PIRES, Julio. Jukebox.Bragança Paulista, SP, Brasil. Editora urutau, 2021.
Bem que poderia cantarolar, com as bên- çãos de Torquato Neto e Gilberto Gil, em uma jukebox, bem particular, que "um poe- ta desfolha a bandeira” e uma grande via- gem de aventuras, desventuras "se inicia".
Ουμ...
Bem que poderia, quem sabe, dizer, em sons amorosos, como um Otto, em letras de canto, que o poeta, em escancaro de alma, ressoa de sua jukebox, que "certa manhã acordei de sonhos tranquilos".
Eis micropartículas do poeta que nos po- voa com seus sons cativantes, nos provoca em ruídos tão necessários e, em barulhos da alma, se põe nu. Enigmaticamente des- nudo, a provocar seu/sua ouvinte/leitor(a) com versos precisos, cirurgicamente pon- tuados por um caminho de mesa a tecer en- canto, espanto em tão singelas e preciosas palavras tecidas.
Que fazem os poetas com seus/suas incau- tos(as) leitores(as)?! Que potência de per- versidade resiste em um gesto de carinho?
No recanto de cada um que lê, ouve, bal- bucia, ecoa uma cumplicidade frente aos amores conquistados, outros possuídos e uns tantos perdidos. Um respirar de um vi- ver, que a poesia de Julio Pires, como pro- fano alento, e no silêncio do silêncio, que só na poesia habita, repercute um cirandar de referências. No reconhecimento e des- conhecimento de tantas vozes ditas o(a) leitor(a)/ouvinte, como um hitchcockianoser, se redobra no prazer das descobertas e nos infindos preciosos desrevelar do já sabido. Reinventados e aquecidos, dos/ nus tempos...
Somos, assim, habitados no titular, em verso primeiro de alguns poemas, o anún- cio de possíveis chegadas. Condensação de tantos ditos milimetricamente toca- dos. Para, em um após seguido, no térmi- no do término de outros poemas, em soli- tário verso, a titulação do já tão bem dito e nas aves, marias, cheias de tantas gra- ças, atravessamos e somos atravessados pelas experiências poéticas tão necessá- rias para o seu dizer dos/nus espaços...
O poeta diz de um romance que poderia ser escrito e em cada canto um capítu- lo a se esboçar, a se desmontar em uma poética que (des)romanceia a experiên- cia do existir dos/nus bichos e outras
ratazanas...
O que há de pedir mais? Tão somente o encanto de continuar a ler, a testemunhar e partilhar o prazer de ser embalado pelos versos do poeta.
No mais... sei eu de mim, talvez diria o poeta que em Julio Pires se faz.
PIRES, julio. Jukebox.Cotia, SP: Editora Urutau, s.d..
