Gisele de Oliveira Bosquesi
março/2026
⠀⠀⠀Federico, ou Rico, personagem principal do romance de Alberto Moravia Io e Lui (Eu e Êle, em tradução de Joel Silveira), é um roteirista de cinema frustrado que busca escrever sua grande obra, mas é constantemente dissuadido de seus propósitos artísticos por seu duplo, que o incita a assediar mulheres e a agir de modo impulsivo e violento. A premissa da trama é a caricatura da psicanálise e da dinâmica entre desejo e sublimação, proposta pelo médico austríaco Sigmund Freud e depois reinterpretada em termos políticos pelo sociólogo alemão Herbert Marcuse. Este discurso é enunciado textualmente (de modo raso e pedante) pelo protagonista Federico, em chave tragicômica, já que este (o “Eu”) tem a sua consciência cindida e dialoga com o próprio falo, que adquire o sugestivo nome de “Federicus Rex” (o “Êle”):
- Agora vamos sacar o dinheiro, depois voltaremos para casa e mergulhamos imediatamente no trabalho.
“Êle” observa, num tom amargo:
- Você quer dizer: saco o dinheiro, volto para casa e mergulho no trabalho. Desculpe-me, mas o que é que eu tenho a ver com as suas veleidades políticas e ambições artísticas?
- Realmente, o que tem a ver? Êste é precisamente o nosso drama. Nada tem a ver, sem dúvida. Se cumprisse o seu dever, teria muito a ver, e como.
- Mas que dever? Eu não tenho deveres.
- O dever de não confiscar, para sua exclusiva vantagem, o patrimônio de energia libidinosa da qual desgraçadamente é um dos usufrutuários.
- E o outro usufrutuário, quem seria?
- Eu.
- Aí temos, novamente: a sublimação.
- Exato. Recusando-se a se submeter ao processo sublimatório, você se revela anti-social.
- Anti-social? Que diabo é isso?
- O contrário do social.
- Social, anti-social, para mim são palavras vazias de sentido. (MORAVIA, 1971, p. 70).
⠀⠀⠀O romance retrata, então, as interações dessas duas consciências entre si enquanto transitam por diversos espaços: o consultório do psicanalista, a casa da mãe, a reunião com um possível patrocinador para o filme que Rico deseja escrever, um evento com um coletivo de estudantes que seriam a inspiração para o filme (um eco da contestação estudantil de maio de 1968 na Europa), a casa da esposa, a casa da amante, um jantar beneficente, um banco, entre outros. Em todos esses espaços, Rico lê o ambiente e as pessoas a partir de dinâmicas de poder, usando como pretexto o conceito de sublimação, e sempre acaba por concluir que, por obra do seu grande e impertinente falo, ele é um “dessublimado” por natureza.
⠀⠀⠀O autor Alberto Moravia, considerados o teor da sua obra e sua trajetória como escritor engajado, traz aos seus escritos uma tensão entre a agência individual e os condicionamentos do coletivo em que abundam, entre outros, comentários sobre recortes de classe (com foco na pequena burguesia, classe à qual pertence o personagem Federico) e sobre o panorama político-social da Itália na segunda metade do século XX. Eu e Êle, portanto, é um livro que segue esta lógica, tendo como ponto de partida o tema do desejo e, como pontos de chegada, os alvos deste mesmo desejo, muitas vezes mesquinhos e ditados pela lógica do consumo e da cultura de massa. A busca pela satisfação dos desejos imediatos, por sua vez, também é frustrada, e, ao longo da narrativa, vemos o desenrolar de uma série de fracassos e um desfecho em que o personagem renuncia ao seu poder de ação, deixando a Federicus (êle) este poder. Moravia já havia feito algo similar em Vidas Vazias, (La noia), tradução publicada no Brasil em 1970, romance que propõe a não-ação (ou a contemplação, segundo a crítica) como solução ao imperativo do consumo (de coisas e de pessoas). Esse tipo de desfecho, em Moravia, está longe de ser uma alternativa idílica e um culto ao hedonismo. Ao contrário, parece denunciar o fracasso de grandes ideais.
