gado ao campo, e depois de andarem lá por fora a laurear, em pernas, recolhem-se para casa frias de neve, e vão-se outra vez meter na cama com os maridos e arripiá-los sem piedade! Pobres homens! Se fosse comigo, que coça que elas não levavam...

 

Também há certa moça cá na freguesia, que eu trago d'olho há dias, cá por certa cousa. Eu devia já dizer quem é, mas enfim por hoje limitar-me-ei só a metê-la na sacristia e arrumar-lhe um lembrete... domingo direi quem é, se não tomar juízo... por agora saibam unicamente que é a única na freguesia que usa ligas encarnadas... (Pausa, rumor na igreja.)

 

Domingo, de hoje a oito dias, me alargarei mais sobre os homens, coçarei as mulheres casadas, e cairei em cima das solteiras, se não tomarem juízo d'aqui até lá.

 

Sendo hoje dia de festa e estando a chover far-se-á a procissão só por baixo da igreja, pois eu não estou para apanhar alguma porrada d'água. Não precisa vir toda a gente a ela, basta que de cada família venha um varão.

 

A propósito de procissão, tenho a dizer-vos, amados ouvintes, que os santos cá da freguesia vão estando muito chinfrins. Eu não dava três vinténs por eles. O São Miguel é que está assim mais direitinho, mas o diabo que está por baixo já não tem cornos; pois olhem, não há na freguesia poucos homens ricos no caso de lh'os darem. O calvário também não está mau; todos os instrumentos da paixão estão em bom estado, falta-lhe só o galo, mas a isso não direi nada, porque há poucos na freguesia e as galinhas precisam d'eles: no entanto se houver por aí alguma dona de casa que tenha dois, que me mande para cá um.

 

Esta semana não há jejum, podem comer tudo quanto quiserem e bebam-lhe melhor; há só a bem-aventurada santa rainha, que cura a tinha; é quinta feira, sexta feira há feira e domingo é a festa de São Simão e São Judas. Também, não sei quem foi o diabo do animal que se lembrou de pôr Judas no calendário. Juro-vos, amados ouvintes, que se não fosse domingo não lhe fazia festa, era o que merecia o senhor S. Simão por cair na asneira de se ir meter com semelhante tratante.

 

Mas acabemos com esta maçada.

 

Ó seu Zé, acenda os sinos e mande tocar as velas, acenda a água benta e bote água no turíbulo... não, enganei-me, faça o contrário de tudo isto.

 

No entretanto façamos as nossas costumadas e ordinárias orações.

 

Oremos pela conservação da nossa bem-aventurada mãe católica, apostólica e romana; pela estripação da cisma e abaixamento da hidropesia; oremos também pelos ricaços cá da freguesia, a fim de que Deus os mantenha na sua honesta pobreza; pois se fossem mais ricos punham-nos o pé no pescoço. Oremos pelos ausentes e pelos viajantes, a fim de se deixarem por lá estar, se estão bem; oremos pelo feliz sucesso das mulheres pejadas, afim de que Deus lhes faça a mercê de largarem o fruto com a mesma facilidade e doçura com que o comeram. Oremos, n'uma palavra, pela conservação dos bens da terra, como salada, couves, batatas, pepinos e tomates, e pela extinção dos seus males, como formigas, lagartos, ortigas, pulgões e ratazanas... etc.

 

 

 

A OPINIÃO PÚBLICA

 
Depois de longo derriço
Casou João com Maria,
E passados quatro meses
Tem um filho já Maria.
Falam do caso as vizinhas
Chora João, ri Maria.
“Casei bem tarde, já vejo”,
Diz o coitado a Maria,
“Fui eu que cedo pari”
Ao marido diz Maria.
O mundo ri de João
E acha razão a Maria.
 
 
 

COROGRAFIA DO REINO DO HIMENEU

 

Esta carta, resultado das pesquisas e estudos dos viajantes que têm visitado aquele reino, é de muita utilidade para aqueles que se quiserem abalançar a empreender viagem para sítios tão amenos e escabrosos ao mesmo tempo. Ei-la:

 

O reino do himeneu, fica a dois graus de longitude e cinquenta e um de latitude, meridiano de Paris, de sorte que fica justamente sobre a zona dos Países Baixos. Não obstante, o seu clima, principalmente o das províncias mais férteis, é o da zona tórrida.

 

O aspecto do país é encantador, visto de longe, mas vai perdendo a beleza à medida que uma pessoa se aproxima das suas costas. A primeira terra que se encontra, logo nas fraldas das suas montanhas, chama-se o porto desejado, o qual dá entrada para o cabo da saciedade, cabo este mui difícil de dobrar, e todos aqueles que empreendem esta viagem, se espedaçam muitas vezes nos baixios do aborrecimento. Aqueles que escapam ao perigo, ficam por muito tempo em calmaria primeiro que cheguem à baía da conveniência mútua.

 

Os campos aqui apresentam de fora um aspecto muito insípido. Antes de chegar a este porto é frequente experimentar os violentos safanões dos ventos do ciúme e do mau humor. A maior parte dos navegantes, chegados que são a esta última baía, desejam voltar para trás, mas em tais alturas isso é cousa inteiramente impossível. Abordando a baía da conveniência mútua muitos sofrem terríveis furacões e correntes rápidas, que os lançam nos gurgulhões da velhice prematura, onde geralmente os navegantes perdem as agulhas e ficam com água aberta à mercê das ondas, apelando todos os dias para o favor dos ventos.

 

Felizes d'aqueles que podem constantemente conservar-se nas alturas da afeição mútua, as quais ficam entre o porto do desejo e o cabo da saciedade.

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 

[1]. Antigo soldado da polícia.

 

[2]. Deus disse a Pedro “que é das minhas ovelhas?” e Pedro respondeu “eu não sei d'elas.”