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Title: Meninos da vida

Writer: Pier Paolo Pasolini

Translators: Rosa Artini Petraitis, Luiz Nazário

Paratext(s) of the work

Dados sobre a tradução

  • Classification: Romance ou novela
  • Publication year: 1985
  • Publisher: Editora Brasiliense, São Paulo, SP
  • Language: Português
  • Medium: Impresso
  • Edition: 1
  • ISBN: Não localizado
  • Number of pages: 189
  • Dimension: 14x21 cm

Dados sobre o original traduzido

  • Complete translation of the work
  • Título do original: Ragazzi di vita
    • Language: Italiano

Source(s)

  • Projeto Dicionário Bibliográfico da Literatura Italiana Traduzida

Fierce

Pier Paolo Pasolini e os herdeiros da pobreza

Por Mariarosaria Fabris

fevereiro/2026


⠀⠀⠀Pier Paolo Pasolini nasceu em Bolonha, em 5 de março de 1922, e morreu assassinado em Óstia (Roma), em 2 de novembro de 1975. Em virtude da carreira militar do pai, a partir de 1923, sua infância transcorreu em várias localidades da Emília-Romanha, do Vêneto (onde, em Belluno, nasceu seu irmão Guidalberto), do Friul e da Lombardia, o que o levou a ter contato com uma grande variedade de falas regionais. Em 1936, Pier Paolo regressou a seu rincão de origem, e lá frequentou o Liceu Ginásio Luigi Galvani e, em novembro de 1945, se graduou na Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade de Bolonha, com a defesa da monografia Antologia della lirica pascoliana (introduzione e commenti), publicada póstuma em 1993.  

Em fins de 1942, o recrudescimento da guerra havia levado os Pasolini de volta a Casarsa della Delizia, porém desfalcados do pai, prisioneiro de guerra no Quênia. Na terra natal de sua mãe Susanna, lugar de férias familiares, Pier Paolo dedicou-se ao ensino, a atividades culturais, à pintura e, cada vez mais, à escrita, motivado pela boa acolhida de um livrinho, financiado por ele mesmo, uma coletânea de catorze composições escritas em friulano, entre meados de 1941 e os primeiros meses do ano seguinte, intitulada Poesie a Casarsa (1942). Nas páginas do Corriere del Ticino (24 de abril de 1943), na resenha intitulada “Al limite della poesia dialettale”, o filólogo e crítico literário Gianfranco Contini saudava o jovem poeta.

⠀⠀⠀Em Casarsa, além de continuar a compor versos, Pier Paolo, entre junho de 1946 e dezembro de 1947, ao anotar em seu diário lembranças de sua vida até então, incluiu também as primeiras experiências homossexuais, num relato que esteve na base de dois romances breves, reunidos em 1982 num volume único, Amado mio preceduto da Atti impuri (Amado meu precedido de Atos impuros). Pertencem ainda a esse universo literário Il sogno di una cosa (A hora depois do sonho), lançado em 1962, mas já elaborado em 1948-1949, sob o título de I giorni del lodo De Gasperi, que retratava a manifestação de trabalhadores rurais de San Vito al Tagliamento, em 29 de janeiro de 1948, contra proprietários agrícolas que não queriam respeitar a lei que solucionaria as controvérsias entre as duas partes.

⠀⠀⠀O texto refletia o engajamento de Pier Paolo na campanha eleitoral de 1948 e na luta dos camponeses contra os latifundiários. De fato, terminada a guerra, o jovem escritor passou a interessar-se pelos problemas sociais e a inteirar-se das ideias de Karl Marx e, principalmente, de Antonio Gramsci, filiando-se ao Partido Comunista Italiano (PCI) em fins de 1947. Uma filiação que, oficialmente, não durou muito, uma vez que, em 26 de outubro de 1949, Pasolini foi expulso do PCI, por “indignidade moral”, acusado de ter corrompido um menor na presença de outros três jovens. Ele, entretanto, não deixou de ser comunista.

Tendo sido demitido também de seu cargo de professor, Pier Paolo, na companhia da mãe, fugiu de Casarsa, deixando atrás de si os restos mortais de Guido, vítima da luta entre partisans de facções diferentes (fevereiro de 1945), e o pai, alquebrado e alcoolizado. Em 28 de janeiro de 1950, os dois chegaram em Roma, para dar um novo rumo à própria vida. Embora o jovem intelectual bolonhês já tivesse publicado alguns escritos, em âmbito nacional ainda era desconhecido.