⠀⠀⠀Na economia da narrativa moraviana, o fracasso do indivíduo Federico aponta, então, por força de sugestão, para o fracasso de valores da classe social à qual pertence, e tal interpretação encontra respaldo nas diversas cenas desconfortáveis que Moravia nos apresenta ao longo de Eu e êle. Por exemplo, quando os protagonistas participam do jantar beneficente para angariar fundos para “africanos” (o romance cita a causa de modo simplista e paternalista), mas o que conta mesmo é o espetáculo, usando a suposta causa como mero pretexto. Os organizadores da ação beneficente têm a grotesca ideia de encenar um leilão de pessoas escravizadas, com um “negreiro” branco pintado de preto, para divertir os convidados. O grotesco da cena, para a qual Moravia lança mão da lógica do absurdo, aponta o grotesco real dos valores supremacistas (bem como o racismo estrutural travestido de filantropia), em que as lógicas de dominação convertem os subalternizados em produto. O livro também causa outros desconfortos, a saber os que indicam a subalternidade de gênero, essa mais imediata e constante ao longo da narrativa, já que as mulheres são vistas ora do ponto de vista do apelo sexual, ora da falta dele. Federicus Rex (êle) se recusa a desejar a mulher velha, que considera feia, e a própria esposa, pois ela lhe é disponível, mostrando que não está imune também à lógica do consumo. Sobre isso, é importante ressaltar que a “misoginia moraviana” é um ponto polêmico para a crítica. Podemos levantar a questão do quanto a figuração feminina se deva ao olhar enviesado do autor empírico (um homem de seu tempo) ou do quanto seja realmente uma crítica de Moravia à opressão feminina. Tal questão, a nosso ver, merece mais atenção de estudiosas e estudiosos, uma vez que, segundo Liliana Caruso e Bibi Tomasi (1974), em Moravia, os personagens masculinos:
realizam as ações: amam, enganam, trabalham, assassinam, torturam, conspiram, movem, enfim, a engrenagem social; as mulheres, ao contrário, se submetem, são vítimas desta engrenagem, não fazem e não podem fazer nada para movê-la nem para modificá-la (Tradução nossa, p. 47).
⠀⠀⠀O trabalho de tradução de Joel Silveira também é digno de nota. Além de tradutor, ele foi um proeminente jornalista investigativo, correspondente de guerra que acompanhou a Força Expedicionária Brasileira à Itália durante a segunda guerra mundial, e um renomado escritor, vencedor de vários prêmios, entre eles um Jabuti e um Machado de Assis. Era conhecido por seu estilo ferino e seu posicionamento político, o que fez com que fosse interrogado durante o período político do Estado Novo (quando Getúlio Vargas governou de forma ditatorial de 1937 a 1945) sob a acusação de ser “comunista”. Joel Silveira, após esse período, continuou fiel a uma ideologia mais alinhada à esquerda. Ideologia que, segundo ele próprio, em entrevista ao jornal O Pasquim em 1978, era herança de família. O tradutor, nesta mesma entrevista, criticou abertamente as arbitrariedades do regime civil-militar brasileiro instituído a partir de 1964 (Ferrari, 2011).
⠀⠀⠀A tradução brasileira foi publicada no mesmo ano de publicação da obra em italiano, 1971, enquanto estava em pleno vigor no Brasil o Ato Institucional n.5, que legitimava, entre outras arbitrariedades, o endurecimento da censura às artes e intervenções por parte do regime em nome da preservação da “moral”. Nesse ano, diversas obras escritas em língua portuguesa e traduzidas foram censuradas, e outras submetidas à censura prévia. Moravia, na Itália, já havia tido vários de seus livros censurados durante o fascismo de Mussolini, e entre os anos de 1941 e 1945 publicou sob pseudônimo.
⠀⠀⠀Quando Moravia publica Io e Lui, a Itália confrontava-se com os ecos de sua história em um período marcado por lutas sociais e políticas, manifestações e atentados, a chamada “stagione dei movimenti” (em tradução livre: a temporada dos movimentos), que evidenciava o desgaste do milagre econômico italiano da década de 1950, quando o país se reconstruiu após a segunda guerra mundial.
⠀⠀⠀No Brasil, Eu e Êle teve apenas uma edição e, até o momento, curiosamente, não encontramos informações de que tenha sido diretamente censurada, apesar de conter muitos elementos que o justificariam. Entre as várias hipóteses para isso, podemos levantar o recurso a uma estética que não é estritamente realista (BOSQUESI, 2017).
⠀⠀⠀Isso posto, consideramos crucial que uma obra como Io e Lui tenha tido por tradutor alguém que compreendeu o universo moraviano e tenha sido partícipe de seu viés político. Destacamos, por fim, a destreza estilística de Joel Silveira em reproduzir a expressividade do texto de partida, principalmente nos diálogos e na sua teatralidade, recriando com maestria as sutilezas da ironia moraviana.
BOSQUESI. Gisele de Oliveira. A crítica social por meio do fantástico em Incidente em Antares, de Érico Veríssimo, e Io e Lui, de Alberto Moravia. Tese (Doutorado em Letras / Área de Teoria de Literatura) IBILCE – Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas – UNESP - Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho. São José do Rio Preto: 2017.
CARUSO, Liliana, TOMASI, Bibi. I padri della fallocultura. Milano: Sugar, 1974.
FERRARI, Danilo Wenseslau. A atuação de Joel Silveira na imprensa carioca (1937-1944). Dissertação (Mestrado em História / Área de História e Sociedade) Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP - Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho. Assis, 2011.
MORAVIA, Alberto. Eu e êle. Tradução de Joel Silveira. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1971.
MORAVIA, Alberto. Eu e êle.Translation from Joel Magno Ribeiro Silveira. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Editora Expressão e Cultura, 1971.