⠀⠀⠀Os primeiros tempos na capital italiana foram bem difíceis. Ao lado das privações, porém, havia a descoberta da cidade e de seus arredores: as borgate (subúrbios), isto é, uma periferia pulsante de vida na qual ele foi se embrenhando progressivamente e onde acabou morando. É desse contato que nasceram as primeiras anotações sobre um romance que publicará em 1955, Ragazzi di vita (Meninos da vida) e alguns outros textos, para os quais contou com a assessoria linguística de um falante “nativo”, o pintor de paredes Sergio Citti, irmão de Franco Citti, futuro protagonista do primeiro filme de Pasolini, Accattone (Desajuste social, 1961).

⠀⠀⠀As coisas começaram a melhorar um pouco em fins de 1951, quando, por um salário ínfimo, foi contratado para dar aulas numa escola particular de Ciampino. Em seguida, conseguiu um contrato com a Guanda de Parma para organizar, com a colaboração de Mario Dell’Arco, a Antologia della poesia dialettale del Novecento, publicada em 1952, na qual trabalhou com afinco todas as tardes, em seu pequeno quarto em Ponte Mammolo, bairro no qual ainda morava quando organizou Canzoniere italiano: antologia della poesia popolare, lançado em 1955, sempre pela mesma editora. E, por fim, em meados da década de 1950, havia conseguido introduzir-se no circuito cinematográfico, ao tornar-se roteirista/argumentista e ao escrever os comentários para curtas-metragens e documentários. O binômio literatura-cinema estreitava-se cada vez mais, menos por questões financeiras do que pelo ímpeto de trilhar novos caminhos.

Ragazzi di vita, primeiro romance dedicado ao universo dos que viviam à margem da sociedade, é um ponto nodal da produção pasoliniana, pois, junto com ele, foram engendradas outras obras: Una vita violenta (Uma vida violenta) e Alì dagli occhi azzurri (Alí dos olhos azuis). Vamos passar a palavra ao próprio autor:

“O fato que, ao ler fragmentos e páginas de Una vita violenta, alguém pode pensar que está diante de fragmentos ou páginas de Ragazzi di vita, não é casual [...]. Com efeito, pensei em três romances de uma vez, Ragazzi di vitaUna vita violenta e Il rio della grana (título, este, provisório, talvez substituído por La città di Dio), nos mesmos meses, nos mesmos anos, e os amadureci e elaborei juntos. A única diferença é que Ragazzi di vita foi escrito por inteiro e fisicamente: os outros dois ainda estão escritos dentro de mim e em parte redigidos (só dois terços de Una vita violenta estão prontos). Enquanto escrevia Ragazzi di vita, portanto, os outros dois romances já estavam configurados em sua estrutura e, em parte, em seus detalhes. Ragazzi di vita devia ser uma espécie de [...] ouverture, aludindo a mil motivos, fundando um mundo, na medida em que era “uma parte”, em si completa, do mundo. Os outros dois romances aprofundariam isso. Enquanto em Ragazzi di vita o que conta é o mundo dos subúrbios e do lumpemproletariado romano vivido pelos garotos – portanto o protagonista, Riccetto, além de ser um personagem bastante definido, era um fio condutor algo abstrato, algo flatus vocis [sem referente real], como todos os protagonistas-pretexto –, em Una vita violenta e em Il rio della grana o que conta são os dois personagens centrais, Tommasino Puzzilli, no primeiro; Pietro, no segundo. Duas histórias de certa forma interiores, interiores como podem ser as dos garotos do povo, abandonados nas ruas, sem um mundo moral se não pré-histórico, em relação ao nosso, ou de outro nível histórico, apesar do intensíssimo bombardeio ideológico, o panem et circenses [pão e circo] da burguesia democrata-cristã e americanizada”. (Pasolini, 1985)

⠀⠀⠀Una vita violenta foi publicado em 1959 e de Il rio della grana sobraram algumas páginas redigidas entre 1955 e 1959, que integraram Alì dagli occhi azzurri (1965), uma coletânea de textos de vários gêneros literários (conto, crônica, poesia), dos quais alguns elaborados em 1950, outros iniciados ou terminados no ano seguinte e outros ainda escritos entre 1961 e a data da publicação, como os roteiros dos primeiros filmes de Pasolini: Accattone (Desajuste social, 1961), Mamma Roma (Mamma Roma, 1962) e “La ricotta” (“A ricota”), episódio de RoGoPaG o Laviamoci il cervello (RoGoPaG – Relações humanas, 1963). Em 1997, Walter Siti, a partir de textos encontrados numa pasta do escritor, lançou uma antologia por ele organizada, sob o título de Storie della città di Dio: racconti e cronache romane (1950-1966).

⠀⠀⠀O conúbio literatura-cinema continuava firme, não só pelo fato de o autor transitar entre as duas linguagens, mas também porque outros diretores se interessaram por sua obra. Ragazzi di vita está na base de dois documentários de Cecilia Mangini, Ignoti alla città (Desconhecidos para a cidade, 1958) e La canta delle marane (O canto da margem, 1961), ambos com comentários de Pasolini. O longa-metragem Una vita violenta (Uma vida violenta, 1962), de Paolo Heusch e Brunello Rondi, ganhou o mesmo título do romance, enquanto um dos textos de Alì dagli occhi azzurri, “La notte brava” (“A brava noite”), deu origem ao filme homônimo de Mauro Bolognini (1959, em português: A longa noite de loucuras), com a participação do próprio autor no roteiro.  Desse período romano derivam ainda, indiretamente, Milano nera (1961), de Gian Rocco e Pino Serpi, a partir do roteiro  La nebbiosa (A nebulosa, 1959), de Pasolini, que transferiu para o Norte da Itália a problemática de uma juventude entregue a si mesma, e La commare secca (A morte, 1962), de Bernardo Bertolucci, o qual, com a colaboração de Sergio Citti, desenvolveu um roteiro a partir do argumento que Pasolini lhe havia confiado.

Dentro da vasta produção pasoliniana, Ragazzi di vita foi o sétimo título em português lançado entre nós, precedido pela publicação de Il sogno di una cosa, Teorema (Teorema, 1968), Il padre selvaggio (O pai selvagem, 1975), Il caos (Caos-crônicas políticas, 1979), Il sogno del centauro (As últimas palavras do herege, 1983) e Amado mio preceduto da Atti impuri, isso sem contarmos edições lusas, localizáveis às vezes no Brasil.

⠀⠀⠀Ragazzi di vita chegou às livrarias italianas em 1955 e, naquele mesmo ano, apesar de atacado pela crítica de esquerda e de direita, conquistou o prêmio Colombi-Guidotti, na cidade de Parma. No fim de julho, no entanto, foi censurado e recolhido, sendo relançado no ano seguinte, depois de Pasolini e seu editor serem absolvidos da acusação de pornografia. Mais do que o emprego de algumas expressões chulas, o que escandalizava era o fato de lembrar – ao acompanhar, durante alguns anos do pós-guerra, o perambular de um bando de garotos do lumpemproletariado por uma paisagem periférica suja e miserável – os guetos povoados por uma multidão famélica, ignorante e sem perspectivas de futuro, herança do Fascismo, que perturbavam a má consciência de uma sociedade que, escudando-se atrás de preconceitos morais e de classe, procurava esquecê-los.

⠀⠀⠀A linguagem empregada, no entanto, não foi poupada pois, para retratar as camadas marginalizadas dos subúrbios romanos, Pasolini não podia exprimir-se apenas pela norma culta da língua padrão, valendo-se então da fala local das classes populares, com tanto de glossário nas páginas finais. Dessa forma, a língua do narrador frequentemente era contaminada pelo dialeto romano, e essa variação de registros linguísticos permitia ao autor manter certo distanciamento, misto de ironia e de piedade, ao mesmo tempo em que aderia à realidade representada. Só que esse traço estilístico, o mais marcante do romance, se perdeu na tradução brasileira, embora esta permita seguir o entrecho. Sem esse experimentalismo do autor, terá o leitor brasileiro realmente apreciado a obra de Pasolini?


Referências

PASOLINI, Pier Paolo. Meninos da vida. Trad. Rosa Artini Petraitis e Luiz Nazário. São Paulo: Brasiliense, 1985.

PASOLINI, Pier Paolo. “Una specie di coazione del destino”. Roma, Città aperta,  n. 7-8, abr.-maio 1958. Disponível em:

Reference

PASOLINI, Pier Paolo. Meninos da vida.Translation from Rosa Artini Petraitis; Luiz Nazário. 1. ed. São Paulo, SP: Editora Brasiliense, 1985.


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